Domingo, 2 de Agosto de 2009

Crónicas da crise III: E constrói Jerusalém

Três vezes ao dia, durante os serviços religiosos, os judeus rezam pela reconstrução de Jerusalém. É o desejo de retomar a antiga glória perdida da cidade, antes da destruição pelos Romanos. Vemos que, mesmo em tempo de crise, as bênçãos têm funcionado. Pelo menos aparentemente. Em Jerusalém, as obras de grande envergadura não param. A maior delas é a mal-fadada rakevet kalá, o "metro ligeiro de superfície". Há mais de três anos, vem esburacando a cidade de ponta a ponta, deixando o centro em estado caótico e, por toda a capital o trânsito à beira do impossível.

A polémica, megalómana, mas linda ponte de Santiago Calatrava para a passagem do tal "metro ligeiro" foi inaugurada há um ano. Ainda que se mantenham as dúvidas em relação ao final das obras e início do funcionamento da rakevet. Apesar de pronta, hoje serve apenas como novo local de fotos de turista e de passagem de peões e ciclistas num dos cruzamentos principais da Cidade Santa. O orçamento da obra já foi várias vezes multiplicado em relação ao valor inicialmente estimado. As derrapagens nas obras públicas não são só em Portugal...

Bendito és Tu, Eterno, que reconstrói Jerusalém.

Também fora dos cálculos – e dos carris – está a obra do comboio rápido Jerusalém-Tel Aviv. Destinada a aproximar as duas principais cidades do país e inverter assim a saída de habitantes e trabalhadores da capital em direção à costa, a obra enfrenta as dificuldades do terreno montanhoso, dos arrojos arquitetónicos necessários para vencer vários lanços de túneis e viadutos e a desconfiança dos ecologistas.

Ainda assim, mesmo em frente à Gare Central de Jerusalém, e ao lado de uma das bases da ponte de Calatrava, prossegue a escavação da futura estação de comboio. Para compensar a localização elevada da cidade e evitar que a linha de comboio tenha um declive demasiado acentuado para as altas velocidades a que pretende funcionar, a solução foi descer a localização da estação. Ou seja, será uma enorme obra subterrânea: a 80 metros de profundidade.

Outra das obras polémicas é a nova residência oficial do Primeiro-Ministro. É um monumental projeto de dezenas de milhões de dólares junto à Kiryat Hamemshala, a Cidade do Governo, o complexo dos novos edifícios governamentais construídos nos últimos anos em redor da Knesset, o Parlamento de Israel. Depois de tanta discussão pelos gastos excessivos na palacial obra para servir de domicílio oficial e local de trabalho do chefe de governo, o tamanho da casa vai ser reduzido.

Envolta em controvérsia está também um novo museu na capital, o Museu da Tolerância. Baseado no museu homónimo de Los Angeles, a sucursal de Jerusalém já promete discussão. Não tanto pelo audacioso projecto arquitectónico de Frank Gehry (autor do famoso Museu Guggenheim de Bilbau), mas mais pela localização da obra: sobre um antigo cemitério islâmico desativado. Para um museu destinado a promover a convivência dos povos, o facto de a sua construção implicar a remoção de campas de um dos povos envolvidos no conflito na região é, no mínimo, falta de tacto...

A poucos metros da projectada obra do Museu da Tolerância, avançam as obras do luxuoso Hotel Waldorf-Astoria e, do lado oposto do mesmo cruzamento, foi inaugurado há poucas semanas o exclusivo Hotel Mamilla. O turismo israelita, apesar da crise internacional, parece não ter sentido um retrocesso acentuado, pelo menos em Jerusalém.

Um dos mais eloquentes exemplos da transformação de Jerusalém – um autêntico renascimento das cinzas – é a reconstrução da antiga sinagoga de Rabbi Yehuda Ha'Hassid. Arrasada, junto com a quase totalidade do Bairro Judeu da Cidade Velha, pelo exército jordano na Guerra da Independência de Israel, foi apenas um monte de ruínas durante a ocupação jordana de Jerusalém Oriental, entre 1949 e 1967. Após a reunificação israelita da cidade em 1967, foi reconstruído um dos arcos da fachada. Ficou conhecida como Ha'Hurva, "a Ruína". Em 2005, foram iniciadas as obras de reconstrução seguindo o antigo aspeto da sinagoga. Situada junto à Yeshivat HaKotel, tenho seguido, dia-a-dia, a progressão da obra daquela que já foi a maior sinagoga do país.

Na cidade mais pobre de Israel – que é Jerusalém, acredite-se ou não – a construção de prédios de habitação de luxo não pára. Destinados a milionários judeus estrangeiros, urbanizações de alto nível avançam em praticamente todos os cantos da cidade. Porém, serão deixadas vazias na maior parte do ano, uma vez que os seus donos têm residência fixa em Nova York, Miami ou Londres. O apartamento de Jerusalém, por mais luxuoso que seja, será só para umas curtas semanas de férias, de vez em quando.

Um dos mais recentes espaços cobiçados pelos imobiliários é o Vale da Gazela, um espaço semi-abandonado próximo ao shopping Malcha, entre o estratégico cruzamento Pat e a via-rápida Begin. É o habitat de uma outrora numerosa manada de gazelas – daí o seu nome. Hoje só restam quatro animais, já que o bando tem sido sucessivamente dizimado por matilhas de cães selvagens ou atropelamentos fatais na via-rápida vizinha. Os ecologistas e parte da opinião pública querem preservar o espaço como área natural, um dos poucos grandes espaços ainda intactos no território da cidade. Os empreiteiros, obviamente, querem aproveitar a localização estratégica para erguer um novo bairro.

Alguns projetos polémicos têm sido erigidos em bairros de população maioritariamente árabe. Um deles é o tão falado Hotel Shepard, um edifício originalmente pertença do antigo mufti (líder religioso muçulmano) Amin al-Husseini, apoiante de Hitler e instigador das revoltas anti-judaicas na antiga Palestina Britânica que causaram a morte de centenas de judeus antes da independência. Há vários anos, o edifício foi adquirido por um milionário americano defensor da colonização judaica na Terra Santa e hoje pretende transformá-lo num novo condomínio judaico.

Ainda que as gruas de construção civil sejam uma visão comum em toda a cidade, os preços das casas não têm parado de aumentar. A solução para muitos jovens tem sido procurar casa nos arredores. A falta de habitação para as classes média e baixa é evidente e a solução para os menos abonados é deixar a capital. A cidade perdeu dezenas de milhar de habitantes na última década. Esta sangria de habitantes é agravada pela falta de empregos. Daí os planos anunciados para desenvolver o ramo da indústria farmacêutica e da alta-tecnologia na capital.

A bênção pela reconstrução de Jerusalém parece não ser correspondida pelas ações dos empreiteiros. Preocupados mais com a promoção do luxo para domicílio ocasional de forasteiro do que com a fixação dos que desejam fazer de Jerusalém o seu lar. A cidade vai apresentando uma cara nova – um verdadeiro lifting – mas é mais para estrangeiro ver.

publicado por Boaz às 20:09
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1 comentário:
De Joshua a 5 de Agosto de 2009 às 17:33
São sempre interessantes estas análises da vida diária em Israel.

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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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