Segunda-feira, 2 de Novembro de 2009

O Grande Canal

Diz-se em Portugal: “Não há fome que não dê em fartura”. Em Israel, a braços com uma grave situação de seca há vários anos, teve nos últimos dias fortes chuvas. Algumas cidades ficaram alagadas na região central, próxima de Tel Aviv. Apesar de abundantes – ou melhor, demasiadas para tão curto espaço de tempo – estas chuvadas pouco ajudam na situação de carência de água no país.

O país tem poucas fontes de água doce. A maior é o Lago Kineret, ou Mar da Galileia, abastecido pelo rio Jordão, que nasce no Líbano. As outras são os dois aquíferos principais: o Ocidental, na planície costeira, e o das montanhas, na região de Jerusalém. Porém, todas estas fontes dependem da chuva, e essa tem sido escassa na última década.


Nahal Keziv, um pequeno ribeiro da Galileia, Março de 2007.

Há anos que se idealizam planos para resolver a questão da falta de água. No início do século XXI, a solução estava na construção de várias centrais de dessalinização da água do mar. Duas centrais foram construídas, mas a sua capacidade é insuficiente para compensar a crescente procura de água e a decrescente oferta das fontes existentes, já de si escassas. Planos saíram das gavetas dos ministérios e os estudos fizeram-se. No ano 2000, o Inverno foi generoso e voltou-se a arquivar o plano de dessalinização em larga escala. A seca regressou nos anos seguintes e de novo se voltou a falar nas centrais. Mais alguns estudos, mais alguns orçamentos, mas obras… nada. Em 2004, a chuva foi de novo abundante e o plano multimilionário foi novamente abandonado. Um tira e põe na gaveta ao sabor dos Invernos secos ou chuvosos. E o problema continuou.

Nas últimas semanas, o governo de Israel reabilitou uma ideia já antes apresentada para resolver a míngua do precioso líquido: importar água da Turquia. É um plano arriscado além de pouco eficiente. Em termos económicos é uma solução dispendiosa, implicando a construção de navios próprios para o transporte de água e das infra-estruturas para armazenar a água importada. Além de representar a dependência de um recurso estratégico como a água numa fonte estrangeira. E para piorar a questão, a relação com a Turquia, o principal aliado de Israel no Médio Oriente, já viu dias melhores.

Desde que os islamistas moderados assumiram o governo turco, a relação com Israel deteriorou-se. Após a “Operação Chumbo Fundido” em Gaza, em Janeiro último, algumas declarações do Primeiro-Ministro turco contra Israel foram consideradas ofensivas pelas autoridades e pelos cidadãos israelitas. Como reação, os turistas israelitas – uns dos principais clientes do turismo turco – escolheram outros destinos para as férias. Exatamente na mesma semana em que foi reabilitada a ideia da importação de água da Turquia, a polémica voltou a abalar as relações entre os dois países. Um canal de TV turco transmitiu uma série que retratava os soldados de Israel como assassinos de crianças árabes. De novo, os turistas israelitas se vingaram da Turquia e desmarcaram as férias nos resorts da Anatólia.

A questão da falta de água é uma questão de tal modo grave que se propõem as soluções mais ousadas. A mais impressionante de todas é a construção de um canal entre o Mediterrâneo e o Lago Kinneret. A água produzida por algumas centrais dessalinizadoras na costa mediterrânica seria canalizada para o Lago Kinneret. Isso significaria voltar a encher o lago, cujo nível de água foi reduzido a um nível alarmante. O excesso de água do Kinneret seria deixado fluir para o Rio Jordão, que sai do lago em direção ao sul, até ao Mar Morto. A abundância de água no Kinneret e no Jordão permitiria voltar a abastecer o Mar Morto que há décadas vê o seu nível decrescer, mais de um metro por ano.

Porém, para concretizar este plano megalómano – mas talvez o único que resolva a situação e que não implique a dependência nas fontes dos vizinhos de Israel – é preciso mais do que muitos milhões de dólares. Para começar, mais do que o livro de cheques em mão, é preciso muita vontade política. Nos grandes projetos nacionais realizados ou idealizados nas últimas décadas, o avança e recua têm sido a regra, não interessa que lado do espectro político manda nos destinos da nação: os sistemas de Metro Ligeiro de Tel Aviv e Jerusalém, o comboio rápido para Jerusalém e claro, as centrais de dessalinização de água.

De acordo com a tradição judaica, Deus criou a Terra de Israel sem fontes de água para que o Povo Judeu rezasse pedindo pela chuva. Para que soubesse que, independentemente do engenho humano e das decisões dos governos de carne e o osso, é o Governo Lá de Cima quem determina quanta água chega às torneiras israelitas.

publicado por Boaz às 15:35
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1 comentário:
De blogdoluisinho a 3 de Novembro de 2009 às 22:24
Yehovah jireh, Deus provê água, mas também dá sabedoria e engenho aos seus servos para tabalhar para o seu povo, como fez dando sabedoria a Bezaleel, para a construção do tabernáculo no deserto.

Quanto aos avanços e recuos, parece-me que Portugal o persegue. Ah, ah, ah...

Cumprimentos.

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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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