Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

O enviado

Desde princípios de Setembro, eu e a minha esposa estamos a frequentar um curso de preparação para trabalhar com comunidades judaicas fora de Israel – aquilo que se chama, em linguagem judaica: a Diáspora. Ao fim de dois anos – nalguns casos ainda no período de estudos – o casal é enviado para uma comunidade onde desempenhará as funções de rabino (e respectiva esposa) ou de professor da escola judaica.

Durante a sua estadia na Diáspora, os alunos do curso tornam-se shelichim, "enviados" ou "emissários". É um modelo executado com sucesso em especial pela corrente judaica ultra-ortodoxa Chabad, que tem milhares de "emissários" em todos os Continentes. Por exemplo, de todos os países na Europa, Portugal é o único com mais de 500 judeus, sem um emissário Chabad. (Por várias razões que não me compete discutir). Porém, enquanto os "emissários" Chabad são incumbidos de uma missão para durar uma vida inteira, ou pelo menos bastantes anos, os "emissários" da organização onde estudo têm uma missão temporária, normalmente de 2 a 3 anos.


O tradicional Kinus, a cerimónia anual de reunião dos "emissários" Chabad.
Frente ao famoso 770, Crown Heights, Nova Iorque, 2009

A organização que ministra este curso está dentro da linha ortodoxa moderna, sionista, o Instituto Amiel-Strauss. É um curso de dois anos, durante o qual, o casal (com a excepção de um aluno solteiro, todos os outros cerca de 20 elementos da turma são casados) é preparado para cumprir funções de liderança na comunidade judaica. Todas as terças-feiras, das 13:45 às 20:30 frequento as aulas do curso. As esposas têm 4 horas de aulas uma vez a cada 15 dias. Os desafios das comunidades judaicas – com os seus dilemas e casos bicudos – como resolvê-los à luz da necessidade com a moldura da Halachá, a Lei Judaica?

Um dos elementos centrais do curso e uma das partes que me foi mais fortemente recomendada, foi a formação na área da Retórica. Como dar uma palestra, aula na sinagoga de uma forma interessante? Que temas explorar e como? Como passar os temas difíceis de uma forma atrativa?

Frequentemente, recebemos a visita de atuais e ex-emissários nas comunidades do mundo inteiro que nos contam as suas experiências: as dificuldades que encontraram, os desafios que passaram, o que conseguiram fazer, o que desejariam ter feito. Tudo isto nos dá indicações como estarmos preparados para enfrentar o mundo judaico "lá fora", fora de Israel.

São realizados contactos com potenciais comunidades para envio dos alunos. Comunidades que estão interessadas em receber um rabino, um professor para a escola judaica, um animador do grupo de jovens, etc. De qualquer forma, as funções acabam por não ser tão fixas e o emissário que fora designado para ser professor da escola judaica poderá acabar por se tornar o rabino da comunidade. Obviamente, em qualquer caso, um rabino desempenha sempre funções de professor.

Ao longo da nossa trajetória judaica, tanto eu como a minha esposa fomos ajudados por "emissários". Eu, vindo de uma família e de um ambiente não-judaico em Portugal, no processo de conversão; ela, crescida numa família pouco religiosa no Brasil, no seu retorno à religiosidade judaica.

Numa altura em que o Povo Judeu se encontra numa situação delicada, ameaçado por níveis de assimilação e um desinteresse (ou pelo menos grande desconhecimento) das novas gerações pela sua herança espiritual e histórica, é uma enorme responsabilidade dar uma ajuda para travar este processo. É a nossa vez de contribuir para este grande esforço. As potencialidades são gigantescas. O terreno, apesar de difícil, é fértil.

A par do fenómeno gravíssimo da assimilação, existem cada vez mais judeus interessados na religiosidade (o que também acontece noutras religiões). Aquilo que chamamos teshuvá, ou "retorno". Jovens e adultos afastados descobrem uma identificação com as suas raízes judaicas. Em muitos casos, essas raízes foram cortadas por "casamentos mistos" dos seus pais ou avós e o "retorno" significa na verdade uma "conversão".

Hoje, como em muitas outras épocas da História, o Povo Judeu encontra-se numa encruzilhada. De um lado, as forças da assimilação que arrancam membros ao Povo Judeu. Do outro, a redescoberta das origens e da espiritualidade pelos "afastados". São fenómenos que se encontram em todas as comunidades no disperso mundo judaico e em todas as famílias judaicas do planeta. Na mesma família, acontece um dos filhos se casar com um não-judeu e o outro tornar-se religioso.

Ainda é cedo para saber par onde iremos depois de terminado o curso. Pela afinidade linguística, Portugal ou Brasil seriam os destinos mais "naturais". Espanha ou a América Latina são outras possibilidades ou, mais remotamente, até algum país de língua inglesa. Porém, admito que voltar a Lisboa na condição de "emissário" seria, no mínimo, estranhíssimo.

PS – É importante ressalvar que os "emissários" não são missionários, dedicando-se exclusivamente aos assuntos das comunidades judaicas. Não existe prática "missionária" no Judaísmo. Existe assistência aos que, eventualmente se desejem converter, mas não existe qualquer acção de propaganda do Judaísmo fora das esferas da comunidade judaica.

publicado por Boaz às 00:00
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4 comentários:
De Joshua a 10 de Dezembro de 2009 às 12:20
Tens um percurso de vida extraordinário.
De Zeev a 14 de Dezembro de 2009 às 22:48
Não percebo, o porquê da palavra estranhissimo e a sua ligação a Lisboa. Portugal tem o Porto e Belmonte, que de momento não existe rabino. Como um natural daquele País e com laços familiares, linguisticos, amizades, etc., porque não? As comunidades concerteza, que ficariam agradecidas. Portugal faz parte da diáspora e Lisboa é só uma das suas comunidades. Existem pessoas portugueses filhas de lares não-judaico, que possívelmente fariam a conversão, digo eu. Que achas?
De Boaz a 16 de Dezembro de 2009 às 11:17
Zeev, escreverei um post sobre esta "estranheza". Obrigado pelo desafio ;o)
De blogdoluisinho a 11 de Dezembro de 2009 às 23:52
Os emissários são em muitos aspectos parecidos com os missionários cristãos, acho mesmo que a grande diferença está no facto dos judeus não procurarem a conversão dos gentios, ao contrário dos missionarios cristãos que procuram dar a conhecer Jesus ao mundo e que os não cristãos se convertam ao cristianismo.
De resto existem muitas semelhanças, como o envio para parte muitas vezes incerta, e a formação teológica ( não no conteúdo em si, mas no facto de haver, normalmente, uma formação).

Saudações.

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