Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

Falar para dentro, sobre o mundo lá fora

Ser “Luz entre as Nações”, esta é a principal missão universal judaica. Para realizar esta missão universal, nós temos não apenas de saber quem nós somos como Judeus, mas também quem nós somos em relação ao Mundo. Compreender estas duas perspetivas é essencial para atingir essa missão.

A Torá parece ensinar-nos justamente isso na sua estrutura. Afinal, como começa o livro sagrado do Judaísmo? Não com o nascimento do Povo Judeu, mas com o nascimento do Mundo. Começa com a Criação de um único ser humano, para nos ensinar que todos viemos do mesmo lugar e partilhamos o mesmo cerne que nos une. Depois da ideia da Criação do Mundo por Deus, esta é a primeira lição que nós somos ensinados na Torá.


"E esta é a Torá..."

Ao ensinar-nos a viver como Seu Povo, Deus começa por orientar-nos a reconhecer a nossa humanidade comum com todas as pessoas. Talvez porque apenas com este reconhecimento nós seremos suficientemente impulsionados a mudar o Mundo e a guiá-lo da forma correta. Só assim poderemos ser forças de Tikun Olam, o aperfeiçoamento do Mundo. Reconhecer o que há de comum entre todos nós inspira respeito, atenção e a capacidade de nos relacionarmos com os restantes seres humanos. Sem isto, falharíamos em assistir, ensinar e orientar o Mundo com humildade e respeito, pois falharemos em reconhecer a tzelem elokim, a imagem de Deus que existe em todos nós.

O Rav Avraham Kook explica de forma magnífica como isto é essencial: “É impossível atingir o elevado nível de ‘Louva o Senhor, chama o Seu Nome, declara as Suas obras entre as nações’, sem um amor interior que encha as profundidades do coração e o espírito, para provocar o progresso de todas as nações, melhorar o seu nível material e aumentar a sua felicidade... E o ponto de vista estreito que causa que uma pessoa veja tudo o que é estrangeiro a uma nação particular, mesmo o que está fora do Povo Judeu, como feio e corrupto, é uma das mais medonhas trevas que trazem a destruição geral de todo o edifício da bondade espiritual, cuja luz todo o ser sensível deseja ver”.

O universal não basta

Todavia, é óbvio que apreciar o universal e os seus valores não é suficiente para o Judeu. Ele tem de apreciar a sua identidade única e usá-la, se ele quer contribuir para o mundo no máximo do seu potencial. Negar essa singularidade é negar a mesma essência de quem nós somos. É que ninguém pode ser feliz durante muito tempo ou viver uma vida significativa se recusar a sua própria essência. Aquilo que nos torna únicos como Judeus é tão vital como aquilo que nos torna similares a todos os outros povos. E negar qualquer uma delas é limitar a nossa capacidade de viver uma vida plena e realizar os nossos objetivos como Povo.

Talvez seja por isso que o Livro de Bereshit (ou Génesis) serve apenas como o começo da nossa história. Ele continua com estabelecimento do Povo Judeu, descrevendo como e porque nós nos tornámos quem somos. Como se nos quisesse ensinar que uma vez que nós sabemos o que temos em comum, nós temos de entender exatamente como nós somos únicos.

É verdade que a nossa fundação é a mesma de todos os outros povos, mas nós também somos diferentes. Fomos escolhidos para uma tarefa única e dotados de atributos e potencialidades excepcionais para a atingir. Para vivermos uma vida judaica plena, temos de montar duas concepções de religião e identidade aparentemente opostas. De um lado, a dimensão universal, que afirma a nossa comunhão e ligação com o resto do mundo. Por outro, a dimensão particular e exclusiva: os nossos papeis separados e identidades únicas como Judeus.

Infelizmente, para nós é difícil manter as duas concepções ao mesmo tempo e muitas vezes enfatizamos um à custa do outro. Hoje, parece que o mundo religioso se foca nos elementos exclusivos do Judaísmo, à custa dos elementos universais. Enquanto isso, os judeus não-religiosos focam-se mais no universal, em detrimento do “exclusivamente judaico”. Qualquer uma das perspetivas diminui a missão e a visão judaica.

Em muitos casos, estas escolhas parecem ser reação ao mundo moderno e os desafios que este coloca ao Judaísmo. Talvez, porque o mundo moderno valoriza a razão em vez da crença, nós nos focamos na crença à custa da razão. Porque o mundo se foca nos elementos universais à custa das diferenças únicas, nós salientamos as nossas diferenças para nos mantermos à parte. O mundo moderno fala em “ser uma boa pessoa”, nós falamos em “sermos bons judeus”. Se o mundo atual enfatiza o amor e repudia o temor, nós falamos mais do temor e depreciamos a influência positiva do amor. Quando os outros valorizam a alegria, o prazer e o físico acima de tudo o mais, nós colocamos estes valores no fundo da lista.

Ao enaltecermos valores opostos aos do mundo à nossa volta, nós tentamos proteger o Judaísmo e erradicar valores aparentemente anti-judaicos da nossa vida e da nossa educação. Infelizmente, isto tem consequência na capacidade de criar um Judaísmo mais inspirador. Ainda mais, porque ao erradicarmos estes princípios de dentro do nosso mundo, isso não as erradica no “mundo lá fora”.

Pelo contrário, isso leva-nos a perder algumas das partes mais preciosas e inspiradoras da nossa tradição. Afinal, de onde “o mundo lá fora” tirou alguns dos seus valores mais estimados? Exatamente, do Judaísmo. É claro que no geral o mundo distorceu esses valores, focando-se num dos fins à custa do outro. Porém, ao distorcermos os mesmos valores no sentido inverso, não só não nos ajuda a conseguir um equilíbrio, como retiramos de nós e das nossas crianças a oportunidade de usufruir de muita da beleza da nossa milenar herança.

Porque a beleza do Judaísmo não pode ser vista por aquilo que ele exclui, mas pelo que inclui. A grandeza do Judaísmo está, em parte, na sua exímia capacidade de equilibrar valores aparentemente contraditórios. Ao dar a cada um o seu devido lugar.

(inspirado no livro Off the Derech, um dos livros que terminei de ler recentemente, sobre o fenómeno dos judeus religiosos que saem da prática religiosa, as suas causas e possíveis soluções.

Nota: Este texto foi também publicado no HaKotel Brasil, o e-mail semanal de Divrei Torá (textos de Torá), realizado pelo grupo dos alunos sul-americanos da Yeshivat HaKotel, do qual eu sou um dos responsáveis.

publicado por Boaz às 22:45
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