Quarta-feira, 3 de Março de 2010

Heróis de carne e osso

Os Sábios judeus ensinam que, antes da chegada da era messiânica, haverá um período de guerra: mas a guerra essencial não será uma guerra entre poderes militares, mas uma guerra de fé. Grandes tragédias e episódios incompreensíveis farão muitas pessoas de fé vacilar e perder a sua fé em Deus e na Sua Torá.

Alguns dos acontecimentos mais perturbadores para uma pessoa de fé são aqueles em que vemos que grandes indivíduos erram. Estalam escândalos envolvendo pessoas pelas quais nutrimos a mais elevada estima e que tomamos como modelos de vida. No fundo, são os nossos heróis. Em certos casos, os erros são de tal modo graves que o edifício de fé parece desmoronar-se. Perguntamo-nos: como é possível que isso aconteça a essas pessoas?

O Tanach (as Escrituras Sagradas judaicas) menciona abundantes destes casos difíceis: Miriam, que falou lashon hará (difamação) do seu irmão Moisés; Yehudá, um dos filhos de Jacob, que teve relações com uma prostituta (que afinal era a nora dele, mas ele não sabia das nobres intenções dela); o Rei David que enviou Uriá para que morresse na guerra para que o rei pudesse ficar com a esposa dele, Batsheva; ou o sábio Rei Salomão que casou com várias mulheres que praticavam a idolatria e acabou influenciado por elas.


T-shirt Super-Judeu

Podemos encontrar inúmeras explicações dos nossos Sábios para estes comportamentos. No final das contas, surge no Tanach uma máxima que deveríamos ter em mente perante todos estes casos: "Pois não há sobre a terra, alguém tão correto que só faça o bem e nunca peque" (Cohelet/Eclesiastes 7:20).

No Judaísmo não há heróis como o Super-Homem ou o Homem-Aranha, personagens imbatíveis, incorruptíveis e perfeitos que jamais se questionam a si mesmos, nem revelam a menor fraqueza. Pelo contrário, a nossa tradição ensina que aquele que é considerado "forte" é aquele que domina o seu instinto. E em hebraico, a palavra para forte – guibor –, significa também herói.

Na Torá, o herói não é um ser sobre-humano, um semi-deus com super-poderes exclusivos como aqueles que abundam no mundo imaginário do cinema e das lendas. Antes, o herói judaico é cada ser humano que, com todas as suas imperfeições e conflitos, consegue superá-los para atingir o melhor de si mesmo. E, mesmo que erre gravemente, o homem tem sempre a hipótese de teshuvá (arrependimento, ou regresso ao caminho correto). "As portas da teshuvá estão sempre abertas", garantem-nos os nossos Sábios.

No entanto ainda nos perguntamos: se pessoas tão elevadas caem, que esperança restará para nós, gente comum? Lembremo-nos daquele ensinamento famoso do Rav Nachman de Breslav: Kol ha'Olam kuló guesher tsar meod, “O mundo inteiro é uma ponte muito estreita”. É que, se a ponte é estreita para nós, ela é ainda mais estreita para os tzadikim, os justos. Quanto mais alto o nível em que uma pessoa se encontra, mais difícil é para essa pessoa caminhar pela ponte. Aí, as forças que os podem derrubar são muito mais poderosas do que nos níveis mais baixos. E é aí que reside a força dos verdadeiros heróis: conseguir avançar desafiando os ventos fortes que os atormentam constantemente.

Por fim, lembremo-nos que, ainda que o justo caia os seus méritos não serão apagados. Deus mantém a sua conta de boas ações intacta, ainda que ele falhe em outras áreas da vida. É verdade que a Torá é um corpo único e cada um dos seus mandamentos é importante e insubstituível. Porém, como é injusto – conosco e com os outros – que tenhamos uma perspetiva de “tudo ou nada”. Pois a transgressão de um mandamento não significa que todo o restante que é cumprido seja inválido, irrelevante ou ainda menos, hipócrita.

A nossa fé tem de estar baseada em Deus apenas e não em qualquer ser humano. Sem excepções. Por mais elevado que ele seja, ou pareça ser. Apesar de mantermos certas pessoas como modelos de comportamento, não podemos deixar de lhes dar a hipótese de terem defeitos. (Afinal, a capacidade de errar é a garantia divina de sermos homens livres. Se, ao mínimo erro fossemos destruídos, isso significaria que não temos hipótese de escolha, livre-arbítrio.)

E ainda assim, seguirmos imitando as suas qualidades e aprendendo com os seus erros. Certamente, sem os minimizar, mas também sem deixar que esses erros passem a constituir na nossa ideia a totalidade da pessoa que os comete.

publicado por Boaz às 23:30
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2 comentários:
De Nini a 6 de Março de 2010 às 20:04
E quando começam a deixar de existir modelos de comportamento?
Quando o erro começa a ser uma contante e não uma excepçao à regra? nao quero ser juiza pois tambem cometo muitos erros, mas nao estaremos cada vez mais numa sociedade em que os erros vao sendo "esquecidos" numa tentativa de vivencia de qualidade ( eu erro, mas como tu tb erras, vamos tapar os olhos e ficamos todos bem!)
Não sou purista, nem fundamentalista( mt pelo contrario, mas para onde quer que me vire so vejo uma humanidade num caminho com erros e nao um caminho boas condutas..
De Boaz a 7 de Março de 2010 às 21:18
Quem disse para "esquecer" os erros? O que diz a última frase do texto? "Sem os minimizar" (aos erros). Não é virar a cara e desculpar tudo, é não tomar o todo - da pessoa que erra - pela parte, o seu erro. Quando tomamos a atitude de condenar em absoluto, sem permitir a hipótese de expiação ou arrependimento, a pessoa que erra fica sem saída. Que hipótese tem ela de melhorar se, para sempre será tomada pelo seu erro? Se a pessoa se vir a si mesma como "sem perdão", que razão terá para melhorar?
Talvez a Nini necessite de uma nova perspetiva perante a humanidade. Sim, existem muitos erros, cada vez mais graves, mas desistir de procurar a melhoria pessoal (e dessa forma a melhoria coletiva) é traçar um caminho de destruição.

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