Domingo, 28 de Março de 2010

Fénix de pedra

Estava em obras desde o Verão de 2006. A antiga sinagoga Hurva (a Ruína, em hebraico) era um dos símbolos do Bairro Judeu da Cidade Velha de Jerusalém. Foi fundada no início do século XVIII pelos seguidores do rabino Yehuda he-Hasid, que liderou o maior grupo de imigrantes judeus para a Terra de Israel em muitos séculos.

Poucos anos após a fundação, foi destruída, ficando arruinada durante mais de 140 anos. Daí o nome por que ficou famosa, “A Ruína”. Foi reconstruída em meados do século XIX, quando se intensificou a imigração judaica e o desenvolvimento de Jerusalém. Era a maior sinagoga de toda a Terra de Israel. Até 27 de Maio de 1948.

A Hurva foi uma das vítimas da Guerra da Independência de Israel. Os combates em Jerusalém, entre a Legião Árabe e as tropas da Haganá, uma das milícias que daria origem ao futuro exército de Israel, foram especialmente violentos. Em Maio de 1948, durante a batalha pelo controle da Cidade Velha, a sinagoga era um dos últimos redutos dos soldados da Haganá. O comandante da Legião Árabe, por intermédio da Cruz Vermelha, avisou a Haganá para abandonar o local, sob pena de um ataque em força. A liderança da Haganá recusou, consciente que o abandono do local significaria a derrota na batalha pelo Bairro Judeu.

A recusa da retirada resultou em combates no local. No final, a bandeira da Legião Árabe foi içada no cimo da cúpula da sinagoga. Mas esse não foi o fim da destruição da Hurva. Após a captura do local pelas forças árabes, o que restava da sinagoga foi deliberadamente minado e detonado. Nos meses seguintes, O mesmo destino teve a maioria do Bairro Judeu da Cidade Velha. Uma campanha de destruição arrasou centenas de casas, dezenas de sinagogas centenárias e antigas yeshivot. Os residentes judeus foram expulsos de Jerusalém Oriental e o acesso aos locais sagrados, como o Muro Ocidental, foi proibido a todos os judeus.

Nos 19 anos que se seguiram, durante o domínio jordano em Jerusalém Oriental, a cidade esteve dividida. Uma faixa de território, uma “terra de ninguém”, separou a Cidade Velha e Jerusalém Oriental da moderna Jerusalém Ocidental. As ruínas das casas do Bairro Judeu foram usadas como currais para cabras e burros. O milenar cemitério judeu do Monte das Oliveiras, onde estão sepultados centenas de sábios e ilustres judeus, também foi profanado. Lajes dos túmulos foram usadas para pavimentar estradas.

A reunificação da cidade em 1967 marcou o renascimento do Bairro Judeu. Foi totalmente reconstruído com arquitetura moderna. O Muro Ocidental, o local mais sagrado para o Judaísmo, voltou a estar acessível. E não só a Judeus, mas a pessoas de todos os credos e países.

Porém, a Hurva manteve-se no que foi na maior parte da sua história, uma ruína. Planos foram desenhados com propostas modernas para a reconstrução. No meio da indecisão entre arquitetos e políticos, um arco comemorativo da antiga sinagoga foi erguido em 1977 que se tornou num dos símbolos do Bairro Judeu.

No final do Verão de 2006, quando foi estudar para a Yeshivat HaKotel, vizinha da praça onde se situa a Hurva, já se havia decidido o que fazer com a velha sinagoga. A reconstrução de acordo com o aspeto que tinha antes da devastação de 1948 havia sido iniciada. Durante quatro anos, uma grua esteve erguida no local, montando pedra a pedra as paredes e a enorme cúpula da Hurva. Todos os dias, passava no local e via crescer a obra.

A Hurva reconstruída foi oficialmente inaugurada há menos de duas semanas com a presença de políticos e rabinos. No dia seguinte, residents árabes de Jerusalém Oriental envolveram-se em confrontos com a polícia israelita. Mentes paranóicas viram na reconstrução da Hurva algum indício de desejos de reconstrução do antigo Templo de Jerusalém no Monte do Templo, o local onde hoje se situa o santuário islâmico da Cúpula do Rochedo e a mesquita de Al-Aqsa. Por isso, grupos palestinianos apelaram a um “dia da raiva” em protesto pela reabertura da sinagoga.

A Hurva arruinada era o emblema da destruição deliberada da antiga sinagoga e de todo o Bairro Judeu ocorrida durante o domínio árabe em Jerusalém Oriental. A reconstrução simboliza o renascimento da cidade, algo pelo qual os judeus religiosos rezam três vezes por dia. A glória de Jerusalém é também a glória do Judaísmo. E isso é inaceitável para os Árabes.

publicado por Boaz às 16:00
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