Domingo, 4 de Abril de 2010

A caça ao fermento

É uma das tradições mais enraizadas no Judaísmo: não comer comidas fermentadas em Pessach, a Páscoa. Para recordar a pressa da libertação da escravidão do Egito, quando a massa do pão não teve tempo de fermentar, a Torá ordena a proibição de comer e possuir qualquer tipo de chametz, comida fermentada feita a partir de cinco tipos de cereais: trigo, centeio, cevada, aveia e espelta. A comida mais importante da quadra é a matzá, ou pão ázimo, ou seja, não fermentado.


Seder de Pessach, de Arnold Eagle

Para alguns, o esforço de eliminar o chametz começa logo depois da festa de Purim, um mês antes de Pessach. As famílias deixam de comprar vários tipos de alimentos fermentados bastante tempo antes da época em que passam a ser proibidos, gastando o stock existente na dispensa.

Nas duas semanas antes de Pessach, o trabalho da faxina é intenso. É a barrela anual nas casas judaicas. O objetivo da limpeza é que até o mais ínfimo resíduo de chametz desapareça da casa. Todas as migalhas são eliminadas, nos sofás, no carro, nas carpetes, nos bolsos da roupa, nas mochilas das crianças... Os armários da cozinha e o frigorífico são bem limpos. O esforço maior é dedicado ao forno e ao fogão. Os tachos e panelas de metal são fervidos para serem “casherizados”. As louças da cozinha usadas durante o resto do ano são substituídas por outras, exclusivas de Pessach. (É interessante que, em muitas regiões rurais de Portugal, os católicos também têm o costume de fazer uma grande limpeza nesta altura do ano e até mesmo caiar a casa, a fim de receber o senhor prior que visita cada uma das casas da terrinha).

Na última noite antes da grande data procede-se à busca do fermento que eventualmente escapou à destruição. A tradição manda que a busca seja feita à luz de uma vela e com uma pena na mão. Com pouca luz, a atenção da busca concentra-se numa pequena área de cada vez. A pena permite vasculhar até nas fendas da casa. Na manhã seguinte o que foi encontrado na busca noturna é queimado. Acabou-se, não há mais fermento em casa! E assim será durante uma semana.

Com a dispensa desprovida de pão, cerveja, bolachas, bolos, massas, há que encontrar alternativas para a alimentação durante a semana que dura a Páscoa. No caso dos judeus ashkenazitas (originários da Europa do Leste) as coisas são ainda mais complicadas. A sua tradição proíbe-os também de comer kitniot, um termo que designa todo o tipo de grãos e sementes. Por serem parecidos com os cereais proibidos em Pessach, feijão, ervilha, fava, grão-de-bico, milho, soja, lentilhas, arroz e seus derivados, são também excluídos. Existe discussão acerca de grãos e sementes de uso recente, como a quinoa, a canola ou a linhaça. Os judeus sefarditas (de origem ibérica e árabe) não seguem a proibição destes grãos adicionais, ainda que haja algumas comunidades que costumam não consumir arroz nesta época.

Algumas pequenas comunidades têm costumes específicos e outras limitações na alimentação, que remontam há séculos. Umas não bebem leite, outras não comem tomate (porque as sementes parecem grãos), peixe… Para a generalidade dos judeus ashkenazitas avizinha-se uma semana à base de carne, ovos, batatas e mais batatas.

Para compensar a exclusão das farinhas no fabrico de pão e bolos, surgem na semana da Páscoa produtos novos, marcados como Kosher para Pessach. Mesmo estando há poucos anos em Israel e tendo experimentado poucas vezes a festa de Pessach, há que admitir que, de ano para ano, a qualidade aumenta. Há anos, eram tristes as alternativas aos bolos, massas e biscoitos do resto do ano, invariavelmente produzidos com farinha de batata, com um aspeto, sabor e consistência pouco atraentes. Hoje, as empresas esforçam-se para produzir alternativas saborosas. Este ano, a novidade foi a farinha de tapioca, permitida por todos os costumes. Porém, apareceu também a lecitina de colza como alternativa à derivada da soja, o que deixou algumas pessoas baralhadas e a perguntar que raio de coisa é essa…

Tirando o hábito tão enraizado de comer pão, que tem um papel tão importante no Judaísmo, central em qualquer refeição festiva, em especial no Shabat, é bastante tranquilo “sobreviver” à Páscoa. É que, com as alternativas inventadas todos os anos pela tecnologia alimentar, já quase não se sente a diferença entre Pessach e o resto do ano.

publicado por Boaz às 15:30
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3 comentários:
De Joshua a 22 de Abril de 2010 às 08:43
Mas a ideia primeira não seria sentir a privação daqueles tempos da libertação? Não será um bocadinho batota recorrer a alternativas alimentares modernas?
De Boaz a 23 de Abril de 2010 às 07:18
Porquê? A Torá manda-nos não comer chametz, não nos manda privar-nos do resto. Talvez seja também batota usar electricidade no Shabat accionada com um timer...
De Joshua a 23 de Abril de 2010 às 09:59
Isso já será astúcia...
;)

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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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