Segunda-feira, 12 de Abril de 2010

E se estivéssemos lá

Foi numa aula de História do 9º ano da escola. Creio que estávamos já no terceiro período lectivo, ou no final do segundo. O final do ano não estava longe. Desde o início do ano que a professora – ainda lembro o nome dela, Fernanda Ruivo –, não se limitava a ensinar, a despejar matéria como tantos professores fazem.

Ela era muito mais emotiva que a maioria dos professores. Na primeira aula do ano, durante a apresentação, quando soube que me chamava Gabriel fez a seguinte observação: "Gabriel é o nome do meu maior inimigo". Engoli em seco. Na altura achei que tinha ficado marcado, mas aquele ano de aulas de História foi um dos meus melhores de sempre.

Depois de passarmos a Revolução Francesa, a colonização de África, a I Guerra Mundial (fiz um monumental trabalho de grupo sobre o assunto), chegou a vez da II Guerra. E o Holocausto. É um assunto pesadíssimo, mas no nosso livro de História não ocupava mais do que uma página. Para ensiná-lo a adolescentes, portugueses, em geral sem qualquer relação com o tema, ou se transmite de uma maneira seca, ou marcante. A professora escolheu a segunda opção.


Jovens sobreviventes de Auschwitz, no dia da libertação, 27 de Janeiro de 1945.

Primeiro, a professora explicou a sociedade alemã antes da guerra e as Leis de Nuremberga, base da política de descriminação racial do regime nazi. Depois falou sobre os campos, as deportações, os guetos. Com 16 anos, eu já tinha visto alguns filmes, séries e documentários sobre a Shoá, mas naquela manhã o tema foi apresentado de uma forma mais especial. A professora adoptou uma estratégia de choque: “Imaginem que vocês viviam na Europa ocupada pelos nazis”. E com esta ideia em mente – na dela e na nossa –, prosseguiu. “Se vocês vivessem naqueles tempos, de todos aqueles que se encontram nesta sala, provavelmente apenas dois sobreviveriam. Apenas a Susana e o Gabriel [eu] têm um aspecto ariano.”

Nunca, nem antes nem depois, presenciei uma aula como aquela. Impressionou-me tanto a exposição do tema pela professora, como o pesado silêncio respeitador dos alunos. Uma turma de jovens de 15 anos, em silêncio absoluto, atentos a ouvir uma professora falar. Alguns minutos depois, a campainha da escola tocou. O toque de saída. Ao contrário de todas as outras aulas a que alguma vez assisti, não houve alvoroço na saída. As cadeiras quase não se arrastaram. Todos arrumaram as suas pastas e mesas em silêncio e saíram calados.

Nos meses e anos seguintes li alguns livros sobre o Holocausto. A pequena biblioteca municipal da Batalha foi a minha fonte de informação. O primeiro e um dos mais marcantes: “Os feiticeiros do Céu”, do jornalista francês Christian Bernadac. Sobre as experiências de alguns padres e freiras católicos e pastores protestantes deportados pelos nazis. Encontrei-o por acaso, na estante de História da biblioteca, por causa de uma estranha e macabra foto na lombada do livro. Hoje em dia, infelizmente, a sua vasta obra sobre vários capítulos menos conhecidos do Holocausto, é difícil de encontrar até em alfarrabistas.

Aos 16 ou 17 anos, as histórias macabras que li fizeram-me questionar muita coisa. A culpa, a inocência, a fé, a salvação. Alarguei o rol de leituras a outros assuntos relacionados. A história judaica mais vasta, Israel... Daí ao interesse crescente pela espiritualidade judaica foi um salto de alguns meses e muitas, muitas perguntas. Pode ter sido aquela aula marcante o início da minha caminhada em direção ao Judaísmo. Não sei. É tão-somente o facto mais remoto que consigo recordar em relação a este assunto.

A cada ano que passa, é mais difícil contar a história do Holocausto. Os sobreviventes são cada vez menos e mais envelhecidos. A velhice fez muitos perder a memória daquilo por que passaram. Muitos, por causa da enormidade do trauma, nunca sequer falaram do assunto, nem com os familiares. As memórias morrerão com eles sem nunca terem sido passadas às gerações mais novas.

No calendário judaico, hoje é o Yom Ha'Shoá, o Dia da Memória do Holocausto. Daqui a alguns anos, não haverá mais pessoas para contar na primeira pessoa o terror da perseguição nazi. E são poucos os professores que, tal como a minha professora do 9º ano, contam a história com a intensidade necessárias para inspirar os seus alunos.

publicado por Boaz às 20:05
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5 comentários:
De Mark Robertson a 20 de Abril de 2010 às 12:13
Boaz. Parece que a "sua" Fernanda Ruivo é Presidente do Grupo de Leiria da Amnistia Internacional. Como reagiria a sua evolução?
De Boaz a 20 de Abril de 2010 às 20:08
Soube há pouco tempo da filiação dela na Amnistia Internacional. Apesar de saber que a AI é tantas vezes tão anti-Israel, isso não invalida o método da professora para dar as suas aulas. Não creio que ela se preocuparia muito com a minha mudança para judeu, mas talvez não ficasse muito satisfeita (ainda que ela não tenha nada diretamente a ver com o assunto) ao saber que eu sou - na ideia da AI - um colono em território roubado. Tal como ela não teve vergonha em me dizer que o meu nome era o mesmo que o do maior inimigo dela, logo na primeira vez que falou comigo, eu também não teria vergonha de lhe dizer que vivo em Israel, e achar que tenho todo o direito a viver aqui, por mais que isso seja contra a ideologia dela e ela até pudesse ficar ofendida...
De JBP a 20 de Abril de 2010 às 12:56
De leitura obrigatória sobre Auschwitz/Birkenau, o depoimento de Shlomo Venezia no Livro SONDERKOMMANDO, da Editora Esfera dos Livros.

De Joshua a 21 de Abril de 2010 às 10:24
Tive uma experiência semelhante à que descreves nas aulas de história do nono ano em que se falou da segunda guerra mundial e do holocausto. O ambiente era o mesmo e também nunca o esqueci.
Pergunto-me é como será este assunto explicado na escola, quando chegar a altura, ao meu filho que tem agora apenas seis anos...
De qualquer forma conto estar por cá, com ele, para passar a mensagem de forma correcta.
:)
De antonio a 25 de Abril de 2010 às 01:39
Viva Gabriel

Há quanto tempo não passava por aqui.

História esclarecedora. Infelizmente há muita falta de empenhamento de uma grande parte dos professores no que toca a matérias que possam contribuir para uma boa formação da História do Mundo. Particularmente das incríveis tropelias e atrocidades cometidas pelos Nazis em nome duma questão pueril como era a purificação da raça ariana.

Ou não terá sido uma imensa farsa a instrumentalização dessa ideologia balofa para, dessa forma, roubarem as riquezas dos sacrificados?

Uma idiotice que custou a vida e muito sofrimento a milhões de judeus.

Espero que esteja tudo bem consigo, amigo.

Leiria, António

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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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