Segunda-feira, 26 de Abril de 2010

Dia santo na Babilónia

Desde que casei, posso contar pelos dedos as vezes que passei o Shabbat fora de casa. E depois do nascimento do bebé, a família apenas se atreveu a sair de casa para passar o Shabbat em duas ocasiões, e ambas em Jerusalém. Porém, há algumas semanas, aventurámo-nos até Tel Aviv. De férias na semana da Pessach, a Páscoa Judaica, tínhamos mais tempo para preparar a viagem de autocarro até à costa. À chegada, Tel Aviv depara-se completamente diferente de Jerusalém. No estilo dos edifícios e, mais ainda, nas pessoas.


Tel Aviv, vista da cidade velha de Jaffa.

Fomos convidados por uma família de amigos, antigos residentes de Alon Shevut – o colonato onde moramos, e que hoje vivem no bairro de Ramat Aviv, um dos mais ricos de Tel Aviv, no limite norte da cidade, com alamedas cheias de árvores e jardins que rodeiam cada prédio. Os nossos amigos que, há pouco mais de um ano trocaram as idílicas montanhas da Judeia pelo bulício da grande cidade, pertencem a um núcleo de famílias religiosas, com vontade de revitalizar a vida religiosa judaica local.

Para uma família religiosa, residir num prédio de vários andares apresenta um desafio adicional no Shabbat: a impossibilidade de usar o elevador. Em Jerusalém e noutras cidades com considerável população judaica ortodoxa, a solução são os “elevadores de Shabbat”, com um mecanismo programado antes da entrada do dia sagrado para que funcionem sem interrupção, parando em cada andar do prédio, sem necessidade de accionar os botões. Em Tel Aviv porém, excluindo os hotéis, não são muitos os prédios onde os seus residentes seculares concordam com esta solução para os seus vizinhos religiosos. Assim, por exemplo, para quem vive num andar alto, subir e descer vários lanços de escadas com um carrinho-de-bebé é uma tarefa árdua. Ficámos alojados em casa de uma outra família do tal núcleo que haviam passado a quadra festiva fora de Tel Aviv.

Uma dos projetos do pai da família que nos convidou é dinamizar o estudo de Torá numa das sinagogas do bairro. Uma das provas da grande secularização da população do bairro é que a sinagoga funciona apenas no Shabbat. Situada numa rua tranquila de casas luxuosas (o canto hollywoodesco de Tel Aviv), é um edifício bonito, rodeado de um belo jardim e com um hall em forma de tenda, usado para as recepções comunitárias nas manhãs de Shabbat. É nessa sinagoga que as famílias do bairro escolhem realizar as cerimónias de bar mitzva dos seus filhos, quando chegam aos 13 anos. Esses acontecimentos festivos são oportunidades preciosas para o rabino estabelecer contacto com as famílias afastadas, convidando-as a participar noutras atividades da sinagoga.

Na manhã de Shabbat, cheguei um pouco atrasado à sinagoga. Com o meu atraso receei que a cerimónia já fosse avançada. Porém, mesmo passando da hora marcada, fui o segundo a chegar. Durante a caminhada de 10 minutos desde a casa onde passámos a noite, quase não encontrei vivalma na rua, ainda que fossem 8 da manhã. Tel Aviv é chamada “a cidade que nunca dorme”, mas na manhã de Shabbat o seu lema não se cumpre, já que a cidade parece parada. Talvez o lema seja na verdade “A cidade que nunca dorme. De noite”. As únicas pessoas que encontro no trajecto são um judeu religioso que se dirige a outra sinagoga e uma mulher que faz a sua sessão de jogging matinal.

A visita à sinagoga fez-me sentir verdadeiramente fora de Israel. Nos cerca de 200 lugares do santuário, não havia mais do que 30 pessoas. Destas, a grande maioria não pareciam habituados a estar numa sinagoga. Algumas, inconscientes da santidade do lugar, falavam praticamente durante toda a cerimónia.

Também exteriormente se notava que não eram pessoas especialmente religiosas. As mulheres não se vestiam de forma discreta. Entre os homens, eram raros os que usavam barba – um dos sinais externos mais comuns do judeu religioso (ainda que não seja obrigatório). Mais raros ainda eram os jovens. Um deles, visivelmente um novato naquelas paragens, parecia desorientado na hora de entoar o kadish, a oração pelos mortos. Imagino que fosse um rapaz “afastado”, quando a morte de um familiar próximo o levou a frequentar a sinagoga, para aí poder dizer kadish pelo seu ente querido desaparecido. Ainda assim, há que reconhecer o mérito de, mesmo parecendo um pouco “deslocadas”, todas aquelas pessoas terem ido à sinagoga.

Antes do início da cerimónia de Shabbat, o rabino costuma fazer uma breve prédica com ensinamentos morais, normalmente baseada na porção semanal da Torá. Em Alon Shevut, onde todas as famílias são religiosas, estou habituado a escutar sermões mais “pesados” e mais longos, por vezes sobre questões complexas da lei judaica. Naquela sinagoga em Tel Aviv, o rabino falou de amor, algo que todos conseguem identificar-se, mesmo os mais afastados da prática religiosa.

Deixar o ambiente religioso da vida em Alon Shevut deixou marcas na família do rabino. As crianças não estudam perto de casa. Nas redondezas, nenhuma escola se enquadra nos padrões de religiosidade da família. Não há vizinhos religiosos no mesmo prédio, nem talvez na mesma rua. Antes, em Alon Shevut, as seis crianças da família brincavam sem problemas em casa dos vizinhos, ou toda a criançada das redondezas se reunia no pequeno jardim no meio do bairro. Em Tel Aviv, os pequenos têm de caminhar algumas centenas de metros até à casa da família religiosa mais próxima. E as ruas de Tel Aviv não são tão seguras como as de Alon Shevut. Assim, fora da escola, praticamente não têm amigos.

A solução é passarem mais tempo em casa. Uma das coisas que acabaram por absorver da vida de Tel Aviv é o gosto (diria quase fanático) pelo futebol. Incluindo as meninas, as pequenas crianças sabem de cor todas as equipas da Liga dos Campeões, da Liga Europa, os principais jogadores e os resultados dos últimos jogos! Ainda que a família tenha algum contacto e tente cativar os vizinhos não-religiosos, tem o cuidado de não deixar que os seus filhos sejam influenciados de alguma forma negativa pelo ambiente pouco ou nada religioso das redondezas.

Entre os judeus religiosos, Tel Aviv é muitas vezes destacada pelas manifestações extremas de não-religiosidade, ou até de ser anti-religiosa. Porém, apesar dessa face visível, em toda a cidade existem mais de 500 sinagogas ativas. A missão da família que visitámos no Shabbat é ajudar os habitantes da cidade a redescobrirem a preciosidade da vida judaica. Que não vejam o ser judeu religioso como alguém ultrapassado e fora da modernidade. Apesar das dificuldades, o rabino confessou-me notar progressos na sua comunidade. Resta saber quais serão as consequências para a própria família, no meio dessa missão de ajudar a “aproximar os afastados”.

publicado por Boaz às 23:30
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2 comentários:
De Pseudo a 6 de Maio de 2010 às 13:59
Não compreendo: O Shabbat não impede o religioso de usuar o elevador mas o impede de apertar botões? Qual a fundamentação disso?
De Boaz a 6 de Maio de 2010 às 22:00
Simplesmente, "o elevador de Shabbat" funciona automático, sem intervenção humana. Tal como um relógio que liga e desliga as luzes de casa e que é programado antes do Shabbat. Não é algo muito comum fora de Israel...

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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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