Terça-feira, 10 de Julho de 2012

Morto e envenenado (por esta ordem)

Quase oito anos depois da sua morte, Yasser Arafat é ressuscitado. Apenas nas notícias (Alá seja louvado).

Uma investigação divulgada pela rede de televisão Al-Jazeera revelou que altos níveis do elemento radioativo polónio-210 foram encontrados em alguns objetos pessoais de Arafat. Os objetos estavam na posse de Suha Arafat, a viúva do histórico líder palestiniano e foram analisados pelo Instituto de Física Radiactiva de Lausanne, na Suíça. A morte de Arafat, num hospital de Paris a 11 de Novembro de 2004, continua a ser fonte de muita especulação, aumentada pela não realização de uma autópsia. A divulgação do relatório médico integral foi sempre recusada tanto pela viúva como pela Autoridade Palestiniana. As teorias acumulam-se.


Guarda de honra no túmulo de Yasser Arafat, na Muqata, o complexo governamental
da Autoridade Palestiniana, em Ramallah (Tristam Sparks, Wikipedia)

O médico pessoal de Arafat durante 18 anos, Ashraf al-Kurdi, que o assistia permanentemente, mesmo em caso de um simples resfriado, não teve qualquer acesso ao líder palestiniano quando o seu estado de saúde se deteriorou gravemente em Novembro de 2004. A viúva Arafat proibiu-o até de visitar Arafat no hospital francês onde estava a ser tratado e, posteriormente, de inspeccionar o cadáver. Apesar das opiniões dos médicos franceses que foram divulgadas não terem sido conclusivas para apurar a causa de morte de Arafat, Suha também recusou a realização de uma autópsia. Haveria algo a esconder? Decerto, se fosse algo que facilmente incriminasse Israel, uma autópsia teria sido feita sem demora...

Resultados divulgados em 2005 indicaram que Arafat morrera de um acidente vascular cerebral desencadeado por uma doença desconhecida. Análises desses resultados sugeriram como causa de morte uma infecção, envenenamento ou até Sida. Apesar dos seus numerosos rivais entre o aparelho político palestiniano, suspeitas de um envenenamento recairiam sempre sobre Israel. (Quem mais?)

A suspeita de morte devido a Sida foi uma das mais difundidas em várias investigações dos relatórios médicos parciais. De acordo com fontes do governo americano, a CIA tinha conhecimento da doença de Arafat, e recomendou a Israel não assassinar o líder palestiniano. Ao falecer com a doença, Arafat ficaria irremediavelmente desacreditado pelos rumores relacionando a Sida à homossexualidade. Aliás, a alegada homossexualidade de Arafat foi documentada em 1987, no livro Red Horizons: Chronicles of a Communist Spy Chief, ("Horizontes Vermelhos: Crónicas de um chefe espião comunista") de Ian Mihai Pacepa, um antigo general da Securitate, o serviço secreto da Roménia comunista. O livro, que descreve entre outros assuntos a relação próxima entre o KGB, a Securitate e a OPL, relata que durante as suas visitas a Bucareste (Arafat era um protegido do regime de Ceausescu e fora treinado pelo KGB nos anos de 1970-80) o quarto do líder da OLP estava sob escuta. As orgias entre Arafat e os seus guarda-costas alemães-orientais eram gravadas e foram relatadas detalhadamente por Constantin Munteaunu, o general romeno destacado para a OLP.

Mas voltando ao polónio descoberto nos bens pessoais de Arafat. Esse elemento radioativo tem uma "meia-vida" de 138 dias, o que significa que metade da substância se degrada a cada quatro meses e meio. Porém, oito anos após a morte de Arafat, o relatório dos cientistas suíços refere níveis altos da substância. Ely Karmon, especialista em terrorismo nuclear, biológico e químico do Instituto de Contra-terrorismo de Herzlyia, explicou que "Se tivesse sido usado para envenenamento, níveis mínimos seriam encontrados nesta altura. Todavia, níveis muito mais altos foram encontrados. Alguém colocou o polónio muito mais tarde." O mesmo investigador questionou-se sobre alguns dados da investigação da Al-Jazeera. "Se Suha Arafat guardou estes objetos contaminados, porque sete anos depois ela não foi também envenenada? Ela tocou estes pertences de Arafat no hospital". A profundidade da investigação da televisão Al-Jazeera foi também questionada, entre outros pontos, por não ter sido verificada a existência de polónio nas casas de Suha em Paris e Malta. Além disso, as informações divulgadas pelos médicos franceses que trataram Arafat não coincidem com um envenenamento com polónio.

O governo de Israel negou qualquer envolvimento nos novos rumores sobre a morte do líder palestiniano. Paul Hirschon, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, mostrou-se céptico em relação às novas suspeitas, gracejando: "De repente, Suha estava a verificar o seu cesto de roupa suja e descobriu coisas que não foram lavadas há oito anos. Subitamente, umas peças de roupa aparecem; são testadas e pronto! Têm polónio!"

Como se nada de mais grave acontecesse no Médio Oriente, a Liga Árabe convocou uma reunião para debater as novas alegações sobre a misteriosa morte de Arafat. Os milhares de mortos na guerra civil da Síria; a insegurança no Iraque, Iémen e Bahrain; o fanatismo islâmico e o terrorismo que daí provém; o Irão em trajetória nuclear; as mulheres tratadas como objectos; os cristãos, bahaí’is e opositores políticos perseguidos; os jovens desempregados e sem futuro; a corrupção dos regimes e milhões de cidadãos sem direitos, todos podem esperar pelas decisões dos xeques e ditadores árabes.

Agora, como há mais de 50 anos, os árabes esperam pela resolução dos seus problemas. E, agora como há mais de 50 anos, os seus líderes adiam a discussão desses mesmos problemas, até que a Palestina e os seus mitos sejam resolvidos. Onde quer que esteja, Yasser Arafat estará exultante, com mais uma das suas bem montadas encenações.

publicado por Boaz às 22:57
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