Quarta-feira, 21 de Junho de 2006

Um dia mais que perfeito

Costuma dizer-se: "há dias assim". Pois sim, mas como o que eu vivi hoje não há mesmo dias. Há um dia único. Cheio de momentos únicos.

Fui a Tel Aviv a fim de ir à mikve, o banho ritual judaico, que marcou o fim do meu processo de guiur (conversão ao Judaísmo). Havia combinado de véspera ir com um colega mexicano da yeshiva. Já conhecedor das suas dificuldades de despertar-se na manhã, fui acordá-lo assim que saí do meu quarto para ir rezar Shacharit, as orações da manhã. Acabada a oração -cerca de uma hora depois - voltei a passar pelo seu quarto para fazê-lo saltar da cama. Nada. Após o pequeno-almoço, nova e última tentativa. Dada a derrota em despertá-lo e não podendo esperar mais tempo, resolvi convidar outro colega, por coincidência também mexicano, para me acompanhar neste dia.

Encontrar um mikve ou uma sinagoga em Tel Aviv é quase tão difícil como em qualquer cidade fora de Israel. Esta é a maior cidade do país, mas de tão pouco religiosa, dificilmente se podia chamar-lhe uma cidade judia. Perguntando aqui e ali, junto à estação de autocarros, lá encontrámos o bairro, a rua e o local exacto.

A espera até à minha vez de entrar no "tanque" fez-se numa sala minúscula apinhada de gente. Desde futuras noivas que também têm de passar o banho ritual antes do casamento, até homens e mulheres que, tal como eu, iriam concluir hoje a sua conversão. Na maioria russos. Entre os que passaram pelo mikve naquele dia, uma senhora russa de uns 60 e muitos anos. No dia seguinte iria casar-se. Sim, parece que as almas gémeas sempre existem e nunca é tarde para as encontrar, ou reafirmar o amor que as une. Aquele casal de anciãos russos emanava uma alegria e vivacidade que em nada correspondia à ideia que normalmente temos das pessoas daquela idade.

Confesso que a minha passagem pela mikve em si não me causou grande impacto. Obviamente que compreendo que até àquelas duas submersões eu era uma coisa e depois passei a ser outra. Bem distinta. Mas a verdade é que não senti nada especial. Marcou-me apenas o ditame de um dos juízes. Perguntou-me: "Puseste os tefilin hoje?" Respondi-lhe que "sim, obviamente". Aí ordenou-me: "Então hoje tens de os pôr outra vez. De manhã não eras judeu. Agora já és." Assim: rápido e certeiro. Estranha afirmação, mas verdadeira.

Logo à saída, fomos procurar uma sinagoga para rezarmos Minchá (oração da tarde), onde eu pudesse também encontrar uns tefilin para cumprir a mitzvá. A primeira sinagoga, ao lado da mikve, estava ocupada com um casamento. Na segunda, um funeral. Andámos bastante até encontrar uma onde pudéssemos rezar. Pela primeira vez, contei para o minyan! Mas não havia tefilin disponíveis. Estava com fé que, na nossa caminhada até à praia conseguíssemos encontrar algum Chabadnik na rua, oferecendo a mitzvá aos muitos "judeus afastados". É comum encontrar adeptos de Chabad nas zonas de Tel Aviv e Jerusalém frequentadas por jovens pouco observantes.

Depois do almoço de festa, um "esticão" até à praia. Há mais de um ano que não punha os pés na areia de uma praia. Que bom voltar ao mar, sentar-me ao sol... Até que chegou a hora do Portugal-México. Aproveitámos a viagem a Tel Aviv e não iríamos perder a oportunidade de seguir o jogo. Bastava para isso encontrar algum bar com televisão que o transmitisse. Mesmo em frente à praia, ao lado da embaixada americana e a 50 metros do antigo Dolphinarium.

O resultado do jogo é história. Foi engraçado vê-lo ao lado de um mexicano. Quais as probabilidades de encontrar um português e um mexicano em Israel a assistirem ao jogo entre as duas selecções?

Na hora de voltar para Jerusalém - e Tel Aviv já me estava a dar volta à cabeça - faltava ainda encontrar algum par de tefilin, antes que entrasse no autocarro, sabendo que ao chegar de noite a Jerusalém, já não poderia cumprir a mitzva neste dia... "Começar a minha vida como judeu e já a quebrar leis" era a minha preocupação. A salvação chegou logo à entrada da Estação Central de Tel Aviv: um cesto com tefilin para quem os quisesse usar. Uff! Abençoada seja Chabad e os seus incansáveis hassidim... Deixei 10 shekels de tzedaka.

À chegada à yeshiva, a recepção dos companheiros de estudo do departamento ibero-americano. Uma canção e muitos abraços. Também de outros colegas que, sabendo ou não o que me havia passado naquele dia, me vieram saudar com um "Mazel Tov".

publicado por Boaz às 20:41
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3 comentários:
De Ruben Obadia a 28 de Julho de 2006 às 22:41
Mazal Tova... atrasados! Mas valem na mesma.
De Marco Moreyra a 26 de Junho de 2006 às 15:32
Mazal Tov!!! Para mim o mickveh teve um impacto mto. grande... Quando me dizeram: "There you go... it's kosher!"
De Yossi a 25 de Junho de 2006 às 11:15
É engraçado ouvir dizer que o mikve não "causou tanto impacto"...ouvi isto algumas vezes em Londres...mas penso que, apesar das diferentes reacções, o sentimento é o mesmo, e indescritível para todos ...Para mim, a saída do mikve foi o GRANDE MOMENTO, em que, quando me foi dito: "Now you're kosher", senti todo o "suave peso" de ser judeu! Mazal tov e bem vindo!

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