Terça-feira, 20 de Junho de 2006

Não um fim, mas um novo começo

Tefilin

Amanhã, por volta do meio-dia, vou ter o passo final do meu processo de conversão ao Judaísmo. A ida ao mikve, ou banho ritual. Será em Tel Aviv. É realmente estranho. Vivendo eu em Jerusalém e tendo passado o Bet Din (Tribunal Rabínico) da cidade, que tenha de ir a Tel Aviv, provavelmente, a cidade menos religiosa de Israel. Mas a burocracia assim o exige...

Olhando para trás, desde a altura em que comecei a pensar na hipótese da conversão, passaram talvez 10 anos. Dez anos! Disse "altura" porque não sei exactamente o dia ou mês em que pela primeira vez fiz a mim mesmo a pergunta básica: "Será que devia converter-me ao Judaísmo?". Não é algo que aparece de um dia para o outro. É gradual. De tão gradual que é difícil encontrar o momento que despoletou tudo. No meu caso existirá um momento. Noutros casos de conversões, existem realidades mais concretas como ser filho de pai judeu, ser de origem "marrana" conhecida. São os mais comuns. Na minha história, nas minhas motivações, não estão as origens judaicas porque, pelo menos que eu saiba, nas últimas gerações da minha família não há judeus.

No entanto, mesmo eu acabasse por descobrir que houve judeus entre os meus antepassados, não creio que isso influenciaria a minha vontade em continuar no caminho. Seria apenas um detalhe a fim de despachar a conversa, para fugir à sessão de perguntas sobre o tema que é costume fazerem os judeus "de nascimento" aos conversos, especialmente quando estão na caminhada.

Não é genética que procuro, nem raízes de qualquer ordem. E até creio que alguém que baseie um processo de conversão na busca de raízes, muito fraca motivação tem. Os motivos têm de ser puramente pessoais. Supostas ou confirmadas ligações familiares são cordas demasiado débeis para aguentar o peso do processo.

Para chegar ao momento culminante de amanhã, passei por fases incríveis. Muitas delas, nada agradáveis. O primeiro telefonema nervoso para a Comunidade Israelita de Lisboa, nos finais de 1997, semanas após ter entrado para a Universidade e ter visto nessa mudança de residência e maior proximidade física à comunidade como a situação ideal para desencadear o processo. A frustração do primeiro encontro na sinagoga. Os anos de stand-by. Os emails para o rabino da comunidade, assim que descobri essa porta virtual para contacto. O convite do Mordechai e o primeiro serviço de Kabbalat Shabat. Os episódios pouco simpáticos à porta da sinagoga. A espera de vários meses até obter a autorização para frequentar a sinagoga.

A refeição de Succot quando conheci o Rabino Boaz Pash e a sua família. O início das aulas de conversão em Lisboa e ter conhecido um grupo de gente tão interessante. O primeiro Shabbat "a sério". A primeira vez que celebrei Pessach e Shavuot. A viagem para Israel em Setembro do ano passado. As aulas no ulpan de Efrat, a vida na yeshiva. A incerteza do processo por, na altura, querer voltar para Portugal e saber da decisão do Grão-Rabinato de cancelar sine die os processos dos que tencionavam voltar para a Diáspora. O momento em que soube a data do encontro do Bet Din. A semana de loucos que antecedeu a dita reunião, com a tristeza da partida do meu caro Gonzalo, agora Yosef ben Avraham. O stress do estudo. O dia fatídico da prova no Tribunal Rabínico. Recitar "Shemá" quando os dayanim (juízes rabínicos) finalmente decidiram que eu merecia fazer parte do Povo de Israel. A viagem a Portugal e todas as provas de viver como judeu num ambiente nada judaico. A circuncisão, feita consciente, apenas com anestesia local. A recuperação. E amanhã, o momento a que chamamos carinhosamente de "piscina".

Olhando para todos estes factos, não lamento os contratempos por que passei. Com todos aprendi. Se não tivesse passado por cada um deles, não teria aprendido algo valioso. Se tivesse "despachado" o processo quando estava em Portugal, nunca teria conhecido pessoas que me marcaram tanto e que de outro modo me teriam passado ao lado, assim como tudo o que vivi e aprendi com elas.

A partir de amanhã vou ter de viver o Judaísmo por mim. Certo que desde que passei o Bet Din, que tenho a responsabilidade de cumprir tudo o que um judeu cumpre. Todavia, a partir de amanhã, a responsabilidade é redobrada. Tenho de encontrar o rumo que quero seguir no futuro. Já sem o amparo quase maternal do ulpan. É, ao mesmo tempo, uma perspectiva aliciante e assustadora.

Neste momento lembro-me da letra de uma canção: "Every new begining comes from some other begining's end". ("Todo o novo começo vem com o fim de um outro começo").

publicado por Boaz às 22:27
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5 comentários:
De Matt Erlandsen a 23 de Junho de 2006 às 00:46
Congrats!... I didn't know you were getting into conversion.
Good luck with your "new life".
Matt.-
De Mario Almeida a 22 de Junho de 2006 às 13:15
Um valioso testemunho. A dificuldade por que passaste tornou-te sem dúvida mais forte. Muitos parabéns.
De Yossi a 22 de Junho de 2006 às 12:20
Penso que te recordas de mim, das aulas de giur com o rabino Boaz (blog yiddishe velt)...Ler essa tua mensagem foi também rever-me, e com grande emoção, mas não somente a mim, como também todos os que não se deixaram desanimar pelos Golias que se nos depararam pelo caminho. Quero dar-te um mazel tov do tamanho da tua coragem e do teu esforço.
De a. cardoso a 22 de Junho de 2006 às 09:40
Depois de tantos precalcos, merece o sincero envio de parabens e felicidades.

Shalom.
De Daniel a 21 de Junho de 2006 às 23:24
Os meus sinceros parabéns.

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