Quarta-feira, 29 de Abril de 2009

Um país, um projecto divino

Na Torá, no final do Livro de Vaicrá (Levítico), uma série de terríveis e ameaçadoras maldições são lançadas por Deus sobre o Povo e a Terra de Israel, caso não cumpram os preceitos da Torá: "E reduzirei as vossas cidades à solidão, assolarei os vossos santuários (...) E Eu assolarei a terra, e se espantarão disso os vossos inimigos." (Vaicrá 26:31-32)

Estes e outros sinais foram cumpridos durante o longo exílio do Povo de Israel, que já dura há quase 2000 anos. O nosso Povo foi exilado, deixando desoladas as outrora vivas cidades da Israel bíblica. O Templo destruído. A Nação Judaica humilhada e dispersa entre os seus inimigos. A Terra Santa profanada por sucessões de povos invasores. Porém, apesar das constantes tentativas de se estabelecerem, em vinte séculos nenhum povo estrangeiro conseguiu lograr instalar-se na Terra de Israel. Tal como haviam declarado os profetas.

O escritor americano Mark Twain, que visitou a Terra de Israel no final do século XIX descreveu-a como uma terra deserta e miserável, onde apenas havia espinhos e pedras. Porém, poucas décadas depois do seu relato de desolação, as primeiras vagas de pioneiros judeus conseguiram fundar vilas e cidades (como Tel Aviv, que celebra este ano um século de existência). O deserto floriu, e também a Torá floriu.

Fontes proféticas revelam de forma clara que binian haaretz, a reconstrução da Terra de Israel e kibbutz galuyot, a reunião dos exilados, são dois dos sinais claros do início da Gueulá, a Redenção do Povo Judeu. Não é coincidência – não existem coincidências no Judaísmo, que tenhamos isso bem claro – que, na oração de Shemone Esre ou Amidá que rezamos três vezes por dia, a bênção da reunião dos exilados se segue à bênção dos anos, na qual pedimos prosperidade para a terra. Os dois sinais estão juntos.

Até as numerosas e difíceis guerras que Israel tem travado não são ocasionais. Também elas fazem parte do processo para atingir o projecto divino da Redenção. Os Sábios dizem que "a Guerra é o começo da Redenção". As guerras, com os seus sofrimentos e também conquistas, clarificam a situação do Povo e da Terra de Israel. Ao louvar a Deus dizemos que Ele é baal milchamot, Senhor da Guerra, zorea tzedakot, Semeador da Justiça, matzmiach yeshuot, o que faz florescer a Salvação. A ordem não é aleatória.

O significado do Yom Ha'Atzmaut, o Dia da Independência de Israel, é sem dúvida nenhuma, divino. O crescimento da Torá na Terra de Israel apenas se deu em força após o estabelecimento do moderno Estado de Israel. Surgiram numerosas yeshivot, midrashot, organizações de tzedaká e, se não fosse preciso mais nenhum motivo: plena liberdade religiosa e acesso aos locais sagrados para os Judeus. Sem o perigo de serem mortos, desprezados ou classificados de cidadãos de segunda classe – pela primeira vez em 2000 anos!

Apesar das diferenças de perspectiva dentro da comunidade judaica em relação ao Estado de Israel, em que os menos entusiastas (e opositores) às conquistas do ideal sionista apelidam o Yom Ha'Atzmaut de Yom Ha'Atzamot, o Dia dos Ossos – até parece haver neste irónico trocadilho um fundo de verdade. Tal como na visão do profeta Ezequiel (37:1-14), os ossos secos ganharão de novo tendões, carne e pele. "Esses ossos são toda a Casa de Israel! (...) Porei em vós o Meu espírito e vivereis, e vos porei na vossa própria terra; e sabereis que Eu, o Eterno, assim determinei e farei cumprir."

Yom Ha’Atzmaut sameach!

Nota: A celebração da Independência de Israel segue o calendário judaico que é lunar. De acordo com o calendário solar gregoriano a data é a 14 de Maio.

publicado por Boaz às 12:00
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Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Os outros seis milhões

De acordo com a tradição judaica, apenas um quinto dos antigos escravos hebreus foi libertado do Egipto. A Torá revela que 600.000 homens com mais de 20 anos saíram da escravidão. Se juntarmos mulheres, crianças e jovens até aos 20 anos, teremos perto de três milhões de pessoas. E estes, lembremos, eram apenas 1/5 dos Filhos de Israel. Os outros, os que não saíram, nunca chegaram a receber a Torá. Nunca entraram em Israel. Nunca se tornaram Judeus. Os Hebreus que nunca saíram do Egipto morreram durante os três dias da praga da escuridão. A escuridão egípcia, na qual estavam tão imersos, sufocou completamente a sua identidade hebraica.

 
Travessa de Pessach com lugar para as diferentes comidas da festa.

No ano passado, a Agência Judaica realizou uma pesquisa destinada a determinar a população potencial de pessoas que podem fazer aliyá, a imigração para Israel. Praticamente esgotada a população de Judeus da antiga União Soviética, o estudo centrou-se nos Estados Unidos, o país com a maior comunidade judaica fora de Israel. Pelos números oficiais das comunidades judaicas, vivem nos EUA mais de 5 milhões de Judeus. Porém, o estudo da Agência Judaica descobriu que existem cerca de 11 milhões de norte-americanos com direito a imigrar para Israel – 6 milhões a mais do que o número oficial de Judeus!

Quem são estes seis milhões?

A grande parte dos judeus dos EUA chegou no período entre os finais do século XIX e o pós-II Guerra Mundial. Na sua maioria gente pobre que fugia de perseguições na Rússia, Polónia e Alemanha, fundaram a maior comunidade judaica do Mundo. No terreno da liberdade americana o Judaísmo atingiu o seu nível mais elevado desde a Idade de Ouro do Judaísmo Espanhol. O inglês tornou-se, segundo alguns, o "novo iídiche". Os Judeus atingiram a plena integração na sociedade americana: são líderes políticos e culturais, ícones da sociedade, apontados como exemplos do melhor que a América produz. No cinema, na ciência, na literatura.

Porém, em duas gerações apenas, milhões de descendentes dos judeus americanos perderam-se para o Judaísmo. A tranquilidade da vida judaica na América "ajudou" à assimilação. Muitos não têm qualquer vínculo com a comunidade judaica e a assimilação atingiu níveis alarmantes: mais de 50% dos judeus do país casam-se com não-judeus. (No Brasil a percentagem será superior.) Porém, mais do que uma catástrofe, muitos vêm este fenómeno como um sinal de "integração".

São numerosas as comédias que mostram um "casamento ecuménico", com um rabino e um padre católico ou pastor protestante partilhando a cerimónia. De novo, a "integração". Apesar da enorme presença de elementos judeus na cultura americana (e daí para todo o mundo), mais crianças judias sabem o nome da mãe de Jesus do que da mãe de Moisés. Muitas famílias judaicas celebram Channuka mas com uma árvore de Natal ao lado da chanukkia. Muitos judeus não celebram Rosh Hashaná nem escutam o toque do shofar, mas não perdem um Reveillon, nem deixam de escutar e admirar o fogo de artifício.

Em Portugal, dos fundadores da sinagoga de Lisboa, há pouco mais de 100 anos, são raros os seus descendentes que permanecem judeus. Mesmo das poucas famílias judias que restam, contam-se pelos dedos de uma mão as que são realmente religiosas. Há judeus suficientes para encher diariamente os cerca de 300 lugares da sinagoga, mas esta é usada apenas no Shabbat e festas. E o minyan (grupo mínimo de 10 homens necessário para realizar uma cerimónia religiosa) depende invariavelmente de algum ocasional turista. Sem escola judaica para as crianças, deixar o país é a opção para quem quer permanecer fiel às tradições. Em três gerações, as famílias judaicas tradicionais de Lisboa foram totalmente assimiladas. Restam os nomes de família apresentados com um orgulho aristocrata, mas pouco ou nada mais do que isso.

No calendário judaico, em Tisha be'Av, lembramos a destruição do Templo de Jerusalém e o consequente exílio que se lhe seguiu. Nesse dia lembramos também a Expulsão dos Judeus de Espanha, ocorrida na mesma data. É dia de jejum e de luto. Uma vez por ano, comemoramos o Yom HaShoá, o dia da memória do Holocausto. As sirenes tocam e o trânsito pára em Israel. Escolas e comunidades judaicas de todo o Mundo organizam palestras e exposições sobre o tema. Lembramos com solenidade nestas duas datas as maiores tragédias que caíram sobre o nosso Povo. Os milhões de Judeus que morreram e a glória do nosso passado. Todavia, não temos nenhuma data dedicada aos descendentes dos "Filhos de Israel" que nunca chegaram a ser Judeus.

A destruição do Templo, a Expulsão de Espanha, o Holocausto foram tragédias impostas aos Judeus por outros povos. Recordamo-las com dor pelas enormes perdas que sofremos. Lamentamos os Judeus que se perderam pela acção brutal dos Romanos, da Inquisição, dos Nazis. A assimilação, porém, é uma tragédia causada por nós mesmos, dentro do próprio Povo Judeu. De livre vontade, judeus casam-se fora da fé judaica. Alguns líderes judaicos chamaram-lhe "o Holocausto Silencioso". Silencioso, porque destrói sem sangue, sem tiros, sem cinzas. Mas – é possível – sem dor?

Como crescem os filhos dos Judeus que se casaram fora do Judaísmo? Que identidade têm? Sentem-se Judeus, ou outra coisa qualquer? Talvez até tenham passado pelo brit (circuncisão) e uma espécie de bar mitzva, estudaram em alguma escola judaica, tenham alguns amigos judeus… Como pode não sentir dor um filho de pai judeu e mãe não-judia quando entra numa sinagoga e, para o minyan, ele conta tanto como o turista que veio apenas tirar fotos?

O Judaísmo é uma corrente de elos unidos, formada desde Abraão. O elemento que mantém forte a corrente é a família judaica. Pessach - a Páscoa - é a festa judaica mais familiar. Não por acaso, as figuras centrais na celebração do seder de Pessach são as crianças. É nelas, na sua integração na história e tradições judaicas, que reside a coesão de toda a cadeia de transmissão que começou com Abraão. Afinal, Abraão foi escolhido para receber o pacto divino não apenas por ser um homem justo, mas porque D’us soube que Abraão transmitiria o Seu pacto às próximas gerações.

É nas crianças judias, frutos de um casamento e de uma família judaica, que se perpetua o pacto entre D’us e Abraão (reafirmado no Sinai a todo o Povo de Israel). Pessach, que significa "passagem", é o símbolo maior da transmissão da identidade judaica. Ao vivermos Pessach como se nós mesmos tivéssemos sido redimidos do Egito, renovamos a nossa fidelidade ao Povo de Israel. Decidimos se permanecemos, com os nossos filhos, fiéis ao pacto que recebemos dos nossos antepassados e aceitamos a redenção de D'us, ou se somos dos milhões que desapareceram na escuridão.

Nota: O nome da mãe de Moisés é Yocheved.

publicado por Boaz às 18:50
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Quinta-feira, 20 de Novembro de 2008

O Mundo inteiro

Nas últimas semanas tenho andado ocupado num novo projecto. Consiste num email de Divrei Torá (textos de assuntos judaicos) escritos pelos alunos de língua portuguesa da Yeshivat HaKotel, onde eu estudo. Eu sou o responsável pelo design, a edição e a montagem dos textos.

Todas as semanas, quatro alunos escrevem textos: sobre a parashat ha'shavua (a porção semanal da leitura da Torá), lei judaica, ética judaica e uma história inspiradora. Aos poucos, o email começou a ser enviado para alguns brasileiros residentes em Israel e para alguns residentes no Rio de Janeiro. Esta semana - já saiu o número 2! - o email foi enviado também para alguns judeus em Portugal.

Numa altura em que tantos judeus estão completamente afastados da Torá, este email é mais uma tentativa de (re)aproximar - mesmo que seja de uma forma leve - alguns desses judeus aos valores judaicos.

Tal como ensina o Talmude: "Aquele que salva uma alma de Israel é como se salvasse o Mundo inteiro". Existem milhares de Mundos que simplesmente não podem ser perdidos. Não dá para fazer o papel de espectador.

publicado por Boaz às 23:07
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Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

Viver em cabanas

Os Judeus em todo o Mundo preparam-se para a festividade de Succot, a Festa das Cabanas, em memória das cabanas onde o Povo de Israel viveu durante os 40 anos do Êxodo do Egipto. Esta era uma das antigas ocasiões em que os Judeus faziam a peregrinação ao Templo de Jerusalém. Apesar de a peregrinação estar interrompida há quase 2000 anos, outras tradições persistem nesta festa.

O nome "Festa das Cabanas" deriva do facto da obrigação de residir numa cabana (sucá, em hebraico) durante os sete dias da festa. Nos primeiros dias do novo ano – o Ano Novo Judaico foi no último 30 de Setembro – milhares de famílias ocupam-se na construção da sua cabana particular. Seja no jardim, no lugar habitualmente ocupado pelo carro em frente da casa, ou na varanda, as cabanas têm aparecido como cogumelos nos bairros religiosos de Israel. São decoradas, muitas vezes com enfeites preparados pelas crianças, e transformadas em sala de jantar da família.

Na semana de Succot, as famílias devem fazer a maioria das suas actividades diárias na cabana. Devem comer todas as refeições, estudar nela. À excepção da linha Chabad do Judaísmo Ortodoxo, a tradição judaica defende que o homem deve dormir, se possível, na sua sucá.

Nos anos anteriores, costumava usar a sucá da yeshivá, apesar de optar por nunca dormir nela, tal era a desordem que a caracterizava. Dezenas de alunos costumam tirar as suas camas dos quartos, e durante a semana de Succot fazem da sucá o seu quarto colectivo. Sem os empregados da yeshivá para ordenarem o espaço, abunda a bagunça. E, para ajudar, há sempre os gatos vadios que habitualmente pernoitam no pátio da yeshivá.

Este foi o primeiro ano em que construí a minha própria sucá. Uma indústria sazonal fez surgir nos anos mais recentes, verdadeiros "milagres" como as cabanas que se montam em poucos minutos, bastando unir alguns ferros e atando uns panos ou plásticos a fazer de parede. Um dos pré-requisitos da cabana é que o seu telhado seja de matéria vegetal. Esteiras de cana ou palha e ramos de palmeira são as coberturas mais normais. A sucá, com toda a sua vulnerabilidade aos elementos da natureza e falta de conforto em relação a uma casa de tijolo e cimento, tem o simbolismo da plena confiança na protecção de Deus.


Inspecção do etrog no mercado das "quatro espécies", antes de Succot.

Para lá das cabanas que dão nome ao festival, o outro importante preceito de Succot é a presença dos arbaat ha'minim (as "quatro espécies"). São quatro tipos de plantas, usados pelos homens durante as rezas matinais dos sete dias. O ramo ainda fechado de uma palmeira (chamado lulav), dois ramos de chorão (aravá), três ramos de murta (hadas), e uma cidra (etrog), um fruto aparentado com o limão.

Um "quase-limão" por 20 Euros

A Halachá (Lei Judaica) é muito rigorosa com as características que devem ter cada uma das "quatro espécies". Nos bairros religiosos das cidades israelitas, surge nesta época um mercado especial para venda dos arbaat ha'minim. São centenas de vendedores que tentam atrair a clientela. Milhares de compradores verificam os ramos de murta e de chorão, inspeccionam cuidadosamente as pontas das folhas do lulav e, especialmente a cidra. Muitos usam lupas para conseguirem vislumbrar o mais pequeno defeito. O etrog, pela sua beleza e raridade – é difícil encontrar um exemplar perfeito – chega a atingir somas incríveis, para um fruto que parece um limão apenas um pouco mais rugoso.

Uma metáfora descreve as "quatro espécies" como os quatro tipos de Judeus. O lulav, que tem sabor (pelos seus frutos, as tâmaras) mas não tem cheiro, simboliza os Judeus que estudam Torá mas são pobres em boas acções. O hadas, ou murta, tem bom cheiro, mas não tem sabor, representa os Judeus que fazem boas acções, mas carecem de estudo da Torá. A aravá, ou chorão, não tem sabor nem cheiro, é como os Judeus que não estudam Torá nem fazem boas acções. O etrog, um fruto saboroso e com bom cheiro, simboliza os Judeus que são estudiosos da Torá e fazem boas acções. No entanto, tal como o conjunto não serve para cumprir o preceito se lhe faltar algum dos elementos, o Povo de Israel também não está completo sem cada um dos Judeus. Com todas as suas diferenças.

Apesar de alguns sinais da crise económica que também já começam a notar-se em Israel, o entusiasmo dos fiéis para cumprirem da melhor forma as mitzvot (os preceitos judaicos) da sucá e das "quatro espécies", não diminuiu. A agitação no mercado é a melhor prova. Se a chuva não estragar a quadra, impossibilitando dormir ou comer na cabana, o frio que já se começa a sentir, será o único senão da festa.

publicado por Boaz às 15:00
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Domingo, 10 de Agosto de 2008

1940 anos...

...desde a destruição do Templo de Jerusalém, o Beit Hamikdash. Hoje, passam 1940 anos desde que os Romanos, liderados por Tito, destruíram o Templo de Jerusalém. Na mesma data, 550 anos antes, o exército babilónico de Nabucodonossor, havia destruído o Templo original, mandado construir pelo Rei Salomão. Hoje, dia 9 do mês de Av do calendário judaico, é dia de luto e jejum para o Povo de Israel.


Templo de Herodes no modelo de Jerusalém da Época do Segundo Templo, Museu de Israel

Além da destruição dos dois Templos, outras calamidades se abateram sobre os Judeus ao longo da História, desde então. A fortaleza de Beitar, o último reduto judaico durante a revolta de Bar Kochba contra o domínio de Roma, foi capturada pelos romanos no dia 9 de Av do ano de 135. A sua conquista ditou o exílio dos Judeus da Terra de Israel. No ano seguinte, na mesma data, a cidade destruída de Jerusalém foi arada.

Na era pós-Talmúdica, outras tragédias judaicas ocorreram. A mais catastrófica terá sido a Expulsão de Espanha em 1492 E.C., que marcou a destruição da mais brilhante das comunidades judaicas na Diáspora, pondo fim à Idade de Ouro dos Judeus de Espanha. O decreto dos Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, ordenava que, até ao final de Julho desse ano, nenhum judeu seria autorizado a permanecer em solo espanhol: "Qualquer um que viole a nossa ordem, que não saia durante este período e seja depois encontrado onde quer que seja dentro do nosso domínio, será sujeito à morte na forca ou à conversão ao Cristianismo." Uma extensão foi garantida até ao dia 2 de Agosto, a data coincidente com o dia 9 de Av. "Eles foram sem força - 300.000 viajando a pé, incluindo eu. Crianças, os velhos, e as mulheres, apenas num dia, de todas as províncias do rei - para onde os ventos os levaram, eles foram." (Comentário ao Livro dos Reis, Dom Isaac Abarbanel).

A Primeira Guerra Mundial começou na véspera de 9 de Av de 1914, durante a qual morreram milhares de judeus. Além disso, a derrota alemã na guerra serviu de base ao início do Holocausto. Durante a Segunda Guerra Mundial, na véspera do dia 9 de Av de 1942 começou a deportação em massa dos judeus do Gueto de Varsóvia, a caminho do campo de extermínio de Treblinka.

Acompanhada pela lembrança de todas as tragédias ocorridas nesta data, existe também a esperança da reconstrução do Templo e na Redenção de Israel. Afinal, de acordo com a tradição, o Mashiach nascerá no dia 9 de Av. Os sinais do renascimento judaico e da proximidade da Redenção são permanentemente lembrados nos círculos religiosos, um deles é "quando a terra de Israel voltar a dar os seus frutos". Assim como o evidente regresso do Povo de Israel à sua terra e a reconstrução das suas cidades.

Como relatam as Escrituras: "Aproximam-se os dias – diz o Eterno – em que o que semeia encontrará o que ceifa, e o que pisa as uvas com o que lança a semente. E as montanhas destilarão vinho doce, e as colinas se derreterão (em leite). E farei o Meu povo voltar do cativeiro, e reconstruirão as cidades assoladas e as habitarão; plantarão vinhas e beberão o seu vinho; cultivarão pomares e saborearão os seus frutos. Eu os plantarei no seu próprio solo, e não serão mais arrancados da terra que lhes dei – diz o Eterno, seu Deus." (Amós 9:13-15)

publicado por Boaz às 16:22
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Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

"Este é o dia que o Eterno fez"

Ainda a tinta das assinaturas na Declaração de Independência de Israel não tinha secado e, cinco nações árabes (Egipto, Transjordânia [actual Jordânia], Síria, Líbano e Iraque) alinhavam as suas tropas frente às fronteiras demarcadas pela ONU, prontas para invadir o recém-criado Estado Judaico. A estratégia árabe era simples e previa que a derrota judaica seria alcançada num prazo de uma ou duas semanas apenas.

Isto foi há 60 anos. Israel ficou abalado. Resistiu. Triunfou. Alguém religioso não nega o magnífico "dedo de Deus" presente em muitos dos momentos históricos destas seis décadas em Israel. Mesmo os cépticos certamente se perguntam como esta pequena nação, composta na sua maioria por refugiados, conseguiu erguer um país como o Israel do presente. Um puzzle social confuso, composto de peças dificilmente ajustáveis: judeus e árabes, religiosos e seculares, sefarditas e askenazitas, ex-soviéticos, americanos, etíopes, peruanos, filipinas e tailandeses.

O "milagre israelita" não é fantasia. É conhecida a metáfora do pequeno território composto, ainda há menos de um século, por pântanos e desertos, transformado num fértil jardim. As coisas não acontecem por acaso. Tudo - tudo mesmo - em Israel funciona à custa de muito suor e engenho humano. E fé. Da irrigação dos campos ao trânsito na auto-estrada.

Vim pela primeira a Israel em 1999. Queria passar dois meses das minhas férias de Verão no país, gastando o mínimo de dinheiro possível. Ser voluntário num kibbutz foi a opção ideal. Sem conhecer ninguém no país, sem falar nada da língua local. (Valeu-me o meu inglês.) À chegada, a surpresa: um país verdadeiramente moderno. É certo que já tinha visto imagens de Israel na TV, mas ao vivo é outra sensação. Os arranha-céus de Tel Aviv. Um mito destruído de imediato: a influência americana era quase inexistente. Cartazes publicitários em hebraico! Como era possível viver num país moderno sem usar uma língua ocidental? Peço desculpa pelo eurocentrismo idiota.

Nessa altura, o meu interesse em Israel já não era meramente turístico ou mesmo cultural. Eu estava a bater à porta do Povo de Israel. Nos meus planos, mesmo desconhecendo inteiramente o alcance desse ideal, estava uma conversão ao Judaísmo. Passaram-se anos até voltar a pisar a Terra Santa. Na segunda visita, de apenas 11 dias, o meu processo de conversão já dera muitas e difíceis voltas, mas finalmente começara a tomar forma.

Em apenas quatro meses estaria de volta. Para sempre. Nem eu sabia à partida. Conseguira uma vaga num curso oficial de conversão ao Judaísmo, nos arredores de Jerusalém. Sem trabalho fixo em Portugal, sem ter uma família para sustentar, pouco me prendeu em casa. Fiquei seis meses no curso de conversão e entretanto entrei numa yeshiva. Pela primeira vez, entrei a fundo no mundo religioso judaico.

Sem planos para ficar em Israel, a princípio planeei ficar apenas 6 meses. Ir, converter-me, voltar. As minhas identidades portuguesa e judaica pareciam perfeitamente equilibráveis. O retorno à minha vila da Batalha foi estranho. Eu era um estranho. Foi um regresso a casa, apenas de visita. Fui um turista na minha terra natal. Foi um alívio voltar a Jerusalém.

As mudanças são muito rápidas e radicais para quem vive por estes lados. Em 2005, chegara quando ainda se sentia em força o abalo da destruição dos colonatos de Gaza. Passei cá a Segunda Guerra do Líbano, com os telefonemas quase diários da minha mãe, aterrada com as violentas imagens da guerra transmitidas pela televisão. Implorou-me para voltar para casa. Tentei, como podia, descansá-la. "Que iria eu fazer a Portugal?", pensei. Não queria sair naquela hora difícil. Não queria ter problemas para voltar, caso saísse.

Frequentemente recebo mensagens de amigos em Portugal que me pedem para voltar. Alegam que esta não é a minha terra. Que não tenho nada a fazer por aqui. Que o meu lugar é em Portugal. Entendo o ponto de vista deles. Um emigrante é visto como um ente temporariamente distante. Não conhecem a essência da emigração para Israel. Afinal, transplantar as raízes para um novo lugar é sempre um choque, também para a terra deixada vaga. Israel foi recém reimplantado nesta terra. Recém, se lembrarmos a cadeia de mais de 3500 anos de história judaica. Todos os que, como eu, decidiram viver aqui, são parte deste novo e impressionante reflorescimento judaico na Terra de Israel.

Estou em Israel há menos de três anos. Como judeu, há quase dois. Como cidadão, ainda não completei sequer um ano. Casei por cá, há exactamente um mês. Não me consigo imaginar a viver, de forma permanente, noutro lugar. Ao fim de um ano de aliya, dentro de alguns meses, vou poder tirar o passaporte israelita. Um ano de israelita em 60 anos de Israel.

Nota: O título provém de um versículo entoado na recitação de Halel, o conjunto de cânticos de louvor a Deus entoados nos dias mais alegres do ano. O Dia da Independência de Israel é um desses dias.

A ideia para este artigo partiu de Nuno Guerreiro, um jornalista judeu português residente em Nova Iorque e autor do excelente blog Rua da Judiaria. A intenção dele era publicar textos de escritores, jornalistas e bloguistas de língua portuguesa residentes em Israel. (A minha foto que acompanha o artigo já tem uns aninhos, mas, verdade seja dita, eu também não mudei assim tanto).

publicado por Boaz às 16:44
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Domingo, 4 de Maio de 2008

Mar da Tranquilidade

Depois de uns dias "off", com tantas coisas em que pensar para lá do blog, regresso a esta humilde casa virtual.

Desde o início do mês de Abril, tive imensos assuntos a tratar para o casamento e a passagem para a minha nova casa – a real, não a virtual. A mudança para a nova casa foi a coisa que deu mais trabalho. Marcada primeiro para um dia, depois adiada porque a família que ocupava o nosso futuro apartamento ainda não tinha tirado todas as coisas e limpo o lugar. E a dor de cabeça começava. Como levar todos os nossos pertences, e arrumar tudo, ainda a tempo da data do casamento?

Tínhamos recebido a maior parte dos móveis da casa, de uma organização de beneficência: os móveis do quarto, um roupeiro imenso, a mesa da sala, o fogão e o frigorífico. Sem podermos ainda levá-los para o nosso futuro lar, tivemos a mão generosa de uns vizinhos amigos que nos dispensaram a sua cave como armazém provisório. As mobílias que faltavam, decidimos comprá-las em segunda-mão, através da Internet.

Tudo o que eu tinha acumulado na yeshiva levei, em várias viagens de autocarro, para o apartamento de solteira da minha futura esposa, no bairro de Kiryat Yovel, em Jerusalém. Pedimos caixas num supermercado vizinho. Passámos dias a encaixotar roupas, livros, louças, CDs.

Entretanto, quando faltava uma semana para o casamento, concordámos em seguir a tradição judaica de o futuro casal não se encontrar durante uma semana inteira. Concordámos também, dada a quantidade imensa de coisas que ainda tínhamos para tratar, de nos falarmos por telefone e trocarmos mensagens. Comunicação por telepatia não é a minha especialidade.

No dia da mudança, a viagem da carrinha de transporte iria ter várias paragens. Primeiro, no bairro de Baka, em Jerusalém, para recolher os sofás-cama para o futuro quarto das crianças (entretanto usado como quarto de possíveis visitas e sala do computador). Coordenado ao minuto com a hora em que o antigo dono dos sofás iria estar em casa, antes de partir para o trabalho. Depois, um trabalho extra da empresa de mudanças. A seguir, uma saída até Givat Zeev, a norte de Jerusalém, onde foram recolhidos os sofás da sala. Quase na hora limite de a dona dos sofás sair de casa… Regresso a Jerusalém para levar todas as caixas do apartamento de Kiryat Yovel. Destino: Alon Shevut, um pequeno colonato no bloco de Gush Etzion, 15km a sul de Jerusalém.

O pequeno apartamento do bairro antigo do colonato ficou atulhado de caixas e mobílias fora do lugar. Decidimos não manter um dos sofás na casa, dado que a sala ficaria demasiado apertada com dois sofás. Montar a cama de casal, entregue em peças, foi uma empreitada só à altura de especialistas em puzzles. Ao menos podia dormir na cama das visitas, montada na hora pela equipa das mudanças. O enorme e lindo roupeiro de seis portas para o quarto de casal, teve de regressar ao armazém de conveniência na casa dos vizinhos. Obsoleto no quarto de casal, onde já existe um roupeiro de parede, estava destinado ao futuro quarto das crianças, mas… Era demasiado alto para o baixo tecto daquela divisão. O dono da empresa de mudanças foi simpático em emprestou-nos um outro roupeiro, mais pequeno.

Consegui arrumar muitas das coisas trazidas pela carrinha das mudanças. O resto foi empilhado num canto do quarto. Para ir sendo arrumado. Devagar, ao ritmo das necessidades.

Aos poucos, a nossa casa foi-se compondo. A generosidade dos vizinhos e famílias conhecidas do colonato é infindável. De tempos a tempos ligam-nos a dizer que têm algo para nós. Algo que já não usam, ou que receberam e não precisam e que nos querem oferecer.

A máquina de lavar roupa, também oferecida, foi entregue alguns dias depois da boda. Mas esteve várias semanas sem sair da respectiva caixa. Teria de ser um técnico a instalá-la, para não perdermos a "garantia". A montanha de roupa suja foi crescendo até ocupar metade da – já de si apertada – casa de banho. No dia em que foi finalmente montada, foi um alívio. Menos para a máquina: saía uma carga de roupa, entrava outra. Até não haver mais espaço no estendal.

A lista de coisas que ainda nos faltam vai sendo cada vez mais curta. A vida segue tranquila. Telefone, Internet. Tudo já está tratado. Agora falta alterar o nosso endereço. E mudar de documentos. O "solteiro" no estado civil é coisa do passado.

publicado por Boaz às 20:48
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Quinta-feira, 13 de Março de 2008

Órfão de filho

Na maioria – se não mesmo na totalidade das línguas do Ocidente, não existe um termo para denominar um progenitor que perde um filho. Alguém que perde o pai ou a mãe é órfão. Alguém cujo cônjuge morre é viúvo. No entanto, não existe termo para quem perde um filho. Talvez a incapacidade de definir tal situação extrema, tenha deixado essa lacuna no dicionário. Em hebraico, essa palavra existe: shakul, um termo que traduz a ideia de desamparo ou solidão.

Dias depois da tragédia na yeshiva Mercaz Harav, o ambiente na Yeshivat Hakotel, onde eu estudo, continua muito pesado. Mesmo entre os brasileiros, que pela sua natural maneira de ser, costumam mostrar-se mais descontraídos que a maioria dos outros povos. Podia ter sido aqui o ataque, creio ser o sentimento geral.

Acompanhado do choque adicional de um dos jovens mortos, Yohai Lifshitz, ser filho de um dos directores da minha yeshiva. No momento do enterro, o Rav Tuvia Lifshitz, pai de Yohai disse: "agradecemos a Deus pelo privilégio de termos vivido com Yohai durante 18 anos". Parecerá uma resposta fria para alguém que no dia anterior perdera um dos seus filhos. Parecerá um desprendimento absurdo em relação aos filhos, à vida. Parecerá, mas apenas para quem não acredita em Deus.

Ontem, terça-feira, o grupo dos alunos sul-americanos da yeshivat Hakotel – no qual eu estou incluído – foi prestar condolências ao Rav Lifshitz. Na incapacidade de receber tantos visitantes na sua pequena casa, foi montada uma tenda na varanda do telhado. Sentado numa cadeira baixa, o pai de Yohai recebeu durante vários dias milhares de pessoas, chegadas de todo o país. Assim que cheguei, não consegui deixar de reparar no que se passava no telhado de uma casa vizinha. Um muçulmano rezava, virado para sul, na direcção de Meca.

Sendo impossível de imaginar a dor da perda da família, era todavia incrível a calma emanada da face do pai enlutado, mesmo passados alguns dias da tragédia de Mercaz Harav. O Rav Tuvia falou do exemplo do filho, do amor que tinha pelo estudo e do alto valor que Yohai dava ao tempo. O tempo que lhe foi tão tragicamente cortado. A confiança inabalável no Criador mostrada pela família é profundamente inspiradora.

As respostas teológicas perante uma tragédia destas não são fáceis de aceitar. Todas as coisas e criaturas, seres humanos incluídos, têm um papel e uma missão no Mundo. Quando a sua missão termina, essa coisa, criatura, pessoa, cessam de existir. Yohai e os seus sete companheiros de estudo terminaram a sua missão. Reuniram-se a Deus, a causa inicial de tudo. O facto de terem morrido enquanto estudavam Torá, o mais valioso dos preceitos judaicos, encerra na sua partida terrena um significado especial.

No Judaísmo não existe o culto da morte. Em vez de manifestações violentas nas ruas, das yeshivot saíram apelos ao fortalecimento do estudo de Torá. Na Yeshivat Hakotel definiram-se períodos especiais diários para o estudo de ética judaica e do tratado talmúdico de Meguilá, ligado ao festival de Purim que se aproxima no calendário. É um tempo de introspecção e de melhoramento individual, dominado por todas as perguntas difíceis que podemos (e devemos) fazer nestes dias, mesmo apenas para nós próprios.

Enquanto isso, no bairro de Jabel Mukaber, na zona oriental de Jerusalém, a família do terrorista morto, um árabe de nacionalidade israelita, montou uma tenda para receber aqueles que lhe queiram prestar homenagem. E hasteou as bandeiras do Hamas e do Hezbollah. (A polícia israelita retirou finalmente as bandeiras, que vergonhosamente permaneceram hasteadas vários dias). Alaa Abu D'heim é mostrado como um herói. O "heroísmo" celebrado não é aquele que advém da salvação, da ajuda ao próximo, ou da vida, mas da destruição e da morte. Uma das formas mais seguras de medir o carácter das pessoas (e dos povos), é saber quem são os seus heróis. Eles exemplificam o seu sistema de valores.

Tal como os pais de Yohai, também os pais de Alaa são shakulim, desamparados. Porém, enquanto dos pais de Alaa enaltecem o seu "martírio" sangrento que causou oito mortes entre os inimigos; os pais de Yohai enaltecem a vida do filho e o seu último momento, estudando, debruçado sobre o tratado talmúdico de Menachot, o qual descreve um dos tipos de sacrifícios oferecidos no antigo Templo de Jerusalém. A diferença entre Alaa e Yohai é tão evidente como a que existe entre a escuridão absoluta e a luz.

publicado por Boaz às 22:20
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Domingo, 2 de Março de 2008

A Luz e o "buraco negro"

Nas preparações para o casamento – felizmente está tudo a correr de forma tranquila – um dos obstáculos mais aborrecidos de transpor é a pesadíssima burocracia israelita. Se a burocracia civil é conhecida por ser demorada e atrofiante, a burocracia religiosa não é mais eficiente. Atrasos, falta de organização, pouca simpatia e ineficiência dos funcionários imperam em ambos os campos.

Na esperança de ultrapassar algumas dificuldades, decidimos abrir o processo de casamento no antigo local de residência da minha futura esposa – um local menos populoso e, por causa disso, onde a burocracia é menos morosa. Ilusão. Como eu nunca morei no local, tive de abrir o meu processo em Jerusalém, o local onde moro actualmente. Aí, a burocracia assenta bem no modelo de instituição pesada e ineficaz.

Tivemos de pedir vários documentos no Tribunal Rabínico de Jerusalém. No nosso caso, precisávamos de um "atestado de identidade judaica" para a minha noiva. Para mim, um "atestado de solteiro", já que os documentos do tribunal rabínico que julgou o meu processo de conversão servem como atestado que sou judeu. Abrir pasta aqui, ir pagar acolá, marcar entrevista para outro dia. Ir, esperar, fazer, esperar, assinar, receber, esperar, carimbar...

Nestes meandros burocráticos, uma das tarefas mais complicadas é a obrigatoriedade da presença de duas testemunhas para atestar a veracidade dos factos, quando se pretende fazer um documento. Encontrar duas testemunhas idóneas, disponíveis e conhecedoras, que pudessem afirmar a favor das nossas pretensões: por um lado, que a minha noiva é judia e por outro, que eu sou solteiro.

O tribunal situa-se no edifício onde funcionou o parlamento israelita entre 1950 e 1966, no centro de Jerusalém. Em Israel, a lei civil não contempla as áreas de casamento e divórcio, sendo estes assuntos regulados exclusivamente pelas autoridades religiosas – judaica, cristã e islâmica. Por isso, religioso ou não, toda a gente que decida casar-se, tem de passar ao menos uma vez por um tribunal rabínico.

Nas mesmas salas onde se prestam pacíficos testemunhos para casamento, também se ouvem histórias por vezes escabrosas que envolvem o litígio dos casais em processo de divórcio. O segredo dos depoimentos é assegurado pela arquitectura: as salas são hermeticamente fechadas, as portas são almofadadas do lado de fora para abafar o som e, ao mesmo tempo, evitar que as pessoas que esperam (e desesperam) do lado de fora, não possam bater na porta, incomodando o juízo que decorre no interior.

Os inconciliáveis mundos religioso e secular, que vivem lado a lado, na sociedade israelita, encontram-se também nos corredores deste tribunal. Mulheres não-religiosas são facilmente topadas por usarem calças, quase sempre justas, por menos elegantes que possam ser os seus corpos. Numa sociedade onde o sinal mínimo de religiosidade masculina é o uso de kippa, os homens não-religiosos notam-se pela cabeça descoberta. Ou então, por usarem uma kippa que não condiz com o resto da roupa. Calças de ganga, blusão de couro e... kippa de veludo negro!? Esse não engana ninguém.

À entrada das salas de juízo, um diligente funcionário verifica se todos os homens entram com a cabeça coberta. Invariavelmente, a kippa disponível será de veludo negro. Apesar de o estilo "nacional religioso" prescrever a kippa tricotada, o sistema judicial rabínico é dominado pelos ultra-ortodoxos, que usam a kippa de tecido negro. E essa é a única moda oferecida aos que não levam a sua própria kippa.

À saída das salas é fácil perceber para o que estão as pessoas no local. Caras alegres e descontraídas são sinal de estarem a tratar de assuntos de casamento. Há gente que sai a chorar, após relatarem as mágoas de um casamento terminado em desastre.

A lei judaica permite o casamento e o divórcio. Pode ser que alguns dos separados nos juízos de hoje, dentro de alguns meses ou anos, voltem a cruzar os corredores da burocracia. Nessa altura trazendo de novo testemunhas, para depoimentos de felicidade, para assim conseguirem refazer as suas vidas junto com outra pessoa.

As kippot que não combinam, as mulheres de calças justas, os homens barbudos e de capota negra, os escriturários de pena e tinteiro na mão, os funcionários diligentes, as lágrimas dos frustrados e os imponentes juízes rabínicos estarão lá, juntos, a compor o surrealista quadro da burocracia nacional.

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Sexta-feira, 18 de Janeiro de 2008

Entre nós

"Se eu sou eu porque tu és tu, e tu és tu porque eu sou eu; então eu não sou eu e tu não és tu. Porém, se eu sou eu porque eu sou eu, e tu és tu porque tu és tu, então eu sou eu e tu és tu."

Em Siach Sarphei Kodesh, Rebbe de Kotzk

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Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2008

A farra e o julgamento

Ano Novo vs. Ano Novo

Em Israel, as celebrações do Ano Novo na noite de 31 de Dezembro, são bastantes discretas. Em Jerusalém, regida pela lei religiosa judaica, nem se dá conta delas. No máximo, alguns foguetes lançados de um dos bairros cristãos. Até as celebrações do milénio, tão apregoadas mundialmente, foram quase ignoradas na Cidade Santa. Ainda mais porque o fim do milénio coincidiu com o Shabbat e nesse dia é proibido o uso do fogo. E logo, também do fogo de artifício. Assim, não houve qualquer celebração oficial. Em Tel Aviv, onde, em muitos aspectos domina a cultura ocidental, há alguns bares, discotecas e hotéis que organizam algumas festas de Fim de Ano para os turistas e a juventude ocidentalizada.


Toque do shofar na sinagoga, postal alemão, início do séc. XX

O calendário hebraico conta os meses e os anos de forma distinta do calendário gregoriano. Os dois dias de Rosh Hashana, o Ano Novo Judaico, caem normalmente entre meados de Setembro e o início de Outubro. A essência das duas celebrações de Ano Novo não poderia ser mais distinta. Enquanto o Reveillon é dominado pela folia, o champanhe e o divertimento até cair para o lado, o espírito do Rosh Hashana é a submissão ao julgamento divino.

No último mês do ano judaico, Elul, apela-se à introspecção, ao arrependimento, à reconciliação. Entre os judeus sefarditas – judeus de origem portuguesa, espanhola e dos países árabes – é o mês de selihot, rezas especiais a meio da noite com o objectivo de alcançar esse estado de purificação espiritual.

Com a chegada do Rosh Hashana, o ambiente é solene. Ao mesmo tempo, existe a consciência de que cada ser humano está a ser julgado pelos seus actos durante o ano que passou. Julgado não por um qualquer falível e parcial juiz humano, mas pelo Juiz dos juízes. É o dia do reconhecimento de Deus como o Rei. Por isso, apesar da atitude de submissão perante o soberano máximo do Universo, não há mortificações de espécie alguma ou jejum. Com a devida diferença: também no dia da coroação de um qualquer rei de carne e osso, é dia de festa em todo o reino. Ainda mais sabendo que, apesar de, a par da sua omnipotência, o Rei dos Reis é também misericordioso.

Uma das poucas coisas comuns entre o Ano Novo e o Rosh Hashana é o formular de desejos para o ano que se inicia. No entanto, em vez de 12 passas, os judeus comem várias comidas simbólicas. Que o ano seja doce como a maça mergulhada no mel... Que os preceitos cumpridos sejam tantos como as sementes da romã...

A 31 de Dezembro nas discotecas troam os últimos sucessos da música. Nas sinagogas, em Rosh Hashana, repete-se a milenar tradição de soar o shofar, o corno de carneiro. A 1 de Janeiro, depois dos excessos da farra, há que ultrapassar a ressaca. No final da celebração do Rosh Hashana, com a confiança após o julgamento divino, a vida segue renovada.

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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

Mais do que uma questão dérmica

Lição básica de conduta em Israel

Todas as sociedades têm os seus códigos de conduta pública. O faz-se e o não se faz. Por exemplo, no Japão as pessoas cumprimentam-se com uma vénia – incluindo os apresentadores de notícias perante os telespectadores. Na Suécia, é considerado uma enorme falta de educação arrotar em público. Em Portugal, quatro pessoas não apertam as mãos ao mesmo tempo, fazendo um aperto por cima do outro. No Uruguai e em França, os homens cumprimentam-se com um beijo. São códigos que cada um aprende em contacto com a sociedade onde vive.

Em Israel, uma das regras entre a sociedade religiosa é: homens e mulheres não se tocam. A não ser entre o casal e pessoas de família muito chegadas. O que exclui também os casais de namorados. No que diz respeito a cumprimentos: homens cumprimentam homens com um aperto de mão ou abraço, as mulheres cumprimentam-se com um beijo, abraço ou um aperto de mão. Com o sexo oposto o cumprimento resume-se à forma oral: “Shalom”, "Como está?" e afins. Toque, nem pensar.

No ambiente militar, onde toda a sociedade israelita se mistura, o contacto entre os sexos foi ultrapassado em parte pela instituição dos batalhões para soldados religiosos. Nas bases em que se encontram estes batalhões, em geral não servem soldados do sexo feminino. Mesmo assim, entre as comunidades haredim (ultra-ortodoxas) existe uma tradicional oposição ao serviço militar. Por um lado, essa oposição deriva de uma opinião geral contra o Estado. Porém, mais do que a questão política, levanta-se a questão do contacto entre membros dos dois sexos, restringido pela Halacha, a lei judaica. Quem cumpre este código dentro da Halacha chama-se shomer neguia (guardar o contacto).

Em alguns sectores este comportamento é por vezes levado ao extremo. É o caso dos transportes públicos. Mesmo que a Halacha não prescreva qualquer limitação especial nestas situações, é costume aceite que homens e mulheres – não casados entre si – não se sentam um ao lado do outro. Em várias linhas de autocarros de Jerusalém que passam por bairros de população judaica haredi, impera a regra (não-oficial) "homens à frente, mulheres atrás".

Por vezes, as mulheres até entram no autocarro pela porta traseira, para evitar atravessar a "secção masculina". Mandam depois alguma criança – livre desses constrangimentos separatistas – pagar o bilhete ao motorista. No entanto, na maior parte dos casos, os autocarros estão tão lotados, que homens e mulheres têm de andar "perigosamente juntos". O que origina sistematicamente protestos das comunidades haredim aos serviços da Eged, a empresa de transportes públicos local.

Em Jerusalém, dominada pelo estilo de vida religioso – mesmo que não seja seguido por todos – esta regra é cumprida. As surpresas surgem quando, mesmo em Israel, se muda de cidade. Em Haifa, por exemplo, a população religiosa é muito menos influente e nem toda a gente conhece estes códigos. Há dias, de visita a uma família amiga da minha noiva, à chegada a sua casa, deparei-me com esta realidade.

A dona da casa abraçou calorosamente a minha noiva e a minha futura cunhada. Quando chegou a minha vez, ela estendeu a mão perguntando ao mesmo tempo "Toca, não toca?". A minha noiva apressou-se a avisar: "Não, não toca". Não houve grande embaraço, desta vez. A senhora entendeu. Mas há momentos em que as pessoas não entendem e sentem-se ofendidas.

Em alguns casos, face a uma mão estendida, dizem as regras que, se não der para resolver a questão de outra forma, é melhor dar mesmo o aperto de mão à senhora, do que causar o seu embaraço. "É preferível deixar-se lançar num fornalha em chamas, que causar vergonha ao seu vizinho".

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Quarta-feira, 20 de Junho de 2007

A atracção do Oriente

Há dias, de regresso a casa, depois do meu último Shabbat em Lisboa – também o último como cidadão (unicamente) português, quando mudava de linha de Metro na estação do Marquês de Pombal, ouvi alguém falar hebraico.

- 'Slihá'? Como quem diz 'faz favor?', alguém perguntou atrás de mim. Virei-me e dei de caras com um barbudo de turbante. Em hebraico, perguntou-me se eu falava hebraico, ao que eu respondi com um 'caha, caha'. Assim-assim... ainda mais após dois meses sem quase praticar, menos razões para responder com um 'sim' directo.

Perguntou-me se eu era judeu. Julgou que também poderia ser muçulmano, dado que havia uns 'árabes' que também cobriam a cabeça com umas 'toucas' brancas idênticas a kippot. Não, não, sou judeu mesmo.

Fiquei intrigado com o facto de o barbudo de turbante – que eu tinha pescado assim que tinha saído do metro anterior – saber falar hebraico. É que eu sou judeu e já vivi em Israel.

Pelo louro das barbas e os olhos claros e ainda mais pelo sotaque do hebraico, só podia ser russo. Disse chamar-se Baruch. (Abençoado). Resolveu dar-me o número de telemóvel e o endereço de e-mail, que escreveu no meu bilhete de metro. Não havia mais nenhum papel disponível e eu estava com uma pressa enorme para chegar à estação dos expressos.

Acabei por nem lhe escrever nem telefonar, mas Baruch fez-me pensar. Pelo seu modo de se vestir percebi que era sikh – membro de uma religião da Índia que mistura elementos do hinduísmo e do Islão. A barba longa, o turbante (azul, no seu caso) e a pulseira no braço direito. Baruch é apenas mais um caso de um judeu atraído pelo modo de vida oriental. Hinduísmo, sikhismo, taoísmo e especialmente o budismo atraem cada vez mais ocidentais. Judeus incluídos.

Nos Estados Unidos é sabido que uma parte substancial dos adeptos do Budismo são judeus ou de ascendência judaica. O primeiro americano a converter-se ao Budismo terá sido mesmo um judeu, no final do século XIX. Os casos sucedem-se. Alan Ginsberg, fundador do movimento beat dos anos 60, ou o cantor Leonard Cohen são apenas dois exemplos famosos. Alguns tentam fazer uma mistura entre as duas culturas. De uma dessas experiências forjou-se o termo 'JuBu', Judeu Budista, descrita no best-seller The Jew and the Lotus: A Poet’s Rediscovery of Jewish Identity in Buddhist Índia.

Em Israel, milhares de jovens recém-saídos do serviço militar viajam todos os anos para a Ásia, com predilecção pela Índia e a Tailândia. Aí, além das intermináveis 'raves' incensadas a pozinhos psicotrópicos e regadas a álcool nas praias de Goa, têm contacto com as filosofias orientais. Vindos, na maioria, de ambientes pouco ou nada religiosos, muitos ficam seduzidos pelo encanto da meditação, do transe e até da austeridade monástica.


Meditação na floresta, Safed. Da colecção de fotos de haredim de Yaacov Kaszemacher

Para muitos aquela é uma experiência passageira, durante o ano livre até voltarem a casa. Para outros, de regresso a Israel, mantêm os hábitos mais ou menos espirituais adquiridos no Oriente. Muitos, envolvidos pela primeira vez nas suas vidas num ambiente de meditação e religiosidade, acabam até por descobrir as suas raízes judaicas e tornarem-se judeus religiosos.

E finalmente descobrem que o Judaísmo tem também uma riquíssima tradição de meditação.

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Sábado, 13 de Maio de 2006

Porque sou assim ou nada é por acaso

"Uma das coisas que, desde há dois anos, se me revelaram foi como todos os impérios - romano, grego, babilónio, III Reich - desapareceram, mas esta pequena tribo persistiu, apesar de ter sido perseguida por todos eles.

Eu queria compreender qual era o segredo disso, o que, apesar de dispersos pelo mundo, os manteve unidos, o que os impediu de serem assimilados.

Toda a ideia do judaísmo é a de um grupo de pessoas que constitui uma comunidade. Se eu, todos os dias, fizer as orações judaicas, tenho a certeza que tal acontece desde há 3000 anos, pelo mundo todo, passando de geração em geração.

O meu avô e o meu pai decidiram cortar com tudo isso, eram homens de negócios. Quando tomei consciência do que pensariam os meus antepassados acerca destes dois homens, disse: 'Isto não está certo, não temos o direito de fazer uma coisa destas, de quebrar esta corrente!'

A minha fé em Deus é algo em que ainda tenho de trabalhar. Mas, mesmo assim, escolhi viver como judeu, porque descobri que não posso viver o meu dia-a-dia de outra forma, aquela perspectiva de procurar que tudo o que acontece em cada dia seja divino.

Toda a minha visão acerca do futuro se modificou, trabalho activamente para ele. Quero deixar uma marca. Neste Verão vou tocar em Telavive. (...) É por isso que agora penso que faz todo o sentido se o relacionar com o meu judaísmo. Sem o judaísmo, nunca teria tocado ao vivo, nunca teria sentido esta obrigação de lidar com as outras pessoas.

 

 

Estas são palavras de David Berman, único elemento da banda hipotética "Silver Jews", que só agora, ao fim de quatro álbuns gravados, decidiu pisar os palcos. Da Revista Actual, do Expresso, de 6 de Maio de 2006.

Salvo alguns detalhes mais ou menos biográficos, poderia muito bem havê-las dito eu.

 

 

O objectivo é "tikkun olam", reparar o Universo. Todos os dias, a mais pequena acção deverá melhorar um pouco todo o Universo. Temos obrigação de fazer aquilo que está certo. Todas aquelas pequenas coisas que eu fazia, como mentir ou enganar alguém, não são pequenas, são muito grandes. (...)"

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Sábado, 30 de Abril de 2005

Páscoa, sentido de liberdade

Este ano aqui, para o ano em Jerusalém!

Este ano tive a primeira experiência da Pessah (Páscoa Judaica) vivida em comunidade. Nos outros anos costumava lembrar-me do dia, com a ajuda de um calendário, e pensava, no meu cantinho, naquilo que inúmeras famílias e comunidades do mundo inteiro poderiam estar a fazer naqueles dias.

Na semana anterior desenrolei-me em tarefas comuns em cada casa judaica nesta época do ano. A principal das quais é a eliminação de todo o género de comidas feitas a partir de cereais fermentados, antes do início da Páscoa. Fermento (hametz) é coisa proibida nesta época do ano, pelo que bolachas, cereais e massas foram desaparecendo ao ritmo das refeições e o stock não foi renovado. Estando eu habituado a petiscar umas bolachinhas a qualquer hora - sou viciado em bolachas de aveia! - e a comer uma tigela de cereais antes de dormir, ter de me livrar de todas estas coisas durante uma semana, levantou-me o problema de não saber o que comer...

A Páscoa propriamente dita começou no Sábado à noite. Cheguei a pensar que ia passar o jantar pascal sozinho, apenas com a visita do Profeta Elias*, mas acabei por ser convidado para o jantar da sinagoga. (Obrigado Ana). Depois do serviço religioso - nunca tinha visto a sinagoga tão cheia, mas gente mais conhecedora disse-me que nunca ali vira tantos lugares vagos durante a Páscoa - fui ajudar a ultimar a preparação do jantar, ou seder.

A Páscoa é, por excelência, a festa judaica em que o espírito familiar é mais forte. A refeição da primeira e segunda noite da Páscoa - a festa dura oito dias - requer participação de toda a família, com especial destaque para as crianças. Durante o jantar é lida a Hagadah, onde se relata a história de Moisés que tenta convencer o faraó a libertar os escravos, os episódios das pragas que se abateram no Egipto e finalmente o Êxodo.

Eu não estava em família - com a minha família - mas o ambiente era visivelmente familiar, o que ajudou a superar a estranheza perante muitas coisas que ainda desconheço. Entre as canções e orações, comem-se diversas comidas com um significado específico. Ervas amargas lembram a dor da escravatura; um doce de maçãs, amêndoas e nozes recorda a argamassa com que os escravos hebreus construíram as cidades faraónicas; o pão ázimo, a pressa na preparação da saída do cativeiro...

Uma das mensagens da Páscoa é que devemos recordar a libertação do Egipto como se nós próprios tivéssemos sido libertados e que, ainda hoje devemos libertar-nos dos "Egiptos" que nos escravizam. É esta transposição para o presente que faz com que a tradição se mantenha e torne a Pessah tão actual.

* A tradição judaica diz que o Profeta Elias visita cada casa durante a noite da Pessah. Por isso é costume, após o jantar, deixar na mesa um copo de vinho, que o profeta tomará quando passar.

publicado por Boaz às 23:14
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Sexta-feira, 8 de Abril de 2005

Comove-me

Nestes dias foi impossível ficar indiferente à gigantesca procissão que passou diante do corpo de João Paulo II na Basílica de São Pedro. É certo que muitos entre os peregrinos, não passavam de turistas curiosos aproveitando a ocasião deste acontecimento histórico para estar ali, tirar uma foto com o seu telemóvel e poder dizer "eu estive lá".

Porém, a grande maioria era sem dúvida gente movida por uma forte consciência espiritual. É que esperar 15 horas de pé, sem protestar, numa fila que culmina com um breve olhar sobre um cadáver, não é para aventureiros ou gente impelida por uma curiosidade mórbida. A resistência dessas horas passadas a rezar e a cantar - para manter firme o espírito e desse modo também o corpo - entre pessoas desconhecidas é impressionante.

Fé

Sempre me comoveram as manifestações públicas de fervor religioso. Seja de que fé for. É óbvio que me comove uma multidão que reza em frente ao Muro Ocidental (também chamado das Lamentações). Eu próprio já vivi essa experiência. Estar sozinho, sem conhecer ninguém, na Western Wall Plaza apinhada de judeus a rezar no local mais sagrado para o Judaísmo, em que todos são estranhos, mas ao mesmo tempo existe uma comunhão de identidade que aproxima as pessoas, é qualquer coisa de sublime.

Mas também me impressiona a ideia de dois milhões de muçulmanos em Meca, aguentando o calor sufocante do deserto da Arábia Saudita, rumando por todos os meios possíveis ao vale de Mina para cumprir os rituais da Hajj, um dos pilares do Islão. Ou as multidões de hindus nas margens do Ganges e nas enormes peregrinações do Kumbha Mela, que chegam a juntar mais de 12 milhões de pessoas! Os tibetanos que percorrem a pé centenas de quilómetros, prostrando-se a cada passo, rumo a Lassa. Impressiona-me Fátima, mesmo que desaprove a mortificação física e um certo alarde daqueles que, de joelhos, percorrem o santuário. No entanto respeito.

Impressiona-me especialmente porque vivemos num tempo em que são poucos os que se afirmam crentes. Em que a crença se limita a vivências privadas, seja por detrás dos muros dos templos, seja nas próprias casas. "O meu minyan", como lhe chama Francisco José Viegas. O exemplo extremo é a França, onde, por decreto, se esconde a manifestação da identidade religiosa, sob a obrigatoriedade da laicidade do Estado e a sombra da igualdade. Como se alguém por não usar a cruz, a kippa ou o véu em público se tornasse igual ao seu vizinho. Há dias, nas Cortes espanholas, os deputados da esquerda republicana da Catalunha, do Partido Comunista e alguns do PSOE (no governo) recusaram-se a cumprir em pé o minuto de silêncio pela morte do Papa. Invocaram a regra da separação da religião e do Estado para justificar a sua atitude.

Os europeus desdenham dos americanos por andarem sempre a falar em Deus, por não se coibirem de se afirmarem publicamente como crentes. Uma das mais importantes festividades nos EUA é o Dia de Acção de Graças que tem um cariz nacional e religioso, mas multi-confessional, unindo todas as comunidades. Eu também acho um bocado hipócrita quando Bush termina o seu discurso perante o Congresso com um God bless America, depois de defender a invasão e ocupação do Iraque, num tom quase messiânico. Mas isso é a maneira de ser americana, em que os símbolos da religião entram na política, porque afinal os americanos são religiosos.

Deste lado do oceano a moda é ser ateu, ou no mínimo "agnóstico". Os portugueses engelhavam o nariz quando o então primeiro-ministro Guterres se afirmava como católico praticante e mais recentemente com as repetidas manifestações católicas de Paulo Portas. Conversão oportunista, diriam alguns.

Estamos no tempo do ser "não praticante", esse estatuto religioso que não é carne nem é peixe, em que cada um vive, obviamente, a religião à sua maneira, mas sem se deixar comprometer. "Eu cá tenho a minha fé"...

É por isso que me comove ver tanta gente empenhada em demonstrar publicamente a sua identidade e fazer disso uma festa, mesmo num tempo em que estão de luto.

publicado por Boaz às 17:13
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Sexta-feira, 25 de Fevereiro de 2005

O destino, a viagem e a pressa

Há poucos dias, quando regressava a casa de autocarro, um amigo ligou-me a perguntar-me sobre uns afazeres que andamos a planear há já uns tempos. Depois de falarmos um pouco sobre o trabalho, perguntou-me como iam as minhas aulas de religião e língua hebraica.

- Muito bem. Só é pena serem apenas uma vez por semana.
- E o rabino, já disse alguma coisa sobre a conversão?
- Não. Mesmo àqueles que estão mais adiantados... creio que ainda não disse nada. De qualquer maneira, não quero apressar as coisas.

Despedimo-nos logo a seguir e o telefonema terminou. Eu fiquei a pensar no que ele me tinha perguntado e no modo como eu respondera, tão prontamente. Em especial o facto de "não querer apressar as coisas".

É este o essencial da história. Mesmo quando o destino é magnífico e tão ansiado, o caminho até lá chegar pode ser tão extraordinário como o que se anseia, que o melhor é não pretender acelerar o passo, e fazer o caminho tranquilamente, aproveitando todas as etapas.

publicado por Boaz às 16:27
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