Segunda-feira, 25 de Junho de 2012

A onda africana

Durante os dois últimos anos que estudei na yeshivá, um dos empregados da limpeza era um africano, não judeu. Um dia, a caminho de casa ao final da tarde, encontrei-o no autocarro. Sentei-me ao seu lado. Devido ao seu limitado hebraico, tentei comunicar com ele em inglês. Ao saber que era da Eritreia, mencionei o primeiro nome do presidente do seu país: "Isaias" [Afwerki]. Fez uma cara de desaprovação e comentou "Mau, muito mau". Pouco mais falámos, ele desceu pouco depois do autocarro.

Nas últimas semanas, a atualidade israelita foi marcada pela questão dos africanos ilegais no país e o que fazer com eles. Esta semana, o governo decidiu levar a cabo uma acção de prisão de centenas de residentes ilegais e posterior deportação para o Sudão do Sul. Pagando a viagem de regresso ao seu país, que obteve a independência há cerca de um ano, e entregando 1000 euros por adulto e 500 por cada criança, o governo pretende resolver, ou pelo menos minorar, o problema dos residentes ilegais em Israel.


Israelitas manifestam-se contra os imigrantes ilegais africanos num bairro de Tel Aviv. No cartaz:
"E regressarão os sudaneses ao Sudão", um jogo de palavras baseado no versículo "E regressarão os filhos às suas fronteiras".

Infiltrados, refugiados, sudaneses, africanos, são várias as denominações destes imigrantes ilegais. É um fenómeno que começou há alguns anos. Fugindo da guerra, da perseguição étnica e da miséria, dezenas de milhar de africanos têm entrado em Israel pela fronteira egípcia. A maioria provêm da Eritreia, do Sudão e do recém-independente Sudão do Sul. Todos chegaram a Israel depois de uma longa e perigosa saga pelo deserto do Egito. Incontáveis imigrantes são baleados pelo exército egípcio para evitar que cruzem a fronteira com Israel.

Ao atravessarem o Sinai, última etapa antes da chegada à fronteira israelita, muitos são capturados por gangues de Beduínos. Às mãos destes traficantes de gente, e encerrados semanas ou meses em campos de prisioneiros montados a poucos quilómetros da fronteira, são sujeitos a violências de vária ordem, incluindo tortura e violação. Para serem libertados, são obrigados a contactar familiares ou amigos já residentes em Israel, para tentar angariar dinheiro para o seu resgate. Os que falham na colecta do dinheiro, que ascende a vários milhares de dólares, são mortos. Em alguns casos, os seus órgãos são extraídos e vendidos para redes internacionais de tráfico de órgãos. O caos político e social no Egipto; o vazio de poder na península do Sinai, transformada numa “Terra Sem Lei” dominada por traficantes de armas, gente e drogas; o pouco interesse que o assunto merece nas esferas do poder no Cairo e menos ainda entre os diplomatas internacionais, perpetua este negócio de tortura e escravidão de milhares de africanos.

A libertação às mãos dos traficantes Beduínos do Sinai não garante a entrada em Israel. Ainda resta atravessar a fronteira. Até há pouco mais de um ano, a fronteira com o Sinai era pouco mais de uma cerca ferrogenta, coberta pelas dunas em vários pontos. Atravessada livremente por camelos selvagens, traficantes de droga e imigrantes ilegais. Porém, com a crescente atividade terrorista na península do Sinai desde a queda do governo de Mubarak e o imparável fluxo de imigrantes africanos, o governo israelita decidiu reforçar a segurança na extensa fronteira com o Sinai. Uma moderna e bem vigiada cerca está em contrução nos mais de 200 quilómetros entre Eilat e Gaza. Até ao final deste ano estará completa.

Sabendo desta porta que se fecha no acesso a Israel, recentemente alguns migrantes africanos têm atravessado de barco o estreito Golfo de Aqaba, entre o Sinai e a Jordânia, entrando em território israelita pela fronteira oriental. Aí, além da cerca fronteiriça terão de evitar alguns campos minados. O desespero da fuga à miséria e violência diária nos seus países de origem leva os imigrantes a uma empreitada quase suicida.

Na pequena cidade turística de Eilat, no extremo sul de Israel, os africanos são já cerca de 5000, mais de 10% da população da cidade, trabalhando na indústria hoteleira e na construção civil. Porém, a maioria ruma a Tel Aviv, estebelecendo-se no sul da cidade. Há apenas 5 anos, os “sudaneses” em Tel Aviv eram cerca de 1000. Os bairros pobres de Shapira e Hatikva, na zona mais degradada da cidade em redor da Estação Central de Autocarros, têm experimentado uma verdadeira invasão africana. Ao longo dos últimos anos, têm chegado à cidade entre 1000 e 2000 africanos por mês. De acordo com algumas fontes, habitam atualmente estes bairros cerca de 40 mil infiltrados africanos, e 25 mil israelitas.

Até encontrarem um lugar para morar, durante os primeiros meses após a chegada a Tel Aviv, a maioria dos africanos dorme na rua, na entrada dos prédios ou parques da cidade. Outros dormem em casotas miseráveis. Sem casa de banho ou chuveiro, fazem as suas necessidades na rua e tomam banho com as mangueiras anti-incêndio. Ainda que apenas uma minoria esteja envolvida em atos criminosos, o número de queixas contra imigrantes ilegais africanos apresentadas na polícia aumentou mais de 50% no último ano. O clima de insegurança nos bairros do sul de Tel Aviv tem crescido, alimentado pelos casos relatados pelas notícias. Devido à atenção mediática que o tema tem alcançado em Israel, quase diariamente são noticiados casos de violência envolvendo os imigrantes: roubo, vandalismo, violação ou o abandono de dois recém-nascidos no hospital, no próprio dia em que nasceram, na semana passada.

A "invasão" de infiltrados africanos levou a vida dos residentes dos bairros a uma situação insuportável. É impossível sairem sozinhos à noite e a sensação de medo – real ou imaginário – é permanente. Em várias zonas da cidade, o parques infantis, os jardins públicos e até os pátios das escolas foram transformados em lugar de pernoita, ou mesmo residência fixa dos africanos. Todas as noites, grupos de jovens e adultos israelitas jogam nos parques públicos, numa atitude desafiadora – para marcar território – a fim de reconquistarem o espaço onde os seus filhos já não podem brincar em segurança. Os atos de violência contra os imigrantes também têm aumentado. Alguns locais onde se reunem foram incendiados por populares.

Neste triste panorama, o governo israelita decidiu começar a prender os imigrantes ilegais e repatriá-los para os seus países de origem. Esta operação apresenta uma série de problemas. Em primeiro lugar, por agora, apenas os naturais do Sudão do Sul serão repatriados. Depois de proclamar a independência no ano passado, o Sudão do Sul tem estreitado relações diplomáticas com Israel (que foi um dos primeiros países a reconhecer o novo país africano). Tendo terminado a guerra civil vivida na região durante mais de 30 anos, os sudaneses do sul poderão voltar para casa. O país é um dos mais miseráveis do planeta, apesar da enorme riqueza natural, incluindo grandes reservas de petróleo. Várias famílias de imigrantes sul-sudanesas voltaram para casa, com os filhos, alguns já nascidos em Israel e cuja língua materna é o hebraico. Aos jornalistas israelitas que acompanharam o repatriamento, as crianças desabafavam que queriam poder ir à escola, como em Israel.

Porém, os imigrantes naturais do Sudão do Sul, que começaram a ser repatriados a semana passada, são apenas uma pequena parte dos mais de 60 mil africanos ilegais em Israel. Mais de 30 mil provêm da Eritreia, uma das mais brutais ditaduras do Mundo, onde os emigrantes são considerados traidores ao regime e poderão ser perseguidos. Outros 15 mil chegaram do Sudão, incluindo a região de Darfur, onde há anos se desenrola um genocídio que, de acordo com algumas fontes internacionais, já causou a morte a quase meio milhão de pessoas. Nestes dois casos, a difícil situação dos países de origem dos imigrantes ilegais, torna impossível o seu repatriamento. Apesar de Israel ter relações diplomáticas com a Eritreia, o Sudão é considerado um “país inimigo”.

Membros da oposição ao governo e ativistas de direitos-humanos (que por vezes são uma e a mesma coisa) têm-se manifestado contra a decisão do governo de expulsar os ilegais. Ou pelo menos pela forma como está a ser feita. Porém, não parecem manifestar a mesma preocupação pelos residentes israelitas dos bairros onde os africanos ilegais são já a maioria. Alguns protestos de residentes contra os imigrantes tiveram a participação de políticos, em especial de direita. Em discursos inflamados alguns apelidaram os imigrantes como "um cancro na sociedade israelita", "um virus", e outras expressões marcadamente racistas.

A intervenção dos poucos políticos que estiveram nas manifestações não resolveu nenhum problema dos residentes dos bairros, e causou grande prejuízo tanto à defesa dos direitos dos moradores israelitas como dos imigrantes ilegais. As infelizes manifestações racistas deram novo alento aos comentadores de tudo o que se passa em Israel, que como é hábito, se apressaram a gritar slogans como "Estado racista", "Estado apartheid" e outros apodos do género. Incluindo alguns judeus americanos associados à causa palestiniana que não dispensam qualquer oportunidade para caluniar Israel. As expressões clichés de comparação com o Holocausto, a "falta de compaixão dos que foram perseguidos" e outros termos de auto-flagelação da consciência judaica foram abundantemente usadas pelos "ativistas". Dos humanistas estrangeiros ou dos nacionais, não se ouviram manifestações de apoio aos moradores dos bairros.

Para ter êxito nesta missão, a luta terá de ser feita de forma pacífica, sem violência e manifestações racistas. Não se pode legitimar ódio ou quaisquer ações violentas contra os estrangeiros. Esta não é uma campanha contra os africanos, mas contra a falta de acção das autoridades que pela sua inação, deixaram chegar a situação a um nível gravíssimo. A preocupação primordial terá de ser pelos próprios cidadãos israelitas e isso não é racismo. Não há nada de sábio ou razoável em querer ser "humanista" e generoso com os estrangeiros, se dessa forma se causa prejuízo aos cidadãos do próprio país. Afinal, como ensina a sabedoria judaica "os pobres da tua cidade estão primeiro".

Ao mesmo tempo que as autoridades israelitas procedem à repatriação dos ilegais africanos – até agora foram repatriados menos de 300 sudaneses do sul – desde o início do mês entraram em Israel pelo menos 800 imigrantes ilegais, que se encontram atualmente detidos.

publicado por Boaz às 10:15
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Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Parabéns amigo ditador

Há 40 anos, um coronel do exército da Líbia tomou o poder no país por uma Revolução a que chamam "o Grande Al-Fateh". Quatro décadas depois, Muammar Khadafi, o tal coronel golpista ainda controla os destinos da Líbia. Foram 40 anos marcados pela mais feroz doutrina laica alguma vez a tomar o poder num país muçulmano. O único avanço civilizacional a avançar na sociedade líbia - ao contrário da regra islâmica - foi mesmo a instauração de igualdade entre mulheres e homens. Ao menos isso temos de agradecer ao coronel. Porém...

Apoio ao terrorismo internacional, com a causa palestiniana à cabeça. Um atentado contra uma discoteca alemã onde morreram militares americanos e a bomba no avião da companhia PanAm que se despenhou em Lockerbie, na Escócia são outras das marcas do anti-americanismo militante que marcou o isolamento internacional da Líbia.

A exemplo de outros regimes ditatoriais em final de existência, como a União Soviética de Gorbatchov, a Líbia tenta a aproximação ao Ocidente. É um dos mais influentes países na diplomacia africana com um ou outro caso de sucesso na mediação de conflitos.

As suas reservas enormes de petróleo e gás tão apetecidas pela Europa parecem tornar os políticos e ainda mais as empresas europeias completamente indiferentes aos abusos cometidos pela Líbia. Ainda esta semana, o autor do atentado de Lockerbie foi recebido na capital líbia Tripoli por milhares de pessoas, depois de ter sido libertado de uma cadeia inglesa (alegadamente para facilitar um negócio multimilionário da petrolífera inglesa BP). Dai que as monumentais celebrações dos 40 anos da Revolução Líbia contem com a presença de altos dignitários europeus. O Primeiro Ministro Silvio Berlusconi, de Itália – a Líbia foi colónia italiana – e o português Luís Amado são alguns dos amigos de Khadafi.

É vergonhoso que um país democrático como Portugal se faça representar ao mais alto nível para festejar a ascensão ao poder de um ditador. Como a Líbia não é a única ditadura que merece ser celebrada, espera-se que Luís Amado ou até o Primeiro-Ministro José Sócrates estejam no próximo 9 de Setembro, em Pyongyang entre milhares de alegres criancinhas norte-coreanas – bem alimentadas para a ocasião – que exultarão pela gloriosa independência do país e subida ao poder do antigo "Grande Líder" Kim il-Sung.

A 7 de Outubro estarão na China, para festejar os 59 anos do início da invasão chinesa do Tibete. Como a vergonha não combina com os negócios e tantas vezes faz esquecer a história, até é possível que no próximo 7 de Dezembro se reúnam na Indonésia a lembrar a gloriosa a patriótica invasão de Timor-Leste, ocorrida há 34 anos. E por aí sucessivamente.

publicado por Boaz às 20:20
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Sexta-feira, 20 de Março de 2009

Porto de refúgio

Imigrantes, migrantes e refugiados. Três termos que fazem parte do quotidiano de Israel. A maioria dos israelitas é imigrante (como eu, por exemplo), aquilo que em hebraico se chama oleh – o que fez aliyá, a imigração para Israel. Ou, se eles próprios não são imigrantes, serão a primeira ou segunda geração de cidadãos de Israel. São poucas as famílias que se estabeleceram em Israel há mais de três gerações.

Além da muito discutida situação dos refugiados palestinianos, a história de Israel é marcada pelas sucessivas ondas de refugiados judeus. Primeiro, os quase um milhão de judeus países árabes. Depois, sucessivamente, os judeus do Irão, da ex-União Soviética. Os judeus argentinos e uruguaios chegaram durante a crise económica na América Latina, enquanto uma nova vaga de anti-semitismo na Europa fez chegar os franceses nos últimos anos.

Na última década, com o desenvolvimento económico – em especial depois do abrandamento da violência da Segunda Intifada, milhares de imigrantes não-judeus chagaram ao país para trabalhar. É um fenómeno corrente em todas as sociedades modernas. Em Portugal, e na generalidade da Europa Ocidental são os africanos, os chineses, os sul-americanos e os europeus do Leste. Nos EUA são os mexicanos ou os cubanos. Em Israel, a imigração económica é quase totalmente asiática: filipinos, tailandeses, chineses, cingaleses (do Sri Lanka). Nos últimos anos, surgiram dois novos fenómenos das migrações para Israel: os sudaneses e os eritreus.


Vestido de menina africana na cerca da fronteira Israel-Egipto, 20-8-07. Foto de Yonathan Weitzman.

Do Sudão chegaram refugiados do Darfur. Fogem de um dos mais trágicos e ignorados conflitos actualmente no Mundo, iniciado em 2003. As milícias árabes Janjaweed que contam com o apoio do governo sudanês lutam contra vários grupos de guerrilha de tribos não-árabes da região. De acordo com organizações não-governamentais, o número de mortos poderá ultrapassar os 500.000. Os refugiados são mais de 2,5 milhões. Numa comunidade internacional vesga e cheia de "outros interesses", a única consequência do conflito foram as recentes acusações de crimes de guerra e genocídio contra o presidente do Sudão Omar al-Bashir. Como retaliação pela afronta da crítica, o governo sudanês expulsou as organizações internacionais de ajuda aos refugiados de Darfur.

A guerra, a pobreza e a ditadura na Eritreia levaram a uma pequena vaga de refugiados para Israel. A Eritreia, um país do Leste de África pouco maior do que Portugal, foi parte da Etiópia até à independência, em 1993. É por várias organizações considerada um dos países com pior registo de direitos humanos no Mundo. (Aliás, quem ouviu falar da situação na Eritreia?) O presidente eritreu, Isaias Afewerki, foi incluído na lista dos piores ditadores pela revista Parade Magazine. Toda a imprensa é controlada e as eleições são proibidas por "polarizarem a sociedade".

Em Israel, algumas centenas de refugiados sudaneses receberam asilo político, algo extraordinário, já que provêm de um país que, além de não ter relações diplomáticas com Israel, é visto como um país hostil. Ainda assim, os sudaneses de Darfur receberam ajuda do Estado. As crianças ingressaram nas escolas. Os eritreus começam a substituir os árabes nos trabalhos de limpeza de ruas e edifícios públicos. Em Alon Shevut, dois homens da Eritreia são uma visão comum a cuidar da limpeza pública. Na Yeshivat HaKotel, um jovem eritreu foi a última adição à equipa de funcionários.

O que espanta mais nesta história é que os sudaneses e a maioria dos eritreus são muçulmanos. Arriscaram-se a atravessar mais de 1500 quilómetros de deserto, onde ficaram sujeitos à violência de bandidos, em terras sem lei nem ordem. Na passagem pelo Egipto, sofreram a brutalidade da polícia. Algumas mulheres relataram terem sido violadas. Querem chegar a Israel, o único país judeu do Mundo. O "pequeno Satã" e "inimigo dos Árabes e do Islão". Ainda assim, com todos os seus defeitos, é o porto de abrigo sonhado por muitos.

publicado por Boaz às 21:50
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Terça-feira, 3 de Março de 2009

Quem com ferros mata

Num golpe típico de cowboiadas e lutas de mafiosos, o presidente da Guiné-Bissau foi assassinado. Nada de extraordinário, num país que desde a independência tem vivido no caos e na miséria, na opressão de uma elite de tiranos e de gente despreocupada com a sorte dos seus concidadãos comuns. Sem ordem nem sistema capaz de a aplicar, a lei do mais forte impõe-se sempre que a ocasião o permite. Os militares, descontentes com a decapitação da chefia militar pelo mesmo Nino Vieira, vingaram-se matando-o a tiro.

Nino Vieira não deixará grandes saudades aos guineenses. Manda-chuva absoluto de um país miserável – cronicamente destacado entre os mais pobres do mundo – espremeu os poucos recursos da nação em proveito próprio. Nada de novo na bela colecção de ditadores e assassinos que têm dirigido os destinos da maioria dos estados africanos. Os ventos da mudança, que já sopram noutras latitudes do Continente Negro, ainda não chegaram com força positiva a Bissau.


Piroga na praia de Bubaque, Ilhas Bijagós, Guiné-Bissau.
Quem conhece, diz que poderia ser o paraíso...

Depois da independência, em 1974, conseguida depois da Guerra Colonial, a qual atingiu teve alguns dos seus episódios mais violentos exactamente no terreno da Guiné, o país foi controlado por um conselho revolucionário até 1984. As primeiras eleições multi-partidárias foram realizadas em 1994, mas uma sublevação militar em 1998 afastou à força o presidente – então o mesmo Nino Vieira, assassinado esta semana. O episódio desencadeou a Guerra Civil da Guiné-Bissau.

Em 2000, numas eleições cheias de esperanças para o comum guineense, desgraçado e cansado de guerra, foi eleito Kumba Ialá. Famoso pelo seu barrete vermelho (uma espécie de Saci-Pererê com duas pernas, mas nada mais do que isso), o novo presidente foi tão incompetente como os seus antecessores. Também ele foi deposto por um golpe militar.

Nos meus tempos da faculdade, em Lisboa, uma colega guineense descrevia o país onde nascera com a desilusão de quem se recusa a aceitar como certo o desprezo pelo mérito e o imperativo da lei da selva. Contava que, para passar de classe na sua escola de Bissau – ainda que fosse um colégio privado, já que o sistema de educação pública não responde aos critérios mínimos – tinha de "ajudar" os professores. Favores em dinheiro e géneros eram a única garantia de progredir na escada da educação. Depois de terminada licenciatura, preferiu a precariedade da procura de emprego pós-universidade em Portugal do que o regresso às difíceis origens. Mesmo que um canudo de uma universidade europeia lhe poderia ter aberto algumas portas mais promissoras.

Em 1998, durante a Expo’98, em Lisboa, lembro-me de visitar o pavilhão da Guiné-Bissau. Um vídeo mostrava as belezas naturais e as potencialidades turísticas do pequeno país. Aí, tornava-se ainda mais evidente, quanto tudo o que de bom o país tem é desperdiçado pelos erros da elite que o governa.

A Guiné é o típico estado falhado africano. Os guineenses, presos nas malhas do analfabetismo, do autoritarismo tribal e político, de tradições bárbaras como a mutilação genital feminina, têm sido vítimas da sua impossibilidade de sair do ciclo de tragédias que tem sido a sua história pré e pós-colonial.

E como o resto do Mundo não deposita grandes recursos para ajudar um pequeno país de pouco mais de um milhão de habitantes, parece perpetuar-se "o estado das coisas". Uma fatalidade africana no seu melhor.

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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Um Mundo (quase) perfeito

Despotismo estalinista na Coreia do Norte. Perseguição a opositores políticos e minorias étnicas e transferência forçada de populações na Birmânia. Violência sobre os opositores políticos (recentemente também sobre algumas personalidades religiosas discordantes), expulsão e espoliação de propriedade de membros da minoria branca no Zimbabwe. Grandes limitações na liberdade de imprensa e total repressão de opositores políticos em Cuba e na Bielorússia. Escravatura na Mauritânia e República Centro-Africana. Massacres e expulsões em massa contra minorias étnicas no Sudão, com participação activa de forças patrocinadas pelo governo. Tráfico de mulheres para escravatura sexual na Roménia, Ucrânia, Bulgária, Rússia e Ásia Central. Violência sectária no Iraque e Líbano. Esmagamento brutal de uma revolta separatista no Sri Lanka. Silenciamento dos meios de comunicação social críticos ao governo na Venezuela. Violência entre facções políticas em Timor-Leste.

Ausência de liberdade política no Egipto, Síria, Cuba, Bielorússia, Sudão, Líbia, Azerbeijão, Uzbequistão... Pena de morte (nalguns casos mesmo para menores) no Irão, Estados Unidos, China, Paquistão, Nepal, Birmânia, Cuba, Rússia, Vietname... Exploração de mão de obra e ausência de condições laborais na China, Índia, países do Golfo Pérsico, Tailândia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão... Excisão (mutilação sexual de mulheres) na Guiné-Bissau, Sudão, Egipto, Etiópia, Quénia, Somália, Burkina Faso, Mali... Perseguições de minorias religiosas no Irão, Arábia Saudita, China... Exploração sexual de crianças na Arábia Saudita, Índia, Paquistão, Bangladesh, Nepal, Cambodja, Tailândia, Indonésia... Mulheres como “cidadãos de segunda” no Irão, Arábia Saudita, Iémen, Kuwait, Afeganistão... Crianças usadas como combatentes em conflitos na Costa do Marfim, Somália, Uganda, Territórios Palestinianos, Sri Lanka... Exploração de mão-de-obra infantil no Peru, Bolívia, Brasil, Colômbia, Índia, Vietname, Paquistão, Afeganistão, México...


Crianças soldados e "mulheres de segunda"

Oh, como seria perfeito o Mundo, se não fosse... Israel.

A ver pela atenção dada pela Comissão de Direitos Humanos da ONU, violações de direitos humanos só acontecem em Israel. Casos gravíssimos de brutalidade patrocinada pelo governo no Sudão, Birmânia, Coreia do Norte ou Zimbabwe, são ignorados. Investigações agendadas sobre a situação em Cuba e na Bielorússia foram bloqueadas. Os meios da Comissão são devotados em permanentes críticas a Israel. Apenas.

Recentemente o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon foi atacado por criticar os estados islâmicos membros da Comissão, por ignorarem abusos dos direitos humanos em todo o Mundo e apontarem apenas Israel. A observação de Ban Ki-moon irritou a Organização da Conferência Islâmica quando disse, o mês passado, que a Comissão de Direitos Humanos da ONU deveria observar todas as situações de violações de direitos humanos.

Só parece não valer a pena olhar para eles.

publicado por Boaz às 12:50
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Domingo, 3 de Julho de 2005

Quem canta, que males espanta?

Foi muito bonito o desfile das estrelas a cantarem em nome de uma causa nobre. Foi lindo ver Madonna, rainha das futilidades e do showbiz, a abraçar Birhan Woldu, uma etíope recém-licenciada em Agricultura, que há 20 anos - na altura do Live Aid - estava à beira da morte num campo de refugiados e que, segundo Bob Geldof, foi salva em parte com a ajuda dos donativos angariados por aquele concerto de solidariedade. Só pelo sucesso da sua história, valeu o esforço de há 20 anos. Afinal, "quem salva uma vida é como se salvasse a humanidade inteira" como diz o Talmude.


Madonna e Birhan Woldu no palco principal do Live 8, em Londres

Os 10 concertos, do Japão aos Estados Unidos, eram grátis. Não se pretendia angariar dinheiro para matar a fome em África (se bem que o SMS para pôr o nome na lista custasse 0,50€: a RTP também precisa de ajuda...). O objectivo era chamar a atenção do clube dos mais ricos para a miséria dos mais pobres. Apontaram-se os responsáveis pela miséria africana e esses foram os líderes dos países do G8, que vão reunir-se dentro de dias, na Escócia. "Os líderes dos 8 mais ricos reúnem-se num castelo escocês à beira de um campo de golfe, enquanto mais de mil milhões de pessoas vivem com menos de um dólar por dia" foi a imagem que passou. Aqui estão os culpados, é a estes que tem de se pedir contas. Como é fácil arranjar bodes expiatórios, quando se seguem as regras do politicamente correcto.

E o politicamente correcto é mesmo culpar os brancos e os ricos por tudo o que de mal se passa em África. Nestas ocasiões tratam-se os africanos como criaturas indefesas, face à implacável voragem capitalista. A existência de uma gigantesca dívida externa na maioria dos países africanos é posta no cadastro dos europeus e americanos. As guerras que década após década se têm travado no continente, são explicadas como instigações interesseiras dos brancos, das empresas de armamento e de multinacionais que querem dominar os abundantes recursos de África.

Os africanos - incluindo os seus dirigentes - são apresentados como gente sem vontade. Inimputáveis. Marionetas puxadas por cordelinhos a partir da Europa e América. Ou nem sequer são incluídos como variáveis da equação. E quando se mencionam os próprios líderes africanos (como o angolano José Eduardo dos Santos) são mostrados como peões no cínico xadrez do Ocidente que só quer espremer a riqueza dos seus países. E eles, coitadinhos, deixam-se levar pelo engodo.

Obviamente que não podemos condenar as populações africanas à miséria eterna e ao subdesenvolvimento pelos erros dos seus líderes, os quais, na sua grande maioria, não foram sequer escolhidos pelos seus povos. Só que também é injusto que apenas se apontem os dedos acusadores - sim, trata-se também de apurar responsabilidades - aos senhores do capital, esquecendo deliberadamente que há grandes responsabilidades também do lado africano. O problema é que falar das coisas desta maneira é candidatar-se a levar com uma etiqueta de racista e colonialista.

Sem querer defender o passado colonial da Europa - e de Portugal em particular -, não deixa de ser preocupante, chocante até, que muitos países africanos vivam hoje pior do que há 30 ou 40 anos, quando se tornaram independentes. E, apesar de praticamente todos os Estados africanos terem já atingido a maioridade desde a independência, muito poucos ou nenhum atingiu a maturidade social e política que lhes permita fazer este tipo de reflexão.

Interessante e inédito, o testemunho de um cidadão da Costa do Marfim interrogado sobre as possíveis consequências de uma iniciativa como o Live 8. Disse: "Em África tudo é muito desorganizado. Queremos que os países ricos nos ajudem a organizarmo-nos, para que depois possamos seguir sozinhos o nosso próprio caminho. É humilhante andar sempre de mão estendida".

Os líderes africanos actuais são quase todos os mesmos que lideraram as revoltas e guerras de independência. Desde então que se agarram ao poder, sem nunca terem tido nem capacidade política nem legitimidade democrática para o exercerem. Até os três casos africanos que pareciam positivamente exemplares, estão agora também em sentido descendente: Costa do Marfim, Zimbabwe e África do Sul. Os dois primeiros bateram mesmo no fundo...

A Costa do Marfim foi, até ao final da década de 90 um exemplo de estabilidade em África. O país, apesar de não ser rico - excepto em cacau -, conseguiu algum desenvolvimento, mesmo governado durante 40 anos pelo mesmo homem: Félix Houphouet-Boigny, um ditador que como quase todos os ditadores era megalómano. Transformou Yamoussoukro, a sua aldeola natal, na capital política do país e mandou construir aí uma réplica da basílica de São Pedro. Depois da sua morte, o país entrou em colapso e hoje é um dos mais instáveis da África ocidental, dividido entre o poder oficial, a sul e os rebeldes no Norte. E o poder oficial é encabeçado por um típico ditador, Laurent Gbagbo, acusado em 2003 pela comunidade internacional de crimes contra a humanidade.

O Zimbabwe, que na década de 80 era até visto como outra boa excepção africana - o celeiro da África Austral, com um rendimento per capita de mais de 2300 dólares -, mesmo governado por Robert Mugabe, é hoje um país à beira do caos. É governado pelo mesmo Mugabe, que entretanto virou fascista, amordaçou os jornalistas, expulsou os agricultores brancos e vai matando os negros à fome. O rendimento da população é hoje quase 10 vezes inferior ao de há 25 anos. Para o presidente, a culpa vai toda para os brancos e Tony Blair. Uma das suas últimas medidas é a operação de limpeza das casas ilegais nas principais cidades, que já fez mais de 200 mil desalojados. Os reais motivos da campanha prendem-se com o facto de essas pessoas terem votado na oposição nas últimas eleições presidenciais. Deixá-las sem casa é a represália pela traição ao regime. A ONU e a União Africana calam-se e assim consentem.

Na África do Sul, depois do fim do regime racista do apartheid, as coisas pareciam risonhas. No entanto, desde que Thabo Mbeki assumiu o poder - e foi já reeleito - que se tem manifestado tão incapaz como a generalidade dos seus homólogos continentais. Incapaz para lidar com a imparável onda de violência. Incapaz, quase ao nível da insanidade, para lidar com a pandemia de SIDA que assola o país. E para embelezar a figura já de si bastante eloquente, é apoiante de Khadafi e do próprio Mugabe.

Por fim, valia a pena reflectir neste exemplo: em 1962, o Gana e a Coreia do Sul estavam ao mesmo nível de desenvolvimento. Hoje, a Coreia do Sul é tão só a 11ª economia do Mundo. O Gana, apesar de rico em recursos naturais, não saiu do estado de subdesenvolvimento.

PS - Para que não restem dúvidas, sim, eu defendo o perdão da dívida dos países do Terceiro Mundo. Defendo a justiça no comércio mundial, com a abertura dos mercados aos produtos africanos. Defendo o fim dos subsídios agrícolas na Europa e América, que são a maior causa de distorção das regras de mercado e que condenam muitos agricultores africanos à pobreza. Defendo maiores ajudas à assistência humanitária em África, a maioria das quais ajudas a projectos de desenvolvimento e não simplesmente envio de alimentos e medicamentos, que são soluções de curto prazo e que fomentam a dependência em relação ao exterior. Mas também defendo o fim da cegueira comprometedora das Nações Unidas face aos corruptos e brutais regimes africanos, um elemento essencial na tragédia do Continente Negro. E, se preciso for, que se acabe à força com esses regimes.

publicado por Boaz às 17:45
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Quinta-feira, 16 de Junho de 2005

O senão da bela

Recentemente, e com vista à próxima Cimeira do G8 (o grupo dos oito países mais industrializados do Mundo) que se vai realizar na Escócia, Tony Blair lançou o desafio do perdão da dívida externa de alguns dos países mais pobres. Nas negociações que se seguiram, ainda antes da cimeira, foi alcançado um acordo com vista ao perdão de mais de 40 mil milhões de euros a 18 das nações mais miseráveis do planeta, 15 das quais africanas.

A medida é meritória, ainda mais quando na lista constam somente países que se têm esforçado por seguir um rumo de reformas democráticas e maior respeito pelos direitos humanos, como sejam os casos de Moçambique, Mali ou Burkina Faso. Desta forma se mostra um "cartão vermelho" a outros Estados como Angola, Haiti ou Zimbabué que, apesar de igualmente falidos, continuam a ser bastiões de ditaduras e corrupção em larga escala. E sem vontade de mudança.

Até aqui tudo bem. O problema é que nestas coisas de diplomacia e economia basta levantar uma pedrinha para se descobrir algo sórdido. Poucos dias após o muito celebrado anúncio do perdão da dívida por iniciativa do governo britânico, veio a público a notícia que, exactamente o Reino Unido tinha, no último ano, vendido mais de 1500 milhões de euros em armamento a alguns países do Terceiro Mundo, alguns deles com graves registos de violações dos direitos humanos. Por isto, os caridosos Tony Blair e Gordon Brown não merecem uma coroa de louros.


Guterres pelos refugiados; Diana contra as minas terrestres; Bono pelo perdão da dívida.

Em geral fico desconfiado quando vejo gente famosa em causas de solidariedade ou de boas intenções. Quase sempre há qualquer coisa na pintura que não bate certo. As causas são louváveis, os modos como são apresentadas é que soam a falso. Alguns exemplos.

Bono, na sua cruzada contra a pobreza, tem sido uma das vozes mais persistentes na luta pelo perdão da dívida externa dos países mais pobres, um problema que constitui um importante entrave ao desenvolvimento. Recentemente, o líder dos U2 reuniu-se com Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia para discutir o assunto. Já durante a presente Vertigo Tour, a banda irlandesa tem feito apelos pela luta contra a pobreza. São bonitos os apelos solidários, mas se eu pudesse fazer uma pergunta a Bono neste momento - uma única - seria: quanto é que os U2 vão gastar em quartos de hotel e limusinas durante a digressão?

É este tipo de atitude que de certo modo me repugna. Como me repugnou ver, há anos, a princesa Diana a abraçar crianças angolanas estropiadas pelas minas terrestres, imaginando que o só seu orçamento em vestuário para a viagem a Angola seria superior ao orçamento anual do centro de apoio aos mutilados de guerra que ela visitou com tanta pompa.

E o nosso mui amado António Guterres, recém escolhido Alto-comissário da ONU para os Refugiados, na sua próxima visita ao Uganda, onde se vai inteirar da situação dos refugiados sudaneses, não deixará de passar algumas noites nalgum hotel de luxo em Kampala, nas aprazíveis margens do Lago Vitória, bem longe do fedor e das moscas dos campos de refugiados no norte do país, onde só deverá ir por algumas horas.

Com isto não quero dizer que quem se (compro)mete com causas solidárias, tenha de passar pelos mesmos tormentos que as pessoas a quem pretende ajudar. É óbvio que não desejava que a princesa Diana fosse para Angola andrajosa ou lá pisasse uma mina. Ou que Guterres tivesse de sofrer malária ou ter a sua família chacinada por soldados sudaneses, para saber o que sofreram e sofrem os refugiados no norte do Uganda.

Só que, como se costuma dizer, à mulher de César não basta ser séria, é preciso parecer. É que assim, isto parece tão honesto como as dondocas da Lapa, que juntam 5 mil euros num cházinho de caridade pelos pob'zinhos, para o qual cada uma gastou 10 mil no fato de gala Chanel, nos sapatos Prada e na malinha Louis Vuitton.

publicado por Boaz às 13:10
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Quinta-feira, 31 de Março de 2005

Os Estados incapazes e o Mundo impassível (I)

O Zimbabué vai hoje a votos. Não se esperam mudanças no panorama político daquele país africano. Infelizmente. Como nas últimas eleições, marcadas pela fraude em larga escala e pela intimidação da oposição, actualmente as forças que se opõem a Mugabe quase não têm acesso aos meios de comunicação social, enquanto o poder usa todos os meios do Estado para se promover.

Mugabe tem feito a sua campanha do mesmo modo que tem conduzido o seu último mandato presidencial, acusando a Grã-Bretanha e Tony Blair de todos os males que afectam o Zimbabué. Vai ao cúmulo de acusar Blair de ser o culpado pela seca e pela fome.

Apesar da situação catastrófica do país e da demência do presidente, não se espera uma revolução para exigir a democracia como as que se sucederam nos últimos meses na Geórgia e na Ucrânia e, na semana passada, no Quirguistão. Infelizmente de novo. Não haverá observadores internacionais independentes para fiscalizar a legalidade do escrutínio. Haverá alguns mirones de ocasião, apenas por fachada, já que são "compadres" de Robert Mugabe.


Família, Transkei, África do Sul. National Geographic

E a isto o mundo, infelizmente deverá reagir como reagiu da última vez que houve eleições por aqueles lados. Aliás, como reage de cada vez que há eleições fraudulentas em África. Olha, cala-se e vira as costas.

O fantasma colonial

Nada se faz para travar os genocídios dos negros animistas e cristãos da Núbia e dos negros muçulmanos no Darfur, ambos no Sudão. Só no caso do Darfur, um relatório divulgado esta semana revelou haver já mais de 300.000 (trezentos mil!) mortos. Mais do que os do tsunami do Índico!

O espinho colonial cravado na consciência política europeia, faz com que os governos do mundo, em especial os da Europa, evitem denunciar o que quer que seja. O único que se atreve a levantar a voz é Tony Blair, exactamente aquele a quem muitos na Europa olham como o cãozinho de estimação de George W. Bush. Enorme ironia. Enquanto isso, os intelectuais de França vão tecendo hipócritas considerações pseudo-humanistas sobre o estado do Mundo e Monsieur Chirac defende o fim do embargo de armas à China.

Mesmo as Nações Unidas pouco fazem para travar as ditaduras africanas. Quando a Indonésia saiu de Timor-Leste e as milícias arrasaram o país, a ONU estabeleceu um governo provisório, liderado por Sérgio Vieira de Mello. No Kosovo, após a violência étnica entre sérvios e albaneses, de novo a ONU interveio, e ainda hoje a província sérvia é governada pelas Nações Unidas. Nada disto é feito em África e a razão é evidente.

Estabelecer governos sob a égide da ONU em países como o Zimbabué ou o Sudão seria um "perigoso" precedente, para ser aplicado a uma boa parte dos países africanos, assim como a alguns asiáticos e latino-americanos. Obviamente que o influente bloco africano da ONU se oporia a tal medida. Veria nela um regresso ao colonialismo, esse fantasma recorrente nos discursos dos presidentes africanos - com Mugabe à cabeça. Desculpa válida para todas as suas deficiências.

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publicado por Boaz às 16:12
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Quinta-feira, 17 de Março de 2005

África Minha - versão Blair

Recentemente, o PM britânico Tony Blair propôs a adopção de um compromisso sério e empenhado para combater a pobreza em África. O plano não é novo e prevê o cumprimento de compromissos antigos, feitos pela maioria dos países desenvolvidos, que consistem na atribuição de um valor equivalente a menos de 1% do PIB em ajudas ao desenvolvimento em África. Embora o valor de 1% pareça pequeno, são poucos os casos em que a promessa é cumprida: somente alguns países escandinavos. Sabe-se que o valor, já de si pequeno, da ajuda ao desenvolvimento do Terceiro Mundo tem decrescido na maioria dos países.

Não me lembro de ter ouvido Blair falar do fim dos subsídios da UE aos agricultores europeus, incluindo aos britânicos. Não sou daqueles ocidentais, normalmente de esquerda, que, talvez por sentimentos de culpa não resolvidos, acham que TUDO o que acontece de mal em África é causado pelo Ocidente. No entanto, é inegável que a existência de subsídios agrícolas na Europa (e EUA) é um dos principais entraves ao desenvolvimento dos países pobres.

Os tomates do Gana

Este é um exemplo verídico. No Gana existe uma fábrica de transformação de tomate para produção de conservas. A matéria-prima era normalmente adquirida a centenas de produtores locais, que assim tinham um rendimento garantido que lhes permitia manter as suas famílias.

A certa altura, embora existindo matéria-prima local abundante e barata, a fábrica começou a importar tomate. De Itália. A razão é simples. Os produtores de tomate italianos recebiam da UE grandes subsídios à produção, o que lhes permitia venderem o tomate a um preço ainda mais baixo do que o produzido no Gana. Uma evidente distorção das regras da concorrência, com efeitos desastrosos. No Gana, não em Itália, obviamente. Centenas de famílias ganesas perdessem uma importante fonte de sustento.

É bem possível que alguns deles tenham entretanto decidido imigrar para a Europa. Inclusive para Itália.

A Zâmbia e o milho transgénico

Um outro exemplo real do cinismo europeu aconteceu à cerca de dois anos. A Zâmbia atravessava um período de grave seca e escassez alimentar. (Nós temos seca, mas é evidente que não vai faltar comida nos supermercados, nem que ela tenha de vir de Vanuatu.)

O governo zambiano decidiu autorizar a importação de sementes de milho transgénico, de uma variedade mais resistente à seca - que acontece ciclicamente naquela região. Logo da Europa se eriçaram cabelos. Os barrigudos de Bruxelas apontaram as baterias à Zâmbia e, com medo de uma eventual contaminação genética, ameaçaram proibir a importação de todos os seus produtos agrícolas, caso a medida fosse adiante.

Para evitar perder os escassos recursos provenientes das exportações, o governo de Lusaka voltou atrás na decisão. Os zambianos continuaram com fome até o governo ter encontrado outra solução e os intelectuais-de-barriga-cheia de Bruxelas puderam continuar a ir ao supermercado e comprar o que lhes apetecesse, sem receio de estarem a levar para casa um molho de grelos contaminado por transgénicos.

Depois ainda há os defensores do perdão da dívida externa dos países subdesenvolvidos (ou em desenvolvimento como fica bem dizer). Mas isso é outra história...

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publicado por Boaz às 17:59
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