Sexta-feira, 15 de Março de 2013

Habemus "chaver" no Vaticano

Março de 2013, Papa Francisco na capa da revista Time.

Dezembro de 2012, o arcebispo Bergoglio acende uma vela de Chanucá numa sinagoga de Buenos Aires.

Com a eleição do novo Papa, é possível pensar na questão do ecumenismo e o diálogo entre Católicos e Judeus. Várias autoridades judaicas felicitaram o escolhido no conclave de 13 de Março. O entusiasmo pela escolha dos cardeais é visível nos círculos judaicos. A começar pelo presidente da República de Israel, Shimon Peres, que convidou o Papa Francisco a visitar Israel o mais breve possível. Ressalvou que as relações do Vaticano com a comunidade judaica estão agora “no melhor nível dos últimos 2000 anos”.

O Rabinato-Chefe de Israel declarou-se satisfeito com a escolha do novo líder da Igreja Católica, expressando os desejos que com o “Papa Francisco, cujas boas relações com o Povo Judeu são bem conhecidas, manterá o mesmo espírito e fortalecer e desenvolver as ligações da Igreja Católica com o Estado de Israel e o Povo Judeu”.

Jorge Mario Bergoglio, até agora Arcebispo de Buenos Aires tem sido uma figura ativa no ecumenismo na América Latina e notado pela relação amistosa com a comunidade judaica, a maior do continente sul-americano. Em Novembro passado, Bergoglio acolheu na catedral de Buenos Aires uma cerimónia evocativa da Kristallnacht, a Noite de Cristal. E em Dezembro, durante a celebração judaica de Chanuká, foi convidado para acender a quinta vela do candelabro numa sinagoga de Buenos Aires.

O Rabino David Rosen, diretor dos assuntos inter-religiosos do Comité Judaico Americano e que tem desempenhado a função de interlocutor do Rabinato-Chefe de Israel para as relações com o Cristianismo, relevou que “o Povo Judeu não poderia ter pedido uma escolha melhor em termos de relações Judaico-Católicas. Nenhum papa antes tinha sido um cardeal com tão próximas relações com uma comunidade judaica”.

Há menos de dois anos, participei numa palestra apresentada pelo tal Rabino David Rosen. Ele destruiu alguns mitos das relações judaico-cristãs. Os quais, de uma perspectiva judaica parecem piores do que são... Na ocasião, questionei-o sobre uma notícia recente que lera num influente diário israelita sobre uma reunião de bispos católicos do Médio Oriente. Na notícia, constava que uma das conclusões dessa reunião fora uma acusação contra Israel pela alegada perseguição aos cristãos (o que seria uma enorme injúria, uma vez que Israel é o único país da região onde existe plena liberdade de culto e onde a comunidade cristã tem crescido). O Rabino veementemente condenou o conteúdo da notícia, negando que essa declaração tenha existido nesses termos.

Ó, a nossa tendência de pintar de negro a nossa própria realidade. Como alguém disse, quando o judeu se esquece que é judeu, o anti-semita faz o favor de o lembrar. Em boa medida, nós parecemos alimentar a nossa identidade judaica à custa do anti-semitismo. (Ou não fosse o anti-semitismo em geral, e o Holocausto em particular, um pilar da atual identidade e mentalidade judaica. Mas isso é um assunto que merecia um artigo à parte).

As coisas parecem ser melhores entre Judeus e Cristãos do que nos parece. E ainda bem. Mas, porque será que apenas parece? Porque, apesar de haver um diálogo ecuménico permanente entre as autoridades religiosas judaicas e o Vaticano, essa boa relação não é ensinada aos leigos, ao povo de cada um dos lados? Muitos católicos mantêm opiniões anti-semitas. E muitos judeus continuam a perpetuar a histórica inimizade entre as duas religiões. Haverá alguma vergonha em destruir pela raiz os mitos e ódios mútuos que foram alimentados durante séculos?

Nota: Para os menos literados na língua hebraica, chaver significa amigo. Esperamos realmente que "Assim seja".

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Domingo, 30 de Agosto de 2009

Duas medidas

Em Israel, há poucos anos, um programa da televisão israelita foi considerado ofensivo para a comunidade cristã. Estoirou na altura uma polémica com o Vaticano. O então Primeiro-Ministro Ehud Olmert criticou o programa, sem prejuízo para a liberdade de expressão.

Alguém comentou assim o último artigo: "É que, na Suécia, a liberdade de expressão e publicação é direito sagrado. Não cabe a nenhuma autoridade criticar a publicação de um artigo de jornal. Da mesma forma que o Primeiro-Ministro da Dinamarca se recusou a pedir perdão pela publicação das caricaturas de Maomé, também as autoridades suecas têm o dever constitucional de se abster de condenar o que os jornais publicam. Simples assim!"

Na verdade, não é tão "simples assim". No episódio das caricaturas de Maomé na Dinamarca, depois de um boicote islâmico, das ameaças de morte e de bombardeio de negócios e embaixadas dinamarquesas, de centenas de manifestações que fizeram dezenas de mortes por esse mundo (islâmico) fora, o governo do país tentou limpar a cara pela afronta à dignidade muçulmana, anunciando que iria patrocinar a construção de uma enorme mesquita em Copenhaga, a capital do país.

Na Suécia, as autoridades do país, que reclamam que a liberdade de imprensa tem de ser absoluta, exatamente na altura do caso dos cartoons de Maomé, o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia enviou uma carta especial a um líder religioso do Iémen (um país islâmico), pedindo desculpas pela publicação das ofensivas caricaturas ao profeta. Talvez tenha havido alguma brecha no "dever constitucional de se abster de condenar o que os jornais publicam"?

Ou seja, existe do lado sueco uma clara dualidade de critérios. Sejamos francos, porquê esta dualidade de critérios? Os suecos – representados pelos seus media e a sua classe política – sabem que não precisam de ter medo dos Judeus (apesar do eterno mito de que os Judeus controlam todo o planeta, desde os media ao comércio). Não precisam de temer que os Judeus bombardeiem as suas embaixadas. Que estoirem os seus hotéis, restaurantes e sistemas de transporte. Que os seus aviões sejam desviados e sejam derrubados os seus arranha-céus. Que os seus turistas e jornalistas em Israel sejam raptados e assassinados. Tudo como represália de algum caso de anti-semitismo que aconteça no seu país. O medo, esse, eles têm-no dos muçulmanos. E o medo é uma força muito poderosa.

Como disse um comediante norueguês, depois de queimar ao vivo algumas páginas do Antigo Testamento: "Eu só não queimei o Corão porque quero sobreviver mais do que uma semana". É de mau gosto, mas talvez valesse a pena pensar nas palavras do artista...

PS – Alguns dias depois da publicação da notícia, o próprio editor do jornal disse que a peça não apresentava qualquer fonte credível. Ainda assim, disse haveria razão para Israel investigar as "suspeitas". Benny Dagan, o embaixador israelita em Estocolmo, respondeu: "Tenho uma sugestão para si. Porque você não investiga porque a Mossad e os Judeus estiveram por detrás do atentado às Torres Gémeas? Porque não investigamos porque os Judeus estão a espalhar SIDA nos países árabes? Porque não investigamos porque os Judeus mataram crianças cristãs para fazer matzot (pão ázimo) na Páscoa?".

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Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

Libelos de sangue e conspirações

Na Idade Média, durante a epidemia da Peste Negra na Europa, em muitos lugares do continente, os Judeus foram acusados de envenenar os poços. Na altura pensava-se que a doença era transmitida pela água, quando na verdade era através das pulgas dos ratos. A cada acusação, em cada local, as autoridades civis e religiosas cristãs prendiam um certo número de Judeus que eram mortos. Nos episódios mais “misericordiosos”, perante a ameaça da morte, os detidos tinham a opção da conversão à fé cristã.


Pintura que retrata o martírio de Simão de Trento, 1475 |
Capa de uma edição em espanhol de Os Protocolos dos Sábios de Sião
(a capa retrata que os Judeus controlam o dinheiro, a Igreja, a Maçonaria, o Comunismo e... o Nazismo) |
Embate do 2º avião no World Trade Center em 11 de Setembro de 2001, outra "obra da Mossad".

Também na época medieval surgiram acusações de assassínios rituais judaicos. Neles, inocentes criancinhas cristãs eram degoladas e o seu sangue aproveitado para fazer a matzá, o pão ázimo de Pessach, a Páscoa Judaica. Um dos casos mais famosos foi o de Simão de Trento, que seria depois canonizado. Acusações deste teor propagaram-se por toda a Europa ao longo dos séculos, incluindo no século XX, com o famoso caso Beilis, em 1911, na Rússia Czarista. A acusação dos assassínios rituais está tão enraizada na sociedade russa que ainda há poucos anos, o próprio patriarca da Igreja Ortodoxa Russa fez referências e esses libelos de sangue, acreditando fielmente na veracidade das acusações.

Ainda hoje, é possível encontrar abundante literatura que defende histórias deste teor em muitos países árabes, além de numerosos filmes e séries de televisão onde os mitos são encenados. Além destas, a fantasia do plano judaico para dominar o Mundo – que atingiu o seu apogeu na obra Os Protocolos dos Sábios de Sião – continuam a ter aceitação em muitas sociedades, da populaça árabe a alguns intelectuais europeus. A Internet, obviamente possibilitou a dispersão global deste tipo de delírio, havendo milhares de sites e blogs sobre o assunto, ligados desde a canalha neo-nazi europeia e americana, até aos islamo-fascistas. Lojas online vendem CDs e livros sobre o assunto.

Em 2001, após os ataques do 11 de Setembro, depressa apareceram teorias da conspiração que ligavam a Mossad (os Serviços Secretos israelitas) ao planeamento e realização do ataque terrorista. De nada valeram os vídeos divulgados por Osama bin Laden e seus compadres a vangloriar-se pela sua estrondosa “vitória contra o Satã americano”. Ainda hoje, qualquer sondagem num país árabe sobre a autoria dos ataques dará como resposta vencedora a Mossad ou uma aliança desta com a sua congénere americana, a CIA. Bin Laden, esse é o herói mais popular dos mesmos questionados.

Esta semana, na Suécia, o jornal sensacionalista Aftonbladet, um dos mais vendidos do país, publicou um artigo onde acusava Israel de raptar palestinianos e os matar a fim de traficar os seus órgãos. Alegadas testemunhas contaram histórias de familiares que após alguns dias desaparecidos, reapareceram mortos e com marcas de lhes terem sido retirados órgãos. Oportunamente, a história era relacionada com a recente prisão de um judeu americano acusado de traficar órgãos a partir de Israel (pagava 10 mil dólares a um dador em Israel e vendia-os por um valor muito mais alto nos EUA).

Escandalizado por este novo libelo de sangue, o governo de Israel exigiu uma tomada de posição do governo sueco, "uma condenação formal e não um pedido de desculpas" pelas alegações publicadas pelo jornal. A resposta sueca foi peremptória: "não interferimos na liberdade de expressão". Ou seja, não interessa aquilo que o tal jornaleco escreveu, já que a liberdade de expressão e da imprensa é algo absoluto e ilimitado.

Face à posição sueca, começaram a ser tomadas algumas medidas. O ministro do Interior israelita, Eli Yishai, disse que atuaria no sentido de evitar que jornalistas do diário sueco recebessem permissões de trabalhar em Israel. Nem a propósito, logo no Domingo, dois jornalistas do mesmo Aftonbladet dirigiram-se ao Gabinete de Imprensa do Governo (GIG) em Jerusalém requerendo acreditação de imprensa. O diretor do GIG instruiu os seus empregados para atrasar o maior tempo possível previsto na lei – até 3 meses – para rever o pedido dos jornalistas suecos.

De acordo com o diretor do GIG, Danny Seaman, os tais jornalistas reagiram mal quando foram informados de que coisa iria demorar mais do que é costume. Os jornalistas receberem uma explicação da demora: há uma série de verificações a serem feitas, incluindo – disse em tom de piada – testes de sangue, para verificar os tipos de sangue dos repórteres e a sua elegibilidade para transplante de órgãos. Outros apelaram a um boicote a companhias suecas como a IKEA (que tem apenas uma mas bem sucedida loja em Israel) ou a Volvo. Esqueceram-se dos eletrodomésticos Electrolux, dos carros Saab, dos telemóveis Ericson, da farmacêutica AstraZeneca ou das roupas H&M.

Podem alegar que a reação israelita terá sido exagerada. Afinal, quantas barbaridades e mentiras são escritas diariamente nos jornais do mundo inteiro? Até admito que nós, Judeus, somos um pouco histéricos quando falam mal de nós. Porém, há que lembrar que as feridas causadas ao longo dos séculos por acusações como estas são muitas e bem profundas.

PS – Mais uma vez, depois do infeliz episódio do jogo de ténis da Taça Davis há poucos meses em Malmö, a Suécia escreve uma triste página na sua história recente. Sintomático de um futuro promissor...

publicado por Boaz às 20:35
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Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Beleza escandinava

Era para ser apenas mais um jogo de ténis. Israel defrontava a poderosa Suécia no escalão principal da Taça Davis, a mais importante competição internacional de ténis masculino por equipas. A realizar em Malmö (lê-se "Malmou"), a terceira cidade da Suécia, com várias semanas de antecedência percebeu-se que aquele não iria ser apenas uma partida de ténis. A organização do torneio recebeu ameaças contra a presença dos atletas israelitas. Pouco mais de um mês após a operação "Chumbo Fundido" em Gaza, houve apelos ao boicote ao jogo com a equipa de Israel.

O boicote desportivo de Israel foi demonstrado recentemente pelo Dubai, quando recusou conceder um visto à tenista israelita Shahar Peer para participar no Torneio de ténis da cidade, um dos mais importantes do calendário da modalidade. A organização alegou que a recente operação militar em Gaza iria suscitar sentimentos negativos por parte dos fãs do ténis, contra a presença de atletas israelitas. Contudo, face à enorme controvérsia levantada e sob ameaça da suspensão do Torneio do Dubai do próximo ano, foi concedido um visto ao tenista israelita Andy Ram.

No caso sueco, o facto de a população de Malmö ser composta em quase 40% de imigrantes, a maioria muçulmanos, não foi alheio à massiva campanha anti-israelita intitulada "Parem o Jogo". Houve propostas para mudar o local da partida para outra cidade sueca. Porém, a organização recusou. Ao mesmo tempo, a polícia local declarou-se incapaz de garantir a segurança dos fãs israelitas. Daí que a "solução" foi a realização dos jogos à porta fechada. Para lá do IKEA, fica provada mais uma vez a eficiência sueca.


Malmö: Manifestações nas ruas e o estádio vazio.

No dia anterior aos jogos, houve violentas manifestações anti-Israel na cidade, com cerca de 7.000 participantes. O ambiente era tenso. Apenas um grupo restrito de 300 espectadores foi permitido de presenciar as partidas. Para a história, além da vergonhosa ingerência da política no torneio – política e desporto, digam o que disserem, andam sempre de mãos dadas – ficou a vitória de Israel. Os atletas israelitas foram recebidos como heróis em casa. Já a Suécia e a sua arrogância ficaram a cuspir pó após a derrota face a uma equipa israelita tecnicamente muito inferior.

Este é apenas um dos episódios da recente vaga anti-israelita na Escandinávia. Já esta semana, uma equipa de 45 lutadores israelitas de taekwondo que deveria participar num torneio também na Suécia, foi avisada para ficar em casa. De novo, as autoridades disseram que "não poderiam garantir a segurança" dos atletas e dos fãs que os acompanhassem.

Na vizinha Noruega, durante as semanas em que durou a operação militar israelita em Gaza, realizaram-se algumas das mais numerosas e virulentas manifestações anti-Israel em toda a Europa. Nos jornais noruegueses são comuns as notícias e os artigos de opinião (muitas vezes é difícil distinguir os dois tipos) declaradamente contra Israel. O mais famoso escritor norueguês da actualidade, Jostein Gaarder (autor do best-seller O Mundo de Sofia) é um dos mais ferozes intelectuais anti-Israel no país.

Esta hostilidade contra Israel traduz-se também em ameaças aos judeus suecos e noruegueses. Os ataques contra sinagogas têm aumentado de frequência. Em várias ocasiões, artistas têm realizado livremente actuações de carácter visivelmente anti-semita. Em 2004, um museu de Estocolmo exibiu a peça Branca de Neve e a Loucura da Verdade, em que glorificava uma terrorista suicida palestiniana que tinha morto 22 pessoas num café de Haifa. A exposição era coordenada por uma conferência pública sobre a prevenção do genocídio. Na Noruega, o comediante Otto Jespersen, numa das suas rotineiras actuações na televisão pública troçou: "Eu gostaria de aproveitar a oportunidade de lembrar todos os biliões de pulgas e piolhos que perderam as suas vidas nas câmaras de gás alemãs, sem terem feito nada de errado a não ser viver em pessoas de origem judaica". Na ocasião, uma queixa foi feita por um cidadão judeu contra o comediante. O artista recebeu o apoio declarado dos colegas e da televisão pública.

Historicamente, a Suécia e a Noruega, tidas como países liberais e defensores de nobres causas, têm um registo secular de anti-semitismo. Em 1685, o Rei Carlos XI da Suécia passou uma lei proibindo os Judeus de viver no país "pelo perigo da eventual influência da religião judaica na pura fé evangélica". Leis especiais anti-judaicas existiram na Suécia até meados do século XIX. No caso da Noruega, os Judeus foram oficialmente proibidos de residir no país durante mais de 800 anos, até ao século XIX.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as autoridades da Noruega forneceram aos Nazis (que ocupavam o país) as listas dos membros da minúscula comunidade judaica. Mais de 700 judeus noruegueses morreram em Auschwitz. A Suécia, neutra durante a Guerra, acolheu a pedido da Dinamarca a quase totalidade dos judeus dinamarqueses, marcados para a morte pelos Nazis. As acções heróicas do diplomata Raoul Wallenberg, que salvou milhares de judeus húngaros da deportação, garantiram um bom-nome à nação.

Preso pelo Exército Vermelho depois da Guerra, Raoul Wallenberg desapareceu na escuridão do Gulag (o sistema soviético de "reeducação", eufemismo para campos de concentração e de trabalhos forçados). Numa desconhecida vala-comum onde jazerá, algures na Sibéria, o cadáver de Raoul Wallenberg deve revolver-se, perante o estado a que chegou a grandiosa democracia escandinava.

publicado por Boaz às 13:28
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Sexta-feira, 9 de Fevereiro de 2007

Os árabes, os semitas e os anti-semitas

Recentemente, alguém deixou este comentário no blog:

"Anti-semitismo da Síria? Os Árabes também são semitas..."


Capa da obra 'A Matza de Sião' do Min. da Defesa sírio, Mustafa Tlas.
Mostra o velho mito do assassínio ritual, 1983

Este argumento de que porque "os Árabes também são semitas" é exactamente o argumento usado pelos mesmos árabes, em especial na Síria e Egipto, enquanto publicam livros e toda a espécie de propaganda contra Israel e os Judeus. No caso da Síria, por exemplo, ensina-se que os Judeus matam crianças não-judias, antes da Páscoa para usar o seu sangue no pão ázimo.

É um mito já velho de séculos que na Europa da Idade Média (e na Rússia até ao século XIX) provocou centenas de massacres. Ainda não há muito tempo, um alto dignitário da Igreja Ortodoxa Russa se referiu a esse mito, tomando-o como verdade, lembrando que apesar do desenrolar da História, da informação e do desenvolvimento, há coisas que não mudam na mente humana.

Mas claro, por eles serem também semitas, não podem ser anti-semitas. Clarifiquemos então os termos, os Árabes não podem ser anti-semitas, mas muitos deles são, sem dúvida anti-judeus.

É que, logo de início, os semitas nem sequer existem. Pensar que os judeus, como semitas são um grupo unificado em termos de aparência física, é no mínimo cegueira. Que há de comum, "semiticamente" falando, entre os Judeus da Bélgica, do Iémen ou da Etiópia com os judeus de Marrocos? São os judeus da Bélgica, semitas? E os judeus chineses ou do Peru?

Os judeus, dentro dos seus países, não são estrangeiros. Por isso, não se pode chamar ao anti-judaísmo, xenofobia. Também não são uma raça. Para lá do erro antropológico que é dizer que existem raças humanas, no caso específico dos judeus, eles existem-se em praticamente todas as "raças" do planeta.

Assim, o que há de comum - "racialmente" falando - entre os árabes de Marrocos, os índios da Louisiana, os negros da Etiópia, os asiáticos da Birmânia ou dos Himalaias, passando por todos tipos físicos de todos os países da Europa? Há judeus de todos estes tipos. Há judeus louros, morenos e ruivos, baixos e altos, de olhos verdes, de olhos azuis e de olhos castanhos.

Acerca disto referiu o investigador argentino Jorge Luiz Garcia Venturini: "O termo racismo… resulta insuficiente e até equívoco para qualificar a judeofobia, pois o complexo mental e afectivo que a tipifica excede em muito o âmbito racial. Reduzi-la a uma questão racial implica minimizá-la e até a desnaturalizá-la."

Então, aqueles que falam em anti-semitismo deveriam falar antes de anti-judaísmo ou judeofobia.

publicado por Boaz às 13:12
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Sexta-feira, 21 de Abril de 2006

Lisboa 1506-2006 (II)

Publicado ontem no Correio da Manhã. Escrito por Ferreira Fernandes, na sua coluna 'Bilhete Postal':

Um dia especial

Faz hoje 500 anos que uma multidão imbecil tornou Portugal mais pobre. A matança de muitas centenas de judeus em Lisboa (talvez quatro mil) fez o País perder, entre mortos e exilados, os mais cultos e modernos dos seus filhos.

O crime boçal prosseguiu durante séculos. Até ao Marquês de Pombal a "limpeza do sangue" - a prova de ausência de judeus até aos bisavós - era condição para bons empregos. Ao seu ministro Pombal, o rei D. José pediu que decretasse um distintivo obrigatório para quem tivesse sangue judeu. No dia seguinte, ele apareceu com três distintivos ao peito. O rei perguntou a razão. Pombal: "Um por mim, outro pelo inquisidor-mor e outro por Vossa Majestade." Judeus somos, os portugueses, todos um pouco. Ignorantes de nós somos todos muito.

publicado por Boaz às 13:49
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Quinta-feira, 20 de Abril de 2006

Lisboa 1506-2006

Ontem, 500º aniversário do massacre de Lisboa (1506), durante o qual foram mortos cerca de 4000 Judeus e "Cristãos-novos", realizou-se no Largo de São Domingos, junto ao Rossio, uma pequena manifestação em memória da chacina.

Seguindo o apelo lançado via Internet pelo blog Rua da Judiaria, alguns dos presentes acenderam velas. Interessado em saber sobre cobertura jornalística da manifestação, acabei por descobrir no site Yahoo! News diversas fotos, entre as quais a seguinte.

Lisboa 2006

Ao mesmo tempo, também se juntaram, mas com propósitos completamente distintos, alguns apoiantes da extrema-direita nacional. Enquanto na praça uns acendiam as velas memoriais, outro faziam a saudação fascista. O contraste não poderia ser maior...

Na análise das notícias, também notei na falta de presença de elementos da Comunidade Israelita de Lisboa. Segundo as contas, estavam lá 50 pessoas (incluindo o presidente), de entre os cerca de 1000 membros da CIL. Manifestamente pouco, mas que parece estar de acordo com a regra da sistemática fraca exposição pública da comunidade.

Nota: Para informação sobre o massacre de 1506, com alguns relatos da época (e posteriores), recomendo a leitura dos últimos artigos do blog Rua da Judiaria, de Nuno Guerreiro, o jornalista português residente em Nova Iorque que lançou a iniciativa da recordação activa desta tragédia esquecida pelos manuais escolares e pela maioria dos livros da nossa História.

publicado por Boaz às 15:57
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2005

Ao próximo como a ti mesmo?

Caricatura publicada no jornal egípcio Al-Sha'ab, em 30 de Maio de 1989, num artigo que apelava a uma guerra total contra Israel.
Um detalhe: o globo terrestre aparece envolto num kaffiyeh.

Em 1944, o intelectual judeu Maxim Kahn, que escapara da Alemanha Nazi para a Argentina, escreveu, a respeito do anti-semitismo: "a morte dos judeus é, talvez, a mais enigmática das mortes; certamente é a mais acusadora. Durante dois mil e quinhentos anos se vem matando judeus em vez de permitir que morram... começou-se a matar judeus com tanto êxtase que a morte natural já não lhes causa temor... os judeus se agarraram à morte natural como se fosse vida, como se fosse luz do sol, canto de pássaros, fragrância de flores ou amor. Nada lhe pareceu tão apetecível como poder morrer sem marcas de homicídio no corpo. Sua vida se converteu em esperar a morte. É de estranhar que a palavra judeu não se tenha tornado sinónimo de moribundo... o judaísmo é uma saúde incurável."

Estas palavras constam de "Amarás Teu Próximo? - A Judeofobia na Cultura Universal", título brasileiro da obra "La Judeofobia". Conheci há dias o autor, o argentino de nascimento Gustavo Daniel Perednik, que fez questão em oferecer-me uma exemplar da edição brasileira e que prontamente autografou.

O seu primeiro capítulo, por si só, merece uma análise profunda: porquê chamar judeofobia ao fenómeno conhecido comummente por anti-semitismo? Ao longo da obra o autor tenta encontrar as origens de uma fenómeno quase ininterrupto nos últimos 2500 anos; as suas manifestações desde a época grega à actualidade, quando se mostra indistintamente da extrema-esquerda à extrema-direita, dos movimentos anti-globalização aos activistas pró-Palestinianos, da intelectualidade engravatada na Europa, à catrefa fundamentalista islâmica.

Não que eu ache que tenhamos um problema de anti-semitismo - perdão, de judeofobia, em Portugal, mas não era má ideia a edição da obra no nosso português. Para que se perceba mais profundamente aquele que é o ódio mais antigo do mundo.

PS - A ler: um excelente artigo sobre o tema, na Rua da Judiaria.

publicado por Boaz às 10:02
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