Quarta-feira, 29 de Junho de 2011

Mazal tov!

Ainda que, como instituição o casamento esteja em grave crise, o dia da boda é – depois do nascimento – quase universalmente considerado a mais importante data da vida de alguém. Em todas as culturas, a formação de uma nova família é um evento rodeado de inúmeros rituais, tradições, formalidades e superstições.

As festas de casamento judaicas, apesar de serem ocasiões obviamente intensas e emocionantes, duram apenas algumas horas. Em Israel, pelo menos. Não um dia inteiro, como é normal nas bodas cristãs. Em Israel, o único dia de descanso semanal é o Shabbat, o Sábado. O Domingo, pelo contrário, é um dia de trabalho normal. Porém, de acordo com a Halachá, a Lei Judaica, não se realizam casamentos no Shabbat. Restarão os dias úteis para a realização do matrimónio. Depois do horário de trabalho, ao final da tarde, ou já de noite. Em Israel, a maior parte dos casamentos não se realizam em sinagogas. Toda a boda, incluindo a cerimónia religiosa, realiza-se normalmente num salão de festas. Ou num hotel.


Casamento judaico em Marrocos, de Delacroix. Museu do Louvre.

Tirando os membros mais chegados da família, é normal os convidados chegarem à boda diretamente do trabalho. A informalidade israelita não impõe o uso de gravata ou fato de cerimónia. Nem sequer ao noivo. Entre o público dati leumi, ou ortodoxo moderno israelita, é comum muitos dos homens, em especial os mais jovens, usarem sandálias que noutras paragens seriam consideradas adequadas a uma ida à praia. Se esse é o calçado que eles usam até no Shabbat, porque seriam impróprias para usar num casamento?

Entre os Judeus religiosos, muitos dos casais são unidos por intermédio de um shiduch. Algum intermediário combina o encontro entre o rapaz e uma potencial pretendente. Apesar de o shiduch ter a aparência de "casamento arranjado", a decisão de casar-se é feita exclusivamente pelos noivos e nem sequer pelos seus pais. A Lei Judaica proíbe absolutamente a coerção de uma das partes a casar-se com quem não deseja. Apenas o "empurrão inicial" e alguns conselhos intermédios são feitos pelo shadchan, o tal intermediário.

Após a oficialização do noivado – é comum haver uma pequena cerimónia – são poucos meses, ou mesmo só algumas semanas, até à realização do casamento. Não há tempo a perder, se o casal já deseja a união! Além dos inúmeros detalhes de uma qualquer cerimónia de casamento: a escolha do salão, do fotógrafo, da decoração, da banda ou do vestido de noiva, o casamento judaico implica outros trabalhos extras.

Em Israel não existem casamentos civis. Apenas religiosos. Sejam eles judaicos, muçulmanos, cristãos ou drusos. Para os Judeus, toda a burocracia do casamento tem de passar pelo rabinato local. Uma das dificuldades acrescidas nos últimos tempos é a exigência de uma "prova de Judaísmo". Com a imigração de gente de todo o mundo, com muitas pessoas nascidas de uniões não realizadas de acordo com a Halachá, ou que não possuem documentos que provam os casamentos familiares, torna-se mais difícil provar a cadeia familiar judaica. Sem a certeza de que se trata de duas pessoas judias (nascidas de mãe judia ou que passaram uma conversão ortodoxa), o casamento não pode ser realizado de acordo com a "Lei de Moisés e Israel".

Um dos fenómenos causados por estas exigências de prova de identidade – que por vezes revelam que afinal um dos noivos não é judeu – é a decisão de casar fora de Israel. Isto, no caso de o membro não-judeu do casal não desejar passar um processo de conversão. Desta forma, os noivos viajam para a Grécia ou Chipre e aí realizam um casamento civil. Esta união é reconhecida em Israel.

Depois de ultrapassada a burocracia do rabinato, existe a exigência de estudo das leis familiares judaicas. A separação do casal durante o período menstrual, rodeada de complicadas leis, é uma das mais respeitadas tradições do Judaísmo. Mesmo que não sejam cumpridas – em todo ou em parte –, pela maioria das famílias não-observantes, as futuras noivas judias passam pelo menos por uma classe sobre "as leis de pureza familiar". Entre os judeus religiosos, também os homens passam um período de estudo destas leis antes do casamento. Ao mesmo tempo, são estudados assuntos como a harmonia familiar e formas de a conservar, evitando a discórdia.

Nas vésperas do grande dia, noiva deve passar por uma imersão numa mikve, um tanque de águas usado para a purificação ritual. Também existe o costume de o noivo fazer uma imersão na mikve. Em algumas comunidades ultra-ortodoxas existe o costume de o futuro casal não se encontrar, e muitas vezes nem sequer falaram um com o outro pelo telefone, uma semana antes do casamento. Com isto pretende-se aumentar a saudade entre os dois e a ânsia de realizarem a sua união. No próprio dia do casamento cada um dos noivos costuma ser acompanhado por um "guardião". Alguém que os vigia e se assegura que tudo corre tranquilamente e não se deixam vencer pela ansiedade.

Como nos casamentos ocidentais, também o noivo judeu chega primeiro ao local da cerimónia. Há que tratar da assinatura da ketubá, o contrato matrimonial. Perante o rabino oficiante da cerimónia e duas testemunhas – e normalmente também o pai da noiva –, o noivo assina a ketubá, um documento que atesta os direitos da futura esposa e as obrigações do futuro marido. Nesta altura, enquanto o noivo trata das últimas formalidades legais, noutra parte do salão de festas a noiva encontra-se rodeada das amigas, sentada numa cadeira decorada.

Após a assinatura da ketubá, dá-se início à festa. A banda de música que anima a ocasião e os homens convidados rodeiam o noivo, que inicia um cortejo até ao lugar onde a sua noiva está sentada. Para os que cumprem o costume, esta é a primeira vez que os noivos se vêem numa semana. Aí, cobre-lhe a cabeça com o véu. Daí, o noivo, ladeado pelo pai e o sogro, é seguido pelo mesmo cortejo até à chupá, o pálio nupcial sob o qual será realizada a cerimónia religiosa. A noiva chega pouco depois acompanhada pela mãe e, às vezes, também a sogra.

A cerimónia é bastante simples e rápida. Sete bênçãos são recitadas sobre um copo de vinho. Às vezes, cada uma é recitada por um homem diferente, desde rabinos convidados até amigos e familiares dos noivos. Depois da segunda bênção, o noivo entrega a aliança à noiva, declarando que "Estás consagrada para mim através deste anel, como dita a lei de Moisés e Israel". "Consagrada, consagrada, consagrada!", os convidados declaram em voz alta. A ketubá é lida. Normalmente, este é um "momento morto" da cerimónia, uma vez que o contrato matrimonial está escrito em aramaico, uma língua que muito poucos entendem. Ao final das sete bênçãos, recorda-se Jerusalém: "Se eu te esquecer Jerusalém, que a minha mão direita perca a sua força; que a minha língua se cole ao meu palato se eu não te lembrar; se eu não te elevar ao topo da minha alegria".

O momento mais famoso da festa de casamento judaico é o quebrar do copo de vidro. Apesar de se seguir de um "Mazal tov!" (Boa sorte!) em uníssono, o ato simbólico de partir o copo representa a lembrança da destruição do Templo de Jerusalém e de como a alegria desta festa não pode ser completa, ao sabermos que o Templo continua ausente e o Povo de Israel ainda está distante da sua glória de outrora.

Os convidados invadem a chupá para saudar os noivos. Depois, novamente a barafunda do cortejo de convidados acompanha o casal desde a chupá até a um lugar onde os dois, pela primeira vez, se encontram a sós. É a hora de os convidados poderem sentar-se à mesa e comer. Porém, dentro de alguns minutos, quando os noivos voltarem, a euforia da festa será explosiva.

Nas festas de casamento judaicas ortodoxas, existe uma separação entre homens e mulheres. Ao menos na parte das danças. Homens e mulheres dançam em espaços distintos. E com uma barreira, mais ou menos alta, a separá-los. No caso das comunidades ultra-ortodoxas (e também alguns sionistas religiosos) até as mesas da refeição se encontram separadas por géneros.

O baile do casamento é uma ocasião frenética. É quase milagroso como não acontecem desastres durante a festa, dado o nível do frenesi. De mãos dadas em cadeia, os homens dançam em redor do noivo, cada vez mais rapidamente. O mesmo fazem as mulheres em volta da noiva. Os dançarinos mais enérgicos vão passando das rodas exteriores cada vez mais para o interior do furacão dançante. Um convidado mais entroncado levanta o noivo nos ombros. Outros levantarão o pai do noivo e o sogro. Rodando-os e balançando-os sob os aplausos delirantes dos convidados.

De tempos a tempos, o noivo é deixado sentar numa cadeira no centro da multidão de bailantes para descansar por alguns instantes. Suado e exausto, alguém lhe traz uma bebida. Perante o noivo sentado, alguns dos amigos fazem palhaçadas, acrobacias, exibições de dança ou até números de circo com fogo e malabarismos. Tomados pelo entusiasmo e assumindo a missão de alegrar os noivos, até respeitáveis rabinos se transformam em bobos da festa.

É preciso não esquecer que tudo isto acontece num dia de semana. E amanhã também se trabalha. Pelo que a festa acaba relativamente cedo. No final da refeição, restarão apenas os familiares e os amigos mais chegados. As mesmas bênçãos que foram recitadas sob o copo de vinho na chupá são repetidas após a bênção final da refeição. Ainda que a festa não dure sete dias como as bodas ciganas, as refeições festivas em honra do novo casal repetem-se durante uma semana. O primeiro Shabbat após o casamento é especialmente celebrado. Depois de passada a primeira semana, com o seu ambiente de festa quase diário, os noivos entrarão a sério na vida de casados. Para a maioria das jovens famílias, os filhos chegarão menos de um ano depois do “sim” nupcial.

Nesta altura do ano, o calendário judaico aproxima-se dos chamados yimei bein hametzarim, os "dias entre os sofrimentos". São as três semanas que separam 17 [do mês hebraico] de Tamuz e 9 [do mês] de Av, duas datas marcadas por tragédias na história judaica. Nesta época de luto parcial, não se realizam casamentos. Por isso, até à entrada nas três semanas fatídicas em que não se trocam os votos de casamento, acumulam-se as bodas em Israel.

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Segunda-feira, 2 de Agosto de 2010

O rapaz judeu, o “Sim” e a filha do ex-presidente

Um jovem, Marc Mezvinsky, casa com a princesinha da América, Chelsea Clinton, filha do antigo presidente Bill e da atual secretária de Estado Hillary. Ele judeu. Ela metodista. Nos últimos meses, desde que a imprensa noticiara o compromisso entre Marc e Chelsea, os comentadores em Israel especulavam sobre o caso. Se Miss Clinton se iria converter ao Judaísmo e o que significa um casamento destes. Sabe-se que nas últimas “Grandes Festas” – Rosh Hashaná e Yom Kippur, ou o Ano Novo Judaico e o Dia do Perdão –, Chelsea e Marc participaram juntos nos serviços religiosos numa sinagoga. Isso parecia dar um sinal de esperança aos que sonhavam ver formar-se mais uma família no Povo de Israel.


Casamento judeu em Jaffa, 1899

Na América da integração, do "melting pot" onde tudo se funde, até é bastante aceitável uma cerimónia de casamento ecuménica. Como o de Marc e Chelsea. Por um lado, o casamento foi oficiado por um pastor metodista. Por outro, realizou-se debaixo de uma chuppá (o pálio nupcial judaico), com a recitação das Sheva Brachot (as sete bênçãos do casamento judaico), com o noivo de kipá e talit (o xaile de orações judaico), com a assinatura da ketubá, o contrato matrimonial e contou com a presença de um rabino. (Reformista, pois claro). À maneira americana, em nome de Moisés e Jesus. Apenas na aparência. Afinal, dados os factos, é evidente que nem para o noivo é assim tão importante ser judeu, e nem para a noiva significará alguma coisa ser cristã. Se assim fosse, nem se teriam casado, uma vez que fazendo-o, tanto um como o outro, estão a ir contra a tradição da sua religião.

Do ponto de vista judaico, apesar de toda a alegria de um casamento, este é apenas um sinal de um dos fenómenos mais significativos e trágicos da história judaica do último século: a assimilação. O fenómeno surgiu na sua expressão moderna com a emancipação judaica promovida pelo liberalismo napoleónico, quando os judeus da Europa deixaram aos poucos de ser "cidadãos de segunda" e foram integrados na sociedade. Durante séculos, judeu era sinónimo de perseguido.

Em muitos casos, como em Portugal e Espanha, a conversão ao Cristianismo não significava o fim das tormentas, pois continuava o estigma do cristão-novo e as suspeitas de judaizar. Ainda que perseguido, a permanência numa comunidade era o único refúgio para o judeu. Com o despertar das liberdades cívicas e da crescente igualdade de cidadania, independente da religião e origem social, a ideia da comunidade judaica como refúgio tornou-se praticamente obsoleta. Um judeu que saía do caminho do Judaísmo não se tornaria um pária completo “lá fora”. Ainda que, de vez em quando, ainda o fizessem lembrar de onde ele tinha saído. A mácula do cristão-novo, ou judeu-velho que teima em não desaparecer.

Foi na América, terra das liberdades e das oportunidades, que os Judeus mais se desenvolveram e prosperaram. Pela primeira vez na história, os Judeus deixaram de ser uma classe marginal para passarem a estar no mainstream. Para serem o mais fino desse mainstream: a elite na literatura, na filosofia, na política, na moda e no cinema. Elementos da cultura judaica – como palavras em língua yiddish e comidas típicas – foram integrados no quotidiano do americano comum.

Porém, a par da prosperidade económica e da plena liberdade social e de culto, cresceu a dissolução dos valores judaicos como em nenhuma outra sociedade até então. Aquilo que a Torá (em Devarim/Deuteronómio 32:15) descreve como: "E Yeshurun (outro nome de Israel) engordou e deu coices: engordaste, engrossaste e tornaste-te corpulento! E abandonou Deus..."

Esta será apenas mais uma família americana, das milhares de famílias americanas em que um dos cônjuges é judeu. Neste caso, caso Chelsea não se converta ao Judaísmo, no futuro, isso significa que os filhos desta família não serão judeus. (De acordo com a Halachá, a lei judaica, os filhos de mãe judia são sempre judeus, mesmo que o pai seja "gentio", enquanto que os filhos de um homem judeu e de mãe não-judia, serão considerados não-judeus). O abandono dos valores e tradições judaicos – para lá da circunstância de casar sob a chuppá, envolto num talit e de cabeça coberta com uma kippá, escutar as sete bênçãos e ter um rabino - ainda que reformista - a dirigir a cerimónia, realizada num Shabat, são um sinal da crise que vive uma grande parte do povo judeu. Mais ainda na Diáspora. Pior, nas sociedades onde os judeus são livres, com a América à cabeça.

Porém, o que poderíamos esperar de um jovem que nunca teve uma educação judaica significativa? O que significará para ele o Judaísmo para além de algumas velhas histórias de família? Sendo assim, honestamente, não poderíamos pedir mais do rapaz. Para lá do amor – que se diz ser cego – sentido por uma menina que ele achou ser a sua alma gémea. Mesmo que não-judia. Em termos judaicos, o problema de Marc Mezvinsky – e dos muitos como ele – não está nele próprio, mas na sua família que o criou como um não-judeu. Agora, ele apenas se casou em conformidade.

Nos comentários à notícia na Internet, não pude deixar de concordar com a honestidade do seguinte: "Quem disse que isto era um casamento misto? Ele não se importa com a fé dele, ela não se importa com a fé dela. Este é o casamento perfeito para duas pessoas que não se preocupam com a sua herança. Isto não é um casamento misto. É a triste realidade de uma sociedade sem outros valores para lá do ser liberal".

E depois da bela festa, dos flashes dos fotógrafos e as parangonas nas revistas cor-de-rosa, Marc e Chelsea viverão felizes para sempre. Ou, em menos de dois anos estarão a juntar-se à regra de "casar entre um divórcio e o outro". Para seguir fielmente mais uma tradição americana.

publicado por Boaz às 23:00
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Domingo, 4 de Maio de 2008

Mar da Tranquilidade

Depois de uns dias "off", com tantas coisas em que pensar para lá do blog, regresso a esta humilde casa virtual.

Desde o início do mês de Abril, tive imensos assuntos a tratar para o casamento e a passagem para a minha nova casa – a real, não a virtual. A mudança para a nova casa foi a coisa que deu mais trabalho. Marcada primeiro para um dia, depois adiada porque a família que ocupava o nosso futuro apartamento ainda não tinha tirado todas as coisas e limpo o lugar. E a dor de cabeça começava. Como levar todos os nossos pertences, e arrumar tudo, ainda a tempo da data do casamento?

Tínhamos recebido a maior parte dos móveis da casa, de uma organização de beneficência: os móveis do quarto, um roupeiro imenso, a mesa da sala, o fogão e o frigorífico. Sem podermos ainda levá-los para o nosso futuro lar, tivemos a mão generosa de uns vizinhos amigos que nos dispensaram a sua cave como armazém provisório. As mobílias que faltavam, decidimos comprá-las em segunda-mão, através da Internet.

Tudo o que eu tinha acumulado na yeshiva levei, em várias viagens de autocarro, para o apartamento de solteira da minha futura esposa, no bairro de Kiryat Yovel, em Jerusalém. Pedimos caixas num supermercado vizinho. Passámos dias a encaixotar roupas, livros, louças, CDs.

Entretanto, quando faltava uma semana para o casamento, concordámos em seguir a tradição judaica de o futuro casal não se encontrar durante uma semana inteira. Concordámos também, dada a quantidade imensa de coisas que ainda tínhamos para tratar, de nos falarmos por telefone e trocarmos mensagens. Comunicação por telepatia não é a minha especialidade.

No dia da mudança, a viagem da carrinha de transporte iria ter várias paragens. Primeiro, no bairro de Baka, em Jerusalém, para recolher os sofás-cama para o futuro quarto das crianças (entretanto usado como quarto de possíveis visitas e sala do computador). Coordenado ao minuto com a hora em que o antigo dono dos sofás iria estar em casa, antes de partir para o trabalho. Depois, um trabalho extra da empresa de mudanças. A seguir, uma saída até Givat Zeev, a norte de Jerusalém, onde foram recolhidos os sofás da sala. Quase na hora limite de a dona dos sofás sair de casa… Regresso a Jerusalém para levar todas as caixas do apartamento de Kiryat Yovel. Destino: Alon Shevut, um pequeno colonato no bloco de Gush Etzion, 15km a sul de Jerusalém.

O pequeno apartamento do bairro antigo do colonato ficou atulhado de caixas e mobílias fora do lugar. Decidimos não manter um dos sofás na casa, dado que a sala ficaria demasiado apertada com dois sofás. Montar a cama de casal, entregue em peças, foi uma empreitada só à altura de especialistas em puzzles. Ao menos podia dormir na cama das visitas, montada na hora pela equipa das mudanças. O enorme e lindo roupeiro de seis portas para o quarto de casal, teve de regressar ao armazém de conveniência na casa dos vizinhos. Obsoleto no quarto de casal, onde já existe um roupeiro de parede, estava destinado ao futuro quarto das crianças, mas… Era demasiado alto para o baixo tecto daquela divisão. O dono da empresa de mudanças foi simpático em emprestou-nos um outro roupeiro, mais pequeno.

Consegui arrumar muitas das coisas trazidas pela carrinha das mudanças. O resto foi empilhado num canto do quarto. Para ir sendo arrumado. Devagar, ao ritmo das necessidades.

Aos poucos, a nossa casa foi-se compondo. A generosidade dos vizinhos e famílias conhecidas do colonato é infindável. De tempos a tempos ligam-nos a dizer que têm algo para nós. Algo que já não usam, ou que receberam e não precisam e que nos querem oferecer.

A máquina de lavar roupa, também oferecida, foi entregue alguns dias depois da boda. Mas esteve várias semanas sem sair da respectiva caixa. Teria de ser um técnico a instalá-la, para não perdermos a "garantia". A montanha de roupa suja foi crescendo até ocupar metade da – já de si apertada – casa de banho. No dia em que foi finalmente montada, foi um alívio. Menos para a máquina: saía uma carga de roupa, entrava outra. Até não haver mais espaço no estendal.

A lista de coisas que ainda nos faltam vai sendo cada vez mais curta. A vida segue tranquila. Telefone, Internet. Tudo já está tratado. Agora falta alterar o nosso endereço. E mudar de documentos. O "solteiro" no estado civil é coisa do passado.

publicado por Boaz às 20:48
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Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

Mudanças

Uma das maiores mudanças na vida de um ser humano – a maioria das pessoas concordará – é o casamento. No dia anterior, é-se solteiro. No dia seguinte, casado. Não é apenas uma alteração de estado civil, um "sim" dito entre tantos outros durante a vida. É toda uma nova forma de ser que começa.

Mesmo para os casais que vivem juntos durante um certo período sem se casarem, após dizerem o "sim" e assinarem os papeis, a sua realidade passa a ser diferente. O compromisso anterior era um comum acordo mais ou menos informal. Sem qualquer obrigação além daquelas que existem numa relação entre duas pessoas comuns. Agora é a lei que prescreve uma parte das obrigações e direitos de cada um.

Estou a menos de uma semana dessa enorme mudança. Desde 15 de Agosto do ano passado – ou 1 de Elul no calendário hebraico – data do nosso compromisso formal, foram meses intensos de preparações. Primeiro a decisão da data. Em Israel é normal os casais noivarem durante pouco tempo, umas semanas, um ou dois meses no máximo. Todavia, para nós não podia ser muito cedo, ainda durante o ano passado, para permitir que as nossas famílias, em Portugal e no Brasil, pudessem marcar férias com antecedência e virem ao casamento.

Por outro lado, não queríamos adiar demasiado até ao Verão seguinte, para evitar o intenso calor estival de Israel. Ainda, teria de ser antes da Páscoa Judaica, que este ano acontece em meados de Abril, pois a lei judaica proíbe os casamentos nos 40 dias depois da Páscoa. Depois desses 40 dias já estaríamos no Verão. Oito de Abril pareceu-nos a data ideal.

Marcámos o local da festa para a Yeshivat HaKotel, onde eu estudo, pois sabíamos que fariam um preço especial pelo facto de eu ser aluno da yeshiva. Com vários meses de antecedência, fizemos a reserva do salão da yeshiva. Um dos maiores salões do Bairro Judeu da Cidade Velha, com vista para o Muro Ocidental e o Monte do Templo, é um local cobiçado para festas.

Decidir o menu. Ressalvar que não queremos a comida picante, a pensar nas nossas famílias, pouco habituadas aos quentes temperos do Médio Oriente. A decoração. O salão não providencia tudo, por isso há que conseguir quem fornecerá as flores para as mesas.

Seguiu-se a decisão do número de convidados e a divisão deste número entre os convidados do noivo e os da noiva. Quem chamar, quem deixar "pendente", quem excluir? Não se pode chamar toda a gente. Quem ficará ressentido connosco se não o chamarmos? O fotógrafo. De boca em boca passam informações. Foi fácil de encontrar. A banda de música. Escutámos CDs de bandas que tocam em casamentos, prestámos atenção nos casamentos onde estivemos, fomos até a uma audição especial de um grupo num estúdio de Jerusalém.

Começar a pensar onde iremos morar. Decidimo-nos por um colonato alguns quilómetros a sul de Jerusalém, Alon Shevut, na região de Gush Etzion. É o local de residência de várias famílias brasileiras que ambos conhecemos. Além de ter sido a morada da noiva até há poucos meses, o que significa que ela conhece muita gente no local. O que significa que a integração será, assim, mais fácil para ambos. A burocracia israelita foi o próximo obstáculo a transpor. As autoridades religiosas exigem uma série de documentos. Fizemos várias visitas ao Tribunal Rabínico de Jerusalém para tratar de alguma papelada.

A roupa. Um vestido de noiva é algo que só se veste – em princípio – uma vez na vida. Comprar seria um desperdício de dinheiro. Em Israel, não faltam organizações que dão vestidos de noiva ou alugam a preços bem acessíveis. A minha roupa foi bem mais fácil de decidir. Um fato, ao mesmo tempo de noivo, mas que eu pudesse usar depois para o Shabbat. Uma camisa branca, uma gravata. Os meus sapatos de Shabbat. Sem dores de cabeça.

Outra ponderação foi: quem escolher para as duas testemunhas na cerimónia de casamento? É um cargo de honra na boda, convém que seja alguém de quem estejamos especialmente próximos. A quem chamar para dizer as sete bênçãos no pálio nupcial? Com a quantidade de rabinos que conhecemos não é difícil escolher. O problema é quem ficará de fora.

Estudar. A lei judaica é bastante minuciosa com as relações entre as pessoas. Ainda mais entre os membros do casal. Pelo facto de a lei judaica proibir o contacto entre marido e esposa durante o período menstrual, a relação está muito dependente do ciclo da mulher. Durante vários meses estudei com um rabino as leis de nidá, nome dado ao estado da mulher durante a menstruação, e Shalom bait, a paz em casa. É óbvio que o relacionamento entre o casal não pode ter como fundamento único a relação sexual. Nos dias em que o contacto físico entre os cônjuges é proibido, é essencial encontrar outros meios de manter a relação entre ambos forte e harmoniosa.

Esta última semana tem sido uma correria para tratar das coisas para a casa. Ainda mais, por coincidência, esta é a última semana do semestre da yeshiva. Desta forma, tenho de tirar todas as minhas coisas do meu quarto. A solução foi transferir tudo para o apartamento onde a minha noiva ainda mora em Jerusalém. Desta forma, a carrinha das mudanças poderá levar, de uma vez só, todas as nossas coisas para a casa nova.

Recebemos a maior parte da mobília e dos electrodomésticos. Mas tivemos de andar à procura em casas de móveis e em sítios de Internet que vendem artigos usados, para encontrar as coisas que nos faltavam. Visitar casas aqui e ali para apreciar as mobílias. Com todas estas coisas, não me posso queixar. Tivemos muitas ajudas. A mão estendeu-se muitas vezes para nos ajudar. Mesmo sem pedirmos.

A mitzva (preceito judaico) do casamento, a base da ordem divina "crescei e multiplicai-vos", é uma das mais apreciadas. É enorme e incansável o esforço e a generosidade das pessoas para ajudarem os futuros casais. Há organizações que doam de tudo, desde móveis e roupa de casa, até arranjos de flores para decorar o salão da festa. A sociedade judaica sustenta-se, acima de tudo, na família. Por isso tanto é investido para ajudar cada nova família que nasce.

publicado por Boaz às 12:08
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