Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Os moicanos de hoje

23 de Março de 2006, por volta das 11 da manhã. Tinha acabado de passar o Bet Din (tribunal rabínico) que tinha julgado a minha conversão ao Judaísmo. O rabino que me aceitara na Comunidade Judaica de Lisboa e com quem tinha começado a estudar, dois anos antes, tinha-me acompanhado naquele momento crucial no processo de conversão. Foi em sua homenagem que escolhi o meu nome hebraico, Boaz.

À saída do edifício, o rabino disse-me, apontando as minhas têmporas: "Agora vais ter de deixar crescer as payot". "Naaa, acho que não", respondi, desinteressado em aceitar aquele costume. Porém, dois ou três meses depois, quando voltei a cortar o cabelo – a primeira vez que cortei o meu próprio cabelo – deixei sem cortar uma área acima das orelhas.


Enrolar as payot. É quase um vício daqueles que seguem este costume judaico.

A Torá proíbe aos homens judeus cortar completamente os cantos da cara – payot, em hebraico, baseada no versículo: "Não cortarás o cabelo dos cantos da vossa cabeça, e não rasparás [com navalha] a tua barba" (Levitico/Vaikrá 19:27). Umas das explicações para esta lei – se é possível explicar completamente os mandamentos da Torá – é distinguir os Judeus dos Gentios. Os judeus iemenitas tinham (e alguns ainda mantém) o costume de usar payot especialmente longas, às quais chamam "simanim" (sinais), exatamente por servirem de sinal de distinção com os não-judeus. Uma consequência desta proibição foi a difusão do costume de deixar crescer o cabelo nos cantos da cara entre alguns sectores judaicos mais ortodoxos. Ainda que esse não fosse o fundamento desta lei. A proibição é o corte completo do cabelo nos cantos da cabeça, sem haver qualquer obrigação de deixar crescer as payot.

Antes que os meus caracóis crescessem até poder prendê-los atrás das orelhas, habituei-me às piadas dos colegas da yeshivá. Diziam que as minhas pequenas payot pareciam orelhas de urso. Porém, nos meses seguintes, os tufos de cabelo junto às orelhas foram crescendo e foi possível "adestrá-los" atrás das orelhas. Acabaram-se aquelas piadas. Começariam outras.

Em algumas ocasiões, usava os "canudos" bem enroladinhos e presos atrás das orelhas, quase impercetíveis. Assim os usei em 2007, da segunda vez que voltei a Portugal depois da minha mudança para Israel. Por alturas do meu casamento, as minhas payot já quase alcançavam a altura dos ombros. Para as fotos na boda, usei-as enroladas e metidas atrás das orelhas. O balanço das danças depressa as fizeram saltar para fora do esconderijo. Alguns meses depois de casar, passei a usar os caracóis sem estarem colocados atrás das orelhas. Isso, junto com a minha barba ruiva, podia dar-me um ar marcadamente ultra-ortodoxo, ainda que essa não seja a corrente judaica que eu sigo.

No meu quarto regresso a Portugal, em 2009, em nenhum momento escondi as payot atrás das orelhas ou debaixo da kippá. Fosse no encontro com os amigos ou nas idas ao supermercado em Leiria ou na Batalha, a vila onde cresci, ou nos passeios em Lisboa. Se havia olhares de estranheza pelo meu aspecto tão incomum nas ruas portuguesas, nunca os percebi como hostis. Noutras paragens na Europa, por razões de segurança – inclusive por perigo de vida – teria sido recomendável ocultar aquele sinal judaico tão evidente.

Nos princípios de 2011, as minhas payot levaram o primeiro grande corte. Antes de uma entrevista importante sobre uma proposta para trabalhar como líder comunitário e professor de escola judaica numa cidade da Argentina, fui aconselhado a realizar uma séria tosquia. Entendo que o tal aspeto “demasiado ortodoxo” poderia causar uma certa rejeição inicial, em especial numa comunidade pouco religiosa. Por esse valor mais alto, aceitei sacrificar as minhas payot que começara a deixar crescer há quase cinco anos.

Na semana passada, desferi o último golpe no que ainda restava. Fui a uma barbearia de Jerusalém, que frequentara várias vezes, situada no bairro ultra-ortodoxo de Mea Shearim. Mera provocação: ir justamente ali cometer tamanho sacrilégio! No sofá da barbearia estava sentado um judeu ultra-ortodoxo, amigo do barbeiro. Naquela hora da tarde, sem clientes a quem servir, o barbeiro estava a estudar Torá com o amigo até à minha entrada no estabelecimento.

Ao sentar-me na cadeira do barbeiro pedi: "máquina número 3 de lado e tesoura em cima". Assim que pedi ao barbeiro que cortasse o meu cabelo com a máquina, o seu gesto imediato foi segurar uma das payot e passar a máquina à volta dela. Disse-lhe que poderia cortar também as payot. Parou subitamente, espantado com a minha ordem. "O que se passou?", perguntou ele. Respondi, "Nada, apenas desejo cortar as payot. Já as tive durante muito tempo. Chegou a altura de as cortar."

Nesse momento, iniciou-se uma discussão filosófica entre o barbeiro e o amigo. O barbeiro parecia decepcionado pela minha mudança de aspeto. Conversámos um pouco. Ao saber que eu já tinha saído da yeshivá e entrado no mundo do trabalho, o tal amigo sentado no sofá comentou “o trabalho é que guarda o juízo ao homem!”. Algo surpreendente vindo de alguém que pertence a um público onde muitos dos seus membros olham o trabalho como algo quase desprezível, defendendo que um homem deve apenas estudar Torá.

Curiosamente, o homem do sofá tinha umas payot longas, e uma barba a condizer. Numa declaração que parecia falar contra ele próprio, comentou que o aspeto dos ultra-ortodoxos os torna “os moicanos de hoje”. Com as suas longas (e muitas vezes desgrenhadas) barbas e as payot, são tão extravagantes como as coloridas cristas eriçadas que foram moda entre a juventude rebelde há algumas décadas.

Depois de terminado o trabalho do barbeiro, observou "Olha como ficou bonito! Tem barba, tem as payot que a Torá prescreve, que não precisam de ser longas, kipá e tzitzit à mostra. Abençoado sejas". Desejou-me boa sorte para o trabalho. E que sendo um judeu religioso no mundo do trabalho, que santifique o nome de Deus.

Este é um desafio dos judeus religiosos: manterem a prática religiosa no seu contacto com o mundo não-religioso. Muitos aspetos da “vida moderna” são contrários a certas determinações da Lei Judaica. Se do lado secular, existe uma certa aversão às manifestações exteriores de religiosidade, do lado religioso existe também a insistência em afirmar essa identidade religiosa. Ambos os lados se sentem ofendidos pela atitude do lado contrário.

Um judeu religioso, no seu trabalho, tem a dupla responsabilidade de ser um bom profissional e um bom cumpridor da Halachá. O seu aspeto exterior pode criar a aversão dos não-religiosos não só à sua pessoa, mas a todos os judeus religiosos. No caso em que ele seja o único judeu observante entre os colegas, ele será um embaixador de todo o público religioso. Um representante da tradição milenar judaica e um testemunho de que a Torá tem lugar e relevância em todas as eras, sem nunca cair em desuso, e muito menos parecer ultrapassada.

publicado por Boaz às 21:50
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Sábado, 27 de Novembro de 2010

A Igreja e a borrachinha

Depois de anos a lutar contra a maré, as críticas, as manifestações de repúdio, os cartoons ofensivos – acrescentaria ainda a modernidade libertina e os esquerdistas anti-tudo-o-que-cheirar-a-velho –, o Papa resolveu dar o braço a torcer e permitir o uso do preservativo (camisinha, em português do Brasil). Porém, a permissão é apenas "em certos casos", para reduzir o risco de contaminação por HIV, o vírus da Sida (ou Aids). "Finalmente". "Um passo no bom caminho". "Já vem tarde", etc. Este é o tipo de reações ao volte-face papal. Numa instituição atacada por todos os lados, nada do que possa fazer, chega para melhorar os estragos já feitos.


Preservativo Papal, o polémico cartoon de António, 1993 | Bordel em Nairobi, Quénia.
O presidente sul-africano Jacob Zuma, com as três atuais esposas. Em Dezembro casará com a quarta.
Tem pelo menos 23 filhos de 11 mulheres diferentes. No país com maior número de seropositivos do planeta, o presidente além de polígamo é também famoso por ser promíscuo. Um exemplo para a nação.

Virou moda atacar o Cristianismo. Não há que negar os abusos. A pedofilia entre os sacerdotes católicos e respetivo encobrimento pela liderança da Igreja são factos graves. Porém, se alguém pensava o contrário, membros do clero pedófilos (e encobrimento dos casos pelas altas esferas da hierarquia) também existem no Islão, no Protestantismo, no Judaísmo ou no Hinduísmo. E poucos saberão o que se passa com os jovens monges nos recônditos mosteiros budistas. Experimente googlar sobre o tema – foi o que eu fiz – e saberá que, por detrás da reclusão e da modéstia monástica oriental, também há predadores da inocência infantil. Não é só na sombra da cruz que se escondem os depravados.

Abuso de poder do clero. Mas não existem pastores, imãs, rabinos, gurus e lamas que se aproveitam da sua posição para enriquecimento ilícito? E relações demasiados próximas entre o poder clerical e temporal em todos os países onde uma religião – seja ela qual for – seja a maioria, o que leva tantas vezes à corrupção daqueles que se acham e dizem incorruptíveis? Obviamente que o facto de haver outros que também pecam não desculpa os pecados de ninguém. Talvez os torne mais relativos. Menos exclusivos. Este rol de crimes, abusos, pecados e pecadilhos é em muitos casos público, criticado e condenado. E obviamente, condenável.

De toda a má fama que a Igreja ganhou com tantos escândalos, tornou-se alvo de todas as acusações. A cada discussão sobre o uso do preservativo e a SIDA, os dedos acusadores viram-se para o Vaticano. Uma das acusações é culpar o Vaticano/a Igreja Católica pela propagação da Sida, por via da proibição católica do uso do preservativo. Em primeiro lugar, este tipo de acusação é absurdamente cínico. À laia dos medievais (e em alguns casos ainda atuais) libelos de sangue anti-judaicos, este é nada menos que um libelo. Libelo de esperma, digamos. É certo que a Igreja é contra o uso das borrachinhas, mas apenas os católicos são supostos cumprir os decretos vaticanos. Usemos um pouco a lógica. Apenas os católicos são infetados com Sida? E se, caso exista algum não-católico infetado, a quem devem atirar-se então as culpas? Se não à Igreja, então a quem?

É pura desonestidade intelectual acusar a Igreja de responsabilidade na propagação da Sida. Em termos de comportamento sexual, a doutrina oficial católica – a qual aliás, coincide com a posição da Lei Judaica – é bastante clara: proibição do uso do preservativo e do sexo antes do casamento e a obrigação da fidelidade conjugal. Na África Subsariana – onde vivem 70% dos infetados com a doença a nível mundial – a promiscuidade sexual, a poligamia e o recurso à prostituição são práticas correntes. Máximas da moral católica como a abstinência sexual pré-matrimónio e a fidelidade depois dele são antagónicas com a profundamente machista cultura africana. Sejamos honestos, estas são as razões para a alarmante propagação da epidemia em África (e não só). E não qualquer norma anti-preservativo saída da Cúria Romana.

E não é apenas em África que o "ideal do macho-alfa africano" adoece, morre, contagia e mata com Sida. Nos EUA, os Afro-Americanos somam 47% do total da população seropositiva (infetada com o vírus HIV) e, mesmo após várias décadas de campanhas de prevenção da doença, são mais de metade dos novos casos de contágio da doença, apesar de os Afro-Americanos totalizarem apenas 12% da população do país. Entre as mulheres afro-americanas as estatísticas mostram que elas têm 19 vezes mais hipóteses de sofrerem da doença do que as mulheres americanas brancas. Dezanove vezes! Porém, é racismo fazer estas correlações. (Tal como é homofobia referir que a maioria dos infetados nos EUA são homossexuais, incluindo metade dos novos casos reportados anualmente.) Isto não quer dizer, obviamente, que a homossexualidade ou o ser africano implica automaticamente contágio com Sida. Somente que, alguns comportamentos prevalentes nestes grupos – mas não exclusivamente neles – podem explicar os maiores níveis de incidência da doença.

O Uganda foi, nas décadas de 1980 e 1990 o país com maior prevalência da epidemia. Hoje é tido como o único caso de sucesso de controlo da doença em África, sendo o único país africano a conseguir reduzir a sua taxa de infeção por HIV. É verdade que campanhas de informação sobre o uso do preservativo tiveram os seus resultados no estancar da doença. Porém, mesmo contrariando a cultura local prevalente, houve também uma promoção da abstinência sexual antes do casamento e da fidelidade. Tal como tem sido a doutrina católica neste assunto. E assim continua a ser, apesar da nova permissão – em certos casos – do uso da camisinha.

Contudo, num mundo em que "É proibido proibir" é um dos lemas vigentes; o auto-controle é sinónimo de fraqueza; a virgindade, a fidelidade e o casamento estão ultrapassados e uma pessoa moderna é aquela que experimenta de tudo, colocar travões nas vontades é digno de condenação. Daí a impopularidade da posição tradicional do Catolicismo nesta questão. Podem elogiar quanto quiserem o uso da camisinha na diminuição do risco de infeção de Sida ou outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas sem uma educação do compromisso e da responsabilidade pessoal e sexual, não virá da borracha a salvação.

publicado por Boaz às 22:05
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Sábado, 4 de Outubro de 2008

Manter a calma

Há dias, a boleia matinal que consegui apanhar para chegar a Jerusalém, deixou-me no bairro de Talpiyot, a sul da capital. Apeei-me antes da zona dos centros comerciais e fui esperar pelo autocarro numa paragem na Estrada de Hebron, a principal avenida do bairro, que liga o sul ao centro da Cidade Santa.

Pouco depois de ter chegado, senti uma palmada nas costas. Nada de muito violento, estilo palmadinha de amigo. Virei-me de imediato, pensando que iria encontrar algum conhecido. Um sujeito totalmente estranho, perguntou-me com ar um levemente provocatório: "Atá coess alai?" (Estás chateado comigo?) Vi que o fulano tinha problemas... Respondi calmamente: "Não, não estou chateado. O que aconteceu?" Toda a situação foi um pouco surreal. Acabou por me fazer rir. Longe dos seus olhos, não fosse o homem ficar ofendido e querer oferecer-me outra palmada, desta vez menos amigável...

O tipo acabou por ter sorte em ter dado as palmadinhas em alguém calmo e "boa onda" como eu. Se tivesse escolhido o típico israelita, poderia ter tido uma resposta menos serena. O israelita comum é agitado, nervoso, fala alto e não evita qualquer oportunidade para responder a uma provocação.

Isso traduz-se em discussões por verdadeiras miudezas: no supermercado, no autocarro, na repartição pública, na espera que o semáforo mude para verde ao atravessar a rua, e especialmente, no trânsito. O uso permanente da buzina, o pé pesado no acelerador, o esbracejar quando a fila não anda e a pressa exige rapidez. Todas estas são expressões diárias desse nervosismo natural do israelita. A histórica situação de conflito e a instabilidade política também influenciam o estado de espírito normalmente agitado.

Quem vem pela primeira vez a Israel ou conhece o seu primeiro israelita, fica com a sensação de ser um povo um pouco impaciente, rude até. É só impressão. Os israelitas usam uma metáfora para descreverem esse modo peculiar de ser. Chamam-se a si mesmos de sabra, o cacto do deserto. Tal como os frutos do cacto, os israelitas são normalmente espinhosos por fora e doces por dentro.

publicado por Boaz às 21:37
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Sábado, 18 de Novembro de 2006

Fogo na Cidade

Jerusalém é uma cidade onde os tempos de maior agitação estão definidos. Além dos dias santos judaicos, como as peregrinações de Pessach (a Páscoa Judaica), Shavuot e Succot; as festas muçulmanas, especialmente o mês de jejum de Ramadão e as datas cristãs de Natal e Páscoa, existem ainda os feriados nacionais israelitas, com destaque para o Yom Yerushalayim (Dia da Reunificação de Jerusalém, na guerra dos Seis Dias) e o Yom Atzmaut (Dia da Independência de Israel).

Sempre há uma ou outra manifestação politica a decorrer, como tendas montadas junto a um qualquer ministério a protestar contra alguma coisa. Nada de mais. Nas semanas passadas, a cidade agitou-se com a perspectiva da realização da Marcha Mundial do Orgulho Gay. Uma organização internacional, apoiada por um grupo local, decidiu marcar para a Cidade Santa um desfile de "orgulho gay".

Após a permissão dada pelo Supremo Tribunal para a realização da marcha, levantaram-se imediatamente as vozes dos opositores ao desfile, visto como uma provocação e, pior ainda, uma profanação da santidade de Jerusalém. Líderes judeus, cristãos e muçulmanos reuniram-se para, a uma só voz, se oporem à Marcha. Coisa rara essa aliança, apenas vista aquando da visita de João Paulo II a Israel em Março de 2000 e de uma marcha idêntica realizada em 2005.

À medida que se aproximava a data anunciada para a realização da Marcha - para aumentar a afronta, marcada para a véspera de Shabbat - foi crescendo a oposição ao evento. Cartazes espalhados pela cidade relatavam uma alegada profecia de uns anónimos "mestres cabalistas" que avisavam que, na eventualidade da parada ser realizada, Israel sofreria "uma guerra no Norte e um grande terramoto".

Chegaram a aparecer anúncios a oferecer uma recompensa de 5000 dólares a quem matasse um dos que se atrevesse a participar na Parada. Na marcha do ano passado, um homem armado com uma faca e com a mesma ideia, feriu levemente três participantes. Foi recentemente condenado a 20 anos de cadeia.

Depressa a manifestação de oposição ao evento deixou de ser apenas verbal e em acesos artigos de jornal e passou para as ruas. Em bairros de Jerusalém habitados principalmente por haredim (judeus ultra-ortodoxos), jovens exaltados incendiavam diariamente os contentores de lixo. No bairro de Mea Shearim bloquearam as principais ruas com pilhas de pneus a arder e enfrentaram a polícia com chuvas de pedras. Por várias ocasiões, o trânsito no bairro teve de ser desviado, devido à desordem nas ruas.

Numa das manhãs seguintes a uma das batalhas de rua em Mea Shearim, passei pelo bairro, situado a uns 15 minutos a pé da Cidade Velha. No ar um cheiro forte a queimado, um aroma do género "Beirute anos 80". Os passeios estavam cobertos de boletins da versão local do totoloto, provenientes de uma banca de apostas alvo de vandalismo. Nas ruas - onde a maioria das lojas permaneciam fechadas - ainda se viam os restos carbonizados de pneus. No principal cruzamento do bairro, a marca mais chocante de todas: a carcaça de um automóvel calcinado, virado de rodas para o ar. Ali ao lado, os vidros quebrados das paragens de autocarro.

Os rabinos mais importantes, apesar de naturalmente se oporem ao desfile, condenaram igualmente a onda de destruição e as opções de oposição violenta. Foi marcada então uma contra-marcha para a mesma manhã.

No entanto, apesar da enormidade dos protestos, a Parada Gay foi apenas cancelada nos seus moldes iniciais por causa de uma operação militar levada a cabo pelo Exército de Israel em Gaza.

É que, dada a envergadura da operação e a subsequente necessidade de aumentar o nível de segurança nos pontos principais do país, os 12 mil polícias inicialmente previstos para vigiar a marcha e evitar recontros com os contra-manifestantes foram mobilizados para locais sensíveis. E assim, ao fim de tantos protestos contra a Marcha, esta acabou por realizar-se, mas num recinto fechado, num estádio do campus universitário e em moldes mais discretos.

Com mais ou menos plumas e lantejoulas, a vida segue normal em Jerusalém.

publicado por Boaz às 17:12
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Terça-feira, 10 de Outubro de 2006

Em nome de quê?

Nunca é fácil viver longe da família e dos amigos. É verdade que amigos fazem-se ou arranjam-se outros novos, mas nunca se deixam os "antigos" para trás. E a própria noção de família pressupõe eternidade dos laços - divórcios à parte -, pelo menos entre pais e filhos.

Nunca tive grande facilidade em fazer amigos. Aliás, creio que é mesmo impossível ser fácil "fazer amigos". A amizade requer um conhecimento mútuo, uma cumplicidade e uma proximidade tal que não se conseguem senão com um contacto particular e profundo que não se estabelecem com qualquer pessoa.

Sempre tive um grupo muito exclusivo de eleitos como "os meus amigos". A minha denominação de alguém como "amigo" sempre foi mantida no mais alto nível. Nunca tive o hábito de chamar "amigo" a todo o bicho e careta com quem contactava diariamente na escola. Esses foram e são simplesmente "colegas".

Antes, era habitualmente reservado nos meus contactos com estranhos. Aqui em Israel, com a distância da família e dos amigos de Portugal - que são os amigos de sempre -, descobri uma faculdade que não julgava ter: a de socializar com pessoas novas e criar laços com relativa facilidade. A saída da yeshivá Machon Meir e a entrada na Yeshivat HaKotel obrigou-me a construir novos vínculos.

Alguns - muito poucos - dos companheiros de estudos da antiga yeshiva, acabaram por tornar-se amigos de quem sinto uma falta constante. Na minha nova casa, a integração fez-se muito por conta da facilidade de contacto entre portugueses e brasileiros. O meu habitual sentido de humor e a natural boa-disposição brasileira ajudaram no processo.

Hoje olho para as fotos que trouxe de Portugal com uma saudade impossível de conter. Pelo menos uma vez por semana recebo uma chamada da minha mãe. Menos frequentemente sou eu que ligo. Há dias em que penso por momentos que o pior pode acontecer com os que estão distantes e eu, a mais de 4000 quilómetros de distância, sem poder fazer nada. A ansiedade pela distância existe naturalmente nos dois sentidos.

Durante as semanas de guerra entre Israel e o Hezbollah subiu a frequência das chamadas da minha mãe. Preocupada com a minha situação. Não consigo conceber o nível da sua angústia ao ver as imagens da guerra e imaginar-me próximo daquilo tudo. Sempre me pedia para regressar a Portugal. Ofereceu-se até para me pagar o bilhete, para ao menos passar umas semanas longe do conflito. Sempre lhe dizia que em Jerusalém a situação estava praticamente inalterada e que ficava bem distante dos locais atingidos pelos mísseis no norte de Israel. Obviamente que isso não era suficiente para a sossegar.

Todas as vezes que falamos, me pergunta quando volto a Portugal e diz-me que tem saudades. Infelizmente, nunca lhe posso dar grandes certezas quanto ao meu regresso, mas digo-lhe que em princípio no próximo Março devo ir visitá-la. Gostava de poder ir a Portugal ao menos uma vez por ano. Foi essa a esperança que lhe deixei quando nos despedimos no dia da minha partida para Israel, em Maio último.

A condição quotidiana de Israel nunca é tão relaxada como na maioria dos outros países, por isso custa-me deixar as pessoas preocupadas com a minha situação. Em nome do quê o faço? Tenho pena que todo o meu projecto de vida possa causar alguma ansiedade na família e nos amigos. Estar hoje em Israel e desejar permanecer aqui, construindo cá a minha família e o meu futuro são consequências da minha conversão ao Judaísmo. Não passei por cima de ninguém para o consegui. Não creio que o processo tivesse alguma vez tido como consequência o sofrimento de alguém.

Todavia, não poderia deixar de fazer o que fiz. Pensar na eventual ansiedade da família e dos amigos como obstáculo ao meu futuro seria simplesmente boicotar a base da minha vida. Sobre isto me apoio nas palavras de Hillel, um dos sábios do Judaísmo contidas na obra "Pirkei Avot", a "Ética dos Pais":

«Se eu não sou por mim, quem será por mim? E se eu sou por mim, quem sou eu? E se não agora, quando?»

publicado por Boaz às 14:44
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