Sábado, 1 de Janeiro de 2011

Este não é o meu Deus

Mesmo depois de revelar a minha intenção de conversão ao Judaísmo aos meus amigos católicos, continuei a frequentar com fiel assiduidade o Grupo de Jovens da paróquia local, ao qual já pertencia há alguns anos. Por duas razões: todos os meus principais amigos eram também membros do grupo e os valores aí professados eram mais de natureza ética do que puramente religiosa. Ainda que aos poucos me fui abstendo de participar em certas atividades que estavam para lá da minha "linha vermelha" e eram inconciliáveis com a minha opção. A exclusão mais evidente foi cantar na igreja, mesmo que por uma questão diplomática, tenha aberto excepções pontuais por ocasião de casamentos de amigos. Também continuei a participar no Jantar de Natal, uma das raras ocasiões anuais em que o Grupo se encontrava completo.

Este ano, como em todos os Dezembros, os membros do Grupo (entretanto extinto, mas cujos ex-membros mantêm um contacto mais ou menos próximo) combinaram reunir-se uma vez mais para o encontro natalício. Na troca de e-mails para decidir os detalhes do encontro, surgiram várias opiniões distintas. Ao longe, decidi também intervir numa disputa que se levantava entre dois amigos. Numa tentativa de serenar os ânimos, alguém sublinhou que o grupo era composto de pessoas com opiniões diferentes. E, sem qualquer relação com a discussão, realçou que "seguir Jesus" fora a essência dos ensinamentos do Grupo. Na mesma frase, foi destacado que eu fora o único a sair do caminho de forma evidente.


Igreja e Sinagoga, esculturas na fachada da catedral de Estrasburgo, França.
À direita: 'Igreja', um rei segurando o cálice do sangue do Redentor.
À esquerda: 'Sinagoga', uma mulher vendada, de bastão partido e as Tábuas da Lei ao contrário.

Ainda que tenha dado toda a razão à declaração, decidi dar uma explicação: sim, eu havia deixado de "seguir Jesus", mas que o havia seguido durante bastante tempo durante a minha vida. Afinal, fizera a mesma catequese que todos os outros membros do Grupo. Realcei que não vivera o Cristianismo de forma superficial, e que também não fora de forma superficial que tomara a decisão de abandonar o Cristianismo e aderir ao Judaísmo. A minha declaração levantou uma onda de e-mails de conteúdo teológico e uma certa "militância cristã" como nunca me havia deparado desde a minha separação do Cristianismo. Senti-me a ser alvo de uma tentativa de re-evangelização.

Perante a minha afirmação de "apostasia consciente" recebi uma apaixonada descrição de Jesus como salvador e redentor, afirmando a universalidade da mensagem cristã. Nada de novo: toda aquela descrição condensava os meus anos de catequese e de vivência cristã ativa. O autor da mensagem parecia sugerir uma dúvida na seriedade da minha decisão, perguntando se eu havia dedicado à “busca de Jesus” o mesmo empenho que dedicara ao meu processo de conversão. Expliquei que, mesmo antes da decisão de conversão, existem imensas questões e mudanças não apenas na prática, mas sobretudo em termos de concepção do divino e da sua relação com o mundo. A esta altura percebi – e assim declarei – que obviamente aquela discussão não levaria a lugar algum. Nem eu, um judeu consciente, nem eles, cristãos convictos, iríamos mudar de opinião.

Porém, parece que do outro lado, essa constatação não foi entendida. Antes pelo contrário. E em resposta recebi uma citação da Epístola de Paulo aos Coríntios: “(…)E não fazemos como Moisés, que punha um véu sobre o seu rosto para que os filhos de Israel não vissem o fim do que era transitório. Mas o entendimento deles foi obscurecido, e ainda hoje, quando lêem o Antigo Testamento, esse mesmo véu continua a não ser removido, pois é só em Cristo que deve ser levantado. Sim, até hoje, todas as vezes que lêem Moisés, um véu cobre-lhes o coração. Mas, quando se converterem ao Senhor, o véu será tirado. (…)”

Na comparação evidente do Judaísmo com o Cristianismo, entre a riqueza das metáforas desta "Glória da Nova Aliança", encontram-se temas usados em todas as eras pelos teólogos cristãos, na afirmação da nova e radiante fé cristã em contraste com a velha e obsoleta fé judaica. A cegueira judaica que se recusa a ver e aceitar a luz, a ideia da exclusividade na salvação pela via cristã e a desonra dos descrentes. Tive a sensação de estar perante um exaltado pregador medieval, de crucifixo em punho, a tentar convencer os incrédulos, os desgraçados que se recusam a receber "a Glória".

Uma das perguntas clássicas que surgem quando falo acerca da minha conversão ao Judaísmo é: "mas como foi a reação das pessoas à tua decisão?". A curiosidade refere-se em especial à minha família, mas também aos amigos e companheiros cristãos. Ao revelar que nunca recebi qualquer tipo de oposição ou descriminação por parte dos amigos, os ouvintes mostram-se totalmente incrédulos. Cristalizada em muitas mentes judaicas está a ideia que os Cristãos perseguem, oprimem e odeiam os Judeus. Afinal, "Esaú odeia Jacob" ou em outras palavras "Roma odeia Israel". Sob esta ideia, seria inconcebível que um membro abandonasse tranquilamente o "rebanho", sem qualquer reação negativa dos crentes.

Na macabra contabilidade das centenas de milhões de sacrificados no altar das ideologias (sejam religiosas ou seculares), o Cristianismo detém um lugar de destaque. Cruzadas, Inquisições, Expulsões e perseguições implacáveis, conversões forçadas e guerras religiosas. No caso extremo da Shoá (o Holocausto), a atitude cristã, para lá de corajosas exceções, variou entre o silêncio cúmplice e a participação ativa. Estas são algumas das imagens que os cristãos deixaram na História nos últimos dois milénios e são aquelas que ficaram gravadas mais fundo entre os Judeus. É injusto generalizar, mas não é possível negar que o Catolicismo tem um sério “problema de imagem”. E não apenas entre os Judeus.

Na discussão com os meus amigos católicos acerca da minha conversão, evitei todavia referir a questão da tolerância e da aceitação da diferença por parte dos cristãos. Ainda que lemas catequéticos cristãos como "Deus é amor" e princípios éticos como "dar a outra face" tenham sido espezinhados inúmeras vezes ao longo da História, não foi por um conflito ético em aceitar o evidente fosso entre a mensagem apregoada pela Igreja e o comportamento de muitos dos seus líderes e seguidores que me levou a distanciar e por fim abandonar completamente o Catolicismo. Se a razão da minha mudança de religião fosse um desfasamento entre a doutrina e a prática dos fiéis católicos, eu poderia simplesmente ter aderido a uma outra corrente do Cristianismo. Ou até, passar a ser apenas mais um cristão "sem denominação", mantendo a crença em Jesus mas não em qualquer igreja ou religião organizada. Não foi esse o caso.

Ainda que nos últimos 2000 anos o Cristianismo tivesse – ao menos entre os seus próprios aderentes – instaurado a paz, o problema mantinha-se. A minha divergência era com o cerne da crença cristã de que Jesus não só é o Messias, o Salvador, como é o próprio Deus. "Verdadeiro Deus e verdadeiro homem", como foi declarado na referida troca de mensagens. E, apesar da enorme variedade das igrejas e seitas cristãs, esta crença é comum a todas as correntes do Cristianismo.

Reconheço como a crença em Jesus pode ser satisfatória para muita gente, reconfortante até. Tendo sido uma pessoa, com as suas dores, dúvidas e tentações, é extremamente fácil identificar-se com ele. Falando contra a corrupção das elites do seu tempo, proclamando a superioridade da justiça em relação aos rituais, a sua doutrina ética poderia ser apreciada até pelo pacifista ateu mais obstinado. (Aliás, a crítica de Jesus à corrupção e hipocrisia da liderança política e religiosa do seu tempo tampouco é original. Esta acusação foi proferida com veemência por vários profetas das Escrituras Judaicas.)

É muito mais difícil a identificação com uma divindade cuja essência é puramente espiritual e sem qualquer paralelo com algo que exista na natureza. Usando as palavras de Moshe Luzzatto no primeiro capítulo de "O Caminho de Deus", um Deus "cuja verdadeira natureza não pode ser entendida de qualquer forma por ninguém além Dele mesmo. A única coisa que sabemos sobre Ele é que a Sua existência é perfeita em todas as formas possíveis e não existe Nele qualquer deficiência".

Ou, como descreveu o Rabino Joseph Soloveitchik em "O Solitário Homem de Fé": “Deus, como o soberano cósmico, é contemplado na sua infinita majestade reinando supremo sobre a Criação, a Sua vontade cristalizada na lei natural, a Sua palavra determinando os padrões de comportamento da natureza. Ele está em todo o lado, mas ao mesmo tempo, acima e fora de tudo”. O Criador do Universo atua por detrás do "curso natural das coisas" e a Sua Presença acompanha os homens. Mas não é um deles.

A natureza humana de Jesus, em si mesma contradiz a existência da perfeição absoluta da essência de Deus. A natureza humana, por mais elevado que seja o nível que atinja, será sempre limitada, dependente, corruptível. No fundo, não existe nela a perfeição absoluta. Deus é único, indivisível, perfeito e independente de qualquer outra existência. E por isso, não pode ser reduzido a uma existência (mesmo que paralela, se atendermos à crença de duas dimensões da Trindade: o Pai e o Filho) dentro de um corpo humano.

Durante os meus anos de busca espiritual esforcei-me por entender o mistério da dualidade humana e divina de Jesus, assim como o conceito de Salvação defendido pelo Cristianismo. A morte de Jesus – ou seja, a morte do próprio Deus – servindo de perdão definitivo aos pecados de todos os homens. E apenas ela salva. Naquela época, entre as ruínas do meu edifício espiritual, apenas uma crença se manteve inabalável e a salvo do desmoronamento: a crença na existência de Deus.

Alguém que leia estas linhas poderá até considerar-me profundamente enganado em relação às verdades do Cristianismo. Alguém que faça as mesmas perguntas que eu fiz poderá, pelo seu próprio estudo e reflexão, encontrar respostas distintas que o satisfaçam. Poderá até emergir das respostas com uma fé cristã ainda mais fortalecida. Não ponho isso em causa. No entanto, creio que a maioria dos crentes – aliás, de qualquer religião – na verdade nunca se perguntaram a fundo sobre aquilo em que acreditam. Vivem (quando vivem) a sua religião pela força da inércia. A fé não tem de ser racionalmente lógica e, num tempo em que praticamente tudo pode ser explicado pelas teorias científicas, só o ato de acreditar já é um ato de coragem. Mas cada um, se leva a sério a sua fé e a assume de forma consciente, tem de conseguir conciliar os aparentes contrários.

Na altura da revelação da minha intenção de conversão ao Judaísmo aos meus amigos do Grupo de Jovens não revelei os porquês da decisão. Reconheço a delicadeza do tema. Reconheço como a fé em Jesus pode ser algo central na vida daqueles que acreditam nele. Estando num grupo de jovens católico, tive o cuidado de escolher apenas os membros com um Cristianismo mais amadurecido para saberem do meu abandono da fé cristã. Excluí os membros mais novos, há pouco tempo no caminho. Podia simplesmente abandonar o grupo e percorrer sozinho a minha jornada, sem dar satisfações aos meus amigos cristãos. Contudo, por serem amigos, achei importante partilhar a minha mudança com eles. Não me arrependo de o ter feito.

Por fim, afirmo que não existe possibilidade de diálogo teológico entre o Judaísmo e o Cristianismo. O diálogo é apenas possível como forma de trabalhar em conjunto para resolver problemas da Humanidade, em particular nas trágicas relações históricas entre Cristãos e Judeus. A barreira teológica entre ambas as religiões é absolutamente intransponível. Enquanto para os Cristãos, cuja religião se fundamenta na crença de Jesus como o Salvador, o cumpridor das profecias messiânicas judaicas e a própria divindade; para o Judaísmo, as profecias messiânicas ainda não foram cumpridas. Ainda que se fale tanto em "cultura judaico-cristã", o Cristianismo e o Judaísmo possuem na verdade, duas concepções antagónicas do divino.

Nunca me escusei às perguntas dos amigos, quando elas surgiam. A minha conversão foi uma decisão pessoal e eu não tinha a intenção de levar ninguém atrás de mim. Por isso sempre mantive o assunto na maior discrição. Ninguém me verá a pregar na praça ou a bater às portas, armado com a Bíblia Hebraica, tentando convencer os outros a aceitar a verdade judaica. Não é esse o caminho do Judaísmo.

Não espero a compreensão dos cristãos – nem sequer dos meus amigos – pela minha mudança de crença. Menos ainda a sua aprovação. Não peço nem uma nem outra. Só não aceito que ponham em causa a minha seriedade na forma como vivi o Cristianismo e de como o abandonei.

publicado por Boaz às 23:00
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Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

Como contar um segredo

Era final de Fevereiro de 1998. Tinha começado a faculdade em Lisboa há poucos meses. Naquela tarde, depois de semanas de tentativas, conseguira finalmente falar com a pessoa da comunidade judaica encarregada da educação religiosa. Já tinha falado com ele dois meses antes. Assim que me mudei para Lisboa, telefonei para a comunidade para tratar do meu interesse na conversão ao Judaísmo.

Na falta de rabino indicaram-me o responsável pelos assuntos de educação da comunidade. Na primeira conversa telefónica, em Novembro, disse-me: “Agora não há conversões. Ligue-me em dois meses”. Apesar da espera, dois meses não fariam grande diferença. Afinal, eu já andava a ruminar a ideia da conversão há uns dois anos. Portanto, o que custariam mais dois meses de espera?

Nem sequer fazia muito tempo que eu descobrira que a conversão era algo possível. De início, pensava mesmo que era algo irrealizável. Cheguei a imaginar que eu era a única pessoa no mundo com aquele tipo de ideias. E nunca tinha falado sobre o assunto com ninguém. Nem amigos nem família. Nos meses anteriores à entrada na faculdade, trabalhara num escritório que tinha Internet e foi pela porta virtual que descobri que a quimera era possível. Um alívio!

Cartas de revelação

Naquela quarta-feira de finais de Fevereiro ouvi do outro lado da linha: “Encontramo-nos no próximo Sábado, ao meio-dia, na sinagoga, para falar do seu assunto”. Foi um dos momentos mais eufóricos de que me lembro. Antevia o encontro na sinagoga daí a dois dias como o ansiado começo da minha caminhada em direcção ao Judaísmo. Finalmente, a aspiração iria começar a tomar forma. A luz ao fundo do túnel! Assim que desliguei o telefone escrevi – uma a seguir à outra – cinco cartas. As minhas “cartas de revelação”. A minha mãe, Pedro e Lucas, os meus dois melhores amigos do Grupo de Jovens, uma prima especialmente próxima e todo o Grupo, seriam os destinatários. Chegara a hora de contar o segredo.

A manhã de Sábado chegou. Apesar das enormes espetativas, o encontro na sinagoga foi uma desilusão. Não houve nenhum início de processo de conversão. Parece que a luz ao fundo do túnel afinal era o comboio que vinha na minha direcção… Nessa tarde de Sábado, na reunião do Grupo de Jovens da Batalha, alguém reparou que eu parecia triste. Desapontado, arrumei as cartas no fundo da gaveta. Não havia nada para revelar. Revelar para quê, se nada mudara?

Porém, tornou-se cada vez mais difícil continuar com esse assunto apenas guardado para mim mesmo. Era especialmente complicado ir todas as semanas ao Grupo de Jovens católico, como se fosse tudo normal. Inclusive, continuei a cantar na missa uma vez por mês, com o resto do Grupo. Como iria explicar a recusa em ir? Havia um sentimento de traição, pela falta de honestidade em relação aos meus companheiros de grupo.

O primeiro a saber sobre "aquilo"

A certa altura, semana após semana, até levava comigo as ditas cartas para os encontros do Grupo de Jovens, para as entregar aos dois amigos. E nunca arranjava coragem para as entregar. Até que, um dia prometi a mim mesmo “desta semana não passa”. Naquele Sábado não houve encontro. Um concerto das festas da vila, na praça mesmo em frente à nossa sala de reuniões perturbava o ambiente. Decidimos ir a Leiria. Uma banda da cidade, Silence 4, começava a fazer furor e iriam dar o seu primeiro concerto, numa praça da cidade. No final da noite, antes de voltar para casa, só consegui encontrar um dos dois amigos, Pedro. Entreguei-lhe a carta. “Lê só quando chegares a casa”, pedi-lhe. “É algo mau?”, perguntou-me. “Não. Talvez algumas pessoas achem que é mau, mas não creio que seja”. “Amanhã passo por tua casa para falarmos”, prometeu-me.


O Grupo (incompleto), num dos nossos muitos passeios.

Aos Domingos, era costume de família ir passear pelas redondezas e almoçar fora. Decidi ficar em casa ansioso pela visita do meu amigo. Chegou a hora de almoço, passou a uma da tarde, as duas… E ele não vinha. Pensei que o pior acontecera, “Não aceitou”. Passados alguns minutos bateu à porta. Talvez por algum dom profético, Pedro trazia com ele Lucas, o amigo que tinha desaparecido durante o concerto da noite anterior. Fui ao meu quarto buscar a segunda carta. Pedro seguiu-me. Sentou-se na minha cama e disse simplesmente: “Sobre ‘aquilo’, não tem problema”.

No Sábado seguinte, ao chegar à reunião do Grupo, fui recebido por Lucas com um sorriso enorme. Perguntou-me: “Também vais usar aqueles barretinhos que os judeus usam?” Só pude sorrir de volta. Estava tudo bem. Durante as semanas seguintes encontrei-me com Pedro algumas vezes para falarmos sobre o meu caso. “Tens de contar ao resto do Grupo”, avisou-me. “Tenho uma ideia: escreves uma carta como a que escreveste para mim e eu leio-a para o Grupo.”

Realmente acredito que ele tenha dom de profecia. Ou talvez ele só me conheça verdadeiramente bem, como acontece com os melhores amigos. Era exatamente aquilo que eu lhe queria pedir! Não precisei. Ele ofereceu-se com toda a generosidade. Decidimos a quem iríamos revelar o assunto. Concordámos que nem todos estariam preparados para saber. Alguns membros estavam há pouco no Grupo. E eu não queria baralhar as ideias de ninguém. Reformulei a carta destinada ao Grupo que eu já escrevera há uns meses.

Pedro marcou o encontro e leu a carta para todos. Eu só desejava ter sido uma mosquinha para ter estado presente. No dia seguinte, fui a casa dele saber das reações. “Todos aceitaram muito bem”. Na carta, pedira para discutirem se eu deveria continuar a pertencer ao Grupo, sabendo que havia coisas que eu já não poderia fazer, em especial cantar na igreja. “E querem que continues. Seria uma grande perda se tu saísses”.

Agora todos sabem

As reuniões continuaram tranquilas. O assunto da minha vontade de conversão ao Judaísmo não foi mencionado entre nós. Só com uma ou outra pessoa eu falei do assunto, discretamente. No Verão, talvez em Julho, fomos passar umas férias numa casa de campo numa praia do Alentejo, no Sul de Portugal. Aproveitei para deixar a carta da minha mãe na caixa do correio, quando saí de casa para a viagem. Tirando uma menina, há pouco tempo entrada no Grupo, todos os amigos sabiam.

Ao final da primeira tarde na praia, no Sábado, decidiam se e onde iriam à missa dominical. Estávamos todos deitados nas toalhas, num grande círculo. “Algum dia, o Gabriel tem de nos levar a uma 'missa judaica'”, alguém propôs. Fiquei mudo. “Eu fico à espera do casamento dele!”, outro atirou. Tive a impressão de todos terem pensado: “há uma pessoa que não sabe!!”. A tal menina nem deve ter entendido, nem fez qualquer pergunta.

No regresso a casa, falei com uma pessoa do grupo para que averiguasse se a tal menina já sabia. E se não soubesse, que lhe dissesse. Passados alguns minutos da nossa chegada a casa, fui avisado que já fora informada. “Agora todos sabem. Já podemos falar do assunto”, pensei. Sem sussurros e indiretas. Todavia, ninguém falou. E eu também não queria puxar o assunto. Só no final do dia seguinte, quando estava a ler um livro no meu quarto da casa de férias, ouvi alguém chamar-me do outro lado da casa: “Gabriel, vem à sala, há uma coisa que nós precisamos falar”. Falámos. Fizeram perguntas. Respondi. Naquela noite senti plenamente o que significa a amizade incondicional.

Telefonei à minha mãe para falar como estava a passar as férias. Não toquei no assunto. Nem ela. Alguns dias depois regressámos para a Batalha. Nesta altura, a minha irmã, independente, já tinha saído de casa. Estávamos só os dois em casa ao jantar. Durante a refeição, a minha mãe não se conteve: “Porque é que puseste uma carta na caixa do correio? Não podias ter falado comigo diretamente?”. “Achei que era mais fácil assim”, expliquei. “Se tu te quisesses converter à Igreja Universal do Reino de Deus, ou às Testemunhas de Jeová, eu ficava preocupada, mas ao Judaísmo não. Os Judeus são bons”.

E assim, sobre a questão da minha vontade de conversão esta foi a única conversa familiar durante anos, enquanto o processo não se desenvolveu. Com as dificuldades de acesso à sinagoga de Lisboa, nada tinha mudado. Só eu ia estudando por mim mesmo, quando o resto da vida seguia normal. Uma vez ou outra, a minha mãe lá largava uma ou outra frase sobre o tema. Como quando via algo sobre Israel na televisão. Ou quando, depois de comer a metade de uma meloa, e restando apenas a casca gracejou: “Vês, podias usar isto como um daqueles chapéuzinhos dos judeus”, referindo-se à kippá.

Com a minha irmã, a revelação veio mais tarde. A nossa relação não era assim tão próxima. Soube quando eu já entrara nas aulas de conversão na sinagoga. A ela, contara-lhe que estava a aprender hebraico. Eu já havia estado dois meses em Israel como voluntário num kibbutz, daí que ela entendia que eu tinha algum interesse nessa área. Com a época da Páscoa a aproximar-se, a minha mãe convidou-a a ir almoçar lá em casa na Domingo de Páscoa. Acabaram a falar algo de mim. “Esta não é a Páscoa do Gabriel”, disse a minha mãe. A minha irmã foi rapidíssima a juntar as peças do puzzle. “Não é a Páscoa dele? Mas agora ele é judeu, é?”.

Posso dizer que fui um privilegiado com os meus amigos e família, em relação ao assunto da conversão. Nunca recebi hostilidade da parte deles. E, apesar de ir definindo as nossas diferenças, procurei também nunca hostilizar ninguém. Para os amigos católicos, ainda que a conversão significasse uma negação daquele que tomam como Deus, a nossa amizade foi mais importante. (Aliás, foi a razão principal que me fez continuar no Grupo, depois da "revelação"). Na família, afastada há anos do Catolicismo praticante, o "ser uma boa pessoa" foi mais importante do que qualquer diferença de crenças. Que todos os candidatos à conversão recebessem tanta compreensão dos seus como eu recebi.

publicado por Boaz às 20:19
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Domingo, 24 de Janeiro de 2010

Voltar a Lisboa?

Desde que decidimos, eu e a minha esposa, frequentar um curso de preparação para "shelichim" – emissários para as comunidades judaicas na Diáspora – pensámos na possibilidade de irmos para Portugal. Brasil, Espanha ou qualquer país de língua espanhola da América são outras possibilidades. Em Portugal, a única comunidade com a qual tive um contacto directo foi a de Lisboa, desde a minha entrada na faculdade.

Desde o início do meu processo de conversão, com melhores ou piores momentos, tivemos uma relação um pouco atribulada. A hostilidade face aos candidatos à conversão, numa altura em que não havia sequer rabino na sinagoga, resultou em alguns momentos amargos. O primeiro contacto, em Fevereiro de 1998, foi desastroso. Tanto que, durante alguns anos, até 2002, não voltei a contactar a comunidade.

Tive o discernimento suficiente para perceber que uma comunidade judaica não faz todo o Judaísmo, ou que alguns judeus não fazem todo o Povo Judeu. Por isso, não desisti. Com a porta de Lisboa aparentemente trancada, continuei a estudar o Judaísmo o melhor que conseguia, pela Internet e nos poucos livros que conseguia encontrar nas bibliotecas. Assim que descobri – já não me lembro por que maneira –, que havia chegado um rabino à comunidade, e que ele tinha um endereço de e-mail, apressei-me a tentar essa nova porta. Pensei: se a reacção for negativa, pelo menos não será tão dramática como ao vivo.


Sinagoga de Lisboa, Shaare Tikva, os Portões da Esperança.

Todas as semanas, enviava ao rabino pelo menos um e-mail com perguntas. As respostas eram sempre secas e, pelo menos aparentemente, desinteressadas. (Existe o costume de tentar demover o candidato à conversão, para que este prove o seu real interesse). Tantos e-mails enviei que o rabino deve ter ficado farto de mim e decidiu entregar o meu caso a um membro da comunidade. Esta reviravolta mostrou-se providencial. As respostas aos meus e-mails passaram a ser mais pacientes e atenciosas. Tivemos algumas discussões filosóficas interessantes e acabámos por nos tornar amigos.

Alguns meses depois, em Fevereiro de 2003, fui convidado a visitar a sinagoga. "Uma visita turística", pensei. Não, na hora de Kabalat Shabat, o serviço religioso que dá início ao Shabat! Incrédulo com a ocasião do convite, pedi explicações: "Não seria melhor ir a outra hora?". A resposta, ainda hoje me soa como a um magnífico lema de vida: "Quando se aprende a nadar numa piscina, podes saltar do lado mais baixo ou do lado mais fundo. Eu acho que deverias saltar do lado fundo".

Perante tal encorajamento, decidi aceitar o convite. Até então, ainda não conhecia pessoalmente o paciente judeu que há meses respondia aos meus e-mails. Esperou por mim no portão da sinagoga para facilitar a minha entrada. Foi a minha primeira experiência com a segurança do local.

O primeiro Kabalat Shabat foi estranho. O hebraico, as melodias das rezas, a sinagoga quase vazia, não conhecer ninguém além do meu amigo-por-email-e-agora-também-em-pessoa. Seguia as orações pelo livrinho em hebraico, português e transliteração. Absolutamente lindo, o primeiro Lechá Dodi. No estranho oceano da língua hebraica, as seis palavras da declaração de fé judaica: “Shemá Israel, Hashem Elokeinu, Hashem Ehad” foram a única ilha algo familiar em toda a cerimónia. O cúmulo do meu desnorteio chegou quando, pouco depois, todos se levantaram, viraram-se na direcção da Arca Sagrada (também a direcção de Jerusalém) e ficaram em silêncio, balançando-se como costumam fazer muitos judeus quando rezam. Perdi-me nas páginas do livrinho. “Onde vão?” Folheei, para a frente e para trás a tentar adivinhar o que rezavam em silêncio. Fiquei na minha, sentindo-me meio estúpido, e discretamente tentando o mais possível parecer um deles.

Alguns minutos depois, voltaram a rezar alto. “E onde vão agora?”. Um novo folhear atrapalhado. Foi impossível achar o fio à meada. Uns minutos depois e o serviço terminou. À saída, o meu amigo perguntou: “O que achaste?”. “Estranho, mas bonito”. “Podes voltar na próxima semana, se quiseres”. Obviamente voltei. Desta vez, na entrada não havia ninguém à espera, além do segurança de ocasião. A custo, deixou-me entrar. O meu amigo não estava para confirmar o convite que me fizera. Enquanto esperava para começar a cerimónia, um membro da comunidade perguntou-me se eu era judeu. Precisavam de gente para completar o minyan (conjunto mínimo de dez homens necessário para as orações públicas). "Não, não sou". Fiquei marcado.

Na semana seguinte, o segurança barrou-me a porta. "A sinagoga é só para membros", disse-me, de forma antipaticamente peremptória. Nem valeu a pena invocar o convite do meu amigo. "Se quiser voltar, terá de enviar uma carta para a direcção de segurança da comunidade, a pedir autorização para frequentar a sinagoga". Frustrante. Enviei a carta. Esperei um mês pela resposta. Fui perguntando por e-mail ao meu amigo, se sabia algo da dita carta: onde tinha ido parar, se tinha sido recebida. Decidi enviar outra. "Talvez se tenha extraviado", deduzi. Um mês, dois, três… e nada. Nesta altura já tinha terminado o meu estágio na Rádio TSF e voltara a viver na Batalha, a 120 quilómetros de Lisboa. E a comunidade voltara a ficar sem rabino.

Alguns meses depois, voltei a Lisboa por algumas semanas para um curso pós-universitário de jornalismo. Aproveitando a oportunidade do meu regresso à capital, o meu amigo na comunidade voltou a convidar-me para um Kabalat Shabat. Sem ter recebido qualquer resposta em mais de 6 meses, fiquei apreensivo em aceitar o convite. "Eu espero-te do lado de fora do portão e entramos juntos", assegurou-me. Chegámos cedo, o vigilante ainda não tinha chegado. Não tive problemas para entrar. A meio do serviço vi-o entrar na sinagoga. Gelei. Pareceu ignorar-me. Imaginei, "depois de tantos meses talvez nem se lembre de mim".

À saída, ainda no pátio da sinagoga, o segurança provou a sua boa memória. "Você não volta a fazer o que fez! Não tem autorização para entrar aqui!" Da forma colérica como me falou parecia acusar-me de ter arrombado o portão. Encaminhámo-nos para a rua. Tentei defender-me como podia: "Como pode falar assim, se o senhor não estava aqui quando cheguei…" Com o passar do tempo, o jovem estava cada vez mais agitado. Cheguei a temer que me batesse.

Deixei-o falar. Afinal, nada do que eu pudesse dizer iria fazê-lo acalmar-se. "Escreva outra carta! Não há duas sem três. E enquanto não receber resposta, está proibido de entrar aqui!" Num aviso ameaçador, disse-me que se voltasse à sinagoga, seria expulso nem que tivesse de recorrer "à força". É verdade, ele tinha razão, eu não tinha autorização formal, mas também não era preciso fazer tamanho escândalo. Porém, confesso que de todo este episódio vergonhoso, o que mais me custou nem foi o rapazote furioso e malcriado, cumprindo com orgulho o papel que alguém lhe tinha confiado. O pior foi mesmo o silêncio. O silêncio daqueles que iam saindo da sinagoga e ficavam parados à nossa volta durante um minuto ou dois, a admirar tranquilamente aquela luta de galos no meio da rua. Sem nada fazer, ou dizer. (Quem cala, consente?) Humilhado, fui embora, com o meu amigo, que entretanto saíra da sinagoga e levara também ele uma dose de desaforo do tal segurança.

Escrevi a terceira carta, desta vez iria enviá-la registada. Nela, incluí uma linha sobre o memorável episódio da minha última visita à sinagoga. Mais dois meses de espera. Recebi a autorização numa carta breve e seca. Nenhum comentário sobre o comportamento do segurança. E no tempo da espera terminara o meu mini-curso de jornalismo escrito em Lisboa e voltara de novo para casa da família. A resposta chegara tarde demais.

Quase seis meses depois, quando já havia chegado um novo rabino, voltei a ser convidado para a sinagoga, mais propriamente para comer na sucá (cabana que se constrói para a festa de Sucot). Seria uma oportunidade para falar com o rabino sobre o meu caso. Acabei por não falar com ele, já que aquele não era um assunto para discutir à mesa, em frente à família dele e alguns convidados. Alguns dias depois, voltámos a encontrar-nos para uma entrevista formal. No final, convidou-me a entrar na classe de conversão da comunidade já na semana seguinte. Que abertura!

Semana a semana, durante 11 meses, fui de propósito a Lisboa apenas para as aulas de conversão na sinagoga. Era um grupo de mais de 20 pessoas, todas da região de Lisboa. Eu era o único "da província". Desde essa altura, deixámos – eu e os outros candidatos à conversão – de ter problemas para entrar na sinagoga. O novo rabino estava "do nosso lado" ainda que tivesse de bater de frente com alguns "hostis". Aos poucos, a comunidade tornou-se mais tolerante connosco.

Voltar a Lisboa seria voltar a muitas recordações. Algumas amargas, outras deliciosas. Foram algumas pedras no longo caminho da minha conversão, mas mesmo as mais aguçadas ajudaram a pavimentar a estrada. Não guardo escoriações pelas quedas, nem rancores.

publicado por Boaz às 10:25
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Domingo, 15 de Novembro de 2009

Degraus de uma longa escada

Por via do blog e de um dos assuntos que trata: a conversão ao Judaísmo, muita gente me contacta pedindo informações sobre esse tema. Aqui fica uma lista dos passos do processo, com a explicação de cada um deles. Não é uma receita, nem um kit de montagem, mas talvez dê algumas dicas a quem procura assistência neste caminho às vezes tão complicado.


Jimmy e Pamela Harris são parte de um novo fenómeno americano:
negros convertidos ao Judaísmo.

0 – Porquê?
É o passo "0", porque antes de partir para o primeiro degrau, há que ter a mínima consciência do que implica uma conversão ao Judaísmo. As razões que levam cada pessoa a enveredar por este caminho variam e são pessoais. Do gosto pelo humor judaico (Porque não? É interessante poder contar piadas em nome próprio, por exemplo), reunião com as raízes familiares, busca espiritual, etc.

Na maior parte dos casos, são pouco mais que irrelevantes para o sucesso da empreitada. Como ouvi uma vez o meu rabino dizer: "Não me interessam as razões das pessoas. Só me interessa que sejam honestas". É apenas o ponto de partida.

1 – Contactar um rabino.
Obviamente, recomendo um rabino ortodoxo. As conversões das linhas reformista e conservadora não são reconhecidas pela linha ortodoxa. Apesar de as conversões não-ortodoxas darem o direito a emigrar para Israel, levantam problemas para quem desejar casar em Israel, pois apenas a linha ortodoxa é reconhecida para efeitos de casamento. Os rabinos ultra-ortodoxos (como os da linha Chabad) normalmente são mais hostis ao assunto da conversão, mas nem sempre.

O Judaísmo ortodoxo moderno é mais tolerante neste campo. As comunidades judaicas sírias (Nova Iorque e México, por exemplo) são completamente avessas ao assunto das conversões, considerando inválidas as conversões realizadas para efeito de casamento, por exemplo.

2 – Estudo de Judaísmo.
Depois de conseguir contactar com um rabino que aceite tratar do assunto da conversão, o candidato deve passar a estudar com ele. A maioria – se não todas – as comunidades têm classes de conversão. Normalmente, os rabinos não cobram qualquer quantia pelas aulas de conversão. Ensinar faz parte das funções normais do rabino. Podem ser cobradas despesas com fotocópias ou livros de estudo mas mais do que isso será, a meu ver, abusivo.

Além do estudo em classes, é importante estudar sozinho. Hoje há muita literatura sobre o assunto, seja em inglês como em português. A Internet também é uma ferramenta preciosa, mas a ser usada com cuidado. Nem todas as fontes são confiáveis.

3 – Contacto com a comunidade judaica.
Durante o período de estudo, que pode estender-se de alguns meses a vários anos, é muito importante ir mantendo um contacto com a comunidade, a par da frequência das aulas de conversão. Conhecer o ciclo anual judaico, como o Shabbat e as festas (Pessach, Shavuot, Rosh Hashaná, Yom Kippur, Succot, Chanuka, Purim) só se consegue com um contacto com a comunidade. Além de ser uma experiência preciosa, atesta o interesse do candidato no Judaísmo. Também ajuda a ter uma melhor relação com o rabino.

4 – Recomendação a um Bet Din (Tribunal Rabínico).
Dependendo do progresso do candidato na prática do estudo e da sua prática das tradições judaicas, o rabino fará uma recomendação a um Tribunal Rabínico. A maior parte dos países não têm Bet Din. Isso implica contactar com um Tribunal Rabínico noutro país. A melhor opção será Israel.

A falta de Bet Din pode implicar que a pessoa, pura e simplesmente, não possa terminar o processo no seu próprio país sem integrar um ulpan (curso) de conversão em Israel. É o que se passa na maioria dos casos de Portugal. Normalmente, o Tribunal Rabínico não facilita os processos de pessoas vindas de comunidades com poucas estruturas judaicas (como o caso de Portugal). Pode acontecer o Bet Din impor como condição a permanência em Israel (foi o meu caso).

5 – Reunião no Bet Din.
É um procedimento relativamente simples, apesar de ser o mais ansiado. Afinal, esta é a “grande prova”. Com as devidas diferenças, quem já passou um exame oral na escola pode ter ideia do tipo de acontecimento que é uma reunião de um Tribunal Rabínico. Três juízes rabínicos fazem várias perguntas ao candidato. Primeiro de apresentação, para saber a origem, como chegou ao Judaísmo, quanto tempo estudou, qual a prática que o candidato tem, etc.

Normalmente, o candidato vai acompanhado de alguém, seja o seu próprio rabino ou um professor do ulpan de conversão, ou alguém que conhece bem o candidato. São pedidas cartas de recomendação, do rabino que acompanhou o processo, da família adoptiva, de professores de yeshiva ou do ulpan, etc. São feitas várias perguntas sobre o Judaísmo: bênçãos sobre mitzvot (mandamentos judaicos) e alimentos, aspectos e leis das festas judaicas, etc.

É comum perguntarem sobre as diferenças entre o Cristianismo e o Judaísmo, para atestar a segurança das crenças do candidato à conversão, já que na maioria provêm de um ambiente cristão.

6 – Aprovação pelo Bet Din.
No final da reunião, que normalmente não dura mais de uma hora, no caso de o candidato ser aprovado como novo membro do Povo de Israel, o converso tem de enunciar a oração de Shemá Israel. É a profissão de fé judaica, na qual declara a fé no Deus Único e a aceitação da Torá e das mitzvot.

Nesta altura, o converso é obrigado ao cumprimento de todas as mitzvot. Apenas está excluído temporariamente de contar para um minyan – o número mínimo de 10 homens necessário para as cerimónias públicas judaicas.

7 – Brit Milá ou Circuncisão (só para homens).
Esta que é uma das mais respeitadas tradições do Judaísmo é uma das fases cruciais do processo. Quem estuda o fenómeno da conversão ao Judaísmo explica que a enorme predominância de mulheres em relação aos homens como candidatos à conversão, se deve à obrigação da circuncisão. Nem todos os homens estão dispostos a passar por esta operação.

No caso dos adultos, a operação é realizada num hospital, mas sempre por um mohel, um homem formado especialmente na realização da circuncisão de acordo com a lei judaica. Se o candidato já é circuncidado, é feita uma revisão por um rabino, para saber se está de acordo com a Halachá. Pode ter se ser realizada uma nova operação de correção, mas na maioria dos casos é apenas realizada uma pequena cerimónia em que é retirada uma gota de sangue, simbolizando que a circuncisão foi feita de acordo com a lei judaica.

8 – Tevilá ou Banho ritual
A Tevilá ou banho ritual consiste na imersão num mikve, que é um tanque de águas especial, construído de acordo com regras específicas e que se destina à purificação ritual. Para que a imersão seja completa, não pode existir qualquer barreira entre o corpo da pessoa e a água, por isso é a pessoa entra completamente nua na água.

A imersão é verificada por três rabinos (que são como um novo Bet Din). Estes, porém, não vêm a pessoa nua, já que apenas entram na sala de imersão quando a pessoa já está dentro da água. No caso das mulheres que passam pela tevilá, é uma mulher quem verifica que a imersão foi integral e apta. Neste caso os três juízes encontram-se num local onde não vêm a mulher dentro da água. Tudo é feito com discrição. No caso de o candidato tiver de passar pela circuncisão, a ferida da operação terá de curar completamente antes de poder ir ao mikve, o que pode demorar cerca de um mês.

A partir da imersão, a pessoa pertence oficialmente ao Povo Judeu, em todos os assuntos. As únicas limitações são a proibição de uma mulher convertida se casar com um cohen, um membro da antiga tribo sacerdotal judaica.

Todas estas fases, cada uma com as suas complicações, apenas pretendem garantir que a pessoa está realmente comprometida com o Judaísmo. Afinal, o Judaísmo não é uma religião missionária. Não procura converter os demais, nem impor-lhes a Torá, nem considera os não-judeus como "infiéis contra os quais há que travar uma guerra santa" ou "condenados ao fogo do Inferno".

Quaisquer que sejam as motivações para a conversão, é essencial que todos os que entram no Povo de Israel o fazem com fé clara e consciência da responsabilidade de cumprimento da Torá.

publicado por Boaz às 00:15
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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Natal sem Natal

Alguém me pediu para escrever sobre o Natal. Pedido difícil feito a alguém que deixou de festejar o Natal faz uns anos... Apesar de este não ser um artigo feito por encomenda, decidi aceder ao pedido.

Na minha infância, tal como na da grande maioria das infâncias no Ocidente, o Natal era a época mais esperada do ano. Pouco me importava o menino Jesus e ainda menos o Pai Natal. Aliás, em minha casa os meus pais sempre nos informaram que eram eles próprios quem oferecia os presentes e que estes não apareciam caídos, sem esforço, por via de um velho gordo que chegara pela chaminé de madrugada. Sabíamos que as prendas tinham de ser pagas com dinheiro a sério e, para as poderem comprar, os pais teriam de trabalhar. Não era menos mágico o meu Natal, mesmo com essa lição de economia doméstica.

No início, os presentes eram entregues só de manhãzinha. Decisão pedagógica. Era o único dia do ano em que eu e a minha irmã saltávamos da cama. (Ouve outra ocasião em que saltei da cama, quando a minha mãe me acordou dizendo que tinha nevado!) Com o tempo, os presentes passaram a ser entregues à noite, assim que tocavam as doze badaladas na igreja vizinha. Éramos mais crescidos e mais difíceis de domar e os meus pais já não aguentavam a nossa ânsia de receber os presentes.

Despojada do significado religioso, pela gradual secularização da família, aquela era apenas uma festa familiar. Os únicos marcos da tradição eram a árvore decorada e o presépio – o único símbolo religioso resistente na festa, presente mais pela graça de ir recolher musgo ao pinhal e montar o cenário do que pela veneração do menino na manjedoura. E a enorme travessa das filhós que a minha mãe pacientemente fazia e eu ajudava a polvilhar de açúcar e canela.

Com o meu crescente afastamento do Cristianismo, o Natal tornou-se um verdadeiro embaraço familiar e pessoal. A certa altura eu até pedia à minha mãe e aos amigos para não me comprarem e oferecerem presentes. E informava que não daria presentes a ninguém. Era difícil. Nem sempre era bem aceite a minha decisão. Ir contra a tradição e o espírito da época era um acto de rebeldia. Até vir para Israel, a única coisa que eu mantinha era a troca de presentes com o grupo de amigos local. Porém, era mais para festejar a nossa amizade e podermos, ao menos uma vez por ano, conseguirmos reunir-nos do que, de novo, pelo menino.

Num dos meus últimos anos em Portugal, uma crise familiar fez que não fizéssemos festa nenhuma em casa. O almoço de Natal acabou por ser num restaurante na praia da Nazaré. Foi horrível, especialmente para a minha mãe. Deve ter sido uma frustração brutal. Eu tinha ido contrariado, sem qualquer pachorra para a festa. Ela bem tentava puxar conversa, mas eu só queria acabar de comer e voltar para casa. Enquanto ela queria dar um pouco de alegria e significado festivo à data. Felizmente, só dura um dia.

Nessa altura, eu ainda não tinha começado oficialmente o meu processo de conversão ao Judaísmo, por isso ela ainda não entendia bem o meu comportamento de indiferença pela data em questão. Mesmo que ela soubesse das minhas intenções de conversão, que já duravam há uns anos. Talvez pensasse que era apenas uma fase minha ou que aquele desejo não implicava nenhuma mudança extraordinária.

Desde que vim para Israel, o Natal acabou definitivamente. Em Jerusalém, as poucas marcas do Natal que detecto, são as raras árvores decoradas nas janelas das casas do Bairro Arménio da Cidade Velha, a pouca distância da yeshiva onde estudo. Ou nas casas de cristãos nos bairros árabes do lado oriental da cidade. Mais para o sul da cidade, o cenário muda: o final da Estrada de Belém – a estrada que liga Jerusalém a Belém – está iluminado com luzes coloridas. Para agradar aos milhares de turistas cristãos que inundam a região nesta altura.

Na yeshiva é um dia de estudo como outro qualquer. Com uma excepção: à meia-noite do dia 24, apesar de não haver um anúncio oficial para o efeito, os alunos devem parar no estudo durante uns minutos. (Os poucos que a essa hora ainda persistem no Beit Midrash, a sala de estudos principal). A interrupção não é por respeito à ocasião. Antes pelo contrário. É inesquecível que as maiores tragédias do povo judeu aconteceram às mãos de alguns dos seguidores do menino da manjedoura. Por isso, a dignidade de estudar Torá não deve ser dada a tal momento. Por isso alguns interrompem o estudo para jogar xadrez.

publicado por Boaz às 12:21
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Quinta-feira, 6 de Dezembro de 2007

Diferente para quê?

Recentemente publicaram este comentário no Clara Mente: "Só por curiosidade, decidiu ser judeu só para ser diferente não foi? (...) foi por capricho, para ser do contra ou por convicção que decidiu abraçar o judaísmo? E se foi por convicção, que espécie de convicção foi essa? Religiosa ou política?"

Já contei a história do meu processo de conversão inúmeras vezes. Uma das últimas vezes foi ao meu mestre principal na yeshiva, o Rav Gadi. Ele ficou tão impressionado que até me pediu para contar a história numa aula, frente a toda a classe, a fim de estimular os outros alunos, alguns deles pouco dedicados ao estudo. Face à proposta dele, eu engelhei o nariz e disse-lhe que me desagrada esse tipo de exposição.

Contar uma vez por outra, numa conversa privada, quando as perguntas surgem – normalmente começam com “Mas há judeus em Portugal?” e umas perguntas depois, eu tenho de dizer que a minha família não é judaica e pronto, lá revelo que sou converso.

Não, o motivo da minha conversão não foi mesmo só para ser diferente. Obviamente que foi para tomar um caminho diferente na minha vida. Educado como católico e praticante até à adolescência, com aulas de catequese semanais durante 8 anos. Sempre fui uma pessoa religiosa, ou no mínimo com uma crença mais ou menos estruturada em Deus. E até me via como um membro convicto da Igreja Católica, mesmo que não concordasse com tudo o que a sua respectiva hierarquia e teologia impunham.

Quando comecei a fazer algumas perguntas sobre o papel de Deus no mundo, da responsabilidade pessoal de cada um no seu destino e no destino do Mundo, na salvação, etc., as respostas eram tudo menos satisfatórias, aceitáveis. Não procurava lógica – a fé não tem de ser lógica –, procurava coerência entre o deus apresentado pela doutrina e o seu papel no nosso mundo (se é que ele tinha algum), as descrições nas Escrituras...

Descobri no Judaísmo a mais completa, coerente, humana e ao menos tempo divina das religiões. E mais do que uma religião ou um conjunto de crenças, encontrei um modo de vida integral, guiado pelo divino e explicado pelo humano. Impossível de ser vivido cada um por si, apenas possível em comunidade, em família.

Só para ser diferente? Nunca me passou isso pela cabeça. Confesso que eu sempre fui um pouco marginal, excêntrico, original, entre os meus amigos. Não do género drogado ou de roupa estranha, punk, dread, metaleiro ou afins. Apenas à parte. Mas não o fazia de propósito, “só para ser diferente”. Nunca senti uma necessidade especial de afirmação perante os outros. Sou demasiado recatado para isso.

Para terminar, há muitos motivos para se decidir ser judeu. Talvez até “só para ser diferente” possa ser um deles. Nem vou comentar a sua validade. Não me compete. Mas um motivo desses só serve mesmo como ponto de partida. Quem levar a coisa a sério e decidir avançar a fundo no processo de conversão, verá que por “só para ser diferente” não vale a pena passar tantas provas.

E afinal, quem é que, por exemplo, desejaria ter de se levantar cedo todos os dias para rezar durante cerca de uma hora (às vezes até mais), ainda antes de tomar o pequeno-almoço e ir trabalhar? Não poder fazer o que a maioria das pessoas fazem ao Sábado, por a maioria dessas coisas estarem interditas nesse dia? Jejuar algumas vezes por ano, duas delas um jejum integral, sem comer ou beber, por 25 horas? Não comer tudo o que me apetece? Só para ser diferente. Além disto, ser uma minoria, na grande parte dos casos, minúscula e em regressão, em quase todos os países, vivendo em sociedades onde os judeus, se não são perseguidos, no mínimo são “olhados de lado”? Só para ser diferente?

Fashion? Talvez ache que a Madonna e os amigos dela do Kabbalah Center são judeus e que esse é o Judaísmo autêntico. Engana-se. Nem Cabala a sério é, mas uma mísera versão light, para estrela. Uma espécie de vídeos de ginástica da Jane Fonda ou curso de auto-ajuda para tontos, versão pseudo-cabalista.

Judeu por convicção política? O que tem a ver uma coisa com a outra? Hello?! O Judaísmo é uma religião, não a Internacional Socialista.

Não, só para ser eu mesmo.

PS – Outra pessoa comentou ao comentário inicial: "Agora que vem o Natal sejam vocês mesmos e deixem os outros na paz do Senhor, que é todo o mesmo, para qualquer religião." Uma correcção: o "Senhor" não é – de todo – o mesmo. Antes pelo contrário. O meu Senhor é o Deus Uno e Único, o Rei dos Reis, o Criador do Céu e da Terra, que sacou o Seu povo do Egipto por meio de prodígios. O da manjedoura, esse joga noutro campeonato.

publicado por Boaz às 21:05
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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

O mais amado

O preceito judaico mais repetido nas escrituras é: "amarás o converso". É mencionado no Tanach (Escrituras Sagradas Judaicas) mais de 30 vezes.

A admiração pelos conversos e a importante mitzvah (preceito) de os acolher é bem expressa numa passagem da Gemará: Rabbi Elazar ben P’dat disse: "Deus enviou Israel para o exílio entre as nações pelo único propósito de juntar conversos ao seu número". (Talmude Babilónico, Tratado de Pessachim, 87b).

Mesmo que o Judaísmo, apesar das acusações contidas nalgumas passagens dos Evangelhos, nunca tenha tido uma atitude missionária de busca activa de conversos. A atitude judaica deve ser o acolhimento dos interessados à conversão, não a propaganda para que juntem ao Povo de Israel.

Nas palavras do sábio Rabbi Shimon ben Lakish: "O converso é mais querido por Deus que a multidão que esteve perante o Monte Sinai (na entrega da Torah e os Dez Mandamentos). Porquê? Porque essa multidão não teria aceite a soberania de Deus se não fosse o estrondo, os relâmpagos e os trovões e o tremor da montanha, enquanto estes (os conversos) não viram nem ouviram nada do género e ainda assim vêm e submetem-se a si mesmos ao Santo Bendito Seja e aceitam a soberania de Deus! Haverá alguém mais querido que isso?" (Tanchuma Lech Lecha 6).

publicado por Boaz às 13:36
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Segunda-feira, 8 de Janeiro de 2007

Centelha judaica

O escritor americano Mark Twain terá dito uma vez que «não há nada tão eterno como o Judeu». Referia-se à forma como os Judeus, apesar de terem sido dominados e perseguidos por inúmeros impérios, acabaram sempre por lhes resistir e sobreviver, enquanto esses mesmos impérios se extinguiram no remoinho da História.

Mark Twain não se referia aos Marranos, mas bem podia tê-los incluído na sua ideia. "Marranos" é o nome dado aos descendentes dos Judeus obrigados à conversão ao Catolicismo e que se mantiveram secretamente Judeus após o decreto de Expulsão de 1496. São também chamados Bnei Anussim, "Filhos dos Forçados".

Poderíamos pensar que os Marranos são curiosidades históricas, realidades (quase míticas) do passado. Mas não, ainda hoje, já no século XXI, mais de 500 anos depois da ordem que os obrigou ao silêncio e a uma vida dupla "Cristãos por fora, Judeus por dentro" ainda existem pessoas que perpetuam essa memória e essas tradições abafadas durante tantos séculos.


Alma judia

Como foi possível a subsistência de rituais como acender as velas antes do Shabbat, jejuar no Dia do Perdão ou não comer comidas fermentadas na Páscoa? Tudo num ambiente de secretismo absoluto, envolvido com o medo de se ser, a qualquer momento, descoberto pela temível e cruel Inquisição. E mais, porque se mantiveram secretos mesmo após a extinção da Inquisição (em Portugal deu-se em 1822), da abertura da sociedade a outras religiões, da instauração da democracia e da instituição da liberdade religiosa?

Durante os anos 20 do século passado, houve um esforço notável por parte do capitão Artur Barros Basto para resgatar os milhares de Marranos ainda existentes no Norte de Portugal. A sua missão levou à construção da Sinagoga do Porto e ao estabelecimento de várias comunidades judaicas em várias cidades e vilas do Norte. No entanto, a sua missão foi bruscamente terminada e as comunidades por ele fundadas acabaram por se desagregar. A emigração nos anos 50 e 60 levou muitos para França.

Também em Espanha, especialmente nas ilhas Baleares, existem descendentes de Marranos, como os Chuetas, judeus maiorquinos perseguidos após um grande massacre no século XIV, ainda antes da Expulsão dos Judeus de Espanha, em 1492. Nos séculos seguintes, os seus descendentes foram sistematicamente excluídos da vida social das ilhas e "Chueta" passou a ser uma expressão de insulto entre os habitantes locais. Aliás, "Chueta", tal como "Marrano" têm o significado de "porco".

As Diásporas portuguesa e espanhola levaram milhares de Judeus e seus descendentes para todo o Mundo, em especial a América Latina. Calcula-se que, actualmente, o Brasil seja o país com maior número de Marranos em todo o Mundo. Serão cerca de 100 mil, especialmente concentrados no sertão do Nordeste. No Peru, várias comunidades subsistiram também e hoje revelam a sua intenção de ingressar no Judaísmo moderno.

Na Índia é a ainda mais incrível história dos Bnei Menashe que desponta. Várias tribos indianas reclamam ser os descendentes de uma das tribos de Judeus exilados na Babilónia há quase 3000 anos e que numa vaga de migrações se estabeleceram nas montanhas do Nordeste da Índia. Aí mantiveram um certo número de tradições judaicas que se foram perpetuando apesar do isolamento extremo. Desde o século XIX, com a chegada repentina de missionários cristãos, a maioria converteu-se ao cristianismo. Alguns milhares, no entanto, insistem no seu Judaísmo e resistiram às investidas dos missionários e hoje aproximam-se do Judaísmo moderno.

Na Polónia, após a II Guerra Mundial, alguns milhares de sobreviventes dos campos de concentração que regressaram às suas terras para reclamar as suas casas e bens, foram mortos pelos polacos que entretanto haviam ocupado as antigas propriedades judaicas. Já depois da retirada das tropas nazis. Assim, a maioria dos judeus polacos sobreviventes, decidiram emigrar para Israel ou Estados Unidos, ou optaram pela ocultação da sua identidade judaica.

Durante várias gerações, cônjuges esconderam um do outro e pais esconderam dos filhos, a sua origem. Como a história dramática de um casal de jovens neo-nazis. Casarem-se e tiveram um filho. Entretanto descobrem que os dois são judeus. Numa sexta-feira à noite resolveram convidar os pais para a refeição de Shabbat. A família não aceitou bem a mudança. Aos poucos deixaram para trás o neo-nazismo e juntaram-se à comunidade judaica ortodoxa de Varsóvia. Hoje, os dois são membros activos dessa comunidade. Porém, alguns dos irmãos do rapaz continuam a ser neo-nazis.

Voltando ao caso português. Na última semana, quinze pessoas - a maioria descendentes de Marranos - terminaram o processo de conversão/retorno ao Judaísmo no Tribunal Rabínico de Jerusalém. Vinham tomando aulas de conversão junto da comunidade judaica do Porto. Entre eles, vários casais que, após a conclusão do processo de conversão, se casaram segundo o rito judaico, na Grande Sinagoga de Jerusalém.

É impossível ter consciência plena do esforço e da motivação destas pessoas. Mas são todas, para lá de curiosidades antropológicas, exemplos vivos e actuais da eternidade da "centelha judaica".

publicado por Boaz às 12:40
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Terça-feira, 10 de Outubro de 2006

Em nome de quê?

Nunca é fácil viver longe da família e dos amigos. É verdade que amigos fazem-se ou arranjam-se outros novos, mas nunca se deixam os "antigos" para trás. E a própria noção de família pressupõe eternidade dos laços - divórcios à parte -, pelo menos entre pais e filhos.

Nunca tive grande facilidade em fazer amigos. Aliás, creio que é mesmo impossível ser fácil "fazer amigos". A amizade requer um conhecimento mútuo, uma cumplicidade e uma proximidade tal que não se conseguem senão com um contacto particular e profundo que não se estabelecem com qualquer pessoa.

Sempre tive um grupo muito exclusivo de eleitos como "os meus amigos". A minha denominação de alguém como "amigo" sempre foi mantida no mais alto nível. Nunca tive o hábito de chamar "amigo" a todo o bicho e careta com quem contactava diariamente na escola. Esses foram e são simplesmente "colegas".

Antes, era habitualmente reservado nos meus contactos com estranhos. Aqui em Israel, com a distância da família e dos amigos de Portugal - que são os amigos de sempre -, descobri uma faculdade que não julgava ter: a de socializar com pessoas novas e criar laços com relativa facilidade. A saída da yeshivá Machon Meir e a entrada na Yeshivat HaKotel obrigou-me a construir novos vínculos.

Alguns - muito poucos - dos companheiros de estudos da antiga yeshiva, acabaram por tornar-se amigos de quem sinto uma falta constante. Na minha nova casa, a integração fez-se muito por conta da facilidade de contacto entre portugueses e brasileiros. O meu habitual sentido de humor e a natural boa-disposição brasileira ajudaram no processo.

Hoje olho para as fotos que trouxe de Portugal com uma saudade impossível de conter. Pelo menos uma vez por semana recebo uma chamada da minha mãe. Menos frequentemente sou eu que ligo. Há dias em que penso por momentos que o pior pode acontecer com os que estão distantes e eu, a mais de 4000 quilómetros de distância, sem poder fazer nada. A ansiedade pela distância existe naturalmente nos dois sentidos.

Durante as semanas de guerra entre Israel e o Hezbollah subiu a frequência das chamadas da minha mãe. Preocupada com a minha situação. Não consigo conceber o nível da sua angústia ao ver as imagens da guerra e imaginar-me próximo daquilo tudo. Sempre me pedia para regressar a Portugal. Ofereceu-se até para me pagar o bilhete, para ao menos passar umas semanas longe do conflito. Sempre lhe dizia que em Jerusalém a situação estava praticamente inalterada e que ficava bem distante dos locais atingidos pelos mísseis no norte de Israel. Obviamente que isso não era suficiente para a sossegar.

Todas as vezes que falamos, me pergunta quando volto a Portugal e diz-me que tem saudades. Infelizmente, nunca lhe posso dar grandes certezas quanto ao meu regresso, mas digo-lhe que em princípio no próximo Março devo ir visitá-la. Gostava de poder ir a Portugal ao menos uma vez por ano. Foi essa a esperança que lhe deixei quando nos despedimos no dia da minha partida para Israel, em Maio último.

A condição quotidiana de Israel nunca é tão relaxada como na maioria dos outros países, por isso custa-me deixar as pessoas preocupadas com a minha situação. Em nome do quê o faço? Tenho pena que todo o meu projecto de vida possa causar alguma ansiedade na família e nos amigos. Estar hoje em Israel e desejar permanecer aqui, construindo cá a minha família e o meu futuro são consequências da minha conversão ao Judaísmo. Não passei por cima de ninguém para o consegui. Não creio que o processo tivesse alguma vez tido como consequência o sofrimento de alguém.

Todavia, não poderia deixar de fazer o que fiz. Pensar na eventual ansiedade da família e dos amigos como obstáculo ao meu futuro seria simplesmente boicotar a base da minha vida. Sobre isto me apoio nas palavras de Hillel, um dos sábios do Judaísmo contidas na obra "Pirkei Avot", a "Ética dos Pais":

«Se eu não sou por mim, quem será por mim? E se eu sou por mim, quem sou eu? E se não agora, quando?»

publicado por Boaz às 14:44
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Quinta-feira, 14 de Setembro de 2006

Sair de casa

Yeshivat HaKotel, situada junto ao Muro Ocidental, em Jerusalém, é uma das maiores yeshivot do Mundo

No próximo Domingo vou mudar de casa. Deixo o lugar que foi o meu lar durante quase um ano, a yeshiva Machon Meir. Não vou para muito longe, apenas a 20 minutos de autocarro, até à Cidade Velha de Jerusalém.

Não é fácil deixar para trás o lugar onde aprendi realmente a ser um judeu comprometido. Foi com esta bagagem que me aguentei mais de um mês em Portugal, fora de um ambiente judaico. Antes de entrar para o Machon Meir, por exemplo, apenas por uma vez tinha passado um dia em que havia feito as três orações diárias requeridas pelo Judaísmo. Rezar com minyan e estudar Torá passou a fazer parte do meu dia-a-dia. Judaísmo autêntico.

Desde o primeiro dia fui tratado com todo o respeito e o facto de ainda não ser judeu, nunca foi obstáculo para os estudos. Aqui, judeus e futuros-judeus estudam sem qualquer separação. Desde o início que a maioria passou a chamar-me logo pelo meu nome judeu - Boaz -, o nome que já havia escolhido, meses antes de completar o processo de guiur (conversão).

Foi de entre os estudantes da yeshiva que escolhi aquele que seria o meu sandak - a pessoa que me acompanhou durante a operação/cerimónia de circuncisão - uma espécie de padrinho. Foi cá também que recebi os primeiros abraços no dia em que completei o meu guiur.

Todavia, nem tudo foi fácil na vida na yeshiva. O pior foi mesmo ter de abdicar da privacidade e obrigar-me a ser um pouco condescendente com a falta de arrumação dos companheiros de quarto. Ter de aturar os muitos "loucos" que tenho por colegas e vizinhos. Tanto assim que um dos lemas em tom de piada entre os estudantes cá do sítio é: "o manicómio tem inveja da yeshiva". Mas é um lugar deveras especial.

Quando comuniquei ao favorito dos meus professores a minha saída próxima, ele mostrou-se triste com a perspectiva da minha saída. Que melhor reconhecimento poderia receber eu da parte de um sábio? O director do programa de lingua espanhola - do qual fiz parte durante a minha estadia na yeshiva - comentou nestes termos a minha saída: "É pena. Vai-se um dos baluartes do nosso departamento..."

Estas palavras enchem-me de orgulho, mas também são um peso que levo às costas para a nova yeshiva. Um fardo de responsabilidade que não quero nem posso desprezar. Apesar de mudar de casa e acima de tudo de lugar de estudo, quero continuar a merecer os elogios e a consideração dos mestres que deixo. O nível que me vai ser exigido na nova yeshiva é bem mais alto do que aquele que experimentei nos últimos meses.

Ainda não sei o que me espera. Não sei se os estudos que vou iniciar na próxima semana serão parte de um plano definido de vida, para além da obrigação de qualquer homem judeu de estudar Torá. Afinal, como ensinam os sábios: "o estudo da Torá vale por todas as outras mitzvot".

publicado por Boaz às 22:58
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Quinta-feira, 22 de Junho de 2006

Tremor de pernas

No dia seguinte à minha entrada no Povo de Israel, tive a oportunidade de subir à Torah, durante o serviço matinal na yeshiva. Assim que chegou a hora de escolher as três pessoas que iriam subir à bimá para ler a Torá, o incumbido da tarefa - que já sabia da conclusão do meu guiur - olhou-me e com um gesto de dedos chamou-me para me perguntar o meu nome hebreu.

Torah emet natan lanu. Baruch Hashem bachar banu.

"É já hoje que subo à Torá!?", pensei. Acerquei-me e disse-lhe: Boaz ben Avraham. Voltei para o meu lugar e busquei no final do siddur (o livro de orações) a leitura daquela semana. Comecei a ficar nervoso.

"Chazak u'baruch"

Ao fim da segunda parte da leitura, ouvi o meu nome e subi ao patamar de onde se lê a Torá. Fiz as bênçãos iniciais sem problema, lendo-as da "cábula" que se encontra colada na mesa da bimá. As pernas tremiam a sério. As mãos suavam. No final, só consegui "ir direito" até metade da bênção. Olhava o texto em hebraico e não conseguia avançar. Uns segundos de hesitação e não conseguia articular uma única palavra. Até que o "levi" que me havia precedido na leitura da Torá me disse a palavra que estava "encravada".

Sabendo que era a minha primeira subida à Torá, muitos se acercaram para me felicitar com o tradicional "chazak u'baruch", ou seja "forte e abençoado". Inclusive o rosh yeshiva (o director da yeshiva) Rav Dov Bigon. Já no final das orações, disseram-me que me havia esquecido de repetir uma das bênçãos iniciais. Não me lembro se o fiz ou não.

Nessa tarde contei o que acontecera a um dos meus professores. De como estava nervoso. "Eu demorei 13 anos a subir à Torá. Tu nasceste ontem e já o fizeste", disse-me.

Aí está, ele teve 13 anos para se preparar...

publicado por Boaz às 21:33
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Quarta-feira, 21 de Junho de 2006

Um dia mais que perfeito

Costuma dizer-se: "há dias assim". Pois sim, mas como o que eu vivi hoje não há mesmo dias. Há um dia único. Cheio de momentos únicos.

Fui a Tel Aviv a fim de ir à mikve, o banho ritual judaico, que marcou o fim do meu processo de guiur (conversão ao Judaísmo). Havia combinado de véspera ir com um colega mexicano da yeshiva. Já conhecedor das suas dificuldades de despertar-se na manhã, fui acordá-lo assim que saí do meu quarto para ir rezar Shacharit, as orações da manhã. Acabada a oração -cerca de uma hora depois - voltei a passar pelo seu quarto para fazê-lo saltar da cama. Nada. Após o pequeno-almoço, nova e última tentativa. Dada a derrota em despertá-lo e não podendo esperar mais tempo, resolvi convidar outro colega, por coincidência também mexicano, para me acompanhar neste dia.

Encontrar um mikve ou uma sinagoga em Tel Aviv é quase tão difícil como em qualquer cidade fora de Israel. Esta é a maior cidade do país, mas de tão pouco religiosa, dificilmente se podia chamar-lhe uma cidade judia. Perguntando aqui e ali, junto à estação de autocarros, lá encontrámos o bairro, a rua e o local exacto.

A espera até à minha vez de entrar no "tanque" fez-se numa sala minúscula apinhada de gente. Desde futuras noivas que também têm de passar o banho ritual antes do casamento, até homens e mulheres que, tal como eu, iriam concluir hoje a sua conversão. Na maioria russos. Entre os que passaram pelo mikve naquele dia, uma senhora russa de uns 60 e muitos anos. No dia seguinte iria casar-se. Sim, parece que as almas gémeas sempre existem e nunca é tarde para as encontrar, ou reafirmar o amor que as une. Aquele casal de anciãos russos emanava uma alegria e vivacidade que em nada correspondia à ideia que normalmente temos das pessoas daquela idade.

Confesso que a minha passagem pela mikve em si não me causou grande impacto. Obviamente que compreendo que até àquelas duas submersões eu era uma coisa e depois passei a ser outra. Bem distinta. Mas a verdade é que não senti nada especial. Marcou-me apenas o ditame de um dos juízes. Perguntou-me: "Puseste os tefilin hoje?" Respondi-lhe que "sim, obviamente". Aí ordenou-me: "Então hoje tens de os pôr outra vez. De manhã não eras judeu. Agora já és." Assim: rápido e certeiro. Estranha afirmação, mas verdadeira.

Logo à saída, fomos procurar uma sinagoga para rezarmos Minchá (oração da tarde), onde eu pudesse também encontrar uns tefilin para cumprir a mitzvá. A primeira sinagoga, ao lado da mikve, estava ocupada com um casamento. Na segunda, um funeral. Andámos bastante até encontrar uma onde pudéssemos rezar. Pela primeira vez, contei para o minyan! Mas não havia tefilin disponíveis. Estava com fé que, na nossa caminhada até à praia conseguíssemos encontrar algum Chabadnik na rua, oferecendo a mitzvá aos muitos "judeus afastados". É comum encontrar adeptos de Chabad nas zonas de Tel Aviv e Jerusalém frequentadas por jovens pouco observantes.

Depois do almoço de festa, um "esticão" até à praia. Há mais de um ano que não punha os pés na areia de uma praia. Que bom voltar ao mar, sentar-me ao sol... Até que chegou a hora do Portugal-México. Aproveitámos a viagem a Tel Aviv e não iríamos perder a oportunidade de seguir o jogo. Bastava para isso encontrar algum bar com televisão que o transmitisse. Mesmo em frente à praia, ao lado da embaixada americana e a 50 metros do antigo Dolphinarium.

O resultado do jogo é história. Foi engraçado vê-lo ao lado de um mexicano. Quais as probabilidades de encontrar um português e um mexicano em Israel a assistirem ao jogo entre as duas selecções?

Na hora de voltar para Jerusalém - e Tel Aviv já me estava a dar volta à cabeça - faltava ainda encontrar algum par de tefilin, antes que entrasse no autocarro, sabendo que ao chegar de noite a Jerusalém, já não poderia cumprir a mitzva neste dia... "Começar a minha vida como judeu e já a quebrar leis" era a minha preocupação. A salvação chegou logo à entrada da Estação Central de Tel Aviv: um cesto com tefilin para quem os quisesse usar. Uff! Abençoada seja Chabad e os seus incansáveis hassidim... Deixei 10 shekels de tzedaka.

À chegada à yeshiva, a recepção dos companheiros de estudo do departamento ibero-americano. Uma canção e muitos abraços. Também de outros colegas que, sabendo ou não o que me havia passado naquele dia, me vieram saudar com um "Mazel Tov".

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Terça-feira, 20 de Junho de 2006

Não um fim, mas um novo começo

Tefilin

Amanhã, por volta do meio-dia, vou ter o passo final do meu processo de conversão ao Judaísmo. A ida ao mikve, ou banho ritual. Será em Tel Aviv. É realmente estranho. Vivendo eu em Jerusalém e tendo passado o Bet Din (Tribunal Rabínico) da cidade, que tenha de ir a Tel Aviv, provavelmente, a cidade menos religiosa de Israel. Mas a burocracia assim o exige...

Olhando para trás, desde a altura em que comecei a pensar na hipótese da conversão, passaram talvez 10 anos. Dez anos! Disse "altura" porque não sei exactamente o dia ou mês em que pela primeira vez fiz a mim mesmo a pergunta básica: "Será que devia converter-me ao Judaísmo?". Não é algo que aparece de um dia para o outro. É gradual. De tão gradual que é difícil encontrar o momento que despoletou tudo. No meu caso existirá um momento. Noutros casos de conversões, existem realidades mais concretas como ser filho de pai judeu, ser de origem "marrana" conhecida. São os mais comuns. Na minha história, nas minhas motivações, não estão as origens judaicas porque, pelo menos que eu saiba, nas últimas gerações da minha família não há judeus.

No entanto, mesmo eu acabasse por descobrir que houve judeus entre os meus antepassados, não creio que isso influenciaria a minha vontade em continuar no caminho. Seria apenas um detalhe a fim de despachar a conversa, para fugir à sessão de perguntas sobre o tema que é costume fazerem os judeus "de nascimento" aos conversos, especialmente quando estão na caminhada.

Não é genética que procuro, nem raízes de qualquer ordem. E até creio que alguém que baseie um processo de conversão na busca de raízes, muito fraca motivação tem. Os motivos têm de ser puramente pessoais. Supostas ou confirmadas ligações familiares são cordas demasiado débeis para aguentar o peso do processo.

Para chegar ao momento culminante de amanhã, passei por fases incríveis. Muitas delas, nada agradáveis. O primeiro telefonema nervoso para a Comunidade Israelita de Lisboa, nos finais de 1997, semanas após ter entrado para a Universidade e ter visto nessa mudança de residência e maior proximidade física à comunidade como a situação ideal para desencadear o processo. A frustração do primeiro encontro na sinagoga. Os anos de stand-by. Os emails para o rabino da comunidade, assim que descobri essa porta virtual para contacto. O convite do Mordechai e o primeiro serviço de Kabbalat Shabat. Os episódios pouco simpáticos à porta da sinagoga. A espera de vários meses até obter a autorização para frequentar a sinagoga.

A refeição de Succot quando conheci o Rabino Boaz Pash e a sua família. O início das aulas de conversão em Lisboa e ter conhecido um grupo de gente tão interessante. O primeiro Shabbat "a sério". A primeira vez que celebrei Pessach e Shavuot. A viagem para Israel em Setembro do ano passado. As aulas no ulpan de Efrat, a vida na yeshiva. A incerteza do processo por, na altura, querer voltar para Portugal e saber da decisão do Grão-Rabinato de cancelar sine die os processos dos que tencionavam voltar para a Diáspora. O momento em que soube a data do encontro do Bet Din. A semana de loucos que antecedeu a dita reunião, com a tristeza da partida do meu caro Gonzalo, agora Yosef ben Avraham. O stress do estudo. O dia fatídico da prova no Tribunal Rabínico. Recitar "Shemá" quando os dayanim (juízes rabínicos) finalmente decidiram que eu merecia fazer parte do Povo de Israel. A viagem a Portugal e todas as provas de viver como judeu num ambiente nada judaico. A circuncisão, feita consciente, apenas com anestesia local. A recuperação. E amanhã, o momento a que chamamos carinhosamente de "piscina".

Olhando para todos estes factos, não lamento os contratempos por que passei. Com todos aprendi. Se não tivesse passado por cada um deles, não teria aprendido algo valioso. Se tivesse "despachado" o processo quando estava em Portugal, nunca teria conhecido pessoas que me marcaram tanto e que de outro modo me teriam passado ao lado, assim como tudo o que vivi e aprendi com elas.

A partir de amanhã vou ter de viver o Judaísmo por mim. Certo que desde que passei o Bet Din, que tenho a responsabilidade de cumprir tudo o que um judeu cumpre. Todavia, a partir de amanhã, a responsabilidade é redobrada. Tenho de encontrar o rumo que quero seguir no futuro. Já sem o amparo quase maternal do ulpan. É, ao mesmo tempo, uma perspectiva aliciante e assustadora.

Neste momento lembro-me da letra de uma canção: "Every new begining comes from some other begining's end". ("Todo o novo começo vem com o fim de um outro começo").

publicado por Boaz às 22:27
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Terça-feira, 16 de Maio de 2006

De corpo inteiro

Apenas com uma bata vestida. Deitado numa maca. Dez injecções de anestesia. Uma bênção. Uns cortes de tesoura. Um jorro de sangue. Uma dúzia de pontos. Dores (ou no mínimo um certo incómodo) depois de passado o efeito da anestesia. Vários dias de repouso. Febre ao terceiro dia. Uma semana e meia com um andar novo. Recuperação total mais que provável ao fim de três semanas.

É o que me espera a partir de amanhã. Aí passarei a ser um "Filho da Aliança".

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Quinta-feira, 30 de Março de 2006

"Estás mudado"

O regresso a Portugal apresenta-se-me com uma série de desafios. O primeiro deles é manter o cumprimento das mitzvot (preceitos judaicos) num ambiente com muito pouco de Judaísmo. Ao mesmo tempo que tento seguir os meus princípios, procuro não ofender as pessoas que me estão próximas, desconhecedoras das regras judaicas e dos seus intrincados detalhes e significados.

A primeira grande luta foi com a comida. Alimentação casher e cozinhas onde essa regra é cumprida à risca são a norma em Israel. Cá, pelo contrário, só usar a louça comum levanta uma série de problemas. Ao chegar a casa, a minha mãe apresentou-me, orgulhosa, um bolo que havia preparado para festejar o meu regresso. Vi a desilusão nos seus olhos quando lhe disse que não o podia comer. Custou-me - não tanto pelo bolo, mas mais para não a ofender, - mas tive de manter a minha posição.

Já estava à espera de uma reacção assim, por isso a havia avisado de antemão para não fazer conta comigo para o jantar. Todavia, como me poderia lembrar que ela iria fazer um bolo, coisa rara lá em casa?! No dia seguinte, dediquei-me durante várias horas a "casherizar" tachos, pratos e talheres para usar durante a minha curta estadia.

Também o uso permanente da kippa levantou sobrolhos a princípio. "Agora estás em casa, não precisas de usar isso". Já os tsitsit, cujo aspecto visível é uma série de fiozinhos brancos pendurados nas calças, surpreendentemente, não causaram reacção.

Fiquei sem saber o que dizer quando a minha mãe me disse que eu "estava mudado". Especialmente tendo-o dito de uma forma não muito agradada, se bem que não exactamente hostil, mas quase como se já não me reconhecesse, ou não me conhecesse bem. Parece que tinha chegado um estranho a casa...

Estranheza é exactamente a forma como encaro quase tudo à minha volta. Já percebi que as pessoas - família e amigos - me vêm de forma diferente, porque eu, realmente, me comporto de forma diferente. Os que me conhecem tomam-me como alguém muito falador e extrovertido entre os amigos mas, ao contrário de antes, não estou particularmente conversador. É que, simplesmente, não sei o que hei de dizer aos outros para que me entendam de imediato.

Em termos temporais passaram apenas seis meses, mas foram seis meses de mudanças muito profundas. Ao chegar, parece que passaram anos. O meu mundo de hoje é radicalmente diferente daquele em que vivia antes de partir, o que dá a impressão que cheguei a outro planeta. O planeta Diáspora.

publicado por Boaz às 13:42
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Segunda-feira, 27 de Março de 2006

O estrangeiro

Já estou em Portugal, depois da minha longa estadia em Israel. Que diferença! Já estava acostumado - bem acostumado - com a rotina da vida na yeshiva, a integrar-me com o modo de vida israelita, especialmente no ambiente de Jerusalém e agora, pelo menos durante mês e meio, vou ter de reaprender o modo de vida português.

Até agora não saí durante muito tempo à rua - somente o suficiente para a viagem de taxi entre o aeroporto e a casa de uns amigos onde passei a primeira noite, e uma ida ao banco para resolver uns problemas com o telemóvel.

Por um lado gostei de voltar a ver os portugueses na sua vida diária, de ouvir de novo as rádios portuguesas no meu radiozinho de bolso mas, por outro lado, não gostei de não me sentir à-vontade, andando pela rua com tsitsit e kippa. Se bem que a kippa que uso agora passe por um gorro apenas um pouco estranho, os tsitsit são indisfarçáveis no que toca à estranhesa! Sim, eu sei que a solução é andar com eles dentro das calças e não para fora... E voltei a ter a sensação desagradável de ser observado.

Até à pouco mais de um mês, ainda em Israel, estava furioso com a perspectiva de ter de ficar no país para me ser permitido acabar o processo de conversão. Havia ido para Israel com a ideia de despachar o processo em 6 meses e voltar a Portugal, e fazer a minha vida como membro do povo de Israel por cá... A certa altura, alguém meteu à força no pacote a obrigação de permanência em Israel. Que fúria que senti então! A distinção entre israelita e judeu é para mim muito clara, pelo que a imposição de tornar-se israelita junto com o tornar-se judeu, era a meu ver inaceitável.

No entanto, aos poucos, no final da estadia, usando a minha habitual atitude pragmática, acabei por perceber que não me queda outra, se quero viver mesmo como judeu.

Sem dúvida que admiro os raros "resistentes" que em Portugal teimam em viver como judeus autênticos. Não aqueles que se afirmam judeus, mesmo sendo-o realmente de acordo com a Lei Judaica e sendo membros reconhecidos das várias comunidades, mas aqueles que realmente se comprometem a viver seguindo essa Lei. E esses são uma minoria.

Em Israel é, para quem quer viver como judeu, tudo muito mais fácil. Comida casher, o cumprimento de Shabbat e a educação judaica das crianças são as regras básicas. Por cá, cada uma destas coisas apresenta uma série de obstáculos que requerem tarefas hercúleas para se transporem. E nem sempre se ultrapassam da forma ideal.

Olho com espectativa para os próximos dias, para ver como vou enfrentar as minhas obrigações religiosas neste ambiente pouco favorável.

Nota: o significado da kippa e dos tsitsit, dois símbolos de um homem judeu.

publicado por Boaz às 18:58
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Segunda-feira, 28 de Novembro de 2005

Shabbat Shalom

Desde que estou em Israel tenho tentado usufruir o mais possível dos Sábados, os únicos dias da semana em que (aparentemente) posso descansar. No entanto, apesar das inúmeras coisas interditas durante aquele que é o dia sagrado por exscelência do Judaísmo, o Shabbat está longe de ser um mero dia para deixar a rotina normal.

Uma das melhores formas para receber toda a riqueza do Shabbat, é passá-lo, o mais possível - total ou parcialmente - com pessoas diferentes, para assim conhecer as várias tradições associadas ao dia. Em Efrat, cheguei a passar a ceia de Shabbat (na noite de Sexta-feira) em casa de várias famílias. Agora que me mudei para Jerusalém, estou mais por "conta própria".

O meu primeiro Shabbat desde que entrei para a yeshiva, decidi passá-lo fora, com a família do meu rabino, em Mitzpe Yeriho. Mitzpe é um colonato no meio do deserto da Judeia, com uma vista espectacular sobre as montanhas estéreis que o rodeiam, o Mar Morto, o Vale do Jordão e a cidade palestiniana de Jericó, situada a poucos quilómetros de distância.

A terra é pequena, com pouco mais de mil habitantes. Tão pequena e distante dos principais povoados que o autocarro que a liga a Jerusalém demora mais de uma hora a cumprir a viagem, já que para que esta renda, passa antes por vários colonatos mais importantes.

Apesar de pequena Mitzpe tem, pelo menos, oito sinagogas. O meu rabino quis partilhar a riqueza do Judaísmo, levando-nos - a mim e ao amigo uruguaio do ulpan giur e da yeshiva que me acompanhou - a rezar os quatro serviços religiosos em três sinagogas diferentes, entre elas uma sinagoga teimani (de rito iemenita), cujas orações são quase todas cantadas e entoadas num sotaque muito particular.

Pela manhã, caminhámos durante meia hora até uma sinagoga improvisada, situada numa caravana no alto de uma colina desértica, posto avançado com vista expansão planeada para o colonato nos próximos dois anos. Aí, fomos convidados para ler a Torá. Durante a oração da tarde, desta vez numa pequena sinagoga recém-construída no centro de Mitzpe, o convite repetiu-se. Sendo forasteiros e acompanhando um ilustre habitante da terra, sempre nos era oferecida a honra de subir à Torá.

Não pudemos aceitar tamanha honra. Estamos ambos - ainda - em processo de conversão e, por isso, não contamos para o minyan e, logo não podemos ler da Torá. Convites destes não se recusam, mas nós temos de os recusar. Por mais que custe.

publicado por Boaz às 21:03
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Sexta-feira, 28 de Outubro de 2005

Uma grande família

Um mês. É o tempo que leva, já, a minha estadia em Israel. Cheguei com planos - por alto, sem qualquer garantia do seu cumprimento - para seis meses. Estou num ulpan guiur, uma escola para candidatos à conversão ao Judaísmo.

A integração no grupo pareceu-me bastante rápida, se considerar que me conheço como uma pessoa tímida e reservada. A verdade é que, quando se conhece gente com uma realidade em comum tão fundamental como a adesão a uma fé - neste caso o Judaísmo -, a convivência torna-se quase automática e a afinidade é natural. Por mais que as diferenças de motivação e experiência existam.

Na sua maioria, os candidatos à conversão são filhos de pai judeu - a lei judaica reconhece, sempre, como judeus os filhos de mãe judia - que querem seguir essa herança familiar. São poucos os casos como o meu. Alguém sem qualquer vínculo familiar com o Judaísmo que, a certa altura da vida, se decidiu pela adesão ao Povo Judeu.

Ainda menos são os que têm experiência e estudo sistemático anteriores à sua chegada a Israel. No meu caso, estudei semanalmente com um rabino durante um ano, em Lisboa e mantive - mais ou menos regular, mais ou menos próximo - contacto com a comunidade judaica. O meu companheiro mais próximo estuda e vive como judeu há já vários anos. Só agora tem a perspectiva de concretizar a convesão. Pouquíssimos são os que, findo o processo de conversão, planeiam voltar aos seus países de origem.

Pela minha parte, vejo a minha estadia em Israel como passageira, mas não posso excluir a hipótese de ficar por cá. Simplesmente não estou em condições de poder cerrar nenhuma porta, excluíndo à partida alguma possibilidade. Contudo, o facto de não ter trabalho em Portugal nem grandes perspectivas para construir uma família judia, não abonam a favor do meu regresso definitivo.

O grupo de estudantes é deveras variado e está em constante mudança. Todas as semanas, alguns se apresentam perante o Bet Din, o tribunal rabínico que, por meio de algumas perguntas averigua da preparação e decide passar ou reprovar o candidato. Estes dão por terminado o seu processo, mas nem por isso deixam, em alguns casos, de frequentar as classes, a fim de aprenderem mais. Todas as semanas chega alguém que está a iniciar a caminhada.

Quase todos os colegas de classe são sul-americanos (mexicanos, colombianos, uruguaios, argentinos, brasileiros) ou espanhóis. Eu e uma jovem portuense somos os únicos portugueses. Por maioria demográfica, as aulas são sempre em espanhol.

Ora, com classes em língua castelhana e companheiros de casa oriundos do Uruguai e Colômbia, pouco uso faço do inglês e do português. (No hebraico ainda estou só começando). O que, por este andar, me vai fazer chegar a Portugal, daqui a uns meses, a falar português com o perfeito sotaque de imigrante na Venezuela.

publicado por Boaz às 09:15
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Domingo, 2 de Outubro de 2005

Shana Tova - Feliz Ano Novo para...

Judeus Modernos, ultra ou apenas ortodoxos,
Judeus Haredim, Mitnagdim, Conservadores, Conservadoxos, Reformados & ConFormados,
Judeus Gartel e Judeus não-Gartel,
Judeus com sheitels & sem, Judeus Tichel,
Judeus Sheitel, tichel & com chapéu,
Adultos & crianças, Frum desde nascença, Baalei Teshuva, Satmar, Agudah,
De chapéu preto, kipa s'ruga,
Mir, Belz, Beta Yisrael, Bobov, Chaim Berlin, Yeshiva University,
Judeus de payos em frente da orelha, Judeus de payos atrás da orelha,
Judeus de kipa só na sinagoga / de chapéu na sinagoga / que nunca vão à sinagoga
Judeus Mizrachi, Judeus por escolha,
Judeus de robe à Sexta à noite, Judeus do Likud, Judeus Trabalhistas,
Judeus Meimad, das Dez Tribos Perdidas, Judeus cardíacos,
Judeus Irlandeses, Negros, Brancos, Judeus 3-dias-por-ano,
Judeus do Rav Nachman, do Rav Shlomo, da Neturei Karta,
Hasidim, Telz, Lakewood & Ner Yisrael,
Judeus Chofetz Chaim, Judeus zaftig, magricelas, Kookies,
Judeus JTS, RJJ, HUC, HTC, MTJ, BMT,
Judeus Celebridades, Judeus da Geração X, Y & Z,
Judeus da NCSY e de Solomon Schechter,
Judeus Chinuch Atzmai, Judeus Fackenheim, Judeus Yitz Greenberg, Judeus Kahane,
Judeus feministas, Judeus chauvinistas, Judeus igualitários, Judeus vegetarianos,
Judeus tradicionais, Judeus Kaddish-zuger,
Judeus políticos, Judeus intelectuais e Judeus ignorantes,
Judeus tomate & Judeus laranja, Judeus Shinui, e Judeus Shas,
Judeus Israelitas, Americanos, Persas e Russos,
Galitzianers, Litvaks, Polacks,
Judeus da birthright, Judeus solteiros, Judeus casados, Judeus quem me dera ser casado,
Judeus Esverdeados, Judeus Avermelhados, Judeus Escandinavos,
Judeus South of the Border, Judeus Italianos, Judeus nas notícias,
Judeus carecas, Judeus cabeludos,
Canadianos, Latinos, Ladinos,
Judeus em kapatas, em T-shirts,
Judeus em sandálias, em sapatilhas, em botas de montar,
Judeus Húngaros, Judeus Checos, Judeus na fronteira Húngaro-Checa,
Judeus Ashkenazitas, Sefarditas e Iemenitas, Judeus Afrikaner, Judeus Romenos,
Sionistas, não-Sionistas, anti-Sionistas, pós-Sionistas,
Judeus com sotaque, Judeus que falam um perfeito Hebraico Inglês do Midwest, Judeus Nativos Americanos,
Judeus Anglo-saxões, Judeus Britânicos, Judeus Escoceses, Judeus Galeses, Judeus Irlandeses,
Bons Judeus, Maus Judeus, Judeus feios, Judeus Hip-hop, Judeus curtidos,
Judeus fumadores, Judeus não-fumadores,
Judeus golfistas, Judeus cantores, Judeus Franceses, Judeus Alemães,
Judeus Gregos, Judeus Indianos, Judeus Chineses, Judeus JWannabee,
Judeus de Teorias da Conspiração, Judeus Japoneses, Judeus Shayna Panim, Judeus Meesekite, Judeus no armário,
Shnorrers, Baalei Tzedaka, Tzadikim, Baynonim, Rashaim,
Judeus Chacham-Tam-Ayni Yodea, kvetching e Guta Neshama,Vizhnitzer, Ger, Gerer, Chabadnik, Kohenim, Levi'im, Yisraelim,
Judeus Machers, Mavens & Pashet...

Todos os tipos de Judeus neste vasto Universo: Que nos unamos todos - sem brigas! – e juntos acendamos a grande luz de D-us. Que tenhamos um doce e abençoado ano, juntos e em verdadeira paz.

Shana Tova Umtuka! Paz em Israel

Nota: Isto é a tradução de um texto originalmente em inglês. Se alguém não entendeu alguma das denominações, não há problema. Para mim, em grande parte, isto também é muito confuso. :)

publicado por Boaz às 14:55
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Domingo, 25 de Setembro de 2005

O princípio da incerteza

As malas estão feitas. Os adeus ditos e as boas-sortes desejadas. Estou prestes a sair de casa para algo de que apenas conheço alguns contornos. Somente os essenciais. No final da viagem haverá alguém para me receber. Não no aeroporto, um ou dois autocarros depois.

Terei um sítio para ficar nos próximos meses. Nem sei ao certo quantos. Um sítio que terei de partilhar com mais duas pessoas. Que eu não conheço de todo. Sei que irei (terei de) trabalhar para pagar a renda da casa. Não faço ideia do que irei fazer.

O bilhete de regresso tem data, mas não é definitiva. Só dentro de algum tempo terei uma ideia da altura em que voltarei a casa.

Levo roupa a fazer conta com o frio do Inverno e o calor do final do Verão. Na orla do deserto há um pouco de verde. Nem que seja a metade verde da bandeira que levo para afirmar as origens.

Aos que ficam, um abraço enorme. Dentro de dias baterei de novo à vossa porta...

PS - Ah, esqueci-me de dizer que vou para Israel (where else?!). Para alguns quilómetros a sudoeste de Jerusalém.

publicado por Boaz às 19:16
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