Domingo, 25 de Maio de 2014

Pontes e muros entre Roma e Jerusalém

Fiéis judeus ortodoxos passam por um grupo de cristãos que percorrem a Via Dolorosa, Cidade Velha de Jerusalém.
Foto de Micha Bar-Am.

Aos Cristãos e aos Judeus não faltam graves problemas internos. Alguns deles comuns. Assimilação e degradação de costumes. Afastamento e desinteresse das gerações mais jovens. Casos de pedofilia cometidos por membros do clero. Nenhuma religião tem o exclusivo da virtude. Menos ainda, exclusivo do pecado.

Do lado católico, a bomba dos escândalos de pedofilia rebentou na última década. Do lado judaico, o fenómeno do abuso sexual de menores só agora começa a aparecer nos media. O iceberg da pedofilia em escolas e comunidades judaicas mostrou até agora uma ponta muito pequena. Nos Estados Unidos, Austrália e outros países, alimentado pela onda de escândalos na Igreja Católica, o problema da pedofilia nas comunidades judaicas tem sido discutido. Em Israel, pelo contrário, mal se fala do assunto. Porém, quase todos os meses, descobre-se mais um episódio macabro. Debaixo da superfície, o monstro está vivo e, tal como acontecera no caso católico, é abafado por quem deveria travá-lo.

É óbvio que nenhum destes graves problemas internos é causado pelo outro lado. Mesmo que, há alguns meses, um importante cardeal católico tenha acusado os Judeus e o seu alegado “controlo dos media” de serem os responsáveis pelo escândalo de pedofilia que tem abalado o Catolicismo. Momentos de delírio deste género, de quem quer atirar responsabilidades para o quintal do vizinho acontecem também do nosso lado. Do alto das manias de perseguição que existem de parte a parte, parecemos acreditar que o outro lado só pensa em destruir-nos. Aumentar as divisões que existem antes ambos não resolverá nenhuma das polémicas mútuas. E muito menos os problemas internos.

Será dispensável dizer que a Igreja Católica e o papado não têm uma boa imagem entre os Judeus. Os casos de perseguição e violência contra judeus a mando dos Papas (ou outros com maior ou menor concordância papal) foram numerosos desde que o Catolicismo se estabeleceu como a religião maioritária e dominante na Europa. Todavia, a bem da sinceridade na análise histórica, a situação atual das relações judaico-católicas não podia ser mais distinta daquela que caracterizou os últimos séculos. Como mencionou o Presidente de Israel, Shimon Peres, acuando da eleição do novo Papa Francisco, as relações com o Vaticano nunca estiveram tão boas.

Bons sinais

As grandes mudanças começaram com o Concílio Vaticano II, nos anos 60. Logo em 1964, Paulo VI visitou Israel na sua primeira visita papal. (Uma parte da visita do Papa Francisco, que hoje chega a Israel, é para celebrar o 50º aniversário dessa histórica viagem.) Numa rápida estadia de apenas 11 horas na Terra Santa, visitou vários locais sagrados da Cristandade e encontrou-se pela primeira vez com o patriarca ortodoxo Atenágoras I, num sinal de aproximação entre Roma e Constantinopla, há quase 1000 anos de costas voltadas.

Ainda que na altura a Santa Sé e o Estado Hebraico não tivessem ainda estabelecido relações diplomáticas (apenas o seriam 30 anos depois, em 1994) e a visita tivesse sido conduzida como se Israel não fosse um país independente, o papa encontrou-se com o presidente israelita Zalman Shazar.

Foi um encontro de apenas 20 minutos num remoto posto da fronteira entre Israel e a então Margem Ocidental, ocupada pela Jordânia. Dois papados mais tarde, João Paulo II destacou-se por vários atos simbólicos de aproximação: o estabelecimento de relações diplomáticas com Israel, a visita a Auschwitz, o pedido de desculpas pela Inquisição e outras perseguições anti-judaicas. E acima de tudo a histórica visita a Israel, no ano 2000. Bento XVI voltou a repetir os atos simbólicos desde a sua visita à Alemanha e à sinagoga de Colónia. E o Papa Francisco é reconhecido pela sua excelente relação com os Judeus, já desde os anos em que era arcebispo de Buenos Aires.

Ainda assim, alguns episódios pontuais tenham azedado as relações com Israel e a comunidade judaica. Por exemplo, os planos (nunca concretizados) de canonização dos Reis Católicos, Fernando e Isabel, os quais introduziram a Inquisição em Espanha e ordenaram a Expulsão dos Judeus em 1492. E mais recentemente, já no papado de Bento XVI, o controverso processo de reabilitação do rebelde bispo Richard Williamson, conhecido pelas suas declarações anti-semitas e negação do Holocausto. (*ver nota no final) E também, o apoio declarado do Vaticano à causa palestiniana.

Do lado judaico, o diálogo ecuménico com o Cristianismo tem sido liderado pela corrente Reformista. Os “valores humanistas e universalistas” expressos pelo Judaísmo Reformista atendem antes de mais ao valor supremo do “espírito da modernidade”. Entre os Ortodoxos, as coisas são (um pouco) mais complicadas. Ainda mais em Israel. Na Diáspora, os Judeus, mesmo os ortodoxos, têm um contacto mais ou menos próximo com os não-judeus. Em especial com os Cristãos. Conhecem, por contacto cultural com a sociedade em geral, um pouco da cultura cristã. Pelo contrário, em Israel o contacto entre as diferentes religiões é superficial. E até mal visto. Os preconceitos e a ignorância mútuos são profundos.

Manifestações de desprezo

Se bem que sejam inegáveis as feridas abertas no Povo Judeu pela História, em muitos casos não é promovida uma atitude de reconciliação, mas de constante ênfase nessas feridas. Apesar de inúmeras fontes distintas, muitas delas expressando posições contraditórias entre si, a maioria do pensamento judaico não tem uma boa definição do “não-judeu”. As principais fontes legais judaicas foram escritas em períodos de intensa perseguição anti-judaica. A Mishná, durante a ocupação romana da Terra de Israel. O Talmude, nos primeiros três séculos da era comum, após a trágica destruição do Templo de Jerusalém. O Mishnê Torá de Maimónides, no meio das guerras de cristãos contra mouros da Reconquista. O Shulchan Aruch de Yosef Caro, durante a Inquisição Espanhola... Porém, apesar de não ser possível apagar a História, também não podemos olhar para o mundo como se nada tivesse mudado desde os anos de perseguição romana em que o Talmude foi escrito.

Ainda assim, em muitas yeshivot (academias de estudos judaicos) e em panfletos semanais distribuídos em sinagogas, sempre que o assunto envolve o Cristianismo, os tradicionais preconceitos anti-cristãos são expressos abertamente. Nos media israelitas que eu consumo (a maioria deles são em língua inglesa) frequentemente incluem notícias sobre a relação com os cristãos. Sejam casos passados em Israel ou na Diáspora. Em geral, em qualquer artigo que envolva – mesmo remotamente –, o Cristianismo, levanta-se uma onda de comentários dos leitores que demonstram até onde falta avançarmos no diálogo inter-religioso e na educação para a tolerância. Aliás, do de um comparável nível de intolerância manifestado por leitores “gentios” quando as notícias falam de Israel ou os Judeus.

O mesmo se passa com muitas páginas pró-Israel no Facebook. Em todas essas páginas abundam os “Amigos” cristãos, em geral evangélicos. Até aí, nenhuma objeção. Afinal, entre os gentios, eles são os mais entusiastas ativistas pró-Israel. Todavia, sem qualquer controle, como se fosse uma praga incontrolável, junto com as suas mensagens de apoio a Israel e ao Povo Judeu, costumam introduzir os habituais mantras evangélicos, espalhando a sua mensagem de apelo aos Judeus para aceitarem “a salvação”. Ou seja, Jesus. “Amigos”, mas com uma agenda pouco amistosa.

Da mesma forma que não aceito a difamação do Judaísmo e dos Judeus pelos Cristãos, também não aceito a difamação do Cristianismo feita por Judeus. No caso do Facebook, não foram poucas as páginas pró-Israel que deixei de acompanhar (ou seja, deixe de ser “Amigo”) por achar inaceitáveis as mensagens que aí eram propagadas pelos comentadores, com total conivência dos administradores da página. O discurso de ódio e desrespeito, levado a cabo por alguns fanáticos (de ambos os lados), está bem presente na maior rede social do planeta.

Em inúmeras ocasiões, encontrei-me na muito irónica posição de “defensor da honra cristã”. Logo eu! Ainda que eu próprio tenha a minha própria lista de oposições ao Cristianismo – se assim não fosse, não o teria abandonado – elas não implicam uma atitude de difamação ou até desprezo.

Faltam muitos passos a serem dados, de ambos os lados para que hoje, e no futuro, as relações entre os Judeus e os Cristãos, sejam amistosas. Sobretudo, falta educação. Só ela poderá ultrapassar preconceitos, ajudar a sarar feridas ainda abertas e instaurar o respeito mútuo. Que assim seja, Bezrat Hashem.

* Oficiais do Vaticano declararam que, antes da decisão de reabilitação do bispo Richard Williamson, desconheciam as polémicas opiniões do bispo. O Papa Bento XVI criticou o bispo por suas opiniões anti-semitas e ordenou que ele se retratasse publicamente da negação do Holocausto, sem o qual, não poderia exercer quaisquer funções episcopais dentro da Igreja. Há que realçar que a decisão de reabilitação do bispo Williamson foi uma questão interna católica a fim de integrar o grupo dissidente a que pertence, um pequeno cisma católico tradicional que não aceita as mudanças do Concílio Vaticano II.

publicado por Boaz às 10:00
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Sexta-feira, 15 de Março de 2013

Habemus "chaver" no Vaticano

Março de 2013, Papa Francisco na capa da revista Time.

Dezembro de 2012, o arcebispo Bergoglio acende uma vela de Chanucá numa sinagoga de Buenos Aires.

Com a eleição do novo Papa, é possível pensar na questão do ecumenismo e o diálogo entre Católicos e Judeus. Várias autoridades judaicas felicitaram o escolhido no conclave de 13 de Março. O entusiasmo pela escolha dos cardeais é visível nos círculos judaicos. A começar pelo presidente da República de Israel, Shimon Peres, que convidou o Papa Francisco a visitar Israel o mais breve possível. Ressalvou que as relações do Vaticano com a comunidade judaica estão agora “no melhor nível dos últimos 2000 anos”.

O Rabinato-Chefe de Israel declarou-se satisfeito com a escolha do novo líder da Igreja Católica, expressando os desejos que com o “Papa Francisco, cujas boas relações com o Povo Judeu são bem conhecidas, manterá o mesmo espírito e fortalecer e desenvolver as ligações da Igreja Católica com o Estado de Israel e o Povo Judeu”.

Jorge Mario Bergoglio, até agora Arcebispo de Buenos Aires tem sido uma figura ativa no ecumenismo na América Latina e notado pela relação amistosa com a comunidade judaica, a maior do continente sul-americano. Em Novembro passado, Bergoglio acolheu na catedral de Buenos Aires uma cerimónia evocativa da Kristallnacht, a Noite de Cristal. E em Dezembro, durante a celebração judaica de Chanuká, foi convidado para acender a quinta vela do candelabro numa sinagoga de Buenos Aires.

O Rabino David Rosen, diretor dos assuntos inter-religiosos do Comité Judaico Americano e que tem desempenhado a função de interlocutor do Rabinato-Chefe de Israel para as relações com o Cristianismo, relevou que “o Povo Judeu não poderia ter pedido uma escolha melhor em termos de relações Judaico-Católicas. Nenhum papa antes tinha sido um cardeal com tão próximas relações com uma comunidade judaica”.

Há menos de dois anos, participei numa palestra apresentada pelo tal Rabino David Rosen. Ele destruiu alguns mitos das relações judaico-cristãs. Os quais, de uma perspectiva judaica parecem piores do que são... Na ocasião, questionei-o sobre uma notícia recente que lera num influente diário israelita sobre uma reunião de bispos católicos do Médio Oriente. Na notícia, constava que uma das conclusões dessa reunião fora uma acusação contra Israel pela alegada perseguição aos cristãos (o que seria uma enorme injúria, uma vez que Israel é o único país da região onde existe plena liberdade de culto e onde a comunidade cristã tem crescido). O Rabino veementemente condenou o conteúdo da notícia, negando que essa declaração tenha existido nesses termos.

Ó, a nossa tendência de pintar de negro a nossa própria realidade. Como alguém disse, quando o judeu se esquece que é judeu, o anti-semita faz o favor de o lembrar. Em boa medida, nós parecemos alimentar a nossa identidade judaica à custa do anti-semitismo. (Ou não fosse o anti-semitismo em geral, e o Holocausto em particular, um pilar da atual identidade e mentalidade judaica. Mas isso é um assunto que merecia um artigo à parte).

As coisas parecem ser melhores entre Judeus e Cristãos do que nos parece. E ainda bem. Mas, porque será que apenas parece? Porque, apesar de haver um diálogo ecuménico permanente entre as autoridades religiosas judaicas e o Vaticano, essa boa relação não é ensinada aos leigos, ao povo de cada um dos lados? Muitos católicos mantêm opiniões anti-semitas. E muitos judeus continuam a perpetuar a histórica inimizade entre as duas religiões. Haverá alguma vergonha em destruir pela raiz os mitos e ódios mútuos que foram alimentados durante séculos?

Nota: Para os menos literados na língua hebraica, chaver significa amigo. Esperamos realmente que "Assim seja".

publicado por Boaz às 10:05
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Sábado, 1 de Janeiro de 2011

Este não é o meu Deus

Mesmo depois de revelar a minha intenção de conversão ao Judaísmo aos meus amigos católicos, continuei a frequentar com fiel assiduidade o Grupo de Jovens da paróquia local, ao qual já pertencia há alguns anos. Por duas razões: todos os meus principais amigos eram também membros do grupo e os valores aí professados eram mais de natureza ética do que puramente religiosa. Ainda que aos poucos me fui abstendo de participar em certas atividades que estavam para lá da minha "linha vermelha" e eram inconciliáveis com a minha opção. A exclusão mais evidente foi cantar na igreja, mesmo que por uma questão diplomática, tenha aberto excepções pontuais por ocasião de casamentos de amigos. Também continuei a participar no Jantar de Natal, uma das raras ocasiões anuais em que o Grupo se encontrava completo.

Este ano, como em todos os Dezembros, os membros do Grupo (entretanto extinto, mas cujos ex-membros mantêm um contacto mais ou menos próximo) combinaram reunir-se uma vez mais para o encontro natalício. Na troca de e-mails para decidir os detalhes do encontro, surgiram várias opiniões distintas. Ao longe, decidi também intervir numa disputa que se levantava entre dois amigos. Numa tentativa de serenar os ânimos, alguém sublinhou que o grupo era composto de pessoas com opiniões diferentes. E, sem qualquer relação com a discussão, realçou que "seguir Jesus" fora a essência dos ensinamentos do Grupo. Na mesma frase, foi destacado que eu fora o único a sair do caminho de forma evidente.


Igreja e Sinagoga, esculturas na fachada da catedral de Estrasburgo, França.
À direita: 'Igreja', um rei segurando o cálice do sangue do Redentor.
À esquerda: 'Sinagoga', uma mulher vendada, de bastão partido e as Tábuas da Lei ao contrário.

Ainda que tenha dado toda a razão à declaração, decidi dar uma explicação: sim, eu havia deixado de "seguir Jesus", mas que o havia seguido durante bastante tempo durante a minha vida. Afinal, fizera a mesma catequese que todos os outros membros do Grupo. Realcei que não vivera o Cristianismo de forma superficial, e que também não fora de forma superficial que tomara a decisão de abandonar o Cristianismo e aderir ao Judaísmo. A minha declaração levantou uma onda de e-mails de conteúdo teológico e uma certa "militância cristã" como nunca me havia deparado desde a minha separação do Cristianismo. Senti-me a ser alvo de uma tentativa de re-evangelização.

Perante a minha afirmação de "apostasia consciente" recebi uma apaixonada descrição de Jesus como salvador e redentor, afirmando a universalidade da mensagem cristã. Nada de novo: toda aquela descrição condensava os meus anos de catequese e de vivência cristã ativa. O autor da mensagem parecia sugerir uma dúvida na seriedade da minha decisão, perguntando se eu havia dedicado à “busca de Jesus” o mesmo empenho que dedicara ao meu processo de conversão. Expliquei que, mesmo antes da decisão de conversão, existem imensas questões e mudanças não apenas na prática, mas sobretudo em termos de concepção do divino e da sua relação com o mundo. A esta altura percebi – e assim declarei – que obviamente aquela discussão não levaria a lugar algum. Nem eu, um judeu consciente, nem eles, cristãos convictos, iríamos mudar de opinião.

Porém, parece que do outro lado, essa constatação não foi entendida. Antes pelo contrário. E em resposta recebi uma citação da Epístola de Paulo aos Coríntios: “(…)E não fazemos como Moisés, que punha um véu sobre o seu rosto para que os filhos de Israel não vissem o fim do que era transitório. Mas o entendimento deles foi obscurecido, e ainda hoje, quando lêem o Antigo Testamento, esse mesmo véu continua a não ser removido, pois é só em Cristo que deve ser levantado. Sim, até hoje, todas as vezes que lêem Moisés, um véu cobre-lhes o coração. Mas, quando se converterem ao Senhor, o véu será tirado. (…)”

Na comparação evidente do Judaísmo com o Cristianismo, entre a riqueza das metáforas desta "Glória da Nova Aliança", encontram-se temas usados em todas as eras pelos teólogos cristãos, na afirmação da nova e radiante fé cristã em contraste com a velha e obsoleta fé judaica. A cegueira judaica que se recusa a ver e aceitar a luz, a ideia da exclusividade na salvação pela via cristã e a desonra dos descrentes. Tive a sensação de estar perante um exaltado pregador medieval, de crucifixo em punho, a tentar convencer os incrédulos, os desgraçados que se recusam a receber "a Glória".

Uma das perguntas clássicas que surgem quando falo acerca da minha conversão ao Judaísmo é: "mas como foi a reação das pessoas à tua decisão?". A curiosidade refere-se em especial à minha família, mas também aos amigos e companheiros cristãos. Ao revelar que nunca recebi qualquer tipo de oposição ou descriminação por parte dos amigos, os ouvintes mostram-se totalmente incrédulos. Cristalizada em muitas mentes judaicas está a ideia que os Cristãos perseguem, oprimem e odeiam os Judeus. Afinal, "Esaú odeia Jacob" ou em outras palavras "Roma odeia Israel". Sob esta ideia, seria inconcebível que um membro abandonasse tranquilamente o "rebanho", sem qualquer reação negativa dos crentes.

Na macabra contabilidade das centenas de milhões de sacrificados no altar das ideologias (sejam religiosas ou seculares), o Cristianismo detém um lugar de destaque. Cruzadas, Inquisições, Expulsões e perseguições implacáveis, conversões forçadas e guerras religiosas. No caso extremo da Shoá (o Holocausto), a atitude cristã, para lá de corajosas exceções, variou entre o silêncio cúmplice e a participação ativa. Estas são algumas das imagens que os cristãos deixaram na História nos últimos dois milénios e são aquelas que ficaram gravadas mais fundo entre os Judeus. É injusto generalizar, mas não é possível negar que o Catolicismo tem um sério “problema de imagem”. E não apenas entre os Judeus.

Na discussão com os meus amigos católicos acerca da minha conversão, evitei todavia referir a questão da tolerância e da aceitação da diferença por parte dos cristãos. Ainda que lemas catequéticos cristãos como "Deus é amor" e princípios éticos como "dar a outra face" tenham sido espezinhados inúmeras vezes ao longo da História, não foi por um conflito ético em aceitar o evidente fosso entre a mensagem apregoada pela Igreja e o comportamento de muitos dos seus líderes e seguidores que me levou a distanciar e por fim abandonar completamente o Catolicismo. Se a razão da minha mudança de religião fosse um desfasamento entre a doutrina e a prática dos fiéis católicos, eu poderia simplesmente ter aderido a uma outra corrente do Cristianismo. Ou até, passar a ser apenas mais um cristão "sem denominação", mantendo a crença em Jesus mas não em qualquer igreja ou religião organizada. Não foi esse o caso.

Ainda que nos últimos 2000 anos o Cristianismo tivesse – ao menos entre os seus próprios aderentes – instaurado a paz, o problema mantinha-se. A minha divergência era com o cerne da crença cristã de que Jesus não só é o Messias, o Salvador, como é o próprio Deus. "Verdadeiro Deus e verdadeiro homem", como foi declarado na referida troca de mensagens. E, apesar da enorme variedade das igrejas e seitas cristãs, esta crença é comum a todas as correntes do Cristianismo.

Reconheço como a crença em Jesus pode ser satisfatória para muita gente, reconfortante até. Tendo sido uma pessoa, com as suas dores, dúvidas e tentações, é extremamente fácil identificar-se com ele. Falando contra a corrupção das elites do seu tempo, proclamando a superioridade da justiça em relação aos rituais, a sua doutrina ética poderia ser apreciada até pelo pacifista ateu mais obstinado. (Aliás, a crítica de Jesus à corrupção e hipocrisia da liderança política e religiosa do seu tempo tampouco é original. Esta acusação foi proferida com veemência por vários profetas das Escrituras Judaicas.)

É muito mais difícil a identificação com uma divindade cuja essência é puramente espiritual e sem qualquer paralelo com algo que exista na natureza. Usando as palavras de Moshe Luzzatto no primeiro capítulo de "O Caminho de Deus", um Deus "cuja verdadeira natureza não pode ser entendida de qualquer forma por ninguém além Dele mesmo. A única coisa que sabemos sobre Ele é que a Sua existência é perfeita em todas as formas possíveis e não existe Nele qualquer deficiência".

Ou, como descreveu o Rabino Joseph Soloveitchik em "O Solitário Homem de Fé": “Deus, como o soberano cósmico, é contemplado na sua infinita majestade reinando supremo sobre a Criação, a Sua vontade cristalizada na lei natural, a Sua palavra determinando os padrões de comportamento da natureza. Ele está em todo o lado, mas ao mesmo tempo, acima e fora de tudo”. O Criador do Universo atua por detrás do "curso natural das coisas" e a Sua Presença acompanha os homens. Mas não é um deles.

A natureza humana de Jesus, em si mesma contradiz a existência da perfeição absoluta da essência de Deus. A natureza humana, por mais elevado que seja o nível que atinja, será sempre limitada, dependente, corruptível. No fundo, não existe nela a perfeição absoluta. Deus é único, indivisível, perfeito e independente de qualquer outra existência. E por isso, não pode ser reduzido a uma existência (mesmo que paralela, se atendermos à crença de duas dimensões da Trindade: o Pai e o Filho) dentro de um corpo humano.

Durante os meus anos de busca espiritual esforcei-me por entender o mistério da dualidade humana e divina de Jesus, assim como o conceito de Salvação defendido pelo Cristianismo. A morte de Jesus – ou seja, a morte do próprio Deus – servindo de perdão definitivo aos pecados de todos os homens. E apenas ela salva. Naquela época, entre as ruínas do meu edifício espiritual, apenas uma crença se manteve inabalável e a salvo do desmoronamento: a crença na existência de Deus.

Alguém que leia estas linhas poderá até considerar-me profundamente enganado em relação às verdades do Cristianismo. Alguém que faça as mesmas perguntas que eu fiz poderá, pelo seu próprio estudo e reflexão, encontrar respostas distintas que o satisfaçam. Poderá até emergir das respostas com uma fé cristã ainda mais fortalecida. Não ponho isso em causa. No entanto, creio que a maioria dos crentes – aliás, de qualquer religião – na verdade nunca se perguntaram a fundo sobre aquilo em que acreditam. Vivem (quando vivem) a sua religião pela força da inércia. A fé não tem de ser racionalmente lógica e, num tempo em que praticamente tudo pode ser explicado pelas teorias científicas, só o ato de acreditar já é um ato de coragem. Mas cada um, se leva a sério a sua fé e a assume de forma consciente, tem de conseguir conciliar os aparentes contrários.

Na altura da revelação da minha intenção de conversão ao Judaísmo aos meus amigos do Grupo de Jovens não revelei os porquês da decisão. Reconheço a delicadeza do tema. Reconheço como a fé em Jesus pode ser algo central na vida daqueles que acreditam nele. Estando num grupo de jovens católico, tive o cuidado de escolher apenas os membros com um Cristianismo mais amadurecido para saberem do meu abandono da fé cristã. Excluí os membros mais novos, há pouco tempo no caminho. Podia simplesmente abandonar o grupo e percorrer sozinho a minha jornada, sem dar satisfações aos meus amigos cristãos. Contudo, por serem amigos, achei importante partilhar a minha mudança com eles. Não me arrependo de o ter feito.

Por fim, afirmo que não existe possibilidade de diálogo teológico entre o Judaísmo e o Cristianismo. O diálogo é apenas possível como forma de trabalhar em conjunto para resolver problemas da Humanidade, em particular nas trágicas relações históricas entre Cristãos e Judeus. A barreira teológica entre ambas as religiões é absolutamente intransponível. Enquanto para os Cristãos, cuja religião se fundamenta na crença de Jesus como o Salvador, o cumpridor das profecias messiânicas judaicas e a própria divindade; para o Judaísmo, as profecias messiânicas ainda não foram cumpridas. Ainda que se fale tanto em "cultura judaico-cristã", o Cristianismo e o Judaísmo possuem na verdade, duas concepções antagónicas do divino.

Nunca me escusei às perguntas dos amigos, quando elas surgiam. A minha conversão foi uma decisão pessoal e eu não tinha a intenção de levar ninguém atrás de mim. Por isso sempre mantive o assunto na maior discrição. Ninguém me verá a pregar na praça ou a bater às portas, armado com a Bíblia Hebraica, tentando convencer os outros a aceitar a verdade judaica. Não é esse o caminho do Judaísmo.

Não espero a compreensão dos cristãos – nem sequer dos meus amigos – pela minha mudança de crença. Menos ainda a sua aprovação. Não peço nem uma nem outra. Só não aceito que ponham em causa a minha seriedade na forma como vivi o Cristianismo e de como o abandonei.

publicado por Boaz às 23:00
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Sábado, 27 de Novembro de 2010

A Igreja e a borrachinha

Depois de anos a lutar contra a maré, as críticas, as manifestações de repúdio, os cartoons ofensivos – acrescentaria ainda a modernidade libertina e os esquerdistas anti-tudo-o-que-cheirar-a-velho –, o Papa resolveu dar o braço a torcer e permitir o uso do preservativo (camisinha, em português do Brasil). Porém, a permissão é apenas "em certos casos", para reduzir o risco de contaminação por HIV, o vírus da Sida (ou Aids). "Finalmente". "Um passo no bom caminho". "Já vem tarde", etc. Este é o tipo de reações ao volte-face papal. Numa instituição atacada por todos os lados, nada do que possa fazer, chega para melhorar os estragos já feitos.


Preservativo Papal, o polémico cartoon de António, 1993 | Bordel em Nairobi, Quénia.
O presidente sul-africano Jacob Zuma, com as três atuais esposas. Em Dezembro casará com a quarta.
Tem pelo menos 23 filhos de 11 mulheres diferentes. No país com maior número de seropositivos do planeta, o presidente além de polígamo é também famoso por ser promíscuo. Um exemplo para a nação.

Virou moda atacar o Cristianismo. Não há que negar os abusos. A pedofilia entre os sacerdotes católicos e respetivo encobrimento pela liderança da Igreja são factos graves. Porém, se alguém pensava o contrário, membros do clero pedófilos (e encobrimento dos casos pelas altas esferas da hierarquia) também existem no Islão, no Protestantismo, no Judaísmo ou no Hinduísmo. E poucos saberão o que se passa com os jovens monges nos recônditos mosteiros budistas. Experimente googlar sobre o tema – foi o que eu fiz – e saberá que, por detrás da reclusão e da modéstia monástica oriental, também há predadores da inocência infantil. Não é só na sombra da cruz que se escondem os depravados.

Abuso de poder do clero. Mas não existem pastores, imãs, rabinos, gurus e lamas que se aproveitam da sua posição para enriquecimento ilícito? E relações demasiados próximas entre o poder clerical e temporal em todos os países onde uma religião – seja ela qual for – seja a maioria, o que leva tantas vezes à corrupção daqueles que se acham e dizem incorruptíveis? Obviamente que o facto de haver outros que também pecam não desculpa os pecados de ninguém. Talvez os torne mais relativos. Menos exclusivos. Este rol de crimes, abusos, pecados e pecadilhos é em muitos casos público, criticado e condenado. E obviamente, condenável.

De toda a má fama que a Igreja ganhou com tantos escândalos, tornou-se alvo de todas as acusações. A cada discussão sobre o uso do preservativo e a SIDA, os dedos acusadores viram-se para o Vaticano. Uma das acusações é culpar o Vaticano/a Igreja Católica pela propagação da Sida, por via da proibição católica do uso do preservativo. Em primeiro lugar, este tipo de acusação é absurdamente cínico. À laia dos medievais (e em alguns casos ainda atuais) libelos de sangue anti-judaicos, este é nada menos que um libelo. Libelo de esperma, digamos. É certo que a Igreja é contra o uso das borrachinhas, mas apenas os católicos são supostos cumprir os decretos vaticanos. Usemos um pouco a lógica. Apenas os católicos são infetados com Sida? E se, caso exista algum não-católico infetado, a quem devem atirar-se então as culpas? Se não à Igreja, então a quem?

É pura desonestidade intelectual acusar a Igreja de responsabilidade na propagação da Sida. Em termos de comportamento sexual, a doutrina oficial católica – a qual aliás, coincide com a posição da Lei Judaica – é bastante clara: proibição do uso do preservativo e do sexo antes do casamento e a obrigação da fidelidade conjugal. Na África Subsariana – onde vivem 70% dos infetados com a doença a nível mundial – a promiscuidade sexual, a poligamia e o recurso à prostituição são práticas correntes. Máximas da moral católica como a abstinência sexual pré-matrimónio e a fidelidade depois dele são antagónicas com a profundamente machista cultura africana. Sejamos honestos, estas são as razões para a alarmante propagação da epidemia em África (e não só). E não qualquer norma anti-preservativo saída da Cúria Romana.

E não é apenas em África que o "ideal do macho-alfa africano" adoece, morre, contagia e mata com Sida. Nos EUA, os Afro-Americanos somam 47% do total da população seropositiva (infetada com o vírus HIV) e, mesmo após várias décadas de campanhas de prevenção da doença, são mais de metade dos novos casos de contágio da doença, apesar de os Afro-Americanos totalizarem apenas 12% da população do país. Entre as mulheres afro-americanas as estatísticas mostram que elas têm 19 vezes mais hipóteses de sofrerem da doença do que as mulheres americanas brancas. Dezanove vezes! Porém, é racismo fazer estas correlações. (Tal como é homofobia referir que a maioria dos infetados nos EUA são homossexuais, incluindo metade dos novos casos reportados anualmente.) Isto não quer dizer, obviamente, que a homossexualidade ou o ser africano implica automaticamente contágio com Sida. Somente que, alguns comportamentos prevalentes nestes grupos – mas não exclusivamente neles – podem explicar os maiores níveis de incidência da doença.

O Uganda foi, nas décadas de 1980 e 1990 o país com maior prevalência da epidemia. Hoje é tido como o único caso de sucesso de controlo da doença em África, sendo o único país africano a conseguir reduzir a sua taxa de infeção por HIV. É verdade que campanhas de informação sobre o uso do preservativo tiveram os seus resultados no estancar da doença. Porém, mesmo contrariando a cultura local prevalente, houve também uma promoção da abstinência sexual antes do casamento e da fidelidade. Tal como tem sido a doutrina católica neste assunto. E assim continua a ser, apesar da nova permissão – em certos casos – do uso da camisinha.

Contudo, num mundo em que "É proibido proibir" é um dos lemas vigentes; o auto-controle é sinónimo de fraqueza; a virgindade, a fidelidade e o casamento estão ultrapassados e uma pessoa moderna é aquela que experimenta de tudo, colocar travões nas vontades é digno de condenação. Daí a impopularidade da posição tradicional do Catolicismo nesta questão. Podem elogiar quanto quiserem o uso da camisinha na diminuição do risco de infeção de Sida ou outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas sem uma educação do compromisso e da responsabilidade pessoal e sexual, não virá da borracha a salvação.

publicado por Boaz às 22:05
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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Segredo da confissão

Nos meus tempos de católico, um dos momentos mais difíceis da minha prática religiosa era a ida à confissão. A primeira vez que passei por esse ritual foi nas vésperas da "Primeira Comunhão", por volta dos 7 anos. Como o nome indica, era a primeira vez que iria "comungar", por isso, a lei mandava que deveria estar "livre de pecado". Lembro-me de ter ido em grupo, com todos os meus colegas de catequese. Nas semanas anteriores, uma parte das dominicais aulas de catequese foi dedicada à preparação de tal momento, em especial sobre o que dizer quando chegasse a hora de me ajoelhar ou sentar em frente do sacerdote.


Pequei... douh!

Começava com uma breve declaração de arrependimento: o "acto de contrição". Se não soubesse dizê-la de memória, o padre até ajudava. Menos mal. Seguia-se uma revelação dos pecados que vinha confessar. Era a parte mais complicada. "Não obedeci aos meus pais. Briguei com a minha irmã e não lhe emprestei os meus brinquedos..." Que grandes pecados se têm aos 7 anos. Ainda assim, era difícil ter de discorrer a lista de máculas perante um desconhecido. (E não acho que seria mais fácil se a confissão fosse feita a um conhecido). Depois de tal prova, o padre mandava rezar um certo número de "pais-nossos" e "avé-Marias". Podia rezá-los logo ali, na igreja. Assim, já liberto da obrigação do ritual, voltava para casa com algum descanso. No dia seguinte, poderia comungar pela primeira vez, sem culpa.

Este ritual repetiu-se algumas vezes, sobretudo na altura dos feriados religiosos católicos, como a Páscoa ou o Natal. No resto do ano, ainda que fosse semanalmente à missa, eram raras as vezes em que comungava. Porém, assim que fazia algo que eu achasse que devia ser confessado, deixava de comungar. Nos meus anos de católico comprometido, conhecedor da importância da comunhão, mantive a coerência de não "tomar o corpo de Cristo" sem cumprir as regras prescritas. As reticências face ao ritual da confissão faziam adiar a ida ao confessionário. Nem era por não confiar no segredo da confissão que o padre jurara, pois ainda hoje vejo-o como um "segredo profissional" como outro qualquer. O problema era o acto de confissão em si e a forma de penitência. Demasiado forçado o primeiro, demasiado automática, a segunda.

Não via como revelar os meus erros a uma pessoa que não tinha nada a ver com eles, me poderia ajudar a ultrapassá-los. A conta de "pais-nossos" e "avé Marias" também me parecia pouco convincente. Durante os meus anos de católico praticante, ouvi várias explicações do significado e da função da confissão. A mim, nenhuma delas me convenceu. Aceito que algumas – muitas – pessoas as tomem como válidas e sintam naquela forma de confissão uma forma de restabelecimento espiritual.

No Judaísmo também existe confissão. Ela é, porém, individual e privada. Não existem intermediários na oração ou na salvação. Diariamente, nas orações matinais, uma das partes do serviço é o vidui (confissão em hebraico). De pé, com solenidade, em voz baixa, cada um lê do livro de rezas uma lista de transgressões. Só Deus e cada um saberão quais delas se aplicam a si mesmo. Cada uma das transgressões é enunciada na primeira pessoa do plural. "Fomos culpados, atraiçoámos, roubámos, falámos calúnias..." Cada judeu é responsável por si mesmo e, ao mesmo tempo por todo o Povo de Israel.

No calendário hebraico, esta altura do ano é o período especial da reconciliação e da introspeção. Estamos entre Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico que se celebra em festa durante dois dias, e Yom Kippur, o grande Dia do Perdão, um dia de jejum absoluto. Cada um deve procurar emendar as suas falhas, mesmo as aparentemente insignificantes. Deus é a única testemunha da confissão particular, só Ele sabe os sentimentos de culpa – e de que culpa – que passam pelo coração daquele que se confessa. Em silêncio.

publicado por Boaz às 23:03
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Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

O visitante


Cúpula do Rochedo e uma cruz. Foto de Sarah Duishart, Maio 2005

Começou hoje a visita do papa Bento XVI a Israel. Não é uma visita pacífica, ainda que ele tenha apresentado a sua viagem ao Médio Oriente como uma "de apelo à paz e à compreensão entre as religiões". Bom slogan, mas algo distante daquilo que tem sido o seu papado.

No ano passado, Bento XVI provocou um escândalo com o Islão, ao citar uma obra cristã medieval que caracterizava alguns ensinamentos de Maomé "maléficos e desumanos", em especial "o seu mandamento de espalhar a fé pela espada". As autoridades muçulmanas exigem um pedido de desculpas pela grave afronta ao profeta.

Com os Judeus, a sua relação também não tem sido a mais amistosa. Restaurou uma passagem antiga da missa em que apela à conversão dos Judeus. E mais recentemente reabilitou um bispo inglês renegado, Richard Williamson, famoso pelo seu revisionismo do Holocausto. Ao visitar o Yad Vashem, o Museu do Holocausto em Jerusalém, será difícil não pensar nesta questão e que o jovem Joseph Ratzinger (o verdadeiro nome do papa) foi membro da Juventude Hitleriana – ainda que a incorporação no movimento de propaganda nazi fosse obrigatória para todos os jovens arianos e o seu pai fosse um crítico do Nazismo.

Este será o terceiro papa a visitar Israel, depois de Paulo VI e João Paulo II. A vista de 2000, é vista por muitos como a mais importante do pontificado de João Paulo II. Em 1964, Paulo VI fez uma vista relâmpago de menos de 12 horas. Na altura, recusou-se encontrar-se com o presidente da República Zalman Shazar, em Jerusalém, encontrando-se com ele apenas no posto de fronteira de Meggido, nunca lhe dirigindo a palavra como chefe de estado. E, mais estranho ainda, durante a visita não mencionou o nome do país “Israel”. Na altura, o Vaticano ainda não reconhecia o Estado Judaico (isso só veio a acontecer 30 anos depois). O re-estabelecimento da soberania judaica na Terra Santa era uma espinha difícil de engolir pelo Catolicismo, herdeiro da ideia do novo pacto, em substituição do antigo pacto de Deus com o Povo de Abraão.

Nas semanas que antecederam a visita uma nova questão difícil foi levantada entre Israel e a Igreja Católica. O Vaticano reclama direitos de soberania sobre vários locais santos cristãos em Israel, entre eles: a igreja da Anunciação em Nazaré e a igreja das Beatitudes em Tiberias. Além da problemática questão de extra-territorialidade – porque há-de ter o Vaticano soberania sobre igrejas em Israel se uma sinagoga em Roma não é território israelita? –, o próprio favorecimento do controle católico desses locais implica uma exclusão das outras confissões cristãs. O Catolicismo nem sequer é a principal confissão cristã em Israel, sendo uma minoria entre as várias comunidades ortodoxas.

Por outro lado, é sabido que a comunidade católica a nível internacional nem é conhecida por ser pró-Israel, nem o turismo católico é de grande expressão entre os peregrinos cristãos que vistam o país, ao contrário de várias igrejas evangélicas. Então, para quê o favorecimento?

Tal como o Rabino Norman Lamm, director da importante Yeshiva University de Nova York comentou: "O papa é um intelectual e como tal existe algo nas entrelinhas do seu comportamento. Os seus interesses são principalmente teológicos. Nada de grande consequência sairá da visita. É importante não pintar o papa como um demónio. Ele tem uma grande porção de poder e influência, e é importante ter um amigo. Mas ele deve saber que nós [os Judeus] não estamos à venda."

publicado por Boaz às 22:56
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Sábado, 25 de Outubro de 2008

Caros amigos

Recentemente, numa manhã, quando cruzava o shuq - o mercado árabe da Cidade Velha de Jerusalém - a caminho da yeshivá, uma senhora estrangeira que passava ali interpelou-me, entregou-me um postal colorido e disse-me em inglês: "Parabéns pelos 60 anos do teu país. Nós gostamos muito de Israel e desejamos-lhe muita sorte, a si e ao seu país".

Sorri perante tamanha simpatia e entusiasmo sionista, aceitei o postal e continuei o meu caminho. Assim que virei as costas para retomar a caminhada, olhei brevemente o papel que me entregara. De um lado era um alegre desenho infantil com os dizeres: "ISRAEL 1948-2008 Mazel Tov!" (que é como quem diz: ISRAEL 1948-2008 Parabéns!).

Tive de virar o cartão para desvendar a sua autoria - e intenções. Um texto em hebraico e em inglês, dizia: "Com este cartão nós congratulamo-lo do fundo dos nossos corações com os 60 anos de existência do Estado de Israel. Nós apoiamo-lo, e nós rezamos que o D'us de Abraão, Isaac e Jacob o abençoe, a si e à sua família!" E uma frase bíblica para reforçar a mensagem: "Quão bonitas nas montanhas são os pés do que traz boas novas, sobre os montes que ascendem para anunciá-las para proclamar a paz, para dar a conhecer a salvação, que dizem a Sião: 'O teu Deus reina!';" (Isaías, 52:7)

No fundo, em holandês, revelava-se por fim a autoria do cartão: "Cristãos por Israel".


O "evangelista" americano John Hagee, líder do movimento Christians United for Israel
(Cristãos Unidos por Israel), discursa perante os seus seguidores e apoiantes israelitas num comício no
Centro de Congressos de Jerusalém, Abril de 2008.

É quase um paradoxo a ideia de movimentos cristãos "amigos de Israel". Não que eu ache que temos de ser inimigos figadais como outrora fomos, mas não nos esqueçamos que o Cristianismo foi fundado com a finalidade de "substituir o Judaísmo". Afinal, o "Novo Testamento" está em oposição ao Velho. A "Boa Nova" de Jesus, ou a "Nova Aliança", como lhe chamam, em substituição da (velha) "Aliança de Abraão, de Isaac e de Jacob". No entanto, é um fenómeno cada vez mais visível em Israel. Na última semana, coincidindo com as festividades de Succot, realizou-se em Jerusalém uma marcha de cristãos pró-Israel. Uns 3000 cristãos de quase 100 países desfilaram com as bandeiras azuis e brancas de Israel. Várias instituições, associadas sobretudo ao Protestantismo da linha evangélica, existem com o objectivo de ajudar Israel. Uma boa parte do lobby político pró-Israel norte-americano é formada por cristãos. Milhões de dólares são doados anualmente a Israel por igrejas do mundo inteiro.

É sabida a ligação histórica dos primórdios do Cristianismo à Terra Santa de Israel, com as seculares peregrinações aos locais sagrados de Jerusalém, Belém e Nazaré. O controlo desses locais foi o propósito das Cruzadas, no início da Idade Média. No entanto, o novo apoio cristão a Israel não provém tanto de um desejo de controlo dos locais santos. As profecias judaicas falam claramente da vinda do "Redentor" após a concretização de uma série de factos. A reunião das tribos exiladas de Israel é uma delas. Por isso, uma boa parte da ajuda cristã é canalizada para a assistência aos novos emigrantes judeus em Israel. Instituições em Jerusalém e noutras cidades oferecem aos novos imigrantes objectos para a casa e roupas, bastando-lhe para receberem essa ajuda mostrar o documento que prova que são imigrantes recentes.

Esse apoio cristão internacional é mal visto em muitos sectores da sociedade israelita, incluindo os próprios cristãos árabes de Israel. São também olhadas com desconfiança pelos "pacifistas", pois na generalidade, essas igrejas evangélicas apoiam os colonatos judaicos nos "Territórios Palestinianos", e muitas criticam mesmo as negociações de paz com a Autoridade Palestiniana, além de pressionarem a política norte-americana nesse sentido. Os judeus sionistas religiosos, favoráveis à colonização manifestam igualmente um desconforto pelos novos laços com estes cristãos. É que a filosofia evangélica não esconde que esse apoio não deriva da pura e desinteressada simpatia pelos Judeus ou Israel em si mesmos.

Na verdade, ele tem umas segundas intenções bem determinadas, destinando-se a "antecipar a nova vinda do Messias". Como admitiu o filósofo judeu francês Henri Bergson: "As minhas reflexões levaram-me cada vez mais próximo do Catolicismo, no qual eu vejo a completa finalização do Judaísmo..." Numa nova interpretação da profecia judaica da Batalha de Armagedão, os cristãos crêem numa batalha apocalíptica entre o bem e o mal, que proclamará Jesus como o Messias e na qual os Judeus que não o aceitarem serão exterminados.

Por isto tudo, não é de espantar que, há uns anos, o Rabino Shlomo Aviner, director de uma importante yeshivá de Jerusalém, tenha recusado um chorudo cheque de uma organização de "amigos evangélicos". É que, como diz um célebre cronista português: "Não há almoços grátis".

publicado por Boaz às 22:25
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Terça-feira, 7 de Outubro de 2008

Ai 'Jasus'

A organização "Jews for Jesus" (Judeus para Jesus) começou uma aguerrida campanha em Israel. Cartazes de rua em pontos estratégicos de diversas cidades do norte do país, como Haifa, Naharyia ou Kiryat Shemona; anúncios de página inteira em jornais diários nacionais e locais; spots de rádio. Tudo, para conquistar almas de fiéis Judeus para Yeshu (nome como é chamado em hebraico).

Esta organização religiosa é afiliada com o movimento cristão evangélico. Como qualquer igreja cristã, prega que Yeshu é o Messias. Porém, ao contrário da generalidade das igrejas cristãs de intuito missionário, que procuram conquistar todas as almas em qualquer ponto do mundo, o seu público-alvo é exclusivamente a comunidade judaica.

Os seus esforços propagandistas são bem patentes na sua atitude. Dissimulam-se entre as comunidades judaicas, usando simbologia como a Estrela de David ou a Menorá. Constroem os seus centros disfarçados de sinagogas, como o fizeram em São Paulo, por exemplo. Abriram a sua confraria em Higienópolis, um dos principais bairros de residência dos judeus. E um dos locais escolhidos para a propaganda de rua não poderia ser menos inocente: em frente a um dos colégios judaicos da cidade, a pouca distância de uma sinagoga de verdade.

O facto de quererem transformar Israel no seu próximo objectivo de conquista suscitou já protestos nas localidades onde a campanha se tem desenrolado. Cartazes de rua foram arrancados. Em Kiryat Shemona, o pneu do carro de um dos missionários foi esvaziado. Tzfania Drori, o rabino-chefe da cidade comentou assim o incidente: "Esta é provavelmente uma reacções mais brandas que se pode imaginar, em resposta à agressiva actividade missionária levada a cabo por estes Judeus para Yeshu."

"Acredito que temos o direito de impedir que estas pessoas entrem na nossa cidade e proclamarem o Novo Testamento e literatura missionária. Isto é equivalente a uma mulher que faz um striptease num lugar público."

Há uns meses, em Jerusalém, surgiu uma polémica, quando se descobriu que um dos mais requisitados salões de festas da cidade era patrocinador de uma organização messiânica do mesmo género da "Jews for Jesus". Imediatamente choveram os cancelamentos de casamentos e eventos no local, especialmente usado por judeus religiosos.

Note-se que, em Israel a liberdade religiosa é total. Porém, é absolutamente proibida qualquer actividade missionária de cariz proselitista. Ora, a "Jews for Jesus" é uma organização que não esconde as suas intenções de levar todos os Judeus para o "outro lado".

publicado por Boaz às 23:25
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Domingo, 30 de Dezembro de 2007

Ícone rachado

Recebi bastantes comentários ao artigo Natal sem Natal. Foi, em mais de três anos de Clara mente, o mais comentado de todos os meus artigos. Na altura respondi por e-mail – em vez de deixar a minha resposta na página dos comentários – a um dos meus melhores amigos de Portugal, autor de vários desses comentários.

Entendo a incredulidade de alguns comentários. Afinal, é normal uma pessoa sentir-se perturbada quando é posta em causa a estabilidade das suas bases. Mas não deixa de ser também estranho, já que, no caso católico, noutras situações, não parece fazer a mínima mossa aos tolerantes crentes quando a própria liderança de Roma declara que só o Catolicismo é a verdadeira fé. E, ainda mais quando reitera que, quem não acredita em Jesus como deus e salvador, não pode aspirar à salvação. Ao contrário dos não-oficiais jogos de xadrez judaicos na noite de Natal, declarações doutrinárias oficiais como estas, na própria voz do Papa, não são vistas como radicalismo. É apenas a verdade aceite e acima de qualquer discussão.


Pastor da IURD pontapeia a Senhora da Aparecida. Talibãs arrasam os Budas de Bamian.

Alguém até insinuou que o não aceitar Jesus como um homem de bem parece equiparar-se a um nível de fanatismo tal que, fosse eu muçulmano em vez de judeu e já andaria por aí, de cinto de explosivos amarrado à cintura, pronto a mandar uns infiéis para o Inferno.

O histórico ódio anti-judaico dentro do Cristianismo, traduzido em incontáveis actos de barbárie ao longo dos séculos, não é algo que deriva de franjas do próprio Cristianismo. É claro que a responsabilidade pelos actos cabe aos seus autores. No entanto, os interessados, busquem nos Evangelhos palavras do próprio Jesus contra os fariseus, os herdeiros do Judaísmo Rabínico. Para não falar de várias epístolas do apóstolo Paulo. Os anátemas anti-judaicos não surgiram apenas da boca de alguns papas, bispos ou padres mais "exaltados". Saíram da boca dos próprios fundadores do Cristianismo.

Para lá de uma figura religiosa, Jesus é o ícone cultural máximo do Ocidente. Pôr em causa o seu valor como homem e deus, atinge um nível de sacrilégio maior que a destruição das estátuas de Buda pelos Talibãs ou o bispo da IURD a chutar a Senhora da Aparecida.

PS – Apesar das críticas recebidas, não me sinto como um pequeno Salman Rushdie pós-Versículos Satânicos. E a excomunhão também está fora do meu alcance.

publicado por Boaz às 21:15
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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Natal sem Natal

Alguém me pediu para escrever sobre o Natal. Pedido difícil feito a alguém que deixou de festejar o Natal faz uns anos... Apesar de este não ser um artigo feito por encomenda, decidi aceder ao pedido.

Na minha infância, tal como na da grande maioria das infâncias no Ocidente, o Natal era a época mais esperada do ano. Pouco me importava o menino Jesus e ainda menos o Pai Natal. Aliás, em minha casa os meus pais sempre nos informaram que eram eles próprios quem oferecia os presentes e que estes não apareciam caídos, sem esforço, por via de um velho gordo que chegara pela chaminé de madrugada. Sabíamos que as prendas tinham de ser pagas com dinheiro a sério e, para as poderem comprar, os pais teriam de trabalhar. Não era menos mágico o meu Natal, mesmo com essa lição de economia doméstica.

No início, os presentes eram entregues só de manhãzinha. Decisão pedagógica. Era o único dia do ano em que eu e a minha irmã saltávamos da cama. (Ouve outra ocasião em que saltei da cama, quando a minha mãe me acordou dizendo que tinha nevado!) Com o tempo, os presentes passaram a ser entregues à noite, assim que tocavam as doze badaladas na igreja vizinha. Éramos mais crescidos e mais difíceis de domar e os meus pais já não aguentavam a nossa ânsia de receber os presentes.

Despojada do significado religioso, pela gradual secularização da família, aquela era apenas uma festa familiar. Os únicos marcos da tradição eram a árvore decorada e o presépio – o único símbolo religioso resistente na festa, presente mais pela graça de ir recolher musgo ao pinhal e montar o cenário do que pela veneração do menino na manjedoura. E a enorme travessa das filhós que a minha mãe pacientemente fazia e eu ajudava a polvilhar de açúcar e canela.

Com o meu crescente afastamento do Cristianismo, o Natal tornou-se um verdadeiro embaraço familiar e pessoal. A certa altura eu até pedia à minha mãe e aos amigos para não me comprarem e oferecerem presentes. E informava que não daria presentes a ninguém. Era difícil. Nem sempre era bem aceite a minha decisão. Ir contra a tradição e o espírito da época era um acto de rebeldia. Até vir para Israel, a única coisa que eu mantinha era a troca de presentes com o grupo de amigos local. Porém, era mais para festejar a nossa amizade e podermos, ao menos uma vez por ano, conseguirmos reunir-nos do que, de novo, pelo menino.

Num dos meus últimos anos em Portugal, uma crise familiar fez que não fizéssemos festa nenhuma em casa. O almoço de Natal acabou por ser num restaurante na praia da Nazaré. Foi horrível, especialmente para a minha mãe. Deve ter sido uma frustração brutal. Eu tinha ido contrariado, sem qualquer pachorra para a festa. Ela bem tentava puxar conversa, mas eu só queria acabar de comer e voltar para casa. Enquanto ela queria dar um pouco de alegria e significado festivo à data. Felizmente, só dura um dia.

Nessa altura, eu ainda não tinha começado oficialmente o meu processo de conversão ao Judaísmo, por isso ela ainda não entendia bem o meu comportamento de indiferença pela data em questão. Mesmo que ela soubesse das minhas intenções de conversão, que já duravam há uns anos. Talvez pensasse que era apenas uma fase minha ou que aquele desejo não implicava nenhuma mudança extraordinária.

Desde que vim para Israel, o Natal acabou definitivamente. Em Jerusalém, as poucas marcas do Natal que detecto, são as raras árvores decoradas nas janelas das casas do Bairro Arménio da Cidade Velha, a pouca distância da yeshiva onde estudo. Ou nas casas de cristãos nos bairros árabes do lado oriental da cidade. Mais para o sul da cidade, o cenário muda: o final da Estrada de Belém – a estrada que liga Jerusalém a Belém – está iluminado com luzes coloridas. Para agradar aos milhares de turistas cristãos que inundam a região nesta altura.

Na yeshiva é um dia de estudo como outro qualquer. Com uma excepção: à meia-noite do dia 24, apesar de não haver um anúncio oficial para o efeito, os alunos devem parar no estudo durante uns minutos. (Os poucos que a essa hora ainda persistem no Beit Midrash, a sala de estudos principal). A interrupção não é por respeito à ocasião. Antes pelo contrário. É inesquecível que as maiores tragédias do povo judeu aconteceram às mãos de alguns dos seguidores do menino da manjedoura. Por isso, a dignidade de estudar Torá não deve ser dada a tal momento. Por isso alguns interrompem o estudo para jogar xadrez.

publicado por Boaz às 12:21
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Terça-feira, 5 de Junho de 2007

Iconoclastia

Há dias, estava eu a sair de casa, quando passou uma senhora residente aqui da aldeia e me viu. Há muito que não me encontrava, obviamente, já que estive um ano fora da terrinha.

Perguntou-me como estava a minha mãe - que ela também não via há muito, já que a minha mãe mudou de local de trabalho. Quando se despediu, poucos segundos depois, disse-me uma coisa talvez... fofa:

"Ai que olhos tão lindos que tu tens! Parecem os olhos de Jesus Cristo."


 

Boaz, o Iconoclasta. Os olhos do Messias, do falso e do improvável*

"De quem!?" pensei eu. Saiu-me um sorriso amarelo. Que mais lhe poderia dizer...

* Dado o facto de eu ser convertido, é altamente improvável que eu seja o Messias. Fora outras - muitas - variáveis.

publicado por Boaz às 16:20
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Quarta-feira, 11 de Abril de 2007

Doutrina

Numa leitura rápida às notícias do Expresso online desta semana, uma das notícias que abri, despertado pelo título foi A Paixão de Cristo em versão maltesa. Acabei por não ler a notícia até ao fim, mas a foto chamou-me a atenção.

Repare-se nos uniformes dos soldados romanos. Porque têm eles uma Estrela de David?

De acordo com a doutrina oficial da Igreja Católica - a religião detentora de um quase absoluto monopólio sobre as almas maltesas e com uma influência tal, que inclusive tem representação parlamentar - Jesus foi morto pelos romanos. A revisão doutrinária em relação a esse assunto operou-se nas últimas décadas, em especial, durante o pontificado de João Paulo II, deitando por terra séculos de doutrina oficial em que os Judeus eram definidos como os "deicidas".

No entanto, e apesar da relativa proximidade geográfica em relação a Roma, parece que essa revisão doutrinária não chegou a Malta.

publicado por Boaz às 13:50
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Sexta-feira, 8 de Abril de 2005

Comove-me

Nestes dias foi impossível ficar indiferente à gigantesca procissão que passou diante do corpo de João Paulo II na Basílica de São Pedro. É certo que muitos entre os peregrinos, não passavam de turistas curiosos aproveitando a ocasião deste acontecimento histórico para estar ali, tirar uma foto com o seu telemóvel e poder dizer "eu estive lá".

Porém, a grande maioria era sem dúvida gente movida por uma forte consciência espiritual. É que esperar 15 horas de pé, sem protestar, numa fila que culmina com um breve olhar sobre um cadáver, não é para aventureiros ou gente impelida por uma curiosidade mórbida. A resistência dessas horas passadas a rezar e a cantar - para manter firme o espírito e desse modo também o corpo - entre pessoas desconhecidas é impressionante.

Fé

Sempre me comoveram as manifestações públicas de fervor religioso. Seja de que fé for. É óbvio que me comove uma multidão que reza em frente ao Muro Ocidental (também chamado das Lamentações). Eu próprio já vivi essa experiência. Estar sozinho, sem conhecer ninguém, na Western Wall Plaza apinhada de judeus a rezar no local mais sagrado para o Judaísmo, em que todos são estranhos, mas ao mesmo tempo existe uma comunhão de identidade que aproxima as pessoas, é qualquer coisa de sublime.

Mas também me impressiona a ideia de dois milhões de muçulmanos em Meca, aguentando o calor sufocante do deserto da Arábia Saudita, rumando por todos os meios possíveis ao vale de Mina para cumprir os rituais da Hajj, um dos pilares do Islão. Ou as multidões de hindus nas margens do Ganges e nas enormes peregrinações do Kumbha Mela, que chegam a juntar mais de 12 milhões de pessoas! Os tibetanos que percorrem a pé centenas de quilómetros, prostrando-se a cada passo, rumo a Lassa. Impressiona-me Fátima, mesmo que desaprove a mortificação física e um certo alarde daqueles que, de joelhos, percorrem o santuário. No entanto respeito.

Impressiona-me especialmente porque vivemos num tempo em que são poucos os que se afirmam crentes. Em que a crença se limita a vivências privadas, seja por detrás dos muros dos templos, seja nas próprias casas. "O meu minyan", como lhe chama Francisco José Viegas. O exemplo extremo é a França, onde, por decreto, se esconde a manifestação da identidade religiosa, sob a obrigatoriedade da laicidade do Estado e a sombra da igualdade. Como se alguém por não usar a cruz, a kippa ou o véu em público se tornasse igual ao seu vizinho. Há dias, nas Cortes espanholas, os deputados da esquerda republicana da Catalunha, do Partido Comunista e alguns do PSOE (no governo) recusaram-se a cumprir em pé o minuto de silêncio pela morte do Papa. Invocaram a regra da separação da religião e do Estado para justificar a sua atitude.

Os europeus desdenham dos americanos por andarem sempre a falar em Deus, por não se coibirem de se afirmarem publicamente como crentes. Uma das mais importantes festividades nos EUA é o Dia de Acção de Graças que tem um cariz nacional e religioso, mas multi-confessional, unindo todas as comunidades. Eu também acho um bocado hipócrita quando Bush termina o seu discurso perante o Congresso com um God bless America, depois de defender a invasão e ocupação do Iraque, num tom quase messiânico. Mas isso é a maneira de ser americana, em que os símbolos da religião entram na política, porque afinal os americanos são religiosos.

Deste lado do oceano a moda é ser ateu, ou no mínimo "agnóstico". Os portugueses engelhavam o nariz quando o então primeiro-ministro Guterres se afirmava como católico praticante e mais recentemente com as repetidas manifestações católicas de Paulo Portas. Conversão oportunista, diriam alguns.

Estamos no tempo do ser "não praticante", esse estatuto religioso que não é carne nem é peixe, em que cada um vive, obviamente, a religião à sua maneira, mas sem se deixar comprometer. "Eu cá tenho a minha fé"...

É por isso que me comove ver tanta gente empenhada em demonstrar publicamente a sua identidade e fazer disso uma festa, mesmo num tempo em que estão de luto.

publicado por Boaz às 17:13
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