Quarta-feira, 2 de Março de 2011

Ecos da Diáspora

Numa das minhas últimas jornadas diárias para Jerusalém, apanhei boleia num carro onde viajavam duas mulheres que conheço vagamente, residentes em Alon Shevut, tal como eu. Mãe e filha conversaram num idioma estranho durante toda a viagem. Percebi imediatamente que não era hebraico. Apesar de ainda um pouco ferrugento na minha boca, o hebraico já não é “um idioma estranho” para mim.

“Talvez seja yiddish”, imaginei, lembrando-me da língua falada pelos Judeus oriundos da Europa Oriental, que é uma mistura de dialetos alemães e eslavos. “Não, também não é”, percebendo pela falta do forte sotaque alemão. Curioso, prestei atenção à conversa, sem entender uma única palavra daquele idioma misterioso. Da lista de possibilidades, fui sucessivamente excluindo as línguas germânicas e eslavas. “Húngaro!” concluí, atendendo à abundância do som “ô”. Aqui e acolá, a filha pontilhava o húngaro com expressões em hebraico e até português. *

Jerusalém, nas línguas do Mundo.

Na década de 1880, o escritor e jornalista Eliezer ben-Yehuda iniciou e reabilitação da língua hebraica como um idioma moderno. Consultando as fontes do Tanach (as escrituras judaicas, que incluem a Torá e os livros dos vários profetas), ben-Yehuda criou palavras novas a partir de velhos termos. Muitas das suas palavras novas são hoje parte do léxico hebraico, mas cerca de 2000 nunca foram adotadas.

Comparando com o português ou o espanhol, o idioma hebraico é bem menos rico em raízes de palavras. Porém, de apenas uma raiz, conseguiram criar-se dezenas de termos. Por exemplo, da palavra avir, “ar” em hebraico, surgiu aviron, “avião”. Porém, este é mais conhecido como matós, proveniente da raiz tas, “voar”. E como este, há dezenas de exemplos de vocábulos do hebraico moderno, com versões diferentes para a mesma coisa, dependendo da raiz que foi usada para nomear pela primeira vez uma coisa nova. Em maior ou menor medida, adotaram-se palavras com sonoridade grega, inglesa ou espanhola.

Porém, este renascimento da língua hebraica não apagou o uso das línguas que os Judeus usaram durante as gerações passadas na Diáspora. Os judeus haredim (ultra-ortodoxos), chegados da Europa Oriental, ainda hoje usam o yiddish como idioma do quotidiano, dos jornais da comunidade e dos pashkevilim, os cartazes afixados nas paredes dos bairros ultra-ortodoxos, contando as novidades, escândalos e alertas da comunidade. Inclusive na yeshivá, a academia de estudos religiosos, a Lei é discutida no idioma dos seus antepassados europeus. O hebraico, a língua sagrada, é reservado para os próprios livros da Lei e para as orações. Na opinião de muitos haredim, usar o hebraico nos assuntos do quotidiano seria misturar o sagrado com o profano. Um sacrilégio, portanto.

Os israelitas de origem russa – mais de um milhão, chegados na década de 1990 depois do colapso do Império Soviético – até hoje falam a sua língua materna. Ainda que aprendam hebraico com uma rapidez impressionante, mantém um fortíssimo sotaque eslavo. O mesmo se passa com os judeus franceses, a imigrar em cada vez maior número para Israel.

Os judeus provenientes do mundo islâmico mantêm o sotaque mais próximo da norma hebraica moderna, mas é normal ouvi-los a falar árabe, turco ou persa. Os mais velhos ainda falam os dialetos típicos dos judeus desses países, como o quase desaparecido haketia ou ladino ocidental, proveniente do Norte de Marrocos. Do mesmo modo, os judeus turcos e gregos guardam ainda o ladino oriental. E os bukharianos, o seu dialeto de origem turca.

Também os judeus imigrados do mundo anglo-saxónico continuam a usar o inglês em abundância. Em Jerusalém e nos colonatos e cidades dos arredores, existem numerosas comunidades de falantes de inglês. Daí que muitos, mesmo depois de vários anos a residir em Israel, continuem com um nível de hebraico muito básico. E, mesmo os que atingiram um nível fluente, quase todos continuam com sotaques inconfundíveis que denunciam a sua origem.

Numerosos empregos, em especial nos negócios e na alta-tecnologia, usam o inglês como língua franca, como em qualquer lugar do mundo. Assim, são muitos os imigrantes que não sentem sequer necessidade de falar o hebraico. Uma piada em Efrat, o principal colonato da região de Gush Etzion, habitado principalmente por americanos, diz que “em Efrat, de vez em quando até é possível escutar hebraico”. De facto, desde os negócios nas lojas até numerosas aulas de Torá, praticamente tudo se pode fazer usando apenas o inglês. Em Israel, hebraico e árabe partilham desde a fundação do Estado o estatuto de idiomas oficiais, apesar das discussões recentes de promover o hebraico a único idioma oficial e passar a considerar o árabe como semi-oficial, como são o inglês e o russo.

Casado com uma brasileira, em minha casa fala-se quase exclusivamente português, ainda que pontilhado por numerosas palavras e expressões hebraicas. Para falar com a família em Portugal, vejo-me por vezes a baralhar os idiomas. Há palavras portuguesas que, pura e simplesmente, desapareceram do meu discurso, substituídas pelas correspondentes hebraicas. Na yeshivá, apesar de usar livros em hebraico, estudo diariamente com brasileiros e outros sul-americanos. Muitos colegas da yeshivá são norte-americanos e ingleses. Assim, num dia normal uso o português, o espanhol e o inglês. O hebraico acaba muitas vezes por ser reservado apenas para breves conversas de autocarro ou para ser atendido no supermercado.

A filha mais velha, de 2 anos, frequenta o infantário local e aprende rapidamente a língua nacional, trazendo palavras novas todos os dias. Muitos nomes de objetos, alimentos, e também as cores e os números são aprendidos originalmente em hebraico. Vejo-me cada vez mais a entremear o idioma de Camões com o idioma de Moisés. Portubraico, digamos.

* A senhora octogenária, natural da Hungria, sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, onde trabalhava na clínica do macabro Dr. Mengele. Depois da guerra imigrou para o Brasil, onde nasceram os seus filhos. As suas memórias estão publicadas em hebraico e português.

publicado por Boaz às 20:20
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Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010

Esplendor no lixo

Numa das últimas semanas, fui rezar a oração do final de Shabbat numa das sinagogas de Alon Shevut, o colonato onde vivo. Escolhi a sinagoga de rito ashkenazi (europeu oriental), que sempre começa o serviço um pouco mais tarde. Como a oração no santuário da sinagoga já havia começado, o grupo de homens do qual eu fazia parte reuniu-se numa sala lateral onde funciona a biblioteca.

Na biblioteca da sinagoga, junto à arca onde se guardam os rolos da Torá, alguém tinha deixado uma caixa com livros, marcada como "hefker", sem dono. É pegar e levar. Entre os congregantes estava o rabino-chefe de Alon Shevut, o qual, no final do serviço sempre dá algum conselho ou explicação da Lei Judaica sobre um assunto relevante. O rabino inspeccionou-os e descobriu serem traduções para inglês do Sefer ha’Zohar, o Livro do Esplendor, a obra principal da Cabalá. O rabino falou do assunto.

"O que fazer com estes livros sem dono?", alguém perguntou. "Deitá-los ao lixo", foi a resposta do rabino. E explicou: "Quem quiser ter uma cópia do Zohar em casa, eu até recomendo, mas é preciso ter cuidado com esta tradução. Foi feita pelo Kabbalah Center. Agora, sabendo isto, cada um que faça o que quiser."


A Árvore das Sefirot, numa gravura medieval.

O interesse pela Cabalá é um dos fenómenos da nova espiritualidade que atravessa o planeta. Um dos grandes promotores desse interesse é exactamente o Centro de Cabalá. Rodeado de controvérsia dentro e fora do mundo judaico, atraiu gente famosa como as cantoras Madonna e Britney Spears e o futebolista David Beckham. Alegadamente "com fins não lucrativos", a verdade é que a organização vende a bom preço tanto os seus cursos e seminários, como uma série de produtos ditos milagrosos, desde água "benta" que cura até o cancro, até os fios de lã vermelhos que protegem do "mau-olhado". (Em qualquer canto do Bairro Judeu da Cidade Velha de Jerusalém encontram-se charlatães que vendem a turistas os mesmos fios vermelhos por apenas 5 shekels, menos de um euro!)

A promessa da saúde, da riqueza e da felicidade do Centro de Cabalá é passada por líderes carismáticos com ensinamentos de proveniência duvidosa: uma mistura "à la carte" das obras cabalistas tradicionais, com máximas New Age e o que mais der na cabeça dos pregadores. Os seus congressos atraem celebridades a Israel.

Madonna e companhia já vieram a Israel algumas vezes à custa da crença nos poderes do fiozinho escarlate. Durante a sua primeira visita, a cantora tentou encontrar-se com o maior cabalista vivo – entretanto falecido –, o rabino Yitzhak Kaduri. Questionado sobre a possibilidade de se encontrar com a tão ilustre visitante, o santo rabino terá declarado que nunca tinha ouvido falar de Madonna e que nunca se encontraria com ela. A fama, nem sequer a de Madonna, abre todas as portas. Restou à estrela passar pelo Muro Ocidental e visitar um túmulo de um rabino cabalista no Monte das Oliveiras.

Na tradição judaica, a Cabalá está reservada aos homens casados e com mais de 40 anos. Os seus ensinamentos não são para ser tomados de cabeça leve e não prometem a felicidade e o sucesso por via de fios de lã, águas bentas ou a recitação de mantras. Uma evidente sede espiritual, junto com o crescente gosto pela mística – graças a modas como "Harry Potter", "O Código Da Vinci" e "O Segredo" alimentam a máquina da Cabalá light e das suas receitas fáceis.

Quem procurar com seriedade nas fontes cabalísticas, tal como em qualquer outra fonte judaica, descobrirá que é pelo contínuo esforço pessoal que se chega ao aperfeiçoamento, exatamente o oposto daquilo que ensinam os curandeiros do Centro de Cabalá.

publicado por Boaz às 20:55
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Sábado, 11 de Agosto de 2007

Figura de urso

Jerusalém exibe actualmente a exposição United Buddy Bears - The Art of Tolerance (ou aqui), uma das muitas iniciativas culturais enquadradas nas celebrações dos 40º aniversário da reunificação da cidade. É uma colecção de 133 estátuas de ursos pintadas. Cada uma foi pintada por um artista de um país diferente.

O português, por exemplo, representa uma casa tradicional portuguesa. Da porta da frente saem guitarras e da janela das traseiras espreita um galo de Barcelos. É possível encontrar o "urso-estátua da liberdade" americano, o "urso-charuto" cubano ou o "urso-índio" brasileiro. Muitas das representações têm mensagens sociais.


United Buddy Bears.
O urso português é o terceiro a contar da esquerda.

A exposição fundada em 2002, é originária da Alemanha (o urso é o símbolo de Berlim) e já esteve patente em cidades como Seul, Sydney ou o Cairo e pretende mostrar o Mundo inteiro unido na sua diversidade. Ao longo dos anos, alguns países modificaram o aspecto do seu urso. A organização leiloa os modelos antigos com fins de caridade, como a UNICEF.

Patente ao ar livre, na praça em frente à Câmara Municipal da capital israelita, a exposição tem atraído milhares de pessoas, que tiram fotos em frente aos seus favoritos.

Depois de Jerusalém, os ursos viajarão para Adis Abeba, capital da Etiópia.

publicado por Boaz às 22:31
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Sexta-feira, 11 de Novembro de 2005

Ao próximo como a ti mesmo?

Caricatura publicada no jornal egípcio Al-Sha'ab, em 30 de Maio de 1989, num artigo que apelava a uma guerra total contra Israel.
Um detalhe: o globo terrestre aparece envolto num kaffiyeh.

Em 1944, o intelectual judeu Maxim Kahn, que escapara da Alemanha Nazi para a Argentina, escreveu, a respeito do anti-semitismo: "a morte dos judeus é, talvez, a mais enigmática das mortes; certamente é a mais acusadora. Durante dois mil e quinhentos anos se vem matando judeus em vez de permitir que morram... começou-se a matar judeus com tanto êxtase que a morte natural já não lhes causa temor... os judeus se agarraram à morte natural como se fosse vida, como se fosse luz do sol, canto de pássaros, fragrância de flores ou amor. Nada lhe pareceu tão apetecível como poder morrer sem marcas de homicídio no corpo. Sua vida se converteu em esperar a morte. É de estranhar que a palavra judeu não se tenha tornado sinónimo de moribundo... o judaísmo é uma saúde incurável."

Estas palavras constam de "Amarás Teu Próximo? - A Judeofobia na Cultura Universal", título brasileiro da obra "La Judeofobia". Conheci há dias o autor, o argentino de nascimento Gustavo Daniel Perednik, que fez questão em oferecer-me uma exemplar da edição brasileira e que prontamente autografou.

O seu primeiro capítulo, por si só, merece uma análise profunda: porquê chamar judeofobia ao fenómeno conhecido comummente por anti-semitismo? Ao longo da obra o autor tenta encontrar as origens de uma fenómeno quase ininterrupto nos últimos 2500 anos; as suas manifestações desde a época grega à actualidade, quando se mostra indistintamente da extrema-esquerda à extrema-direita, dos movimentos anti-globalização aos activistas pró-Palestinianos, da intelectualidade engravatada na Europa, à catrefa fundamentalista islâmica.

Não que eu ache que tenhamos um problema de anti-semitismo - perdão, de judeofobia, em Portugal, mas não era má ideia a edição da obra no nosso português. Para que se perceba mais profundamente aquele que é o ódio mais antigo do mundo.

PS - A ler: um excelente artigo sobre o tema, na Rua da Judiaria.

publicado por Boaz às 10:02
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Quinta-feira, 25 de Agosto de 2005

Leituras

Definitivamente, Se Isto É Um Homem, de Primo Levi não é um bom livro de cabeceira. É um bom livro. Um excelente livro, mas não para ter à cabeceira. Deveria constar da "Lista dos 10 Livros Essenciais das Pessoas Cultas", que há uns anos Pacheco Pereira (um tipo convencido e que tem um blogue famoso - onde eu não costumo ir porque não suporto o sujeito - chamado Abuso ou Aburro, ou coisa do género) desfiou numa palestra na faculdade.

Primo Levi

Não é indicado para antes de dormir, nem como leitura matinal. No primeiro caso, não sossega e logo, não dá bom sono. No segundo, faz passar o resto do dia deprimido. Não o aconselho antes das refeições. Péssimo para se conjugar com o apetite, já que, depois de o ler, a fome passa a ter outra dimensão...

Antes pelo contrário, a obra de Primo Levi é um livro fundamental que se deve ler antes de dormir, ao acordar, antes e depois de comer. Porque, por isso mesmo, incomoda, choca, desassossega. Conceitos e realidades tão básicas para cada um de nós como os amigos, o trabalho, o descanso, a comida, a doença, a distância entre a vida e a morte são mostradas de uma forma inconcebível para qualquer homem livre. Este e outros livros da chamada "literatura concentracionária". Não para leitura sistemática, mas que deveria constar, de tempos a tempos, das escolhas literárias de cada um.

PS - Outras obras do género que recomendo: O Comboio da Morte, Os Médicos Malditos, Os Médicos do Impossível e, muito especialmente Os Feiticeiros do Céu, todas de Christian Bernadac. Desafio quem quer que seja minimamente consciente, depois de ler qualquer destes livros, a contar, com alguma vontade de rir, um certo tipo de piadas...

publicado por Boaz às 16:59
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Sexta-feira, 29 de Abril de 2005

10000 imagens!

A minha colecção de imagens com motivos judaicos atingiu a magnífica cifra de dez mil exemplares. Há anos que as procuro pela Internet, legendo e arquivo no meu computador.

Esta foi uma das primeiras fotos da colecção. E continua a ser uma das minhas favoritas.
Judeu Polaco, 1921

Inclui desde fotos de monumentos e lugares judaicos de todo o Mundo - em especial de Israel, com destaque para Jerusalém - acontecimentos históricos, cenas religiosas ou do quotidiano judaico, até paisagens de Israel e pinturas.

A variedade de fontes é de tal modo vasta - da maioria já nem me lembro da proveniência - que aqui ficam apenas algumas das fontes: National Photo Collection (Colecção Nacional de Fotografia de Israel), Israel Images, International Survey of Jewish Monuments, Zchor (daí é possível ir para centenas de outros sítios), Beyond the Pale - History of the Jews of Russia (História dos Judeus da Rússia, e não só), Shtetl Links; sites de notícias, como o Yahoo! News, World Photos, arquivos fotográficos de jornais e revistas on-line: New York Times, The Washington Post, Time Magazine e inúmeros sites das comunidades judaicas.

Se uma imagem vale mais que mil palavras, fazendo as contas, preciso de mais de 10 milhões de palavras para descrever a colecção que já juntei. A senda continua.

publicado por Boaz às 15:56
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Sexta-feira, 15 de Abril de 2005

Que música para esta casa?

Finalmente! Com quatro anos e 60 milhões de euros de atraso, lá abriu a Casa da Música, no Porto. No entanto há muitas dúvidas que se levantam - quer dizer, se ninguém as levanta, levanto-as eu.

Primeiro um detalhe. O projecto previa a existência de vários órgãos de tubos. No entanto, dois deles não foram instalados na totalidade. Por falta de verba. Então derrapam-se, assim sem mais nem menos, 60 milhões de euros e a obra fica incompleta? Podia faltar uma fila de cadeiras em cada sala, ou um dos elevadores, haver apenas um restaurante (há um que é só para os artistas, esses pindéricos), não haver uma máquina de cigarros ou de bebidas na recepção ou papel higiénico de folha dupla nos lavabos... mas não, tinham de faltar os órgãos. Logo os órgãos... E se são órgãos vitais?

Segundo, apesar de ser uma "Casa da Música", de toda a música, a mesma não tem fosso de orquestra, o que impossibilita a realização de espectáculos de ópera. Agustina Bessa Luís, interrogada sobre a sua opinião em relação à obra desabafou: "pelo preço que custou, daria para ser a casa para a música das esferas". Whatever that means. Mas deve ser realmente uma boca bem mandada, que a mulher não é de se ficar por falinhas mansas. Alguns dos manda-chuvas lá do sítio já vieram dizer que sim senhor, dá para fazer espectáculos de ópera, "com algumas adaptações". É o bem português espírito do desenrasca. Estamos safos.

Como sempre, ninguém vai saber a razão da derrapagem. Afinal, nas obras públicas portuguesas, com chuva ou sem chuva, o piso é sempre escorregadio. São coisas que acontecem...

O que me intriga ainda mais é o que se vai fazer agora com aquilo? É tão moderno, tão caro e tão vistoso que, se eu mandasse, até tinha medo de lhe dar uso. "Ai não toque aí, que estraga!"

Depois da festa de inauguração, como é que a Casa da Música vai funcionar? Será que o Porto não tinha espaços culturais suficientes? Está tudo a abarrotar de público? O Teatro Nacional de São João tem ópera all year round (é por isso que a Casa da Música não precisa do fosso de orquestra para nada). O Coliseu tem concertos diários agendados para os próximos 10 anos. Na cidade do Porto, ainda mais do que em Lisboa, a cultura é uma coisa para a elite e a elite não enche todos os espaços que já existem. Muito menos o resto do povo. Obviamente, muito por culpa da péssima gestão pública desses espaços. Em Lisboa, veja-se o caso do Teatro Nacional de São Carlos, que ficou com a temporada de ópera a menos de meio, "por falta de verba". O cinema São Jorge, que pertence à Câmara, tem uso quando há algum festival de cinema, seja ele gay/lésbico ou indie.

Assim sendo, ou muito me engano ou aquilo não vai passar de um mamarracho desperdiçado como o Centro Cultural de Belém que, para não destoar do rol das obras públicas construídas neste país desde a entrada da CEE, também teve uma derrapagem e peras. Tal como o CCB o mais provável é que vá ter uso ocasional.

Mas como diz a outra, "isso agora não interessa nada". O que interessa é que o povão está contente com mais um brinquedo. O pão está caro, mas há um circo novo na cidade.

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publicado por Boaz às 16:25
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