Segunda-feira, 25 de Junho de 2012

A onda africana

Durante os dois últimos anos que estudei na yeshivá, um dos empregados da limpeza era um africano, não judeu. Um dia, a caminho de casa ao final da tarde, encontrei-o no autocarro. Sentei-me ao seu lado. Devido ao seu limitado hebraico, tentei comunicar com ele em inglês. Ao saber que era da Eritreia, mencionei o primeiro nome do presidente do seu país: "Isaias" [Afwerki]. Fez uma cara de desaprovação e comentou "Mau, muito mau". Pouco mais falámos, ele desceu pouco depois do autocarro.

Nas últimas semanas, a atualidade israelita foi marcada pela questão dos africanos ilegais no país e o que fazer com eles. Esta semana, o governo decidiu levar a cabo uma acção de prisão de centenas de residentes ilegais e posterior deportação para o Sudão do Sul. Pagando a viagem de regresso ao seu país, que obteve a independência há cerca de um ano, e entregando 1000 euros por adulto e 500 por cada criança, o governo pretende resolver, ou pelo menos minorar, o problema dos residentes ilegais em Israel.


Israelitas manifestam-se contra os imigrantes ilegais africanos num bairro de Tel Aviv. No cartaz:
"E regressarão os sudaneses ao Sudão", um jogo de palavras baseado no versículo "E regressarão os filhos às suas fronteiras".

Infiltrados, refugiados, sudaneses, africanos, são várias as denominações destes imigrantes ilegais. É um fenómeno que começou há alguns anos. Fugindo da guerra, da perseguição étnica e da miséria, dezenas de milhar de africanos têm entrado em Israel pela fronteira egípcia. A maioria provêm da Eritreia, do Sudão e do recém-independente Sudão do Sul. Todos chegaram a Israel depois de uma longa e perigosa saga pelo deserto do Egito. Incontáveis imigrantes são baleados pelo exército egípcio para evitar que cruzem a fronteira com Israel.

Ao atravessarem o Sinai, última etapa antes da chegada à fronteira israelita, muitos são capturados por gangues de Beduínos. Às mãos destes traficantes de gente, e encerrados semanas ou meses em campos de prisioneiros montados a poucos quilómetros da fronteira, são sujeitos a violências de vária ordem, incluindo tortura e violação. Para serem libertados, são obrigados a contactar familiares ou amigos já residentes em Israel, para tentar angariar dinheiro para o seu resgate. Os que falham na colecta do dinheiro, que ascende a vários milhares de dólares, são mortos. Em alguns casos, os seus órgãos são extraídos e vendidos para redes internacionais de tráfico de órgãos. O caos político e social no Egipto; o vazio de poder na península do Sinai, transformada numa “Terra Sem Lei” dominada por traficantes de armas, gente e drogas; o pouco interesse que o assunto merece nas esferas do poder no Cairo e menos ainda entre os diplomatas internacionais, perpetua este negócio de tortura e escravidão de milhares de africanos.

A libertação às mãos dos traficantes Beduínos do Sinai não garante a entrada em Israel. Ainda resta atravessar a fronteira. Até há pouco mais de um ano, a fronteira com o Sinai era pouco mais de uma cerca ferrogenta, coberta pelas dunas em vários pontos. Atravessada livremente por camelos selvagens, traficantes de droga e imigrantes ilegais. Porém, com a crescente atividade terrorista na península do Sinai desde a queda do governo de Mubarak e o imparável fluxo de imigrantes africanos, o governo israelita decidiu reforçar a segurança na extensa fronteira com o Sinai. Uma moderna e bem vigiada cerca está em contrução nos mais de 200 quilómetros entre Eilat e Gaza. Até ao final deste ano estará completa.

Sabendo desta porta que se fecha no acesso a Israel, recentemente alguns migrantes africanos têm atravessado de barco o estreito Golfo de Aqaba, entre o Sinai e a Jordânia, entrando em território israelita pela fronteira oriental. Aí, além da cerca fronteiriça terão de evitar alguns campos minados. O desespero da fuga à miséria e violência diária nos seus países de origem leva os imigrantes a uma empreitada quase suicida.

Na pequena cidade turística de Eilat, no extremo sul de Israel, os africanos são já cerca de 5000, mais de 10% da população da cidade, trabalhando na indústria hoteleira e na construção civil. Porém, a maioria ruma a Tel Aviv, estebelecendo-se no sul da cidade. Há apenas 5 anos, os “sudaneses” em Tel Aviv eram cerca de 1000. Os bairros pobres de Shapira e Hatikva, na zona mais degradada da cidade em redor da Estação Central de Autocarros, têm experimentado uma verdadeira invasão africana. Ao longo dos últimos anos, têm chegado à cidade entre 1000 e 2000 africanos por mês. De acordo com algumas fontes, habitam atualmente estes bairros cerca de 40 mil infiltrados africanos, e 25 mil israelitas.

Até encontrarem um lugar para morar, durante os primeiros meses após a chegada a Tel Aviv, a maioria dos africanos dorme na rua, na entrada dos prédios ou parques da cidade. Outros dormem em casotas miseráveis. Sem casa de banho ou chuveiro, fazem as suas necessidades na rua e tomam banho com as mangueiras anti-incêndio. Ainda que apenas uma minoria esteja envolvida em atos criminosos, o número de queixas contra imigrantes ilegais africanos apresentadas na polícia aumentou mais de 50% no último ano. O clima de insegurança nos bairros do sul de Tel Aviv tem crescido, alimentado pelos casos relatados pelas notícias. Devido à atenção mediática que o tema tem alcançado em Israel, quase diariamente são noticiados casos de violência envolvendo os imigrantes: roubo, vandalismo, violação ou o abandono de dois recém-nascidos no hospital, no próprio dia em que nasceram, na semana passada.

A "invasão" de infiltrados africanos levou a vida dos residentes dos bairros a uma situação insuportável. É impossível sairem sozinhos à noite e a sensação de medo – real ou imaginário – é permanente. Em várias zonas da cidade, o parques infantis, os jardins públicos e até os pátios das escolas foram transformados em lugar de pernoita, ou mesmo residência fixa dos africanos. Todas as noites, grupos de jovens e adultos israelitas jogam nos parques públicos, numa atitude desafiadora – para marcar território – a fim de reconquistarem o espaço onde os seus filhos já não podem brincar em segurança. Os atos de violência contra os imigrantes também têm aumentado. Alguns locais onde se reunem foram incendiados por populares.

Neste triste panorama, o governo israelita decidiu começar a prender os imigrantes ilegais e repatriá-los para os seus países de origem. Esta operação apresenta uma série de problemas. Em primeiro lugar, por agora, apenas os naturais do Sudão do Sul serão repatriados. Depois de proclamar a independência no ano passado, o Sudão do Sul tem estreitado relações diplomáticas com Israel (que foi um dos primeiros países a reconhecer o novo país africano). Tendo terminado a guerra civil vivida na região durante mais de 30 anos, os sudaneses do sul poderão voltar para casa. O país é um dos mais miseráveis do planeta, apesar da enorme riqueza natural, incluindo grandes reservas de petróleo. Várias famílias de imigrantes sul-sudanesas voltaram para casa, com os filhos, alguns já nascidos em Israel e cuja língua materna é o hebraico. Aos jornalistas israelitas que acompanharam o repatriamento, as crianças desabafavam que queriam poder ir à escola, como em Israel.

Porém, os imigrantes naturais do Sudão do Sul, que começaram a ser repatriados a semana passada, são apenas uma pequena parte dos mais de 60 mil africanos ilegais em Israel. Mais de 30 mil provêm da Eritreia, uma das mais brutais ditaduras do Mundo, onde os emigrantes são considerados traidores ao regime e poderão ser perseguidos. Outros 15 mil chegaram do Sudão, incluindo a região de Darfur, onde há anos se desenrola um genocídio que, de acordo com algumas fontes internacionais, já causou a morte a quase meio milhão de pessoas. Nestes dois casos, a difícil situação dos países de origem dos imigrantes ilegais, torna impossível o seu repatriamento. Apesar de Israel ter relações diplomáticas com a Eritreia, o Sudão é considerado um “país inimigo”.

Membros da oposição ao governo e ativistas de direitos-humanos (que por vezes são uma e a mesma coisa) têm-se manifestado contra a decisão do governo de expulsar os ilegais. Ou pelo menos pela forma como está a ser feita. Porém, não parecem manifestar a mesma preocupação pelos residentes israelitas dos bairros onde os africanos ilegais são já a maioria. Alguns protestos de residentes contra os imigrantes tiveram a participação de políticos, em especial de direita. Em discursos inflamados alguns apelidaram os imigrantes como "um cancro na sociedade israelita", "um virus", e outras expressões marcadamente racistas.

A intervenção dos poucos políticos que estiveram nas manifestações não resolveu nenhum problema dos residentes dos bairros, e causou grande prejuízo tanto à defesa dos direitos dos moradores israelitas como dos imigrantes ilegais. As infelizes manifestações racistas deram novo alento aos comentadores de tudo o que se passa em Israel, que como é hábito, se apressaram a gritar slogans como "Estado racista", "Estado apartheid" e outros apodos do género. Incluindo alguns judeus americanos associados à causa palestiniana que não dispensam qualquer oportunidade para caluniar Israel. As expressões clichés de comparação com o Holocausto, a "falta de compaixão dos que foram perseguidos" e outros termos de auto-flagelação da consciência judaica foram abundantemente usadas pelos "ativistas". Dos humanistas estrangeiros ou dos nacionais, não se ouviram manifestações de apoio aos moradores dos bairros.

Para ter êxito nesta missão, a luta terá de ser feita de forma pacífica, sem violência e manifestações racistas. Não se pode legitimar ódio ou quaisquer ações violentas contra os estrangeiros. Esta não é uma campanha contra os africanos, mas contra a falta de acção das autoridades que pela sua inação, deixaram chegar a situação a um nível gravíssimo. A preocupação primordial terá de ser pelos próprios cidadãos israelitas e isso não é racismo. Não há nada de sábio ou razoável em querer ser "humanista" e generoso com os estrangeiros, se dessa forma se causa prejuízo aos cidadãos do próprio país. Afinal, como ensina a sabedoria judaica "os pobres da tua cidade estão primeiro".

Ao mesmo tempo que as autoridades israelitas procedem à repatriação dos ilegais africanos – até agora foram repatriados menos de 300 sudaneses do sul – desde o início do mês entraram em Israel pelo menos 800 imigrantes ilegais, que se encontram atualmente detidos.

publicado por Boaz às 10:15
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Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Quando apenas resta a gestão dos estragos

Uma frota de barcos, carregada de ajuda humanitária para a desgraçada e bloqueada Gaza, a ser entregue por algumas centenas de ativistas dos direitos humanos. Esta seria a definição simples da "Frota da Liberdade". Porém, esta definição é também profundamente ingénua e distorcida. Em primeiro lugar, os organizadores da iniciativa pertencem a uma organização turca de direitos humanos, que a par de louváveis iniciativas de caráter humanitário no Terceiro Mundo, é suspeita de canalizar fundos para várias organizações envolvidas na Jihad, entre elas, o Hamas. Além disso, três dos turcos mortos na tomada de um dos barcos pelo exército de Israel haviam declarado querer morrer como mártires pela Palestina. Ou seja, esta era para eles nada menos que uma missão suicida.

Comprometido com um bloqueio naval e terrestre à Faixa de Gaza governada pelo Hamas, há mais de uma semana que Israel negociava com os organizadores da "Frota". O governo de Israel tentou convencer a organização da missão a canalizarem a ajuda para Gaza através da via terrestre, permitindo antecipadamente a verificação da carga para eliminar qualquer suspeita de tráfico de armas ou material que pudesse ser usado pelo Hamas contra Israel. Todas as vias de negociação foram recusadas pelos ativistas. Recusado foi também um pedido da família do soldado israelita Gilad Shalit, sequestrado em Gaza há quatro anos, para lhe ser entregue também um pacote de ajuda.

É óbvio que o resultado é trágico. Nove mortos (as fontes iniciais falavam em 15 ou mesmo 20). E várias dezenas de feridos. Israel reclama que agiu em legítima defesa, quando os soldados foram recebidos à bastonada e com facas pelos auto-intitulados tais defensores dos direitos humanos no navio "Mavi Marmara". Nos outros cinco barcos não houve violência. Os militares estavam equipados com espingardas de paintball e com pistolas a ser usadas apenas em última análise. Não esperavam tamanha resistência por parte dos integrantes da "Frota".

Qualquer que fosse o desfecho, ele nunca seria bom para Israel. E seria sempre muito conveniente para o Hamas. Na semana que antecedeu a tomada dos barcos, durante as discussões entre o governo de Israel e os organizadores da "Frota", o próprio Primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniyeh, declarou que o Hamas sairia vencedor deste episódio, fosse qual fosse o desfecho. Não é preciso ser profeta para fazer essa declaração. Se os barcos fossem deixados passar, isso significaria um furo no bloqueio israelita: uma vitória para o Hamas. Se os barcos fossem impedidos de chegar, em qualquer caso, Israel ficaria mal visto: uma vitória para o Hamas.

A "Frota" disfarçada de missão de ajuda humanitária foi uma perfeita e bem montada operação de Relações Públicas para o Hamas. É assim que se pode resumir, numa frase, toda esta história da "Frota da Liberdade". Os ativistas internacionais, embebedados por um ódio anti-Israel deixaram-se levar pelo engodo. Ou, sem qualquer vergonha, aderiram a ele deliberadamente. Israel não tinha como ganhar o confronto. Nesta, como noutras crises, resta fazer uma gestão dos estragos na imagem internacional de Israel. Mais difícil ainda com um temperamental Ministro dos Negócios Estrangeiros com fama de "falcão". Frente às embaixadas israelitas por essa Europa fora, multidões gritam contra Israel e a favor dos Palestinianos com os slogans do costume. Em Lisboa eram uns 50 gatos-pingados.

A causa ganhou mais alguns mártires. Alguns deles mártires por vontade própria. Todos com direito ao harém de 70 virgens prometido pelo profeta. Esta tarde, de regresso a casa, reparei que praticamente todas as lojas do mercado árabe da Cidade Velha de Jerusalém se encontravam fechadas. Um sinal de protesto pela tragédia ao largo de Gaza. De qualquer forma, algumas lojas estavam de porta entreaberta. Não fosse aparecer algum turista interessado na quinquilharia disponível. Imagino que haja festejos à porta fechada. Aos olhos do Mundo, Israel saiu (mais) mal visto. O Hamas cantará vitória.

PS – Atenções mundiais viradas para Israel e, a Turquia – pátria dos barcos e da maioria dos ativistas da "Frota da Liberdade" – teve um timing perfeito para bombardear posições dos seus opositores curdos no Curdistão Iraquiano. Não se esperam manifestações anti-turcas frente às respetivas embaixadas.

publicado por Boaz às 23:00
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Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Pegar o touro pelos cornos

Com frequência, falo com amigos em Israel sobre os erros da política externa de Israel. Em regra, a atitude tem sido a de lamentar a incompreensão da ONU e do resto do Mundo, e ainda mais a oposição sistemática face às acções militares de Israel, em especial a última operação em Gaza. Isto, sem nunca confrontar as acusações com a perspectiva israelita sobre os factos. E sem apontar a dualidade de critérios na permanente condenação de Israel e o injusto silêncio dos diplomatas face à situação em outros pontos do globo. Ou o silêncio quando as vítimas são israelitas.

A ONU realizou na semana passada a sua Assembleia-Geral. Dezenas de chefes de Estado e de governo discursaram no palanque da ONU. O presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad fez um discurso pejado de ataques a Israel. Dias antes, ainda em Teerão declarou-se orgulhoso de negar o Holocausto, como tem feito desde que foi eleito presidente pela primeira vez. No dia seguinte ao vergonhoso discurso de Ahmadinejad, foi a vez do Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu discursar. E que discurso!

No seu brilhante discurso, Benjamin Netanyahu fez exactamente isso. Como mencionou o PM israelita, a ONU foi fundada após a II Guerra Mundial precisamente para prevenir a ocorrência de tais eventos. "Nada minou mais essa missão, nada a impediu mais, que o assalto sistemático à verdade. Ontem o presidente do Irão esteve neste pódio vomitando o seu mais recente discurso anti-semita. Há uns dias, ele reivindicou que o Holocausto é uma mentira.", disse.

Apontou o dedo a Ahmadinejad, por repetir as habituais diatribes anti-semitas, ainda mais no palco da ONU. Elogiou os países que não compareceram na sala para escutar o ditador iraniano e os que abandonaram a sala quando ele começou a exibir o seu ódio. Foram apenas 12 países. Só doze. (A ONU tem quase 200 estados membros.)

"Não têm vergonha? Não têm decência?", Netanyahu interpelou os representantes dos países que testemunharam o discurso do presidente do Irão. Mostrando uma cópia da acta da Conferência de Wannsee, ocorrida em 20 de Janeiro de 1942, e a planta original da construção do campo de concentração de Auschwitz, perguntou "Isto são mentiras?". Mencionou os números tatuados nos braços dos sobreviventes: "São também mentira?".

A presença dos diplomatas e o seu silêncio durante o discurso de Ahmadinejad legitimaram as eleições fraudulentas que o reelegeram, deram a razão ao violento regime que matou dezenas de manifestantes que apelavam à democracia e à transparência após as eleições.

Netanyahu e Israel não são, nem podem pretender ser, embaixadores dos que anseiam pela democracia nos países muçulmanos. Não são uma voz aceite para falar em seu nome. Dos opositores encarcerados nas prisões dos Irão, do Egipto ou da Síria. Das mulheres brutalizadas, excisadas e segregadas como cidadãos de segunda classe ou, pior que isso, como animais. Das minorias religiosas perseguidas, como os xiitas e os cristãos na Arábia Saudita, os cristãos em Gaza ou os bahá'ís no Irão.

Porém, todas estas vítimas olham para as democracias ocidentais com esperança. Que os diplomatas e políticos das nações livres se indignem quando os inocentes são atacados, que defendam as suas causas na arena internacional. O "silêncio dos bons" perante um ditador descarado ladrão de eleições, assassino e mentiroso é uma desgraça no panorama da democracia mundial.

Durante mais de 20 anos, Portugal foi a única voz que falou em nome do povo de Timor-Leste, que defendeu os seus interesses e direitos na ONU. Contra todas as diplomacias do Mundo – incluindo a poderosa América – interessadas nas riquezas petrolíferas da Indonésia e na sua influência no mundo árabe.

Uma democracia reconhecida, com um assinalável registo de direitos humanos a nível internacional, Portugal não foi um dos países que se recusaram a dar o aval à ditadura iraniana e à sua doutrina. Dos 27 estados da União Europeia, apenas seis viraram as costas a Ahmadinejad. Da América, além dos EUA e Canadá, apenas a pequena Costa Rica teve a ousadia de ser corajosa.

O Brasil teve uma das mais desprezíveis demonstrações de falta de moral. O presidente brasileiro Lula da Silva, hoje considerado como um dos mais influentes líderes dos países em desenvolvimento, apertou a mão do ditador iraniano. Em Nova Iorque fez-se história. A ONU assistiu apática ao espezinhar dos valores da sua carta fundadora. Valeu Netanyahu, que teve a coragem de enfrentar o touro pelos cornos.

Apesar de não ter votado nele nas últimas eleições em Israel, senti um grande orgulho na sua frontalidade. Ainda que saiba que, de qualquer forma, não se esperará grande compreensão do resto do Mundo às suas palavras - a maior parte delas são demasiados inconvenientes. Ao menos que a estratégia diplomática israelita mude daqui em diante.

PS - Quem quiser assistir ao discurso de Netanyahu (em inglês, sem legendas), clique aqui.

publicado por Boaz às 14:00
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Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Parabéns amigo ditador

Há 40 anos, um coronel do exército da Líbia tomou o poder no país por uma Revolução a que chamam "o Grande Al-Fateh". Quatro décadas depois, Muammar Khadafi, o tal coronel golpista ainda controla os destinos da Líbia. Foram 40 anos marcados pela mais feroz doutrina laica alguma vez a tomar o poder num país muçulmano. O único avanço civilizacional a avançar na sociedade líbia - ao contrário da regra islâmica - foi mesmo a instauração de igualdade entre mulheres e homens. Ao menos isso temos de agradecer ao coronel. Porém...

Apoio ao terrorismo internacional, com a causa palestiniana à cabeça. Um atentado contra uma discoteca alemã onde morreram militares americanos e a bomba no avião da companhia PanAm que se despenhou em Lockerbie, na Escócia são outras das marcas do anti-americanismo militante que marcou o isolamento internacional da Líbia.

A exemplo de outros regimes ditatoriais em final de existência, como a União Soviética de Gorbatchov, a Líbia tenta a aproximação ao Ocidente. É um dos mais influentes países na diplomacia africana com um ou outro caso de sucesso na mediação de conflitos.

As suas reservas enormes de petróleo e gás tão apetecidas pela Europa parecem tornar os políticos e ainda mais as empresas europeias completamente indiferentes aos abusos cometidos pela Líbia. Ainda esta semana, o autor do atentado de Lockerbie foi recebido na capital líbia Tripoli por milhares de pessoas, depois de ter sido libertado de uma cadeia inglesa (alegadamente para facilitar um negócio multimilionário da petrolífera inglesa BP). Dai que as monumentais celebrações dos 40 anos da Revolução Líbia contem com a presença de altos dignitários europeus. O Primeiro Ministro Silvio Berlusconi, de Itália – a Líbia foi colónia italiana – e o português Luís Amado são alguns dos amigos de Khadafi.

É vergonhoso que um país democrático como Portugal se faça representar ao mais alto nível para festejar a ascensão ao poder de um ditador. Como a Líbia não é a única ditadura que merece ser celebrada, espera-se que Luís Amado ou até o Primeiro-Ministro José Sócrates estejam no próximo 9 de Setembro, em Pyongyang entre milhares de alegres criancinhas norte-coreanas – bem alimentadas para a ocasião – que exultarão pela gloriosa independência do país e subida ao poder do antigo "Grande Líder" Kim il-Sung.

A 7 de Outubro estarão na China, para festejar os 59 anos do início da invasão chinesa do Tibete. Como a vergonha não combina com os negócios e tantas vezes faz esquecer a história, até é possível que no próximo 7 de Dezembro se reúnam na Indonésia a lembrar a gloriosa a patriótica invasão de Timor-Leste, ocorrida há 34 anos. E por aí sucessivamente.

publicado por Boaz às 20:20
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Domingo, 30 de Agosto de 2009

Duas medidas

Em Israel, há poucos anos, um programa da televisão israelita foi considerado ofensivo para a comunidade cristã. Estoirou na altura uma polémica com o Vaticano. O então Primeiro-Ministro Ehud Olmert criticou o programa, sem prejuízo para a liberdade de expressão.

Alguém comentou assim o último artigo: "É que, na Suécia, a liberdade de expressão e publicação é direito sagrado. Não cabe a nenhuma autoridade criticar a publicação de um artigo de jornal. Da mesma forma que o Primeiro-Ministro da Dinamarca se recusou a pedir perdão pela publicação das caricaturas de Maomé, também as autoridades suecas têm o dever constitucional de se abster de condenar o que os jornais publicam. Simples assim!"

Na verdade, não é tão "simples assim". No episódio das caricaturas de Maomé na Dinamarca, depois de um boicote islâmico, das ameaças de morte e de bombardeio de negócios e embaixadas dinamarquesas, de centenas de manifestações que fizeram dezenas de mortes por esse mundo (islâmico) fora, o governo do país tentou limpar a cara pela afronta à dignidade muçulmana, anunciando que iria patrocinar a construção de uma enorme mesquita em Copenhaga, a capital do país.

Na Suécia, as autoridades do país, que reclamam que a liberdade de imprensa tem de ser absoluta, exatamente na altura do caso dos cartoons de Maomé, o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia enviou uma carta especial a um líder religioso do Iémen (um país islâmico), pedindo desculpas pela publicação das ofensivas caricaturas ao profeta. Talvez tenha havido alguma brecha no "dever constitucional de se abster de condenar o que os jornais publicam"?

Ou seja, existe do lado sueco uma clara dualidade de critérios. Sejamos francos, porquê esta dualidade de critérios? Os suecos – representados pelos seus media e a sua classe política – sabem que não precisam de ter medo dos Judeus (apesar do eterno mito de que os Judeus controlam todo o planeta, desde os media ao comércio). Não precisam de temer que os Judeus bombardeiem as suas embaixadas. Que estoirem os seus hotéis, restaurantes e sistemas de transporte. Que os seus aviões sejam desviados e sejam derrubados os seus arranha-céus. Que os seus turistas e jornalistas em Israel sejam raptados e assassinados. Tudo como represália de algum caso de anti-semitismo que aconteça no seu país. O medo, esse, eles têm-no dos muçulmanos. E o medo é uma força muito poderosa.

Como disse um comediante norueguês, depois de queimar ao vivo algumas páginas do Antigo Testamento: "Eu só não queimei o Corão porque quero sobreviver mais do que uma semana". É de mau gosto, mas talvez valesse a pena pensar nas palavras do artista...

PS – Alguns dias depois da publicação da notícia, o próprio editor do jornal disse que a peça não apresentava qualquer fonte credível. Ainda assim, disse haveria razão para Israel investigar as "suspeitas". Benny Dagan, o embaixador israelita em Estocolmo, respondeu: "Tenho uma sugestão para si. Porque você não investiga porque a Mossad e os Judeus estiveram por detrás do atentado às Torres Gémeas? Porque não investigamos porque os Judeus estão a espalhar SIDA nos países árabes? Porque não investigamos porque os Judeus mataram crianças cristãs para fazer matzot (pão ázimo) na Páscoa?".

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Quarta-feira, 26 de Agosto de 2009

Libelos de sangue e conspirações

Na Idade Média, durante a epidemia da Peste Negra na Europa, em muitos lugares do continente, os Judeus foram acusados de envenenar os poços. Na altura pensava-se que a doença era transmitida pela água, quando na verdade era através das pulgas dos ratos. A cada acusação, em cada local, as autoridades civis e religiosas cristãs prendiam um certo número de Judeus que eram mortos. Nos episódios mais “misericordiosos”, perante a ameaça da morte, os detidos tinham a opção da conversão à fé cristã.


Pintura que retrata o martírio de Simão de Trento, 1475 |
Capa de uma edição em espanhol de Os Protocolos dos Sábios de Sião
(a capa retrata que os Judeus controlam o dinheiro, a Igreja, a Maçonaria, o Comunismo e... o Nazismo) |
Embate do 2º avião no World Trade Center em 11 de Setembro de 2001, outra "obra da Mossad".

Também na época medieval surgiram acusações de assassínios rituais judaicos. Neles, inocentes criancinhas cristãs eram degoladas e o seu sangue aproveitado para fazer a matzá, o pão ázimo de Pessach, a Páscoa Judaica. Um dos casos mais famosos foi o de Simão de Trento, que seria depois canonizado. Acusações deste teor propagaram-se por toda a Europa ao longo dos séculos, incluindo no século XX, com o famoso caso Beilis, em 1911, na Rússia Czarista. A acusação dos assassínios rituais está tão enraizada na sociedade russa que ainda há poucos anos, o próprio patriarca da Igreja Ortodoxa Russa fez referências e esses libelos de sangue, acreditando fielmente na veracidade das acusações.

Ainda hoje, é possível encontrar abundante literatura que defende histórias deste teor em muitos países árabes, além de numerosos filmes e séries de televisão onde os mitos são encenados. Além destas, a fantasia do plano judaico para dominar o Mundo – que atingiu o seu apogeu na obra Os Protocolos dos Sábios de Sião – continuam a ter aceitação em muitas sociedades, da populaça árabe a alguns intelectuais europeus. A Internet, obviamente possibilitou a dispersão global deste tipo de delírio, havendo milhares de sites e blogs sobre o assunto, ligados desde a canalha neo-nazi europeia e americana, até aos islamo-fascistas. Lojas online vendem CDs e livros sobre o assunto.

Em 2001, após os ataques do 11 de Setembro, depressa apareceram teorias da conspiração que ligavam a Mossad (os Serviços Secretos israelitas) ao planeamento e realização do ataque terrorista. De nada valeram os vídeos divulgados por Osama bin Laden e seus compadres a vangloriar-se pela sua estrondosa “vitória contra o Satã americano”. Ainda hoje, qualquer sondagem num país árabe sobre a autoria dos ataques dará como resposta vencedora a Mossad ou uma aliança desta com a sua congénere americana, a CIA. Bin Laden, esse é o herói mais popular dos mesmos questionados.

Esta semana, na Suécia, o jornal sensacionalista Aftonbladet, um dos mais vendidos do país, publicou um artigo onde acusava Israel de raptar palestinianos e os matar a fim de traficar os seus órgãos. Alegadas testemunhas contaram histórias de familiares que após alguns dias desaparecidos, reapareceram mortos e com marcas de lhes terem sido retirados órgãos. Oportunamente, a história era relacionada com a recente prisão de um judeu americano acusado de traficar órgãos a partir de Israel (pagava 10 mil dólares a um dador em Israel e vendia-os por um valor muito mais alto nos EUA).

Escandalizado por este novo libelo de sangue, o governo de Israel exigiu uma tomada de posição do governo sueco, "uma condenação formal e não um pedido de desculpas" pelas alegações publicadas pelo jornal. A resposta sueca foi peremptória: "não interferimos na liberdade de expressão". Ou seja, não interessa aquilo que o tal jornaleco escreveu, já que a liberdade de expressão e da imprensa é algo absoluto e ilimitado.

Face à posição sueca, começaram a ser tomadas algumas medidas. O ministro do Interior israelita, Eli Yishai, disse que atuaria no sentido de evitar que jornalistas do diário sueco recebessem permissões de trabalhar em Israel. Nem a propósito, logo no Domingo, dois jornalistas do mesmo Aftonbladet dirigiram-se ao Gabinete de Imprensa do Governo (GIG) em Jerusalém requerendo acreditação de imprensa. O diretor do GIG instruiu os seus empregados para atrasar o maior tempo possível previsto na lei – até 3 meses – para rever o pedido dos jornalistas suecos.

De acordo com o diretor do GIG, Danny Seaman, os tais jornalistas reagiram mal quando foram informados de que coisa iria demorar mais do que é costume. Os jornalistas receberem uma explicação da demora: há uma série de verificações a serem feitas, incluindo – disse em tom de piada – testes de sangue, para verificar os tipos de sangue dos repórteres e a sua elegibilidade para transplante de órgãos. Outros apelaram a um boicote a companhias suecas como a IKEA (que tem apenas uma mas bem sucedida loja em Israel) ou a Volvo. Esqueceram-se dos eletrodomésticos Electrolux, dos carros Saab, dos telemóveis Ericson, da farmacêutica AstraZeneca ou das roupas H&M.

Podem alegar que a reação israelita terá sido exagerada. Afinal, quantas barbaridades e mentiras são escritas diariamente nos jornais do mundo inteiro? Até admito que nós, Judeus, somos um pouco histéricos quando falam mal de nós. Porém, há que lembrar que as feridas causadas ao longo dos séculos por acusações como estas são muitas e bem profundas.

PS – Mais uma vez, depois do infeliz episódio do jogo de ténis da Taça Davis há poucos meses em Malmö, a Suécia escreve uma triste página na sua história recente. Sintomático de um futuro promissor...

publicado por Boaz às 20:35
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Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009

O moralista

O primeiro-ministro turco Recip Erdogan envolveu-se numa discussão com o Presidente israelita Shimon Peres num debate no Fórum de Davos, na Suíça. Veio à baila a situação em Gaza. Shimon Peres tentou defender a posição de Israel o melhor que pôde, tentando fazer o turco imaginar os mísseis do Hamas a cair em Istambul e não em Sderot. "Vocês estão a matar pessoas...", foi o desabafo de Erdogan à operação israelita, antes de abandonar a sala da conferência.

Sendo a Turquia herdeira do genocídio de mais de 1,5 milhões de Arménios em 1917 - e que oficialmente continua a negar (e ai de quem se atrever a admitir em público a culpa turca!); matou milhares e expulsou outras centenas de milhar de cipriotas-gregos do Norte de Chipre, e que só nas últimas décadas matou mais Curdos do que Israel matou palestinianos desde 1948 - a quem é que este senhor quer dar lições de moral?

Talvez para o PM turco, os Arménios, os Curdos e os Cipriotas Gregos não sejam pessoas, daí que quando os Turcos os matam, não há que sentir remorso.

publicado por Boaz às 01:03
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Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

BOMBA-im

É irónico o nome da cidade. É trágico o que está a acontecer – até ser libertado o último refém. Porém, que ninguém sonhe que algo irá mudar depois deste dia. É só mais um dia de manchetes de jornais, de palavras nervosas nas chancelarias internacionais, de vazios votos de condolências e de inconsequentes declarações de apoio aos atacados... Nada mudará. Como praticamente nada de essencial mudou depois do 11 de Setembro de Nova Iorque, do 11 de Março de Madrid, dos ataques no metro de Londres, de Istambul, de Bali ou das centenas de outros atentados. Afinal, voltámos ao mesmo de antes. Ou pelo menos, habituámo-nos a viver neste "mundo novo", em que o terror é apenas mais uma das normalidades. O mundo não sabe – ou simplesmente não quer – distinguir entre o bem e o mal.

Não são só as centenas de hóspedes dos hotéis, ou o rabino Gavriel Holtzberg e a esposa no Centro Chabad Lubavitch que estão reféns (hoje houve rezas especiais por eles na yeshiva). O Mundo todo está refém do terrorismo. A Europa, os Estados Unidos, a Índia, todas as democracias do planeta têm um medo de morte do terrorismo islâmico. Daí o silêncio e o "voltar ao normal" a que assistiremos já daqui a uns dias. Engolir as bombas e seguir em frente. Nada mais.

A fera, cada vez se fortalece mais, porque ninguém tem coragem de lhe fazer frente. E quem ousar dizer alguma coisa, terá uma fatwa apelando à sua morte e centenas de voluntários candidatos para a fazer cumprir. Se os Estados Unidos lançam uma guerra no Afeganistão ou no Iraque, se bombardeiam lugares suspeitos na Somália, no Sudão ou na Líbia; se Israel dá caça aos terroristas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, ou se destrói uma central nuclear em construção na Síria, os europeus (ditos) defensores da liberdade e dos povos oprimidos, arrancam os cabelos e fazem manifestações contra os EUA e Israel. Boicotes e marchas.

As respostas americanas e israelitas foram brutais e injustificadas, ou na melhor das hipóteses "desproporcionais". O terrorismo, essa "arma dos pobres" tornada aos poucos legítima e compreensível, é simplesmente a resposta desses "pobres sem outra alternativa" face ao domínio brutal do capitalismo e outros fantasmagóricos ismos usados pelos defensores dos pobrezinhos...

O Irão continua a desenvolver o seu programa nuclear, o Hezbollah continua a aumentar o seu arsenal militar, o Hamas encheu a fronteira que separa Gaza do Egipto com centenas de túneis por onde passa armamento cada vez mais sofisticado, mísseis caem diariamente no Sul de Israel, junto à Faixa de Gaza. Ninguém faz nada. Ninguém permite que alguma coisa seja feita. A menos do que inapta Agência Internacional de Energia Atómica ignora a ameaça iraniana. A velha e caduca ONU – não sem o apoio de muitas democracias europeias, que se alinham com os exemplares regimes árabes e africanos – aprova resolução atrás de resolução contra Israel. Só esta semana foram 20, para celebrar como deve de ser o "Dia de Solidariedade com a Palestina", exemplarmente celebrado pela ONU. Contra o Líbano, por deixar à solta o Hezbollah; contra o Egipto, por não controlar o tráfico de armas para Gaza; contra a Síria, por manter o apoio ao Hezbollah e desestabilizar o Líbano; contra o Irão, governado por um lunático de tendências genocidas e atómicas; contra a Autoridade Palestiniana, por nunca ter cumprido um único ponto dos acordos de paz assinados com Israel... nada, nem sequer uma palavra contra.

A máxima, normalmente atribuída ao filósofo Edmund Burke: "A única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens de bem não façam nada", não poderia ser mais adequada ao tempo em que vivemos.

publicado por Boaz às 01:10
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Segunda-feira, 3 de Março de 2008

Moralidade à distância

Israel invadiu Gaza. Sim, a operação "Inverno Quente" é a manchete da semana. Até agora já se contam mais de 100 mortos árabes. Os soldados israelitas mortos já são pelo menos três. Desproporção de números e de meios? Sim. Os mortos em Gaza são, na maioria, operacionais do Hamas prontos a entrar no Paraíso e a receber o seu carregamento de virgens.

Quem ouviu falar dos mísseis Qassam que caem em Sdetot, Netivot ou Ashkelon? As pobres e indefesas crianças e mães palestinianas gritam mais alto frente aos microfones dos média internacionais, ávidos de "imagens choque" para abertura de telejornal. As crianças, em Gaza e em Sderot são igualmente inocentes, mas não os seus pais. Os pais de Gaza elegeram – viva a democracia! – o Hamas. E ao Hamas sacrificam os filhos. Sacrifício em troca de virgens, ou pelo menos, da morte de mais algum israelita.


Mísseis Qassam lançados de Gaza para Israel, 22 Maio 2007. Foto: Emilio Morenatti.

Quantas das crianças árabes desgraçadas – sim, é uma desgraça que morram crianças – vítimas da aviação israelita, não morreram por serem usadas como "escudos humanos" pelos terroristas do Hamas? Em troca do paraíso prometido aos heróicos shahada, os mártires. Tal como lhes é injectado, desde cedo, pela TV oficial e pelo sistema de ensino palestiniano. Aliás, seja pela TV do Hamas ou da Autoridade Palestiniana, sem grandes diferenças. Ou simplesmente são obrigadas a ser "escudos humanos" frente ao convincente cano das kalashnikov dos terroristas. Por uma notícia trágica, por uma oportuna foto sangrenta, bons meios de propaganda, o terror não evita imolar os seus filhos. Perdão, os filhos dos outros.

O Hamas reina em Gaza. Pensou que reinaria sem oposição, instaurando o terror como política oficial a partir da Faixa e expandindo o pânico para o Sul de Israel. No pânico da morte pela mão da aviação israelita, a liderança do Hamas abriga-se nos bunkers. Os líderes fogem, não se imolam. Afinal a história do paraíso virginal oferecido aos mártires é apenas engodo para os pobres de espírito.

Não se exija de Israel que se contenha face às ameaças a que estão sujeitos os cidadãos das regiões próximas de Gaza. Os Europeus, há muito que se esqueceram do terror da guerra à sua porta. Distantes, no conforto dos seus sofás, ou das poltronas dos parlamentos. Ignorantes, de visão toldada pela miopia jornalística, estão completamente alheios à realidade em Israel. Em Lisboa ou Bruxelas não se escutam as ameaças diárias do Hamas, do Hezbollah ou do Irão.

Israel é o culpado, o cruel, o matador de crianças, o tanque imponente contra a pedra na mão de um menino. Slogans gastos pelo uso, mas que continuam a servir. A ser servidos às massas. A Europa, na sua bendita serenidade, e a caduca ONU, seguem implorando "piedade!" em direcção a Israel. De longe.

publicado por Boaz às 21:55
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Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

Sinistra trupe

Fidel, Ahmadinejad e três palhaços latino-americanos. Todos armados em justiceiros e redentores dos pobres. A imagem diz “Aliança pela Justiça”. A verdade é que em nenhum dos países governados por estes senhores se vive num estado de justiça.

A Venezuela há décadas que vive numa situação de enorme divisão social. Nada de novo para a América Latina. Os multimilionários e os miseráveis, lado a lado. Apenas com os altos muros dos condomínios privados e os vidros fumados dos carros topo-de-gama a separá-los. A promessa de Hugo Chavez de instaurar a justiça está longe do horizonte da Venezuela. A mentira chavista continua a enganar os ingénuos venezuelanos. Porém, a derrota num referendo recente parece ter furado as pretensões de eternidade de Chavez.

Ahmadinejad, o anão iraniano com aspirações nucleares, tomou como missão pessoal a eliminação de Israel do mapa. Os seus berros anti-Israel, a conferência de negação do Holocausto e outras demonstrações do seu elevado nível intelectual, são páginas de jornal todos os dias. Com o presente caso do filme holandês sobre o Corão, o regime iraniano também já mostrou as garras e já soaram as ameaças veladas à Holanda pelo atrevimento anti-islâmico.

Fidel, o pontífice dos ditadores, mantém a sua Cuba atrasada e por sua teimosia, isolada. A queda que sofreu durante um comício há poucos anos e a doença têm-no mantido afastado do contacto directo com as massas, mas o regime não parece cambalear. O irmão de Fidel, Raul Castro está destinado a suceder-lhe nos destinos de Cuba.

Ivo Morales, o índio presidente da Bolívia, herdou o mais pobre país da América do Sul. A sua política de nacionalizações das essenciais indústrias mineira e petrolífera só fizeram piorar o já triste cenário social boliviano.

O quinto elemento é o mais recente dos paradigmas de mau governo da América Central. Daniel Ortega, antigo ditador sandinista da Nicarágua, regressou ao poder da mais falida das Repúblicas das Bananas situadas entre o México e a Colômbia. Um regresso à miséria da utopia socialista centro-americana.

Perguntem a cada um dos súbditos – mentiria se lhes chamasse “cidadãos” – de qualquer de um destes países, o que acham da situação em que vivem. Se tivessem a mínima hipótese de se expressarem, sem medos de tenebrosas polícias secretas e aparelhos militares repressivos, a última coisa que diriam é que vivem sob o domínio da justiça. Esse etéreo conceito tão apregoado pelos seus líderes gritado a par com a luta contra o malévolo gigante americano.

O desejo de justiça seria certamente o mais ansiado dos seus sonhos. Um sonho que nunca alcançarão pelos senhores que os governam.

publicado por Boaz às 21:09
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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008

Bush e 'bushá'

O presidente americano George W. Bush esteve esta semana em Israel. A sua visita de três dias, na sua visão, destinou-se a desencalhar o processo de paz entre Israel e os Palestinianos. Na agenda de Bush estava exercer pressão sobre Israel.

Essa parece ser a regra da comunidade internacional: pressionar Israel. Nesta luta dual, Israel tem de dar, os Palestinianos têm de receber. E seguir pedindo, pela sua já conhecida táctica terrorista. Frente ao medo das bombas, a resposta é ceder. Pensando que, uma vez saciada a fera, terminarão as suas ameaças e ataques. Ingenuidade absoluta.

Israel é o parente pobre da política internacional. Mais nenhum país do planeta sofre a ingerência estrangeira na sua política, como Israel. Todos os outros países são vistos como absolutamente soberanos, por isso não há que interferir. A não ser que o sangue jorre e os tímpanos se rompam com os gritos que bradam da Birmânia ou do Sudão. Aí, convenhamos, não dá mesmo para virar a cara. Umas manifestações aqui, uns apontares de dedo acolá. Até a coisa amansar ou outro assunto mais mediático abafar os gritos. Israel, pelo contrário, é a todo o momento, o irmão mais novo a quem todos acham que podem dar conselhos, impor práticas.

As Nações Unidas têm na forja uma nova conferência internacional sobre o racismo, Durban II. Israel e vários outros países ocidentais já reclamaram que não permitirão uma repetição do que se passou na primeira conferência de Durban, marcada por um vergonhoso e ataque árabe e da extrema-esquerda contra Israel. Na altura, numa cimeira sobre racismo, Israel, os judeus e o sionismo foram atacados da forma mais implacável desde a Segunda Guerra Mundial. Ainda mais, de um modo "limpo" e "legítimo", com a autoridade emanada do alto do palanque.

Um cinismo manifesto. Uma evidente falta de vergonha na cara. Em hebraico, "bushá".

PS – Durante a visita de W. Bush a Jerusalém, a cidade andou caótica. Um dos maiores e mais caros hotéis da capital israelita, o histórico King David, foi reservado exclusivamente para a comitiva presidencial. As ruas do centro da cidade estiveram encerradas ao tráfego particular, numa distância de cinco ruas de cada lado da rua por onde passasse o presidente. Não passou de um grande e caro espectáculo de dois orgulhosos e desavergonhados animadores de marionetas, Bush e Olmert, que tentam desesperadamente mostrar que fazem alguma coisa que agrade aos seus votantes, antes de deixarem o controle do teatro.

publicado por Boaz às 12:13
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Domingo, 7 de Outubro de 2007

A estrada da Birmânia

Depois dos protestos pela democracia em Rangum, brutalmente reprimidos pela sinistra polícia militar birmanesa, o Mundo parece ter despertado para o drama que há décadas se vive na Birmânia.

Aquele que os ocidentais raramente viam pelas revistas de viagens como um misterioso país de serenos monges budistas e magníficos pagodes dourados, apenas visitado por alguns turistas afoitos e bem recheados de dólares, é na verdade um dos mais terríveis e sanguinários infernos do planeta.

O país é governado por uma sádica "Junta" militar que teima em não aceitar os resultados eleitorais das últimas eleições democráticas que elegeram a líder da oposição Aung San Suu Kyi, sujeita há vários anos a um regime de prisão domiciliária.

Até há umas semanas era apenas mais um dos regimes ditatoriais esquecidos, ou melhor, coniventemente ignorados, como a China ou a Arábia Saudita. Quando o sangue jorra para as câmaras, torna-se difícil manter o silêncio. E virar a cara. Daí as manifs por todo o Mundo.


Manifestação na Malásia

Israel, tal como muitos países ocidentais, tem relações diplomáticas com a Birmânia. Hoje, a par das relações diplomáticas, existem relações económicas, em especial por numerosas empresas de armamento israelitas a fornecerem o regime militar birmanês. É óbvio que Israel não tem o exclusivo da venda de armas à Junta, mas de acordo com a publicação Jane's Intelligence Weekly, "empresas de segurança" israelitas são suspeitas de ter vendido Uzis e partes de espingardas de assalto Galil ao governo de Rangum. Ainda, mercenários israelitas são referidos como treinado a repressiva força policial do regime.

Até aos anos 70, Israel era conhecido entre os estados do Terceiro Mundo como o pequeno país que tinha feito florescer o deserto. Emissários de kibbutzim, as famosas cooperativas agrícolas israelitas, apoiavam projectos agrícolas por todo o continente africano. Depois da Guerra do Yom Kippur, o país abandonou os seus ideais agrários e a presença dos emissários agrícolas enviados pelo estado foi substituída pelas empresas de armamento e os mercenários.

Mercenários israelitas são conhecidos por ter trabalhado a favor de regimes autoritários em Angola, Argentina, Chile, Nicarágua, Congo ou Serra Leoa. A guarda pessoal de Manuel Noriega, ditador do Panamá, era dirigida por Mike Harari, um ex-agente da Mossad. São conhecidas também as ligações dos serviços secretos israelitas à antiga polícia do último Xá da Pérsia. Na Colômbia, o "rei dos mercenários" Yair Klein e seus capangas treinaram os esquadrões da morte da extrema-direita, cartéis de droga e outras organizações de terrível fama, dispostas a pagar milhões pelos seus serviços.

Se comparada com outros apoios, como o da petrolífera francesa Total, que explora campos de gás natural no sul da Birmânia no valor de muitos biliões de euros, é verdade que a parte do apoio israelita nesta equação é ínfima. De qualquer forma, a má fama que dá ao país não é negligenciável. Para lá da ainda mais pertinente questão moral.

O presidente Nicolas Sarcozy terá apelado às multinacionais francesas para congelarem investimentos na Birmânia, como retaliação à violência do regime. Vamos a ver se é só lábia de ocasião. Por enquanto, para a França, o sangue birmanês é mais amargo que o dos africanos, vítimas dos vários ditadores apoiados por Paris. Veremos se a influência da Total não adoça as bocas do Eliseu.

Israel é responsável por 10 a 12% das vendas de armamento a nível mundial. E, é evidente que esses negócios são feitos em virtude do lucro e de algumas considerações políticas. Se por um lado essas empresas com a anuência do governo não fazem, por razões claras, negócios com países árabes ou muçulmanos. Por outro, o governo deixa de ter legitimidade de criticar o apoio de empresas estrangeiras, russas ou chinesas, com o consentimento dos seus governos, a regimes como o Irão ou a Síria. Isto chama-se realpolitik.

Afinal, não existem princípios morais no negócio da guerra. Há interesses, nada mais. Israel faz os seus negócios de acordo com esses interesses e por essa via, perde a face para poder criticar com o argumento da moralidade, outros estados que fazem os seus negócios com os inimigos de Israel.

Custa afirmá-lo, mas no final, o sangue birmanês é tão vermelho como o israelita.

Nota: Estrada da Birmânia é o nome de uma rota construída pelas tropas israelitas, para abastecimento de Jerusalém, cercada por tropas árabes, durante a Guerra da Independência. O nome foi retirado da famosa estrada construída nas montanhas da Birmânia para permitir o abastecimento das tropas que combatiam os japoneses no sudeste asiático, durante a II Guerra Mundial.

publicado por Boaz às 15:32
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

O arco da crise

Com frequência, analistas, jornalistas e políticos referem-se à resolução do conflito entre Israel e os Palestinianos como a chave para a estabilização do Médio Oriente e daí, de todo o Planeta.

Recentemente, o Iraq Study Group (ISG) liderado por James Baker, antigo Secretário de Estado americano foi incumbido pelo presidente Bush de encontrar formas para vencer a guerra no Iraque, de uma forma mais rápida e menos custosa. Em sangue e dólares. A conclusão do ISG foi: "a resolução a disputa Israel-Palestina" é a chave para ganhar a guerra no Iraque.

A ideia da centralidade do conflito Israel-Palestinianos não é exclusiva de James Baker e seus associados. Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU partilha da mesma ideia. E também, aparentemente, o seu sucessor Ban Ki-Moon, que recentemente disse a um jornal sul-coreano: "Se as questões no conflito entre Israel e a Palestina [sic] forem bem, outras questões no Médio Oriente... irão da mesma forma ser resolvidas."

Será o conflito entre Israel e os Palestinianos assim tão central no Mundo e mesmo no Médio Oriente?

Façamos então um passeio pelo Grande Médio Oriente, ao qual Tony Blair chamou "o arco da crise". Estendendo-se do Atlântico ao Índico, compreende 22 países. Dezasseis deles árabes, mais a Turquia, Arménia, Azerbeijão, Israel, Irão, Afeganistão e Paquistão. Todos foram fundados após o desmembramento de algum império colonial. Como primeiro sinal de instabilidade, saiba-se que nenhum destes estados goza de fronteiras inteiramente reconhecidas. Todos têm diferendos fronteiriços com um ou mais vizinhos, reclamando partes dos seus territórios. A maioria já travou guerras em consequência dessas reclamações.

Comecemos a digressão pelo Afeganistão. Reclama a soberania sobre a paquistanesa Província da Fronteira Noroeste. Na década de 1960, os dois países travaram uma série de guerras fronteiriças pelo controle da região. O Irão, por seu lado, insiste no direito de supervisão no oeste do Afeganistão baseado no Tratado de Paris de 1855. Iranianos e afegãos disputam ainda as águas de três rios fronteiriços, o Hirmand, o Parian e o Harirud.

O Paquistão desde 1947 mantém uma longa disputa territorial com a Índia pelo controle de Caxemira, desde a divisão do antigo Império Britânico da Índia, em dois estados, em 1947. Caxemira foi a origem de três guerras em larga escala e numerosos episódios de violência na fronteira entre os dois países. É responsável ainda pela corrida de ambos às armas nucleares, além de centenas de ataques terroristas, sobretudo na Caxemira indiana. Além de Caxemira, o Paquistão mantém uma disputa com o Irão sobre águas territoriais no Mar Arábico e sobre a nacionalidade de várias tribos de etnia Baluch que vivem dos dois lados da fronteira entre os dos países.

Numa escala muito maior, o Irão e o Iraque travaram uma série de guerras desde 1936 pelo controle o estuário do Shatt al-Arab. Um tratado de paz foi assinado em 1975, mas em 1980 Saddam Hussein invadiu o Irão, começando uma guerra de oito anos e que fez mais de um milhão de mortos nos dois lados. Desde a deposição de Saddam em 2003, o Irão redesenhou a fronteira a seu favor. E continua a reclamar o direito de supervisão sobre santuários xiitas no Iraque como Samara ou Karbala.


Irão, Esquadrão de fuzilamento nos primeiros anos da Revolução Islâmica.
Foto de Jahangir Razmi, fotógrafo iraniano. Prémio Pulitzer

A sul, e desde 1971, o Irão reclama dos Emirados Árabes o controle de três estratégicas ilhas no estreito de Ormuz, por onde flúi diariamente metade do petróleo do Mundo. A norte, luta com o Turquemenistão, o Kazaquistão, o Azerbeijão e a Rússia pelo Mar Cáspio. Os vizinhos pretendem a divisão deste mar interior conforme a extensão das suas fronteiras. Para reclamar a divisão equitativa que duplicaria a sua extensão do Cáspio, o Irão mantém desde 1995 uma marinha de guerra e impede as petrolíferas internacionais de explorarem gás e petróleo nas águas azeris e turcumenas que Teerão reclama como suas. Teerão tenta ainda manter um controlo da província de Khuzestan, rica em petróleo. A região teve uma maioria de população árabe até à década de 1940. Desde então tem sido sistematicamente "persianizada." Recentemente, várias tribos árabes residentes perto da fronteira iraquiana foram expulsas e substituídas por habitantes persas do centro do Irão.

O Irão é visto pelos países árabes como uma ameaça directa, em especial os Estados do Golfo. No entanto, mesmo entre estes, as relações não são amistosas. Apesar das relações tribais entre as famílias reais da região, a Arábia Saudita travou em 1955 uma guerra com Omã pelo controle do oásis de Buraimi, alegadamente rico em petróleo. Décadas de negociações não foram suficientes para se chegar a um acordo. No ano passado os Emiratos Árabes renunciaram a um tratado de 1974 com a Arábia Saudita, adivinhando-se uma terceira reclamação sobre o oásis.

Desde o final da década de 1990, o Qatar luta com os sauditas pela região de Khor al-Udaid, rica em petróleo. Em 2000, os sauditas anexaram a área à força, cortando assim a fronteira do Qatar com os Emiratos. O Qatar reclama do vizinho Bahrain o controle das ilhas de Hawar, travando uma guerra naval em 2001.

Entre a Arábia Saudita e o Kuwait, alegadamente os mais próximos dentre os Estados do Golfo, mantém-se o diferendo acerca da demarcação de fronteiras na chamada "Zona Neutra." Após a Guerra do Golfo de 1992-93, a fronteira do Kuwait com o Iraque foi estabelecida. Todavia, mesmo o parlamento eleito do Iraque não abdicou ainda da reclamação de soberania sobre as ilhas kuwaitianas de Warbah e Bubiyan e da parte sul dos campos petrolíferos de Rumailah atribuídos ao Kuwait pela ONU. A desconfiança em relação a Bagdade, levou o governo do Kuwait a erguer fortificações, cercas electrificadas, armadilhas anti-tanque e a implantar uma “terra de ninguém” que se estende numa faixa de 15 quilómetros. A Arábia Saudita tem em construção estruturas similares na sua fronteira com o Iraque.

A dinastia hashemita da Jordânia mantém há décadas uma reclamação de suserania sobre a província saudita de Hejaz, onde se situam as cidades santas de Meca e Medina, despojada do controle das tribos hashemitas em 1924 pelas tribos que compõem a actual família real saudita. A cada onda de pressão sobre a casa real saudita pela Al-Qaeda ou por militantes xiitas, de Amã ouvem-se apoios a um Hejaz independente.

O Iémen continua sem conseguir traçar a sua fronteira com Omã ao longo do Golfo de Hauf e no deserto de Rub al-Khali, “o vazio da Arábia”. Em 1999 travou uma guerra com a Eritreia pelo controle das ilhas Hanish, um arquipélago estratégico na entrada do Mar Vermelho.

Desde os anos de 1940, o Iraque e a Síria mantêm um diferendo com a Turquia pela divisão das águas do Rio Eufrates. Ainda, tanto a Síria como o Iraque reclamam a província turca de Iskanderun, onde os Árabes compõem 30% da população. A Turquia reclama o direito de supervisão do Norte do Iraque baseado no Tratado de Lausanne de 1923, em especial sobre as regiões petrolíferas de Mossul e Kirkuk e tem treinado e armado grupos tribais turcomanos na região. Na década de 1990, a Turquia actuou militarmente na região na sua guerra contra a milícia marxista curda do PKK.

A Síria reclama a totalidade do Líbano como parte da "Grande Síria", da qual reclama também fazerem parte a Palestina histórica e parte do Norte da Jordânia. Em quase 30 dos 50 anos do Líbano independente, a Síria manteve aí um exército de ocupação e esteve activamente envolvida nas três guerras civis libanesas. A Síria foi em grande parte responsável pela morte de mais de 100 mil libaneses e pela fuga de outros dois milhões e meio. No ano passado, a Síria e o seu maior aliado, o Irão, encorajaram o Hezbollah a travar uma guerra com Israel. Nos últimos anos, Damasco tem sido responsável por grande parte da agitação social e política no Líbano e por uma série de assassinatos políticos, incluindo o primeiro-ministro Rafik Hariri.

O Egipto, o maior dos estados árabes, mantém divergências fronteiriças com a Líbia e o Sudão. Na década de 1960 fomentou várias guerras por todo o mundo árabe. Desde a guerra 1958-62 na Argélia a um golpe de estado no Iémen que deflagrou uma guerra civil que se prolongou por seis anos e fez mais de 200 mil mortos. Recentemente, anexou partes do território sudanês e mantém um conflito intermitente com a Líbia sobre uma área do deserto Egípcio. Ironicamente, a sua única fronteira estável e reconhecida internacionalmente é aquela que o separa de Israel.

A Líbia é desde os anos 70 um dos grandes patrocinadores do terrorismo internacional. O atentado contra o avião da PanAm que se despenhou em Lockerbie e uma bomba numa discoteca alemã frequentada por soldados americanos estão no cadastro de Muamar Khaddafi. Mantém disputas com o Chade, a Tunísia e o Sudão. No Sudão desenrola-se um dos maiores desastres humanitários da actualidade, na região de Darfur. Centenas de milhares de mortos e mais de um milhão de refugiados, resultado dos massacres das milícias janjaweed apoiadas pelo governo central. Ao longo de várias décadas, o país esteve numa guerra civil. Árabes muçulmanos do Norte contra tribos negras cristãs e animistas do Sul. Mais de dois milhões de mortos e outros tantos refugiados até ao recente acordo de paz.

Marrocos, Argélia e Mauritânia têm lutado entre si pelo controlo do Saara Ocidental. A região foi anexada por Marrocos em 1975. Em retaliação, a Argélia tem apoiado a Frente Polisário, que reclama ser o governo legítimo do povo Saraui. Desde 1976 que Marrocos e a Frente Polisário travam uma guerra de baixa intensidade. Na década de 1990, Marrocos retribuiu à Argélia o seu apoio à Frente Polisario fechando os olhos à sangrenta campanha terrorista dos islamistas que custou a vida a mais de 250 mil argelinos.

Tudo isto é apenas uma síntese do que tem acontecido no "arco da crise". Nas últimas seis décadas, a região sofreu não menos de 22 guerras de larga escala em disputas de território e recursos, nenhuma delas tendo alguma coisa a ver com Israel ou os Palestinianos (se tem dúvidas, volte atrás e releia o artigo). Além disso, a história destes países tem sido dominada por séries de lutas domésticas, golpes de estado, ondas de violência étnica e sectária, em muitos casos com altos níveis de crueldade.

O Grande Médio Oriente tem-se caracterizado por uma crónica instabilidade, níveis baixos de desenvolvimento e atraso cultural. A região é a única zona do Mundo que, de um modo geral, passou ao lado da onda de mudanças positivas que se seguiram ao fim da Guerra Fria. Imprensa ou universidades privadas, sindicatos livres, partidos políticos ou liberdade de associação e expressão são realidades distantes. No século XXI, as linhas de produção das grandes marcas internacionais estenderam-se da Polónia ao Vietname ou ao Peru. Mas não à Síria ou ao Egipto. Nenhum destes estados tem, por exemplo, fábricas de automóveis ou de produtos de alta tecnologia.

Os déspotas que chefiam os estados entre a Mauritânia e o Paquistão há muito que pretendem desviar as atenções dos seus oprimidos súbditos com o sonho de atirar ao mar "o inimigo sionista". Como fazia o antigo presidente Nasser do Egipto, sempre que espreitava a ameaça da revolta política, logo se apressava a assegurar às massas do seu país e da "grande nação" árabe que a reforma política e social teria de esperar até que "o inimigo" fosse expulso da "nossa amada Palestina."

Para até um grupo de, aparentemente, homens sábios americanos, adoptar a mesma visão retrógrada e facilmente refutável, demonstra uma absoluta e perigosa ignorância da realidade.

Baseado num artigo de Amir Taheri, ex-editor do diário iraniano Kayhan, para a Commentary Magazine.

publicado por Boaz às 11:03
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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Um Mundo (quase) perfeito

Despotismo estalinista na Coreia do Norte. Perseguição a opositores políticos e minorias étnicas e transferência forçada de populações na Birmânia. Violência sobre os opositores políticos (recentemente também sobre algumas personalidades religiosas discordantes), expulsão e espoliação de propriedade de membros da minoria branca no Zimbabwe. Grandes limitações na liberdade de imprensa e total repressão de opositores políticos em Cuba e na Bielorússia. Escravatura na Mauritânia e República Centro-Africana. Massacres e expulsões em massa contra minorias étnicas no Sudão, com participação activa de forças patrocinadas pelo governo. Tráfico de mulheres para escravatura sexual na Roménia, Ucrânia, Bulgária, Rússia e Ásia Central. Violência sectária no Iraque e Líbano. Esmagamento brutal de uma revolta separatista no Sri Lanka. Silenciamento dos meios de comunicação social críticos ao governo na Venezuela. Violência entre facções políticas em Timor-Leste.

Ausência de liberdade política no Egipto, Síria, Cuba, Bielorússia, Sudão, Líbia, Azerbeijão, Uzbequistão... Pena de morte (nalguns casos mesmo para menores) no Irão, Estados Unidos, China, Paquistão, Nepal, Birmânia, Cuba, Rússia, Vietname... Exploração de mão de obra e ausência de condições laborais na China, Índia, países do Golfo Pérsico, Tailândia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão... Excisão (mutilação sexual de mulheres) na Guiné-Bissau, Sudão, Egipto, Etiópia, Quénia, Somália, Burkina Faso, Mali... Perseguições de minorias religiosas no Irão, Arábia Saudita, China... Exploração sexual de crianças na Arábia Saudita, Índia, Paquistão, Bangladesh, Nepal, Cambodja, Tailândia, Indonésia... Mulheres como “cidadãos de segunda” no Irão, Arábia Saudita, Iémen, Kuwait, Afeganistão... Crianças usadas como combatentes em conflitos na Costa do Marfim, Somália, Uganda, Territórios Palestinianos, Sri Lanka... Exploração de mão-de-obra infantil no Peru, Bolívia, Brasil, Colômbia, Índia, Vietname, Paquistão, Afeganistão, México...


Crianças soldados e "mulheres de segunda"

Oh, como seria perfeito o Mundo, se não fosse... Israel.

A ver pela atenção dada pela Comissão de Direitos Humanos da ONU, violações de direitos humanos só acontecem em Israel. Casos gravíssimos de brutalidade patrocinada pelo governo no Sudão, Birmânia, Coreia do Norte ou Zimbabwe, são ignorados. Investigações agendadas sobre a situação em Cuba e na Bielorússia foram bloqueadas. Os meios da Comissão são devotados em permanentes críticas a Israel. Apenas.

Recentemente o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon foi atacado por criticar os estados islâmicos membros da Comissão, por ignorarem abusos dos direitos humanos em todo o Mundo e apontarem apenas Israel. A observação de Ban Ki-moon irritou a Organização da Conferência Islâmica quando disse, o mês passado, que a Comissão de Direitos Humanos da ONU deveria observar todas as situações de violações de direitos humanos.

Só parece não valer a pena olhar para eles.

publicado por Boaz às 12:50
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Domingo, 8 de Julho de 2007

Ousar a Utopia

Numa pesquisa recente na Internet encontrei no sítio da revista Foreign Policy uma série de textos de activistas e pensadores sobre a situação actual do nosso Mundo. O mote apresentado a esses pensadores, publicado na edição de Maio/Junho de 2007 foi apresentado como "21 soluções para salvar o Mundo". Implementação da democracia, respeito pelos direitos humanos, leis de mercado tendencialmente justas, alternativas energéticas, mudança de políticas ambientais para travar/reverter o aquecimento global, luta contra a pobreza ou acesso à educação, eram alguns dos gigantescos desafios para os quais apresentaram ideias.

Por exemplo, o ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, hoje convertido em activista político (e grande opositor de Vladimir Putin) propôs a assinatura de uma Magna Carta global que substituísse a caduca Organização das Nações Unidas. Afinal, como observa Kasparov, "terroristas e ditadores são recebidos com cortesia na arena da diplomacia, apesar do seu total desprezo, e até ódio pelo que representa a civilização ocidental."

Sendo a ONU uma organização onde democratas e tiranos são colocados no mesmo nível do palanque, e onde, para vergonha universal, os primeiros se deixam – em grande parte por via dos seus interesses em matérias-primas – manipular pelos segundos e fecham os olhos a gritantes atrocidades, a Magna Carta de Kasparov teria como valor absoluto a vida humana, em vez do território, a ideologia ou o comércio.

O escandaloso fosso entre os ricos e os pobres (só para que conste, Portugal é o segundo, entre os países desenvolvidos onde esse fosso é maior, logo atrás dos EUA) poderia ser atenuado por uma lei que tornaria realidade a máxima de Robin dos Bosques. Não sob a forma de assaltos as carteiras mais recheadas, mas leis que, de princípio limitariam a acumulação de riqueza. Actualmente, a absoluta e aparentemente intocável liberdade de mercado permite por um lado uma acumulação de riquezas sem limites, por outro, uma implacável submissão à lei do mais forte.

Assim, naquilo a que chamou "o embaraço da riqueza", o professor Howard Gardner, de Harvard, propõe um limite ao enriquecimento individual. Afinal, para que faz uma pessoa com os seus lucros anuais de 200 milhões de dólares? Como pode o Mundo ser justo quando há empresários que ganham no final do ano, o equivalente ao Produto Nacional Bruto de alguns pequenos países? (Ou, por exemplo, o orçamento de um clube de futebol como o Manchester United ser equivalente ao valor das exportações do Burundi?).

Gardner propõe como salário anual máximo o equivalente a 100 vezes o salário médio de um trabalhador desse país. Por exemplo, se o trabalhador médio aufere 40,000 dólares, o mais bem pago do país receberia um máximo de 4 milhões. Ainda, cada indivíduo não poderia acumular como fortuna pessoal mais do que 50 vezes o rendimento máximo permitido anualmente. Duzentos milhões de dólares constituiriam então o limite máximo de riqueza. Ainda assim generoso, não?

Qualquer rendimento adicional teria de reverter para caridade ou para o governo sob a forma de doação geral, ou dirigido a um qualquer fim específico, como a assistência aos veteranos de guerra ou um fundo de apoio às artes. Com os biliões acumulados mundialmente, haveria finalmente dinheiro para implantar os projectos urgentes para resolver os grandes e, aparentemente insolúveis, problemas da Humanidade.

Pode parecer utópico um plano deste género, mas vejamos que, ao longo dos séculos ideias tidas como revolucionárias, apesar de enormes objecções, conseguiram abolir instituições tão enraizadas na sociedade como a escravatura, ou a implantação do direito de voto universal.

As soluções não foram apresentadas como mágicas, nem com a facilidade que se associa mais aos super-heróis do que aos simples mortais que somos. Baseiam-se na urgência de soluções corajosas e radicais para resolver os desafios do Mundo actual. Um Mundo que não pode esperar nem pela lentidão da evolução política e muito menos pelo contínuo cinismo dos governantes.

Nestes, como noutros casos no passado, serão os visionários que alguns chamarão de loucos e sonhadores a encontrar resoluções onde outros apenas viam castelos nas nuvens.

publicado por Boaz às 21:31
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Sábado, 20 de Janeiro de 2007

O cerne da questão

Um excelente artigo publicado recentemente no Jerusalem Post acerca de um assunto e uma posição já várias vezes exposta neste blog.

A cultura da violência

De Evelyn Gordon

Virtualmente nem um dia passou recentemente sem que alguma pessoa famosa declarasse que a resolução do conflito Israelo-Árabe é a chave para resolver todos os problemas do mundo Islâmico - de Kofi Annan ("Enquanto os Palestinianos viverem sob ocupação também as paixões um pouco por todo o lado serão inflamadas"), a Henry Kissinger ("um processo de paz palestiniano retomado deveria jogar um papel significativo na resolução da crise nuclear iraniana") e a Tony Blair ("um acordo israelo-palestiniano é o cerne de qualquer esforço para resolver os outros problemas do Médio Oriente e derrotar o extremismo global").

É surpreendente que tantas pessoas inteligentes possam seriamente expor uma tão óbvia falsidade. Eles realmente acreditam que Muçulmanos Sunitas e Muçulmanos Xiitas - cujas visões de Israel são idênticas - se massacram uns aos outros no Iraque por causa do conflito israelo-palestiniano? Ou que os políticos anti-Síria no Líbano - que não são menos anti-Israel que os do tipo pró-Síria - estão a ser assassinados pela Síria e ameaçados com um golpe de estado pelo Hizbullah, devido ao conflito israelo-palestiniano?

Que Árabes Muçulmanos estão a cometer um genocídio contra Negros Muçulmanos no Sudão devido ao conflito israelo-palestiniano?

Que Muçulmanos Talibãs assassinam Muçulmanos não-Talibãs no Afeganistão por causa do conflito israelo-palestiniano?

Que Muçulmanos Chechenos tomaram crianças russas como reféns numa escola de Beslan devido ao conflito israelo-palestiniano?

Que Muçulmanos e Hindus se matam mutuamente em Caxemira por causa do conflito israelo-palestiniano?

Que Muçulmanos em todo o Mundo se revoltaram por caricaturas dinamarquesas devido ao conflito israelo-palestiniano? A lista poderia continuar por várias páginas.

Mas a teoria da centralidade israelo-palestiniana não é apenas falsa, é perigosa - porque evita que o Mundo olhe a causa real e todos estes conflitos, incluindo o israelo-palestiniano: uma cultura generalizada no Mundo Muçulmano que vê a violência e trata a violência com um meio legítimo para resolver disputas.

A crise das caricaturas é particularmente um bom exemplo, porque não é encoberta por alguma relação com qualquer conflito regional. Após um jornal dinamarquês haver publicado caricaturas satíricas do Profeta Maomé no ano passado, Muçulmanos em todo o Mundo causaram motins durante várias semanas, resultando em várias mortes.

Compare-se isto com a reacção dos Católicos a investidas satíricas contra o papa e a Igreja em Itália. Em meados de Novembro, por exemplo, um programa de televisão italiano satirizou o Papa Bento XVI como sendo ciumento em relação ao seu antecessor e assim fez vários actos degradantes - sapateado, malabarismo com laranjas - enquanto perguntava "O Papa Wojtyla [João Paulo II] conseguia fazer isto?"

Num outro programa recente, um comediante brincou com a Santíssima Trindade debatendo onde ir em viagem: Deus Pai propõe África, Jesus propõe a Palestina e o Espírito Santo propõe o Vaticano. Questionado porquê, o Espírito Santo responde: "Porque nunca lá estive."

Claramente, estas piadas não são menos ofensivas para os Católicos devotos que as caricaturas de Maomé para os Muçulmanos religiosos. Mas não houve motins por causa destas sátiras, nem nenhum clero católico apelou a tais motins, como muitos membros do clero islâmico fizeram com as caricaturas dinamarquesas. Os Católicos limitaram-se a protestos orais e escritos - porque na moderna cultura Ocidental a violência não é considerada uma resposta aceitável à ofensa.

Têm as reacções à sátira religiosa realmente alguma influência de conflitos políticos como o israelo-palestiniano? Absolutamente não - por duas razões.

Primeiro, enquanto o mundo muçulmano considerar a violência como resposta apropriada à oposição, nem o conflito israelo-palestiniano nem qualquer outro das dúzias de conflitos envolvendo muçulmanos a nível mundial será resolvido. De facto, o conflito israelo-palestiniano amplamente demonstra este ponto.

Os Palestinianos poderiam ter obtido um estado em Julho de 2000, se Yasser Arafat tivesse exposto a sua insatisfação à proposta israelita em Camp David à moda "Ocidental" - apresentando uma contraproposta. O governo de Ehud Barak estava claramente disposto a fazer mais concessões; fê-lo nas subsequentes cimeiras de Washington e Taba. Mas em vez disso, os Palestinianos optaram por expressar o seu descontentamento violentamente, lançando uma guerra terrorista que matou mais de 1000 israelitas (e cerca de 4000 palestinianos) nos seis anos seguintes. Como resultado, os israelitas afastaram Barak e começaram uma contra-ofensiva, e as negociações pararam.

O mesmo aconteceu no ano passado após Israel sair de Gaza. Os israelitas posteriormente elegeram Ehud Olmert numa plataforma para fazer o mesmo na maioria da Margem Ocidental. Mas os Palestinianos, em vez de aproveitarem esta abertura para declarar um cessar-fogo e negociar futuras concessões, optaram pela violência: usaram a recém-evacuada Gaza como plataforma de lançamento para bombardear o sul de Israel com mísseis, em depois, por larga escala, elegeram o Hamas, que abertamente advoga a destruição de Israel. Como resultado, não só as negociações estão congeladas, como está também a proposta retirada da Margem Ocidental.

A segunda razão porque enfrentar a cultura de violência é crucial é que mesmo que o conflito israelo-palestiniano pudesse ser de alguma maneira resolvido sem ser dessa forma, isso não faria nada para resolver os outros problemas dentro do mundo islâmico ou entre o mundo islâmico e o Ocidente - porque o número de potenciais oposições é infinito. Estas incluem as diferenças culturais (as caricaturas de Maomé), questões económicas (os motins do ano passado em França), questões de polícia externa (Iraque, Afeganistão) e mais.

A ideia Blair-Annan-Kissinger parece ser que se os Muçulmanos fossem serenados sobre Israel eles talvez poderiam abdicar da violência em outros casos. De facto, a História ensina o contrário:

Tal como Hitler, longe de ser apaziguado pela entrega da Checoslováquia pelo Ocidente, em vez disso concluiu que poderia também tomar a Polónia com impunidade, iniciando assim a Segunda Guerra Mundial, assim também qualquer concessão ao terror islâmico simplesmente encorajou os Muçulmanos a pensar que a violência compensa.

A retirada israelita de Gaza, que 84% dos Palestinianos atribuíram ao terrorismo, foi um factor crucial tanto na sua eleição do Hamas, a principal organização terrorista palestiniana, como na continuação do apoio da maioria da sua população ao terrorismo. A retirada espanhola do Iraque a seguir aos atentados de Madrid encorajou a Al-Qaeda a planear ataques similares em outros países. E os Muçulmanos a nível mundial atribuem ao terror iraquiano a esperada retirada americana do Iraque.

Se o Ocidente realmente quer resolver o seu problema muçulmano, tem de adoptar a estratégia oposta - tornar claro que a violência, longe de ser recompensada, será penalizada. Pelo contrário, querendo apaziguar o mundo islâmico com a moeda israelita, apenas provará que a violência compensa.

E então colherá mais do mesmo.

Só resta saber qual é o político ocidental (fora de Israel, está visto) que tem a coragem de enfrentar a fera e assim dar o exemplo.

publicado por Boaz às 17:42
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Terça-feira, 5 de Setembro de 2006

Bem aventurados os crentes

Recebi o comentário de uma amiga portuguesa acerca da frase que encabeça este blog: "Se os árabes baixarem as armas, acaba-se a guerra. Se Israel baixar as armas, acaba-se Israel."

Perguntava-se ela: "Não deveríamos ser todos pela Paz?". Claro que sim, mas a verdade é que, quando se vive aqui, tem-se uma outra perspectiva das coisas que em Portugal ou qualquer outro país passa ao lado. A paz e a bondade são fundamentos essenciais do Judaísmo. Como diz o Talmude: a Torá (Pentateuco) começa com a bondade de Deus cobrindo a nudez de Adão e termina com Deus sepultando Moisés.

No entanto, Paz não pode ser apenas um ideal separado da realidade. Há que ter a consciência do que significa realmente e o que se pode fazer para atingir uma "paz autêntica". Não aquilo que é na verdade um estado passageiro de ausência de guerra.

Em Israel, chama-se muitas vezes aos bonzinhos de coração ashrei ha'maamim, ou seja "bem aventurados os crentes". Num sentido em que muitos dos que acreditam na bondade a todo o custo, não passam de ingénuos. A realidade em Israel não é, para o bem e para o mal, igual à do resto do Mundo.

Obviamente, eu também sou pela paz. Mas, não tenhamos ilusões, Israel vive na corda-bamba e se não se defender com todas as suas armas, depressa será esmagado. Sejamos honestos. Quantos passos deram os Árabes em direcção à paz com Israel, nos quase 60 anos de existência deste país? A negação árabe à ideia e ao projecto do Estado de Israel começou ainda o país não passava de um esboço num papel. Logo no primeiro dia de vida da Israel independente, em 14 de Maio de 1949, ainda o povo dançava nas ruas de Tel Aviv pela Declaração de Independência, já os exércitos de cinco países árabes se alinhavam nas fronteiras do novo estado a fim de o matar à nascença.

Se esperar pela ajuda e compreensão estrangeira em relação à sua defesa, Israel arrisca-se a desaparecer. O diálogo, a negociação são importantes e sem eles não se atingirá a ansiada paz. No entanto, Israel já experimentou por várias e trágicas ocasiões o que significa e onde tem levado o diálogo com o lado árabe do conflito. Casos não faltam.

Veja-se o Egipto, o primeiro país árabe a fazer as pazes com Israel, nos tempos de Anwar al-Sadat. Apesar do acordo de paz, da completa ausência de conflito bélico entre os dois Estados e da activa cooperação egípcia na resolução do conflito com os Palestinianos, basta ver os manuais escolares egípcios e ler o que têm sobre Israel. O hoje habitual ódio árabe contra Israel continua a ser propagado às novas gerações, mesmo num país onde ao menos ao nível político parece haver concórdia.

Desta forma, até quando durará a actual situação de não agressão entre o Egipto e Israel? Quando o poder actual for substituído por algum "inculturado" nesse ódio, como ficará esta relação? Nos recentes atentados contra estâncias turísticas egípcias no Sinai - Taba, Dahab e Sharm el-Sheikh - alguns ditos "analistas" egípcios depressa apontaram israelitas como os culpados pelos ataques. A paranóia anti-israelita vai ao nível de, num recente julgamento de homens homossexuais, uma das acusações apresentadas (verdadeiras ou falsas, não sei) foi que eles haviam ido aos "antros sodomitas de Tel Aviv". Como se o Cairo não tivesse suficientes "antros". Mas Israel é o tradicional bode expiatório de todos os problemas de qualquer país e cidadão árabe, porque não também a fonte da homossexualidade de alguns?

Até a ajuda e cooperação aparentemente incondicional dos EUA não é certo que dure eternamente. No Partido Democrata americano muitas vozes dominantes já opinam que o apoio americano a Israel tem sido prejudicial aos interesses americanos. No Partido Republicano, tradicionalmente o mais pró-Israel, dominado por evangélicos e outros cristãos tradicionalistas que por alguma razão são sionistas ou ao menos "amigos de Israel", também há vozes completamente contra o Estado de Israel. Então, podemos questionar-nos até onde e até quando durará esse apoio? E não tenhamos ilusões, o apoio americano que tanto irrita os árabes e os europeus não é incondicional como se pensa. Exige contrapartidas.

Portanto, Israel na verdade depende acima de tudo de si mesmo e tem de usar de todo o seu poder para se manter. Disso depende o seu presente e o seu futuro. Não da boa-vontade ou seriedade árabe ou do auxílio americano.

publicado por Boaz às 21:51
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Segunda-feira, 24 de Julho de 2006

Por outro lado

Um artigo corajoso e em sentido contrário da maioria da opinião pública na Europa. Da autoria do professor universitário português Luciano Amaral. Publicado no Diário de Notícias, no passado dia 20 de Julho.

A guerra por procuração

Era de prever que um dia o Médio Oriente regressasse à violência explosiva da última semana. E era também de prever que, num contexto semelhante, logo se erguesse o habitual coro de vozes contra Israel - neste caso, por causa da sua reacção "desproporcionada". Não é evidentemente bonito o espectáculo desta brutal ofensiva militar. É mesmo trágico. Mas não perceberá o chamado conflito israelo-árabe quem não perceber que essa brutalidade sempre foi a condição de sobrevivência de Israel. Israel é uma espécie de palhaço pobre da cena política internacional, a quem toda a gente se sente autorizada a dar lições, por cima de reprimendas a pretexto dos seus presumíveis disparates ou injustiças.

A esta luz, pouco importa o que dizem e fazem os seus inimigos. O Hamas não reconhece o direito de Israel a existir e está vocacionado para a sua destruição. O Líbano não reconhece o direito de Israel a existir e vive refém de um sinistro movimento terrorista (o Hezbollah), cujo propósito é a destruição do Estado de Israel. Para além de alvo perpétuo de actos terroristas, agora um pouco mais rarefeitos - será que o novo "muro da vergonha" terá alguma coisa que ver com isso? -, Israel é também vítima permanente de ataques militares, tanto a partir do Sul do Líbano quanto da Faixa de Gaza. Perante isto, o conselho que se lhe costuma dar é que esqueça esses pormenores e continue a oferecer mais ou menos tudo o que pode em troca de pouca coisa, ou mesmo coisa nenhuma.

Em 2000, Israel retirou do Sul do Líbano, onde mantinha uma zona-tampão que servia de segurança contra ataques na fronteira norte. Seria de esperar que, do outro lado da fronteira, se seguisse em consequência a contenção e a aceitação desse passo como o princípio de uma nova situação duradoura. A única coisa que aconteceu, porém, foi a intensificação da ocupação pelo Hezbollah, munido dos seus famosos rockets, cada vez mais sofisticados - os últimos de lá lançados na passada semana foram mais longe do que quaiquer outros anteriores, atingindo mesmo a terceira cidade do país, Haifa.

Em 2005, Israel saiu da Faixa de Gaza, também na esperança de que isso fosse visto como um passo arriscado mas positivo em direcção a uma solução para o conflito. Mais uma vez se deveria esperar aqui alguma moderação do outro lado. Muito pelo contrário, Gaza foi-se transformando nos últimos meses numa espécie de segundo vale de Bekaa, com os ataques de rockets a aumentar quotidianamente.

Quem se queixa das acções "desproporcionadas" de Israel, e que será certamente simpatizante da chamada "causa palestiniana", talvez devesse então pedir aos representantes e apoiantes internacionais da dita que aceitem finalmente o direito de Israel a existir. Como é evidente, qualquer princípio de negociação séria só pode ocorrer a partir desse instante. Israel existe hoje, não graças a resoluções da ONU ou sofisticados conselhos das chancelarias internacionais, mas porque venceu todas as guerras que os seus vizinhos hostis coligados lhe lançaram desde o exacto primeiro dia da sua existência em 1948. Estas vitórias não puderam obviamente ser obtidas sem uma certa brutalidade.

Israel é um pequeno país de seis milhões de habitantes, rodeado por uma colecção de países hostis que, somados, chegarão quase aos 400 milhões de pessoas. Até agora incapazes de vencer Israel militarmente, estes vizinhos árabes apostaram, para manter vivo o anti-sionismo, na instigação da intransigência dos movimentos palestinianos. É do meio disto tudo que sobra, de facto, a tragédia do povo palestiniano. Se Israel se preocupa pouco com ele, menos se preocupam ainda os seus supostos apoiantes, que o usam como mera massa de manobra anti-israelita. A última coisa que lhes interessa é a moderação palestiniana.

É o caso do Irão, o criador e grande patrocinador do Hezbollah e mais recente sponsor do Hamas. Não haja dúvidas. Por debaixo da cor local, o que neste momento ocorre no Líbano é uma guerra por procuração entre o Irão e os EUA. A mesma na qual os EUA andam a evitar a todo o custo envolver-se directamente.

O Irão continua a ridicularizar os planos ocidentais de restrição ao seu programa nuclear, e a guerra indirecta que declarou a Israel permite-lhe desviar as atenções internacionais. Os EUA, desprovidos de outros aliados capazes de os ajudarem no ordenamento político internacional (graças ao estado de beatitude irresponsável dos países europeus) socorrem-se do único povo "ocidental" que ainda sabe fazer a distinção entre amigo e inimigo.

Talvez até já seja tarde, mas a única coisa que há a esperar é que esta Quarta Guerra de Israel corresponda à acção preventiva necessária para restaurar alguma ordem nas fronteiras israelitas e devolver o Irão a uma certa humildade. É muito importante que seja bem sucedida, até porque é muito mais do que apenas isso o que está em causa.

publicado por Boaz às 21:44
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Sexta-feira, 28 de Abril de 2006

Oh Magoo, you've done it again!

A ONU tem destas coisas. Ao mesmo tempo que se eriçam os cabelos dos diplomatas com a questão do dossier nuclear iraniano, escolhe-se exactamente o Irão para a vice-presidência da Comissão de Desarmamento das Nações Unidas.

Ora, esta comissão é nada menos que a agência da ONU encarregada de limitar o uso do armamento nuclear no Planeta.

Capice?

publicado por Boaz às 16:24
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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2005

Como é difícil abdicar de velhos ódios

Vamos lá acabar com eles!Logo após a notícia do encontro em Istambul, dos ministros dos Negócios Estrangeiros de Israel e do Paquistão, Silvan Shalom e Khursheed Kasuri, milhares de pessoas manifestaram-se em Carachi e outras cidades paquistanesas, contra a possibilidade de aquele país islâmico poder, no futuro, reconhecer a existência da tão odiada "entidade sionista".

No ano passado, episódios idênticos verificaram-se na Indonésia. Na altura, milhares de pessoas marcharam em Jacarta contra qualquer diálogo com o "pequeno Satã". (A denominação é iraniana, mas, a par do petróleo, é uma das principais exportações do país dos ayatollas.)

O mundo islâmico parece suspenso pela situação entre Israel e os Palestinianos. As campanhas políticas, os discursos, para conseguirem a adesão (e histeria) popular, têm de se afirmar como defensores da causa palestiniana. Porque a causa palestiniana é "A Causa". Quando se quer fugir da discussão dos problemas do país ou da região, invoca-se como o entrave a todos os avanços. Mesmo no Paquistão.

Nada se resolve, em nada se avança no mundo árabe, enquanto os Palestinianos não tiverem o seu problema resolvido. Nem a questão dos direitos das mulheres, a liberdade religiosa e política, a corrupção, o desenvolvimento sócio-económico, o analfabetismo, a democracia. Nada. A Causa está à frente de tudo.

Por isso é importante continuar com a luta. Seja pela queima de bandeiras sionistas, seja pelo embargo às empresas que têm negócios em Israel (uma das máximas actuais de alguns grupos anti-globalização, em especial europeus), ou ao impedimento da entrada no país a todos os que tenham um infame carimbo israelita no passaporte.

publicado por Boaz às 01:25
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