Domingo, 30 de Janeiro de 2011

A revolta dos arredores

Enquanto no Cairo e algumas outras cidades egípcias, o povo se revolta para tombar o regime, em Jerusalém o governo olha, atento ao que se passa com o grande vizinho do sul. Até agora, a palavra de ordem em Jerusalém sobre a crise egípcia é, simplesmente manter o silêncio. Isso e realçar o interesse de Israel em manter os acordos de paz com o Egito, assinados há precisamente 30 anos. Do resto do Mundo, também é evidente a cautela em decretar a morte do regime. Esperar para ver.

Uma das coisas que mais surpreende sobre o que se tem passado na Tunísia, Egito e noutros pontos do Mundo Árabe, para quem assiste a partir de Israel é a ausência de referências ao conflito com os Palestinianos. Entre os gritos dos manifestantes em Tunis e no Cairo não se escutam apelos a "morte a Israel" ou à "Palestina Livre".


Polícia de choque frente a manifestantes anti-Mubarak, Janeiro 2011.

Para aqueles que consideram a questão israelo-palestiniana como o cerne de todos os problemas no Médio Oriente, as revoltas nas capitais árabes provam o contrário. Nos últimos anos, políticos e diplomatas nos EUA, na Europa e nas Nações Unidas repetem o mesmo mantra: "a resolução do problema dos Palestinianos conduzirá à resolução de todos os demais problemas do Médio Oriente". Para apaziguar os ditatoriais governos árabes hostis às mudanças, a diplomacia internacional – interessada em manter boas relações com o poder instituído – raramente refere a necessidade de reformas políticas e económicas a fim de melhorar as condições sociais no Mundo Árabe. Pelo contrário, Israel e a situação dos Palestinianos sempre estão na agenda das visitas oficiais a um qualquer estado árabe.

Ao longo das décadas, em todo o Mundo Árabe o apoio à causa palestiniana é recorrente nos discursos políticos. Na década de 1960, no Egito de Nasser, face à pressão popular pela reforma política (já nessa altura os egípcios queriam mudar de regime), o ditador acenava com a causa palestiniana como o maior objetivo nacional. A resolução dos gravíssimos problemas do Egito: falta de liberdade política e religiosa, analfabetismo, corrupção do governo e desemprego, foi repetidamente adiada sob a demagógica bandeira da "libertação dos irmãos árabes da Palestina".

Porém, os manifestantes da "Revolução de Jasmim" tunisina, tal como aqueles que há uma semana marcham no Egito, e também esporadicamente na Jordânia, Iémen, Marrocos, Argélia, Líbano, Sudão e os que já apelam à mobilização popular na Síria, anseiam pela sua própria liberdade. A questão palestiniana e o ódio contra Israel são distrações recorrentes para a sua própria desgraça. Mais do que sobre israelitas e palestinianos, a instabilidade social e política do Mundo Árabe é sobre os próprios árabes. Sobre o seu desemprego e pobreza (que leva milhões a imigrar para a Europa). Sobre o desespero de quem não vislumbra um bom futuro.

A Palestina está diariamente nas primeiras páginas dos jornais, nas reuniões das Nações Unidas, nos discursos das chancelarias. Israel é repetidamente incriminado na arena internacional. Porém, perante os abusos que se prolongam há décadas e que originaram a explosão popular que se espalha pelo Médio Oriente, a resposta da diplomacia internacional tem sido nula.

A história ensina que em muitas revoluções populares que desejavam a democracia, o resultado foi a tragédia e a brutalidade. Da "mãe das revoluções", a Revolução Francesa, saiu um breve período democrático do qual nasceu a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Pouco tempo depois, o ímpeto democrático foi varrido pelo "Reino do Terror" liderado por Robespierre. Em 1979, com a queda do regime do Xá do Irão também surgiram breves ventos democráticos pela mão de Shapour Bakhtiar, mas o fanatismo islâmico do ayatollah Khomeini acabou com as esperanças de democracia. Até aos nossos dias.

Por enquanto, parece um movimento de espontânea revolta popular. Ao contrário das manifestações em Teerão depois das últimas eleições presidenciais fraudulentas, na revolta egípcia não há uma liderança clara dos que pretendem a reforma do regime de Hosni Mubarak. Porém, à espreita nas sombras, os extremistas islâmicos da Irmandade Muçulmana estarão a preparar-se para um assalto ao poder. Israel olha com cautela para as ruas do Cairo.

publicado por Boaz às 19:25
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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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