Domingo, 11 de Setembro de 2011

9/11 – A década

Lembro-me como se tivesse sido ontem, pensarão muitos, que terão ainda bem vivo na memória o abalo daquele dia. Para aqueles que presenciaram – mesmo pela televisão – o desenrolar do mais delirante ataque terrorista de sempre, o 11 de Setembro de 2001 é um dia inesquecível. Poderei dizer que será o dia mais negro deste ainda curto século XXI. O mais marcante, pelo menos.

Até hoje, sentimos as repercussões do embate dos dois aviões e a consequente queda das majestosas Torres Gémeas do World Trade Center. (Sem esquecer o ataque ao Pentágono e a queda do 4º avião num campo da Pensilvânia, heroicamente despenhado pelos próprios passageiros). A guerra ao terror, com todos os seus erros e más decisões, não tornou o mundo mais seguro depois do 9/11. Pelo contrário.

A invasão do Afeganistão e perseguição de Bin Laden – finalmente morto há poucos meses, depois de quase uma década de busca pelos americanos – não eliminou a ameaça dos Talibãs e do seu fanatismo. A sinistra al-Qaeda está ativa. Apesar de ferozmente acossada pelo exército americano, continua a espalhar o medo e a morte. Mesmo morto, Bin Laden continua a inspirar seguidores, dispostos a matar e morrer em nome da sua doutrina. Como uma sanguinária divindade pagã, a cujo culto devem ser sacrificados todos os que ousem recusar o seu tirânico domínio.


Segurança nos aeroportos | Prisão de Guantanamo, em Cuba | Abu Hamza al-Mazri, líder da mesquita de Finsbury Park, em Londres, um dos focos do radicalismo islâmico na Europa
Embate do segundo avião no World Trade Center, em NY | A queda da Torre Norte
Soldado americano ferido no Iraque | Jovens afegãs de burka numa cerimónia de graduação

O Afeganistão, para lá das principais cidades controladas pelo regime central apoiado e guardado pelo Ocidente, continua a ser um imenso campo de treino terrorista como era nos tempos em que a canalha de Bin Laden dominava o país. Espantados em parte do Afeganistão, os terroristas da al-Qaeda pululam hoje no Paquistão, na Somália, no Iraque e (suspeita-se) em Gaza. Ou onde quer que a confusão reine pelo mundo muçulmano.

A invasão do Iraque e a queda de Saddam Hussein provou-se um desaire militar e de relações públicas para os EUA. E um sorvedouro de dinheiro dos impostos americanos: de acordo com alguns cálculos, mais de 3 triliões (!) de dólares já foram gastos com a invasão e os quase oito anos de ocupação do Iraque. As armas de destruição maciça não passavam de uma boa desculpa para derrubar um ditador anti-americano e brutal, mas inocente em relação ao que se passou naquela manhã de Setembro. O Iraque é hoje um campo de treino e o maior palco de ação de organizações terroristas. Tirando o Curdistão Iraquiano, o resto do país é marcado pelos ataques às tropas ocupantes, as autoridades locais e a perseguição às minorias religiosas. Carnificinas diárias matam indiscriminadamente dezenas de pessoas, em atentados contra estações de polícia, mesquitas e mercados. O número de refugiados iraquianos nos países vizinhos e dentro do próprio país atinge os 4 milhões.

As invasões do Afeganistão e Iraque até poderiam ter sido "justas", ou no mínimo justificadas, se tivessem resultado numa pacificação desses países. Poderiam ter tornado o mundo num local mais seguro. Porém, o perpetuar da ocupação militar já custou alguns milhares de mortos entre as tropas americanas e britânicas. E entre os iraquianos, o número de mortos desde a invasão e bombardeamentos iniciais aos milhares de atentados que aconteceram desde então, varia entre algumas centenas de milhar e mais de um milhão, dependendo das fontes. Tudo isto fez rapidamente perder a simpatia pela "Guerra ao Terror", em especial na Europa, onde a imagem dos EUA é cada vez mais negativa. Nos EUA, o aparelho de segurança, apesar de consumir um orçamento astronómico de dezenas de biliões de dólares anualmente, continua a ser pouco eficiente. Nisto, Israel tem muito a ensinar aos Estados Unidos e a qualquer outro país.

Logo a seguir ao 11 de Setembro, as autoridades entenderam a necessidade de limitar os direitos individuais em nome da segurança coletiva. Hoje, essa concepção parece estar a perder apoio, tanto entre o povo, como entre os políticos. Por exemplo, enquanto radicais islâmicos propagam abertamente a sua doutrina nas ruas e mesquitas da Europa, as autoridades permanecem, em muitos cais, sem qualquer reação. Também, ou talvez sobretudo, por medo da retaliação violenta dos fanáticos.

Um ensinamento do Midrash (uma forma de explicar a narrativa bíblica) diz: "Aquele que é misericordioso com os cruéis, acabará sendo cruel com os misericordiosos" (Midrash Tanhuma, Parashat Mezorá, 1). Esta expressão poderia ser entendida e recebida, ainda que a contra-gosto, por muitos políticos e cidadãos comuns no seguimento dos ataques de Setembro de 2001. Hoje porém, a sua aceitação será menos unânime. Em nome da supremacia da "liberdade de expressão" e dos "direitos humanos".

O fanatismo islâmico, apesar de todos os apelos a uma auto-análise e reforma islâmica, também não diminuiu de força. Para lá das iniciais reações de júbilo pelos ataques de 11 de Setembro entre alguma populaça muçulmana, a opinião pública no mundo árabe e islâmico não se tornou mais pró-americana ou anti-fundamentalista. A verdade é que tampouco foram educados para tal pelos seus governantes e líderes religiosos. Tirando algumas cosméticas operações de caça a terroristas e seus apoiantes na Arábia Saudita, Iémen ou Paquistão, pouco foi feito para combater o radicalismo islâmico na sua origem. E mesmo estas operações destinaram-se mais a defender a permanência dos próprios regimes face à ameaça da oposição destes fundamentalistas, do que a combater os agentes armados do Islão radical.

Apesar de todas as discussões sobre os perigos do crescente radicalismo islâmico e a urgência de uma reforma social, política e religiosa no mundo islâmico, pouco mudou dentro do Islão desde 2001. Bin Laden e a sua ideologia fanática ainda alimentam paixões e fervoroso apoio populares. Os líderes políticos árabes continuam tão corruptos e fanáticos como antes. Até as revoltas populares que têm alastrado um pouco por todo a região, apesar das enormes esperanças da instauração da democracia, correm o risco de se transformarem em oportunidades de tomada do poder pela via democrática pelas forças radicais, como a Irmandade Muçulmana no Egito.

Na Líbia, até agora um dos mais liberais regimes árabes em termos de igualdade entre os sexos, já se nota o aumento do número de mulheres que usa o véu publicamente, um sinal da crescente influência do Islão tradicional, depois do derrube do regime secular de Kadhafi. Os líderes da oposição líbia que tomaram o poder em Tripoli já anunciaram que a Sharia (a Lei Islâmica) deve ser a base da futura constituição da Líbia pós-Kadhafi. A esperança da "Primavera Árabe" poderá transformar-se num tempestuoso Inverno islâmico no Médio Oriente e Norte de África.

Os líderes religiosos muçulmanos, em especial no mundo árabe, tirando algumas figuras fora do mainstream, seguem a retórica da jihad contra o Ocidente. O Wahhabismo, a doutrina mais fanática dentro do Islão atual – apesar de ser considerada uma heresia por algumas das escolas islâmicas mais influentes – continua em forte expansão. Os abundantes petrodólares sauditas que patrocinam a construção de centenas de mesquitas dos EUA ao Brasil e a toda a Europa e África, patrocinam também os respetivos imãs, doutrinados de acordo com a corrente islâmica wahhabi, a única permitida na Arábia Saudita.

A Europa, com a sua cada vez mais alienada juventude muçulmana, dividida entre a sociedade europeia onde reside e a sua origem cultural, tem sido um fértil campo de recrutamento para o terrorismo. Os próprios autores do 11 de Setembro tinham sido estudantes em universidades europeias. E alguns dos mais ousados ataques (ou tentativas de ataque) desde o 11 de Setembro foram cometidos por muçulmanos europeus, como o "terrorista do sapato", o inglês Richard Reid.

Em termos políticos, a União Europeia tem sido cronicamente incapaz de ter uma voz única em termos de diplomacia, seguindo perigosa e estupidamente impotente face ao avanço do Islão radical dentro das suas fronteiras. O anti-americanismo doentio de alguns setores da política europeia tem minado uma completa cooperação em termos de segurança entre os dois lados do Atlântico que é indispensável para os desafios que se nos apresentam. A expressão "guerra ao terror" tornou-se quase inócua 10 anos passados do mais mortal atentado terrorista da história. As mudanças ao nível da segurança já caíram na rotina de muitos cidadãos.

Como comentou Uri Bar Lev, um especialista israelita em terrorismo: "Precisamos de começar a preparar-nos para a próxima guerra, em vez de para as guerras que já travámos. Estamos numa nova era, inteiramente diferente e mais perigosa do que a era passada. Não podemos dar-nos ao luxo de vacilar em face desta nova realidade."

publicado por Boaz às 13:00
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Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010

Uma mesquita perto demais

A “Corboba House” (Casa de Córdoba) seria apenas mais uma mesquita a ser construída nos Estados Unidos. Afinal, de acordo com as estatísticas, o Islão é a religião que mais cresce nas terras do Tio Sam. Porém, esta não é uma mesquita qualquer. E a Baixa de Manhattan, em Nova Iorque, também não é um espaço qualquer. Apenas a dois quarteirões, ou 180 metros de distância situavam-se as "Torres Gémeas" do World Trade Center. Vozes contra e a favor do projeto depressa se manifestaram. Para os opositores, um estandarte do Islão – ainda que tolerante – ao lado do "solo sagrado" do Ground Zero é visto como uma provocação.

Em 11 de Setembro de 2001, o fanatismo islâmico alcançou o seu auge com os atentados terroristas nos EUA. O "choque de civilizações" manifestava a sua face mais violenta (e mediática). Foi o despoletar da "guerra ao terror". Que continua até hoje e, apesar da boa vontade do presidente americano Barack Obama, não tem perspetivas de terminar tão cedo. Este conflito é visto por alguns setores do mundo islâmico como uma nova Cruzada.


A Hajj, a peregrinação muçulmana a Meca, Arábia Saudita.

Dentro do próprio Islão, a par da enorme popularidade da figura de Osama bin-Laden, correntes moderadas exigiam uma auto-reflexão do Islamismo. Com o alastrar do terror em larga escala pela mão da Al-Qaeda e de outras organizações terroristas muçulmanas a quase todo o planeta: Madrid, Londres, Bali, Carachi, Istambul, Jerusalém, Beirute, Bombaim, Moscovo, Bagdade, Cabul, a imagem do Islão ficou severamente afetada. Políticos e clérigos muçulmanos tentaram (e tentam) convencer o mundo de que os terroristas são uma minoria no Islão. Estadistas e pensadores ocidentais, muitas vezes aderindo fielmente às regras do politicamente correto, ajudaram nessa campanha de limpeza de imagem.

É neste âmbito que entra a "Iniciativa Córdoba". Esta organização, fundada por Feisal Abdul Rauf, um imã americano nascido no Kuwait, pretende estabelecer um centro cultural e social islâmico perto do Ground Zero a fim de mostrar aos Americanos a face tolerante do Islão. Abdul Rauf declarou que a sua intenção é "enviar a declaração contrária àquilo que aconteceu em 11 de Setembro". "Nós queremos dar um empurrão contra os extremistas", declarou.

Todavia, tanto o espaço escolhido para a construção do centro islâmico como o nome do futuro centro não são inocentes. O local, apesar de se situar a dois quarteirões do Ground Zero, foi um dos edifícios secundários destruídos total ou parcialmente naquela manhã de Setembro de 2001. Na altura do embate na Torre Sul, uma parte do trem de aterragem do avião caiu sobre o número 45 da Rua Park Place, um dos dois edifícios a ser demolidos para a construção da mesquita.

O nome, por seu lado, também levanta sobrolhos. Córdoba lembra o Califado estabelecido no sul de Espanha, que marcou o período mais florescente da expansão islâmica no Ocidente. A refundação do Califado de Córdoba é declaradamente um dos sonhos de Osama bin Laden. A polémica (secundária) em redor do nome, levou a organização a renomear o projecto, escolhendo um inócuo "Park 51", ainda que reclamem que Córdoba evoque a cidade onde muçulmanos, cristãos e judeus viviam em convivência pacífica.

Numerosas personalidades se declararam a favor do empreendimento. Entre elas o próprio mayor Michael Bloomberg, alegando a liberdade de culto existente no país. O presidente Obama expressou apoio ao direito de construção do centro, dizendo: "Os muçulmanos têm o mesmo direito de praticar a sua religião como qualquer pessoa neste país. E isso inclui o direito de construir um local de culto e um centro comunitário em propriedade privada na Baixa de Manhattan, de acordo com as leis locais."

Uma das opiniões que considerei mais ponderadas foi a de Abraham Foxman, líder da Liga Anti-Difamação, o maior movimento de judaico de direitos humanos dos EUA. Afirmou que algumas das opiniões contra a mesquita são derivadas de fanatismo anti-islâmico e reconheceu o direito dos promotores de construírem o centro naquele local. Porém, apelou aos construtores para respeitarem a sensibilidade da família das vítimas, uma vez que a construção de uma mesquita naquele local poderia causar mais sofrimento a algumas famílias de vítimas do 11 de Setembro.

As vozes que se opõem ao projeto naquele local, na generalidade comparam o nível de infâmia na construção de um centro cultural muçulmano junto ao lugar onde outrora se ergueu o World Trade Center com a abertura de um centro cultural alemão em Treblinka. Ou um centro cultural japonês em Pearl Harbour. (Eu acrescentaria ainda um centro cultural americano em Hiroshima ou Nagasaki). No mínimo, desapropriado. Os familiares das vítimas dos atentados, ainda que alguns se manifestem a favor em prol da liberdade que é uma das bases da América, são uns dos mais declarados opositores da mesquita. Na sua opinião, o local seria um símbolo do "Islão triunfante".

Se o objetivo principal do centro é a promoção do islamismo tolerante, então em vez de Nova Iorque, ele devesse talvez ser construído em Bagdade, Cabul, Beirute, Gaza ou mesmo em Meca. Como demonstração de tolerância islâmica, porque não permitir a construção de igrejas na Arábia Saudita, para servirem de espaço de culto às centenas de milhar de imigrantes cristãos (em especial das Filipinas)? Aí, a prática de qualquer religião que não o Islão – e até mesmo a minoria xiita é altamente perseguida – é punível com penas de prisão, chibatadas e mesmo a morte por decapitação.

Mais do que um diálogo inter-religioso limitado a intelectuais e realizado no Ocidente, a melhoria da imagem do Islamismo seria conseguida por mudanças no próprio Mundo Islâmico. E não apenas em prol da melhoria das relações com os não-muçulmanos, mas sobretudo da vida nas próprias sociedades islâmicas. Mais do que uma grande e dispendiosa operação de Relações Públicas como a "Cordoba House", o Islão necessita de uma significativa reforma interna. Pois se é absolutamente verdade que a maioria dos muçulmanos não são terroristas, também parece inegável que a maioria dos terroristas são muçulmanos.

publicado por Boaz às 09:52
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Segunda-feira, 2 de Agosto de 2010

O rapaz judeu, o “Sim” e a filha do ex-presidente

Um jovem, Marc Mezvinsky, casa com a princesinha da América, Chelsea Clinton, filha do antigo presidente Bill e da atual secretária de Estado Hillary. Ele judeu. Ela metodista. Nos últimos meses, desde que a imprensa noticiara o compromisso entre Marc e Chelsea, os comentadores em Israel especulavam sobre o caso. Se Miss Clinton se iria converter ao Judaísmo e o que significa um casamento destes. Sabe-se que nas últimas “Grandes Festas” – Rosh Hashaná e Yom Kippur, ou o Ano Novo Judaico e o Dia do Perdão –, Chelsea e Marc participaram juntos nos serviços religiosos numa sinagoga. Isso parecia dar um sinal de esperança aos que sonhavam ver formar-se mais uma família no Povo de Israel.


Casamento judeu em Jaffa, 1899

Na América da integração, do "melting pot" onde tudo se funde, até é bastante aceitável uma cerimónia de casamento ecuménica. Como o de Marc e Chelsea. Por um lado, o casamento foi oficiado por um pastor metodista. Por outro, realizou-se debaixo de uma chuppá (o pálio nupcial judaico), com a recitação das Sheva Brachot (as sete bênçãos do casamento judaico), com o noivo de kipá e talit (o xaile de orações judaico), com a assinatura da ketubá, o contrato matrimonial e contou com a presença de um rabino. (Reformista, pois claro). À maneira americana, em nome de Moisés e Jesus. Apenas na aparência. Afinal, dados os factos, é evidente que nem para o noivo é assim tão importante ser judeu, e nem para a noiva significará alguma coisa ser cristã. Se assim fosse, nem se teriam casado, uma vez que fazendo-o, tanto um como o outro, estão a ir contra a tradição da sua religião.

Do ponto de vista judaico, apesar de toda a alegria de um casamento, este é apenas um sinal de um dos fenómenos mais significativos e trágicos da história judaica do último século: a assimilação. O fenómeno surgiu na sua expressão moderna com a emancipação judaica promovida pelo liberalismo napoleónico, quando os judeus da Europa deixaram aos poucos de ser "cidadãos de segunda" e foram integrados na sociedade. Durante séculos, judeu era sinónimo de perseguido.

Em muitos casos, como em Portugal e Espanha, a conversão ao Cristianismo não significava o fim das tormentas, pois continuava o estigma do cristão-novo e as suspeitas de judaizar. Ainda que perseguido, a permanência numa comunidade era o único refúgio para o judeu. Com o despertar das liberdades cívicas e da crescente igualdade de cidadania, independente da religião e origem social, a ideia da comunidade judaica como refúgio tornou-se praticamente obsoleta. Um judeu que saía do caminho do Judaísmo não se tornaria um pária completo “lá fora”. Ainda que, de vez em quando, ainda o fizessem lembrar de onde ele tinha saído. A mácula do cristão-novo, ou judeu-velho que teima em não desaparecer.

Foi na América, terra das liberdades e das oportunidades, que os Judeus mais se desenvolveram e prosperaram. Pela primeira vez na história, os Judeus deixaram de ser uma classe marginal para passarem a estar no mainstream. Para serem o mais fino desse mainstream: a elite na literatura, na filosofia, na política, na moda e no cinema. Elementos da cultura judaica – como palavras em língua yiddish e comidas típicas – foram integrados no quotidiano do americano comum.

Porém, a par da prosperidade económica e da plena liberdade social e de culto, cresceu a dissolução dos valores judaicos como em nenhuma outra sociedade até então. Aquilo que a Torá (em Devarim/Deuteronómio 32:15) descreve como: "E Yeshurun (outro nome de Israel) engordou e deu coices: engordaste, engrossaste e tornaste-te corpulento! E abandonou Deus..."

Esta será apenas mais uma família americana, das milhares de famílias americanas em que um dos cônjuges é judeu. Neste caso, caso Chelsea não se converta ao Judaísmo, no futuro, isso significa que os filhos desta família não serão judeus. (De acordo com a Halachá, a lei judaica, os filhos de mãe judia são sempre judeus, mesmo que o pai seja "gentio", enquanto que os filhos de um homem judeu e de mãe não-judia, serão considerados não-judeus). O abandono dos valores e tradições judaicos – para lá da circunstância de casar sob a chuppá, envolto num talit e de cabeça coberta com uma kippá, escutar as sete bênçãos e ter um rabino - ainda que reformista - a dirigir a cerimónia, realizada num Shabat, são um sinal da crise que vive uma grande parte do povo judeu. Mais ainda na Diáspora. Pior, nas sociedades onde os judeus são livres, com a América à cabeça.

Porém, o que poderíamos esperar de um jovem que nunca teve uma educação judaica significativa? O que significará para ele o Judaísmo para além de algumas velhas histórias de família? Sendo assim, honestamente, não poderíamos pedir mais do rapaz. Para lá do amor – que se diz ser cego – sentido por uma menina que ele achou ser a sua alma gémea. Mesmo que não-judia. Em termos judaicos, o problema de Marc Mezvinsky – e dos muitos como ele – não está nele próprio, mas na sua família que o criou como um não-judeu. Agora, ele apenas se casou em conformidade.

Nos comentários à notícia na Internet, não pude deixar de concordar com a honestidade do seguinte: "Quem disse que isto era um casamento misto? Ele não se importa com a fé dele, ela não se importa com a fé dela. Este é o casamento perfeito para duas pessoas que não se preocupam com a sua herança. Isto não é um casamento misto. É a triste realidade de uma sociedade sem outros valores para lá do ser liberal".

E depois da bela festa, dos flashes dos fotógrafos e as parangonas nas revistas cor-de-rosa, Marc e Chelsea viverão felizes para sempre. Ou, em menos de dois anos estarão a juntar-se à regra de "casar entre um divórcio e o outro". Para seguir fielmente mais uma tradição americana.

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Domingo, 28 de Dezembro de 2008

A nação deslumbrada

De acordo com uma sondagem publicada na última sexta-feira pelo jornal USA Today, o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, é o homem no mundo que os americanos mais admiram. Não é o vendedor de beigels de rua, o rancheiro texano ou o cantor de country do bar da esquina. Quase um terço dos inquiridos referiram Obama, que é empossado presidente em menos de um mês, como "o mais admirado".

Não se admirem, é provavel que seja só um deslumbramento passageiro... Afinal, todos os hot-shots passam por um estrelato destes. Seja o futuro presidente, seja o vencedor do Big Brother. Por agora Obama tem apenas belas poses no palco, frases bem estudadas ou fotos de família na praia.

Deixem-no começar a mexer na papelada da Casa Branca, fazer alguma coisa em nome da América, ter de tomar decisões impopulares, que o papel de "herói do momento" depressa se desvanece. Tem até 20 de Janeiro para curtir a boa fama.

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Sexta-feira, 11 de Janeiro de 2008

Bush e 'bushá'

O presidente americano George W. Bush esteve esta semana em Israel. A sua visita de três dias, na sua visão, destinou-se a desencalhar o processo de paz entre Israel e os Palestinianos. Na agenda de Bush estava exercer pressão sobre Israel.

Essa parece ser a regra da comunidade internacional: pressionar Israel. Nesta luta dual, Israel tem de dar, os Palestinianos têm de receber. E seguir pedindo, pela sua já conhecida táctica terrorista. Frente ao medo das bombas, a resposta é ceder. Pensando que, uma vez saciada a fera, terminarão as suas ameaças e ataques. Ingenuidade absoluta.

Israel é o parente pobre da política internacional. Mais nenhum país do planeta sofre a ingerência estrangeira na sua política, como Israel. Todos os outros países são vistos como absolutamente soberanos, por isso não há que interferir. A não ser que o sangue jorre e os tímpanos se rompam com os gritos que bradam da Birmânia ou do Sudão. Aí, convenhamos, não dá mesmo para virar a cara. Umas manifestações aqui, uns apontares de dedo acolá. Até a coisa amansar ou outro assunto mais mediático abafar os gritos. Israel, pelo contrário, é a todo o momento, o irmão mais novo a quem todos acham que podem dar conselhos, impor práticas.

As Nações Unidas têm na forja uma nova conferência internacional sobre o racismo, Durban II. Israel e vários outros países ocidentais já reclamaram que não permitirão uma repetição do que se passou na primeira conferência de Durban, marcada por um vergonhoso e ataque árabe e da extrema-esquerda contra Israel. Na altura, numa cimeira sobre racismo, Israel, os judeus e o sionismo foram atacados da forma mais implacável desde a Segunda Guerra Mundial. Ainda mais, de um modo "limpo" e "legítimo", com a autoridade emanada do alto do palanque.

Um cinismo manifesto. Uma evidente falta de vergonha na cara. Em hebraico, "bushá".

PS – Durante a visita de W. Bush a Jerusalém, a cidade andou caótica. Um dos maiores e mais caros hotéis da capital israelita, o histórico King David, foi reservado exclusivamente para a comitiva presidencial. As ruas do centro da cidade estiveram encerradas ao tráfego particular, numa distância de cinco ruas de cada lado da rua por onde passasse o presidente. Não passou de um grande e caro espectáculo de dois orgulhosos e desavergonhados animadores de marionetas, Bush e Olmert, que tentam desesperadamente mostrar que fazem alguma coisa que agrade aos seus votantes, antes de deixarem o controle do teatro.

publicado por Boaz às 12:13
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Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2005

Bye bye Mr. ayatollah

Michael Powell, presidente da FCC (Comissão Federal das Comunicações americana) anunciou há poucos dias a sua resignação. Apontado em 1997 pelo antigo presidente Bill Clinton, Michael Powell - que é filho de Colin Powell, até há pouco Secretário de Estado americano - deixou como principal legado a auto-censura na forma de fazer televisão nos EUA.

Foi especialmente notado o caso da polémica em torno do «acidente» do seio descoberto de Janet Jackson no final do Super Bowl do ano passado. Por causa do escândalo levantado por tantos telespectadores americanos ofendidos, a televisão que transmitia o programa teve de pagar uma multa choruda.

A consequência mais imediata foi a transmissão, poucos dias depois da cerimónia dos Óscares com alguns minutos de atraso... não fosse um seio mais atrevido saltar para a frente das câmaras.

As multas para a «programação indecente» excederam os 7,7 milhões de dólares só em 2004 (no ano anterior à chegada de Powell à FCC as multas atingiram apenas 48 mil dólares.

Desde então a situação de auto-censura chegou ao absurdo de televisões recusarem transmitir o filme "O resgate do soldado Ryan" por ter «linguagem grosseira». Recentemente, um episódio da série "Serviço de Urgência" foi cancelado porque mostrava, por breves instantes, os seios de uma senhora idosa.

É (também) assim que vai a auto-intitulada "land of the free".

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publicado por Boaz às 17:29
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Quarta-feira, 3 de Novembro de 2004

Em que falhou Kerry?

Só a pergunta, amarga para tanta gente, incluindo na América...

A única certeza é que o cowboy texano levou mesmo a melhor.

PS - Se no fim da recontagem de votos no Ohio se verificar a vitória de Kerry, eu não me importo de dar a mão à palmatória pela precipitação.

publicado por Boaz às 17:59
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Segunda-feira, 1 de Novembro de 2004

Falta pouco... para o resto do Mundo

Frente a frente

As eleições americanas são já daqui a umas horas. Desconhece-se o desfecho da votação - normalmente, nas democracias, é assim que acontece. Mas esta incerteza deixa um certo aperto no estômago. O mundo parece que nunca se mostrou tão interessado e esperançado numas eleições americanas. As reacções, quem quer que vença o embate, serão tudo menos de indiferença.

Foi a mais renhida campanha eleitoral para as presidenciais americanas em muitas décadas - provavelmente, desde o início da democracia americana. Espera-se a maior participação do eleitorado juvenil de todos os tempos.

Uma parte cada vez maior do eleitorado negro, tradicionalmente apoiante dos Democratas, tem vindo a aproximar-se, nos últimos tempos às ideias dos Republicanos. As questões do aborto (Bush contra, Kerry "pro choice"), do casamento de homossexuais (Bush contra, Kerry mais flexível), da investigação genética em células estaminais (Bush contra, Kerry a favor) e outras questões quentes, onde muitas vezes se mete a colherada da moral e da religião, têm feito os negros americanos chegar-se mais para o lado conservador.

Para quem está fora da América as coisas parecem simples. Tirando um ou outro caso - não negligenciáveis contudo - o mundo declara-se contra Bush e a favor de Kerry. Fosse quem fosse o opositor, desde que não vença Bush. O problema é que, apesar de o senhor que ocupar a Casa Branca determinar em boa parte o modo como todo o planeta vai viver nos próximos anos, a decisão cabe inteiramente aos americanos. E esses têm vivido desde Setembro de 2001 com a sombra do medo e do terror internacional na sua própria casa. Bush tem usado insistentemente este fantasma, pois sabe - os seus estrategos vão-lhe dando as dicas - que nestes casos, o eleitorado tende a reagir apoiando a estratégia da força e não da negociação.

Com o último vídeo de Bin Laden, este fantasma parece que ganhou forças. Resta saber se com ele os americanos se deixam convencer pela retórica de Bush que o Iraque foi uma etapa na guerra contra o terror; ou se pelo contrário, como reclama Kerry, foi uma distracção do problema central, que é a caça à Al-Qaeda e a Bin Laden.

Se vencer Bush, vai ficar tudo na mesma. Pelo menos assim se espera. Alguém irá culpar o eterno outsider Ralph Nader por ter roubado umas centenas de milhar de votos que seriam preciosos para John Kerry, como aconteceu com Al Gore. E se vencer Kerry, não se pense que o paraíso estará garantido no dia seguinte. O dossier iraquiano não se resolve apenas com boas vontades e é preciso agir com pragmatismo. Que, se calhar, Kerry não tem, debaixo de tanto idealismo.

Falta pouco... para o resto do mundo.

publicado por Boaz às 10:20
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Sexta-feira, 1 de Outubro de 2004

Entre a batalha-naval e a Miss Universo

O primeiro debate entre os candidatos às próximas eleições presidenciais americanas, George W. Bush e John Kerry, teve lugar ontem, em Miami. O encontro foi dominado pelas questões da política externa, com o Iraque, obviamente, no centro das atenções.

Se alguém pensava em algo animado, coincidente com o espectáculo habitual que costuma caracterizar as campanhas eleitorais na América, ficou decerto desapontado. Nos tempos que atravessamos, em que o Mundo olha para as próximas eleições nos EUA quase como uma decisão entre a salvação messiânica - somos uns sonhadores... - ou a confirmação do desastre, esperava-se que o encontro pudesse ajudar a afundar Bush e levar Kerry para a frente das sondagens. Bastava a Kerry provar aquilo que para a maioria dos não-americanos é claríssimo: que ele é, no mínimo, mais inteligente que o actual presidente americano.

O debate foi tão morno e tão pouco apelativo (sobretudo mediaticamente), que não tenho a certeza que isso ficou claro para os americanos. E nós sabemos que eles são um bocado míopes nestas coisas de política...

A tarefa de Kerry também não era a mais fácil - a George Bush bastava aguentar-se, o que conseguiu, pois era Kerry quem tinha de "atacar" - e as regras do encontro serviam mais para disfarçar as debilidades mediáticas do texano, que para mostrar as verdadeiras capacidades de ambos.

Em directo na Euronews, na emissão da 2: - à mesma hora de uma excelente mini-série policial inglesa na TVI, bolas! - assistiu-se a pouco mais do que um sonolento monólogo com dois participantes. Um jogo de batalha-naval: ora atiras tu, ora atiro eu. As perguntas eram dirigidas a um dos candidatos, alternadamente, que tinha apenas 2 minutos para responder. O opositor dispunha depois de 90 segundos para contrapor e o primeiro podia defender-se em mais 30 segundos. Para assegurar o "timing", a cada momento havia 3 luzinhas que assinalavam o passar do tempo. A última era vermelha, sinal inequívoco de "time-out".

Kerry, é certo, mostrou-se mais solto no discurso, parecendo não ter tanta dificuldade em expressar as suas posições sobre os assuntos, apesar das várias argolas onde tem enfiado o pé, com algumas incoerências que se têm descoberto entre o seu discurso e a sua acção (em especial no dossiê iraquiano). Várias vezes Bush se mostrou visivelmente atrapalhado com a maior desenvoltura do opositor e, apesar da sua habitual pobreza de discurso, explorou as fraquezas de John Kerry e lá se foi safando aos seus dardos.

Para evitar que o público percebesse a diferença de altura entre os dois - Kerry é um bocado mais alto e na era mediática isso também conta - os candidatos raramente apareciam no mesmo plano de imagem e ainda estavam afastados vários metros um do outro. Ao contrário de debates em campanhas anteriores, as regras ditavam que nenhum podia levar sapatos de salto alto.

George W. Bush manteve a sua tendência para a piadinha e os sorrisos, enquanto o candidato democrata se mostrou mais sério. Até houve lugar para o elogio mútuo! Questionados sobre os pontos positivos que destacavam no adversário, Bush - verdadeiramente espantado com a pergunta - lá destacou os anos de serviço que Kerry dedicou à nação e o seu exemplo de pai e que as filhas de Kerry são amigas das filhas de Bush (que lindo, depois daquilo, devem ter ido todos tomar um cházinho em família!). Aparentemente, não encontrando nada para destacar do presidente, Kerry dirigiu os seus carinhos para a mulher, Laura: «uma excelente Primeira Dama». Viva a cordialidade.

Tanto Kerry como Bush se comportaram como se fossem no desfile de Miss Universo, cheios de desejos para a paz mundial e é obvio que ambos tinham de terminar com um tão americano "God bless America".

Ainda faltam mais dois debates até às eleições. Se a lista de regras se mantiver, vamos ouvir mais do mesmo, e não creio que os americanos, pelo menos os indecisos, consigam ver as diferenças entre os concorrentes à Casa Branca. O risco é ficarmos todos a perder.

publicado por Boaz às 17:04
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