Sábado, 17 de Novembro de 2012

Quando a sirene toca, de verdade

As velas de Shabbat estavam acesas há poucos minutos. Com a minha filha mais velha, de quase 4 anos, saí de casa para a sinagoga, a menos de 500 metros de distância. O céu azul do final da tarde, pontilhado de nuvens, tinha uns tons alaranjados no Ocidente. Senti uma gota de sorte por estarmos longe de Gaza. Pensei como iriam passar o Shabbat os habitantes da região costeira de Israel, entre a Faixa de Gaza e Tel Aviv.

Há dois dias, uma nova guerra começara na região de Gaza e do sul de Israel. Quer dizer, a guerra nunca tinha realmente terminado. Desde a retirada militar israelita da Faixa, no Verão de 2005, as cidades israelitas nas proximidades do território palestiniano eram atingidas com frequência por mísseis lançados por terroristas palestinianos. Primeiro os mísseis eram artesanais e com fraca precisão. Com o passar dos anos e o aumento do tráfico de armas iranianas, líbias e sudanesas para a Faixa, o arsenal do Hamas tornou-se mais sofisticado, atingindo cidades cada vez mais distantes.

Na sexta-feira, pela primeira vez em mais de 20 anos, as sirenes de alarme soaram em Tel Aviv, desde que Saddam Hussein retaliou a invasão americana com uma chuva de Scuds sobre Israel. Na tranquilidade de Gush Etzion, lugares como Tel Aviv, Ashdod ou Ashkelon – onde o soar das bombas e das sirenes eram agora realidades presentes –, esta nova guerra parecia, mais uma vez, remota. Um vizinho brasileiro tinha sido chamado para a base. Um dos 16 mil soldados reservistas convocados para uma possível operação militar em Gaza. A esposa, com os dois filhos ficou em casa sem saber a data de regresso do marido. Tanto podem ser alguns dias, como semanas.

Na sinagoga, como habitualmente era a hora de Kabalat Shabat, o serviço religioso que marca o início do Shabbat. Sem paciência para ficar sentada no banco da sinagoga, a minha filha pediu para voltar para casa. Deixei-a ir, avisando que não podia ir para outro lugar. A congregação levanta-se para entoar o cântico Lechá Dodi. A meio da segunda estrofe, o uivo da sirene de alarme soa por toda a aldeia. Não é um simulacro, como os que acontecem pelo menos uma vez por ano, mas uma sirene de alarme verdadeira. Alguns dos congregantes continuam a cantar, outros param sem saber o que fazer. O gabai, responsável pelo funcionamento da sinagoga, interrompe o serviço e pede para todos descermos para o andar inferior da sinagoga, conforme indicações do Serviço de Emergência Civil.


Habitantes de uma cidade do Sul de Israel observam os rastos dos mísseis lançados de Gaza.
Ao soar a sirene de alarme, os habitantes devem abrigar-se num lugar coberto.
Quem está demasiado longe deve deitar-se no chão.

“Onde está a minha filha? Agora mesmo a mandei para casa e ela está na rua sozinha!”, pensei alarmado. Olhei para o hall de entrada da sinagoga. Fiquei um pouco aliviado ao ver que ela ainda não tinha saído. Corri a pegá-la ao colo e abracei-a forte. O aperto do abraço foi mais para mim do que para ela, que felizmente não entendia o que se passava. Descemos as escadas para o andar de baixo, mais seguro e longe das janelas do hall.
– “Porque nós temos de descer as escadas”?, perguntou a menina.
– Este som forte significa que é perigoso, temos de ir para o abrigo. Tentei explicar-lhe a situação.
– O barulho da ambulância?
– Não, chama-se azaká (sirene, em hebraico). Parece o som de uma ambulância, mas não é.

Na escuridão, alguns homens continuavam a entoar Lechá Dodi. Tive vontade de chorar, uma ou duas lágrimas escorreram-me pelo rosto. A sensação de incerteza é avassaladora. Apertei ainda mais a minha filha. Alguns minutos depois, ainda um velhinho descia as escadas amparado por um braço caridoso, a maioria da congregação decidiu voltar para o santuário da sinagoga. “O Serviço de Emergência Civil diz que devemos esperar 10 minutos antes de voltarmos”, avisou um homem. Ninguém o ouviu. Como os israelitas gostam de desafiar as regras… O serviço religioso prosseguiu (quase) como se nada tivesse acontecido. No final, rezámos um salmo especial, em honra dos soldados israelitas e dos residentes das cidades sob a mira dos mísseis do Hamas.

Durante quase todo o Shabbat, despertava-me a cada vez que o vento soprava com mais força nas árvores das redondezas, pensando tratar-se do início do uivo de mais uma sirene de alarme. Em todas as casas, o assunto na mesa de Shabbat foi obviamente a inédita azaká que soara em Gush Etzion. Uma senhora, que deixara o rádio ligado para poder receber informações de segurança durante o Shabbat, informou que ouvira que o míssil tinha caído a Norte de Jerusalém.

Na manhã seguinte, outros informaram que o míssil caiu na região de Nokedim, apenas alguns quilómetros a Oriente, no deserto da Judeia. Vários vizinhos relataram terem visto o rasto de fumo do míssil a cruzar os céus nas redondezas. No final do Shabbat, busquei nas notícias informações mais precisas sobre o ocorrido. Confirmou-se a caída do míssil no deserto da Judeia. Achei inacreditável o ataque. Toda a região fica rodeada de cidades árabes! Hebron, com 150 mil habitantes fica 25 km a sul. Belém, com 50 mil, e Jerusalém, onde residem mais de 200 mil Árabes, ficam a menos de 10 km do local atingido.

Não sabemos o que se vai passar nos próximos dias. Entretanto, outros 75 mil soldados reservistas foram convocados. Uma operação terrestre em Gaza com infantaria ligeira e pesada é algo extremamente arriscado. O risco de baixas numerosas no Exército de Israel e o possível sequestro de soldados é algo que pesa nas decisões dos líderes israelitas. Na região costeira do país, num raio de até 40 km de Gaza, amanhã não haverá aulas. Aqui em Gush Etzion, tal como em Tel Aviv, ao contrário de outras guerras no passado, ninguém pensará desta vez que tudo acontece lá longe. Afinal, estamos todos no mesmo barco.

publicado por Boaz às 20:27
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Quarta-feira, 4 de Abril de 2012

Vêm aí os Persas?

Tal como em Israel, também no resto do Mundo Ocidental os diplomatas têm andado agitados com a questão nuclear iraniana. O assunto aparece nas notícias todos os dias. Desde as crescentes sanções contra o regime iraniano, às declarações dos políticos. Mais do que factos, transmitem-se especulações sobre o estado do programa nuclear iraniano e o vai-não-vai de um ataque israelita contra os centros atómicos dos ayatollahs. O anúncio de sanções pela comunidade internacional, em especial a União Europeia que declarou um embargo à compra de petróleo iraniano para o próximo Verão, levou a mais uma subida do preço do petróleo. Mais um fator a fazer piorar a crise económica internacional.

De um lado, o presidente iraniano Ahmadinejad continua a aparecer em propagandísticos eventos que promovem os avanços imparáveis das suas forças armadas e do seu programa nuclear – que alega ser apenas para produção elétrica, algo estranho para um país cujo solo é ensopado de petróleo e gás natural. Do outro, o Primeiro-Ministro israelita Benyamin Netanyahu e o Ministro dos Negócios Estrangeiros Avigdor Lieberman desenrolam-se em encontros com Obama e outros líderes ocidentais para alertar sobre os perigos de um Irão dotado de armas nucleares.

Para lá das fronteiras de Israel, entre as restantes nações do Médio Oriente, também há preocupação com a perspectiva de um Irão atómico. Esse é um dos pontos mais destacados pela diplomacia israelita: um Irão dotado de armas nucleares não é somente uma ameaça para Israel, mas para toda a região e o resto do Mundo. Numa região em constante conflito, uma nova potência militar desequilibraria as frágeis relações entre os vários países e complicaria a influência americana na região.

A questão nuclear iraniana entrou na ordem do dia com a subida de Mahmud Ahmadinejad ao poder. A retórica populista, o fanatismo militante, o declarado anti-israelismo que declara a vontade de “apagar Israel do mapa”, tornaram-no um espalha-brasas na arena internacional. Ainda que seja admirado por alguns elementos da extrema-esquerda europeia e sul-americana. Sem a menor vergonha, organizou conferências destinadas a negar o Holocausto, convidando a Teerão pseudo-especialistas, adeptos do mais danado revisionismo histórico. Ninguém sabe muito bem o que poderá fazer o maníaco de Teerão, com o militarismo lunático de quem se considera o mensageiro que trará o Mahdi (o messias islâmico) após uma guerra apocalíptica contra os Infiéis, nem que para isso arruine o seu próprio país. Ahmadinejad parece seguir à letra a ideologia destruidora do falecido ayatollah Khomeini, o ideólogo da República Islâmica: “Deixem esta terra [o Irão] ser queimada, desde que o Islão desponte triunfante no resto do Mundo”. Pelo menos, entre o aparelho político iraniano, o parlamento parece mais moderado do que o atual presidente, limitando em parte os seus delírios.


Imagens com esta mensagem (sem o sarcasmo final) têm sido publicadas na Internet,
provenientes de Israel. Do Irão a resposta tem sido idêntica.

Além da ameaça declarada contra Israel, Ahmadinejad é uma ameaça também para os seus vizinhos árabes. Apesar das proximidades culturais, o Irão não é um país árabe, mas persa. As inimizades entre persas e árabes são antigas. A minoria árabe no Irão é altamente descriminada. A tradição islâmica iraniana é maioritariamente xiita, ao contrário da maioria dos muçulmanos árabes que seguem a tradição sunita. Os xiitas, seguidores da tradição de Ali, o sobrinho de Maomé e seu herdeiro espiritual de acordo com o Islamismo Xiita, são vistos como hereges pela maioritária corrente sunita. A secular descriminação dos xiitas pela maioria sunita deixou cicatrizes por sarar entre as duas maiores correntes do Islão.

Com o seu poder militar, as receitas do petróleo e a influência política, o Irão tem apoiado ativamente os movimentos xiitas nos países árabes. Do Iraque – onde os xiitas são a maioria, dominados e massacrados pela minoria sunita durante a ditadura de Saddam Hussein –, ao Líbano, onde o Hizbollah é um verdadeiro posto avançado dos ayatollas na fronteira norte de Israel. Na pequena ilha-estado do Bahrain, no Golfo Pérsico, a maioria xiita tem reclamado maiores direitos, face ao domínio sunita da dinastia reinante.

O temor dos países do Golfo face ao expansionismo atómico dos ayatollahs tem-se manifestado em rumores de um possível apoio de alguns países a um ataque de Israel às centrais nucleares iranianas. Rumores publicados nos jornais indicaram que a Arábia Saudita permitiria aos aviões de combate israelitas sobrevoarem o seu território a caminho de um ataque ao Irão. Obviamente que este apoio não é, nem pode ser declarado publicamente. Isso seria considerado uma traição dos muçulmanos árabes face aos seus irmãos iranianos, mesmo que sejam vistos como hereges. Ainda mais cooperando com o odiado inimigo sionista. Aos olhos do mundo ocidental e muçulmano, a unidade da Umma, a Comunidade dos Crentes Muçulmanos, continua a ser um mito propagado. Um apoio declarado dos países árabes a um ataque ocidental contra o Irão, seria prontamente explorado pela propaganda iraniana para incendiar ainda mais o mundo islâmico contra os EUA e Israel, chamados na terminologia iraniana de “Grande e Pequeno Satã”.

Israel tem aumentado as relações com o Azerbeijão, uma ex-república soviética, de maioria muçulmana mas secular, que faz fronteira a norte do Irão. Um artigo recente da revista “Foreign Policy” afirmou que o governo azeri teria autorizado o exército de Israel a usar as suas bases militares próximas da fronteira iraniana, num eventual ataque israelita ao Irão. O Azerbeijão tem um diferendo com o vizinho Irão no controle do Mar Cáspio, rico em petróleo.

Apesar do nervosismo dos diplomatas, dos repetidos simulacros de ataques, dos testes de novos mísseis para o exército, das recorrentes notícias alarmantes sobre um possível ataque nuclear contra o país e de uma possível operação militar israelita contra o Irão, em Israel o povo parece estar alheio a toda esta agitação pré-apocalíptica. As preocupações diárias do comum israelita prendem-se com a falta de casas ou o preço proibitivo das rendas nas principais cidades, o custo de vida em ascensão, o aumento dos combustíveis (ninguém poderá negar a relação entre a subida do preço do petróleo com a corrente vaga de sanções contra o Irão, um dos maiores exportadores mundiais de petróleo). As manifestações gigantescas ocorridas durante meses no Verão passado não tiveram a ver com a ameaça iraniana, mas com as dificuldades internas.

O preço elevado do queijo cottage – uma das paixões nacionais – tornou-se uma desculpa para protestos contra as dificuldades económicas. Depois da campanha para reduzir o preço do queijo, vieram os outros laticínios. Motivados pela sensação de poder nas mãos, a campanha popular virou-se para o preço das casas. Armaram-se tendas em todas as cidades de Israel, que permaneceram ativas todo o Verão e uma boa parte do Inverno. Depois, a revolta popular virou-se para o elevado custo da educação. E o governo instituiu a educação gratuita desde os três anos de idade. “O povo exige justiça social!”, o slogan gritado nas ruas e que fez estremecer o governo de Netanyahu no último Verão – e promete regressar nos próximos meses – nada tinha a ver com a ameaça iraniana (ou a eterna questão palestiniana).

Em evidente contra-mão às preocupações do quotidiano nacional, os militares e políticos israelitas insistem em manter a questão nuclear iraniana na sua agenda diária. Face à incerteza do que poderá resultar da Guerra Civil na Síria, até à perspetiva de um crescente armamento do Hezbollah no Líbano – o Irão não quererá perder os seus únicos aliados no Médio Oriente – o aparelho militar israelita tem insistido em aumentar o orçamento da Defesa, que já consome algumas dezenas de biliões de shekels do orçamento de Estado. Em geral, o orçamento militar em Israel é algo sagrado que nenhum governo se atreve a controlar, mas o governador do Banco de Israel e o próprio Ministro das Finanças têm tentado controlar as ânsias gastadoras dos generais.

Na verdade, ninguém saberá quando e se o ataque acontecerá. Mais incertas são as consequências de um bombardeamento israelita: desde a real eficácia de uma acção militar para travar o programa nuclear iraniano, à dispersão de materiais radioativos no território iraniano e até aos países vizinhos. E claro, a resposta dos ayatollahs a um ataque. Certo é que, não ficaria sem resposta. E o Irão tem um poderoso exército, dotado de mísseis de longo alcance. Com ou sem armas nucleares, um contra-ataque iraniano contra Israel seria catastrófico.

A mensagem da ameaça iraniana (real ou exagerada) não está a passar como os líderes israelitas desejariam. Ou talvez os israelitas, com o seu pragmatismo natural, considerem que não faz sentido preocupar-se com cenários hipotéticos de guerra – ainda que alguns incluam a perspetiva do extermínio – se não podem garantir confortos básicos imediatos como casa própria e queijo barato. Numa recente campanha na Internet, que se tornou viral, israelitas publicaram fotos suas em forma de cartaz, declarando que amam os Iranianos e que Israel não bombardeará o seu país. Do outro lado, houve uma reação no mesmo sentido, mas mais comedida, dadas as limitações à liberdade de expressão com que vivem os iranianos.

Antes de tentar convencer o mundo da importância de um ataque militar para deter o programa nuclear iraniano, parece que o governo israelita precisa de convencer a própria população israelita que essa é uma prioridade nacional. Para lá da habitação acessível, a educação grátis e as guerras do queijo cottage.

publicado por Boaz às 22:25
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Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

Seis dias em Junho

Passaram mais de 40 anos, mas os acontecimentos de 5 a 10 de Junho de 1967 têm consequências até à atualidade. Conhecida por "Guerra dos Seis Dias", é um dos mais dramáticos episódios da história de Israel. Desde o dia da sua fundação, em 14 de Maio de 1948, o moderno Estado de Israel foi ameaçado pelos seus vizinhos árabes. Com o cessar-fogo da Guerra da Independência, em 1949, não foi instaurada a segurança e a estabilidade nas fronteiras do jovem Estado Judaico.

A partir do Sinai e da Faixa de Gaza – ocupada pelo Egito em 1949 –, as violações da fronteira de Israel eram constantes. A cada ataque seguiam-se retaliações da parte de Israel. O clima de guerra era permanente e, com a nacionalização do Canal de Suez, o Egito esperava represálias também da França e do Reino Unido, que pretendiam defender os seus interesses no Canal.

Sabendo dos interesses anglo-franceses, Israel decidiu ser o primeiro a atacar. A intenção israelita não ocupar o Sinai permanentemente. O objetivo era impor uma derrota ao beligerante regime de Nasser, que levasse o exército egípcio a terminar com as ameaças às fronteiras de Israel. A “Operação Kadesh” de 1956 causou uma derrota egípcia, mas o ambiente de guerra não abandonou a região. Com a colocação de milhares de soldados da ONU no Sinai para vigiar o cessar-fogo, as incursões árabes em território israelita terminaram durante alguns anos. A confiança israelita nas suas tropas cresceu consideravelmente.

A tranquilidade relativa da fronteira egípcia contrastava com os repetidos ataques na fronteira síria. Povoações no norte da Galileia e nas margens do Kinneret (Mar da Galileia) eram bombardeadas a partir de posições sírias no estratégico planalto de Golan. Em Jerusalém e na fronteira oriental, a ameaça do exército jordano também era crescente. Ainda que o Rei Hussein fosse o mais moderado dos vizinhos de Israel, era pressionado pelos milhares de residentes palestinianos no seu país e pelos restantes líderes árabes.

A situação agravou-se com a ordem do presidente egípcio Abdel Nasser de expulsão das tropas da ONU estacionadas no Sinai e a retoma do controlo militar da península pelo poderoso exército egípcio. No estreito de Tiran, no fundo do Sinai, foi imposto um bloqueio aos navios de Israel, impedindo o seu acesso ao Mar Vermelho. A guerra era de novo eminente.

Os dois blocos da “Guerra Fria” armavam cada um dos lados. Os soviéticos equipavam as forças árabes, enquanto Israel usava armas de fabrico americano, francês e britânico. Em evidente desvantagem numérica e estratégica, a única hipótese de Israel conseguir uma vitória no conflito que estava eminente, seria desencadear um ataque surpresa, rápido e massivo.

Na manhã de 5 de Junho, a aviação israelita atacou as bases aéreas egípcias a partir do Mediterrâneo. Voando a baixa altitude evitaram ser detetados pelos radares. Em algumas horas, a Força Aérea de Israel reduziu a cinzas toda a frota de aviões de Nasser. Simultaneamente, foram atacadas bases na Síria, Jordânia e Iraque. Este ataque fulminante permitiu a Israel o controlo absoluto do espaço aéreo, podendo depois concentrar-se na ofensiva terrestre.

Perante o ataque israelita, as populações árabes reagiram com entusiasmo. Afinal, não haviam sido informadas da pesada derrota aérea pela comunicação social controlada pelos seus regimes. Num esforço propagandístico evidente, a Rádio Damasco difundia a mensagem: “Destruiremos Israel em quatro dias”.

Os combates foram rápidos no Sinai. Em apenas três dias, a maior parte das forças egípcias – o mais poderoso exército árabe – foram derrotadas em batalhas de blindados. O exército de Israel avançou até à margem oriental do canal de Suez. Com a frente egípcia totalmente dominada, Israel concentrou-se na frente oriental. O exército jordano atacava a Cidade Nova de Jerusalém, pretendendo avançar pela cidade rumo ao Mar Mediterrâneo, cortando Israel ao meio.

As tropas israelitas atravessaram a "terra de ninguém"; que se estendia ao longo da fronteira que dividia a cidade desde 1949 e cercaram a Cidade Velha. Após dois dias de combates, o exército jordano foi repelido da Cidade Santa e a cidade foi finalmente reunificada. Pela manhã do dia 7 de Junho, já os fiéis judeus rezavam no Kotel, o Muro das Lamentações, pela primeira vez em 19 anos. O local mais sagrado do Judaísmo havia estado inacessível aos Judeus desde 1948, quando Jerusalém Oriental, incluindo a Cidade Velha, fora capturada pela Jordânia.


Fiéis judeus no Kotel, uma realidade impossível até 1967.

Israel avançou para Oriente, conquistando o território da Judeia e Samaria, que desde 1949 estava sob controlo jordano. Em 1950, esses territórios haviam sido mesmo anexados pelo Reino da Jordânia. Nessa altura, ainda ninguém reclamava a região para fundar um "Estado Palestiniano". Com as vitórias no sul e no leste asseguradas, restava suster a ameaça da Síria. Antes que as Nações Unidas decretassem um cessar-fogo, os blindados israelitas venceram o exército sírio nos Montes Golan. A 10 de Junho foi instaurado o cessar-fogo. A essa altura, as tropas israelitas já haviam avançado até próximo da capital síria, Damasco.

Em menos de uma semana, Israel aumentou mais de três vezes o tamanho do seu território. (A península do Sinai seria devolvida ao Egito em 1981, instaurando o primeiro tratado de paz israelo-árabe, o qual se mantém até hoje, apesar de alguns momentos problemáticos nas relações entre os dois países.) A partir de 20 de Junho foi autorizado a todos os Muçulmanos o acesso à mesquita de Al-Aqsa, no Monte do Templo (ou Esplanada das Mesquitas). Anteriormente, os fieis muçulmanos que viviam do lado israelita da “Linha Verde” também não podiam rezar nos seus santuários da Cidade Velha.

A espetacular vitória israelita causou um fortalecimento sem precedentes da identidade judaica. No espaço dos últimos 2000 anos, nunca as profecias de Redenção pareceram tão reais. Em todo o mundo, milhares de judeus seculares que até então desprezavam a sua origem judaica, passaram a afirmar com orgulho o seu Judaísmo. Milhares de Judeus fora de Israel passaram a usar com orgulho as suas kippot, publicamente. Na União Soviética, onde os Judeus sofriam uma forte perseguição religiosa, mesmo debaixo da opressão do regime despertara um movimento que reclamava o direito de imigrar para Israel.

Desde que Israel unificou Jerusalém, a cidade experimentou uma fase de desenvolvimento sem precedentes. Nunca a cidade se tornara verdadeiramente num local santo para as três religiões monoteístas. Apenas sob o domínio israelita foi instaurada a liberdade religiosa para todos os seus habitantes.

Hoje, o calendário judaico marca o Yom Yerushalaim, o Dia de Jerusalém, que celebra a reunificação da Cidade Santa, ocorrida durante a Guerra dos Seis Dias. Ele simboliza a restauração do domínio do Povo de Israel sobre a sua capital ancestral. O retorno a Sião, base do Sionismo, a ideologia fundadora do Estado de Israel, que é a ânsia dos Judeus de regressarem à sua pátria histórica depois de quase dois mil anos de exílio. A coroa regressou ao seu legítimo soberano.

publicado por Boaz às 15:00
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Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010

Hebron, entre o Céu e a guerra

No último dia das férias do Verão, antes do recomeço dos estudos na yeshivá, decidi visitar – desta vez sozinho – a cidade de Hebron, situada a apenas 20 quilómetros de casa. Há três anos que não visitava a cidade dos Patriarcas. Apesar da importância histórica e espiritual daquela que é a segunda cidade santa do Judaísmo, confesso que não é dos lugares que mais me atraem. Para lá da santidade, é uma cidade conflituosa, além de terrivelmente suja. Da primeira visita, recordo o som de tiros esporádicos e o persistente fedor a esterco de burro.


"Sétimo Degrau" | Túmulo de Sara
Túmulo de Yishai e Rute | Checkpoint "Tarpat"

Apanhei boleia no cruzamento de Gush Etzion. Destino: Kiryat Arba. Assim que se sai do cruzamento do Gush em direção a sul, a estrada torna-se mais estreita. Ao lado do caminho há vinhas e campos de cultivo, alguns abandonados. Atravessamos várias aldeias árabes. A maioria das casas parecem inacabadas. Grafittis em árabe estão em quase todas as paredes. Entre a miséria das aldeias sobressaem as casas dos ricos locais, com um telhado em forma de pagode chinês. Destoam tanto como as casas de imigrantes com inclinados telhados alpinos que pululam nas aldeias de Portugal. Montes de entulho de obras e das pedreiras e sucatas ferrugentas pontilham a paisagem. O lixo despejado na borda do jardim ou junto às paredes das casas fazem jus à proverbial imundície dos povoados árabes. Em frente a cada cruzamento, uma torre de vigia do exército de Israel. Na beira da estrada, placas vermelhas e brancas avisam os cidadãos israelitas da proibição de entrar no território da Autoridade Palestiniana. Ameaçadoramente declaram “Estão por sua conta e risco”.

Chegados a Kiryat Arba, o condutor da boleia deixa-me numa praça do colonato. Pergunto como chegar a Hebron. “Siga esta rua até ao cruzamento e espere uma boleia até à Gruta dos Patriarcas.” Pergunto se é possível chegar a pé. “Sim, tem presença do exército e da polícia. Não tem problema.” Ao chegar ao tal cruzamento, olho para Hebron, do outro lado da cerca que rodeia Kiryat Arba. Tirando o posto de controlo na entrada do colonato, não se vêm soldados na rua. Decidi não arriscar a caminhada e esperei pela boleia, que chegou logo a seguir. Quase não se avistam pessoas na rua. O calor do meio-dia não encoraja a sair de casa.

Na praça em frente à Gruta dos Patriarcas uma multidão de centenas de turistas franceses com bandeiras de Israel chega para visitar o santuário. Num dos cantos do edifício situa-se o lugar conhecido como o Sétimo Degrau. Desde a conquista islâmica no século XIII aquele era o ponto mais próximo onde os peregrinos judeus podiam rezar do túmulo dos Patriarcas. Depois de 1967, quando Israel conquistou a cidade à Jordânia, os Judeus puderam voltar a rezar no interior do santuário. Mesmo com a permissão, ainda hoje, muitos visitantes continuam a rezar no Sétimo Degrau, recordando 800 anos de humilhante proibição. Homens e mulheres, haredim e os tais turistas franceses, rezam juntos no local. Algumas mulheres choram.

À entrada do santuário há dois pontos de controlo dos visitantes. Não se pode entrar com armas. Nem com bandeiras, mesmo as de Israel que os franceses empunham. Grupos de homens estudam. Ao lado, um minyan reza Minchá, a oração da tarde. Uma vedação de madeira separa-os das mulheres que recitam salmos. No pátio interior coberto por um toldo, outro grupo de homens reza. De cada extremo do pátio, dois pequenos santuários entre os túmulos dos casais dos Patriarcas sepultados no local. Jacob e Leah de um lado. Abraão e Sara do outro. A decoração do local é tipicamente muçulmana, denotando o domínio islâmico quase ininterrupto durante 1400 anos. As pinturas nos tectos têm um aspeto renovado. Sob o túmulo de Leah, os pombos – indiferentes à santidade do local –, deixaram os seus despojos.

Decido estudar um pouco enquanto espero por um novo minyan para a oração da tarde. Saio pouco depois de terminada a reza. Ao descer as escadas para a rua pondero se devo ou não visitar outros locais de Hebron onde residem os judeus. Paro a alguns metros de um soldado que vigia um cruzamento da rua principal. Acerco-me e pergunto: “Quero ir até Tel Rumeida, é seguro?”. “Sim, não tem problema”, assegura-me.

A cidade de Hebron é um dos principais pontos de disputa entre Israel e os Palestinianos. Uma parte da Cidade Velha, em redor da Gruta dos Patriarcas e junto a Kiryat Arba, é controlada por Israel. Nessa área, três pequenos núcleos abrigam algumas centenas de habitantes judeus. Os bairros árabes têm um aspeto de cidade fantasma. A violência da Segunda Intifada – que em Hebron teve alguns dos seus piores episódios – levaram a prolongados períodos de recolher obrigatório e encerramento de lojas. Muitos dos habitantes árabes mudaram-se para o outro lado da cidade, controlada pela Autoridade Palestiniana.

À minha frente, na rua principal, caminha um casal de árabes idosos. O homem usa um longo keffiyeh branco e vermelho. Um pouco adiante, um turista asiático. Ao passar por ele cumprimenta-me com um sorriso: “Hello”. Retribuo a saudação e pergunto-lhe de onde vem. É sul-coreano. No caminho tento conversar um pouco com ele, mas o seu inglês é terrivelmente limitado. Decide parar junto a uma paragem de autocarro que me parece abandonada.

Continuo sozinho a minha jornada. Olho as varandas sobre a rua principal, todas protegidas por finas redes de ferro. “Ao menos assim, não tenho de me preocupar que me atirem alguma pedra…”, penso. Todavia, um cano de espingarda passa bem entre os buracos da rede. Confio que o Exército deve ter procedido à limpeza das armas da cidade. No caminho, uma cafetaria self-service para uso dos soldados israelitas que patrulham as ruas. Beit Hadassa, o antigo hospital judaico é hoje uma das residências judaicas em Hebron. O local foi palco de um massacre da comunidade judaica às mãos dos vizinhos árabes, em 1929. Um pequeno museu recorda a tragédia.

Até há alguns anos, em cada porta havia uma loja. Hoje estão todas fechadas e trancadas com uma barra de ferro. A Intifada matou o comércio nesta metade da cidade. Não sei se ainda vivem árabes naquela área. Alguns barulhos de conversas e de televisões informam-me que sim. No fim da rua, um checkpoint serve de passagem de pedestres para a parte palestiniana de Hebron.

Tel Rumeida, o meu destino, situa-se no alto de uma colina. A estrada é íngreme. Ao lado, o muro que separa a cidade. Quase no alto da encosta, uma abertura no muro permite observar a cidade palestiniana do outro lado. Ao contrário da área onde me encontro, daquele lado vejo shoppings e mais shoppings, com cúpulas vistosas. Prédios residenciais modernos. Aqui e além, mais alguns pagodes chineses. E um ininterrupto barulho de buzinas.

No alto da ladeira, dois soldados patrulham um cruzamento muito próximo de Tel Rumeida. Ali situa-se, ao lado de uma pequena base militar israelita, o núcleo judaico mais isolado de Hebron. A maior parte das famílias vivem em caravanas, ao lado das ruínas milenares de Tel Hebron. Entro no recinto da base para visitar o túmulo de Yishai e Rute, pai e bisavó do rei David. É uma ruína poeirenta e deserta. Uma vela memorial colocada sobre a laje escurecida testemunha que alguém passou ali recentemente. Entro na pequena sinagoga ao lado. Está vazia, mas a luz e a ventoinha estão ligadas. Sento-me por alguns minutos para descansar do calor e da caminhada. Recito alguns salmos. As eternas palavras do Rei David entoadas na cidade onde ele reinou por sete anos têm outro significado. Dou uma volta pelas ruínas. Um painel informa a existência de uma antiga sinagoga. Entro, curvando-me, por uma porta baixa. No interior, nada lembra tratar-se de uma sinagoga. Exceto alguns livros sagrados numa estante ou amontoados num canto, cobertos de pó.

São horas de regressar a casa. Desço a encosta em direção ao centro da cidade. Algumas crianças árabes caminham também por ali. Passa por mim um carro israelita, o primeiro que vejo passar desde que saí há mais de uma hora da Gruta dos Patriarcas. Junto a Beit Hadassa várias crianças judias correm pela rua. Para eles aquele é o espaço de brincadeiras, independente da situação que se viva na cidade.

Avisto o autocarro 160 que vai partir para Jerusalém. Cheguei em boa hora. Na segunda paragem, o turista coreano ainda espera o transporte de regresso a Jerusalém. Olho a cidade passar pelo vidro sujo do autocarro. Sujo como as ruas da Cidade Velha com casas esventradas, cicatrizes da Intifada. Hebron é um dos símbolos das intermináveis (e talvez insolúveis) negociações com os Palestinianos. É difícil para Israel manter a situação atual, pelos custos económicos e humanos. O exemplo da entrega de Gaza não perspetiva bons resultados para futuras transferências de território. Até porque Hebron é um dos mais poderosos redutos do Hamas na Cisjordânia.

Santa e conflituosa. Cheia de preces. Cansada de mágoas.

publicado por Boaz às 21:10
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Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Quando apenas resta a gestão dos estragos

Uma frota de barcos, carregada de ajuda humanitária para a desgraçada e bloqueada Gaza, a ser entregue por algumas centenas de ativistas dos direitos humanos. Esta seria a definição simples da "Frota da Liberdade". Porém, esta definição é também profundamente ingénua e distorcida. Em primeiro lugar, os organizadores da iniciativa pertencem a uma organização turca de direitos humanos, que a par de louváveis iniciativas de caráter humanitário no Terceiro Mundo, é suspeita de canalizar fundos para várias organizações envolvidas na Jihad, entre elas, o Hamas. Além disso, três dos turcos mortos na tomada de um dos barcos pelo exército de Israel haviam declarado querer morrer como mártires pela Palestina. Ou seja, esta era para eles nada menos que uma missão suicida.

Comprometido com um bloqueio naval e terrestre à Faixa de Gaza governada pelo Hamas, há mais de uma semana que Israel negociava com os organizadores da "Frota". O governo de Israel tentou convencer a organização da missão a canalizarem a ajuda para Gaza através da via terrestre, permitindo antecipadamente a verificação da carga para eliminar qualquer suspeita de tráfico de armas ou material que pudesse ser usado pelo Hamas contra Israel. Todas as vias de negociação foram recusadas pelos ativistas. Recusado foi também um pedido da família do soldado israelita Gilad Shalit, sequestrado em Gaza há quatro anos, para lhe ser entregue também um pacote de ajuda.

É óbvio que o resultado é trágico. Nove mortos (as fontes iniciais falavam em 15 ou mesmo 20). E várias dezenas de feridos. Israel reclama que agiu em legítima defesa, quando os soldados foram recebidos à bastonada e com facas pelos auto-intitulados tais defensores dos direitos humanos no navio "Mavi Marmara". Nos outros cinco barcos não houve violência. Os militares estavam equipados com espingardas de paintball e com pistolas a ser usadas apenas em última análise. Não esperavam tamanha resistência por parte dos integrantes da "Frota".

Qualquer que fosse o desfecho, ele nunca seria bom para Israel. E seria sempre muito conveniente para o Hamas. Na semana que antecedeu a tomada dos barcos, durante as discussões entre o governo de Israel e os organizadores da "Frota", o próprio Primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniyeh, declarou que o Hamas sairia vencedor deste episódio, fosse qual fosse o desfecho. Não é preciso ser profeta para fazer essa declaração. Se os barcos fossem deixados passar, isso significaria um furo no bloqueio israelita: uma vitória para o Hamas. Se os barcos fossem impedidos de chegar, em qualquer caso, Israel ficaria mal visto: uma vitória para o Hamas.

A "Frota" disfarçada de missão de ajuda humanitária foi uma perfeita e bem montada operação de Relações Públicas para o Hamas. É assim que se pode resumir, numa frase, toda esta história da "Frota da Liberdade". Os ativistas internacionais, embebedados por um ódio anti-Israel deixaram-se levar pelo engodo. Ou, sem qualquer vergonha, aderiram a ele deliberadamente. Israel não tinha como ganhar o confronto. Nesta, como noutras crises, resta fazer uma gestão dos estragos na imagem internacional de Israel. Mais difícil ainda com um temperamental Ministro dos Negócios Estrangeiros com fama de "falcão". Frente às embaixadas israelitas por essa Europa fora, multidões gritam contra Israel e a favor dos Palestinianos com os slogans do costume. Em Lisboa eram uns 50 gatos-pingados.

A causa ganhou mais alguns mártires. Alguns deles mártires por vontade própria. Todos com direito ao harém de 70 virgens prometido pelo profeta. Esta tarde, de regresso a casa, reparei que praticamente todas as lojas do mercado árabe da Cidade Velha de Jerusalém se encontravam fechadas. Um sinal de protesto pela tragédia ao largo de Gaza. De qualquer forma, algumas lojas estavam de porta entreaberta. Não fosse aparecer algum turista interessado na quinquilharia disponível. Imagino que haja festejos à porta fechada. Aos olhos do Mundo, Israel saiu (mais) mal visto. O Hamas cantará vitória.

PS – Atenções mundiais viradas para Israel e, a Turquia – pátria dos barcos e da maioria dos ativistas da "Frota da Liberdade" – teve um timing perfeito para bombardear posições dos seus opositores curdos no Curdistão Iraquiano. Não se esperam manifestações anti-turcas frente às respetivas embaixadas.

publicado por Boaz às 23:00
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Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

Viram? ou Toda a gente estava à espera desta, mas ninguém o disse porque pensavam que o gajo se contentava

Aviso que vou despejar uma bela dose de cinismo nas próximas linhas. Apeteceu-me. Acho que também tenho direito a um pouco de mangação.*

Há poucos dias, o Primeiro-Ministro de Israel, Benyamin Netanyahu revelou uma decisão do governo em congelar durante 10 meses todas as novas construções nos colonatos judaicos na Judeia e Samaria (chamadas pela comunidade internacional Cisjordânia ou Margem Ocidental ou Territórios Palestinianos). Em Israel, essa decisão causou um escândalo. Até mesmos os partidos da oposição de esquerda, mas propensos a cedências ao outro lado, atacaram a decisão de "Bibi" por colocar no mesmo saco os colonatos estratégicos como Gush Etzion e Maale Adumim e os pequenos colonatos clandestinos, compostos de caravanas em locais isolados.

Ninguém sabe bem a intenção do chefe do governo. Uns dizem que, com esta cedência ele quer "colocar a pressão do lado dos Palestinianos" para retomarem as negociações. Outros dizem que quer dar um pequeno empurrãozinho aos "moderados" da Fatah, adversários dos "radicais" do Hamas nas próximas eleições para a Autoridade palestiniana. Uma terceira versão diz que tudo não passa de uma manobra bem calibrada para que Obama e a Senhora Clinton – aflitos para melhorarem a imagem dos States no mundo árabe já que a decisão de mandar mais 10 mil soldados para o Afeganistão e os carros-bomba diários em Bagdad não ajudam nas Relações Públicas e uns puxões de orelhas aos Judeus parecem servir a causa – deixem de enfadar o governo de Israel para retomar o "processo de paz".

Mas, se alguém achava que um congelamento da construção nos colonatos ajudava em alguma coisa – ao pressionado "Bibi" ou à pressionada Fatah – a resposta do outro lado foi simplesmente inventar mais uma desculpa para continuar no mesmo cinismo desde 1991 quando começaram a falar com Israel para ver se lhe arranjarmos um cantinho para montarem mais um curral com pretensões de país para sobreviver às custas da comunidade internacional.

Mahmud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, mandou de volta o presentinho de "Bibi" e ainda fez uma exigência para o próximo presente: "não há negociações até que o Mundo – não apenas Israel, estão a ouvir? – reconheça as fronteiras de 1967 para o futuro estado palestiniano."

Sinceramente, até agradeço a sinceridade ao Sr. Abbas. Ao menos um que ponha as cartas em cima da mesa. Assim, ninguém se engana a pensar que ele tem alguma boa vontade nesta coisa do "processo". Os "maus da fita" do Hamas já o fizeram há muito tempo, como em 2005, quando Israel saiu de Gaza. Declararam logo: "hoje Gaza, amanhã Tel Aviv". O Sr. Abbas quis dizer exatamente o mesmo, mas apenas o fez com uma raiva jihadista menos evidente.

Então, pensavam mesmo que conseguiam alguma coisa com a gracinha do congelamento? Eu até imagino que não, mas há que fazer alguma coisa quando se está no poleiro e a coisa ferve. Em Portugal, a silly-season da política é mais para o Verão. Em Israel, parece funcionar em imprevistas intermitências, de Janeiro a Dezembro.

* Foi o melhor sinónimo de "troça" que encontrei no dicionário.

publicado por Boaz às 23:49
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Quinta-feira, 6 de Agosto de 2009

O lado certo

A situação de segurança entre Israel e o Líbano nunca é muito garantida. Apesar da presença de mais de dez mil soldados das Nações Unidas com a missão de patrulhar a região fronteiriça e evitar as escaramuças, a conjuntura permanece tensa. Em especial para os habitantes da região.

Um dos casos mais bicudos é o da aldeia de Ghajar, situada nos montes Golan. Conquistada por Israel na Guerra dos Seis Dias, junto com a restante região dos Golan, os seus habitantes aceitaram ser cidadãos de Israel. A aldeia cresceu em direção ao norte durante a ocupação israelita do Sul do Líbano incorporando na sua área território libanês. Com a retirada do exército de Israel em 2000, as Nações Unidas determinaram que a fronteira entre os dois países passaria pelo meio da aldeia.


 Ghajar, vista do parque de Tel Dan no norte de Israel. 

Desde a retirada israelita, o local transformou-se num ponto de contrabando de artigos roubados em Israel e da entrada de mercadoria proibida, em especial drogas. Após a Segunda Guerra do Líbano, Israel manteve uma presença militar na área e construiu uma cerca em redor da parte norte da aldeia. Há poucos meses, o governo de Israel planeou a retirada da parte norte da aldeia, reconhecida como território libanês.

Face à retirada israelita, os habitantes locais temem as represálias do Hezbollah. Nas palavras do líder muçulmano da aldeia: “Nós não queríamos ser refugiados em Israel, por isso recebemos sobre nós a cidadania israelita com a Lei do Golan, e agora nós não estamos dispostos a ser refugiados no Líbano e ser massacrados pelo Hezbollah. A divisão da aldeia de Ghajar é uma pena de morte para nós, é o equivalente a sermos apanhados para ser mortos no meio da praça”. É sabido como a guerrilha terrorista libanesa trata os traidores, por isso, o mais provável é que pouco tempo após a retirada israelita e consequente divisão da aldeia, uma boa parte da população, ou pelo menos os homens, fossem massacrados.

Esta atitude de retaliação não é exclusiva do Hezbollah. Aquando do assalto do Hamas à Faixa de Gaza, em 2007, houve centenas de mortos em confrontos entre membros da Fatah e do Hamas. (Aliás, alguém ouviu falar disto nas notícias? Alguém viu protestos em frente às embaixadas da Palestina nessa Europa tão humanista?) Face à superioridade numérica e militar do Hamas, os militantes da Fatah – o movimento do presidente da Autoridade Palestiniana – correram para os postos de fronteira da Faixa, a fim de serem socorridos por Israel.

O que não deixa de ser uma tremenda ironia. Ainda esta semana, num congresso da organização, a Fatah declarou não aceitar a existência de Israel como um estado judaico; não desistir da questão do regresso dos refugiados palestinianos, a qual a realizar-se significaria o fim de Israel (ou não fosse essa a principal razão da insistência nessa questão).

Quando as coisas estão calmas, os Árabes tentam de tudo para destruir Israel e negar o seu direito a existir. Porém, quando a briga estala entre árabe e árabe, perante a morte certa às mãos dos seus irmãos palestinianos, não têm vergonha de buscar a providencial ajuda do grande inimigo sionista.

publicado por Boaz às 17:40
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Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

A aquecer

De novo, o Hamas lançou mísseis a partir de Gaza contra o território de Israel. E desta vez não foi apenas mais um dos Qassam fabricado na garagem do Mohammed. Foi um Grad Made in Iran e chegado à Faixa pelos túneis na fronteira com o Egipto.

E, imediatamente, diz que "está interessado num cessar-fogo de um ano". Alguém que não entenda a lógica do Hamas, vai a correr queimar uma bandeira de Israel, clamar por "crimes de guerra contra a população palestiniana indefesa" e apelar a boicotes aos assassinos fascisto-sionistas, assim que o governo israelita mandar a tropa de novo para Gaza. Se entender a manha do Hamas, vai dar razão à resposta de Israel. A estratégia do Hamas é só uma: destruir Israel. Aliás que saibam os miúpes, continua a mesma.

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publicado por Boaz às 21:59
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Quarta-feira, 14 de Janeiro de 2009

Não há fábricas em Gaza

Quando Israel retirou os colonatos judeus da Faixa de Gaza, em Agosto e Setembro de 2005, foram demolidas as residências particulares, mas não os edifícios públicos. As antigas sinagogas e yeshivot, vazias de objectos sagrados, foram vandalizadas pelos moradores de Gaza, assim que o último soldado deixou a região.

Nos últimos anos da existência dos colonatos de Gush Katif, o principal bloco judaico em Gaza, as estufas eram a principal actividade económica. Milhares de toneladas de verduras orgânicas e flores eram exportados anualmente para a Europa. (Ainda hoje, em Israel, "Gush Katif" é sinónimo de legumes orgânicos e livres de bichos.) As estufas, ao contrário das casas dos antigos residentes foram deixadas intactas. O objectivo era transformá-las num pólo de desenvolvimento económico de Gaza. Porém, desde 2005, as estufas que tinham sido umas das mais avançadas do mundo, não produziram nada. Poucos dias após a evacuação, a maioria das estufas tinham sido saqueadas pela própria população.

Nos extensos terrenos vazios da área dos antigos colonatos pretendia-se construir prédios residenciais, para suprir a falta de habitação de qualidade em Gaza, uma das regiões mais densamente povoadas do Planeta. Apesar dos milhões de euros, dólares, e petro-dólares injectados anualmente nas finanças da Autoridade Palestiniana (estatisticamente, os Palestinianos são mesmo o povo que recebeu mais ajuda internacional per capita, de todos os tempos) a situação económica em Gaza não progrediu. Antes pelo contrário.

Nas eleições legislativas de Janeiro de 2006, ganhas pelo Hamas, a situação piorou. A maioria dos financiadores internacionais da Autoridade Palestiniana suspendeu os pagamentos. Quando o Hamas tomou de assalto a Faixa de Gaza em Julho de 2007 e dominou o território após sangrentos confrontos com apoiantes da Fatah, o território perdeu a maior parte das fontes de ajuda internacional, incluindo as fontes árabes.

Os Palestinianos desperdiçaram a oportunidade criada com a retirada de Gaza de 2005. Alguns idealizaram mesmo criar na Faixa de Gaza numa espécie de Hong Kong do Médio Oriente. Passe o delírio romântico de tal empreitada, a verdade é que Gaza perdeu todas as oportunidades que se lhe apresentaram. Por exemplo, as praias da região, em especial a de Dugit, eram famosas por terem "as melhores ondas de surf de Israel". Com esse potencial, poderiam ter construído resorts que estariam cheios de turistas israelitas e internacionais. Nada foi aproveitado. É evidente que Israel não ajudou da melhor forma para a prosperidade de Gaza, mas com a transformação da região num imenso campo de treino terrorista sob as ordens do Hamas, o país não poderia manter nem sequer o mínimo de cooperação com as autoridades locais.

Israel acabou por impor um bloqueio económico parcial. Todavia, mesmo nas alturas mais "apertadas" Israel continuou a fornecer cerca de 70% da energia de Gaza. O Egipto, esse estado amigo de todas as causas do nacionalismo árabe, fornece 20%. O que resta é produzido por uma central de energia na Faixa. Doentes de Gaza continuaram a ser tratados em hospitais israelitas, mesmo quando as bombas caíram a poucos metros do hospital Barzilai de Ashkelon.

Após a tomada do poder pelo Hamas, o Egipto estancou a fronteira internacional de Rafah, que o separa de Gaza. (Aliás, alguém ouviu falar do "bloqueio egípcio"?) Durante os confrontos entre o Hamas e a Fatah, os blocos de cimento de uma secção da barreira fronteiriça foram derrubados. Os canhões de água e os tiros da polícia de choque egípcia não impediram a passagem de mais de 500 mil palestinianos para o Sinai. Em poucos dias, a população de Gaza recheou a dispensa, parca com o bloqueio económico, enquanto o Hamas aproveitou para se abastecer de armas, incluindo os mísseis Grad, de fabrico iraniano, que agora disparam sobre as cidades do sul de Israel.

Depois do encerramento da fronteira, a alternativa para o Hamas para o abastecimento de armamento e para os civis para obterem bens básicos, foi o recurso aos túneis de contrabando. Supõe-se que existam mais de 200 entre os dois lados da fronteira de Rafah, por onde passa de tudo. Comida, medicamentos, combustível, animais e talvez até um soldado sequestrado (existe a hipótese de o soldado israelita raptado Gilad Shalit ter sido retirado de Gaza através de um dos túneis). Tudo é traficado. O Hamas controla todas as mercadorias que são contrabandeadas através dos túneis, cobrando uma taxa "alfandegária" usada para financiar as suas operações.

Desde 2005 a única indústria que floresceu em Gaza foi o fabrico de mísseis Qassam, para serem disparados sobre Israel. Daí que faltem todos os produtos transformados, mesmo os mais básicos, como o pão e o sabão.

É óbvio que Israel não tem favorecido a prosperidade em Gaza. A opção dos habitantes de Gaza em apoiarem o Hamas também não. Que país não bloquearia o seu inimigo declarado, impedindo-o de receber ajuda do exterior? O desenvolvimento visível na cidade árabe de Belém, nos arredores de Jerusalém, é um sinal claro de que a calma com Israel é da maior conveniência para os Palestinianos.

Não haverá desenvolvimento nem paz quando todos os recursos dos palestinianos forem dirigidos para o conflito com Israel. Tal como um dia declarou a Primeira-Ministra Golda Meir: "Haverá paz quando os Árabes começarem a amar os seus filhos mais do que eles nos odeiam".

publicado por Boaz às 22:36
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Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Quando é que o "aba" regressa?

Numa altura em que o país está em guerra, milhares de famílias em Israel estão suspensas pelas notícias. Não apenas por uma razão de solidariedade e preocupação nacional – somente nestas situações extremas o país consegue unir-se, ultrapassando as profundas marcas da crónica desunião da sociedade israelita. O foco das atenções é dirigido aos soldados que estão destacados em Gaza.

A calma nota-se, mas não deixa de ser aparente. Tudo funciona como numa época normal. E a maioria das notícias é positiva para o lado de Israel. Até ver... Porém, pais, esposas e filhos esperam ansiosos por notícias dos milhares de destacados para a frente de combate em Gaza, ou chamados para o serviço militar especial na fronteira com o Líbano e a Síria. Toda a gente conhece alguém que esteja neste momento em Gaza ou numa das fronteiras que, a qualquer momento, poderá tornar-se uma nova frente de batalha. (O Hezbollah deve estar neste momento a fazer as contas do que estará disposto a perder e a ganhar se entrar em guerra com Israel.)

As crianças são as que mais sentem a falta dos pais. Nervosas com a anormal ausência do papá, sobressaltam-se de cada vez que ouvem passos nas escadas ou alguém que toca à campainha da porta. "É o aba!" (É o pai!).

O rabino director do programa dos alunos sul-americanos da Yeshivat HaKotel ligou para o aluno encarregado do grupo, pediu-lhe para que todos ajudarmos a sua esposa o mais que pudermos, enquanto ele estiver de serviço no Golan.

Posso dar graças a Deus por saber que os meus filhos e a minha esposa não passarão por este tipo de ansiedade. Por ter feito aliyá (imigração para Israel) já depois da idade de 30 anos, não precisei de fazer o serviço militar. Apenas imagino o temor dos filhos e das esposas dos meus compatriotas soldados.

publicado por Boaz às 21:38
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Quarta-feira, 31 de Dezembro de 2008

Ilusões

O governo de Israel rejeitou a proposta francesa de um cessar-fogo provisório com o Hamas. Os mais ingénuos poderiam descrever esta resposta israelita à iniciativa francesa como "um sinal evidente de que Israel não deseja a paz".

Não se iludam. Tal como a comentou um responsável israelita, "A proposta de cessar-fogo provisório unilateral do ministro dos Negócios Estrangeiros francês, Bernard Kouchner, não foi considerada útil, porque é evidente que o Hamas não vai suspender o lançamento de foguetes contra Israel".

No Líbano, em 2006, Israel deixou o trabalho incompleto e o Hezbollah evidentemente aproveitou-se disso. O resultado: está hoje mais forte (quero dizer, armado) do que antes da guerra e não vai deixar de voltar a atacar Israel na próxima oportunidade. Israel não pode cometer o mesmo erro outra vez.

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Domingo, 28 de Dezembro de 2008

Meio mercado (ou será que os árabes fizeram greve?)

Hoje foi o dia de ir ao mercado de rua de Jerusalém, o Mahane Yehuda. Habitualmente, é um local quase caótico, apinhado de gente atarefada no meio das compras e de vendedores que gritam os seus pregões de descontos imbatíveis, num tom quase histérico. Porém, hoje o shuq (mercado em hebraico) estava calmo. Metade das lojas - as lojas dos vendedores árabes - estavam fechadas.

Devido à ofensiva militar em Gaza e com receios de distúrbios entre os árabes da Cisjordânia (tão perto de Jerusalém), as medidas de segurança foram aumentadas. Muitos dos vendedores do mercado Mahane Yehuda trazem diariamente os seus produtos de Belém, Hebron e outras cidades árabes.

Hoje, ou foram impedidos de passar pelos controles de segurança, ou então decidiram fazer um boicote aos compradores judeus.

PS - Os preços das verduras estavam ligeiramente mais altos hoje no mercado...

publicado por Boaz às 17:56
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Sábado, 27 de Dezembro de 2008

Foram avisados

Começo por dizer que: sim, é trágico o que se passa em Gaza. Porém, há que afirmar que o Hamas foi avisado. O governo de Israel anda, há semanas, a avisar que, caso não terminasse o lançamento de mísseis sobre as cidades de Sderot, Netivot e Ashkelon, situadas a poucos quilómetros da Faixa de Gaza, seria desencadeada uma operação em larga escala contra as instalações do Hamas na Faixa. Alegadamente, havia uma trégua entre o Hamas e Israel. Porém, há poucos dias o Hamas retomou o lançamento de mísseis. Chegaram a lançar 60 mísseis em 3 dias.

Estavam à espera de quê? Que Israel lhes mandasse bolos? Nenhum país permitiria impavidamente uma situação como a aquela que se tem mantido em Sderot nos últimos 7 anos. O lançamento quase diário de mísseis sobre a cidade, a partir de Gaza.

O Mundo condena. Também não se espera outra coisa. No entanto, só se condena a "gigantesca desproporção" da resposta de Israel e se lamenta o sofrimento em Gaza. Esperam-se para os próximos dias as marchas dos esquerdistas europeus frente às embaixadas de Israel, a queima de bandeiras israelitas da Indonésia à Noruega. Porém, os marchantes e os queimadores de bandeiras nada dizem nem dirão sobre o terror permanente por que passam os habitantes de Sderot. Para eles não há solidariedade internacional. Mesmo que, ao contrário do que fez o governo de Israel antes do início da operação, eles não sejam avisados pelo Hamas da chegada dos mísseis.

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publicado por Boaz às 18:32
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Terça-feira, 4 de Março de 2008

A pausa

Israel retirou de Gaza. O "Inverno Quente" terminou. O Hamas voltou à superfície, depois de uns dias de pânico nos bunkers. Rapidamente clamou vitória. A sua causa saiu vencedora. Mesmo à custa de sangue e vidas. Os heróicos mártires serão recompensados. A propaganda funcionou a favor. Os escombros e os gritos de Gaza abriram telejornais por todo o planeta. Apenas em Israel os Qassam são notícia.

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Segunda-feira, 3 de Março de 2008

Moralidade à distância

Israel invadiu Gaza. Sim, a operação "Inverno Quente" é a manchete da semana. Até agora já se contam mais de 100 mortos árabes. Os soldados israelitas mortos já são pelo menos três. Desproporção de números e de meios? Sim. Os mortos em Gaza são, na maioria, operacionais do Hamas prontos a entrar no Paraíso e a receber o seu carregamento de virgens.

Quem ouviu falar dos mísseis Qassam que caem em Sdetot, Netivot ou Ashkelon? As pobres e indefesas crianças e mães palestinianas gritam mais alto frente aos microfones dos média internacionais, ávidos de "imagens choque" para abertura de telejornal. As crianças, em Gaza e em Sderot são igualmente inocentes, mas não os seus pais. Os pais de Gaza elegeram – viva a democracia! – o Hamas. E ao Hamas sacrificam os filhos. Sacrifício em troca de virgens, ou pelo menos, da morte de mais algum israelita.


Mísseis Qassam lançados de Gaza para Israel, 22 Maio 2007. Foto: Emilio Morenatti.

Quantas das crianças árabes desgraçadas – sim, é uma desgraça que morram crianças – vítimas da aviação israelita, não morreram por serem usadas como "escudos humanos" pelos terroristas do Hamas? Em troca do paraíso prometido aos heróicos shahada, os mártires. Tal como lhes é injectado, desde cedo, pela TV oficial e pelo sistema de ensino palestiniano. Aliás, seja pela TV do Hamas ou da Autoridade Palestiniana, sem grandes diferenças. Ou simplesmente são obrigadas a ser "escudos humanos" frente ao convincente cano das kalashnikov dos terroristas. Por uma notícia trágica, por uma oportuna foto sangrenta, bons meios de propaganda, o terror não evita imolar os seus filhos. Perdão, os filhos dos outros.

O Hamas reina em Gaza. Pensou que reinaria sem oposição, instaurando o terror como política oficial a partir da Faixa e expandindo o pânico para o Sul de Israel. No pânico da morte pela mão da aviação israelita, a liderança do Hamas abriga-se nos bunkers. Os líderes fogem, não se imolam. Afinal a história do paraíso virginal oferecido aos mártires é apenas engodo para os pobres de espírito.

Não se exija de Israel que se contenha face às ameaças a que estão sujeitos os cidadãos das regiões próximas de Gaza. Os Europeus, há muito que se esqueceram do terror da guerra à sua porta. Distantes, no conforto dos seus sofás, ou das poltronas dos parlamentos. Ignorantes, de visão toldada pela miopia jornalística, estão completamente alheios à realidade em Israel. Em Lisboa ou Bruxelas não se escutam as ameaças diárias do Hamas, do Hezbollah ou do Irão.

Israel é o culpado, o cruel, o matador de crianças, o tanque imponente contra a pedra na mão de um menino. Slogans gastos pelo uso, mas que continuam a servir. A ser servidos às massas. A Europa, na sua bendita serenidade, e a caduca ONU, seguem implorando "piedade!" em direcção a Israel. De longe.

publicado por Boaz às 21:55
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Terça-feira, 22 de Janeiro de 2008

O pão e os mísseis

Crise humanitária em Gaza. É um dos assuntos do momento. O Hamas acusa Israel de querer matar os habitantes da Faixa de Gaza à fome. Abastecido quase na totalidade a partir de Israel, a Faixa está, desde há semanas, sob um bloqueio parcial. O fluxo de combustíveis foi reduzido. Há horas de apagão na Faixa, já que a central de energia fica sem abastecimento de combustível. Entre os seus 1,5 milhões de habitantes – num território pouco maior que a ilha da Madeira – cerca de 80% estão dependentes da ajuda humanitária. O Hamas diz que até a farinha começa a faltar nas padarias.

A situação de carência dura há meses. E não é coincidência que a crise foi agravada quando o Hamas tomou pela força o controlo na Faixa, instaurando um poder separado da Autoridade Palestiniana, que dirige a Margem Ocidental a partir de Ramallah. O terror já anteriormente derivado de Gaza agravou-se com a instituição do Hamastão.

Com o bloqueio mais ou menos apertado, ou operações militares mais ou menos intensas, destinadas a destruir a infra-estrutura terrorista do Hamas, recorrentemente, as Nações Unidas falam de “punição colectiva”. Os habitantes de Gaza pagam, em conjunto, pelas acções do Hamas. A União Europeia pede contenção na resposta de Israel.

Passemos então a cerca de Gaza e observemos o lado israelita. Há meses – ainda mesmo antes do assalto do Hamas à Faixa – que Sderot e outras cidades israelitas situadas perto da fronteira estão sob uma chuva de mísseis. Lançados a partir de Gaza. Da Gaza do Hamas. Do Hamas eleito quase por unanimidade pelos habitantes de Gaza. Da Gaza bloqueada. Da Gaza esfomeada. Da Gaza que continua a apoiar o Hamas. Do Hamas que manda os mísseis. Fecha-se o círculo.

Após o desmantelamento dos colonatos judaicos de Gush Katif e da expulsão dos seus habitantes para cidades de refugiados em Israel, os Palestinianos tiveram a oportunidade de provar o que eram capazes de fazer com um território sob seu controle. A desgraça que era a vida em Gaza durante a existência dos colonatos implantados no meio da Faixa não diminuiu. Depois da selvagem destruição dos edifícios de uso público dos antigos colonatos, deixados intactos por Israel para futuro uso pelos Palestinianos, não houve ordem no território. Houve caos. Depois houve eleições. A escolha avassaladora em Gaza: o Hamas.

O contrabando de armas a partir da fronteira de Rafah, que une a Faixa de Gaza ao Egipto, alimenta a indústria dos mísseis lançados contra as cidades israelitas. Para parar esta ameaça diária Israel responde com um bloqueio e algumas esporádicas operações militares. A ONU e a União Europeia pedem contenção.

Imagine-se que a situação na cidade de Sderot era num qualquer país da Europa. Bragança a ser bombardeada todos os dias, a partir de Espanha? Se os habitantes de Antuérpia não pudessem sair à rua, devido às bombas lançadas a partir da Holanda? Se, durante meses a fio, chovessem mísseis italianos em Nice ou alemães em Estrasburgo? Alguém pediria contenção a Portugal, à Bélgica ou à França?

De Israel espera-se que não faça nada. Que deixe as bombas cair sobre escolas e famílias de Sderot. Não digam que os habitantes de Gaza não têm nada a ver com os mísseis. As sondagens mostram que o Hamas e a sua estratégia terrorista continuam populares na Faixa. Os pais de Gaza estão dispostos a sacrificar, de qualquer forma, os seus filhos. O ódio que sentem por Israel é maior que o amor que sentem pelos seus filhos.

Negar o direito de resposta face à agressão vinda de Gaza, seja sob a forma militar ou de bloqueio económico, por parte de Israel, é negar a legitimidade israelita de proteger os seus habitantes. É negar o direito de Israel de viver em paz, um direito reconhecido a qualquer Estado. Não é mais nada do que negar a Israel o direito a existir.

PS – Apesar das bombas que caem nas cidades israelitas, o país continua a permitir a passagem de doentes graves provenientes de Gaza para tratamento em Israel. Portugal aceitaria tratar doentes espanhóis, se chovessem mísseis em Bragança?

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publicado por Boaz às 21:37
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

O arco da crise

Com frequência, analistas, jornalistas e políticos referem-se à resolução do conflito entre Israel e os Palestinianos como a chave para a estabilização do Médio Oriente e daí, de todo o Planeta.

Recentemente, o Iraq Study Group (ISG) liderado por James Baker, antigo Secretário de Estado americano foi incumbido pelo presidente Bush de encontrar formas para vencer a guerra no Iraque, de uma forma mais rápida e menos custosa. Em sangue e dólares. A conclusão do ISG foi: "a resolução a disputa Israel-Palestina" é a chave para ganhar a guerra no Iraque.

A ideia da centralidade do conflito Israel-Palestinianos não é exclusiva de James Baker e seus associados. Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU partilha da mesma ideia. E também, aparentemente, o seu sucessor Ban Ki-Moon, que recentemente disse a um jornal sul-coreano: "Se as questões no conflito entre Israel e a Palestina [sic] forem bem, outras questões no Médio Oriente... irão da mesma forma ser resolvidas."

Será o conflito entre Israel e os Palestinianos assim tão central no Mundo e mesmo no Médio Oriente?

Façamos então um passeio pelo Grande Médio Oriente, ao qual Tony Blair chamou "o arco da crise". Estendendo-se do Atlântico ao Índico, compreende 22 países. Dezasseis deles árabes, mais a Turquia, Arménia, Azerbeijão, Israel, Irão, Afeganistão e Paquistão. Todos foram fundados após o desmembramento de algum império colonial. Como primeiro sinal de instabilidade, saiba-se que nenhum destes estados goza de fronteiras inteiramente reconhecidas. Todos têm diferendos fronteiriços com um ou mais vizinhos, reclamando partes dos seus territórios. A maioria já travou guerras em consequência dessas reclamações.

Comecemos a digressão pelo Afeganistão. Reclama a soberania sobre a paquistanesa Província da Fronteira Noroeste. Na década de 1960, os dois países travaram uma série de guerras fronteiriças pelo controle da região. O Irão, por seu lado, insiste no direito de supervisão no oeste do Afeganistão baseado no Tratado de Paris de 1855. Iranianos e afegãos disputam ainda as águas de três rios fronteiriços, o Hirmand, o Parian e o Harirud.

O Paquistão desde 1947 mantém uma longa disputa territorial com a Índia pelo controle de Caxemira, desde a divisão do antigo Império Britânico da Índia, em dois estados, em 1947. Caxemira foi a origem de três guerras em larga escala e numerosos episódios de violência na fronteira entre os dois países. É responsável ainda pela corrida de ambos às armas nucleares, além de centenas de ataques terroristas, sobretudo na Caxemira indiana. Além de Caxemira, o Paquistão mantém uma disputa com o Irão sobre águas territoriais no Mar Arábico e sobre a nacionalidade de várias tribos de etnia Baluch que vivem dos dois lados da fronteira entre os dos países.

Numa escala muito maior, o Irão e o Iraque travaram uma série de guerras desde 1936 pelo controle o estuário do Shatt al-Arab. Um tratado de paz foi assinado em 1975, mas em 1980 Saddam Hussein invadiu o Irão, começando uma guerra de oito anos e que fez mais de um milhão de mortos nos dois lados. Desde a deposição de Saddam em 2003, o Irão redesenhou a fronteira a seu favor. E continua a reclamar o direito de supervisão sobre santuários xiitas no Iraque como Samara ou Karbala.


Irão, Esquadrão de fuzilamento nos primeiros anos da Revolução Islâmica.
Foto de Jahangir Razmi, fotógrafo iraniano. Prémio Pulitzer

A sul, e desde 1971, o Irão reclama dos Emirados Árabes o controle de três estratégicas ilhas no estreito de Ormuz, por onde flúi diariamente metade do petróleo do Mundo. A norte, luta com o Turquemenistão, o Kazaquistão, o Azerbeijão e a Rússia pelo Mar Cáspio. Os vizinhos pretendem a divisão deste mar interior conforme a extensão das suas fronteiras. Para reclamar a divisão equitativa que duplicaria a sua extensão do Cáspio, o Irão mantém desde 1995 uma marinha de guerra e impede as petrolíferas internacionais de explorarem gás e petróleo nas águas azeris e turcumenas que Teerão reclama como suas. Teerão tenta ainda manter um controlo da província de Khuzestan, rica em petróleo. A região teve uma maioria de população árabe até à década de 1940. Desde então tem sido sistematicamente "persianizada." Recentemente, várias tribos árabes residentes perto da fronteira iraquiana foram expulsas e substituídas por habitantes persas do centro do Irão.

O Irão é visto pelos países árabes como uma ameaça directa, em especial os Estados do Golfo. No entanto, mesmo entre estes, as relações não são amistosas. Apesar das relações tribais entre as famílias reais da região, a Arábia Saudita travou em 1955 uma guerra com Omã pelo controle do oásis de Buraimi, alegadamente rico em petróleo. Décadas de negociações não foram suficientes para se chegar a um acordo. No ano passado os Emiratos Árabes renunciaram a um tratado de 1974 com a Arábia Saudita, adivinhando-se uma terceira reclamação sobre o oásis.

Desde o final da década de 1990, o Qatar luta com os sauditas pela região de Khor al-Udaid, rica em petróleo. Em 2000, os sauditas anexaram a área à força, cortando assim a fronteira do Qatar com os Emiratos. O Qatar reclama do vizinho Bahrain o controle das ilhas de Hawar, travando uma guerra naval em 2001.

Entre a Arábia Saudita e o Kuwait, alegadamente os mais próximos dentre os Estados do Golfo, mantém-se o diferendo acerca da demarcação de fronteiras na chamada "Zona Neutra." Após a Guerra do Golfo de 1992-93, a fronteira do Kuwait com o Iraque foi estabelecida. Todavia, mesmo o parlamento eleito do Iraque não abdicou ainda da reclamação de soberania sobre as ilhas kuwaitianas de Warbah e Bubiyan e da parte sul dos campos petrolíferos de Rumailah atribuídos ao Kuwait pela ONU. A desconfiança em relação a Bagdade, levou o governo do Kuwait a erguer fortificações, cercas electrificadas, armadilhas anti-tanque e a implantar uma “terra de ninguém” que se estende numa faixa de 15 quilómetros. A Arábia Saudita tem em construção estruturas similares na sua fronteira com o Iraque.

A dinastia hashemita da Jordânia mantém há décadas uma reclamação de suserania sobre a província saudita de Hejaz, onde se situam as cidades santas de Meca e Medina, despojada do controle das tribos hashemitas em 1924 pelas tribos que compõem a actual família real saudita. A cada onda de pressão sobre a casa real saudita pela Al-Qaeda ou por militantes xiitas, de Amã ouvem-se apoios a um Hejaz independente.

O Iémen continua sem conseguir traçar a sua fronteira com Omã ao longo do Golfo de Hauf e no deserto de Rub al-Khali, “o vazio da Arábia”. Em 1999 travou uma guerra com a Eritreia pelo controle das ilhas Hanish, um arquipélago estratégico na entrada do Mar Vermelho.

Desde os anos de 1940, o Iraque e a Síria mantêm um diferendo com a Turquia pela divisão das águas do Rio Eufrates. Ainda, tanto a Síria como o Iraque reclamam a província turca de Iskanderun, onde os Árabes compõem 30% da população. A Turquia reclama o direito de supervisão do Norte do Iraque baseado no Tratado de Lausanne de 1923, em especial sobre as regiões petrolíferas de Mossul e Kirkuk e tem treinado e armado grupos tribais turcomanos na região. Na década de 1990, a Turquia actuou militarmente na região na sua guerra contra a milícia marxista curda do PKK.

A Síria reclama a totalidade do Líbano como parte da "Grande Síria", da qual reclama também fazerem parte a Palestina histórica e parte do Norte da Jordânia. Em quase 30 dos 50 anos do Líbano independente, a Síria manteve aí um exército de ocupação e esteve activamente envolvida nas três guerras civis libanesas. A Síria foi em grande parte responsável pela morte de mais de 100 mil libaneses e pela fuga de outros dois milhões e meio. No ano passado, a Síria e o seu maior aliado, o Irão, encorajaram o Hezbollah a travar uma guerra com Israel. Nos últimos anos, Damasco tem sido responsável por grande parte da agitação social e política no Líbano e por uma série de assassinatos políticos, incluindo o primeiro-ministro Rafik Hariri.

O Egipto, o maior dos estados árabes, mantém divergências fronteiriças com a Líbia e o Sudão. Na década de 1960 fomentou várias guerras por todo o mundo árabe. Desde a guerra 1958-62 na Argélia a um golpe de estado no Iémen que deflagrou uma guerra civil que se prolongou por seis anos e fez mais de 200 mil mortos. Recentemente, anexou partes do território sudanês e mantém um conflito intermitente com a Líbia sobre uma área do deserto Egípcio. Ironicamente, a sua única fronteira estável e reconhecida internacionalmente é aquela que o separa de Israel.

A Líbia é desde os anos 70 um dos grandes patrocinadores do terrorismo internacional. O atentado contra o avião da PanAm que se despenhou em Lockerbie e uma bomba numa discoteca alemã frequentada por soldados americanos estão no cadastro de Muamar Khaddafi. Mantém disputas com o Chade, a Tunísia e o Sudão. No Sudão desenrola-se um dos maiores desastres humanitários da actualidade, na região de Darfur. Centenas de milhares de mortos e mais de um milhão de refugiados, resultado dos massacres das milícias janjaweed apoiadas pelo governo central. Ao longo de várias décadas, o país esteve numa guerra civil. Árabes muçulmanos do Norte contra tribos negras cristãs e animistas do Sul. Mais de dois milhões de mortos e outros tantos refugiados até ao recente acordo de paz.

Marrocos, Argélia e Mauritânia têm lutado entre si pelo controlo do Saara Ocidental. A região foi anexada por Marrocos em 1975. Em retaliação, a Argélia tem apoiado a Frente Polisário, que reclama ser o governo legítimo do povo Saraui. Desde 1976 que Marrocos e a Frente Polisário travam uma guerra de baixa intensidade. Na década de 1990, Marrocos retribuiu à Argélia o seu apoio à Frente Polisario fechando os olhos à sangrenta campanha terrorista dos islamistas que custou a vida a mais de 250 mil argelinos.

Tudo isto é apenas uma síntese do que tem acontecido no "arco da crise". Nas últimas seis décadas, a região sofreu não menos de 22 guerras de larga escala em disputas de território e recursos, nenhuma delas tendo alguma coisa a ver com Israel ou os Palestinianos (se tem dúvidas, volte atrás e releia o artigo). Além disso, a história destes países tem sido dominada por séries de lutas domésticas, golpes de estado, ondas de violência étnica e sectária, em muitos casos com altos níveis de crueldade.

O Grande Médio Oriente tem-se caracterizado por uma crónica instabilidade, níveis baixos de desenvolvimento e atraso cultural. A região é a única zona do Mundo que, de um modo geral, passou ao lado da onda de mudanças positivas que se seguiram ao fim da Guerra Fria. Imprensa ou universidades privadas, sindicatos livres, partidos políticos ou liberdade de associação e expressão são realidades distantes. No século XXI, as linhas de produção das grandes marcas internacionais estenderam-se da Polónia ao Vietname ou ao Peru. Mas não à Síria ou ao Egipto. Nenhum destes estados tem, por exemplo, fábricas de automóveis ou de produtos de alta tecnologia.

Os déspotas que chefiam os estados entre a Mauritânia e o Paquistão há muito que pretendem desviar as atenções dos seus oprimidos súbditos com o sonho de atirar ao mar "o inimigo sionista". Como fazia o antigo presidente Nasser do Egipto, sempre que espreitava a ameaça da revolta política, logo se apressava a assegurar às massas do seu país e da "grande nação" árabe que a reforma política e social teria de esperar até que "o inimigo" fosse expulso da "nossa amada Palestina."

Para até um grupo de, aparentemente, homens sábios americanos, adoptar a mesma visão retrógrada e facilmente refutável, demonstra uma absoluta e perigosa ignorância da realidade.

Baseado num artigo de Amir Taheri, ex-editor do diário iraniano Kayhan, para a Commentary Magazine.

publicado por Boaz às 11:03
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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Um Mundo (quase) perfeito

Despotismo estalinista na Coreia do Norte. Perseguição a opositores políticos e minorias étnicas e transferência forçada de populações na Birmânia. Violência sobre os opositores políticos (recentemente também sobre algumas personalidades religiosas discordantes), expulsão e espoliação de propriedade de membros da minoria branca no Zimbabwe. Grandes limitações na liberdade de imprensa e total repressão de opositores políticos em Cuba e na Bielorússia. Escravatura na Mauritânia e República Centro-Africana. Massacres e expulsões em massa contra minorias étnicas no Sudão, com participação activa de forças patrocinadas pelo governo. Tráfico de mulheres para escravatura sexual na Roménia, Ucrânia, Bulgária, Rússia e Ásia Central. Violência sectária no Iraque e Líbano. Esmagamento brutal de uma revolta separatista no Sri Lanka. Silenciamento dos meios de comunicação social críticos ao governo na Venezuela. Violência entre facções políticas em Timor-Leste.

Ausência de liberdade política no Egipto, Síria, Cuba, Bielorússia, Sudão, Líbia, Azerbeijão, Uzbequistão... Pena de morte (nalguns casos mesmo para menores) no Irão, Estados Unidos, China, Paquistão, Nepal, Birmânia, Cuba, Rússia, Vietname... Exploração de mão de obra e ausência de condições laborais na China, Índia, países do Golfo Pérsico, Tailândia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão... Excisão (mutilação sexual de mulheres) na Guiné-Bissau, Sudão, Egipto, Etiópia, Quénia, Somália, Burkina Faso, Mali... Perseguições de minorias religiosas no Irão, Arábia Saudita, China... Exploração sexual de crianças na Arábia Saudita, Índia, Paquistão, Bangladesh, Nepal, Cambodja, Tailândia, Indonésia... Mulheres como “cidadãos de segunda” no Irão, Arábia Saudita, Iémen, Kuwait, Afeganistão... Crianças usadas como combatentes em conflitos na Costa do Marfim, Somália, Uganda, Territórios Palestinianos, Sri Lanka... Exploração de mão-de-obra infantil no Peru, Bolívia, Brasil, Colômbia, Índia, Vietname, Paquistão, Afeganistão, México...


Crianças soldados e "mulheres de segunda"

Oh, como seria perfeito o Mundo, se não fosse... Israel.

A ver pela atenção dada pela Comissão de Direitos Humanos da ONU, violações de direitos humanos só acontecem em Israel. Casos gravíssimos de brutalidade patrocinada pelo governo no Sudão, Birmânia, Coreia do Norte ou Zimbabwe, são ignorados. Investigações agendadas sobre a situação em Cuba e na Bielorússia foram bloqueadas. Os meios da Comissão são devotados em permanentes críticas a Israel. Apenas.

Recentemente o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon foi atacado por criticar os estados islâmicos membros da Comissão, por ignorarem abusos dos direitos humanos em todo o Mundo e apontarem apenas Israel. A observação de Ban Ki-moon irritou a Organização da Conferência Islâmica quando disse, o mês passado, que a Comissão de Direitos Humanos da ONU deveria observar todas as situações de violações de direitos humanos.

Só parece não valer a pena olhar para eles.

publicado por Boaz às 12:50
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Quinta-feira, 12 de Abril de 2007

Quem sobreviverá hoje?


Touloum, Chade. Campo de refugiados de Darfur, 13 Maio 2004.
Foto de Jerry Fowler, Colecção USHMM

Com a colaboração do Google Earth, o Museu do Holocausto dos Estados Unidos lançou uma nova prova contra a permanente negação do governo sudanês em relação às atrocidades no Darfur. As centenas de aldeias destruídas pelas milícias apoiadas pelo governo de Cartum estão agora assinaladas com chamas nas fotos de satélite da região de Darfur.

O próprio Museu no seu site, na secção "Alert - Responding today to the threat of genocide" (Alerta - Respondendo hoje à ameaça de genocídio) destaca a região de Darfur como uma das de maior risco de ocorrência de genocídio no planeta, a par da Chéchénia e da região de Nuba, também no Sudão. Além da permanente lembrança do genocídio Nazi contra os Judeus, é fundamental abrir os olhos aos flagrantes genocídios perpetrados actualmente.

A não desprezar.

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publicado por Boaz às 14:06
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Sexta-feira, 9 de Março de 2007

A corrida às armas

"A América e a Grã-Bretanha, gritou o [Presidente iraniano] Ahmadinejad perante dezenas de milhar de pessoas, «podem ter ganho a II Guerra Mundial, mas eles definitivamente perderão a III Guerra Mundial» porque «O Irão ganhará a próxima guerra e a América será derrotada». O minúsculo espalha-brasas iraniano de 49 anos é conhecido por acreditar que a morte e a destruição generalizadas serão o elevar da cortina para um Armagedão Muçulmano - que terá lugar durante a sua vida. Newt Gingrich, possível candidato republicano à presidência americana, diz que a terceira guerra mundial já está em curso."

Excerto de um artigo do Washington Times, referido no Haaretz.

Em Israel, todos os dias os jornais estão cheios de notícias sobre a ameaça nuclear iraniana. Os principais jornais, há meses que têm mesmo secções especiais sobre o assunto.


T-shirts como esta encontram-se nos mercados de Jerusalém

Muitos analistas militares falam numa muito provável nova guerra com o recém (e mais fortemente) rearmado Hezbollah, na qual a Síria tomará de certo um papel mais activo do que apenas de abastecedor da guerrilha xiita libanesa.

A estratégia israelita tem poucas opções favoráveis. Em 1981, quando a ameaça nuclear contra Israel provinha do Iraque, a Aviação Israelita bombardeou o reactor de Osirak. Ora, uma acção desse tipo contra as instalações nucleares iranianas é tão complexo em termos militares, que dificilmente poderá ser posto em prática apenas com uma acção isolada de Israel. Primeiro, o Irão fica mais longe de Israel e é muito maior que o Iraque. Depois, pela dispersão dos locais dessas instalações, algumas delas subterrâneas. Mesmo com um ataque israelita que atrasasse o projecto nuclear iraniano por alguns anos, estaria aberta a porta à retaliação iraniana na primeira oportunidade após aquisição de um engenho nuclear.

A ONU, a Europa e os EUA estão tão divididas no que fazer em relação à nuclearização do regime dos Ayatollahs que Israel apenas está certo de contar consigo mesmo nesta batalha.

Com bomba nuclear ou sem ela, sabidas as estreitas relações entre o Hezbollah, a Síria e o Irão, o próximo Verão poderá ser crucial no futuro do Médio Oriente.

publicado por Boaz às 10:10
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