Sábado, 17 de Novembro de 2012

Quando a sirene toca, de verdade

As velas de Shabbat estavam acesas há poucos minutos. Com a minha filha mais velha, de quase 4 anos, saí de casa para a sinagoga, a menos de 500 metros de distância. O céu azul do final da tarde, pontilhado de nuvens, tinha uns tons alaranjados no Ocidente. Senti uma gota de sorte por estarmos longe de Gaza. Pensei como iriam passar o Shabbat os habitantes da região costeira de Israel, entre a Faixa de Gaza e Tel Aviv.

Há dois dias, uma nova guerra começara na região de Gaza e do sul de Israel. Quer dizer, a guerra nunca tinha realmente terminado. Desde a retirada militar israelita da Faixa, no Verão de 2005, as cidades israelitas nas proximidades do território palestiniano eram atingidas com frequência por mísseis lançados por terroristas palestinianos. Primeiro os mísseis eram artesanais e com fraca precisão. Com o passar dos anos e o aumento do tráfico de armas iranianas, líbias e sudanesas para a Faixa, o arsenal do Hamas tornou-se mais sofisticado, atingindo cidades cada vez mais distantes.

Na sexta-feira, pela primeira vez em mais de 20 anos, as sirenes de alarme soaram em Tel Aviv, desde que Saddam Hussein retaliou a invasão americana com uma chuva de Scuds sobre Israel. Na tranquilidade de Gush Etzion, lugares como Tel Aviv, Ashdod ou Ashkelon – onde o soar das bombas e das sirenes eram agora realidades presentes –, esta nova guerra parecia, mais uma vez, remota. Um vizinho brasileiro tinha sido chamado para a base. Um dos 16 mil soldados reservistas convocados para uma possível operação militar em Gaza. A esposa, com os dois filhos ficou em casa sem saber a data de regresso do marido. Tanto podem ser alguns dias, como semanas.

Na sinagoga, como habitualmente era a hora de Kabalat Shabat, o serviço religioso que marca o início do Shabbat. Sem paciência para ficar sentada no banco da sinagoga, a minha filha pediu para voltar para casa. Deixei-a ir, avisando que não podia ir para outro lugar. A congregação levanta-se para entoar o cântico Lechá Dodi. A meio da segunda estrofe, o uivo da sirene de alarme soa por toda a aldeia. Não é um simulacro, como os que acontecem pelo menos uma vez por ano, mas uma sirene de alarme verdadeira. Alguns dos congregantes continuam a cantar, outros param sem saber o que fazer. O gabai, responsável pelo funcionamento da sinagoga, interrompe o serviço e pede para todos descermos para o andar inferior da sinagoga, conforme indicações do Serviço de Emergência Civil.


Habitantes de uma cidade do Sul de Israel observam os rastos dos mísseis lançados de Gaza.
Ao soar a sirene de alarme, os habitantes devem abrigar-se num lugar coberto.
Quem está demasiado longe deve deitar-se no chão.

“Onde está a minha filha? Agora mesmo a mandei para casa e ela está na rua sozinha!”, pensei alarmado. Olhei para o hall de entrada da sinagoga. Fiquei um pouco aliviado ao ver que ela ainda não tinha saído. Corri a pegá-la ao colo e abracei-a forte. O aperto do abraço foi mais para mim do que para ela, que felizmente não entendia o que se passava. Descemos as escadas para o andar de baixo, mais seguro e longe das janelas do hall.
– “Porque nós temos de descer as escadas”?, perguntou a menina.
– Este som forte significa que é perigoso, temos de ir para o abrigo. Tentei explicar-lhe a situação.
– O barulho da ambulância?
– Não, chama-se azaká (sirene, em hebraico). Parece o som de uma ambulância, mas não é.

Na escuridão, alguns homens continuavam a entoar Lechá Dodi. Tive vontade de chorar, uma ou duas lágrimas escorreram-me pelo rosto. A sensação de incerteza é avassaladora. Apertei ainda mais a minha filha. Alguns minutos depois, ainda um velhinho descia as escadas amparado por um braço caridoso, a maioria da congregação decidiu voltar para o santuário da sinagoga. “O Serviço de Emergência Civil diz que devemos esperar 10 minutos antes de voltarmos”, avisou um homem. Ninguém o ouviu. Como os israelitas gostam de desafiar as regras… O serviço religioso prosseguiu (quase) como se nada tivesse acontecido. No final, rezámos um salmo especial, em honra dos soldados israelitas e dos residentes das cidades sob a mira dos mísseis do Hamas.

Durante quase todo o Shabbat, despertava-me a cada vez que o vento soprava com mais força nas árvores das redondezas, pensando tratar-se do início do uivo de mais uma sirene de alarme. Em todas as casas, o assunto na mesa de Shabbat foi obviamente a inédita azaká que soara em Gush Etzion. Uma senhora, que deixara o rádio ligado para poder receber informações de segurança durante o Shabbat, informou que ouvira que o míssil tinha caído a Norte de Jerusalém.

Na manhã seguinte, outros informaram que o míssil caiu na região de Nokedim, apenas alguns quilómetros a Oriente, no deserto da Judeia. Vários vizinhos relataram terem visto o rasto de fumo do míssil a cruzar os céus nas redondezas. No final do Shabbat, busquei nas notícias informações mais precisas sobre o ocorrido. Confirmou-se a caída do míssil no deserto da Judeia. Achei inacreditável o ataque. Toda a região fica rodeada de cidades árabes! Hebron, com 150 mil habitantes fica 25 km a sul. Belém, com 50 mil, e Jerusalém, onde residem mais de 200 mil Árabes, ficam a menos de 10 km do local atingido.

Não sabemos o que se vai passar nos próximos dias. Entretanto, outros 75 mil soldados reservistas foram convocados. Uma operação terrestre em Gaza com infantaria ligeira e pesada é algo extremamente arriscado. O risco de baixas numerosas no Exército de Israel e o possível sequestro de soldados é algo que pesa nas decisões dos líderes israelitas. Na região costeira do país, num raio de até 40 km de Gaza, amanhã não haverá aulas. Aqui em Gush Etzion, tal como em Tel Aviv, ao contrário de outras guerras no passado, ninguém pensará desta vez que tudo acontece lá longe. Afinal, estamos todos no mesmo barco.

publicado por Boaz às 20:27
link do artigo | Comente | ver comentários (3) | favorito
Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

A geração dos 'Pardais'

Nesta última semana de intervalo nos estudos da yeshiva tive uma pequena mas interessante proposta de trabalho: ser guia de um grupo de jovens sul-americanos em visita a Gush Etzion, o bloco de colonatos a sul de Jerusalém e onde vivo há quase ano e meio. Fui substituir um brasileiro residente – tal como eu – em Alon Shevut e mais acostumado a estas andanças de guia turístico.

Nas vésperas, avisaram-me por e-mail que deveria falar da região de Gush Etzion, a sua situação política e estratégica, o modo de vida dos colonos, as diferenças entre os vários colonatos do "Bloco" e um pouco da história da região. Uma pesquisa noturna à pressa pela Internet, com as páginas da Wikipédia a encabeçarem as opções na busca de informação, deu-me alguns dados para completar aquilo que já sabia de cabeça. O episódio da "caravana dos 35" – que, nem por coincidência deu nome à minha rua, foi um dos pontos que mais destacaram que eu deveria falar.

Encontrei-me com o grupo às 11:45 junto ao alon ha'boded, o carvalho solitário que é o símbolo da zona. Tinham-me avisado que os jovens do grupo não eram religiosos. Bem, "não religiosos" seria uma definição algo branda para aquele bando. Membros da organização judaica de inspiração socialista, HaBonim Dror, os jovens eram na verdade mais do género "anti-religioso". De qualquer forma, sempre se mostraram respeitosos pela minha presença. A kippá grande, as longas peyot e os tzitzit à mostra não os assustaram. Eu também não me senti intimidado pelos grandes decotes e calções de verão das meninas e pelos penteados estranhos e os piercings dos rapazes. (Eu também já fui da "malta moderna". E até já usei um piercing! Vidas passadas.)

Depois da breve visita à histórica árvore, fomos para o kibbutz vizinho de Kfar Etzion, o mais antigo colonato da região, palco de um massacre exatamente no dia anterior à declaração de Independência de Israel. Era já hora de almoço e sentámo-nos à sombra de umas árvores num parque. Aí, tive a oportunidade de conversar com alguns dos outros guias, do Brasil e da Argentina.

Depois, dividimo-nos e metade do grupo foi visitar a yeshivá de Alon Shevut. Uma explicação – talvez demasiado longa – sobre alguns achados arqueológicos no jardim da yeshivá. Subimos até à ala das mulheres, com uma vista soberba do Beit Midrah, o lugar de estudos principal da yeshivá. Imagine-se aquela gente que nunca tinha entrado numa yeshivá – possivelmente muitos nem sequer entraram alguma vez numa sinagoga. Só nessa altura, os outros guias se lembraram que não tinham avisado as meninas para se vestirem de forma "composta", um pouco mais tapadas. Explicámos como é a vida na yeshivá e o modo de vida dos estudantes. Cinco minutos de explicação e voltámos aos autocarros.

Há que voltar daqui a pouco até "à base", onde metade do grupo tem outras atividades e nos espera para também fazerem este giro. Ainda temos alguns minutos para passar por Efrat, o maior colonato de Gush Etzion. Assim que chegámos à primeira rotunda de Efrat, o autocarro deu meia volta e voltou para trás. Não há mais tempo. Este meio-grupo não viu nada do local. Temos de mudar a estratégia para a próxima vez. Troquei de autocarro e tomei o microfone. Há que aproveitar os breves minutos da viagem entre os vários colonatos para ir falando.

Apesar de se identificarem como judeus – ainda que pelo talvez metade não o sejam de acordo com a lei judaica, filhos de pai judeu, mas não de mãe judia ou apenas netos de algum judeu – e imaginando que estão habituados a uma imagem de Israel muito desfocada pelos meios de comunicação social e pela ideologia de extrema-esquerda do Dror – a imagem do colono judeu fanático, sedento de sangue árabe, que come criancinhas palestinianas ao pequeno-almoço – tentei passar-lhes a ideia de que essa é uma ideia errada e que nem sequer todos os colonos são iguais. Que, tal como no resto do povo judeu no mundo inteiro, há judeus de todos os tipos e até seculares que habitam esta região.

Depois de 10 minutos de palestra, apercebi-me que o autocarro ainda não tinha saído do lugar. Ah, eu não tinha dado a ordem de largada! Bem, não me imaginava o líder da comitiva, mas apenas o que provê alguma informação. Fomos para Alon Shevut com quase 15 minutos de atraso. À chegada ao parque de estacionamento da yeshivá, uma vista sobre o enorme colonato de Beitar Illit, uma cidade habitada exclusivamente por judeus ultra-ortodoxos. Ao subirmos as escadas para a yeshiva, avisto o Rabino Aharon Lichstenstein, o director da yeshiva. "Aquele velhinho ali à frente é, apenas, um dos rabinos mais famosos do mundo", informo. Noto olhares impressionados entre os jovens. Não devem ter visto muitas vezes um rabino, ao vivo.

No andar de cima do Beit Midrash deixo-os fazer perguntas. "Porque está um aluno a dormir?" Explico como é cansativo estudar Torá o dia inteiro. "Aqui não estudam mulheres?" Falo da midrashá do kibbutz vizinho de Migdal Oz, com uma versão feminina da yeshivá de Alon Shevut, onde as mulheres estudam a Torá e outras fontes judaicas a fundo, a um nível raro a nível mundial e num ambiente judaico ortodoxo. Aproveito para explicar a evolução da perspetiva judaica em relação às mulheres e os avanços da Halachá (Lei Judaica) com a ajuda da ciência. Aponto o jovem no Beit Midrash que usa um computador e os dois jovens que estudam juntos por um volume da Guemará. As duas faces do estudo da Torá.

Ainda há tempo de ir a Efrat. Ali, temos 10 minutos até ao regresso. Uma visita ao belo miradouro ladeado de buganvílias e pinheiros. Observam o vale onde passa a estrada para Jerusalém e Elazar, o pequeno colonato do outro lado do vale. Mostro-lhes a tranquilidade da vida em Efrat. "E os Territórios Palestinianos, onde são?" Explico que, de acordo com a comunidade internacional, ali já são os "Territórios".

Antes de regressarmos, peço perguntas, mesmo as difíceis. Um rapaz pergunta: "Recebes alguma ajuda do governo para viver aqui?". E uma menina observa: "Isto é tudo muito lindo e tranquilo mas, e do outro lado da cerca, como vivem os Palestinianos?" A guia não me deixa responder ali. Temos de voltar para o autocarro. As respostas têm de ficar para a curta viagem de regresso. Explico que não tenho qualquer ajuda especial para viver ali. É certo que as casas são mais baratas naquela região do que numa qualquer cidade do país, mas apenas por uma questão das leis de mercado. E com a falta de casas os preços têm subido bastante. Ajudas? Eu pago 200 shekels – cerca de 40 euros – por mês, apenas para a empresa de segurança privada do colonato onde vivo.

A cerca... Achei bem explicar a "grande cerca", o Muro. É ruim, é feio, é injusto, mas é necessário. O facto de podermos viajar hoje de autocarro em Israel sem grandes receios, devemo-lo ao malfadado muro. Comparo com outro muro, igualmente caro e feio, mas bem menos polémico, e que ninguém condena: o muro construído com dinheiro da União Europeia em redor de Melilla, um enclave espanhol em Marrocos, para impedir a onda de imigrantes africanos de chegar à Europa. Se as intenções dos Palestinianos em relação a Israel fossem as daqueles imigrantes que apenas querem trabalhar, será que precisávamos do "nosso" muro?

Sei que não vai ser com alguns minutos de conversa que eles serão conquistados para apoiarem Israel. Pelo menos, espero que entendam um pouco melhor a posição das pessoas que vivem aqui. E que os tenha ajudado a destruir alguns estereótipos.

Nota: "Pardal" é a outra tradução possível de Dror, o nome pelo qual é conhecido do movimento a que pertenciam os jovens, HaBonim Dror, os "Construtores da Liberdade".

publicado por Boaz às 23:11
link do artigo | Comente | favorito
Terça-feira, 24 de Junho de 2008

Um carvalho solitário

No planalto de Gush Etzion, a cerca de 20 quilómetros ao sul de Jerusalém, fica a localidade de Alon Shevut. O tipo de local como Alon Shevut este é conhecido como "colonato", esse chavão da diplomacia internacional tão invariavelmente nefasto e vergonhoso. Porém, a sua realidade está tão longe do imaginário daqueles que nunca entraram num local destes.

Rodeado de colinas cultivadas de vinhas e oliveiras, Alon Shevut é um dos povoados judaicos que compõem a região de Gush Etzion. Há milénios que a região é habitada. Era ponto de passagem importante no acesso a Jerusalém e ao seu Templo. Em localidades vizinhas, encontraram-se mikvaot, estruturas usadas nos banhos de purificação ritual judaica, contando com mais de 2000 anos. Episódios da vida de Abraão e Jacob, de Rute a Moabita, o juiz Boaz ou o Rei David, tiveram lugar nestas paragens.

A região teve um repovoamento judaico nas primeiras décadas do século XX. Após massacres de judeus em Hebron em 1929 e em Kfar Etzion em 1948, habitantes judeus só voltaram a estabelecer-se aqui após a reconquista israelita na Guerra dos Seis Dias, em 1965.

O seu nome Alon Shevut, significa "Carvalho do Regresso" deriva de uma velha árvore existente num dos extremos do povoado. Localizada perto da chamada "Linha Verde" - a antiga fronteira entre Israel e a Transjordânia, até 1965 - a árvore era o símbolo do desejo de regresso dos judeus ao bloco de Etzion, após a expulsão pela Legião Jordana, em 1948. De longe, do lado israelita da fronteira, descendentes dos antigos moradores judeus na área, vislumbravam a solitária árvore. A memória dos difíceis dias entre 1948 e 1965 persiste e é contada às novas gerações.

Hoje, o local converteu-se num símbolo da região, um destino dos passeios familiares de Sábado, onde as crianças brincam debaixo da sua abundante copa.

publicado por Boaz às 22:21
link do artigo | Comente | ver comentários (2) | favorito
Terça-feira, 10 de Junho de 2008

Rumo ao Sul

Desde o dia 3 de Abril último que a minha residência oficial é a Rehov Ha'teena (Rua da Figueira) no colonato de Alon Shevut. Depois de mais de um ano e meio a partilhar um quarto na Yeshivat HaKotel, finalmente arranjei uma casa que, apesar de alugada, posso chamar de "minha".

Alon Shevut é um pequeno colonato, cerca de 15 quilómetros a sul de Jerusalém. Saindo da Cidade Velha, na direcção sul, quem segue pela Estrada de Hebron, ao chegar às imediações de Belém, quando no fim da estrada se avista o posto de controlo junto ao Túmulo de Raquel, vira à direita. Duas centenas de metros e chega-se ao Cruzamento de Gilo, a ponta sul de Jerusalém.

Aí, durante todo o dia e parte da noite, sempre há alguém a pedir boleia. Quem viaja para sul, normalmente para algum dos colonatos do bloco de Gush Etzion ou para a cidade de Hebron, costuma parar e oferecer um lugar no carro. Uma boa alternativa, se pensarmos que a maioria das viagens de autocarro para o Gush – como é conhecida em Jerusalém a região de Etzion – apesar de serem baratos, têm pouca frequência e demoram imenso tempo.

Os túneis, o posto de controlo e o muro

À esquerda da estrada vê-se a cidade árabe de Belém. Nota-se que a cidade tem crescido, depois da crise da Segunda Intifada, quando os hotéis estiveram praticamente vazios durante anos a fio. Logo a seguir, os túneis de Gilo. Um túnel curto, um viaduto sobre o vale e o túnel mais longo. Antes da construção destas obras, a estrada para o sul cruzava a cidade árabe de Beit Jala. Com a Intifada, eram frequentes os tiroteios e o lançamento de pedras contra os carros que passavam o viaduto. Por isso se ergueu um muro de betão de um dos lados, para tapar a vista dos atiradores.

Assim que se sai do túnel, chega-se a um enorme posto de controlo ainda em construção. Todo o trânsito que sai do sul de Jerusalém em direcção à capital, é verificado nesta instalação. Soldados patrulham as várias faixas do posto, 24 horas por dia. Todos os dias.

Os carros vindos dos colonatos não costumam ter problemas para passar. No máximo, o enfadado soldado de serviço pergunta "De onde vem?". As mulheres soldados, talvez "para mostrar serviço" costumam ser mais insistentes. Os carros, táxis e autocarros árabes, pelo contrário, são verificados minuciosamente. Os passageiros costumam ser mandados sair da viatura, e as bagagens inspeccionadas. Excesso de zelo? Pense-se o que se quiser, mas a segurança é uma palavra levada a sério por aqui.

No posto de controlo começa uma das novas secções do muro que Israel constrói na Margem Ocidental. Ironia, todos os trabalhadores da obra são árabes. Até a empresa que fornece o cimento é árabe, descobriu-se que um dos seus donos é o ex-PM palestiniano Ahmed Qorei. Durante quilómetros, o muro acompanha o lado oriental da estrada. Até há alguns meses, do outro lado do muro viam-se povoados árabes. Hoje, apenas o muro de pedra e, de tempos a tempos, uma cinzenta torre de vigia militar.

Para os palestinianos, o muro tem o efeito psicológico de marcar a presença israelita. Para que eles saibam quem tem o controlo. Para os colonos israelitas o muro é visto como uma possível – e não desejada – fronteira com um possível – e não desejado – estado palestiniano. Por outro lado, é também uma maneira de esconder o outro lado. De uma certa forma, esconder o problema palestiniano. Longe da vista...

As grandes colónias

À chegada ao extremo norte do colonato de Efrat, termina o muro à beira da estrada. Do outro lado não há árabes. Os perigos para os automobilistas já não são os atiradores furtivos. Agora só os próprios condutores, que há muito tempo que matam mais que o terrorismo. Saindo da estrada principal, um pequeno posto de controlo, vigia os carros que entram em Efrat pelo norte. À frente, um acesso para os bairros de caravanas de Dagan Hill e Tamar. Apesar de já contarem com alguns anos, nunca se transformaram em bairros de casas de cimento. A expansão do colonato, que se estende por vários quilómetros do lado ocidental de uma montanha, está suspensa. Só no perímetro do próprio colonato ainda se constrói, embora pouco.


Efrat, a capital do Gush

Na continuação da estrada principal começa a parte mais povoada de Gush Etzion. Primeiro Neve Daniel, situado no alto de uma montanha, a quase 1000 metros de altitude, é um dos pontos mais altos do centro de Israel. Do local, ventoso durante todo o ano, tem-se uma vista espectacular. A ocidente, em dias de céu limpo, avista-se toda a região entre Jerusalém e o Mediterrâneo, de Tel Aviv a Gaza.

Um pouco abaixo, fica a colónia de Beitar Illit, a cidade com maior taxa de natalidade em Israel, habitada por judeus ultra-ortodoxos. É tal a procura de casa por novas famílias e o seu crescimento populacional, que se prevê que a população quase triplique até ao final da década, chegando aos 100.000 habitantes.

Perto de Neve Daniel, fica Elazar, em frente do vale que separa a estrada principal da colónia de Efrat. É um colonato pequeno, com belas casas. À entrada, um pequeno jardim zoológico, que faz as delícias das crianças da região. Depois de uma curva perigosa e de uma recta propícia a altas velocidades fica a entrada principal para Efrat e a colónia agrícola de Migdal Oz. Efrat é casa de quase 10.000 pessoas, a maioria americanos endinheirados. Em algumas das suas ruas, sucedem-se mansões gigantescas, com jardins bem cuidados.

A estrada do Gush continua até ao seu ponto central, o Tzomet haGush (Cruzamento do Gush). O cruzamento é o destino de muitos trampistas, os viajantes à boleia. Daí, é fácil chegar a qualquer ponto da região. Para ocidente, três singulares colónias de Gush Etzion: a aristocrática Alon Shevut; a campestre Kefar Etzion e a alternativa Bat Ayin. Para sul, a estrada continua até à dividida cidade santa de Hebron, um dos principais pontos de discórdia entre Israelitas e Árabes. E a militante Kiryat Arba.

O trajecto cruza, como se tudo fosse tranquilo, várias aldeias árabes. A paisagem vai mudando, de vinhas e olivais entre os belos muros de pedra – como me lembram a Serra de Aire! – a colinas cada vez mais secas, pontilhadas ora de cinzentas aldeias árabes, ora de bucólicas colónias judaicas. Pelas colinas do sul da Judeia, ruma para sul, até ao deserto do Neguev, seguindo para Beer Sheva, a grande cidade do sul. Porém, aí, é um mundo à parte, bem longe da tranquilidade aparente e das disputas políticas que são o quotidiano do Gush.

publicado por Boaz às 22:06
link do artigo | Comente | favorito
Segunda-feira, 14 de Novembro de 2005

It's the American stupid, stupid!

No último Sábado, após o fim do Shabbat (que acaba ao pôr-do-sol), fui a Jerusalém. (Efrat é uma terra um bocado chata para quem é jovem e solteiro como eu). Fui de boleia, como habitualmente. No regresso, tomei um autocarro das carreiras regulares que ligam Jerusalém aos vários colonatos de Gush Etzion.

Apesar da hora tardia, onze da noite, o autocarro estava cheio. E, incrivelmente, cheio de jovens americanos, de ambos os sexos. A língua que se escutava era o inglês e não o habitual hebreu. Pela disposição notava-se que eram novatos nestas andanças israelitas. De tal modo descontraídos que mais parecia uma viagem de miúdos de liceu à Disneylândia, que uma normal viagem de Jerusalém para Gush Etzion.

Assim que se sai da cidade, o condutor desliga todas as luzes interiores do autocarro, a fim de melhor proteger os passageiros, ao dificultar a visibilidade dos alvos a eventuais atiradores furtivos ao longo da estrada, que passa junto a povoações palestinianas, até ao Gush.

Ignorantes desse facto, e assim que a escuridão se instalou, por todo o autocarro se esticaram dedos para ligar as luzes situadas por cima de cada assento. E de novo se fez luz.

Entretanto, o autocarro saiu da estrada principal e atravessou Beit Jala, detendo-se antes do portão eléctrico que cerra o único acesso à primeira paragem. Ao meu lado, um dos americanos perguntou surpreso: "Onde estamos?". "Har Gilo", respondi-lhe.

Pensei em acrescentar-lhe, maldosamente: «É um minúsculo colonato judeu construído numa colina rodeada de uma cidade hostil, palestiniana. Sim, eles também vivem por aqui...» Achei melhor não o fazer.

Coitado do rapaz. Muito provavelmente, havia chegado há dois dias a Israel (alguns dos jovens ainda tinham nas mochilas autocolantes da EL-AL) e passara o Shabbat, calmamente, com alguma família em Jerusalém, antes de rumar à yeshiva onde irá viver e estudar nos próximos meses, algures num colonato. Nos "Territórios".

Deixei-o viver no sonho dele mais um bocadinho.

publicado por Boaz às 14:58
link do artigo | Comente | ver comentários (2) | favorito
Terça-feira, 11 de Outubro de 2005

A estrada de Gush Etzion

A estrada que liga Jerusalém a Gush Etzion - o bloco de colonatos que inclui Efrat - é uma das coisas que mais me continuam a impressionar aqui.

Ao longo dos quase 20 quilómetros há arame farpado na maior parte do caminho. No vale junto ao bairro de Gilo, no sul de Jerusalém, a estrada é ladeada de muros, construídos há poucos anos, no início da Intifada, a fim de proteger os carros dos atiradores furtivos que tinham um forte reduto na vila palestiniana de Beit Jala, do outro lado do vale.

Os autocarros que fazem o trajecto têm vidro duplo e estes são dotados de "desfocagem óptica", a fim de confundir os eventuais atiradores da posição dos passageiros.

Coisas incríveis para quem vem do cantinho do céu que os portugueses julgam ser a nossa terra.

publicado por Boaz às 17:28
link do artigo | Comente | ver comentários (3) | favorito

.Sobre o autor


Página Pessoal
Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


Envie comentários, sugestões e críticas para:
Correio do Clara Mente

.Pesquisar no blog

Este blog está registado
IBSN: Internet Blog Serial Number 1-613-12-5771

É proibido o uso de conteúdos sem autorização

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.Ligações

.Visitantes

Jewish Bloggers
Powered By Ringsurf

.Arquivos

. Maio 2014

. Março 2013

. Novembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

.subscrever feeds

Partilhar