Domingo, 25 de Maio de 2014

Pontes e muros entre Roma e Jerusalém

Fiéis judeus ortodoxos passam por um grupo de cristãos que percorrem a Via Dolorosa, Cidade Velha de Jerusalém.
Foto de Micha Bar-Am.

Aos Cristãos e aos Judeus não faltam graves problemas internos. Alguns deles comuns. Assimilação e degradação de costumes. Afastamento e desinteresse das gerações mais jovens. Casos de pedofilia cometidos por membros do clero. Nenhuma religião tem o exclusivo da virtude. Menos ainda, exclusivo do pecado.

Do lado católico, a bomba dos escândalos de pedofilia rebentou na última década. Do lado judaico, o fenómeno do abuso sexual de menores só agora começa a aparecer nos media. O iceberg da pedofilia em escolas e comunidades judaicas mostrou até agora uma ponta muito pequena. Nos Estados Unidos, Austrália e outros países, alimentado pela onda de escândalos na Igreja Católica, o problema da pedofilia nas comunidades judaicas tem sido discutido. Em Israel, pelo contrário, mal se fala do assunto. Porém, quase todos os meses, descobre-se mais um episódio macabro. Debaixo da superfície, o monstro está vivo e, tal como acontecera no caso católico, é abafado por quem deveria travá-lo.

É óbvio que nenhum destes graves problemas internos é causado pelo outro lado. Mesmo que, há alguns meses, um importante cardeal católico tenha acusado os Judeus e o seu alegado “controlo dos media” de serem os responsáveis pelo escândalo de pedofilia que tem abalado o Catolicismo. Momentos de delírio deste género, de quem quer atirar responsabilidades para o quintal do vizinho acontecem também do nosso lado. Do alto das manias de perseguição que existem de parte a parte, parecemos acreditar que o outro lado só pensa em destruir-nos. Aumentar as divisões que existem antes ambos não resolverá nenhuma das polémicas mútuas. E muito menos os problemas internos.

Será dispensável dizer que a Igreja Católica e o papado não têm uma boa imagem entre os Judeus. Os casos de perseguição e violência contra judeus a mando dos Papas (ou outros com maior ou menor concordância papal) foram numerosos desde que o Catolicismo se estabeleceu como a religião maioritária e dominante na Europa. Todavia, a bem da sinceridade na análise histórica, a situação atual das relações judaico-católicas não podia ser mais distinta daquela que caracterizou os últimos séculos. Como mencionou o Presidente de Israel, Shimon Peres, acuando da eleição do novo Papa Francisco, as relações com o Vaticano nunca estiveram tão boas.

Bons sinais

As grandes mudanças começaram com o Concílio Vaticano II, nos anos 60. Logo em 1964, Paulo VI visitou Israel na sua primeira visita papal. (Uma parte da visita do Papa Francisco, que hoje chega a Israel, é para celebrar o 50º aniversário dessa histórica viagem.) Numa rápida estadia de apenas 11 horas na Terra Santa, visitou vários locais sagrados da Cristandade e encontrou-se pela primeira vez com o patriarca ortodoxo Atenágoras I, num sinal de aproximação entre Roma e Constantinopla, há quase 1000 anos de costas voltadas.

Ainda que na altura a Santa Sé e o Estado Hebraico não tivessem ainda estabelecido relações diplomáticas (apenas o seriam 30 anos depois, em 1994) e a visita tivesse sido conduzida como se Israel não fosse um país independente, o papa encontrou-se com o presidente israelita Zalman Shazar.

Foi um encontro de apenas 20 minutos num remoto posto da fronteira entre Israel e a então Margem Ocidental, ocupada pela Jordânia. Dois papados mais tarde, João Paulo II destacou-se por vários atos simbólicos de aproximação: o estabelecimento de relações diplomáticas com Israel, a visita a Auschwitz, o pedido de desculpas pela Inquisição e outras perseguições anti-judaicas. E acima de tudo a histórica visita a Israel, no ano 2000. Bento XVI voltou a repetir os atos simbólicos desde a sua visita à Alemanha e à sinagoga de Colónia. E o Papa Francisco é reconhecido pela sua excelente relação com os Judeus, já desde os anos em que era arcebispo de Buenos Aires.

Ainda assim, alguns episódios pontuais tenham azedado as relações com Israel e a comunidade judaica. Por exemplo, os planos (nunca concretizados) de canonização dos Reis Católicos, Fernando e Isabel, os quais introduziram a Inquisição em Espanha e ordenaram a Expulsão dos Judeus em 1492. E mais recentemente, já no papado de Bento XVI, o controverso processo de reabilitação do rebelde bispo Richard Williamson, conhecido pelas suas declarações anti-semitas e negação do Holocausto. (*ver nota no final) E também, o apoio declarado do Vaticano à causa palestiniana.

Do lado judaico, o diálogo ecuménico com o Cristianismo tem sido liderado pela corrente Reformista. Os “valores humanistas e universalistas” expressos pelo Judaísmo Reformista atendem antes de mais ao valor supremo do “espírito da modernidade”. Entre os Ortodoxos, as coisas são (um pouco) mais complicadas. Ainda mais em Israel. Na Diáspora, os Judeus, mesmo os ortodoxos, têm um contacto mais ou menos próximo com os não-judeus. Em especial com os Cristãos. Conhecem, por contacto cultural com a sociedade em geral, um pouco da cultura cristã. Pelo contrário, em Israel o contacto entre as diferentes religiões é superficial. E até mal visto. Os preconceitos e a ignorância mútuos são profundos.

Manifestações de desprezo

Se bem que sejam inegáveis as feridas abertas no Povo Judeu pela História, em muitos casos não é promovida uma atitude de reconciliação, mas de constante ênfase nessas feridas. Apesar de inúmeras fontes distintas, muitas delas expressando posições contraditórias entre si, a maioria do pensamento judaico não tem uma boa definição do “não-judeu”. As principais fontes legais judaicas foram escritas em períodos de intensa perseguição anti-judaica. A Mishná, durante a ocupação romana da Terra de Israel. O Talmude, nos primeiros três séculos da era comum, após a trágica destruição do Templo de Jerusalém. O Mishnê Torá de Maimónides, no meio das guerras de cristãos contra mouros da Reconquista. O Shulchan Aruch de Yosef Caro, durante a Inquisição Espanhola... Porém, apesar de não ser possível apagar a História, também não podemos olhar para o mundo como se nada tivesse mudado desde os anos de perseguição romana em que o Talmude foi escrito.

Ainda assim, em muitas yeshivot (academias de estudos judaicos) e em panfletos semanais distribuídos em sinagogas, sempre que o assunto envolve o Cristianismo, os tradicionais preconceitos anti-cristãos são expressos abertamente. Nos media israelitas que eu consumo (a maioria deles são em língua inglesa) frequentemente incluem notícias sobre a relação com os cristãos. Sejam casos passados em Israel ou na Diáspora. Em geral, em qualquer artigo que envolva – mesmo remotamente –, o Cristianismo, levanta-se uma onda de comentários dos leitores que demonstram até onde falta avançarmos no diálogo inter-religioso e na educação para a tolerância. Aliás, do de um comparável nível de intolerância manifestado por leitores “gentios” quando as notícias falam de Israel ou os Judeus.

O mesmo se passa com muitas páginas pró-Israel no Facebook. Em todas essas páginas abundam os “Amigos” cristãos, em geral evangélicos. Até aí, nenhuma objeção. Afinal, entre os gentios, eles são os mais entusiastas ativistas pró-Israel. Todavia, sem qualquer controle, como se fosse uma praga incontrolável, junto com as suas mensagens de apoio a Israel e ao Povo Judeu, costumam introduzir os habituais mantras evangélicos, espalhando a sua mensagem de apelo aos Judeus para aceitarem “a salvação”. Ou seja, Jesus. “Amigos”, mas com uma agenda pouco amistosa.

Da mesma forma que não aceito a difamação do Judaísmo e dos Judeus pelos Cristãos, também não aceito a difamação do Cristianismo feita por Judeus. No caso do Facebook, não foram poucas as páginas pró-Israel que deixei de acompanhar (ou seja, deixe de ser “Amigo”) por achar inaceitáveis as mensagens que aí eram propagadas pelos comentadores, com total conivência dos administradores da página. O discurso de ódio e desrespeito, levado a cabo por alguns fanáticos (de ambos os lados), está bem presente na maior rede social do planeta.

Em inúmeras ocasiões, encontrei-me na muito irónica posição de “defensor da honra cristã”. Logo eu! Ainda que eu próprio tenha a minha própria lista de oposições ao Cristianismo – se assim não fosse, não o teria abandonado – elas não implicam uma atitude de difamação ou até desprezo.

Faltam muitos passos a serem dados, de ambos os lados para que hoje, e no futuro, as relações entre os Judeus e os Cristãos, sejam amistosas. Sobretudo, falta educação. Só ela poderá ultrapassar preconceitos, ajudar a sarar feridas ainda abertas e instaurar o respeito mútuo. Que assim seja, Bezrat Hashem.

* Oficiais do Vaticano declararam que, antes da decisão de reabilitação do bispo Richard Williamson, desconheciam as polémicas opiniões do bispo. O Papa Bento XVI criticou o bispo por suas opiniões anti-semitas e ordenou que ele se retratasse publicamente da negação do Holocausto, sem o qual, não poderia exercer quaisquer funções episcopais dentro da Igreja. Há que realçar que a decisão de reabilitação do bispo Williamson foi uma questão interna católica a fim de integrar o grupo dissidente a que pertence, um pequeno cisma católico tradicional que não aceita as mudanças do Concílio Vaticano II.

publicado por Boaz às 10:00
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Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

Espanhóis vs. Alemães

Os Judeus, apesar do seu pequeno número em relação à população mundial – algo como 0,2% da humanidade –, são bastante variados em termos de costumes. Aquilo que em hebraico se chama min’hag. Tradicionalmente dividem-se em sefarditas e askenazitas. Os primeiros são provenientes da Península Ibérica (Sefarad em hebraico, que ainda hoje é também o nome para Espanha) e dos países árabes. Os segundos são descendentes das comunidades do Vale do Reno, na Alemanha (Ashkenaz em hebraico, ainda que hoje se lhe chame Guermânia) e da Europa Oriental. Além destes, ainda há alguns pequenos grupos como os judeus Italianos e os Iemenitas, que têm costumes muito próprios.


Minyan no Kotel. Onde se juntam todos os tipos de judeus.

A história de Sefarad fica marcada pela "Idade de Ouro do Judaísmo Espanhol" a qual produziu génios como Maimónides (o Rambam) e Nachmânides (o Ramban), o Cuzarí e dezenas de autores essenciais da filosofia e da literatura judaicas. Com a expulsão judaica dos reinos ibéricos, os sefarditas espalharam-se por grande parte do Mundo Judaico. Marrocos, Holanda, Itália, Grécia e o Império Otomano foram os principais destinos.

Com a descoberta do Novo Mundo em 1492 – o mesmo ano da Expulsão – e o início da colonização das Américas, judeus e "cristãos-novos" também se estabeleceram no Hemisfério Ocidental. A primeira sinagoga foi estabelecida por descendentes de Judeus portugueses na cidade brasileira de Recife, durante a ocupação holandesa. Após a reconquista da região pelos portugueses, os judeus escaparam para as Caraíbas (Curaçau, Barbados, Jamaica) e a recém-fundada Nova Amesterdão, que seria mais tarde Nova Iorque.

Em Portugal, Espanha e nas colónias – do México ao Brasil –, apesar da oficial Expulsão, nascia o fenómeno dos Marranos (Anussim, em hebraico). Judeus por dentro, cristãos por fora. Receosos da Inquisição sempre vigilante. As gerações passaram, a identidade foi-se perdendo aos poucos, mas mantiveram-se estranhos costumes como acender velas sexta-feira ao anoitecer, jejuar uma vez por ano no começo do Outono, limpar a casa e não comer nenhum alimento fermentado por voltas do início da Primavera. Para muitos, a origem destes costumes era desconhecida. Para outros, a alma e a identidade judaica, ainda que reprimidas, mantinham-se vivas. Em segredo.

Também na Europa Oriental a vida judaica era agitada de tempos a tempos por convulsões. Aí, o pensamento judaico tradicional dividia-se entre as linhas hassídicas com a sua forte componente mística e, em sua oposição, o racionalismo lituano fundador do moderno conceito da yeshivá, a academia rabínica. O liberalismo napoleónico promoveu aos poucos a integração dos Judeus à igualdade de cidadania. Ainda que a fera do anti-semitismo não tenha sido extinta pelo humanismo liberal. Dentro do próprio Judaísmo, a maior abertura social criou uma revolução. A Haskalá ou Iluminismo Judaico abriu caminho a um maior liberalismo na religião e mais tarde à fundação do movimento reformista.

No final do século XIX e no início do século XX, campanhas de massacres da população judaica às mãos de polacos, russos e dos cossacos ucranianos, levaram vários milhões de judeus askenazitas a todo o mundo anglo-saxónico. Hoje, eles são a imensa maioria dos judeus americanos, a maior comunidade da Diáspora Judaica. A liberdade americana fez florescer a comunidade judaica, atingindo um nível de desenvolvimento cultural e social nunca antes alcançado em qualquer outra etapa deste Exílio já bi-milenar.

Nas décadas de 1930-40, o Holocausto destruiu os maiores centros da vida judaica europeia. Por ter atingido em especial a Europa do Leste, a enorme maioria dos seis milhões de mortos judeus durante a Shoá eram askenazitas. Grupos hassídicos inteiros foram exterminados na voragem da ocupação nazi. Na mesma época, também importantes comunidades sefarditas como Salónica (Grécia), Sarajevo (Bósnia) e Amesterdão praticamente desapareceram.

Logo após a independência israelita em 1948, com uma crescente onda de anti-semitismo nos seus países de origem, mais de 800,000 judeus dos países árabes chegaram à Terra Santa. Até aos anos de 1990, antes da grande onda de imigrantes da ex-União Soviética que trouxe mais de um milhão de pessoas, os sefarditas compunham mais de 70% da população judaica do país. Hoje, a proporção entre as duas comunidades é praticamente idêntica, apenas com uma ligeira maioria de sefarditas. Porém, a nível mundial, a população judaica é maioritariamente de origem askenazi, numa proporção de 4 para 5.

Na sua versão moderna, o sionismo teve a origem no Leste Europeu. Os principais impulsionadores da ideia da fundação de um estado judeu na Terra de Israel eram askenazitas. Eles foram os pioneiros das comunidades coletivas locais, os kibbutzim e moshavim; fundadores das primeiras cidades judaicas da embrionária Israel e dos partidos políticos originais no país. Desde o início do Estado de Israel, a política tem sido dominada pelos askenazitas. Em 62 anos, todos os Primeiros-Ministros foram askenazitas. Entre os Presidentes da República, apenas dois eram sefarditas, Moshe Katzav, nascido no Irão, e Yitzhak Navon, descendente de uma família espanhola estabelecida em Jerusalém. Este desequilíbrio na esfera política levou à fundação do Partido Shas, dirigido pelo grande rabino Ovadia Yosef, é hoje o maior partido religioso em Israel e com uma crescente influência política, participando em todas as coligações de governo desde os anos de 1990.

A integração na moderna sociedade israelita de estilo marcadamente europeu, foi particularmente difícil para os judeus recém-chegados dos países árabes, provenientes de sociedades tradicionais. A maioria dos recém-chegados foi alojada em cidades de tendas construídas à pressa (as maabarot) ou insalubres "cidades de desenvolvimento" nas regiões periféricas de Israel. A ruptura com o seu modo de vida tradicional era evidente. Muitos haviam desfrutado de um elevado nível de vida nas suas terras de origem e na fuga à perseguição haviam perdido todos os seus bens. Viver em comunidades agrícolas também não foi bem sucedido, dado que nos países árabes os Judeus haviam sido mercadores e artesãos, e raramente se dedicavam à agricultura. Tal como acontecera com os Judeus na Europa medieval.

No novo país, composto por gente de tão variadas origens, recuperou-se a língua hebraica, a língua nativa dos Judeus. Usada durante os 2000 anos da Diáspora somente no âmbito religioso tornou-se o idioma da vida diária. Os askenazitas, falantes do yiddish, alemão, húngaro ou russo, contribuíram com a forma moderna do alfabeto. Os sefarditas, falantes do ladino, árabe, persa ou bukhari deram a sua pronúncia ao idioma moderno. Numa piada um pouco cínica, alguém definiu esta simbiose com a expressão bíblica "A mão de Esaú e a voz de Jacob".

Ainda hoje existe um certo sentimento de inferioridade dos judeus sefarditas em relação aos askenazitas. Todavia, a tendência parece visionar uma crescente influência dos sefarditas. A demografia joga a seu favor. Afinal, estes compõem a maioria dos judeus religiosos, que têm mais filhos que os seculares. Ainda que a face mais visível do judaísmo ortodoxo em Israel sejam os haredim askenazitas, notados pelas suas capotas negras e os shtreimels (chapéus de pêlo usados no Shabbat e dias festivos), estes são na verdade minoritários no panorama religioso em Israel. Por outro lado, os judeus tradicionalistas ou massoratim (não confundir com os adeptos do Movimento Masorti, uma denominação do Judaísmo Conservador) são parte de um fenómeno característico do público sefardita em Israel. Em geral, os askenazitas ou são ortodoxos ou declaradamente seculares. Esse "meio-termo entre a tradição e a modernidade" é a regra dos sefarditas não ortodoxos. E é raro encontrar um sefardita obstinadamente laico e totalmente ignorante da sua herança religiosa.

Mesmo na Diáspora, em países como o México, o Brasil, a França ou a Venezuela, as comunidades menos "assimiladas" são as sefarditas. Ao contrário, as comunidades askenazitas do mundo anglo-saxónico, com raras excepções, vão sendo dizimadas pelo fenómeno da assimilação e dos casamentos mistos. No moderno Estado de Israel, com a aliá de judeus de todos os cantos do planeta, realiza-se a profetizada kibbutz galuyot, a "reunião dos exilados" na Terra Prometida, o futuro parece antever um gradual atenuar das diferenças entre as diferentes comunidades judaicas.

Afinal, hoje em dia, é comum o casamento entre um homem sefardita e uma mulher askenazi. Ou o inverso. Ou até um homem louro de origem alemã com uma mulher etíope. A divisão askenazi/sefardita é um produto da Diáspora. O "novo judeu" – ideia romântica dos pioneiros sionistas inspirados em ideais socialistas –, é cada vez mais uma simbiose entre os costumes de ambos. Num exemplo caseiro, na mesa israelita é normal encontrar-se hoummous ao lado de gefilte fish. Afinal, pode dizer-se sem cair em sacrilégio que, tirando o toque especial da avozinha, seja ela húngara ou marroquina, cholent e dafina são basicamente a mesma coisa.

publicado por Boaz às 22:00
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Domingo, 28 de Março de 2010

Fénix de pedra

Estava em obras desde o Verão de 2006. A antiga sinagoga Hurva (a Ruína, em hebraico) era um dos símbolos do Bairro Judeu da Cidade Velha de Jerusalém. Foi fundada no início do século XVIII pelos seguidores do rabino Yehuda he-Hasid, que liderou o maior grupo de imigrantes judeus para a Terra de Israel em muitos séculos.

Poucos anos após a fundação, foi destruída, ficando arruinada durante mais de 140 anos. Daí o nome por que ficou famosa, “A Ruína”. Foi reconstruída em meados do século XIX, quando se intensificou a imigração judaica e o desenvolvimento de Jerusalém. Era a maior sinagoga de toda a Terra de Israel. Até 27 de Maio de 1948.

A Hurva foi uma das vítimas da Guerra da Independência de Israel. Os combates em Jerusalém, entre a Legião Árabe e as tropas da Haganá, uma das milícias que daria origem ao futuro exército de Israel, foram especialmente violentos. Em Maio de 1948, durante a batalha pelo controle da Cidade Velha, a sinagoga era um dos últimos redutos dos soldados da Haganá. O comandante da Legião Árabe, por intermédio da Cruz Vermelha, avisou a Haganá para abandonar o local, sob pena de um ataque em força. A liderança da Haganá recusou, consciente que o abandono do local significaria a derrota na batalha pelo Bairro Judeu.

A recusa da retirada resultou em combates no local. No final, a bandeira da Legião Árabe foi içada no cimo da cúpula da sinagoga. Mas esse não foi o fim da destruição da Hurva. Após a captura do local pelas forças árabes, o que restava da sinagoga foi deliberadamente minado e detonado. Nos meses seguintes, O mesmo destino teve a maioria do Bairro Judeu da Cidade Velha. Uma campanha de destruição arrasou centenas de casas, dezenas de sinagogas centenárias e antigas yeshivot. Os residentes judeus foram expulsos de Jerusalém Oriental e o acesso aos locais sagrados, como o Muro Ocidental, foi proibido a todos os judeus.

Nos 19 anos que se seguiram, durante o domínio jordano em Jerusalém Oriental, a cidade esteve dividida. Uma faixa de território, uma “terra de ninguém”, separou a Cidade Velha e Jerusalém Oriental da moderna Jerusalém Ocidental. As ruínas das casas do Bairro Judeu foram usadas como currais para cabras e burros. O milenar cemitério judeu do Monte das Oliveiras, onde estão sepultados centenas de sábios e ilustres judeus, também foi profanado. Lajes dos túmulos foram usadas para pavimentar estradas.

A reunificação da cidade em 1967 marcou o renascimento do Bairro Judeu. Foi totalmente reconstruído com arquitetura moderna. O Muro Ocidental, o local mais sagrado para o Judaísmo, voltou a estar acessível. E não só a Judeus, mas a pessoas de todos os credos e países.

Porém, a Hurva manteve-se no que foi na maior parte da sua história, uma ruína. Planos foram desenhados com propostas modernas para a reconstrução. No meio da indecisão entre arquitetos e políticos, um arco comemorativo da antiga sinagoga foi erguido em 1977 que se tornou num dos símbolos do Bairro Judeu.

No final do Verão de 2006, quando foi estudar para a Yeshivat HaKotel, vizinha da praça onde se situa a Hurva, já se havia decidido o que fazer com a velha sinagoga. A reconstrução de acordo com o aspeto que tinha antes da devastação de 1948 havia sido iniciada. Durante quatro anos, uma grua esteve erguida no local, montando pedra a pedra as paredes e a enorme cúpula da Hurva. Todos os dias, passava no local e via crescer a obra.

A Hurva reconstruída foi oficialmente inaugurada há menos de duas semanas com a presença de políticos e rabinos. No dia seguinte, residents árabes de Jerusalém Oriental envolveram-se em confrontos com a polícia israelita. Mentes paranóicas viram na reconstrução da Hurva algum indício de desejos de reconstrução do antigo Templo de Jerusalém no Monte do Templo, o local onde hoje se situa o santuário islâmico da Cúpula do Rochedo e a mesquita de Al-Aqsa. Por isso, grupos palestinianos apelaram a um “dia da raiva” em protesto pela reabertura da sinagoga.

A Hurva arruinada era o emblema da destruição deliberada da antiga sinagoga e de todo o Bairro Judeu ocorrida durante o domínio árabe em Jerusalém Oriental. A reconstrução simboliza o renascimento da cidade, algo pelo qual os judeus religiosos rezam três vezes por dia. A glória de Jerusalém é também a glória do Judaísmo. E isso é inaceitável para os Árabes.

publicado por Boaz às 16:00
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Quinta-feira, 11 de Março de 2010

O legado dos Patriarcas nas mãos dos políticos

No dia 21 de Janeiro, o governo de Israel apresentou um plano de restauro do património nacional. Num país marcado pela história religiosa de Judeus, Cristãos e Muçulmanos, é óbvio que locais sagrados seriam incluídos no documento. Todavia, a lista não teria chegado às primeiras páginas dos jornais e levantado polémica – inclusive a nível internacional –, se não constassem locais nos chamados Territórios Palestinianos.

Kever Rachel, o túmulo da matriarca Raquel na entrada da cidade de Belém, e Maarat HaMachpelá, a Gruta dos Patriarcas em Hebron, são os pontos da polémica. Depois da divulgação da lista, ocorreram confrontos entre residentes árabes e o exército israelita que controla uma parte da cidade de Hebron.


Maarat HaMachpela
, a Gruta dos Patriarcas, em Hebron.
O local é partilhado por Judeus e Muçulmanos.
Uma multidão de peregrinos judeus espera para entrar na sala do túmulo de Isaac,
onde o acesso de Judeus é permitido apenas duas vezes por ano.

De acordo com a declaração do governo, uma das intenções ao formular esta lista é promover a preservação dos locais e permitir o acesso a pessoas de todas as religiões. "A nossa existência aqui, no nosso país, depende não apenas da força do Tzahal (Forças de Defesa de Israel) e do nosso poderio económico e tecnológico. Está ancorada, mais do que tudo, no nosso legado nacional e emocional, o qual nós inspiramos na nossa juventude e nas próximas gerações".

É evidente que a lista tem uma intenção política, mostrando o plano político de afirmar o controle israelita desses locais. Porém, existe também seriedade na decisão do governo de Israel em querer preservar património judaico em locais reclamados por Muçulmanos. A história deu a Israel, e aos Judeus em geral, provas evidentes do destino dos locais sagrados judaicos quando caem sob a tutela dos não-judeus, em especial dos poderes árabes.

Em 1994, quando foi instituída a Autoridade Nacional Palestiniana (ANP), Israel entregou à nova entidade o controlo da cidade de Jericó e da maioria da Faixa de Gaza. Em Jericó, logo após a transmissão de poderes para a ANP, polícias palestinianos subiram ao telhado da antiga sinagoga “Shalom al Israel” e ostentaram a bandeira palestiniana, num sinal de evidente desprezo pelo lugar. No ano 2000, com o estalar da segunda Intifada, livros sagrados e relíquias da sinagoga foram queimados, o antigo chão de mosaico destruído e o local foi transformado numa mesquita.

Em Shechem (Nablus), no mesmo dia da entrega da cidade à Autoridade Palestiniana, em 17 de Outubro de 2000, uma multidão de palestinianos saqueou o antigo túmulo de José, um dos filhos do patriarca Jacob, esmagando a cúpula com picaretas e ateando fogo ao santuário. Após o ataque, o exército de Israel proibiu o acesso ao local aos peregrinos judeus, por motivos de segurança. Alguns dias depois, iniciaram-se obras de reconstrução e as autoridades palestinianas proibiram os peregrinos judeus de rezarem no local, até que uma comissão internacional independente determinasse se o local era santo para Muçulmanos ou para Judeus. (Mas nunca para ambos?) Ainda assim, de forma clandestina alguns peregrinos atreviam-se, de tempos a tempos, a visitar o local.

Com o tempo o santuário foi sujeito a vários atos de vandalismo, tornando-se depósito de lixo e de queima de pneus. Em 2007, jovens palestinianos de novo encheram o local de pneus e atearam-lhes fogo. Em resposta, o líder palestiniano Mahmud Abbas declarou o túmulo local santo islâmico. (A santidade da terra queimada...) Esse novo estatuto não salvou o lugar da selvajaria e da profanação. Em Abril de 2009, a pedra tumular foi esmagada e suásticas pintadas nas paredes.

A ONU e a UNESCO protestaram imediatamente a inclusão do Túmulo de Raquel e da Gruta dos Patriarcas na recente lista israelita do património a preservar. Porém, nunca protestaram a sucessiva depredação do Túmulo de José nem o vandalismo em Jericó ou em dezenas de outros locais judaicos – antigas sinagogas e túmulos de personagens bíblicos – situados em áreas controladas pela Autoridade Palestiniana.

No entanto, não foi apenas às mãos dos palestinianos que o património judaico foi vandalizado e desprezado. No Iraque, outrora pátria de uma significativa comunidade judaica, o túmulo do profeta Yechezkel (Ezequiel) era local de peregrinação de Judeus, Cristãos e Muçulmanos. Durante séculos, o santuário esteve ao cuidado da numerosa comunidade judaica. Após a independência de Israel, em 1948, os judeus iraquianos foram alvo de campanhas de intimidação e a maioria abandonou o Iraque. O venerado túmulo do profeta foi caindo em ruína.

Recentemente, as autoridades iraquianas iniciaram obras no local com vista à sua preservação. Porém, inscrições em hebraico e outros sinais judaicos foram apagados. A intenção é transformar o túmulo numa mesquita. Outros milenares túmulos judaicos no Iraque, como os do profeta Jonas, de Ezra o Escriba e do Rei Tzidkiahu (Zedequias) poderão num futuro próximo ser alvo da islamização forçada.

A lista do património a defender pelo Estado de Israel levantou críticas entre alguns políticos muçulmanos. Uma das mais ofensivas foi a do PM turco, Recep Tayyip Erdogan. Um jornal saudita citou-o, dizendo que o Túmulo de Raquel e a Gruta dos Patriarcas "não foram e nunca serão locais judaicos, mas islâmicos".

Na verdade, o acesso à Gruta dos Patriarcas tem sido partilhado entre Judeus e Muçulmanos, já que estes reconhecem o local como a Mesquita de Al-Ibrahim. No caso de Kever Rachel, após mais de 1700 anos de reconhecimento como o túmulo da matriarca Raquel, no ano 2000, muçulmanos começaram a chamar o local como mesquita Bilal ibn Rabah. Desde então, a novíssima denominação muçulmana passou a integrar o discurso politico palestiniano.

A cínica ignorância histórica de Erdogan, um político considerado moderado, é apenas mais um episódio de uma sistemática campanha para tentar romper qualquer ligação dos Judeus à Terra de Israel e a Jerusalém. Para além de argumentos religiosos, históricos e políticos sobre o direito de controlo e preservação, ou no mínimo de acesso de peregrinos judeus aos locais sagrados judaicos na Judeia e Samaria, a situação no terreno desde os Acordos de Oslo tem mostrado que os Palestinianos não têm respeitado o seu compromisso de preservação e liberdade de acesso a estes locais de culto.

O Túmulo de Raquel, reconhecido como um santuário judaico por mais de 2000 anos, e como tal mencionado inclusive em abundante literatura islâmica, tornou-se um local disputado por reclamações recentes. Tal como fizeram em outras ocasiões, os Palestinianos usam reais ou imaginárias reclamações religiosas para conseguir capital político para a sua campanha nacional. Nos sermões dos políticos árabes e dos imãs muçulmanos, uma das novidades é insistir que até o antigo Templo de Salomão não foi construído em Jerusalém. Para estes arqueólogos e historiadores de quintal, o Templo afinal foi construído... no Iémen.

publicado por Boaz às 23:46
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Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Os outros seis milhões

De acordo com a tradição judaica, apenas um quinto dos antigos escravos hebreus foi libertado do Egipto. A Torá revela que 600.000 homens com mais de 20 anos saíram da escravidão. Se juntarmos mulheres, crianças e jovens até aos 20 anos, teremos perto de três milhões de pessoas. E estes, lembremos, eram apenas 1/5 dos Filhos de Israel. Os outros, os que não saíram, nunca chegaram a receber a Torá. Nunca entraram em Israel. Nunca se tornaram Judeus. Os Hebreus que nunca saíram do Egipto morreram durante os três dias da praga da escuridão. A escuridão egípcia, na qual estavam tão imersos, sufocou completamente a sua identidade hebraica.

 
Travessa de Pessach com lugar para as diferentes comidas da festa.

No ano passado, a Agência Judaica realizou uma pesquisa destinada a determinar a população potencial de pessoas que podem fazer aliyá, a imigração para Israel. Praticamente esgotada a população de Judeus da antiga União Soviética, o estudo centrou-se nos Estados Unidos, o país com a maior comunidade judaica fora de Israel. Pelos números oficiais das comunidades judaicas, vivem nos EUA mais de 5 milhões de Judeus. Porém, o estudo da Agência Judaica descobriu que existem cerca de 11 milhões de norte-americanos com direito a imigrar para Israel – 6 milhões a mais do que o número oficial de Judeus!

Quem são estes seis milhões?

A grande parte dos judeus dos EUA chegou no período entre os finais do século XIX e o pós-II Guerra Mundial. Na sua maioria gente pobre que fugia de perseguições na Rússia, Polónia e Alemanha, fundaram a maior comunidade judaica do Mundo. No terreno da liberdade americana o Judaísmo atingiu o seu nível mais elevado desde a Idade de Ouro do Judaísmo Espanhol. O inglês tornou-se, segundo alguns, o "novo iídiche". Os Judeus atingiram a plena integração na sociedade americana: são líderes políticos e culturais, ícones da sociedade, apontados como exemplos do melhor que a América produz. No cinema, na ciência, na literatura.

Porém, em duas gerações apenas, milhões de descendentes dos judeus americanos perderam-se para o Judaísmo. A tranquilidade da vida judaica na América "ajudou" à assimilação. Muitos não têm qualquer vínculo com a comunidade judaica e a assimilação atingiu níveis alarmantes: mais de 50% dos judeus do país casam-se com não-judeus. (No Brasil a percentagem será superior.) Porém, mais do que uma catástrofe, muitos vêm este fenómeno como um sinal de "integração".

São numerosas as comédias que mostram um "casamento ecuménico", com um rabino e um padre católico ou pastor protestante partilhando a cerimónia. De novo, a "integração". Apesar da enorme presença de elementos judeus na cultura americana (e daí para todo o mundo), mais crianças judias sabem o nome da mãe de Jesus do que da mãe de Moisés. Muitas famílias judaicas celebram Channuka mas com uma árvore de Natal ao lado da chanukkia. Muitos judeus não celebram Rosh Hashaná nem escutam o toque do shofar, mas não perdem um Reveillon, nem deixam de escutar e admirar o fogo de artifício.

Em Portugal, dos fundadores da sinagoga de Lisboa, há pouco mais de 100 anos, são raros os seus descendentes que permanecem judeus. Mesmo das poucas famílias judias que restam, contam-se pelos dedos de uma mão as que são realmente religiosas. Há judeus suficientes para encher diariamente os cerca de 300 lugares da sinagoga, mas esta é usada apenas no Shabbat e festas. E o minyan (grupo mínimo de 10 homens necessário para realizar uma cerimónia religiosa) depende invariavelmente de algum ocasional turista. Sem escola judaica para as crianças, deixar o país é a opção para quem quer permanecer fiel às tradições. Em três gerações, as famílias judaicas tradicionais de Lisboa foram totalmente assimiladas. Restam os nomes de família apresentados com um orgulho aristocrata, mas pouco ou nada mais do que isso.

No calendário judaico, em Tisha be'Av, lembramos a destruição do Templo de Jerusalém e o consequente exílio que se lhe seguiu. Nesse dia lembramos também a Expulsão dos Judeus de Espanha, ocorrida na mesma data. É dia de jejum e de luto. Uma vez por ano, comemoramos o Yom HaShoá, o dia da memória do Holocausto. As sirenes tocam e o trânsito pára em Israel. Escolas e comunidades judaicas de todo o Mundo organizam palestras e exposições sobre o tema. Lembramos com solenidade nestas duas datas as maiores tragédias que caíram sobre o nosso Povo. Os milhões de Judeus que morreram e a glória do nosso passado. Todavia, não temos nenhuma data dedicada aos descendentes dos "Filhos de Israel" que nunca chegaram a ser Judeus.

A destruição do Templo, a Expulsão de Espanha, o Holocausto foram tragédias impostas aos Judeus por outros povos. Recordamo-las com dor pelas enormes perdas que sofremos. Lamentamos os Judeus que se perderam pela acção brutal dos Romanos, da Inquisição, dos Nazis. A assimilação, porém, é uma tragédia causada por nós mesmos, dentro do próprio Povo Judeu. De livre vontade, judeus casam-se fora da fé judaica. Alguns líderes judaicos chamaram-lhe "o Holocausto Silencioso". Silencioso, porque destrói sem sangue, sem tiros, sem cinzas. Mas – é possível – sem dor?

Como crescem os filhos dos Judeus que se casaram fora do Judaísmo? Que identidade têm? Sentem-se Judeus, ou outra coisa qualquer? Talvez até tenham passado pelo brit (circuncisão) e uma espécie de bar mitzva, estudaram em alguma escola judaica, tenham alguns amigos judeus… Como pode não sentir dor um filho de pai judeu e mãe não-judia quando entra numa sinagoga e, para o minyan, ele conta tanto como o turista que veio apenas tirar fotos?

O Judaísmo é uma corrente de elos unidos, formada desde Abraão. O elemento que mantém forte a corrente é a família judaica. Pessach - a Páscoa - é a festa judaica mais familiar. Não por acaso, as figuras centrais na celebração do seder de Pessach são as crianças. É nelas, na sua integração na história e tradições judaicas, que reside a coesão de toda a cadeia de transmissão que começou com Abraão. Afinal, Abraão foi escolhido para receber o pacto divino não apenas por ser um homem justo, mas porque D’us soube que Abraão transmitiria o Seu pacto às próximas gerações.

É nas crianças judias, frutos de um casamento e de uma família judaica, que se perpetua o pacto entre D’us e Abraão (reafirmado no Sinai a todo o Povo de Israel). Pessach, que significa "passagem", é o símbolo maior da transmissão da identidade judaica. Ao vivermos Pessach como se nós mesmos tivéssemos sido redimidos do Egito, renovamos a nossa fidelidade ao Povo de Israel. Decidimos se permanecemos, com os nossos filhos, fiéis ao pacto que recebemos dos nossos antepassados e aceitamos a redenção de D'us, ou se somos dos milhões que desapareceram na escuridão.

Nota: O nome da mãe de Moisés é Yocheved.

publicado por Boaz às 18:50
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Domingo, 30 de Dezembro de 2007

Ícone rachado

Recebi bastantes comentários ao artigo Natal sem Natal. Foi, em mais de três anos de Clara mente, o mais comentado de todos os meus artigos. Na altura respondi por e-mail – em vez de deixar a minha resposta na página dos comentários – a um dos meus melhores amigos de Portugal, autor de vários desses comentários.

Entendo a incredulidade de alguns comentários. Afinal, é normal uma pessoa sentir-se perturbada quando é posta em causa a estabilidade das suas bases. Mas não deixa de ser também estranho, já que, no caso católico, noutras situações, não parece fazer a mínima mossa aos tolerantes crentes quando a própria liderança de Roma declara que só o Catolicismo é a verdadeira fé. E, ainda mais quando reitera que, quem não acredita em Jesus como deus e salvador, não pode aspirar à salvação. Ao contrário dos não-oficiais jogos de xadrez judaicos na noite de Natal, declarações doutrinárias oficiais como estas, na própria voz do Papa, não são vistas como radicalismo. É apenas a verdade aceite e acima de qualquer discussão.


Pastor da IURD pontapeia a Senhora da Aparecida. Talibãs arrasam os Budas de Bamian.

Alguém até insinuou que o não aceitar Jesus como um homem de bem parece equiparar-se a um nível de fanatismo tal que, fosse eu muçulmano em vez de judeu e já andaria por aí, de cinto de explosivos amarrado à cintura, pronto a mandar uns infiéis para o Inferno.

O histórico ódio anti-judaico dentro do Cristianismo, traduzido em incontáveis actos de barbárie ao longo dos séculos, não é algo que deriva de franjas do próprio Cristianismo. É claro que a responsabilidade pelos actos cabe aos seus autores. No entanto, os interessados, busquem nos Evangelhos palavras do próprio Jesus contra os fariseus, os herdeiros do Judaísmo Rabínico. Para não falar de várias epístolas do apóstolo Paulo. Os anátemas anti-judaicos não surgiram apenas da boca de alguns papas, bispos ou padres mais "exaltados". Saíram da boca dos próprios fundadores do Cristianismo.

Para lá de uma figura religiosa, Jesus é o ícone cultural máximo do Ocidente. Pôr em causa o seu valor como homem e deus, atinge um nível de sacrilégio maior que a destruição das estátuas de Buda pelos Talibãs ou o bispo da IURD a chutar a Senhora da Aparecida.

PS – Apesar das críticas recebidas, não me sinto como um pequeno Salman Rushdie pós-Versículos Satânicos. E a excomunhão também está fora do meu alcance.

publicado por Boaz às 21:15
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Quinta-feira, 5 de Maio de 2005

Lembrar - pelos mortos, os vivos e toda a Humanidade

"Uma crença, mais do que qualquer outra (para citar uma frase de Isaiah Berlin) é responsável pelo massacre de indivíduos nos altares dos grandes ideais históricos. É a crença de que aqueles que não compartilham a minha fé - ou a minha raça ou ideologia - não partilham da minha humanidade.

Na melhor das hipóteses, são cidadãos de segunda classe. Na pior, são privados da santidade da vida. Eles são os condenados, os descrentes, os infiéis, os não redimidos; eles encontram-se fora do círculo da redenção. Se é a fé o que os torna humanos, então aqueles que não têm a minha fé são um pouco menos do que humanos.

Desta equação vieram as Cruzadas, as Inquisições, as jihads, os pogroms, o sangue do sacrifício humano derramado através dos tempos. Dela - da substituição de raça por fé - veio o Holocausto."

Rabbi Jonathan Sacks, Uma Letra da Torá

Pilha de sapatos. Auschwitz
Despojos da barbárie

Hoje, de acordo com o calendário hebraico (26 de Nissan) é o Yom HaShoa (יום השואה), o Dia do Holocausto. Em Israel é dia de luto. Todo o entretenimento público encerra. Às 10 da manhã tocam as sirenes durante dois minutos em todas as cidades. O trânsito pára. As pessoas param.

Na Polónia, centenas de jovens israelitas e polacos realizam a "Marcha dos Vivos", percorrendo a pé os mais de dois quilómetros que separam Auschwitz - o campo de concentração - e Birkenau - o campo da morte, das câmaras de gás.

Em nome dos mortos, dos sobreviventes e para que jamais, em qualquer parte do mundo, o genocídio seja permitido.

publicado por Boaz às 16:47
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Quinta-feira, 27 de Janeiro de 2005

O "nunca mais" que se repete

Velas em Auschwitz

Todos os anos, em todas as invocações do Holocausto, se diz "nunca mais". "Auschwitz nunca mais. Nazismo nunca mais".

No entanto parece que a humanidade não ligou ao exemplo nem aprendeu com Auschwitz (e os outros cerca de 900 (!) campos de concentração nazis), os guetos, a morte planeada, industrial e sistemática. Ou seja, o genocídio.

O "nunca mais" não foi ouvido no Tibete, em Timor-Leste, no Cambodja, na ex-Jugoslávia, no Ruanda e, neste momento ainda, no Sudão.

O filósofo George Santayana escreveu um dia: "Quem não aprende com a História terá de vivê-la de novo". Creio que esta é a maior e mais urgente herança do Holocausto para a consciência da Humanidade.

Cabe a cada um de nós aprender para não termos de enfrentar uma repetição da História. É que o "eu não sabia" não poderá ser invocado como desculpa.

publicado por Boaz às 17:31
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Porque é preciso não esquecer


O portão principal do campo e a torre de vigia, com os carris por onde chegavam a maioria dos prisioneiros.


'Arbeit Macht Frei' - O trabalho faz a liberdade. O incrível lema escrito no portão do campo.


Algumas das cerca de 600 crianças sobreviventes do campo de Auschwitz II-Birkenau, mostram os números de identificação tatuados no braço. Quase 7000 prisioneiros, incluindo mais de 600 crianças estavam vivos quando o campo foi libertado. (Imagem de um documentário soviético sobre a libertação de Auschwitz em 1945).

Jazíamos num mundo de mortos e de larvas. O último vestígio de civilização desaparecera à nossa volta e dentro de nós. A obra de animalização, começada pelos alemães triunfantes, fora levada a cabo pelos alemães derrotados.

É homem quem mata, é homem que faz ou sofre injustiças; não é homem quem, perdida qualquer vergonha, divide a cama com um cadáver. Quem esperou que o seu vizinho acabasse de morrer para lhe tirar um quarto de pão está, embora sem qualquer culpa própria, mais afastado do modelo do homem pensante do que o pigmeu mais selvagem e o sádico mais atroz.

Uma parte da nossa existência reside nas almas de quem entra em contacto connosco: eis porque não é humana a existência de quem viveu dias em que o homem foi coisa aos olhos do homem. (...)

Mas a milhares de metros acima de nós, nos rasgos entre as nuvens cinzentas, desenvolviam-se os complicados milagres dos duelos aéreos. Por cima de nós, nus, impotentes, inermes, homens do nosso tempo procuravam a morte recíproca com os instrumentos mais requintados. Um gesto do seu dedo podia provocar a destruição de todo o campo, aniquilar milhares de vidas; enquanto o conjunto de todas as nossas energias e vontades não chegaria para prolongar um minuto a vida de um só de nós.

A confusão cessou à noite, e o quarto encheu-se de novo com o monólogo de Sómogyi. Na escuridão total, dei por mim acordado de repente. «L'pauv vieux» calava-se: acabara. Com o último estremecimento de vida, atirara-se da cama para o chão: ouvi o golpe dos joelhos, das ancas, dos ombros e da cabeça.

- "La mort l'a chassé de son li", sentenciou Arthur. Não podíamos certamente levá-lo para a fora durante a noite. Não nos restava mais do que voltar a dormir."

Este é o relato de Primo Levi (químico e escritor judeu italiano) do último dia em que foi prisioneiro em Auschwitz, registado na sua obra "Se Isto É Um Homem". No dia seguinte, o Exército Vermelho libertou o campo. Há exactamente 60 anos.

O que resta hoje da memória?

Mais: Liberation of Auschwitz-Birkenau by Russian troops January 27, 1945 | Yad Vashem (Museu Memorial do Holocausto, Jerusalém) | Simon Wiesenthal Center / Museum of Tolerance | Survivors of the Shoah Visual History Foundation | US Holocaust Memorial Museum (Com uma grande base de dados de fotos e histórias) | 60 anos da libertação (na BBC) | Why didn't the Allies bomb Auschwitz? (Uma boa pergunta, na BBC) | Holocaust Memorial Day (eventos no Reino Unido) | Fotos actuais dos campos de concentração / Idem (Do fotógrafo Alan Jacobs) | The Holocaust Revisited: A Retrospective Analysis of the Auschwitz-Birkenau Extermination Complex (Fotos aéreas tiradas pelos Aliados a partir de Abril de 1944. Também inclui uma descrição e história do campo) | An Auschwitz Alphabet (Baseado na obra de Primo Levi, por Jonathan Blumen) | What I Learned From Auschwitz (Do mesmo autor - o seu site, The Ethical Spectacle tem vários ensaios sobre o assunto).

publicado por Boaz às 03:03
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Domingo, 5 de Dezembro de 2004

Ordem de expulsão


 

Aguarela de Roque Gameiro representando a expulsão dos Judeus de Portugal.

O Édito de Expulsão foi promulgado por D. Manuel em 5 de Dezembro de 1496. Há 508 anos.

Para melhorar as relações com Espanha, o rei D. Manuel pretendia casar-se com a filha dos Reis Católicos. Como condição para aceitar o casamento da filha, Isabel e Fernando exigiram que expulsasse todos os Judeus de Portugal (como eles haviam feito em 1492). Na altura do decreto de expulsão de Espanha, milhares de judeus (93 mil segundo as contas do contemporâneo Andrés Bernaldez) atravessaram a fronteira em busca de abrigo, mediante o pagamento de um tributo de 8 cruzados por pessoa e a licença de trânsito por oito meses atribuída pelo rei D. João II.

Os que não puderam pagar a quantia viram-se numa situação de servidão. A estes foram retirados os filhos menores, que foram baptizados e entregues à guarda de Álvaro de Caminha que nessa altura partia para o povoamento da ilha de São Tomé, onde a maioria não resistiu às condições do clima.

Uma vez que os Judeus constituíam uma parte importante da elite económica, cultural e científica do país, o rei queria evitar a sua fuga. Para o conseguir autorizou a permanência no país àqueles que aceitassem a conversão ao cristianismo. Com a proibição de entrar em Castela, a única saída era por mar. No entanto, o rei não aprontou os barcos para o embarque e se, inicialmente, haviam sido facultados três portos para o embarque, apenas Lisboa ficou disponível. Enquanto esperavam autorização de saída foram baptizados à força os que o não tinham sido de livre vontade.

Surgiu então uma nova classe: os cristãos-novos. Tornaram-se o alvo preferencial da Inquisição que seria estabelecida em 1536, uma vez que muitos continuaram a praticar secretamente o Judaísmo. Mesmo depois da abolição do Tribunal do Santo Ofício, em 1821, o cripto-judaísmo continuou a ser praticado em Portugal, em especial na Beira Interior e Trás-os-Montes. Em Belmonte, só terminaria já depois do 25 de Abril.

«Andem estes mal baptizados tão cheios de temor desta fera [a Inquisição] que pela rua vão voltando os olhos [para ver] se os arrebata, e com os corações incertos, como a folha da árvore movediça, caminham, e se param atónitos.»
Samuel Usque, Consolação às Tribulações de Israel, Diálogo III, Cap. 30, 1533.

publicado por Boaz às 21:32
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Quinta-feira, 4 de Novembro de 2004

Há nove anos

 

Yitzhak Rabin
(1 de Março de 1922 - 4 de Novembro de 1995)

publicado por Boaz às 17:32
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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