Quarta-feira, 4 de Abril de 2012

Vêm aí os Persas?

Tal como em Israel, também no resto do Mundo Ocidental os diplomatas têm andado agitados com a questão nuclear iraniana. O assunto aparece nas notícias todos os dias. Desde as crescentes sanções contra o regime iraniano, às declarações dos políticos. Mais do que factos, transmitem-se especulações sobre o estado do programa nuclear iraniano e o vai-não-vai de um ataque israelita contra os centros atómicos dos ayatollahs. O anúncio de sanções pela comunidade internacional, em especial a União Europeia que declarou um embargo à compra de petróleo iraniano para o próximo Verão, levou a mais uma subida do preço do petróleo. Mais um fator a fazer piorar a crise económica internacional.

De um lado, o presidente iraniano Ahmadinejad continua a aparecer em propagandísticos eventos que promovem os avanços imparáveis das suas forças armadas e do seu programa nuclear – que alega ser apenas para produção elétrica, algo estranho para um país cujo solo é ensopado de petróleo e gás natural. Do outro, o Primeiro-Ministro israelita Benyamin Netanyahu e o Ministro dos Negócios Estrangeiros Avigdor Lieberman desenrolam-se em encontros com Obama e outros líderes ocidentais para alertar sobre os perigos de um Irão dotado de armas nucleares.

Para lá das fronteiras de Israel, entre as restantes nações do Médio Oriente, também há preocupação com a perspectiva de um Irão atómico. Esse é um dos pontos mais destacados pela diplomacia israelita: um Irão dotado de armas nucleares não é somente uma ameaça para Israel, mas para toda a região e o resto do Mundo. Numa região em constante conflito, uma nova potência militar desequilibraria as frágeis relações entre os vários países e complicaria a influência americana na região.

A questão nuclear iraniana entrou na ordem do dia com a subida de Mahmud Ahmadinejad ao poder. A retórica populista, o fanatismo militante, o declarado anti-israelismo que declara a vontade de “apagar Israel do mapa”, tornaram-no um espalha-brasas na arena internacional. Ainda que seja admirado por alguns elementos da extrema-esquerda europeia e sul-americana. Sem a menor vergonha, organizou conferências destinadas a negar o Holocausto, convidando a Teerão pseudo-especialistas, adeptos do mais danado revisionismo histórico. Ninguém sabe muito bem o que poderá fazer o maníaco de Teerão, com o militarismo lunático de quem se considera o mensageiro que trará o Mahdi (o messias islâmico) após uma guerra apocalíptica contra os Infiéis, nem que para isso arruine o seu próprio país. Ahmadinejad parece seguir à letra a ideologia destruidora do falecido ayatollah Khomeini, o ideólogo da República Islâmica: “Deixem esta terra [o Irão] ser queimada, desde que o Islão desponte triunfante no resto do Mundo”. Pelo menos, entre o aparelho político iraniano, o parlamento parece mais moderado do que o atual presidente, limitando em parte os seus delírios.


Imagens com esta mensagem (sem o sarcasmo final) têm sido publicadas na Internet,
provenientes de Israel. Do Irão a resposta tem sido idêntica.

Além da ameaça declarada contra Israel, Ahmadinejad é uma ameaça também para os seus vizinhos árabes. Apesar das proximidades culturais, o Irão não é um país árabe, mas persa. As inimizades entre persas e árabes são antigas. A minoria árabe no Irão é altamente descriminada. A tradição islâmica iraniana é maioritariamente xiita, ao contrário da maioria dos muçulmanos árabes que seguem a tradição sunita. Os xiitas, seguidores da tradição de Ali, o sobrinho de Maomé e seu herdeiro espiritual de acordo com o Islamismo Xiita, são vistos como hereges pela maioritária corrente sunita. A secular descriminação dos xiitas pela maioria sunita deixou cicatrizes por sarar entre as duas maiores correntes do Islão.

Com o seu poder militar, as receitas do petróleo e a influência política, o Irão tem apoiado ativamente os movimentos xiitas nos países árabes. Do Iraque – onde os xiitas são a maioria, dominados e massacrados pela minoria sunita durante a ditadura de Saddam Hussein –, ao Líbano, onde o Hizbollah é um verdadeiro posto avançado dos ayatollas na fronteira norte de Israel. Na pequena ilha-estado do Bahrain, no Golfo Pérsico, a maioria xiita tem reclamado maiores direitos, face ao domínio sunita da dinastia reinante.

O temor dos países do Golfo face ao expansionismo atómico dos ayatollahs tem-se manifestado em rumores de um possível apoio de alguns países a um ataque de Israel às centrais nucleares iranianas. Rumores publicados nos jornais indicaram que a Arábia Saudita permitiria aos aviões de combate israelitas sobrevoarem o seu território a caminho de um ataque ao Irão. Obviamente que este apoio não é, nem pode ser declarado publicamente. Isso seria considerado uma traição dos muçulmanos árabes face aos seus irmãos iranianos, mesmo que sejam vistos como hereges. Ainda mais cooperando com o odiado inimigo sionista. Aos olhos do mundo ocidental e muçulmano, a unidade da Umma, a Comunidade dos Crentes Muçulmanos, continua a ser um mito propagado. Um apoio declarado dos países árabes a um ataque ocidental contra o Irão, seria prontamente explorado pela propaganda iraniana para incendiar ainda mais o mundo islâmico contra os EUA e Israel, chamados na terminologia iraniana de “Grande e Pequeno Satã”.

Israel tem aumentado as relações com o Azerbeijão, uma ex-república soviética, de maioria muçulmana mas secular, que faz fronteira a norte do Irão. Um artigo recente da revista “Foreign Policy” afirmou que o governo azeri teria autorizado o exército de Israel a usar as suas bases militares próximas da fronteira iraniana, num eventual ataque israelita ao Irão. O Azerbeijão tem um diferendo com o vizinho Irão no controle do Mar Cáspio, rico em petróleo.

Apesar do nervosismo dos diplomatas, dos repetidos simulacros de ataques, dos testes de novos mísseis para o exército, das recorrentes notícias alarmantes sobre um possível ataque nuclear contra o país e de uma possível operação militar israelita contra o Irão, em Israel o povo parece estar alheio a toda esta agitação pré-apocalíptica. As preocupações diárias do comum israelita prendem-se com a falta de casas ou o preço proibitivo das rendas nas principais cidades, o custo de vida em ascensão, o aumento dos combustíveis (ninguém poderá negar a relação entre a subida do preço do petróleo com a corrente vaga de sanções contra o Irão, um dos maiores exportadores mundiais de petróleo). As manifestações gigantescas ocorridas durante meses no Verão passado não tiveram a ver com a ameaça iraniana, mas com as dificuldades internas.

O preço elevado do queijo cottage – uma das paixões nacionais – tornou-se uma desculpa para protestos contra as dificuldades económicas. Depois da campanha para reduzir o preço do queijo, vieram os outros laticínios. Motivados pela sensação de poder nas mãos, a campanha popular virou-se para o preço das casas. Armaram-se tendas em todas as cidades de Israel, que permaneceram ativas todo o Verão e uma boa parte do Inverno. Depois, a revolta popular virou-se para o elevado custo da educação. E o governo instituiu a educação gratuita desde os três anos de idade. “O povo exige justiça social!”, o slogan gritado nas ruas e que fez estremecer o governo de Netanyahu no último Verão – e promete regressar nos próximos meses – nada tinha a ver com a ameaça iraniana (ou a eterna questão palestiniana).

Em evidente contra-mão às preocupações do quotidiano nacional, os militares e políticos israelitas insistem em manter a questão nuclear iraniana na sua agenda diária. Face à incerteza do que poderá resultar da Guerra Civil na Síria, até à perspetiva de um crescente armamento do Hezbollah no Líbano – o Irão não quererá perder os seus únicos aliados no Médio Oriente – o aparelho militar israelita tem insistido em aumentar o orçamento da Defesa, que já consome algumas dezenas de biliões de shekels do orçamento de Estado. Em geral, o orçamento militar em Israel é algo sagrado que nenhum governo se atreve a controlar, mas o governador do Banco de Israel e o próprio Ministro das Finanças têm tentado controlar as ânsias gastadoras dos generais.

Na verdade, ninguém saberá quando e se o ataque acontecerá. Mais incertas são as consequências de um bombardeamento israelita: desde a real eficácia de uma acção militar para travar o programa nuclear iraniano, à dispersão de materiais radioativos no território iraniano e até aos países vizinhos. E claro, a resposta dos ayatollahs a um ataque. Certo é que, não ficaria sem resposta. E o Irão tem um poderoso exército, dotado de mísseis de longo alcance. Com ou sem armas nucleares, um contra-ataque iraniano contra Israel seria catastrófico.

A mensagem da ameaça iraniana (real ou exagerada) não está a passar como os líderes israelitas desejariam. Ou talvez os israelitas, com o seu pragmatismo natural, considerem que não faz sentido preocupar-se com cenários hipotéticos de guerra – ainda que alguns incluam a perspetiva do extermínio – se não podem garantir confortos básicos imediatos como casa própria e queijo barato. Numa recente campanha na Internet, que se tornou viral, israelitas publicaram fotos suas em forma de cartaz, declarando que amam os Iranianos e que Israel não bombardeará o seu país. Do outro lado, houve uma reação no mesmo sentido, mas mais comedida, dadas as limitações à liberdade de expressão com que vivem os iranianos.

Antes de tentar convencer o mundo da importância de um ataque militar para deter o programa nuclear iraniano, parece que o governo israelita precisa de convencer a própria população israelita que essa é uma prioridade nacional. Para lá da habitação acessível, a educação grátis e as guerras do queijo cottage.

publicado por Boaz às 22:25
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Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

A queda do império, ou apenas um abanão

O Irão revolta-se. O povo cansado de ayatollas e de ditadura sai à rua. A descarada fraude nas últimas eleições presidenciais é apenas uma excelente desculpa para desencadear a gigantesca onda de protestos. Uma juventude - que compõe 60% da população do país - que nunca conheceu outro regime a não ser o fanatismo herdado da Revolução Islâmica, expressa com raiva e sangue a vontade de mudança.

O regime sabe que, caso a onda não seja controlada, mesmo com a mais brutal repressão, este pode ser o início da queda. Tiananmen em Teerão. Tal como em Junho de 1989, na grande praça de Pequim os jovens chineses se revoltaram contra a opressão comunista, hoje em Teerão, a juventude e as mulheres iranianas gritam contra os ayatollas e a sua abusiva ordem. Hoje no Irão, como em 1989 na China, talvez a revolução acabe com um banho de sangue. É o que as notícias (muito filtradas) parecem mostrar.

Os chineses pagaram caro a afronta e poucos se atrevem, ao vivo, a desafiar o poderoso aparelho comunista. Os iranianos porém, munidos do ideal xiita do martírio, estarão dispostos a imolar-se por uma brecha no regime, através da qual possam respirar um pouco de liberdade. Dentro do clube dos ayatollas também aparecem vozes dissidentes. Ao contrário da maioria dos estados islâmicos, a juventude iraniana é letrada e exigente. Nas ruas, atrevem-se a gritar a verdade à muito evidente: "Khamenei [o líder supremo]ditador! Morte ao ditador!". Até as mulheres jovens desafiam as regras de vestuário, descaradamente mostrando, centímetro a centímetro, mais um pouco do seu cabelo obrigatoriamente escondido.

Israel olha para o antigo império persa com apreensão. Uma mudança de regime - neste caso para o declarado derrotado nas eleições Mir Hussein Mousavi - pode não significar um recuo no temido programa nuclear iraniano. É que, nos anos 80, Mousavi foi um dos precursores desse mesmo programa nuclear que o actual presidente tanto deseja ver concretizado.

Seja como for, as coisas podem estar a mudar para melhor no Irão. Ainda que as mudanças possam não ser imediatas. Um regime apoiado num poderoso clero resistente a cedências, com uma gigantesca máquina militar e de propaganda ao seu dispor, não se deixará dominar por manifestações de jovens. Ainda assim, o povo cansado que exige liberdades, a juventude com poucas perspectivas de emprego e uma inflação de 30% ao ano, mesmo com gigantes reservas de petróleo e gás, podem significar uma mudança nas prioridades nacionais, incluindo o abandono, ou ao menos recuo nas ambições atómicas iranianas. Ninguém deseja mais a paz com o Irão do que Israel.

publicado por Boaz às 00:30
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Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Feliz Dia do Holocausto

Hoje, em Israel e no calendário judaico, comemora-se o Yom HaShoá, o Dia do Holocausto. A data coincide com a revolta do Gueto de Varsóvia, em 1943 e acontece – não por acaso – uma semana antes do Dia da Independência de Israel.

O tom das celebrações repete-se todos os anos. No antigo campo de morte de Auschwitz-Birkenau, milhares de jovens participam na "Marcha da Vida". Em Israel, as cerimónias oficiais são centradas no Museu do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém. Alguns sobreviventes, cada vez mais escassos e cada vez mais idosos, acendem seis tochas em memória dos 6 milhões de mortos judeus às mãos dos Nazis e seus colaboradores.


Jovens visitam Auschwitz, durante a 'Marcha da Vida'. | O arrogante macaco iraniano.

Na véspera, lojas e restaurantes fecham ao final da tarde, e mantêm-se encerradas durante a noite. As televisões emitem filmes e documentários sobre a Shoá, entrevistas com sobreviventes, os telejornais descobrem algumas das histórias ainda não contadas 64 anos depois do fim da II Guerra Mundial. Os canais de entretenimento, simplesmente suspendem a sua programação, anunciando a que a emissão voltará "após o final do Dia do Holocausto".

Às 10 horas da manhã, por todo Israel toca uma sirene. O trânsito pára. Nas ruas das cidades e nas auto-estradas e os condutores saem das viaturas e ficam de pé. Nas lojas, repartições públicas, escolas, no meio da rua, as pessoas param também. Dois minutos de silêncio, apenas cortados pelo clamor ondulante da sirene.

Este ano, no Yom HaShoá, estive em Nahariya, uma pequena cidade turística do Norte de Israel. À hora da sirene, acabado de tomar o pequeno-almoço, corri para a entrada do hotel para observar a cidade parada, em sentido. Na sala de jantar do hotel, porém, um grupo de mulheres e crianças árabes riam e falavam alto, continuando a sua farta refeição matinal. O Dia do Holocausto não parece dizer-lhes nada. Para eles, o Holocausto é apenas “a desculpa de Israel para oprimir o povo Palestiniano”, “para fazerem aos Palestinianos aquilo que os Nazis fizeram aos Judeus, ou pior ainda”.

Ontem, na sede das Nações Unidas em Genebra, onde decorre a segunda Conferência Internacional sobre o Racismo, discursou Mahmud Ahmadinejad, o presidente do Irão, famoso por apelar à destruição de Israel e pelas suas declarações em que nega o Holocausto. Já se sabia o que ele iria dizer e ele, sem vergonha alguma, repetiu-o. Na véspera do dia em que se lembra o Holocausto. No melhor dos palanques, houve um timing perfeito, do ditador e da arena política internacional que lhe dá voz.

Nota: Para quem não entendeu a ironia, o adjectivo do título deve ser lido com umas aspas bem carregadas.

publicado por Boaz às 10:30
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

O arco da crise

Com frequência, analistas, jornalistas e políticos referem-se à resolução do conflito entre Israel e os Palestinianos como a chave para a estabilização do Médio Oriente e daí, de todo o Planeta.

Recentemente, o Iraq Study Group (ISG) liderado por James Baker, antigo Secretário de Estado americano foi incumbido pelo presidente Bush de encontrar formas para vencer a guerra no Iraque, de uma forma mais rápida e menos custosa. Em sangue e dólares. A conclusão do ISG foi: "a resolução a disputa Israel-Palestina" é a chave para ganhar a guerra no Iraque.

A ideia da centralidade do conflito Israel-Palestinianos não é exclusiva de James Baker e seus associados. Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU partilha da mesma ideia. E também, aparentemente, o seu sucessor Ban Ki-Moon, que recentemente disse a um jornal sul-coreano: "Se as questões no conflito entre Israel e a Palestina [sic] forem bem, outras questões no Médio Oriente... irão da mesma forma ser resolvidas."

Será o conflito entre Israel e os Palestinianos assim tão central no Mundo e mesmo no Médio Oriente?

Façamos então um passeio pelo Grande Médio Oriente, ao qual Tony Blair chamou "o arco da crise". Estendendo-se do Atlântico ao Índico, compreende 22 países. Dezasseis deles árabes, mais a Turquia, Arménia, Azerbeijão, Israel, Irão, Afeganistão e Paquistão. Todos foram fundados após o desmembramento de algum império colonial. Como primeiro sinal de instabilidade, saiba-se que nenhum destes estados goza de fronteiras inteiramente reconhecidas. Todos têm diferendos fronteiriços com um ou mais vizinhos, reclamando partes dos seus territórios. A maioria já travou guerras em consequência dessas reclamações.

Comecemos a digressão pelo Afeganistão. Reclama a soberania sobre a paquistanesa Província da Fronteira Noroeste. Na década de 1960, os dois países travaram uma série de guerras fronteiriças pelo controle da região. O Irão, por seu lado, insiste no direito de supervisão no oeste do Afeganistão baseado no Tratado de Paris de 1855. Iranianos e afegãos disputam ainda as águas de três rios fronteiriços, o Hirmand, o Parian e o Harirud.

O Paquistão desde 1947 mantém uma longa disputa territorial com a Índia pelo controle de Caxemira, desde a divisão do antigo Império Britânico da Índia, em dois estados, em 1947. Caxemira foi a origem de três guerras em larga escala e numerosos episódios de violência na fronteira entre os dois países. É responsável ainda pela corrida de ambos às armas nucleares, além de centenas de ataques terroristas, sobretudo na Caxemira indiana. Além de Caxemira, o Paquistão mantém uma disputa com o Irão sobre águas territoriais no Mar Arábico e sobre a nacionalidade de várias tribos de etnia Baluch que vivem dos dois lados da fronteira entre os dos países.

Numa escala muito maior, o Irão e o Iraque travaram uma série de guerras desde 1936 pelo controle o estuário do Shatt al-Arab. Um tratado de paz foi assinado em 1975, mas em 1980 Saddam Hussein invadiu o Irão, começando uma guerra de oito anos e que fez mais de um milhão de mortos nos dois lados. Desde a deposição de Saddam em 2003, o Irão redesenhou a fronteira a seu favor. E continua a reclamar o direito de supervisão sobre santuários xiitas no Iraque como Samara ou Karbala.


Irão, Esquadrão de fuzilamento nos primeiros anos da Revolução Islâmica.
Foto de Jahangir Razmi, fotógrafo iraniano. Prémio Pulitzer

A sul, e desde 1971, o Irão reclama dos Emirados Árabes o controle de três estratégicas ilhas no estreito de Ormuz, por onde flúi diariamente metade do petróleo do Mundo. A norte, luta com o Turquemenistão, o Kazaquistão, o Azerbeijão e a Rússia pelo Mar Cáspio. Os vizinhos pretendem a divisão deste mar interior conforme a extensão das suas fronteiras. Para reclamar a divisão equitativa que duplicaria a sua extensão do Cáspio, o Irão mantém desde 1995 uma marinha de guerra e impede as petrolíferas internacionais de explorarem gás e petróleo nas águas azeris e turcumenas que Teerão reclama como suas. Teerão tenta ainda manter um controlo da província de Khuzestan, rica em petróleo. A região teve uma maioria de população árabe até à década de 1940. Desde então tem sido sistematicamente "persianizada." Recentemente, várias tribos árabes residentes perto da fronteira iraquiana foram expulsas e substituídas por habitantes persas do centro do Irão.

O Irão é visto pelos países árabes como uma ameaça directa, em especial os Estados do Golfo. No entanto, mesmo entre estes, as relações não são amistosas. Apesar das relações tribais entre as famílias reais da região, a Arábia Saudita travou em 1955 uma guerra com Omã pelo controle do oásis de Buraimi, alegadamente rico em petróleo. Décadas de negociações não foram suficientes para se chegar a um acordo. No ano passado os Emiratos Árabes renunciaram a um tratado de 1974 com a Arábia Saudita, adivinhando-se uma terceira reclamação sobre o oásis.

Desde o final da década de 1990, o Qatar luta com os sauditas pela região de Khor al-Udaid, rica em petróleo. Em 2000, os sauditas anexaram a área à força, cortando assim a fronteira do Qatar com os Emiratos. O Qatar reclama do vizinho Bahrain o controle das ilhas de Hawar, travando uma guerra naval em 2001.

Entre a Arábia Saudita e o Kuwait, alegadamente os mais próximos dentre os Estados do Golfo, mantém-se o diferendo acerca da demarcação de fronteiras na chamada "Zona Neutra." Após a Guerra do Golfo de 1992-93, a fronteira do Kuwait com o Iraque foi estabelecida. Todavia, mesmo o parlamento eleito do Iraque não abdicou ainda da reclamação de soberania sobre as ilhas kuwaitianas de Warbah e Bubiyan e da parte sul dos campos petrolíferos de Rumailah atribuídos ao Kuwait pela ONU. A desconfiança em relação a Bagdade, levou o governo do Kuwait a erguer fortificações, cercas electrificadas, armadilhas anti-tanque e a implantar uma “terra de ninguém” que se estende numa faixa de 15 quilómetros. A Arábia Saudita tem em construção estruturas similares na sua fronteira com o Iraque.

A dinastia hashemita da Jordânia mantém há décadas uma reclamação de suserania sobre a província saudita de Hejaz, onde se situam as cidades santas de Meca e Medina, despojada do controle das tribos hashemitas em 1924 pelas tribos que compõem a actual família real saudita. A cada onda de pressão sobre a casa real saudita pela Al-Qaeda ou por militantes xiitas, de Amã ouvem-se apoios a um Hejaz independente.

O Iémen continua sem conseguir traçar a sua fronteira com Omã ao longo do Golfo de Hauf e no deserto de Rub al-Khali, “o vazio da Arábia”. Em 1999 travou uma guerra com a Eritreia pelo controle das ilhas Hanish, um arquipélago estratégico na entrada do Mar Vermelho.

Desde os anos de 1940, o Iraque e a Síria mantêm um diferendo com a Turquia pela divisão das águas do Rio Eufrates. Ainda, tanto a Síria como o Iraque reclamam a província turca de Iskanderun, onde os Árabes compõem 30% da população. A Turquia reclama o direito de supervisão do Norte do Iraque baseado no Tratado de Lausanne de 1923, em especial sobre as regiões petrolíferas de Mossul e Kirkuk e tem treinado e armado grupos tribais turcomanos na região. Na década de 1990, a Turquia actuou militarmente na região na sua guerra contra a milícia marxista curda do PKK.

A Síria reclama a totalidade do Líbano como parte da "Grande Síria", da qual reclama também fazerem parte a Palestina histórica e parte do Norte da Jordânia. Em quase 30 dos 50 anos do Líbano independente, a Síria manteve aí um exército de ocupação e esteve activamente envolvida nas três guerras civis libanesas. A Síria foi em grande parte responsável pela morte de mais de 100 mil libaneses e pela fuga de outros dois milhões e meio. No ano passado, a Síria e o seu maior aliado, o Irão, encorajaram o Hezbollah a travar uma guerra com Israel. Nos últimos anos, Damasco tem sido responsável por grande parte da agitação social e política no Líbano e por uma série de assassinatos políticos, incluindo o primeiro-ministro Rafik Hariri.

O Egipto, o maior dos estados árabes, mantém divergências fronteiriças com a Líbia e o Sudão. Na década de 1960 fomentou várias guerras por todo o mundo árabe. Desde a guerra 1958-62 na Argélia a um golpe de estado no Iémen que deflagrou uma guerra civil que se prolongou por seis anos e fez mais de 200 mil mortos. Recentemente, anexou partes do território sudanês e mantém um conflito intermitente com a Líbia sobre uma área do deserto Egípcio. Ironicamente, a sua única fronteira estável e reconhecida internacionalmente é aquela que o separa de Israel.

A Líbia é desde os anos 70 um dos grandes patrocinadores do terrorismo internacional. O atentado contra o avião da PanAm que se despenhou em Lockerbie e uma bomba numa discoteca alemã frequentada por soldados americanos estão no cadastro de Muamar Khaddafi. Mantém disputas com o Chade, a Tunísia e o Sudão. No Sudão desenrola-se um dos maiores desastres humanitários da actualidade, na região de Darfur. Centenas de milhares de mortos e mais de um milhão de refugiados, resultado dos massacres das milícias janjaweed apoiadas pelo governo central. Ao longo de várias décadas, o país esteve numa guerra civil. Árabes muçulmanos do Norte contra tribos negras cristãs e animistas do Sul. Mais de dois milhões de mortos e outros tantos refugiados até ao recente acordo de paz.

Marrocos, Argélia e Mauritânia têm lutado entre si pelo controlo do Saara Ocidental. A região foi anexada por Marrocos em 1975. Em retaliação, a Argélia tem apoiado a Frente Polisário, que reclama ser o governo legítimo do povo Saraui. Desde 1976 que Marrocos e a Frente Polisário travam uma guerra de baixa intensidade. Na década de 1990, Marrocos retribuiu à Argélia o seu apoio à Frente Polisario fechando os olhos à sangrenta campanha terrorista dos islamistas que custou a vida a mais de 250 mil argelinos.

Tudo isto é apenas uma síntese do que tem acontecido no "arco da crise". Nas últimas seis décadas, a região sofreu não menos de 22 guerras de larga escala em disputas de território e recursos, nenhuma delas tendo alguma coisa a ver com Israel ou os Palestinianos (se tem dúvidas, volte atrás e releia o artigo). Além disso, a história destes países tem sido dominada por séries de lutas domésticas, golpes de estado, ondas de violência étnica e sectária, em muitos casos com altos níveis de crueldade.

O Grande Médio Oriente tem-se caracterizado por uma crónica instabilidade, níveis baixos de desenvolvimento e atraso cultural. A região é a única zona do Mundo que, de um modo geral, passou ao lado da onda de mudanças positivas que se seguiram ao fim da Guerra Fria. Imprensa ou universidades privadas, sindicatos livres, partidos políticos ou liberdade de associação e expressão são realidades distantes. No século XXI, as linhas de produção das grandes marcas internacionais estenderam-se da Polónia ao Vietname ou ao Peru. Mas não à Síria ou ao Egipto. Nenhum destes estados tem, por exemplo, fábricas de automóveis ou de produtos de alta tecnologia.

Os déspotas que chefiam os estados entre a Mauritânia e o Paquistão há muito que pretendem desviar as atenções dos seus oprimidos súbditos com o sonho de atirar ao mar "o inimigo sionista". Como fazia o antigo presidente Nasser do Egipto, sempre que espreitava a ameaça da revolta política, logo se apressava a assegurar às massas do seu país e da "grande nação" árabe que a reforma política e social teria de esperar até que "o inimigo" fosse expulso da "nossa amada Palestina."

Para até um grupo de, aparentemente, homens sábios americanos, adoptar a mesma visão retrógrada e facilmente refutável, demonstra uma absoluta e perigosa ignorância da realidade.

Baseado num artigo de Amir Taheri, ex-editor do diário iraniano Kayhan, para a Commentary Magazine.

publicado por Boaz às 11:03
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Sexta-feira, 9 de Março de 2007

A corrida às armas

"A América e a Grã-Bretanha, gritou o [Presidente iraniano] Ahmadinejad perante dezenas de milhar de pessoas, «podem ter ganho a II Guerra Mundial, mas eles definitivamente perderão a III Guerra Mundial» porque «O Irão ganhará a próxima guerra e a América será derrotada». O minúsculo espalha-brasas iraniano de 49 anos é conhecido por acreditar que a morte e a destruição generalizadas serão o elevar da cortina para um Armagedão Muçulmano - que terá lugar durante a sua vida. Newt Gingrich, possível candidato republicano à presidência americana, diz que a terceira guerra mundial já está em curso."

Excerto de um artigo do Washington Times, referido no Haaretz.

Em Israel, todos os dias os jornais estão cheios de notícias sobre a ameaça nuclear iraniana. Os principais jornais, há meses que têm mesmo secções especiais sobre o assunto.


T-shirts como esta encontram-se nos mercados de Jerusalém

Muitos analistas militares falam numa muito provável nova guerra com o recém (e mais fortemente) rearmado Hezbollah, na qual a Síria tomará de certo um papel mais activo do que apenas de abastecedor da guerrilha xiita libanesa.

A estratégia israelita tem poucas opções favoráveis. Em 1981, quando a ameaça nuclear contra Israel provinha do Iraque, a Aviação Israelita bombardeou o reactor de Osirak. Ora, uma acção desse tipo contra as instalações nucleares iranianas é tão complexo em termos militares, que dificilmente poderá ser posto em prática apenas com uma acção isolada de Israel. Primeiro, o Irão fica mais longe de Israel e é muito maior que o Iraque. Depois, pela dispersão dos locais dessas instalações, algumas delas subterrâneas. Mesmo com um ataque israelita que atrasasse o projecto nuclear iraniano por alguns anos, estaria aberta a porta à retaliação iraniana na primeira oportunidade após aquisição de um engenho nuclear.

A ONU, a Europa e os EUA estão tão divididas no que fazer em relação à nuclearização do regime dos Ayatollahs que Israel apenas está certo de contar consigo mesmo nesta batalha.

Com bomba nuclear ou sem ela, sabidas as estreitas relações entre o Hezbollah, a Síria e o Irão, o próximo Verão poderá ser crucial no futuro do Médio Oriente.

publicado por Boaz às 10:10
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