Segunda-feira, 25 de Junho de 2012

A onda africana

Durante os dois últimos anos que estudei na yeshivá, um dos empregados da limpeza era um africano, não judeu. Um dia, a caminho de casa ao final da tarde, encontrei-o no autocarro. Sentei-me ao seu lado. Devido ao seu limitado hebraico, tentei comunicar com ele em inglês. Ao saber que era da Eritreia, mencionei o primeiro nome do presidente do seu país: "Isaias" [Afwerki]. Fez uma cara de desaprovação e comentou "Mau, muito mau". Pouco mais falámos, ele desceu pouco depois do autocarro.

Nas últimas semanas, a atualidade israelita foi marcada pela questão dos africanos ilegais no país e o que fazer com eles. Esta semana, o governo decidiu levar a cabo uma acção de prisão de centenas de residentes ilegais e posterior deportação para o Sudão do Sul. Pagando a viagem de regresso ao seu país, que obteve a independência há cerca de um ano, e entregando 1000 euros por adulto e 500 por cada criança, o governo pretende resolver, ou pelo menos minorar, o problema dos residentes ilegais em Israel.


Israelitas manifestam-se contra os imigrantes ilegais africanos num bairro de Tel Aviv. No cartaz:
"E regressarão os sudaneses ao Sudão", um jogo de palavras baseado no versículo "E regressarão os filhos às suas fronteiras".

Infiltrados, refugiados, sudaneses, africanos, são várias as denominações destes imigrantes ilegais. É um fenómeno que começou há alguns anos. Fugindo da guerra, da perseguição étnica e da miséria, dezenas de milhar de africanos têm entrado em Israel pela fronteira egípcia. A maioria provêm da Eritreia, do Sudão e do recém-independente Sudão do Sul. Todos chegaram a Israel depois de uma longa e perigosa saga pelo deserto do Egito. Incontáveis imigrantes são baleados pelo exército egípcio para evitar que cruzem a fronteira com Israel.

Ao atravessarem o Sinai, última etapa antes da chegada à fronteira israelita, muitos são capturados por gangues de Beduínos. Às mãos destes traficantes de gente, e encerrados semanas ou meses em campos de prisioneiros montados a poucos quilómetros da fronteira, são sujeitos a violências de vária ordem, incluindo tortura e violação. Para serem libertados, são obrigados a contactar familiares ou amigos já residentes em Israel, para tentar angariar dinheiro para o seu resgate. Os que falham na colecta do dinheiro, que ascende a vários milhares de dólares, são mortos. Em alguns casos, os seus órgãos são extraídos e vendidos para redes internacionais de tráfico de órgãos. O caos político e social no Egipto; o vazio de poder na península do Sinai, transformada numa “Terra Sem Lei” dominada por traficantes de armas, gente e drogas; o pouco interesse que o assunto merece nas esferas do poder no Cairo e menos ainda entre os diplomatas internacionais, perpetua este negócio de tortura e escravidão de milhares de africanos.

A libertação às mãos dos traficantes Beduínos do Sinai não garante a entrada em Israel. Ainda resta atravessar a fronteira. Até há pouco mais de um ano, a fronteira com o Sinai era pouco mais de uma cerca ferrogenta, coberta pelas dunas em vários pontos. Atravessada livremente por camelos selvagens, traficantes de droga e imigrantes ilegais. Porém, com a crescente atividade terrorista na península do Sinai desde a queda do governo de Mubarak e o imparável fluxo de imigrantes africanos, o governo israelita decidiu reforçar a segurança na extensa fronteira com o Sinai. Uma moderna e bem vigiada cerca está em contrução nos mais de 200 quilómetros entre Eilat e Gaza. Até ao final deste ano estará completa.

Sabendo desta porta que se fecha no acesso a Israel, recentemente alguns migrantes africanos têm atravessado de barco o estreito Golfo de Aqaba, entre o Sinai e a Jordânia, entrando em território israelita pela fronteira oriental. Aí, além da cerca fronteiriça terão de evitar alguns campos minados. O desespero da fuga à miséria e violência diária nos seus países de origem leva os imigrantes a uma empreitada quase suicida.

Na pequena cidade turística de Eilat, no extremo sul de Israel, os africanos são já cerca de 5000, mais de 10% da população da cidade, trabalhando na indústria hoteleira e na construção civil. Porém, a maioria ruma a Tel Aviv, estebelecendo-se no sul da cidade. Há apenas 5 anos, os “sudaneses” em Tel Aviv eram cerca de 1000. Os bairros pobres de Shapira e Hatikva, na zona mais degradada da cidade em redor da Estação Central de Autocarros, têm experimentado uma verdadeira invasão africana. Ao longo dos últimos anos, têm chegado à cidade entre 1000 e 2000 africanos por mês. De acordo com algumas fontes, habitam atualmente estes bairros cerca de 40 mil infiltrados africanos, e 25 mil israelitas.

Até encontrarem um lugar para morar, durante os primeiros meses após a chegada a Tel Aviv, a maioria dos africanos dorme na rua, na entrada dos prédios ou parques da cidade. Outros dormem em casotas miseráveis. Sem casa de banho ou chuveiro, fazem as suas necessidades na rua e tomam banho com as mangueiras anti-incêndio. Ainda que apenas uma minoria esteja envolvida em atos criminosos, o número de queixas contra imigrantes ilegais africanos apresentadas na polícia aumentou mais de 50% no último ano. O clima de insegurança nos bairros do sul de Tel Aviv tem crescido, alimentado pelos casos relatados pelas notícias. Devido à atenção mediática que o tema tem alcançado em Israel, quase diariamente são noticiados casos de violência envolvendo os imigrantes: roubo, vandalismo, violação ou o abandono de dois recém-nascidos no hospital, no próprio dia em que nasceram, na semana passada.

A "invasão" de infiltrados africanos levou a vida dos residentes dos bairros a uma situação insuportável. É impossível sairem sozinhos à noite e a sensação de medo – real ou imaginário – é permanente. Em várias zonas da cidade, o parques infantis, os jardins públicos e até os pátios das escolas foram transformados em lugar de pernoita, ou mesmo residência fixa dos africanos. Todas as noites, grupos de jovens e adultos israelitas jogam nos parques públicos, numa atitude desafiadora – para marcar território – a fim de reconquistarem o espaço onde os seus filhos já não podem brincar em segurança. Os atos de violência contra os imigrantes também têm aumentado. Alguns locais onde se reunem foram incendiados por populares.

Neste triste panorama, o governo israelita decidiu começar a prender os imigrantes ilegais e repatriá-los para os seus países de origem. Esta operação apresenta uma série de problemas. Em primeiro lugar, por agora, apenas os naturais do Sudão do Sul serão repatriados. Depois de proclamar a independência no ano passado, o Sudão do Sul tem estreitado relações diplomáticas com Israel (que foi um dos primeiros países a reconhecer o novo país africano). Tendo terminado a guerra civil vivida na região durante mais de 30 anos, os sudaneses do sul poderão voltar para casa. O país é um dos mais miseráveis do planeta, apesar da enorme riqueza natural, incluindo grandes reservas de petróleo. Várias famílias de imigrantes sul-sudanesas voltaram para casa, com os filhos, alguns já nascidos em Israel e cuja língua materna é o hebraico. Aos jornalistas israelitas que acompanharam o repatriamento, as crianças desabafavam que queriam poder ir à escola, como em Israel.

Porém, os imigrantes naturais do Sudão do Sul, que começaram a ser repatriados a semana passada, são apenas uma pequena parte dos mais de 60 mil africanos ilegais em Israel. Mais de 30 mil provêm da Eritreia, uma das mais brutais ditaduras do Mundo, onde os emigrantes são considerados traidores ao regime e poderão ser perseguidos. Outros 15 mil chegaram do Sudão, incluindo a região de Darfur, onde há anos se desenrola um genocídio que, de acordo com algumas fontes internacionais, já causou a morte a quase meio milhão de pessoas. Nestes dois casos, a difícil situação dos países de origem dos imigrantes ilegais, torna impossível o seu repatriamento. Apesar de Israel ter relações diplomáticas com a Eritreia, o Sudão é considerado um “país inimigo”.

Membros da oposição ao governo e ativistas de direitos-humanos (que por vezes são uma e a mesma coisa) têm-se manifestado contra a decisão do governo de expulsar os ilegais. Ou pelo menos pela forma como está a ser feita. Porém, não parecem manifestar a mesma preocupação pelos residentes israelitas dos bairros onde os africanos ilegais são já a maioria. Alguns protestos de residentes contra os imigrantes tiveram a participação de políticos, em especial de direita. Em discursos inflamados alguns apelidaram os imigrantes como "um cancro na sociedade israelita", "um virus", e outras expressões marcadamente racistas.

A intervenção dos poucos políticos que estiveram nas manifestações não resolveu nenhum problema dos residentes dos bairros, e causou grande prejuízo tanto à defesa dos direitos dos moradores israelitas como dos imigrantes ilegais. As infelizes manifestações racistas deram novo alento aos comentadores de tudo o que se passa em Israel, que como é hábito, se apressaram a gritar slogans como "Estado racista", "Estado apartheid" e outros apodos do género. Incluindo alguns judeus americanos associados à causa palestiniana que não dispensam qualquer oportunidade para caluniar Israel. As expressões clichés de comparação com o Holocausto, a "falta de compaixão dos que foram perseguidos" e outros termos de auto-flagelação da consciência judaica foram abundantemente usadas pelos "ativistas". Dos humanistas estrangeiros ou dos nacionais, não se ouviram manifestações de apoio aos moradores dos bairros.

Para ter êxito nesta missão, a luta terá de ser feita de forma pacífica, sem violência e manifestações racistas. Não se pode legitimar ódio ou quaisquer ações violentas contra os estrangeiros. Esta não é uma campanha contra os africanos, mas contra a falta de acção das autoridades que pela sua inação, deixaram chegar a situação a um nível gravíssimo. A preocupação primordial terá de ser pelos próprios cidadãos israelitas e isso não é racismo. Não há nada de sábio ou razoável em querer ser "humanista" e generoso com os estrangeiros, se dessa forma se causa prejuízo aos cidadãos do próprio país. Afinal, como ensina a sabedoria judaica "os pobres da tua cidade estão primeiro".

Ao mesmo tempo que as autoridades israelitas procedem à repatriação dos ilegais africanos – até agora foram repatriados menos de 300 sudaneses do sul – desde o início do mês entraram em Israel pelo menos 800 imigrantes ilegais, que se encontram atualmente detidos.

publicado por Boaz às 10:15
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Quarta-feira, 4 de Abril de 2012

Vêm aí os Persas?

Tal como em Israel, também no resto do Mundo Ocidental os diplomatas têm andado agitados com a questão nuclear iraniana. O assunto aparece nas notícias todos os dias. Desde as crescentes sanções contra o regime iraniano, às declarações dos políticos. Mais do que factos, transmitem-se especulações sobre o estado do programa nuclear iraniano e o vai-não-vai de um ataque israelita contra os centros atómicos dos ayatollahs. O anúncio de sanções pela comunidade internacional, em especial a União Europeia que declarou um embargo à compra de petróleo iraniano para o próximo Verão, levou a mais uma subida do preço do petróleo. Mais um fator a fazer piorar a crise económica internacional.

De um lado, o presidente iraniano Ahmadinejad continua a aparecer em propagandísticos eventos que promovem os avanços imparáveis das suas forças armadas e do seu programa nuclear – que alega ser apenas para produção elétrica, algo estranho para um país cujo solo é ensopado de petróleo e gás natural. Do outro, o Primeiro-Ministro israelita Benyamin Netanyahu e o Ministro dos Negócios Estrangeiros Avigdor Lieberman desenrolam-se em encontros com Obama e outros líderes ocidentais para alertar sobre os perigos de um Irão dotado de armas nucleares.

Para lá das fronteiras de Israel, entre as restantes nações do Médio Oriente, também há preocupação com a perspectiva de um Irão atómico. Esse é um dos pontos mais destacados pela diplomacia israelita: um Irão dotado de armas nucleares não é somente uma ameaça para Israel, mas para toda a região e o resto do Mundo. Numa região em constante conflito, uma nova potência militar desequilibraria as frágeis relações entre os vários países e complicaria a influência americana na região.

A questão nuclear iraniana entrou na ordem do dia com a subida de Mahmud Ahmadinejad ao poder. A retórica populista, o fanatismo militante, o declarado anti-israelismo que declara a vontade de “apagar Israel do mapa”, tornaram-no um espalha-brasas na arena internacional. Ainda que seja admirado por alguns elementos da extrema-esquerda europeia e sul-americana. Sem a menor vergonha, organizou conferências destinadas a negar o Holocausto, convidando a Teerão pseudo-especialistas, adeptos do mais danado revisionismo histórico. Ninguém sabe muito bem o que poderá fazer o maníaco de Teerão, com o militarismo lunático de quem se considera o mensageiro que trará o Mahdi (o messias islâmico) após uma guerra apocalíptica contra os Infiéis, nem que para isso arruine o seu próprio país. Ahmadinejad parece seguir à letra a ideologia destruidora do falecido ayatollah Khomeini, o ideólogo da República Islâmica: “Deixem esta terra [o Irão] ser queimada, desde que o Islão desponte triunfante no resto do Mundo”. Pelo menos, entre o aparelho político iraniano, o parlamento parece mais moderado do que o atual presidente, limitando em parte os seus delírios.


Imagens com esta mensagem (sem o sarcasmo final) têm sido publicadas na Internet,
provenientes de Israel. Do Irão a resposta tem sido idêntica.

Além da ameaça declarada contra Israel, Ahmadinejad é uma ameaça também para os seus vizinhos árabes. Apesar das proximidades culturais, o Irão não é um país árabe, mas persa. As inimizades entre persas e árabes são antigas. A minoria árabe no Irão é altamente descriminada. A tradição islâmica iraniana é maioritariamente xiita, ao contrário da maioria dos muçulmanos árabes que seguem a tradição sunita. Os xiitas, seguidores da tradição de Ali, o sobrinho de Maomé e seu herdeiro espiritual de acordo com o Islamismo Xiita, são vistos como hereges pela maioritária corrente sunita. A secular descriminação dos xiitas pela maioria sunita deixou cicatrizes por sarar entre as duas maiores correntes do Islão.

Com o seu poder militar, as receitas do petróleo e a influência política, o Irão tem apoiado ativamente os movimentos xiitas nos países árabes. Do Iraque – onde os xiitas são a maioria, dominados e massacrados pela minoria sunita durante a ditadura de Saddam Hussein –, ao Líbano, onde o Hizbollah é um verdadeiro posto avançado dos ayatollas na fronteira norte de Israel. Na pequena ilha-estado do Bahrain, no Golfo Pérsico, a maioria xiita tem reclamado maiores direitos, face ao domínio sunita da dinastia reinante.

O temor dos países do Golfo face ao expansionismo atómico dos ayatollahs tem-se manifestado em rumores de um possível apoio de alguns países a um ataque de Israel às centrais nucleares iranianas. Rumores publicados nos jornais indicaram que a Arábia Saudita permitiria aos aviões de combate israelitas sobrevoarem o seu território a caminho de um ataque ao Irão. Obviamente que este apoio não é, nem pode ser declarado publicamente. Isso seria considerado uma traição dos muçulmanos árabes face aos seus irmãos iranianos, mesmo que sejam vistos como hereges. Ainda mais cooperando com o odiado inimigo sionista. Aos olhos do mundo ocidental e muçulmano, a unidade da Umma, a Comunidade dos Crentes Muçulmanos, continua a ser um mito propagado. Um apoio declarado dos países árabes a um ataque ocidental contra o Irão, seria prontamente explorado pela propaganda iraniana para incendiar ainda mais o mundo islâmico contra os EUA e Israel, chamados na terminologia iraniana de “Grande e Pequeno Satã”.

Israel tem aumentado as relações com o Azerbeijão, uma ex-república soviética, de maioria muçulmana mas secular, que faz fronteira a norte do Irão. Um artigo recente da revista “Foreign Policy” afirmou que o governo azeri teria autorizado o exército de Israel a usar as suas bases militares próximas da fronteira iraniana, num eventual ataque israelita ao Irão. O Azerbeijão tem um diferendo com o vizinho Irão no controle do Mar Cáspio, rico em petróleo.

Apesar do nervosismo dos diplomatas, dos repetidos simulacros de ataques, dos testes de novos mísseis para o exército, das recorrentes notícias alarmantes sobre um possível ataque nuclear contra o país e de uma possível operação militar israelita contra o Irão, em Israel o povo parece estar alheio a toda esta agitação pré-apocalíptica. As preocupações diárias do comum israelita prendem-se com a falta de casas ou o preço proibitivo das rendas nas principais cidades, o custo de vida em ascensão, o aumento dos combustíveis (ninguém poderá negar a relação entre a subida do preço do petróleo com a corrente vaga de sanções contra o Irão, um dos maiores exportadores mundiais de petróleo). As manifestações gigantescas ocorridas durante meses no Verão passado não tiveram a ver com a ameaça iraniana, mas com as dificuldades internas.

O preço elevado do queijo cottage – uma das paixões nacionais – tornou-se uma desculpa para protestos contra as dificuldades económicas. Depois da campanha para reduzir o preço do queijo, vieram os outros laticínios. Motivados pela sensação de poder nas mãos, a campanha popular virou-se para o preço das casas. Armaram-se tendas em todas as cidades de Israel, que permaneceram ativas todo o Verão e uma boa parte do Inverno. Depois, a revolta popular virou-se para o elevado custo da educação. E o governo instituiu a educação gratuita desde os três anos de idade. “O povo exige justiça social!”, o slogan gritado nas ruas e que fez estremecer o governo de Netanyahu no último Verão – e promete regressar nos próximos meses – nada tinha a ver com a ameaça iraniana (ou a eterna questão palestiniana).

Em evidente contra-mão às preocupações do quotidiano nacional, os militares e políticos israelitas insistem em manter a questão nuclear iraniana na sua agenda diária. Face à incerteza do que poderá resultar da Guerra Civil na Síria, até à perspetiva de um crescente armamento do Hezbollah no Líbano – o Irão não quererá perder os seus únicos aliados no Médio Oriente – o aparelho militar israelita tem insistido em aumentar o orçamento da Defesa, que já consome algumas dezenas de biliões de shekels do orçamento de Estado. Em geral, o orçamento militar em Israel é algo sagrado que nenhum governo se atreve a controlar, mas o governador do Banco de Israel e o próprio Ministro das Finanças têm tentado controlar as ânsias gastadoras dos generais.

Na verdade, ninguém saberá quando e se o ataque acontecerá. Mais incertas são as consequências de um bombardeamento israelita: desde a real eficácia de uma acção militar para travar o programa nuclear iraniano, à dispersão de materiais radioativos no território iraniano e até aos países vizinhos. E claro, a resposta dos ayatollahs a um ataque. Certo é que, não ficaria sem resposta. E o Irão tem um poderoso exército, dotado de mísseis de longo alcance. Com ou sem armas nucleares, um contra-ataque iraniano contra Israel seria catastrófico.

A mensagem da ameaça iraniana (real ou exagerada) não está a passar como os líderes israelitas desejariam. Ou talvez os israelitas, com o seu pragmatismo natural, considerem que não faz sentido preocupar-se com cenários hipotéticos de guerra – ainda que alguns incluam a perspetiva do extermínio – se não podem garantir confortos básicos imediatos como casa própria e queijo barato. Numa recente campanha na Internet, que se tornou viral, israelitas publicaram fotos suas em forma de cartaz, declarando que amam os Iranianos e que Israel não bombardeará o seu país. Do outro lado, houve uma reação no mesmo sentido, mas mais comedida, dadas as limitações à liberdade de expressão com que vivem os iranianos.

Antes de tentar convencer o mundo da importância de um ataque militar para deter o programa nuclear iraniano, parece que o governo israelita precisa de convencer a própria população israelita que essa é uma prioridade nacional. Para lá da habitação acessível, a educação grátis e as guerras do queijo cottage.

publicado por Boaz às 22:25
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Quinta-feira, 8 de Março de 2012

Jihad casher? – os fanáticos estão entre nós

Desde há alguns meses que uma das questões mais discutidas na sociedade israelita é a relação com o público haredi, ou ultra-ortodoxo. É uma comunidade fechada, com as suas próprias leis e que se opõe a muitas regras da sociedade moderna e secular. Particularmente controversa é a situação das mulheres nestas comunidades. O assunto invadiu as notícias e as conversas de rua após uma série de acontecimentos na cidade de Beit Shemesh, perto de Jerusalém.

Há anos que esta cidade mista – secular, ortodoxa-moderna e haredi – tem vivido episódios de conflito entre as suas várias comunidades. Para albergar a crescente população haredi, com uma das mais altas taxas de natalidade do mundo, novos bairros têm sido construídos em Beit Shemesh, alguns deles exclusivos para os ultra-ortodoxos. O município é acusado pelos membros de outras comunidades de favorecer o público haredi. Nos bairros vizinhos, ou nas poucas zonas em que as populações se misturam, têm ocorrido actos de violência.

O conflito subiu de tom em Setembro de 2011 com a abertura da escola de meninas Orot Banot, destinada ao público sionista-religioso, situada numa zona limítrofe com um bairro ultra-ortodoxo. Com frequência, grupos de fanáticos haredim ofendiam as alunas em frente à escola, por considerarem o seu modo de vida menos religioso e logo, desprezível. A polícia fez algumas detenções, mas os atos de intimidação continuaram. Liderada por alguns ultra-ortodoxos anti-sionistas mais radicais, uma manifestação foi organizada em frente à escola.


"Mulheres talibã" em Beit Shemesh | Onde está Hillary Clinton?, apagada por Photoshop.
Ativista na secção masculina de um autocarro separado | A histórica foto de Rosa Parks

Clamavam pela "manutenção da pureza dos bairros heredim contra os estrangeiros que conspiram para os profanar, apoiados pelo regime maléfico", numa referência clara ao Estado de Israel, desprezado por várias correntes no Judaísmo Haredi. Em Dezembro do ano passado, a vergonhosa situação em Beit Shemesh atingiu o auge, quando Naama Margolese, uma menina de 8 anos, apareceu na televisão descrevendo como alguns fanáticos a cuspiram e chamaram "prostituta" por frequentar a escola Orot Banot. Uma onda de choque percorreu a sociedade israelita, levando à intervenção das autoridades políticas, civis e religiosas.

Linhas de autocarro segregadas

Esta polémica das relações da sociedade haredi com o resto da população de Israel não é recente. Já nos primeiros anos da independência, eram comuns conflitos em alguns bairros de Jerusalém devido à violação do Shabbat. As “Guerras do Shabbat” tinham lugar num cruzamento do bairro de Mea Shearim, desde então chamado Praça do Shabbat. A polémica aumentou em 1997, com o aparecimento de linhas de autocarro em que homens e mulheres viajam em secções separadas. Os homens adiante. As mulheres atrás. Estas linhas de autocarros ligam cidades e bairros com numerosas populações de haredim, como Jerusalém, Bnei Brak, Ashdod, Arad ou Elad. São conhecidas como Linhas "Mehadrin", usando (indevidamente) uma expressão na Lei Judaica – normalmente usada nas regras da alimentação judaica – e que significa o nível mais estrito da lei, sem leniências. Várias autoridades rabínicas declaram-se contra a segregação – ainda mais sendo forçada, mas muitos mostraram-se compreensivos ou simplesmente calaram-se perante a situação.

De tempos a tempos, eram noticiados casos de mulheres maltratadas por fanáticos por se sentarem na “área masculina”. Algumas faziam-no por mero engano, pensando tratar-se de um autocarro como qualquer outro. Outras de propósito, por não concordarem com a descriminação, tentando desafiá-la. Quando estourou a polémica em Beit Shemesh, movimentos feministas – em especial liderados por não-religiosos – organizaram "invasões das linhas mehadrin". Grupos de mulheres apanhariam os malfadados autocarros segregados, sentando-se na parte da frente, e enfrentando a fúria dos opositores. Porém, avisados da planeada ação de protesto, os utilizadores ultra-ortodoxos dos autocarros, mantiveram a compostura.

Dos autocarros, a campanha de separação dos sexos passou para os lugares públicos. Em Mea Shearim, o mais famoso bairro haredi da Cidade Santa, e em alguns bairros de Bet Shemesh, há já muito tempo que nas principais ruas são visíveis sinais que alertam as mulheres – em especial as turistas – para se vestirem de forma "modesta": saias e mangas longas, blusas fechadas até ao pescoço, roupas folgadas que não revelem as formas do corpo. É com frequência que mulheres que não cumprem as regras de vestuário estipuladas nos cartazes são atacadas – verbal ou fisicamente – ao passar por estas áreas. As sortudas são alvo de cuspidelas ou insultos, mas não faltam casos de mulheres atingidas por sacos com urina ou lixívia, atirados de uma janela por algum vigilante.

Uma vez por ano, durante semana do festival de Succot, as ruas de Mea Shearim enchem-se de fiéis e turistas, para assistir às festividades de Simchat Beit Hashoeva, num dos dias da festa. A confusão e o enorme fluxo de pessoas nas ruas, levaram os fanáticos a impor mais uma das suas "regras de decência": separação das ruas. Um lado para os homens, outro para as mulheres. Com uma barreira a separá-los. Para manter as mulheres, ainda que vestidas de forma modesta, longe da vista dos homens, e salvá-los de eventuais pensamentos lascivos.

Talibanismo judaico

No mesmo bairro de Mea Shearim, um gangue de fanáticos conhecido por Sikrikim (em homenagem aos Sicários, um grupo de guerrilheiros judeus que aterrorizaram os Romanos durante a ocupação da Terra Santa, há dois milénios) começou a ameaçar os lojistas, caso não introduzissem medidas de separação dos sexos nas suas lojas. Filas separadas para pagamento, ou exclusão de mulheres a trabalhar nas caixas registradoras, foram algumas das medidas impostas. Em nome de algo que consideram ser "a moral". Uma das lojas resistentes, uma loja de livros e artigos judaicos especialmente popular entre os turistas, foi várias vezes vandalizada, por resistir a cumprir as ordens dos Sicários. Para além das "regras da modéstia" era imposta a exclusão de venda de livros em inglês, e de alguns autores proscritos pelos Sicários, incluindo todos os escritores sionistas-religiosos. Até que, farto dos prejuízos e da inoperância da polícia, o dono cedeu à maioria das demandas dos fanáticos.

De vez em quando, face à crescente reclamação contra o fanatismo em Mea Shearim, a polícia prendia um ou outro membro dos Sikrikim, para os soltar pouco tempo depois. Não deixa de ser irónico que a polícia de Jerusalém consegue entrar em força nos bairros árabes da zona oriental da cidade para prender (suspeitos ou confirmados) terroristas e toda a espécie de criminosos, ao mesmo tempo não se atreva a impor a ordem no bairro judeu de Mea Shearim. Aí, protestos organizados pelos fanáticos resultam frequentemente na vandalização de propriedade pública, como paragens de autocarro, contentores do lixo, e raramente, a destruição de montras de lojas e queima de carros.

A paranóia sexual haredi que impõe o desaparecimento forçado das mulheres da esfera pública chegou também aos jornais. Ao folhear qualquer jornal haredi, não se encontra qualquer imagem feminina, por mais discreta que esteja vestida. Num dos casos famosos, uma foto de Hilary Clinton durante a operação de captura de Osama bin Laden, foi publicada num jornal haredi de NY. Esta tendência, até há pouco exclusiva dos jornais ultra-ortodoxos, parece estar a alastrar também a alguns sectores do público sionista-religioso. Numa enorme crise de identidade e uma liderança gravemente débil, vários sectores do público sionista-religioso tendem a aproximar-se da ideologia ultra-ortodoxa, que muitos começam a ver como “mais religiosa, pura, judaica”.

Das imposições de vestuário aos não-aderentes às tradições dos locais, à separação nos autocarros, lojas e ruas, não demorou muito até ao surgimento de uma seita local de mulheres de burka. Mal vistas pela generalidade da população e dos líderes religiosos, as “mulheres taliban” não serão mais do algumas dezenas. São insultadas na rua e excluídas de entrar nas lojas, por aderirem a uma indumentária vergonhosa e sem qualquer base na tradição judaica. Cartazes afixados nas paredes de Mea Shearim condenavam a seita talibã como epikoros, hereges. A Eda HaCharedit, a maior organização haredi em Israel, juntando as principais correntes ultra-ortodoxas, emitiu um decreto declarando as burkas como um “fetiche sexual”, tão depravado como a roupa indiscreta ou a nudez. Todavia, comandadas por alguns fanáticos manipuladores, as “mulheres talibãs” resistem à oposição geral, mesmo após a prisão da líder do grupo.

Hilul Hashem, profanação do nome de Deus

É importante ressalvar que, nenhuma destas infâmias tem qualquer suporte na Halachá, a Lei Judaica. Apesar de existirem regras de modéstia estipuladas, estas são muito mais lenientes do que os cartazes de Mea Shearim ou os abusivos líderes das "mulheres talibã". E, tal como noutras coisas na Halachá, nenhuma regra pode ser imposta à força. E muito menos, mediante a humilhação. Neste rol de vergonha e enorme profanação do nome de Deus, várias perguntas saltam para a discussão: porque não se manifestam os próprios religiosos contra este fanatismo? Em especial as mulheres ultra-ortodoxas, que são as primeiras vítimas? E os rabinos, que são a maior autoridade nestas comunidades?

Para responder a estas questões, é preciso entender a sociedade ultra-ortodoxa. As suas regras de autoridade não são as mesmas para a sociedade em geral. Os problemas raramente são denunciados às autoridades civis, vistas como anti-religiosas e hereges. Praticamente todas as controvérsias se discutem ou resolvem através da influência dos grandes rabinos, sem qualquer discussão pública ou debate aberto. Em inquéritos de rua feitos por jornalistas em bairros ultra-ortodoxos, a maioria das mulheres preferia não falar da separação nos autocarros, nas clínicas ou na rua. Outras, falavam do assunto, mostrando a sua concordância com a situação, mas de forma visivelmente pouco convincente.

Numa sociedade onde as mulheres têm um papel secundário, são poucas as que se atrevem a desafiar a crescente exclusão dos seus direitos e desaparecimento forçado da vida pública. Mesmo os homens ultra-ortodoxos que discordam destes ditames do fanatismo mantêm-se em silencio, na maioria dos casos. Ser considerado "liberal" ou "moderno" é um anátema na sociedade haredi. Essa etiqueta implicaria marcar a família de forma fatídica, podendo os filhos ser excluídos do acesso às melhores escolas, prejudicar as hipóteses de conseguir um bom casamento, até à expulsão da comunidade. Mesmo aguentando a custo a situação vigente, poucos se atrevem a enfrentar tal perspetiva. Praticamente isolados do resto do Mundo, desconhecedores ou opositores das regras da sociedade secular e moderna, a exclusão da comunidade da qual dependem seria uma punição insuportável.

Inclusive os líderes religiosos haredim, supostamente todo-poderosos, demonstram ter pouco poder, dominados pelo crescente polvo originado em meia dúzia de lunáticos como os Sikrikim. Também eles receiam ser apelidados de “liberais”, afrontando o modo de vida fechado da comunidade. Os "guardiães da tradição", com o seu silêncio agem contra essa mesma tradição, contrariando o mandamento da Torá: "Não ficarás em silêncio enquanto o sangue do teu irmão é derramado" (Levítico/Vaicrá 19:16). A barreira de separação foi sendo aumentada pouco a pouco, e ninguém se atreve a derrubá-la, ou pelo menos a descê-la a um nível sensato. Salvo algumas excepções. Como o rabino Ovadia Yosef, uma das mais respeitadas autoridades rabínicas atuais, que emitiu uma eloquente condenação do fanatismo; o rabino Haim Amsalem, líder de um novo movimento cívico que une seculares e religiosos, ou o Rabinato-Chefe de Israel. Porém, estas autoridades, ainda que citando fontes irrefutáveis da Lei Judaica nas suas posições, são olhadas como modernistas dentro da ortodoxia, não sendo aceites pelos mais radicais.

Mais do que uma luta pelas regras da modéstia, esta controvérsia prende-se com uma luta pelo controle da própria sociedade haredi. Alguns sectores mais conservadores sentem que o seu modo de vida está ameaçado. Pelo secular Estado de Israel. Pela modernidade imparável que aos poucos começa a ameaçar algumas das suas tradições. A crescente influência da Internet e outros meios de comunicação possibilitou a troca de ideias fora dos círculos fechados das cortes rabínicas, a discussão de temas até agora mantidos debaixo do pano e a publicação de opiniões dissidentes. Não é de admirar que alguns líderes haredim tenham banido o uso da Internet, mesmo as páginas ortodoxas. Porém, as ordens dos líderes são cada vez menos escutadas pelos fiéis, em especial os jovens. Páginas como “Kikar Hashabbat” ou “Chaderei charedim” discutem abertamente temas tabus dentro da sociedade haredi e têm milhares de leitores e comentadores. Assim, face à crescente liberalização, alguns sectores reagem com o extremismo.

Procura-se Vered Ganim

Falta alguém de dentro da própria sociedade haredi, ou alguém de fora, que se oponha ao fanatismo sem provocações desnecessárias. Nos anos 60, para lutar contra a descriminação dos Negros no Sul dos EUA, uma mulher simples recusou sentar-se nos bancos traseiros dos autocarros, destinados aos passageiros "de cor", símbolos do seu estatuto de "segunda classe". Rosa Parks desafiou a descriminação de forma não violenta, mas determinada. Em Israel procura-se uma mulher desse género, uma Vered Ganim (tradução literal do nome Rosa Parks).

O caminho para a harmonia social entre os vários sectores da sociedade judaica em Israel ainda é longo. É precisa uma coragem cautelosa para tomar medidas que resolvam a situação. Às forças de autoridade para deter ações criminosas dos fanáticos, demonstrando que o crime não compensa. Aos políticos, preocupados em manter as frágeis coligações políticas que juntam ideologias opostas em nome da conveniente maioria parlamentar. Aos líderes religiosos, temerosos de parecerem "liberais", preocupam-se mais com a sua própria imagem de "guardiães da tradição" do que do bem e a unidade do povo. Aos seculares, pela sua geral falta de entendimento da sociedade haredi e profundos preconceitos contra ela, que muitas vezes tentam enfrentar os problemas de forma declaradamente provocatória, aumentando as ofensas mútuas.

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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Passerelle de Jerusalém

Na maior parte das sociedades que integram o chamado Mundo Ocidental, seguidoras fiéis das regras da moda que mudam a cada estação, quase todas as pessoas se vestem de forma idêntica. Apesar da abundância de estilos, de preços e marcas, a roupa não será um ponto central na identificação das pessoas. Tirando talvez os integrantes das consideradas "sub-culturas".

Pelo contrário, em Israel, a maneira de vestir pode dizer muito mais sobre uma pessoa do que somente o seu lado estético. Em muitos casos, as mudanças sazonais das passerelles de Paris, Milão ou Nova Iorque não afetam minimamente os roupeiros locais. Obviamente, esta regra não inclui os habitantes seculares. Atentos às modas mundiais, estes vestem-se como qualquer pessoa (dita) moderna em qualquer lugar do mundo. As lojas das grandes marcas internacionais estão presentes nos centros comerciais das principais cidades e as marcas locais seguem as tendências ditadas pelos gurus da moda.

Entre as 613 mitzvot (mandamentos) da Torá encontram-se algumas sobre a forma de vestir. Desde a proibição de uso de shaatnez – a mistura de lã e linho num mesmo tecido, que era exclusiva para as roupas sacerdotais; à obrigação de todas as peças de vestuário masculinas com quatro cantos terem tzitzit– uns fios presos nos cantos da roupa com uma série de nós. Vagamente, é mencionada a obrigação das mulheres casadas cobrirem o cabelo. O valor do recato das mulheres é citado em vários versículos por todas as Escrituras.


Haredi reza no Muro Ocidental, com shtreimel,
o estimado chapéu de pele usado por algumas correntes hassídicas no Shabbat e Festas.

As peças de vestuário que mais servem de identificação em Israel são as coberturas de cabeça. Kipáou chapéu para os homens. Lenço, chapéu ou peruca para as mulheres. Em cada um destes elementos, há inúmeras variações que, para os conhecedores são quase um cartão de apresentação pessoal e um símbolo de identificação ideológica. Curiosamente, ainda que seja um dos mais reconhecidos símbolos judaicos, não existe nas Escrituras e nas fontes antigas da Lei Judaica qualquer menção à obrigação de os homens cobrirem a cabeça permanentemente. Porém, nas fontes haláchicas mais recentes, este costume passou a obrigação.

De acordo com a tradição judaica atual, um homem judeu que não cobre a cabeça fora da sinagoga, declara-se dessa forma como "não religioso". Pode ser que seja o chamado massorati, o tradicionalista que cumpre Shabbat e Cashrut (as regras alimentares judaicas), mas que não se integra na maioria das regras da "ortodoxia". Para ele o uso da kipáestará reservado às rezas na sinagoga e às refeições festivas.

O estilo da kipá pode definir a aderência a uma ou outra ideologia política ou corrente religiosa. As kipot tricotadas identificam os sionistas religiosos ou ortodoxos modernos. As kipot de tecido preto, os ultra-ortodoxos. Se forem de pano liso, divididas em seis "gomos", indicarão os adeptos da corrente Chabad; em veludo, outras corrente hassídicas. As kipot tricotadas de grande tamanho são emblemas dos judeus mais nacionalistas, residentes em alguns colonatos específicos na Judeia e Samaria. Se forem parecidas com um gorro e com um pompom no topo, as kipot tricotadas identificam os fiéis (ou meros simpatizantes) do místico rabino hassídico do século XVIII, Nachman de Breslev. Muitas das kippot dos "Nachmans" têm bordado o mantra do grupo: "Na Nach Nachma Nachman MeUman". Todavia, a identificação através da kipánão é 100% garantida, já que alguns homens usam modelos normalmente usadas por membros de outras correntes. Por vezes, por uma questão de “moda”.

Os ortodoxos modernos vestem-se praticamente como qualquer pessoa em outras sociedades ocidentais. Porém, ainda que seguindo em certa medida as regras da moda, elas são combinadas com os preceitos judaicos. Ao contrário, os homens ultra-ortodoxos vestem-se invariavelmente de branco e preto. Branco para as camisas. Preto para o resto do roupeiro. Os chapéus negros são outros elementos de identificação entre as várias escolas do judaísmo ultra-ortodoxo. Existem dezenas de modelos, alguns com pequenas diferenças entre si, que somente um especialista em indumentária hassídica saberá distinguir. Os partidários da corrente Chabad usam o fedora, um modelo de chapéu popular na Europa no início do século XX, usado pelos seguidores desta corrente hassídica desde que o seu último Rebbe (o líder espiritual Chabad) adotou esse modelo de chapéu.

Ao contrário de muitas outras correntes do Judaísmo hassídico, os judeus Chabad não usam os chapéus de pele nos dias festivos. Estes chapéus – chamados em íidiche shtreimel ou spodik, conforme os modelos – são altamente apreciados pelos judeus hassídicos. Em geral, o primeiro shtreimel é usado no dia do casamento, oferecido pela família da noiva. Em algumas escolas hassídicas, os rapazes começam a usar shtreimeldesde a cerimónia de Bar Mitzvá, aos 13 anos, quando atingem a maioridade religiosa.

Feitos com a pele de coelho, marta, arminho ou cauda de raposa, podem custar vários milhares de dólares. Há poucos meses, o governo de Israel decidiu banir a importação de peles, consciente da crueldade a que são sujeitos os animais criados para a indústria de peles. Porém, a lei manteve uma cláusula de excepção para as peles usadas nos shtreimels. Houve agitação entre as hostes hassídicas perante a possibilidade de ser banido o seu estimado costume peludo. Todavia, existem hoje alternativas em pele sintética que custam somente algumas centenas de dólares. Poupa-se no chapéu e no sofrimento animal.

Em conjunto com os seus chapéus negros ou shtreimels, os judeus hassídicos usam largas capotas negras. Tal como os chapéus de pele, eram um vestuário típico no clima agreste Europa Oriental, parecendo totalmente deslocados do calor estival de Israel. Os modelos usados nos dias da semana são austeros e lisos, enquanto os de Shabbat podem ter belos padrões. Alguns Rebbes hassídicos, respeitados como soberanos absolutos, costumam usar magestosas capotas bordadas com motivos dourados.

A maior parte destes elementos do vestuário dos judeus ultra-ortodoxos aplicam-se tanto aos adultos como aos rapazes, que desde tenra idade começam a vestir-se como os seus pais, das capotas aos chapéus negros. A indumentária hassídica, é marcada pela aderência estrita às regras da modéstia, excluindo as cores vistosas. Porém, honestamente, é difícil parecer modesto quando se ostenta um enorme chapéu de pêlo valendo centenas ou milhares de dólares e uma longa capota, ainda que seja de austera cor negra.

Entre as mulheres judias, existem as mesmas diferenças de vestuário, de acordo com o nível de religiosidade e a corrente judaica a que pertencem. Não é costume uma mulher religiosa usar calças, consideradas vestuário exclusivamente masculino. Ainda assim, nos últimos anos surgiram modelos de calças de modelos folgados, adotados por algumas mulheres mais liberais dentro da ortodoxia.

De acordo com a Lei Judaica, uma mulher casada deve cobrir o cabelo. O espectro da cobertura de cabeça feminina vai dos lenços às perucas, passando por uma grande variedade de barretes e chapéus. As mulheres sionistas religiosas (ou da ortodoxia moderna) são as que cobrem a cabeça com a maior variedade de estilos. Algumas usam apenas uma bandana que deixa a maior parte do cabelo descoberto. As residentes em alguns colonatos da Judeia e Samaria – esposas e mães dos tais homens de largas kipottricotadas – usam vistosos lenços amarados das mais diversas formas. Algumas combinam vários lenços entrelaçados, construindo turbantes que variam entre a elegância alegre e o absurdo carnavalesco.

Entre as mulheres ultra-ortodoxas, as seguidoras do movimento Chabad destacam-se por cobrirem a cabeça somente com perucas. Noutras correntes chassídicas são comuns as toucas, algumas de modelos medonhos. Algumas mulheres casadas, mais jovens ou mais modernas, combinam com elegância a peruca com um pequeno barrete. É bem provável que Israel seja hoje o maior mercado mundial de perucas femininas e chapéus masculinos.

Entre os árabes, a forma de vestir também é um símbolo da sua religiosidade. Em termos de vestuário, os cristãos são indistintos dos judeus não-religiosos. Ainda assim, por uma tradição do Médio Oriente, não é costume ver uma mulher árabe, mesmo não-muçulmana, com um decote pronunciado ou uma micro-saia. Os homens muçulmanos vestem-se maioritariamente como qualquer homem moderno. Somente entre os mais velhos, ou os mais tradicionalistas, alguns usam abayas, as túnicas brancas, cinzentas ou castanhas típicas da Arábia e cobrem a cabeça com um barrete (muito parecido com uma kipá branca tricotada) ou o keffiyeh, o lenço típico dos beduínos do deserto popularizado por Arafat. Uma moda entre os jovens árabes é o uso de quantidades industriais de gel no cabelo, para manter impecáveis os seus penteados estranhos.

Os hijabs, lenços usados pelas mulheres e raparigas muçulmanas que cobrem o cabelo, tendem a ser coloridos, com lantejoulas ou bordados. Muitas famílias tradicionais muçulmanas começam a cobrir o cabelo das filhas assim que atingem a puberdade, ou ainda antes. Apesar de ocultarem a maior parte do corpo, muitas mulheres muçulmanas religiosas usam calças, por vezes justíssimas. As mais modestas usam casacos enormes, até aos pés, mesmo no Verão. E, o que os homens árabes exageram no uso de gel de cabelo, as suas mulheres exageram na maquilhagem. Contradições das leis do recato.

Em Israel, e mesmo nos Territórios Palestinianos, é muito raro encontrar mulheres completamente cobertas com o niqab, o véu islâmico que deixa apenas os olhos à mostra. Apesar das manifestações de fanatismo islâmico entre os Palestinianos, estes contam-se entre os muçulmanos mais seculares do Médio Oriente. A cultura ocidental também se manifesta na sociedade islâmica e, apesar dos movimentos que tentam evitar essa crescente influência, hoje em dia muitas jovens muçulmanas já dispensam o uso do véu e da túnica, vestindo-se ao estilo ocidental.

Quem visite Israel poderá encontrar toda a espécie de estilos e tendências de vestuário. Em cidades como Jerusalém ou Haifa, onde se misturam judeus e árabes, religiosos e seculares, a variedade nas formas de vestir dos residentes despertam a curiosidade dos turistas. Decidi escrever este artigo depois de verificar como algumas pessoas chegam ao Clara Mente. Quase todas as semanas, alguém procura em algum motor de busca da Internet pela expressão "O que vestir em Jerusalém". Os turistas portugueses podem usar as roupas da mesma estação que usam em Portugal. Aqui em Israel, o Verão também é quente (por vezes, muito quente) e o Inverno é ameno na costa e mais agreste nas montanhas, como em Portugal.

Espero que os leitores tenham entendido que podem vestir o que quiserem. Apenas tenham atenção ao visitarem um bairro ortodoxo como Mea Shearim, em Jerusalém, onde grandes letreiros em hebraico e inglês pedem para o respeito das regras da modéstia dos residentes. Estão avisados.

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Quarta-feira, 2 de Março de 2011

Ecos da Diáspora

Numa das minhas últimas jornadas diárias para Jerusalém, apanhei boleia num carro onde viajavam duas mulheres que conheço vagamente, residentes em Alon Shevut, tal como eu. Mãe e filha conversaram num idioma estranho durante toda a viagem. Percebi imediatamente que não era hebraico. Apesar de ainda um pouco ferrugento na minha boca, o hebraico já não é “um idioma estranho” para mim.

“Talvez seja yiddish”, imaginei, lembrando-me da língua falada pelos Judeus oriundos da Europa Oriental, que é uma mistura de dialetos alemães e eslavos. “Não, também não é”, percebendo pela falta do forte sotaque alemão. Curioso, prestei atenção à conversa, sem entender uma única palavra daquele idioma misterioso. Da lista de possibilidades, fui sucessivamente excluindo as línguas germânicas e eslavas. “Húngaro!” concluí, atendendo à abundância do som “ô”. Aqui e acolá, a filha pontilhava o húngaro com expressões em hebraico e até português. *

Jerusalém, nas línguas do Mundo.

Na década de 1880, o escritor e jornalista Eliezer ben-Yehuda iniciou e reabilitação da língua hebraica como um idioma moderno. Consultando as fontes do Tanach (as escrituras judaicas, que incluem a Torá e os livros dos vários profetas), ben-Yehuda criou palavras novas a partir de velhos termos. Muitas das suas palavras novas são hoje parte do léxico hebraico, mas cerca de 2000 nunca foram adotadas.

Comparando com o português ou o espanhol, o idioma hebraico é bem menos rico em raízes de palavras. Porém, de apenas uma raiz, conseguiram criar-se dezenas de termos. Por exemplo, da palavra avir, “ar” em hebraico, surgiu aviron, “avião”. Porém, este é mais conhecido como matós, proveniente da raiz tas, “voar”. E como este, há dezenas de exemplos de vocábulos do hebraico moderno, com versões diferentes para a mesma coisa, dependendo da raiz que foi usada para nomear pela primeira vez uma coisa nova. Em maior ou menor medida, adotaram-se palavras com sonoridade grega, inglesa ou espanhola.

Porém, este renascimento da língua hebraica não apagou o uso das línguas que os Judeus usaram durante as gerações passadas na Diáspora. Os judeus haredim (ultra-ortodoxos), chegados da Europa Oriental, ainda hoje usam o yiddish como idioma do quotidiano, dos jornais da comunidade e dos pashkevilim, os cartazes afixados nas paredes dos bairros ultra-ortodoxos, contando as novidades, escândalos e alertas da comunidade. Inclusive na yeshivá, a academia de estudos religiosos, a Lei é discutida no idioma dos seus antepassados europeus. O hebraico, a língua sagrada, é reservado para os próprios livros da Lei e para as orações. Na opinião de muitos haredim, usar o hebraico nos assuntos do quotidiano seria misturar o sagrado com o profano. Um sacrilégio, portanto.

Os israelitas de origem russa – mais de um milhão, chegados na década de 1990 depois do colapso do Império Soviético – até hoje falam a sua língua materna. Ainda que aprendam hebraico com uma rapidez impressionante, mantém um fortíssimo sotaque eslavo. O mesmo se passa com os judeus franceses, a imigrar em cada vez maior número para Israel.

Os judeus provenientes do mundo islâmico mantêm o sotaque mais próximo da norma hebraica moderna, mas é normal ouvi-los a falar árabe, turco ou persa. Os mais velhos ainda falam os dialetos típicos dos judeus desses países, como o quase desaparecido haketia ou ladino ocidental, proveniente do Norte de Marrocos. Do mesmo modo, os judeus turcos e gregos guardam ainda o ladino oriental. E os bukharianos, o seu dialeto de origem turca.

Também os judeus imigrados do mundo anglo-saxónico continuam a usar o inglês em abundância. Em Jerusalém e nos colonatos e cidades dos arredores, existem numerosas comunidades de falantes de inglês. Daí que muitos, mesmo depois de vários anos a residir em Israel, continuem com um nível de hebraico muito básico. E, mesmo os que atingiram um nível fluente, quase todos continuam com sotaques inconfundíveis que denunciam a sua origem.

Numerosos empregos, em especial nos negócios e na alta-tecnologia, usam o inglês como língua franca, como em qualquer lugar do mundo. Assim, são muitos os imigrantes que não sentem sequer necessidade de falar o hebraico. Uma piada em Efrat, o principal colonato da região de Gush Etzion, habitado principalmente por americanos, diz que “em Efrat, de vez em quando até é possível escutar hebraico”. De facto, desde os negócios nas lojas até numerosas aulas de Torá, praticamente tudo se pode fazer usando apenas o inglês. Em Israel, hebraico e árabe partilham desde a fundação do Estado o estatuto de idiomas oficiais, apesar das discussões recentes de promover o hebraico a único idioma oficial e passar a considerar o árabe como semi-oficial, como são o inglês e o russo.

Casado com uma brasileira, em minha casa fala-se quase exclusivamente português, ainda que pontilhado por numerosas palavras e expressões hebraicas. Para falar com a família em Portugal, vejo-me por vezes a baralhar os idiomas. Há palavras portuguesas que, pura e simplesmente, desapareceram do meu discurso, substituídas pelas correspondentes hebraicas. Na yeshivá, apesar de usar livros em hebraico, estudo diariamente com brasileiros e outros sul-americanos. Muitos colegas da yeshivá são norte-americanos e ingleses. Assim, num dia normal uso o português, o espanhol e o inglês. O hebraico acaba muitas vezes por ser reservado apenas para breves conversas de autocarro ou para ser atendido no supermercado.

A filha mais velha, de 2 anos, frequenta o infantário local e aprende rapidamente a língua nacional, trazendo palavras novas todos os dias. Muitos nomes de objetos, alimentos, e também as cores e os números são aprendidos originalmente em hebraico. Vejo-me cada vez mais a entremear o idioma de Camões com o idioma de Moisés. Portubraico, digamos.

* A senhora octogenária, natural da Hungria, sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, onde trabalhava na clínica do macabro Dr. Mengele. Depois da guerra imigrou para o Brasil, onde nasceram os seus filhos. As suas memórias estão publicadas em hebraico e português.

publicado por Boaz às 20:20
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Segunda-feira, 26 de Abril de 2010

Dia santo na Babilónia

Desde que casei, posso contar pelos dedos as vezes que passei o Shabbat fora de casa. E depois do nascimento do bebé, a família apenas se atreveu a sair de casa para passar o Shabbat em duas ocasiões, e ambas em Jerusalém. Porém, há algumas semanas, aventurámo-nos até Tel Aviv. De férias na semana da Pessach, a Páscoa Judaica, tínhamos mais tempo para preparar a viagem de autocarro até à costa. À chegada, Tel Aviv depara-se completamente diferente de Jerusalém. No estilo dos edifícios e, mais ainda, nas pessoas.


Tel Aviv, vista da cidade velha de Jaffa.

Fomos convidados por uma família de amigos, antigos residentes de Alon Shevut – o colonato onde moramos, e que hoje vivem no bairro de Ramat Aviv, um dos mais ricos de Tel Aviv, no limite norte da cidade, com alamedas cheias de árvores e jardins que rodeiam cada prédio. Os nossos amigos que, há pouco mais de um ano trocaram as idílicas montanhas da Judeia pelo bulício da grande cidade, pertencem a um núcleo de famílias religiosas, com vontade de revitalizar a vida religiosa judaica local.

Para uma família religiosa, residir num prédio de vários andares apresenta um desafio adicional no Shabbat: a impossibilidade de usar o elevador. Em Jerusalém e noutras cidades com considerável população judaica ortodoxa, a solução são os “elevadores de Shabbat”, com um mecanismo programado antes da entrada do dia sagrado para que funcionem sem interrupção, parando em cada andar do prédio, sem necessidade de accionar os botões. Em Tel Aviv porém, excluindo os hotéis, não são muitos os prédios onde os seus residentes seculares concordam com esta solução para os seus vizinhos religiosos. Assim, por exemplo, para quem vive num andar alto, subir e descer vários lanços de escadas com um carrinho-de-bebé é uma tarefa árdua. Ficámos alojados em casa de uma outra família do tal núcleo que haviam passado a quadra festiva fora de Tel Aviv.

Uma dos projetos do pai da família que nos convidou é dinamizar o estudo de Torá numa das sinagogas do bairro. Uma das provas da grande secularização da população do bairro é que a sinagoga funciona apenas no Shabbat. Situada numa rua tranquila de casas luxuosas (o canto hollywoodesco de Tel Aviv), é um edifício bonito, rodeado de um belo jardim e com um hall em forma de tenda, usado para as recepções comunitárias nas manhãs de Shabbat. É nessa sinagoga que as famílias do bairro escolhem realizar as cerimónias de bar mitzva dos seus filhos, quando chegam aos 13 anos. Esses acontecimentos festivos são oportunidades preciosas para o rabino estabelecer contacto com as famílias afastadas, convidando-as a participar noutras atividades da sinagoga.

Na manhã de Shabbat, cheguei um pouco atrasado à sinagoga. Com o meu atraso receei que a cerimónia já fosse avançada. Porém, mesmo passando da hora marcada, fui o segundo a chegar. Durante a caminhada de 10 minutos desde a casa onde passámos a noite, quase não encontrei vivalma na rua, ainda que fossem 8 da manhã. Tel Aviv é chamada “a cidade que nunca dorme”, mas na manhã de Shabbat o seu lema não se cumpre, já que a cidade parece parada. Talvez o lema seja na verdade “A cidade que nunca dorme. De noite”. As únicas pessoas que encontro no trajecto são um judeu religioso que se dirige a outra sinagoga e uma mulher que faz a sua sessão de jogging matinal.

A visita à sinagoga fez-me sentir verdadeiramente fora de Israel. Nos cerca de 200 lugares do santuário, não havia mais do que 30 pessoas. Destas, a grande maioria não pareciam habituados a estar numa sinagoga. Algumas, inconscientes da santidade do lugar, falavam praticamente durante toda a cerimónia.

Também exteriormente se notava que não eram pessoas especialmente religiosas. As mulheres não se vestiam de forma discreta. Entre os homens, eram raros os que usavam barba – um dos sinais externos mais comuns do judeu religioso (ainda que não seja obrigatório). Mais raros ainda eram os jovens. Um deles, visivelmente um novato naquelas paragens, parecia desorientado na hora de entoar o kadish, a oração pelos mortos. Imagino que fosse um rapaz “afastado”, quando a morte de um familiar próximo o levou a frequentar a sinagoga, para aí poder dizer kadish pelo seu ente querido desaparecido. Ainda assim, há que reconhecer o mérito de, mesmo parecendo um pouco “deslocadas”, todas aquelas pessoas terem ido à sinagoga.

Antes do início da cerimónia de Shabbat, o rabino costuma fazer uma breve prédica com ensinamentos morais, normalmente baseada na porção semanal da Torá. Em Alon Shevut, onde todas as famílias são religiosas, estou habituado a escutar sermões mais “pesados” e mais longos, por vezes sobre questões complexas da lei judaica. Naquela sinagoga em Tel Aviv, o rabino falou de amor, algo que todos conseguem identificar-se, mesmo os mais afastados da prática religiosa.

Deixar o ambiente religioso da vida em Alon Shevut deixou marcas na família do rabino. As crianças não estudam perto de casa. Nas redondezas, nenhuma escola se enquadra nos padrões de religiosidade da família. Não há vizinhos religiosos no mesmo prédio, nem talvez na mesma rua. Antes, em Alon Shevut, as seis crianças da família brincavam sem problemas em casa dos vizinhos, ou toda a criançada das redondezas se reunia no pequeno jardim no meio do bairro. Em Tel Aviv, os pequenos têm de caminhar algumas centenas de metros até à casa da família religiosa mais próxima. E as ruas de Tel Aviv não são tão seguras como as de Alon Shevut. Assim, fora da escola, praticamente não têm amigos.

A solução é passarem mais tempo em casa. Uma das coisas que acabaram por absorver da vida de Tel Aviv é o gosto (diria quase fanático) pelo futebol. Incluindo as meninas, as pequenas crianças sabem de cor todas as equipas da Liga dos Campeões, da Liga Europa, os principais jogadores e os resultados dos últimos jogos! Ainda que a família tenha algum contacto e tente cativar os vizinhos não-religiosos, tem o cuidado de não deixar que os seus filhos sejam influenciados de alguma forma negativa pelo ambiente pouco ou nada religioso das redondezas.

Entre os judeus religiosos, Tel Aviv é muitas vezes destacada pelas manifestações extremas de não-religiosidade, ou até de ser anti-religiosa. Porém, apesar dessa face visível, em toda a cidade existem mais de 500 sinagogas ativas. A missão da família que visitámos no Shabbat é ajudar os habitantes da cidade a redescobrirem a preciosidade da vida judaica. Que não vejam o ser judeu religioso como alguém ultrapassado e fora da modernidade. Apesar das dificuldades, o rabino confessou-me notar progressos na sua comunidade. Resta saber quais serão as consequências para a própria família, no meio dessa missão de ajudar a “aproximar os afastados”.

publicado por Boaz às 23:30
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Segunda-feira, 5 de Outubro de 2009

Enquanto há vídeo, há esperança

Na última sexta-feira, foi divulgado um vídeo do soldado israelita Gilad Shalit, raptado em Gaza há mais de 3 anos. Durante todo este tempo de cativeiro, esta foi a primeira vez que o Hamas – os raptores – deixou passar um claro sinal de vida de Gilad para Israel.


O vídeo recente de Gilad Shalit. E as várias faces da campanha a favor da sua libertação.

Foi um breve vídeo de dois minutos de duração, que mostra Shalit dirigindo-se aos seus pais Noam e Aviva e ao Primeiro-Ministro Benjamin Netanyahu. Disse que tem sido bem tratado pelo Hamas e está de boa saúde, mas que anseia pelo dia em que verá de novo a sua família.

Todavia, o vídeo não chega de forma gratuita. Vinte prisioneiras palestinianas condenadas por ações terroristas foram libertadas em troca de 2 minutos de prova de vida de Gilad Shalit. Esta tem sido uma estratégia dos sucessivos governos de Israel: libertar um grande número de condenados por terrorismo em troca de sinais de vida dos seus sequestrados ou, mais estranho ainda, em troca de cadáveres de soldados caídos em território inimigo.

Foi o que aconteceu o ano passado, com a libertação de quatro membros do Hezbollah e do famoso assassino Samir Kuntar em troca dos cadáveres dos soldados Ehud Goldwasser e Eldad Regev, cuja captura pelo Hezbollah desencadeou a Segunda Guerra do Líbano em 2006. Até poucas semanas antes da troca, o governo de Israel nem sequer sabia se os soldados ainda estavam vivos.

No passado, outros prisioneiros libertados de prisões israelitas regressaram a atividades terroristas. De acordo com algumas fontes, as ações de ex-prisioneiros libertados causaram a morte a mais de 100 israelitas. Ou seja, não é um bom prenúncio. O saldo não joga a favor de Israel nesta forma de negociação com o inimigo.

Ainda assim, a divulgação do vídeo de Gilad Shalit é uma ótima notícia. Os pais do soldado e milhares de apoiantes da causa da libertação de Gilad em todo o Mundo tentam manter a opinião pública alerta sobre o cativeiro forçado do jovem soldado. Em Jerusalém, em frente à residência do Primeiro-Ministro, há muitos meses que uma tenda de protesto é mantida em permanência. Muitas vezes passo em frente ao local e vejo que sempre alguém se mantém de vigília, às vezes uma pessoa apenas. Uma placa dentro da tenda indica a passagem dos dias em cativeiro. Já são mais de mil e duzentos.

Também em Alon Shevut, o colonato onde moro, na praça do bairro antigo, entre a mercearia e o centro médico, um pequeno cartaz mostra o número de dias da clausura de Gilad Shalit. Diariamente, alguém muda o fatídico número. Para que ninguém esqueça.

publicado por Boaz às 01:32
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Domingo, 31 de Maio de 2009

O autocarro para Moscovo

No meu regresso a casa, todas as tardes, apanho o autocarro no centro de Jerusalém. Depois de uns saudáveis 15 minutos de caminhada desde a Cidade Velha, apanho o 31 ou o 32 no chique bairro de Rehavia. As duas linhas levam a Gilo, um bairro recente no sul da capital, de onde eu pego boleia até casa.

A grande parte dos passageiros do 31 ou do 32 são russos. São fáceis de distinguir entre todos os passageiros. As redondas faces eslavas e a predominância do cabelo louro. As mulheres muito mais maquilhadas e de penteados mais elaborados do que a israelita comum. Os homens raramente vestindo o traje dos ortodoxos ou mesmo a kippá dos sionistas religiosos. Residem em Gilo, um dos bairros com maior população russa de Jerusalém.

Com a queda da União Soviética no início da década de 1990, milhares de ex-soviéticos imigraram para Israel. De acordo com a Lei do Retorno, a lei que regula a imigração para Israel, tem direito de ser cidadão de Israel quem seja judeu ou tenha pelo menos um avô judeu. As bases da Lei do Retorno são as Leis de Nuremberga, estabelecidas pelos Nazis, as quais consideravam como Judeu todo o que tivesse pelo menos um avô judeu. A lei que significava a morte no tempo da Alemanha Nazi, assegura um "porto de abrigo" agora em Israel.

Ao abrigo desta lei, mais de um milhão de pessoas chegaram a Israel. Desses, várias centenas de milhar não eram judeus de acordo com a lei judaica. Descobriu-se mais tarde que, na ânsia de deixar a miséria pós-colapso da União Soviética, muitos russos, sem qualquer relação com o Judaísmo, falsificaram documentos e aproveitaram para deixar o país. É a fama que muitos têm em Israel.

De início, o país recebeu os russos com simpatia. Sabendo da opressão que havia sido a vida judaica durante a União Soviética, a chegada dos russos foi bem vista. Porém, os problemas de integração começaram quando se constatou que muitos nem sequer eram verdadeiramente judeus. Além disso, mesmo os que eram realmente judeus tinham um estilo de vida extremamente secular e hábitos pouco comuns em Israel, como falarem russo e não hebreu, e comerem carne de porco. Mantinham em Israel a forma de vida dos seus tempos na URSS.

A outra desconfiança foi ao nível da absorção de tantos milhares de imigrantes num país tão pequeno. Dotados de um nível educacional acima da média israelita da década de 1990, chegaram milhares de médicos, cientistas, engenheiros, atletas e músicos. Uma piada dizia que "todo o russo tem um violino".

Se por um lado, as instituições locais foram fortalecidas pela qualidade da mão-de-obra russa, por outro surgiu a hostilidade dos habitantes locais que foram deixados para trás face à prioridade dada ao "russo". Para absorver a onda russa, surgiram dezenas de novas orquestras em todas as cidades de Israel. Ainda assim, muitos detentores de diplomas e de carreiras técnicas acabaram a trabalhar nas limpezas e na construção civil (o mesmo aconteceu com os russos e ucranianos em Portugal).

Apenas uma minoria dos russos em Israel é religiosa. Num país em crescente secularização, os russos são os cidadãos mais seculares, resultado de sete décadas sem contacto com a prática judaica (a maioria dos homens, mesmo os judeus de verdade, nem sequer era circuncidada quando chegaram a Israel). Ainda assim, a maior parte das pessoas que se convertem ao Judaísmo em Israel são de origem russa. Os que são religiosos, porém são membros bastante activos nas suas comunidades e contribuem para a formação religiosa dos outros russos, integrados em programas de keruv, projectos de aproximação dos jovens às suas raízes judaicas. Várias yeshivot abriram programas em língua russa, a pensar nos jovens filhos dos imigrantes que, chegados à adolescência, descobrem um interesse no Judaísmo.

Os russos são uma peça recente no variado mosaico social de Israel. Apesar dos problemas de integração, aos poucos encontraram o seu lugar. Para lá das suas lojas, canais de televisão e jornais em russo, e dos partidos políticos que defendem os seus direitos, adoptam aos poucos os costumes do país. E, tal como os marroquinos, os polacos ou os iemenitas, deixam também a sua marca na complexa identidade nacional.

publicado por Boaz às 16:00
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Sábado, 4 de Outubro de 2008

Manter a calma

Há dias, a boleia matinal que consegui apanhar para chegar a Jerusalém, deixou-me no bairro de Talpiyot, a sul da capital. Apeei-me antes da zona dos centros comerciais e fui esperar pelo autocarro numa paragem na Estrada de Hebron, a principal avenida do bairro, que liga o sul ao centro da Cidade Santa.

Pouco depois de ter chegado, senti uma palmada nas costas. Nada de muito violento, estilo palmadinha de amigo. Virei-me de imediato, pensando que iria encontrar algum conhecido. Um sujeito totalmente estranho, perguntou-me com ar um levemente provocatório: "Atá coess alai?" (Estás chateado comigo?) Vi que o fulano tinha problemas... Respondi calmamente: "Não, não estou chateado. O que aconteceu?" Toda a situação foi um pouco surreal. Acabou por me fazer rir. Longe dos seus olhos, não fosse o homem ficar ofendido e querer oferecer-me outra palmada, desta vez menos amigável...

O tipo acabou por ter sorte em ter dado as palmadinhas em alguém calmo e "boa onda" como eu. Se tivesse escolhido o típico israelita, poderia ter tido uma resposta menos serena. O israelita comum é agitado, nervoso, fala alto e não evita qualquer oportunidade para responder a uma provocação.

Isso traduz-se em discussões por verdadeiras miudezas: no supermercado, no autocarro, na repartição pública, na espera que o semáforo mude para verde ao atravessar a rua, e especialmente, no trânsito. O uso permanente da buzina, o pé pesado no acelerador, o esbracejar quando a fila não anda e a pressa exige rapidez. Todas estas são expressões diárias desse nervosismo natural do israelita. A histórica situação de conflito e a instabilidade política também influenciam o estado de espírito normalmente agitado.

Quem vem pela primeira vez a Israel ou conhece o seu primeiro israelita, fica com a sensação de ser um povo um pouco impaciente, rude até. É só impressão. Os israelitas usam uma metáfora para descreverem esse modo peculiar de ser. Chamam-se a si mesmos de sabra, o cacto do deserto. Tal como os frutos do cacto, os israelitas são normalmente espinhosos por fora e doces por dentro.

publicado por Boaz às 21:37
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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

O engano do apartheid

Há não muito tempo estalou uma polémica em Israel acerca do conteúdo de um livro escrito pelo ex-presidente americano Jimmy Carter. Na obra “Palestine: Peace not Apartheid”, Carter comparou a sociedade israelita a um regime de apartheid. A ideia nem sequer é original. Há anos que virou bandeira da esquerda radical europeia, grafitada em paredes por todo o continente. A surpresa foi a adesão de alguém com o gabarito e as responsabilidades de Jimmy Carter a tal pensamento.

Contrapondo à assunção apartheidista de Carter, estão os dados de um estudo realizado pelo conceituado Peace Index da Universidade de Tel Aviv, pouco tempo depois da Segunda Guerra do Líbano, ocorrida há um ano. Os resultados revelaram que – contra todas as apostas, em especial as dos Cartistas – 73% dos Árabes de Israel preferem ser cidadãos de Israel do que de qualquer outro país do Mundo.

Estes resultados conjugam-se com os de outra investigação, efectuada pelo Joint Israeli-Palestinian Public Opinion Poll, que indicam que 52% dos Árabes de Israel concordam que "muitos dos cidadãos árabes de Israel se identificam com Israel em privado, mas evitam expressá-lo em público por pressões sociais".


Bandeiras de Israel e do Waqf, a autoridade muçulmana de Jerusalém,
hasteadas sobre o Monte do Templo

Não quero dizer que não exista descriminação ou preconceito em relação aos Árabes em Israel. As piadas que se contam deles são disso apenas um sinal. Todavia, vejamos que os Árabes israelitas, tal como muitas minorias em quase todos os países, enfrentam obstáculos no seu caminho para a igualdade. Sejam os Ciganos na Roménia ou em Portugal, os Negros nos EUA ou os Russos nos Estados Bálticos.

A situação dos Árabes em Israel está muito dependente da situação política e na delicada questão da segurança quotidiana. A cada ataque terrorista suicida cometido por um palestiniano, muitos israelitas sentiam-se cada vez mais desconfiados em relação à generalidade dos Árabes. E o facto de vários árabes israelitas terem participado activamente em operações terroristas ou ajudado os seus pares palestinianos, não ajudou a seu favor.

Os Árabes em Israel estão representados no parlamento. Aliás, os cidadãos árabes de Israel participam no processo democrático israelita mais livremente que os cidadãos de qualquer país árabe. Têm inclusive os seus próprios partidos políticos, apesar de haver também cidadãos árabes em vários partidos de maioria judaica. Salim Jubran, um juiz cristão árabe (sim, nem todos os árabes são muçulmanos – outra falácia muito difundida) tem um assento permanente no Supremo Tribunal de Israel. A liberdade de culto e a associação religiosa são direitos absolutos. Apenas as actividades de proselitismo são proibidas para qualquer confissão.

Apesar de estarem sub-representados, os cidadãos árabes são oficiais da polícia ou professores em todos os níveis de ensino e, no caso dos beduínos e dos druzos, participam como qualquer israelita nas Forças Armadas.

Então, em que ficamos? Existe apartheid ou orgulho nacional (mesmo que silencioso)?

publicado por Boaz às 11:04
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Quinta-feira, 4 de Novembro de 2004

Há nove anos

 

Yitzhak Rabin
(1 de Março de 1922 - 4 de Novembro de 1995)

publicado por Boaz às 17:32
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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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