Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Passerelle de Jerusalém

Na maior parte das sociedades que integram o chamado Mundo Ocidental, seguidoras fiéis das regras da moda que mudam a cada estação, quase todas as pessoas se vestem de forma idêntica. Apesar da abundância de estilos, de preços e marcas, a roupa não será um ponto central na identificação das pessoas. Tirando talvez os integrantes das consideradas "sub-culturas".

Pelo contrário, em Israel, a maneira de vestir pode dizer muito mais sobre uma pessoa do que somente o seu lado estético. Em muitos casos, as mudanças sazonais das passerelles de Paris, Milão ou Nova Iorque não afetam minimamente os roupeiros locais. Obviamente, esta regra não inclui os habitantes seculares. Atentos às modas mundiais, estes vestem-se como qualquer pessoa (dita) moderna em qualquer lugar do mundo. As lojas das grandes marcas internacionais estão presentes nos centros comerciais das principais cidades e as marcas locais seguem as tendências ditadas pelos gurus da moda.

Entre as 613 mitzvot (mandamentos) da Torá encontram-se algumas sobre a forma de vestir. Desde a proibição de uso de shaatnez – a mistura de lã e linho num mesmo tecido, que era exclusiva para as roupas sacerdotais; à obrigação de todas as peças de vestuário masculinas com quatro cantos terem tzitzit– uns fios presos nos cantos da roupa com uma série de nós. Vagamente, é mencionada a obrigação das mulheres casadas cobrirem o cabelo. O valor do recato das mulheres é citado em vários versículos por todas as Escrituras.


Haredi reza no Muro Ocidental, com shtreimel,
o estimado chapéu de pele usado por algumas correntes hassídicas no Shabbat e Festas.

As peças de vestuário que mais servem de identificação em Israel são as coberturas de cabeça. Kipáou chapéu para os homens. Lenço, chapéu ou peruca para as mulheres. Em cada um destes elementos, há inúmeras variações que, para os conhecedores são quase um cartão de apresentação pessoal e um símbolo de identificação ideológica. Curiosamente, ainda que seja um dos mais reconhecidos símbolos judaicos, não existe nas Escrituras e nas fontes antigas da Lei Judaica qualquer menção à obrigação de os homens cobrirem a cabeça permanentemente. Porém, nas fontes haláchicas mais recentes, este costume passou a obrigação.

De acordo com a tradição judaica atual, um homem judeu que não cobre a cabeça fora da sinagoga, declara-se dessa forma como "não religioso". Pode ser que seja o chamado massorati, o tradicionalista que cumpre Shabbat e Cashrut (as regras alimentares judaicas), mas que não se integra na maioria das regras da "ortodoxia". Para ele o uso da kipáestará reservado às rezas na sinagoga e às refeições festivas.

O estilo da kipá pode definir a aderência a uma ou outra ideologia política ou corrente religiosa. As kipot tricotadas identificam os sionistas religiosos ou ortodoxos modernos. As kipot de tecido preto, os ultra-ortodoxos. Se forem de pano liso, divididas em seis "gomos", indicarão os adeptos da corrente Chabad; em veludo, outras corrente hassídicas. As kipot tricotadas de grande tamanho são emblemas dos judeus mais nacionalistas, residentes em alguns colonatos específicos na Judeia e Samaria. Se forem parecidas com um gorro e com um pompom no topo, as kipot tricotadas identificam os fiéis (ou meros simpatizantes) do místico rabino hassídico do século XVIII, Nachman de Breslev. Muitas das kippot dos "Nachmans" têm bordado o mantra do grupo: "Na Nach Nachma Nachman MeUman". Todavia, a identificação através da kipánão é 100% garantida, já que alguns homens usam modelos normalmente usadas por membros de outras correntes. Por vezes, por uma questão de “moda”.

Os ortodoxos modernos vestem-se praticamente como qualquer pessoa em outras sociedades ocidentais. Porém, ainda que seguindo em certa medida as regras da moda, elas são combinadas com os preceitos judaicos. Ao contrário, os homens ultra-ortodoxos vestem-se invariavelmente de branco e preto. Branco para as camisas. Preto para o resto do roupeiro. Os chapéus negros são outros elementos de identificação entre as várias escolas do judaísmo ultra-ortodoxo. Existem dezenas de modelos, alguns com pequenas diferenças entre si, que somente um especialista em indumentária hassídica saberá distinguir. Os partidários da corrente Chabad usam o fedora, um modelo de chapéu popular na Europa no início do século XX, usado pelos seguidores desta corrente hassídica desde que o seu último Rebbe (o líder espiritual Chabad) adotou esse modelo de chapéu.

Ao contrário de muitas outras correntes do Judaísmo hassídico, os judeus Chabad não usam os chapéus de pele nos dias festivos. Estes chapéus – chamados em íidiche shtreimel ou spodik, conforme os modelos – são altamente apreciados pelos judeus hassídicos. Em geral, o primeiro shtreimel é usado no dia do casamento, oferecido pela família da noiva. Em algumas escolas hassídicas, os rapazes começam a usar shtreimeldesde a cerimónia de Bar Mitzvá, aos 13 anos, quando atingem a maioridade religiosa.

Feitos com a pele de coelho, marta, arminho ou cauda de raposa, podem custar vários milhares de dólares. Há poucos meses, o governo de Israel decidiu banir a importação de peles, consciente da crueldade a que são sujeitos os animais criados para a indústria de peles. Porém, a lei manteve uma cláusula de excepção para as peles usadas nos shtreimels. Houve agitação entre as hostes hassídicas perante a possibilidade de ser banido o seu estimado costume peludo. Todavia, existem hoje alternativas em pele sintética que custam somente algumas centenas de dólares. Poupa-se no chapéu e no sofrimento animal.

Em conjunto com os seus chapéus negros ou shtreimels, os judeus hassídicos usam largas capotas negras. Tal como os chapéus de pele, eram um vestuário típico no clima agreste Europa Oriental, parecendo totalmente deslocados do calor estival de Israel. Os modelos usados nos dias da semana são austeros e lisos, enquanto os de Shabbat podem ter belos padrões. Alguns Rebbes hassídicos, respeitados como soberanos absolutos, costumam usar magestosas capotas bordadas com motivos dourados.

A maior parte destes elementos do vestuário dos judeus ultra-ortodoxos aplicam-se tanto aos adultos como aos rapazes, que desde tenra idade começam a vestir-se como os seus pais, das capotas aos chapéus negros. A indumentária hassídica, é marcada pela aderência estrita às regras da modéstia, excluindo as cores vistosas. Porém, honestamente, é difícil parecer modesto quando se ostenta um enorme chapéu de pêlo valendo centenas ou milhares de dólares e uma longa capota, ainda que seja de austera cor negra.

Entre as mulheres judias, existem as mesmas diferenças de vestuário, de acordo com o nível de religiosidade e a corrente judaica a que pertencem. Não é costume uma mulher religiosa usar calças, consideradas vestuário exclusivamente masculino. Ainda assim, nos últimos anos surgiram modelos de calças de modelos folgados, adotados por algumas mulheres mais liberais dentro da ortodoxia.

De acordo com a Lei Judaica, uma mulher casada deve cobrir o cabelo. O espectro da cobertura de cabeça feminina vai dos lenços às perucas, passando por uma grande variedade de barretes e chapéus. As mulheres sionistas religiosas (ou da ortodoxia moderna) são as que cobrem a cabeça com a maior variedade de estilos. Algumas usam apenas uma bandana que deixa a maior parte do cabelo descoberto. As residentes em alguns colonatos da Judeia e Samaria – esposas e mães dos tais homens de largas kipottricotadas – usam vistosos lenços amarados das mais diversas formas. Algumas combinam vários lenços entrelaçados, construindo turbantes que variam entre a elegância alegre e o absurdo carnavalesco.

Entre as mulheres ultra-ortodoxas, as seguidoras do movimento Chabad destacam-se por cobrirem a cabeça somente com perucas. Noutras correntes chassídicas são comuns as toucas, algumas de modelos medonhos. Algumas mulheres casadas, mais jovens ou mais modernas, combinam com elegância a peruca com um pequeno barrete. É bem provável que Israel seja hoje o maior mercado mundial de perucas femininas e chapéus masculinos.

Entre os árabes, a forma de vestir também é um símbolo da sua religiosidade. Em termos de vestuário, os cristãos são indistintos dos judeus não-religiosos. Ainda assim, por uma tradição do Médio Oriente, não é costume ver uma mulher árabe, mesmo não-muçulmana, com um decote pronunciado ou uma micro-saia. Os homens muçulmanos vestem-se maioritariamente como qualquer homem moderno. Somente entre os mais velhos, ou os mais tradicionalistas, alguns usam abayas, as túnicas brancas, cinzentas ou castanhas típicas da Arábia e cobrem a cabeça com um barrete (muito parecido com uma kipá branca tricotada) ou o keffiyeh, o lenço típico dos beduínos do deserto popularizado por Arafat. Uma moda entre os jovens árabes é o uso de quantidades industriais de gel no cabelo, para manter impecáveis os seus penteados estranhos.

Os hijabs, lenços usados pelas mulheres e raparigas muçulmanas que cobrem o cabelo, tendem a ser coloridos, com lantejoulas ou bordados. Muitas famílias tradicionais muçulmanas começam a cobrir o cabelo das filhas assim que atingem a puberdade, ou ainda antes. Apesar de ocultarem a maior parte do corpo, muitas mulheres muçulmanas religiosas usam calças, por vezes justíssimas. As mais modestas usam casacos enormes, até aos pés, mesmo no Verão. E, o que os homens árabes exageram no uso de gel de cabelo, as suas mulheres exageram na maquilhagem. Contradições das leis do recato.

Em Israel, e mesmo nos Territórios Palestinianos, é muito raro encontrar mulheres completamente cobertas com o niqab, o véu islâmico que deixa apenas os olhos à mostra. Apesar das manifestações de fanatismo islâmico entre os Palestinianos, estes contam-se entre os muçulmanos mais seculares do Médio Oriente. A cultura ocidental também se manifesta na sociedade islâmica e, apesar dos movimentos que tentam evitar essa crescente influência, hoje em dia muitas jovens muçulmanas já dispensam o uso do véu e da túnica, vestindo-se ao estilo ocidental.

Quem visite Israel poderá encontrar toda a espécie de estilos e tendências de vestuário. Em cidades como Jerusalém ou Haifa, onde se misturam judeus e árabes, religiosos e seculares, a variedade nas formas de vestir dos residentes despertam a curiosidade dos turistas. Decidi escrever este artigo depois de verificar como algumas pessoas chegam ao Clara Mente. Quase todas as semanas, alguém procura em algum motor de busca da Internet pela expressão "O que vestir em Jerusalém". Os turistas portugueses podem usar as roupas da mesma estação que usam em Portugal. Aqui em Israel, o Verão também é quente (por vezes, muito quente) e o Inverno é ameno na costa e mais agreste nas montanhas, como em Portugal.

Espero que os leitores tenham entendido que podem vestir o que quiserem. Apenas tenham atenção ao visitarem um bairro ortodoxo como Mea Shearim, em Jerusalém, onde grandes letreiros em hebraico e inglês pedem para o respeito das regras da modéstia dos residentes. Estão avisados.

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Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

Seis dias em Junho

Passaram mais de 40 anos, mas os acontecimentos de 5 a 10 de Junho de 1967 têm consequências até à atualidade. Conhecida por "Guerra dos Seis Dias", é um dos mais dramáticos episódios da história de Israel. Desde o dia da sua fundação, em 14 de Maio de 1948, o moderno Estado de Israel foi ameaçado pelos seus vizinhos árabes. Com o cessar-fogo da Guerra da Independência, em 1949, não foi instaurada a segurança e a estabilidade nas fronteiras do jovem Estado Judaico.

A partir do Sinai e da Faixa de Gaza – ocupada pelo Egito em 1949 –, as violações da fronteira de Israel eram constantes. A cada ataque seguiam-se retaliações da parte de Israel. O clima de guerra era permanente e, com a nacionalização do Canal de Suez, o Egito esperava represálias também da França e do Reino Unido, que pretendiam defender os seus interesses no Canal.

Sabendo dos interesses anglo-franceses, Israel decidiu ser o primeiro a atacar. A intenção israelita não ocupar o Sinai permanentemente. O objetivo era impor uma derrota ao beligerante regime de Nasser, que levasse o exército egípcio a terminar com as ameaças às fronteiras de Israel. A “Operação Kadesh” de 1956 causou uma derrota egípcia, mas o ambiente de guerra não abandonou a região. Com a colocação de milhares de soldados da ONU no Sinai para vigiar o cessar-fogo, as incursões árabes em território israelita terminaram durante alguns anos. A confiança israelita nas suas tropas cresceu consideravelmente.

A tranquilidade relativa da fronteira egípcia contrastava com os repetidos ataques na fronteira síria. Povoações no norte da Galileia e nas margens do Kinneret (Mar da Galileia) eram bombardeadas a partir de posições sírias no estratégico planalto de Golan. Em Jerusalém e na fronteira oriental, a ameaça do exército jordano também era crescente. Ainda que o Rei Hussein fosse o mais moderado dos vizinhos de Israel, era pressionado pelos milhares de residentes palestinianos no seu país e pelos restantes líderes árabes.

A situação agravou-se com a ordem do presidente egípcio Abdel Nasser de expulsão das tropas da ONU estacionadas no Sinai e a retoma do controlo militar da península pelo poderoso exército egípcio. No estreito de Tiran, no fundo do Sinai, foi imposto um bloqueio aos navios de Israel, impedindo o seu acesso ao Mar Vermelho. A guerra era de novo eminente.

Os dois blocos da “Guerra Fria” armavam cada um dos lados. Os soviéticos equipavam as forças árabes, enquanto Israel usava armas de fabrico americano, francês e britânico. Em evidente desvantagem numérica e estratégica, a única hipótese de Israel conseguir uma vitória no conflito que estava eminente, seria desencadear um ataque surpresa, rápido e massivo.

Na manhã de 5 de Junho, a aviação israelita atacou as bases aéreas egípcias a partir do Mediterrâneo. Voando a baixa altitude evitaram ser detetados pelos radares. Em algumas horas, a Força Aérea de Israel reduziu a cinzas toda a frota de aviões de Nasser. Simultaneamente, foram atacadas bases na Síria, Jordânia e Iraque. Este ataque fulminante permitiu a Israel o controlo absoluto do espaço aéreo, podendo depois concentrar-se na ofensiva terrestre.

Perante o ataque israelita, as populações árabes reagiram com entusiasmo. Afinal, não haviam sido informadas da pesada derrota aérea pela comunicação social controlada pelos seus regimes. Num esforço propagandístico evidente, a Rádio Damasco difundia a mensagem: “Destruiremos Israel em quatro dias”.

Os combates foram rápidos no Sinai. Em apenas três dias, a maior parte das forças egípcias – o mais poderoso exército árabe – foram derrotadas em batalhas de blindados. O exército de Israel avançou até à margem oriental do canal de Suez. Com a frente egípcia totalmente dominada, Israel concentrou-se na frente oriental. O exército jordano atacava a Cidade Nova de Jerusalém, pretendendo avançar pela cidade rumo ao Mar Mediterrâneo, cortando Israel ao meio.

As tropas israelitas atravessaram a "terra de ninguém"; que se estendia ao longo da fronteira que dividia a cidade desde 1949 e cercaram a Cidade Velha. Após dois dias de combates, o exército jordano foi repelido da Cidade Santa e a cidade foi finalmente reunificada. Pela manhã do dia 7 de Junho, já os fiéis judeus rezavam no Kotel, o Muro das Lamentações, pela primeira vez em 19 anos. O local mais sagrado do Judaísmo havia estado inacessível aos Judeus desde 1948, quando Jerusalém Oriental, incluindo a Cidade Velha, fora capturada pela Jordânia.


Fiéis judeus no Kotel, uma realidade impossível até 1967.

Israel avançou para Oriente, conquistando o território da Judeia e Samaria, que desde 1949 estava sob controlo jordano. Em 1950, esses territórios haviam sido mesmo anexados pelo Reino da Jordânia. Nessa altura, ainda ninguém reclamava a região para fundar um "Estado Palestiniano". Com as vitórias no sul e no leste asseguradas, restava suster a ameaça da Síria. Antes que as Nações Unidas decretassem um cessar-fogo, os blindados israelitas venceram o exército sírio nos Montes Golan. A 10 de Junho foi instaurado o cessar-fogo. A essa altura, as tropas israelitas já haviam avançado até próximo da capital síria, Damasco.

Em menos de uma semana, Israel aumentou mais de três vezes o tamanho do seu território. (A península do Sinai seria devolvida ao Egito em 1981, instaurando o primeiro tratado de paz israelo-árabe, o qual se mantém até hoje, apesar de alguns momentos problemáticos nas relações entre os dois países.) A partir de 20 de Junho foi autorizado a todos os Muçulmanos o acesso à mesquita de Al-Aqsa, no Monte do Templo (ou Esplanada das Mesquitas). Anteriormente, os fieis muçulmanos que viviam do lado israelita da “Linha Verde” também não podiam rezar nos seus santuários da Cidade Velha.

A espetacular vitória israelita causou um fortalecimento sem precedentes da identidade judaica. No espaço dos últimos 2000 anos, nunca as profecias de Redenção pareceram tão reais. Em todo o mundo, milhares de judeus seculares que até então desprezavam a sua origem judaica, passaram a afirmar com orgulho o seu Judaísmo. Milhares de Judeus fora de Israel passaram a usar com orgulho as suas kippot, publicamente. Na União Soviética, onde os Judeus sofriam uma forte perseguição religiosa, mesmo debaixo da opressão do regime despertara um movimento que reclamava o direito de imigrar para Israel.

Desde que Israel unificou Jerusalém, a cidade experimentou uma fase de desenvolvimento sem precedentes. Nunca a cidade se tornara verdadeiramente num local santo para as três religiões monoteístas. Apenas sob o domínio israelita foi instaurada a liberdade religiosa para todos os seus habitantes.

Hoje, o calendário judaico marca o Yom Yerushalaim, o Dia de Jerusalém, que celebra a reunificação da Cidade Santa, ocorrida durante a Guerra dos Seis Dias. Ele simboliza a restauração do domínio do Povo de Israel sobre a sua capital ancestral. O retorno a Sião, base do Sionismo, a ideologia fundadora do Estado de Israel, que é a ânsia dos Judeus de regressarem à sua pátria histórica depois de quase dois mil anos de exílio. A coroa regressou ao seu legítimo soberano.

publicado por Boaz às 15:00
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Domingo, 28 de Março de 2010

Fénix de pedra

Estava em obras desde o Verão de 2006. A antiga sinagoga Hurva (a Ruína, em hebraico) era um dos símbolos do Bairro Judeu da Cidade Velha de Jerusalém. Foi fundada no início do século XVIII pelos seguidores do rabino Yehuda he-Hasid, que liderou o maior grupo de imigrantes judeus para a Terra de Israel em muitos séculos.

Poucos anos após a fundação, foi destruída, ficando arruinada durante mais de 140 anos. Daí o nome por que ficou famosa, “A Ruína”. Foi reconstruída em meados do século XIX, quando se intensificou a imigração judaica e o desenvolvimento de Jerusalém. Era a maior sinagoga de toda a Terra de Israel. Até 27 de Maio de 1948.

A Hurva foi uma das vítimas da Guerra da Independência de Israel. Os combates em Jerusalém, entre a Legião Árabe e as tropas da Haganá, uma das milícias que daria origem ao futuro exército de Israel, foram especialmente violentos. Em Maio de 1948, durante a batalha pelo controle da Cidade Velha, a sinagoga era um dos últimos redutos dos soldados da Haganá. O comandante da Legião Árabe, por intermédio da Cruz Vermelha, avisou a Haganá para abandonar o local, sob pena de um ataque em força. A liderança da Haganá recusou, consciente que o abandono do local significaria a derrota na batalha pelo Bairro Judeu.

A recusa da retirada resultou em combates no local. No final, a bandeira da Legião Árabe foi içada no cimo da cúpula da sinagoga. Mas esse não foi o fim da destruição da Hurva. Após a captura do local pelas forças árabes, o que restava da sinagoga foi deliberadamente minado e detonado. Nos meses seguintes, O mesmo destino teve a maioria do Bairro Judeu da Cidade Velha. Uma campanha de destruição arrasou centenas de casas, dezenas de sinagogas centenárias e antigas yeshivot. Os residentes judeus foram expulsos de Jerusalém Oriental e o acesso aos locais sagrados, como o Muro Ocidental, foi proibido a todos os judeus.

Nos 19 anos que se seguiram, durante o domínio jordano em Jerusalém Oriental, a cidade esteve dividida. Uma faixa de território, uma “terra de ninguém”, separou a Cidade Velha e Jerusalém Oriental da moderna Jerusalém Ocidental. As ruínas das casas do Bairro Judeu foram usadas como currais para cabras e burros. O milenar cemitério judeu do Monte das Oliveiras, onde estão sepultados centenas de sábios e ilustres judeus, também foi profanado. Lajes dos túmulos foram usadas para pavimentar estradas.

A reunificação da cidade em 1967 marcou o renascimento do Bairro Judeu. Foi totalmente reconstruído com arquitetura moderna. O Muro Ocidental, o local mais sagrado para o Judaísmo, voltou a estar acessível. E não só a Judeus, mas a pessoas de todos os credos e países.

Porém, a Hurva manteve-se no que foi na maior parte da sua história, uma ruína. Planos foram desenhados com propostas modernas para a reconstrução. No meio da indecisão entre arquitetos e políticos, um arco comemorativo da antiga sinagoga foi erguido em 1977 que se tornou num dos símbolos do Bairro Judeu.

No final do Verão de 2006, quando foi estudar para a Yeshivat HaKotel, vizinha da praça onde se situa a Hurva, já se havia decidido o que fazer com a velha sinagoga. A reconstrução de acordo com o aspeto que tinha antes da devastação de 1948 havia sido iniciada. Durante quatro anos, uma grua esteve erguida no local, montando pedra a pedra as paredes e a enorme cúpula da Hurva. Todos os dias, passava no local e via crescer a obra.

A Hurva reconstruída foi oficialmente inaugurada há menos de duas semanas com a presença de políticos e rabinos. No dia seguinte, residents árabes de Jerusalém Oriental envolveram-se em confrontos com a polícia israelita. Mentes paranóicas viram na reconstrução da Hurva algum indício de desejos de reconstrução do antigo Templo de Jerusalém no Monte do Templo, o local onde hoje se situa o santuário islâmico da Cúpula do Rochedo e a mesquita de Al-Aqsa. Por isso, grupos palestinianos apelaram a um “dia da raiva” em protesto pela reabertura da sinagoga.

A Hurva arruinada era o emblema da destruição deliberada da antiga sinagoga e de todo o Bairro Judeu ocorrida durante o domínio árabe em Jerusalém Oriental. A reconstrução simboliza o renascimento da cidade, algo pelo qual os judeus religiosos rezam três vezes por dia. A glória de Jerusalém é também a glória do Judaísmo. E isso é inaceitável para os Árabes.

publicado por Boaz às 16:00
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Domingo, 2 de Agosto de 2009

Crónicas da crise III: E constrói Jerusalém

Três vezes ao dia, durante os serviços religiosos, os judeus rezam pela reconstrução de Jerusalém. É o desejo de retomar a antiga glória perdida da cidade, antes da destruição pelos Romanos. Vemos que, mesmo em tempo de crise, as bênçãos têm funcionado. Pelo menos aparentemente. Em Jerusalém, as obras de grande envergadura não param. A maior delas é a mal-fadada rakevet kalá, o "metro ligeiro de superfície". Há mais de três anos, vem esburacando a cidade de ponta a ponta, deixando o centro em estado caótico e, por toda a capital o trânsito à beira do impossível.

A polémica, megalómana, mas linda ponte de Santiago Calatrava para a passagem do tal "metro ligeiro" foi inaugurada há um ano. Ainda que se mantenham as dúvidas em relação ao final das obras e início do funcionamento da rakevet. Apesar de pronta, hoje serve apenas como novo local de fotos de turista e de passagem de peões e ciclistas num dos cruzamentos principais da Cidade Santa. O orçamento da obra já foi várias vezes multiplicado em relação ao valor inicialmente estimado. As derrapagens nas obras públicas não são só em Portugal...

Bendito és Tu, Eterno, que reconstrói Jerusalém.

Também fora dos cálculos – e dos carris – está a obra do comboio rápido Jerusalém-Tel Aviv. Destinada a aproximar as duas principais cidades do país e inverter assim a saída de habitantes e trabalhadores da capital em direção à costa, a obra enfrenta as dificuldades do terreno montanhoso, dos arrojos arquitetónicos necessários para vencer vários lanços de túneis e viadutos e a desconfiança dos ecologistas.

Ainda assim, mesmo em frente à Gare Central de Jerusalém, e ao lado de uma das bases da ponte de Calatrava, prossegue a escavação da futura estação de comboio. Para compensar a localização elevada da cidade e evitar que a linha de comboio tenha um declive demasiado acentuado para as altas velocidades a que pretende funcionar, a solução foi descer a localização da estação. Ou seja, será uma enorme obra subterrânea: a 80 metros de profundidade.

Outra das obras polémicas é a nova residência oficial do Primeiro-Ministro. É um monumental projeto de dezenas de milhões de dólares junto à Kiryat Hamemshala, a Cidade do Governo, o complexo dos novos edifícios governamentais construídos nos últimos anos em redor da Knesset, o Parlamento de Israel. Depois de tanta discussão pelos gastos excessivos na palacial obra para servir de domicílio oficial e local de trabalho do chefe de governo, o tamanho da casa vai ser reduzido.

Envolta em controvérsia está também um novo museu na capital, o Museu da Tolerância. Baseado no museu homónimo de Los Angeles, a sucursal de Jerusalém já promete discussão. Não tanto pelo audacioso projecto arquitectónico de Frank Gehry (autor do famoso Museu Guggenheim de Bilbau), mas mais pela localização da obra: sobre um antigo cemitério islâmico desativado. Para um museu destinado a promover a convivência dos povos, o facto de a sua construção implicar a remoção de campas de um dos povos envolvidos no conflito na região é, no mínimo, falta de tacto...

A poucos metros da projectada obra do Museu da Tolerância, avançam as obras do luxuoso Hotel Waldorf-Astoria e, do lado oposto do mesmo cruzamento, foi inaugurado há poucas semanas o exclusivo Hotel Mamilla. O turismo israelita, apesar da crise internacional, parece não ter sentido um retrocesso acentuado, pelo menos em Jerusalém.

Um dos mais eloquentes exemplos da transformação de Jerusalém – um autêntico renascimento das cinzas – é a reconstrução da antiga sinagoga de Rabbi Yehuda Ha'Hassid. Arrasada, junto com a quase totalidade do Bairro Judeu da Cidade Velha, pelo exército jordano na Guerra da Independência de Israel, foi apenas um monte de ruínas durante a ocupação jordana de Jerusalém Oriental, entre 1949 e 1967. Após a reunificação israelita da cidade em 1967, foi reconstruído um dos arcos da fachada. Ficou conhecida como Ha'Hurva, "a Ruína". Em 2005, foram iniciadas as obras de reconstrução seguindo o antigo aspeto da sinagoga. Situada junto à Yeshivat HaKotel, tenho seguido, dia-a-dia, a progressão da obra daquela que já foi a maior sinagoga do país.

Na cidade mais pobre de Israel – que é Jerusalém, acredite-se ou não – a construção de prédios de habitação de luxo não pára. Destinados a milionários judeus estrangeiros, urbanizações de alto nível avançam em praticamente todos os cantos da cidade. Porém, serão deixadas vazias na maior parte do ano, uma vez que os seus donos têm residência fixa em Nova York, Miami ou Londres. O apartamento de Jerusalém, por mais luxuoso que seja, será só para umas curtas semanas de férias, de vez em quando.

Um dos mais recentes espaços cobiçados pelos imobiliários é o Vale da Gazela, um espaço semi-abandonado próximo ao shopping Malcha, entre o estratégico cruzamento Pat e a via-rápida Begin. É o habitat de uma outrora numerosa manada de gazelas – daí o seu nome. Hoje só restam quatro animais, já que o bando tem sido sucessivamente dizimado por matilhas de cães selvagens ou atropelamentos fatais na via-rápida vizinha. Os ecologistas e parte da opinião pública querem preservar o espaço como área natural, um dos poucos grandes espaços ainda intactos no território da cidade. Os empreiteiros, obviamente, querem aproveitar a localização estratégica para erguer um novo bairro.

Alguns projetos polémicos têm sido erigidos em bairros de população maioritariamente árabe. Um deles é o tão falado Hotel Shepard, um edifício originalmente pertença do antigo mufti (líder religioso muçulmano) Amin al-Husseini, apoiante de Hitler e instigador das revoltas anti-judaicas na antiga Palestina Britânica que causaram a morte de centenas de judeus antes da independência. Há vários anos, o edifício foi adquirido por um milionário americano defensor da colonização judaica na Terra Santa e hoje pretende transformá-lo num novo condomínio judaico.

Ainda que as gruas de construção civil sejam uma visão comum em toda a cidade, os preços das casas não têm parado de aumentar. A solução para muitos jovens tem sido procurar casa nos arredores. A falta de habitação para as classes média e baixa é evidente e a solução para os menos abonados é deixar a capital. A cidade perdeu dezenas de milhar de habitantes na última década. Esta sangria de habitantes é agravada pela falta de empregos. Daí os planos anunciados para desenvolver o ramo da indústria farmacêutica e da alta-tecnologia na capital.

A bênção pela reconstrução de Jerusalém parece não ser correspondida pelas ações dos empreiteiros. Preocupados mais com a promoção do luxo para domicílio ocasional de forasteiro do que com a fixação dos que desejam fazer de Jerusalém o seu lar. A cidade vai apresentando uma cara nova – um verdadeiro lifting – mas é mais para estrangeiro ver.

publicado por Boaz às 20:09
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Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Todos juntos (e apertados)

Normalmente, rezo Minchá, a oração da tarde, na yeshivá, antes da pausa para o almoço. Porém, na última quarta-feira, um compromisso à hora de almoço, fez-me perder a reza com todos os alunos da yeshivá. As longas tardes do final da Primavera permitem alargar mais o horário para rezar Minchá.

Saindo da yeshivá às sete da tarde, ainda tenho algum tempo para encontrar uma sinagoga disponível. Planeando fazer as compras semanais no mercado de Machane Yehuda, dirigi-me ao centro de Jerusalém. Em frente à entrada do mercado, do outro lado da Rua de Jaffa, uma pequena sinagoga tem sempre movimento.


Sinagoga Zaharei Chama, Rua de Jaffa, Jerusalém.

Àquela hora, os atrasados (como eu) na reza, correm à sinagoga, tentando apanhar o último minyan, o grupo de 10 homens necessário para rezar uma oração pública. Ao entrar na pequena sinagoga, o grupo presente já está no final da reza. Frustrado por ter perdido a oportunidade, reparo então que, no final do salão da sinagoga, há outras salas onde se pode rezar.

Aquela é uma sinagoga de estilo shtiebel - significa "a pequena casa", uma residência em que cada divisão foi transformada numa pequena sinagoga. Assim, a toda a hora começa um novo grupo de homens a rezar, sem ser preciso esperar pelo horário fixo da reza.

Entro num pequeno quarto com apenas dois bancos. Vários homens recém-chegados entram também. Depressa se completa o necessário grupo de dez. Por se situar junto aos bairros de Geula e Mekor Baruch, a maioria dos homens que aparecem para rezar são haredim, ultra-ortodoxos. Ainda assim, também alguns sionistas religiosos como eu.

Ali, as diferenças de linha religiosa são praticamente ignoradas. Sefarditas, askenazim, haredim de "chapéu-preto", sionistas. Todos são incluídos no grupo.

Continuam a entrar mais homens. O minúsculo quarto, onde caberiam à-vontade 5 pessoas, contém agora mais de 15. Outros rezam no corredor. No final da Amidá, a parte principal da reza, entoada individualmente e em silêncio, é costume recuar três passos do local onde se rezou, o que simboliza a retirada perante da presença de Deus, o Rei diante do qual acabámos de rezar. Ali, naquele espaço exíguo e apinhado, é impossível recuar os tais três passos, sem pisar os pés ao homem que reza atrás de nós.

Aquele foi o último minyan da oração da tarde, na última hora possível. Fim do tempo: o sol já se começa a pôr. Nas salas ao lado começam entretanto a chamar para a oração da noite, Arvit. Depois da repetição da reza em voz alta pelo hazan (o oficiante do serviço religioso) e da conclusão do serviço, sigo para as compras.

No mercado, tal como na sinagoga, juntam-se todos os tipos de judeus. O minyan das compras e da vida diária compõe-se das muitas cores de Israel.

publicado por Boaz às 15:58
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Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Palestra em mímica

Há dias, após o final da viagem à boleia desde Alon Shevut, que me deixou no bairro de Talpiyot – como acontece tantas vezes – continuei de autocarro a jornada até à Cidade Velha. Respeitando o pequeno letreiro numa das janelas do autocarro "Por favor continue para a parte de trás do veículo", sentei-me numa das últimas filas de bancos.

De manhã, a caminho da yeshiva, costumo escutar música no meu pequeno leitor de mp3. "Mais vale ouvir música do que disparates", podia ser uma boa razão para manter o canal auditivo coberto com os auscultadores. Ainda assim, gosto de observar as pessoas à minha volta, na boleia, no autocarro ou nas ruas...

À minha frente no autocarro – sentei-me naquela fileira especial em que as pessoas se sentam de frente para as outras – estava um senhor na casa dos 50 avançados. Vi que falava bastante. Não o ouvia, por manter a música do mp3 ligada. Durante os mais de 10 minutos da viagem até ao centro da cidade, o homem não se calou. Numa expressão de resmungo esbracejava e apontava para um lado e para o outro, reforçando a importância que dava à sua prédica.

Olhava-me e para os outros passageiros na vizinhança e continuava. Parecia tentar convencer a todos da sua razão. "Ainda bem que tenho a música a tocar...", pensei. Atrás dele, outro homem, também de auscultadores nos ouvidos, parecia achar piada ao que o velhote falava. A certa altura tirou um dos auscultadores do ouvido, deixando-o livre para escutar o orador. Este, deve ter percebido o interesse do seu vizinho de trás e repetidamente se virava para ele, a confirmar que o interesse no que ele falava se mantinha. O vizinho, rebolava os olhos de contentamento pela dissertação do velhote, disfarçava o riso e acenava "sim senhor" com a cabeça, dando gás ao falador para continuar.

De que se queixava? Dos Árabes e do Obama, do Beitar ou do Maccabi, da crise e dos preços no shuq, da mulher dele e dos vizinhos, das obras do metro em Jerusalém e dos atrasos nos autocarros. A mim, sem ouvir (e não lamento) o que o homem dizia, dava-me vontade de rir pela teatralidade da cena. Uma peça de mímica, ao vivo.

À chegada ao final da Rua Rei David, deixo o artista a falar sozinho. O bilhete de autocarro não inclui entretenimento a bordo e temo ter de, no final, pagar gorjeta ao artista. Sigo o resto do meu caminho a pé. Nas ruas pedonais do shopping Mamilla, no shuq árabe e na praça da Rova (o Bairro Judeu da Cidade Velha) também há animação.

No autocarro, no shuq ou na praça, sempre se encontra um velho cheio de histórias que insiste em partilhá-las para uma ocasional (real ou imaginária) audiência. Passo, olho, sorrio e continuo.

publicado por Boaz às 00:30
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Domingo, 31 de Maio de 2009

O autocarro para Moscovo

No meu regresso a casa, todas as tardes, apanho o autocarro no centro de Jerusalém. Depois de uns saudáveis 15 minutos de caminhada desde a Cidade Velha, apanho o 31 ou o 32 no chique bairro de Rehavia. As duas linhas levam a Gilo, um bairro recente no sul da capital, de onde eu pego boleia até casa.

A grande parte dos passageiros do 31 ou do 32 são russos. São fáceis de distinguir entre todos os passageiros. As redondas faces eslavas e a predominância do cabelo louro. As mulheres muito mais maquilhadas e de penteados mais elaborados do que a israelita comum. Os homens raramente vestindo o traje dos ortodoxos ou mesmo a kippá dos sionistas religiosos. Residem em Gilo, um dos bairros com maior população russa de Jerusalém.

Com a queda da União Soviética no início da década de 1990, milhares de ex-soviéticos imigraram para Israel. De acordo com a Lei do Retorno, a lei que regula a imigração para Israel, tem direito de ser cidadão de Israel quem seja judeu ou tenha pelo menos um avô judeu. As bases da Lei do Retorno são as Leis de Nuremberga, estabelecidas pelos Nazis, as quais consideravam como Judeu todo o que tivesse pelo menos um avô judeu. A lei que significava a morte no tempo da Alemanha Nazi, assegura um "porto de abrigo" agora em Israel.

Ao abrigo desta lei, mais de um milhão de pessoas chegaram a Israel. Desses, várias centenas de milhar não eram judeus de acordo com a lei judaica. Descobriu-se mais tarde que, na ânsia de deixar a miséria pós-colapso da União Soviética, muitos russos, sem qualquer relação com o Judaísmo, falsificaram documentos e aproveitaram para deixar o país. É a fama que muitos têm em Israel.

De início, o país recebeu os russos com simpatia. Sabendo da opressão que havia sido a vida judaica durante a União Soviética, a chegada dos russos foi bem vista. Porém, os problemas de integração começaram quando se constatou que muitos nem sequer eram verdadeiramente judeus. Além disso, mesmo os que eram realmente judeus tinham um estilo de vida extremamente secular e hábitos pouco comuns em Israel, como falarem russo e não hebreu, e comerem carne de porco. Mantinham em Israel a forma de vida dos seus tempos na URSS.

A outra desconfiança foi ao nível da absorção de tantos milhares de imigrantes num país tão pequeno. Dotados de um nível educacional acima da média israelita da década de 1990, chegaram milhares de médicos, cientistas, engenheiros, atletas e músicos. Uma piada dizia que "todo o russo tem um violino".

Se por um lado, as instituições locais foram fortalecidas pela qualidade da mão-de-obra russa, por outro surgiu a hostilidade dos habitantes locais que foram deixados para trás face à prioridade dada ao "russo". Para absorver a onda russa, surgiram dezenas de novas orquestras em todas as cidades de Israel. Ainda assim, muitos detentores de diplomas e de carreiras técnicas acabaram a trabalhar nas limpezas e na construção civil (o mesmo aconteceu com os russos e ucranianos em Portugal).

Apenas uma minoria dos russos em Israel é religiosa. Num país em crescente secularização, os russos são os cidadãos mais seculares, resultado de sete décadas sem contacto com a prática judaica (a maioria dos homens, mesmo os judeus de verdade, nem sequer era circuncidada quando chegaram a Israel). Ainda assim, a maior parte das pessoas que se convertem ao Judaísmo em Israel são de origem russa. Os que são religiosos, porém são membros bastante activos nas suas comunidades e contribuem para a formação religiosa dos outros russos, integrados em programas de keruv, projectos de aproximação dos jovens às suas raízes judaicas. Várias yeshivot abriram programas em língua russa, a pensar nos jovens filhos dos imigrantes que, chegados à adolescência, descobrem um interesse no Judaísmo.

Os russos são uma peça recente no variado mosaico social de Israel. Apesar dos problemas de integração, aos poucos encontraram o seu lugar. Para lá das suas lojas, canais de televisão e jornais em russo, e dos partidos políticos que defendem os seus direitos, adoptam aos poucos os costumes do país. E, tal como os marroquinos, os polacos ou os iemenitas, deixam também a sua marca na complexa identidade nacional.

publicado por Boaz às 16:00
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Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Uma bandeira num palito

Em Israel, ao contrário do que acontece em Portugal, a bandeira nacional é um objecto do quotidiano. Está em todo o lado. Um turista que chegue ao país depara-se, logo à saída do aeroporto de Tel Aviv, com dezenas de bandeiras que decoram a auto-estrada que conduz ao terminal. Em cada poste de iluminação pública, duas bandeiras. Os próprios postes já são construídos com um dispositivo colocado a meia altura que permite fixar as faixas. Na auto-estrada para Jerusalém – ou para qualquer outro lugar – contam-se milhares de ondulantes kahol ve’lavan, ou "azul e branco".

Nas semanas anteriores ao Dia da independência – comemorado este ano na última semana de Abril – vendedores de ocasião aproveitavam para ganhar uns trocos nos principais cruzamentos do país, vendendo pequenas bandeiras para colocar nos vidros dos automóveis. Sucesso (e dinheiro) garantido. Varandas, árvores, cercas e janelas das casas cobriram-se das cores nacionais.


Rua da colónia de Eli.

Ainda na pré-escola, as crianças aprendem uma alegre canção que as ajuda a identificar-se com a bandeira nacional: Ha'deguel sheli hu kahol ve'lavan!... (A minha bandeira é azul e branca!...). Os símbolos nacionais não são rodeados de um tabu como em Portugal e outros países. Aqui, a bandeira e o escudo com as insígnias do Estado de Israel são usadas numa enorme parafernália de objectos turísticos: postais, borrachas e lápis (com a consequente "extinção" da bandeira por via do uso), T-shirts ou até chinelos de praia. Abrenúncio, sujar a bandeira das quinas com o pó da rua!

A paixão e ostentação da bandeira é um fenómeno que em Israel dura o ano inteiro. Não é uma febre passageira dependente do feriado da Independência – ainda que tenha o seu pico nesta época. Em Portugal, apenas me lembro de uma febre destas por alturas do Euro’2004 quando o treinador Scolari apelou aos portugueses para cobrirem o país de vermelho e verde. O apelo de Scolari – foi preciso um brasileiro para apelar à paixão lusitana – foi um sucesso. Em especial para os supermercados. Algumas bandeiras mantiveram-se nas casas, mas com o distanciar da festa e as agruras dos elementos, poucas sobreviveram ao primeiro Inverno.

Eu, que nunca fui muito dado a clubismos e nacionalismos e que, em 2004 apenas pela emoção das vitórias da equipa portuguesa segui o rebanho dos decoradores de janelas com a bandeira das quinas, não decorei este ano a janela de casa com a "azul e branco". Porém, alguns dias antes do Dia da Independência, a caminho da yeshiva encontrei uma pequena bandeira num palito, caída no chão. Coloquei-a no fecho da minha mochila.

Só durou uma tarde, até um menino atrevido a ter topado no autocarro. "Posso?", perguntou ele, cobiçando a minha bandeira-miniatura. "OK…" deixando-o tirá-la e brincar com ela. A mãe não ficou muito entusiasmada e alguns minutos depois, farto de girar e balançar a bandeirinha no seu micro-mastro, o miúdo devolveu-a ao seu lugar no fecho da mochila. Desajeitado, partiu o palito que a sustentava. Guardei os despojos da mini kahol ve’lavan e em casa deitei-os no lixo.

Naquele final de tarde, enquanto viajava de autocarro para Gilo, a fim de chegar ao cruzamento onde costumo pedir boleia para Alon Shevut, observei os bairros árabes de Beit Safafa e Sharafat, que ladeiam a grande subida de Gilo. Nem uma bandeira de Israel.

Ali, as cores e as bandeiras serão outras, mas também não serão as verdes do Hamas. As fidelidades dos habitantes locais estão – secretamente – divididas. As sondagens efectuadas nas comunidades árabes de Israel demonstram que apesar de a maioria se sentir descriminada de alguma maneira pelo Estado, ainda assim a grande maioria prefere viver em Israel do que em qualquer outro país. Se existe algum apreço pela nação onde vivem, nenhum o declara. Nos bairros árabes, as paredes têm ainda mais ouvidos.

Nos últimos dias, uma nova bandeira tomou conta dos postes de iluminação pública em Jerusalém: a "branco e dourado", do Vaticano. A próxima visita do Papa à Terra Santa é a razão para a nova decoração das ruas. (Ah, os condutores já começam a perguntar quando chega o apifior – papa, em hebraico. Prevêem-se engarrafamentos monumentais numa cidade complicada até nos dias normais.) E quando o visitante for embora, as bandeiras vaticanas serão rapidamente substituídas por mais uma dose de "azul e branco". Até à visita do próximo VIP.

publicado por Boaz às 00:35
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Domingo, 28 de Dezembro de 2008

Meio mercado (ou será que os árabes fizeram greve?)

Hoje foi o dia de ir ao mercado de rua de Jerusalém, o Mahane Yehuda. Habitualmente, é um local quase caótico, apinhado de gente atarefada no meio das compras e de vendedores que gritam os seus pregões de descontos imbatíveis, num tom quase histérico. Porém, hoje o shuq (mercado em hebraico) estava calmo. Metade das lojas - as lojas dos vendedores árabes - estavam fechadas.

Devido à ofensiva militar em Gaza e com receios de distúrbios entre os árabes da Cisjordânia (tão perto de Jerusalém), as medidas de segurança foram aumentadas. Muitos dos vendedores do mercado Mahane Yehuda trazem diariamente os seus produtos de Belém, Hebron e outras cidades árabes.

Hoje, ou foram impedidos de passar pelos controles de segurança, ou então decidiram fazer um boicote aos compradores judeus.

PS - Os preços das verduras estavam ligeiramente mais altos hoje no mercado...

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Quarta-feira, 12 de Novembro de 2008

Rei 'morto', rei posto

Ontem realizaram-se as eleições locais em Israel. Em Jerusalém, a luta foi renhida. Há já alguns meses que a cidade se vinha cobrindo de cartazes de propaganda dos vários candidatos. No próprio dia da votação, passei por vários bairros religiosos. O aspecto das ruas era deplorável: milhares de panfletos de propaganda cobriam os passeios e as bordas das ruas. Numa cidade já habitualmente pouco limpa, tanto lixo espalhado era um espectáculo triste de ver.

Apesar de haver vários candidatos, a verdadeira luta era entre dois: Meir Porush e Nir Barkat. Porush é um haredi (ou judeu ultra-ortodoxo) de longas barbas brancas, apoiado por várias linhas (mas não todas) do Judaísmo Ortodoxo. Barkat é um judeu secular, apoiado pelo partido do poder (apesar de ele manter essa ligação meio encoberta) e pelos tradicionalistas que não se identificam com o Judaísmo Ortodoxo. Além destes, o milionário russo Arkadi Gaidamak, que mal fala hebraico e que comprou o clube de futebol Beitar de Jerusalém; e Dan Birron, um argentino cabeludo, membro de um pequeno partido de extrema-esquerda cujas principais causas são a legalização da marijuana e a retórica anti-religiosa.

Ganhou Nir Barkat, mas não conseguiu conquistar nem sequer metade dos lugares no conselho municipal. Vai ter de fazer acordos com vários partidos: dos religiosos sionistas aos ultra-ortodoxos, aos seculares nacionalistas e os da direita moderada. Os árabes, que são cerca de 200 mil entre os 700 mil habitantes da cidade, de uma maneira geral boicotam as eleições. Deve ter ocorrido o mesmo desta vez.

Veremos o que nos reservam os próximos meses. Veremos se o novo presidente e os seus vereadores conseguem ultrapassar os sérios problemas da capital. Habitações a preços acessíveis e falta de empregos (duas das causas principais para a saída de cerca de 100 mil habitantes nos últimos anos), trânsito caótico e poluição são apenas alguns dos desafios que o novo cacique tem de cuidar.

publicado por Boaz às 19:38
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Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Jerusalém de ouro

Numa das minhas últimas viagens matinais de boleia até Jerusalém, o generoso motorista de ocasião deixou-me no bairro de Katamon, no centro da Cidade Santa. Na minha caminhada até à Cidade Velha, tive a oportunidade de apreciar uma sucessão de diferentes ambientes na cidade.

Katamon é um dos bairros mais caros do centro da capital israelita. Ao lado, em Talbiye, imperam as vivendas luxuosas de estilo neo-renascentista dos anos de 1930, habitadas originalmente por ricas famílias de Cristãos Árabes. Hoje, muitas albergam sedes de instituições culturais e consulados, como o da Bélgica, que ocupa a notável Villa Salameh. A residência oficial do Presidente da República é outra das marcas de luxo do bairro.

Sem conhecer direito o bairro consegui, logo à primeira, acertar com a direcção do caminho para a Cidade Velha. Para grande alívio do meu sentido de orientação, consegui a certa altura reconhecer no horizonte a torre do sino da Basílica da Dormição, no Monte Sião, ao lado da Cidade Velha. Descendo a Rua Jabotinski, cheguei ao cruzamento junto ao Parque do Sino da Liberdade, um pequeno jardim que contém uma réplica do famoso Liberty Bell de Filadélfia.

Do outro lado da avenida, o bairro de Yemin Moshe. Foi um dos primeiros bairros fora das muralhas da Cidade Velha. Foi fundado no final do século XIX, patrocinado pelo banqueiro judeu inglês Moses (Moshe) Montefiore, com o objectivo de aliviar o sobrepovoamento e as difíceis condições sanitárias existentes dentro das muralhas. Os primeiros habitantes chegaram a ser pagos para aí morar, mas o perigo de viver fora das muralhas – alvo de frequentes ataques de ladrões – nunca atraiu muitos residentes. Uma epidemia de cólera que grassou na Cidade Velha em 1866 levou várias famílias a optarem residir definitivamente no bairro. Porém, recusavam-se a passar aí a noite. Hoje, é uma famosa colónia de artistas, com as suas casas, alamedas floridas e escadarias arborizadas, o seu famoso moinho de vento (que nunca funcionou) e a grandiosa vista para a Cidade Velha e o Monte Sião.

A pouca distância de Yemin Moshe, seguindo a King David Street, o histórico hotel King David. Durante décadas, ainda durante o domínio britânico na região, foi o mais luxuoso e aristocrático hotel de Jerusalém. Em frente, o também histórico e de arquitectura inconfundível edifício do YMCA. Caminhando em direcção à Cidade Velha sucedem-se as galerias comerciais e os condomínios de luxo. Todos com o nome do Rei David: King David Crown, King David Court e King David Residence. Com a promessa do requinte com vista para a Cidade Velha, a marca do Rei salmista vende bem.

No final da rua, o enorme hotel David Citadel. Construído originalmente pela cadeia Hilton antes do ano 2000, de olhos na esperada enchente de turistas na passagem do milénio, o hotel nunca deu os resultados esperados. O Sr. Hilton decidiu vender o gigantesco hotel a um magnata russo, a preço de saldo. Hoje, marca o novo topo do luxo de Jerusalém.

Mas não será por muito tempo. Mesmo em frente, no antigo edifício da Alfândega Turca, abandonado há vários anos, já está em construção o futuro hotel Palace da cadeia Waldorf-Astoria. Será um dos poucos hotéis no mundo a exibir o luxuoso nome do famoso hotel da Quinta Avenida de Nova Iorque. No quarteirão ao lado, há anos que se fala da construção do Museu da Tolerância e Centro da Dignidade Humana, da responsabilidade do Centro Simon Weisenthal de Los Angeles. O controverso projecto (no arrojado estilo do Museu Guggenheim de Bilbau) parece entretanto ter ido por água abaixo. A razão: os protestos pela escolha do lugar para a sua construção: um antigo e degradado cemitério islâmico.

Actualmente, o lugar da moda em Jerusalém é o novo Shopping Mamilla. Estendendo-se numa antiga rua do bairro de Mamilla, foi inicialmente apenas uma estação de autocarros e um parque de estacionamento subterrâneos. O resto do projecto esteve 16 anos parado. Até que há poucos anos, os planos foram retomados para reabilitar a área. O mesmo bilionário russo dono do antigo Hilton investiu centenas de milhões de dólares no complexo, que inclui o centro comercial, um novo hotel de cinco estrelas e um condomínio de luxo. Em Maio de 2007, as primeiras lojas do centro comercial foram abertas. Marcas internacionais como Versace, Tommy Hilfiger, Mango ou The Body Shop, rivalizam com as cadeias locais. Às lojas de roupa de luxo sucedem-se as joalharias e a vários cafés de estilo, com agradáveis esplanadas.

Na praça a meio da avenida comercial é costume haver pequenos concertos e entretenimento ao ar livre. Nas paredes, entre as montras das lojas, encontram-se com frequência quadros pendurados. Uma galeria de arte improvisada. Clientela endinheirada não falta. No final da rua, o supra-sumo do luxo, a loja de jóias da cadeia brasileira H. Stern. Em frente, subindo um pequeno lanço de escadas, a Porta de Jaffa.

A pouca distância da recém montada pompa internacional, o centenário shuq (o mercado árabe), onde se vende toda a espécie de traquitana, numa mistura sui-generis. Numa mesma loja é possível encontrar kippot judaicas empilhadas junto a imagens de santos e crucifixos, ao lado de keffies (os típicos lenços estilo Arafat), e terços de oração muçulmanos. Almofadas em motivos garridos, T-shirts com slogans para turista. Trajes de lantejoulas para a dança do ventre e narguilas, os cachimbos de água do Médio Oriente. Mercearias dispõem, bem ordenados, montinhos de cheirosas e coloridas especiarias e servem sumos de romã, laranja ou cenoura feitos na hora.

Hotéis baratos para o turista 'mochileiro' onde, por cerca de 10 dólares por noite, é possível dormir num colchão no telhado, debaixo do céu estrelado de Jerusalém. Dispostas ao longo da rua, bandejas de objectos alegadamente arqueológicos. E toda a espécie de mercadoria de aparência tipicamente local, mas com a inevitável etiqueta "Made in China". Aqui, ao contrário do shopping moderno e elitista, tudo pode, e deve, ser regateado. E os experientes vendedores não hesitam em fazer uso dos seus dotes para línguas estrangeiras. E tão-pouco de servirem um típico café turco, para convencerem o turista a comprar.

Cruzo o shuq ao som do meu leitor de mp3, passando por entre grupos de turistas (não é raro encontrar grupos de portugueses). Em escassos minutos chego à praça da Rova, o Bairro Judeu. A poucos passos dali, a yeshivá. Para lá da efemeridade do luxo dourado e do aroma das especiarias, a eternidade das palavras dos Sábios. Tenho um dia de estudo de Torá pela frente. Ao final da tarde, farei o caminho do shuq e do shopping no sentido contrário, de regresso a casa.

publicado por Boaz às 20:06
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Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

Jogo da paciência

Depois de cinco meses a morar em Alon Shevut, estamos a pensar em mudar-nos para Jerusalém. Até há um mês e meio, tinha garantido diariamente, uma boleia directa para a Cidade Velha, através de um rabino brasileiro, meu vizinho, que ensina na Yeshivat Hakotel. Com o começo do novo ano de estudos, ele conseguiu uma vaga no edifício do kollel, mesmo ao lado da yeshiva. E eu perdi a minha óptima boleia.

O facto de não termos carro e, tanto eu como a minha esposa termos as nossas ocupações diárias na capital (eu na yeshiva, ela num centro de crianças deficientes), torna-nos dependentes da incerteza do tremping, a boleia. Isto porque, apesar da curta distância que nos separa da Cidade Santa – cerca de 20 quilómetros – a ligação por transporte público não é nada cómoda. O autocarro entra nos vários colonatos até chegar a Jerusalém. A viagem de 20 quilómetros requer quase uma hora. Assim, os autocarros não são opção para a viagem matinal.


Autocarro na Avenida King George, Jerusalém.

É comum a prática dos moradores dos yishuvim (colonatos) oferecerem boleia, tanto para Jerusalém, como entre os vários povoados da região do Gush Etzion. Porém, Alon Shevut não é particularmente famoso pela disponibilidade dos seus moradores em oferecerem um lugar vago no carro. Assim, todas as manhãs, sujeitamo-nos a esperar bastante tempo por uma oferta.

Na maioria dos casos, os poucos motoristas que param nas duas paragens de autocarro – que servem de ponto de aglomeração dos trampistas (os que esperam a boleia) – não vão para a Cidade Velha, ou as proximidades. Shopping Malcha, os vários hospitais da cidade e a zona industrial de Har Hotzvim são a maioria das ofertas. Com as obras do metro de superfície a esburacarem metade de Jerusalém, na chegada à cidade, ainda é preciso tomar um autocarro para a Cidade Velha. As obras atrasam o, já de si penoso, trânsito da capital.

Na melhor das hipóteses, a zona comercial de Talpiot, no Sul da cidade, à a opção. Apeando-me da boleia algures na Estrada de Hebron, a principal via de ligação entre o sul e o centro da cidade, aí apanho um autocarro até ao centro da cidade (não há nenhum para a Cidade Velha). Daí, ainda me resta uma caminhada de 15 minutos até à yeshivá. Um bom exercício matinal, para ajudar a desanuviar o stress para conseguir – todos os dias – chegar ao meu destino.

publicado por Boaz às 22:10
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Domingo, 10 de Agosto de 2008

1940 anos...

...desde a destruição do Templo de Jerusalém, o Beit Hamikdash. Hoje, passam 1940 anos desde que os Romanos, liderados por Tito, destruíram o Templo de Jerusalém. Na mesma data, 550 anos antes, o exército babilónico de Nabucodonossor, havia destruído o Templo original, mandado construir pelo Rei Salomão. Hoje, dia 9 do mês de Av do calendário judaico, é dia de luto e jejum para o Povo de Israel.


Templo de Herodes no modelo de Jerusalém da Época do Segundo Templo, Museu de Israel

Além da destruição dos dois Templos, outras calamidades se abateram sobre os Judeus ao longo da História, desde então. A fortaleza de Beitar, o último reduto judaico durante a revolta de Bar Kochba contra o domínio de Roma, foi capturada pelos romanos no dia 9 de Av do ano de 135. A sua conquista ditou o exílio dos Judeus da Terra de Israel. No ano seguinte, na mesma data, a cidade destruída de Jerusalém foi arada.

Na era pós-Talmúdica, outras tragédias judaicas ocorreram. A mais catastrófica terá sido a Expulsão de Espanha em 1492 E.C., que marcou a destruição da mais brilhante das comunidades judaicas na Diáspora, pondo fim à Idade de Ouro dos Judeus de Espanha. O decreto dos Reis Católicos, Fernando de Aragão e Isabel de Castela, ordenava que, até ao final de Julho desse ano, nenhum judeu seria autorizado a permanecer em solo espanhol: "Qualquer um que viole a nossa ordem, que não saia durante este período e seja depois encontrado onde quer que seja dentro do nosso domínio, será sujeito à morte na forca ou à conversão ao Cristianismo." Uma extensão foi garantida até ao dia 2 de Agosto, a data coincidente com o dia 9 de Av. "Eles foram sem força - 300.000 viajando a pé, incluindo eu. Crianças, os velhos, e as mulheres, apenas num dia, de todas as províncias do rei - para onde os ventos os levaram, eles foram." (Comentário ao Livro dos Reis, Dom Isaac Abarbanel).

A Primeira Guerra Mundial começou na véspera de 9 de Av de 1914, durante a qual morreram milhares de judeus. Além disso, a derrota alemã na guerra serviu de base ao início do Holocausto. Durante a Segunda Guerra Mundial, na véspera do dia 9 de Av de 1942 começou a deportação em massa dos judeus do Gueto de Varsóvia, a caminho do campo de extermínio de Treblinka.

Acompanhada pela lembrança de todas as tragédias ocorridas nesta data, existe também a esperança da reconstrução do Templo e na Redenção de Israel. Afinal, de acordo com a tradição, o Mashiach nascerá no dia 9 de Av. Os sinais do renascimento judaico e da proximidade da Redenção são permanentemente lembrados nos círculos religiosos, um deles é "quando a terra de Israel voltar a dar os seus frutos". Assim como o evidente regresso do Povo de Israel à sua terra e a reconstrução das suas cidades.

Como relatam as Escrituras: "Aproximam-se os dias – diz o Eterno – em que o que semeia encontrará o que ceifa, e o que pisa as uvas com o que lança a semente. E as montanhas destilarão vinho doce, e as colinas se derreterão (em leite). E farei o Meu povo voltar do cativeiro, e reconstruirão as cidades assoladas e as habitarão; plantarão vinhas e beberão o seu vinho; cultivarão pomares e saborearão os seus frutos. Eu os plantarei no seu próprio solo, e não serão mais arrancados da terra que lhes dei – diz o Eterno, seu Deus." (Amós 9:13-15)

publicado por Boaz às 16:22
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Quinta-feira, 24 de Julho de 2008

A cópia

Três semanas depois do inédito ataque terrorista com uma retro-escavadora em Jerusalém, o episódio repetiu-se. Um árabe conduziu uma máquina do mesmo género contra automóveis e autocarros. Houve pelo menos quinze feridos, um deles em estado grave. Tal como há três semanas, o autor do ataque era operário numa obra de construção e residente em Jerusalém Oriental. Ambos os terroristas foram mortos por polícias ou soldados armados, no local dos ataques.

Desde o primeiro ataque, foram aumentadas as medidas de segurança nas numerosas obras públicas em curso na Cidade Santa, em especial nos vários pontos da construção das linhas do metro de superfície, que se estendem por toda a cidade. Os bulldozers são agora chamados na gíria “killdozers” ou “escavadoras assassinas”. Por isso, em Jerusalém, em várias obras, as máquinas pesadas deixaram de ser conduzidas por árabes – como era normal até agora – e passaram a ser operadas por trabalhadores judeus.

A maioria dos operários da construção civil em Israel – desde as obras públicas à construção particular, incluindo nos colonatos –, são árabes. Será, muito possivelmente, o principal sector de emprego da população árabe e palestiniana, além da restauração e da hotelaria. Não haverá hotel ou restaurante em Jerusalém sem trabalhadores árabes. No Shabbat, serão mesmo a totalidade dos empregados, desde o recepcionista até ao camareiro. Além disso, a maioria dos árabes de Jerusalém Oriental trabalha na parte ocidental da cidade, onde se situam a maioria dos negócios, restaurantes e hotéis.

Após o ataque de há três semanas, a polícia começou a investigar os registos criminais dos árabes empregados nas obras de construção. Ambos os operários-terroristas tinham registo criminal: um de violação e o outro de consumo de drogas e roubo. Porém, em ambos os casos, esses registos não impediriam, hoje mesmo, que eles fossem aceites para trabalhar numa obra.

Seguramente, muitos trabalhadores árabes da construção civil temem perder os seus empregos. A desconfiança não joga a seu favor. A cada ataque, sobe a suspeita em relação aos árabes em geral. Será injusto generalizar, mas muitos empregadores podem não querer atrever-se a não generalizar. E quem fica a perder, antes de mais, é a população árabe, que depende, na sua imensa maioria, de empregadores judeus para ter o seu ganha-pão.

Nada poderá resultar de positivo – nem para os próprios árabes – após cada um dos ataques, sejam suicidas que se fazem explodir em autocarros ou supermercados, sejam condutores de retro-escavadoras tresloucados. Várias empresas de transporte, hoje empregam exclusivamente judeus. Com empresas da construção civil passa-se o mesmo. Nos jornais, anúncios de venda de casas começam a apregoar que a obra é “mão-de-obra judia”. Apesar de ser mais barato comprar uma casa construída com mão-de-obra árabe, muitas pessoas estão hoje dispostas a pagar mais. Mais do que desejarem que a sua casa seja construída por judeus, desejam que ela não seja construída por árabes.

Também a maioria dos taxistas em Jerusalém são árabes, mas muita gente começa a recusar viajar num táxi conduzido por um motorista árabe. É triste, mas as demonstrações de ódio que provêm do lado árabe são tais, que muita gente simplesmente se recusa, mesmo a um nível mais básico ao nível profissional ou quotidiano, a cooperar com esse outro lado. Não há boas-maneiras que valham quando se tem medo.

Os árabes são a mão-de-obra barata em Israel – como os cabo-verdianos ou os brasileiros em Portugal. No entanto, Israel tem já mais de 200 mil trabalhadores imigrantes não-judeus, metade deste número supõe-se serem imigrantes ilegais. Chineses, tailandeses, filipinos, indianos, cingaleses (do Sri Lanka) ou nepaleses já começam a substituir os árabes nos trabalhos mais pesados.

Se os trabalhadores árabes perderem os seus empregos por desconfiança generalizada dos patrões, o destino de muitas famílias árabes será sujeitarem-se à fome. Ou ao crime. Ou à emigração.

publicado por Boaz às 21:59
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Quarta-feira, 2 de Julho de 2008

O elefante e a loja de porcelanas

Hoje houve um ataque terrorista bizarro em Jerusalém. Um homem árabe roubou uma enorme retro-escavadora e decidiu atropelar vários automóveis e autocarros na principal avenida da capital. Morreram quatro pessoas e mais de 30 ficaram feridas, até o terrorista ter sido abatido após alguns minutos, por um soldado. Suspeita-se que o terrorista tivesse a intenção de prosseguir até ao principal mercado de rua de Jerusalém, situado a poucas centenas de metros.

Roubar uma retro-escavadora, de uma obra que estava a decorrer no meio da cidade, e sair desvairado esmagando os carros que passam, abalroando dois autocarros cheios de passageiros, é uma cena digna do Exterminador. Este ataque ultrapassará, não pelo número de mortos, mas pelo modo como foi feito, os limites da demência e do bizarro.

Após cada atentado escutam-se as vozes (poderíamos dizer) mais radicais. Questionam-se o que se deve fazer com os terroristas, as suas famílias, os Palestinianos, e os Árabes de Israel em especial. Os críticos de Israel atacam a construção do muro na Cisjordânia. Chama-lhe muro da vergonha. A verdade é que tão "vergonhosa e monstruosa obra" tem impedido a passagem de centenas de potenciais terroristas.

Actualmente, a questão e a principal fonte de suspeita e medo, não é como evitar que os terroristas árabes da Cisjordânia entrem em Israel. O muro resolve quase totalmente este problema. Agora a questão é: como evitar que os terroristas árabes israelitas, detentores de cidadania, cometam atentados nas nossas cidades?

De fora, os analistas falam de descriminação, estatuto de segunda classe, apartheid em relação aos Árabes, fazendo a comparação com o funesto regime racista que existia na África do Sul. As diferenças, se mais não bastassem, é que os Negros eram excluídos pelos Brancos e o que pretendiam era apenas instaurar um Estado igualitário. No caso dos Árabes em Israel, a maioria auto-exclui-se, sistematicamente boicotando as eleições (sim, os Árabes têm direito de voto, ao contrário dos Negros durante o apartheid da África do Sul) e muitos pretendem mesmo destruir o Estado.

Há 4 meses, após o ataque à yeshiva Mercaz Harav, no qual foram assassinados oito estudantes, surgiram vozes a defender a demolição da casa do terrorista e a retirada da cidadania israelita à sua família. Pais dos alunos assassinados foram até à Knesset, o Parlamento Israelita, defendendo esta medida punitiva. A família, enlutada mas cheia de orgulho, montou uma provocadora tenda de condolências, em memória do seu filho, o terrorista. Penduraram cartazes com o seu retrato sobreposto à imagem da Cúpula do Rochedo. Mais um ícone para a causa. Residentes em bairros de população árabe de Jerusalém Oriental, ambos os terroristas tinham acesso, como qualquer cidadão, a qualquer ponto da capital e do país.

A liderança política dos árabes em Israel segue uma retórica contra o próprio Estado onde vivem. É tal o atrevimento dos políticos árabes locais na sua oposição a Israel que, Azmi Bishara, um dos principais deputados árabes da Knesset, viajou até Beirute durante a Segunda Guerra do Líbano (2006) para se encontrar com Nazrallah, o líder do Hezbollah. Enquanto isso, o Norte de Israel era bombardeado pelos mísseis do Hezbollah. Ironia: a maioria das baixas civis israelitas foram habitantes árabes da Galileia, a população que elegeu Bishara.

Muito poucos dos Árabes de Israel e dos Árabes de Jerusalém Oriental desejam realmente ser cidadãos de um eventual estado palestiniano. Porém, nenhum deles declara os seus desejos publicamente. Nenhum deles quererá perder os privilégios de ser cidadão israelita, ou deixar de usufruir da muito superior qualidade de vida em Israel em relação à Autoridade Palestiniana.

A delicada situação actual de fidelidade ao inimigo e confrontação com o Estado, acompanhada do usufruto do próprio Estado tem de ser definida e resolvida. Os Árabes residentes em Israel terão de decidir em que lado estão. Nenhum país pode aceitar dentro das suas fronteiras, oculto entre os seus cidadãos, um Estado dentro de um Estado. Ainda menos um Estado inimigo que o corrói por dentro. Os israelitas exigem respostas, soluções. Nenhuma delas se afigura branda.

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Quarta-feira, 18 de Junho de 2008

Welcome to America

Hoje fui, pela segunda vez ao bairro de Har Nof, em Jerusalém. Da primeira vez, há quase dois anos, tinha ido lá, sorrateiramente, durante a noite, colar cartazes de uma campanha política, na qual estava envolvido um amigo. Dadas as altas horas da noite, não encontrámos ninguém na rua. Desta segunda vez, foi diferente.

O bairro é um dos extremos da cidade de Jerusalém, construído ao longo de uma das encostas ocidentais da capital. Edifícios de aspecto maciço, com inúmeras varandas e, invariavelmente, cobertos de pedra calcária, como manda a lei em Jerusalém. Incontáveis sinagogas, batei midrash (salas de estudo religioso), yeshivot e midrashot (a versão feminina da yeshiva).

Praticamente toda a população do bairro é haredi, ou seja, ultra-ortodoxa. Abundam as crianças de colo e de carrinho, dada a elevada taxa de natalidade. Os homens vestem de preto e branco – daí a alcunha de pinguins. As mulheres são discretas e as meninas vestem-se sempre com o uniforme do colégio: saia preta e blusa azul; manga abaixo do cotovelo, sff.

Porém, apesar do meu conhecimento limitado do bairro, tudo isto eram realidades que eu já conhecia. O que me espantou verdadeiramente foi verificar que nas ruas se fala principalmente, inglês. Nas ruas, nos autocarros, nas lojas, se alguém nos dirige a palavra, fá-lo primeiramente em inglês. A maioria da população do bairro é de origem americana, daí o hebraico ser a segunda língua.

Onde moro, em Alon Shevut, uma boa parte da população também é americana. No entanto, o normal é que as pessoas se comuniquem em hebraico. Nem que seja num hebraico perfeito com o sotaque do Midwest.

publicado por Boaz às 21:36
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Segunda-feira, 2 de Junho de 2008

Se eu te esquecer, Jerusalém

Hoje é o Dia de Jerusalém. Há 41 anos, durante a Guerra dos Seis Dias (1967), o exército de Israel reunificou a cidade, dividida desde 1948. Com a derrota israelita na frente de Jerusalém na Guerra da Independência, em 1949, todo o Bairro Judeu da Cidade Velha, habitado permanentemente por judeus durante séculos, foi sistematicamente arrasado pelas tropas jordanas. Sinagogas seculares, casas, escolas, hospitais, monumentos históricos, foram deixados em escombros. Todos os habitantes judeus foram expulsos. Os escombros das sinagogas foram transformados em currais de animais domésticos. O cemitério judaico do Monte das Oliveiras foi profanado pelos jordanos, com centenas de lajes tumulares usadas para pavimentar estradas.

Os lugares santos judaicos, como o Muro Ocidental – única parte remanescente do antigo Templo de Jerusalém – foram interditos aos fiéis judeus. Tal como haviam feito os Romanos e seus herdeiros bizantinos após a destruição da cidade no ano 70 da Era Comum, os jordanos proibiram os judeus de rezar nos seus locais sagrados. Por 19 anos, a única opção foi vislumbrar o Monte do Templo ao longe, a partir da Cidade Nova.

Durante quase duas décadas a cidade esteve dividida. Junto à muralha ocidental da Cidade Velha, estendia-se uma extensão de terra altamente vigiada. Uma "terra de ninguém" entre duas linhas de arame farpado. Até Junho de 1967.

Em apenas seis dias, numa impressionante campanha militar desenrolada em três frentes – no norte contra a Síria, no sul contra o Egipto e no Leste contra a Jordânia – Israel multiplicou por três o seu território. Após dois dias de combates na Cidade Velha, Jerusalém foi reunificada. Pela primeira vez, em quase 20 anos, os judeus puderam voltar a rezar no Kotel, o Muro Ocidental.

E, ao contrário do que haviam feito as autoridades jordanas durante o seu controle da cidade, a liberdade de acesso aos locais santos foi garantida a fiéis de todas as religiões. Apenas duas semanas depois do fim dos combates, foi permitido a todos os muçulmanos o acesso à mesquita de Al-Aqsa.

Hoje, Jerusalém é uma cidade diferente. Após a estagnação da divisão Israel-Jordânia, a capital floresceu. As obras de modernização estão por toda a parte. Uma das obras a ser inaugurada hoje é a magnífica ponte do futuro metro ligeiro, projectada por Santiago Calatrava. Por agora, só a circulação de peões será possível. Dentro de três anos (se não houver mais atrasos na obra) também o metro ligeiro deslizará pela delicada ponte branca, na entrada da cidade.

Depois de anos com numerosos ataques terroristas nos mais diversos pontos da capital, a atmosfera é descontraída. Multidões de turistas – com as novidades dos chineses e dos nigerianos – voltam a pisar as calçadas milenares de Jerusalém. A actividade cultural é vibrante. Novos bairros residenciais, hotéis e centros tecnológicos estão em construção.

No entanto, falam em dividir a cidade. Os mal-esclarecidos planos do governo, de entregar alguns bairros habitados maioritariamente por árabes, à Autoridade Palestiniana, fazem temer uma nova divisão na cidade. Sobre a Jerusalém unificada, até agora aberta a todos, paira a intenção de cortá-la ao meio. Um regresso aos terríveis dias antes de Junho de 1967. Não creio que haja algum dos seus habitantes que realmente deseje um regresso a esses tempos. Nem sequer os árabes que, apesar de boicotarem sistematicamente as eleições municipais, usufruem, como qualquer jerusalemita, dos transportes, hospitais e demais serviços públicos.

A cidade permanece solene. Maravilhosa, apesar de todas as convulsões e tragédias por que passou em mais de 3000 anos de história. Cada uma delas lhe deu um carácter novo. Talvez seja essa permanente mudança que lhe garante a essência de eternidade.

"Se eu te esquecer, Jerusalém, que a minha mão direita esqueça a sua destreza. Que a minha língua se pegue ao meu palato se eu não te recordo, se eu não elevo Jerusalém acima da minha maior alegria." (Salmo 137:5)

publicado por Boaz às 00:00
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Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

"Este é o dia que o Eterno fez"

Ainda a tinta das assinaturas na Declaração de Independência de Israel não tinha secado e, cinco nações árabes (Egipto, Transjordânia [actual Jordânia], Síria, Líbano e Iraque) alinhavam as suas tropas frente às fronteiras demarcadas pela ONU, prontas para invadir o recém-criado Estado Judaico. A estratégia árabe era simples e previa que a derrota judaica seria alcançada num prazo de uma ou duas semanas apenas.

Isto foi há 60 anos. Israel ficou abalado. Resistiu. Triunfou. Alguém religioso não nega o magnífico "dedo de Deus" presente em muitos dos momentos históricos destas seis décadas em Israel. Mesmo os cépticos certamente se perguntam como esta pequena nação, composta na sua maioria por refugiados, conseguiu erguer um país como o Israel do presente. Um puzzle social confuso, composto de peças dificilmente ajustáveis: judeus e árabes, religiosos e seculares, sefarditas e askenazitas, ex-soviéticos, americanos, etíopes, peruanos, filipinas e tailandeses.

O "milagre israelita" não é fantasia. É conhecida a metáfora do pequeno território composto, ainda há menos de um século, por pântanos e desertos, transformado num fértil jardim. As coisas não acontecem por acaso. Tudo - tudo mesmo - em Israel funciona à custa de muito suor e engenho humano. E fé. Da irrigação dos campos ao trânsito na auto-estrada.

Vim pela primeira a Israel em 1999. Queria passar dois meses das minhas férias de Verão no país, gastando o mínimo de dinheiro possível. Ser voluntário num kibbutz foi a opção ideal. Sem conhecer ninguém no país, sem falar nada da língua local. (Valeu-me o meu inglês.) À chegada, a surpresa: um país verdadeiramente moderno. É certo que já tinha visto imagens de Israel na TV, mas ao vivo é outra sensação. Os arranha-céus de Tel Aviv. Um mito destruído de imediato: a influência americana era quase inexistente. Cartazes publicitários em hebraico! Como era possível viver num país moderno sem usar uma língua ocidental? Peço desculpa pelo eurocentrismo idiota.

Nessa altura, o meu interesse em Israel já não era meramente turístico ou mesmo cultural. Eu estava a bater à porta do Povo de Israel. Nos meus planos, mesmo desconhecendo inteiramente o alcance desse ideal, estava uma conversão ao Judaísmo. Passaram-se anos até voltar a pisar a Terra Santa. Na segunda visita, de apenas 11 dias, o meu processo de conversão já dera muitas e difíceis voltas, mas finalmente começara a tomar forma.

Em apenas quatro meses estaria de volta. Para sempre. Nem eu sabia à partida. Conseguira uma vaga num curso oficial de conversão ao Judaísmo, nos arredores de Jerusalém. Sem trabalho fixo em Portugal, sem ter uma família para sustentar, pouco me prendeu em casa. Fiquei seis meses no curso de conversão e entretanto entrei numa yeshiva. Pela primeira vez, entrei a fundo no mundo religioso judaico.

Sem planos para ficar em Israel, a princípio planeei ficar apenas 6 meses. Ir, converter-me, voltar. As minhas identidades portuguesa e judaica pareciam perfeitamente equilibráveis. O retorno à minha vila da Batalha foi estranho. Eu era um estranho. Foi um regresso a casa, apenas de visita. Fui um turista na minha terra natal. Foi um alívio voltar a Jerusalém.

As mudanças são muito rápidas e radicais para quem vive por estes lados. Em 2005, chegara quando ainda se sentia em força o abalo da destruição dos colonatos de Gaza. Passei cá a Segunda Guerra do Líbano, com os telefonemas quase diários da minha mãe, aterrada com as violentas imagens da guerra transmitidas pela televisão. Implorou-me para voltar para casa. Tentei, como podia, descansá-la. "Que iria eu fazer a Portugal?", pensei. Não queria sair naquela hora difícil. Não queria ter problemas para voltar, caso saísse.

Frequentemente recebo mensagens de amigos em Portugal que me pedem para voltar. Alegam que esta não é a minha terra. Que não tenho nada a fazer por aqui. Que o meu lugar é em Portugal. Entendo o ponto de vista deles. Um emigrante é visto como um ente temporariamente distante. Não conhecem a essência da emigração para Israel. Afinal, transplantar as raízes para um novo lugar é sempre um choque, também para a terra deixada vaga. Israel foi recém reimplantado nesta terra. Recém, se lembrarmos a cadeia de mais de 3500 anos de história judaica. Todos os que, como eu, decidiram viver aqui, são parte deste novo e impressionante reflorescimento judaico na Terra de Israel.

Estou em Israel há menos de três anos. Como judeu, há quase dois. Como cidadão, ainda não completei sequer um ano. Casei por cá, há exactamente um mês. Não me consigo imaginar a viver, de forma permanente, noutro lugar. Ao fim de um ano de aliya, dentro de alguns meses, vou poder tirar o passaporte israelita. Um ano de israelita em 60 anos de Israel.

Nota: O título provém de um versículo entoado na recitação de Halel, o conjunto de cânticos de louvor a Deus entoados nos dias mais alegres do ano. O Dia da Independência de Israel é um desses dias.

A ideia para este artigo partiu de Nuno Guerreiro, um jornalista judeu português residente em Nova Iorque e autor do excelente blog Rua da Judiaria. A intenção dele era publicar textos de escritores, jornalistas e bloguistas de língua portuguesa residentes em Israel. (A minha foto que acompanha o artigo já tem uns aninhos, mas, verdade seja dita, eu também não mudei assim tanto).

publicado por Boaz às 16:44
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Domingo, 4 de Maio de 2008

Mar da Tranquilidade

Depois de uns dias "off", com tantas coisas em que pensar para lá do blog, regresso a esta humilde casa virtual.

Desde o início do mês de Abril, tive imensos assuntos a tratar para o casamento e a passagem para a minha nova casa – a real, não a virtual. A mudança para a nova casa foi a coisa que deu mais trabalho. Marcada primeiro para um dia, depois adiada porque a família que ocupava o nosso futuro apartamento ainda não tinha tirado todas as coisas e limpo o lugar. E a dor de cabeça começava. Como levar todos os nossos pertences, e arrumar tudo, ainda a tempo da data do casamento?

Tínhamos recebido a maior parte dos móveis da casa, de uma organização de beneficência: os móveis do quarto, um roupeiro imenso, a mesa da sala, o fogão e o frigorífico. Sem podermos ainda levá-los para o nosso futuro lar, tivemos a mão generosa de uns vizinhos amigos que nos dispensaram a sua cave como armazém provisório. As mobílias que faltavam, decidimos comprá-las em segunda-mão, através da Internet.

Tudo o que eu tinha acumulado na yeshiva levei, em várias viagens de autocarro, para o apartamento de solteira da minha futura esposa, no bairro de Kiryat Yovel, em Jerusalém. Pedimos caixas num supermercado vizinho. Passámos dias a encaixotar roupas, livros, louças, CDs.

Entretanto, quando faltava uma semana para o casamento, concordámos em seguir a tradição judaica de o futuro casal não se encontrar durante uma semana inteira. Concordámos também, dada a quantidade imensa de coisas que ainda tínhamos para tratar, de nos falarmos por telefone e trocarmos mensagens. Comunicação por telepatia não é a minha especialidade.

No dia da mudança, a viagem da carrinha de transporte iria ter várias paragens. Primeiro, no bairro de Baka, em Jerusalém, para recolher os sofás-cama para o futuro quarto das crianças (entretanto usado como quarto de possíveis visitas e sala do computador). Coordenado ao minuto com a hora em que o antigo dono dos sofás iria estar em casa, antes de partir para o trabalho. Depois, um trabalho extra da empresa de mudanças. A seguir, uma saída até Givat Zeev, a norte de Jerusalém, onde foram recolhidos os sofás da sala. Quase na hora limite de a dona dos sofás sair de casa… Regresso a Jerusalém para levar todas as caixas do apartamento de Kiryat Yovel. Destino: Alon Shevut, um pequeno colonato no bloco de Gush Etzion, 15km a sul de Jerusalém.

O pequeno apartamento do bairro antigo do colonato ficou atulhado de caixas e mobílias fora do lugar. Decidimos não manter um dos sofás na casa, dado que a sala ficaria demasiado apertada com dois sofás. Montar a cama de casal, entregue em peças, foi uma empreitada só à altura de especialistas em puzzles. Ao menos podia dormir na cama das visitas, montada na hora pela equipa das mudanças. O enorme e lindo roupeiro de seis portas para o quarto de casal, teve de regressar ao armazém de conveniência na casa dos vizinhos. Obsoleto no quarto de casal, onde já existe um roupeiro de parede, estava destinado ao futuro quarto das crianças, mas… Era demasiado alto para o baixo tecto daquela divisão. O dono da empresa de mudanças foi simpático em emprestou-nos um outro roupeiro, mais pequeno.

Consegui arrumar muitas das coisas trazidas pela carrinha das mudanças. O resto foi empilhado num canto do quarto. Para ir sendo arrumado. Devagar, ao ritmo das necessidades.

Aos poucos, a nossa casa foi-se compondo. A generosidade dos vizinhos e famílias conhecidas do colonato é infindável. De tempos a tempos ligam-nos a dizer que têm algo para nós. Algo que já não usam, ou que receberam e não precisam e que nos querem oferecer.

A máquina de lavar roupa, também oferecida, foi entregue alguns dias depois da boda. Mas esteve várias semanas sem sair da respectiva caixa. Teria de ser um técnico a instalá-la, para não perdermos a "garantia". A montanha de roupa suja foi crescendo até ocupar metade da – já de si apertada – casa de banho. No dia em que foi finalmente montada, foi um alívio. Menos para a máquina: saía uma carga de roupa, entrava outra. Até não haver mais espaço no estendal.

A lista de coisas que ainda nos faltam vai sendo cada vez mais curta. A vida segue tranquila. Telefone, Internet. Tudo já está tratado. Agora falta alterar o nosso endereço. E mudar de documentos. O "solteiro" no estado civil é coisa do passado.

publicado por Boaz às 20:48
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Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

Mister Fotogenia

Na maioria das vezes uso a Internet de algum ponto de wireless que encontro nas imediações da yeshivat Hakotel, durante a hora de almoço ou à noite. Em várias ocasiões, turistas me pediram autorização para tirarem uma foto minha.

A razão: o contraste moderno e antigo. Eu, com um laptop no colo, sentado nalgum degrau de uma casa da histórica Cidade Velha de Jerusalém.

Hoje também um cameraman me filmou alguns segundos enquanto navegava na Internet. Devia começar a cobrar por direitos de imagem!

publicado por Boaz às 12:14
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