Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010

O negócio da verdade ou a verdade do negócio

Apesar de descartada a outrora sonhada carreira de jornalista, tento de alguma maneira manter-me informado acerca do que se passa no Mundo, em especial pela via dos meios de comunicação social portuguesa e israelita. Quase diariamente consulto os sites de jornais portugueses. Como é natural, interesso-me de modo particular pela cobertura dos acontecimentos no Médio Oriente. No último ano da faculdade realizei o meu trabalho final do Curso de Comunicação Social, dedicado em parte à cobertura das notícias do Médio Oriente por dois diários portugueses. Os anos passam, os velhos erros continuam (e agravam-se). Aquilo que, há quase 10 anos parecia uma tendência de jornais populistas, alastrou hoje ao jornalismo tido como "de referência".

Os jornalistas profissionais são regidos por um Código Deontológico (CD), um conjunto de regras éticas formuladas pela própria classe jornalística para regular a sua atividade. A cada atropelo de alguma dessas regras por "forças externas", a defesa das regras supremas é categoricamente afirmada. Porém, quando a falha vem da própria classe jornalística, nem sempre a retificação é feita, apesar de uma das regras do CD – no caso de Portugal, mas o mesmo vale para os outros países –, ser "promover a pronta retificação das informações que se revelem inexactas ou falsas". Em pouquíssimos casos é dado um destaque à retificação idêntico àquele que merecera a notícia. (Uma retificação significa um admitir de erro na transmissão da verdade, e nenhum meio de comunicação social gosta de passar por mentiroso). Ou seja, serão também poucas as pessoas que conhecerão a retificação dos factos, mantendo-se como "verdade" pública o erro que fora inicialmente noticiado.


Os gritos de Huda Ghaliya, numa praia de Gaza. | Muhammad Al-Dura, o ícone.
Nuvens de Photoshop sobre Beirute | Os órgãos roubados, por Donald Boström.

No caso das notícias sobre o Médio Oriente, os últimos anos têm sido férteis em casos graves de atropelos às regras jornalísticas. Em geral, em desfavor de Israel. O mais famoso dos quais continua a ser a história de Muhammad Al-Dura, o menino palestiniano morto em 30 de Setembro de 2000, no segundo dia da Segunda Intifada. A sua morte foi filmada pelo repórter de câmara palestiniano Talal Abu Rahma ao serviço da TV France 2. A história foi transmitida ao Mundo pelo repórter Charles Enderlin, correspondente do canal em Israel, que não estivera no local das filmagens, comentando uma sequência editada de imagens com menos de um minuto (de um total de mais de 17 minutos de filmagem nunca transmitidos em público), dizendo que o menino tinha sido "alvo de tiros de uma posição militar israelita".

Sérias dúvidas sobre o caso Al-Dura surgiram nos dias seguintes. Porém, na opinião pública mundial, bombardeada pelas imagens do tiroteio, a culpa israelita estava já cristalizada. O caso de Huda Ghaliya e da sua agonia ao lado dos cadáveres dos seus familiares numa praia de Gaza é idêntico ao de Muhammad Al-Dura. A chamada "Batalha de Jenin" também continua a ter fama de massacre, ainda que se tenha provado que tenham morrido 52 palestinianos (a maioria deles armados) e não as centenas que foram noticiados. E por aí em diante. Nestes casos e noutros, nenhuma investigação seria considerada séria. No máximo, uma investigação que provasse a inocência, ou ao menos introduzisse a presunção da inocência do lado de Israel, seria vista como uma manifestação do "poder da propaganda sionista". E por isso, até hoje, Muhammad Al-Dura, Huda Ghaliya e Jenin continuam a ser poderosos e inquestionáveis ícones da causa palestiniana.

A Guerra do Líbano produziu mais alguns casos de fabricação de notícias contra Israel. O fotógrafo libanês Adnan Hajj, trabalhando para a agência Reuters, divulgou algumas fotos de Beirute durante os bombardeamentos israelitas, em Agosto de 2006. O fumo dos bombardeamentos, propositadamente manipulado digitalmente pelo fotógrafo, chegou às redações de todo o Mundo. Esta e outras tramas em redor da manipulação de fotos da guerra do Líbano foram descobertas por vários bloguistas americanos. A Reuters admitiu os erros e o fotógrafo foi dispensado. Mas isso não diminuiu o estrago mediático contra Israel.

Um dos casos recentes foi a notícia do tablóide sueco Aftonbladet, em Agosto de 2009, da autoria do jornalista freelancer Donald Boström alegando que, em 1992, o Exército de Israel recolheu órgãos de prisioneiros palestinianos. A notícia provocou uma crise diplomática entre a Suécia e Israel. O jornalista confessou mais tarde que não tinha quaisquer provas daquilo que escrevera e que apenas pretendia o assunto investigado e declarou que: "se é verdade ou não – Eu não tenho ideia. Não tenho qualquer pista". As próprias fontes mencionadas pelo jornalista revelaram depois não terem fornecido nenhuma das informações contidas no seu artigo. Ainda assim, com todas estas falhas, o artigo foi publicado e o editor do jornal manteve o apoio ao deplorável trabalho do jornalista.

As regras sagradas do jornalismo parecem ser constantemente quebradas quando o assunto é Israel. A falta de confirmação das fontes e o uso de expressões de opinião disfarçadas em verdades noticiosas são fenómenos repetidos. Outro dos mistérios da relação dos media com o conflito Israel-Palestinianos é a persistente ausência de factos de enorme valor noticioso que sejam desfavoráveis ao lado palestiniano. Por exemplo: o fenómeno da corrupção e do défice das contas da Autoridade Palestiniana (em 2005, as doações atingiram os 1,1 mil milhões de dólares e o défice chegou aos 800 milhões) não aparece nas páginas de economia dos jornais europeus, ainda que o bolso dos europeus seja o principal financiador da Autoridade Palestiniana.

As contradições na situação em Gaza também não parecem merecer a análise dos media ocidentais. Ao mesmo tempo que políticos e comentadores europeus comparam Gaza com um "campo de prisioneiros" (o último a usar a brilhante metáfora foi o novo PM inglês David Cameron), no território dominado pelo Hamas são inaugurados hotéis de cinco estrelas, uma piscina olímpica, resorts de praia, restaurantes de luxo e centros comerciais. Esta pujança de construção contrasta profundamente com a ideia expressa nos relatos do persistente bloqueio israelita à Faixa: causador da falta de materiais de construção, água, e outros produtos básicos. E mais estranho parece quando, os hotéis recém-inaugurados, os resorts e os restaurantes sejam frequentados pelos mesmos jornalistas estrangeiros, deputados do Parlamento Europeu e trabalhadores das ONGs de visita a Gaza que, entre umas braçadas na piscina, um banquete no restaurante Roots e uma sessão de compras nos shoppings e mercados fartos, relatam a "total miséria" do local e repetem a a já costumeira comparação com "um campo de prisioneiros".

E, se a situação é grave no que toca ao trabalho dos jornalistas, pior é com os comentários dos leitores nos sites de notícias. É de acreditar que a maioria das pessoas que lêem aqueles jornais até sejam gente decente, informada (e minimamente bem formada). É provável que muitos dos tais comentaristas de ocasião até saibam discutir com calma uma variada série de assuntos, com mais ou menos capacidades. E acima de tudo, o consigam fazer de uma forma tranquila. Porém, misteriosamente, tudo se transforma quando o assunto é Israel.

A cada ato de Israel, mesmo que nada tenha a ver com o conflito com os Palestinianos, seguem-se inacreditáveis e numerosas manifestações de raiva verbal. Expressões cheias de ódio, as eternas comparações grosseiras com o Holocausto. (José Saramago parece ter deixado uma numerosa horda de sucessores intelectuais). Uma das mais comuns é afirmar que "Hitler deveria ter terminado o trabalho". Será que as pessoas têm real consciência da dimensão do bizarro daquilo que se atrevem a expressar? Talvez a maioria nem sequer seja anti-semita – até acho que o termo está demasiado banalizado –, talvez estejam apenas tremendamente mal informadas sobre os assuntos: a situação do Médio Oriente e o Holocausto.

A par da incredulidade face à índole dos comentários, espanta-me que as mesmas regras de "justiça" e crítica dirigidas a Israel sejam totalmente alteradas quando se muda a geografia dos factos. Por exemplo, por ocasião da decisão recente de expulsar centenas de imigrantes ilegais de Israel, choveram os tais comentários indignados. A mesma indignação aconteceu na semana seguinte, quando a França e a Itália decidiram expulsar milhares de imigrantes ciganos romenos. Porém, desta vez, o conteúdo das opiniões foi bem mais civilizado. E até compreensivo.

Talvez ser anti-Israel seja uma atitude que simboliza a modernidade, o atual auge do progresso das ideias. Afinal, a causa palestiniana é "a Causa" entre a intelectualidade europeia e americana. Desta forma, quem se atreva a apartar-se da causa, arrisca-se a ser qualificado de antiquado, reaccionário, imperialista e outros apodos de mau crédito. Contudo, é interessante notar que, das mesmas vozes que não se inibem de acusar Israel, nunca se escutam criticas à violência entre os próprios Palestinianos. Como a que é exercida pelo Hamas sobre as mulheres, os opositores políticos e os cristãos em Gaza, ou a da própria Autoridade Palestiniana também em relação aos seus opositores, aos denunciantes da corrupção do regime ou aos "traidores informantes de Israel". O mediático "humanismo" dos pensadores só funciona num sentido. E fora outras centenas de valorosas causas mantidas na ignorância das massas e no silêncio dos "formadores de opinião".

Uma amiga jornalista, numa discussão recente sobre este assunto talvez tenha revelado a essência do enigma: "O jornalismo é uma profissão como qualquer outra, há bons e maus profissionais, cometem-se erros, injustiças... mas é um negócio como qualquer outro". Na esfera mediática parece compensar ser anti-Israel. O negócio floresce pela existência de polémicas. Israel atiça paixões como nenhum outro país do Mundo. A "Causa" vende bem. E talvez por isso, ainda mais em tempos de crise, se justifiquem tantos atropelos à transmissão da verdade.

E assim, parece cumprir-se uma cínica máxima atribuída (sem qualquer prova) a Joseph Goebbels, o sinistro mestre da propaganda nazi: "Uma mentira repetida milhares de vezes torna-se verdade". E segue solta esta verdade frouxa, sem ninguém que a pare.

publicado por Boaz às 13:36
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Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

No fundo de rodapé da fama


Quase famoso.

Apesar de ser licenciado em Comunicação Social, em poucas ocasiões apliquei o que estudei nos 4 anos do curso. Agora, nem tenho televisão em casa – e não o lamento. O contacto com o Mundo faz-se pela Internet. Ainda antes do sonho da carreira na Comunicação Social, tinha tido algum contacto com o mundo jornalístico na escola. Aos 13 ou 14 anos, entrei quase por acaso para o Clube de Jornalismo da Escola Secundária da Batalha. A experiência durou apenas algumas semanas, mas ainda me lembro de escrever alguns textos que seriam publicados no jornal da escola. E de fazer desenhos para ilustrar as peças.

Na mesma altura, ou poucos anos depois, o Jornal da Batalha teve a ideia de dedicar uma das suas páginas a uma das turmas da escola local. Os alunos escreveriam textos e a turma apareceria numa foto de grupo. Ainda guardo numa mala de documentos a página que foi feita pela minha turma... Ainda que seja difícil ver onde estou no meio da foto de turma, foi a primeira vez que "saí no jornal".

A segunda vez que "fui para as bancas" foi já nos anos da faculdade. Ao contrário de uma pacífica e sóbria foto nos idos anos do ensino secundário, a notícia da época universitária dizia respeito a uma "invasão". Os revolucionários alunos do ISCSP, o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, a minha faculdade em Lisboa, decidiram tomar de volta e à força o andar de cima do secular Palácio Burnay onde funcionava a faculdade. Havia sido "nosso" até à extinção temporária do ISCSP algumas décadas antes, mas aí funcionavam alguns dos serviços de outra instituição, o Instituto de Investigação Científica e Tropical. Era a parte mais nobre do palácio e era uma vergonha que estivesse a ser usado por "eles".

Na cobertura jornalística da invasão – como é que chegaram tão rápido? Estavam avisados? –, um fotógrafo do Jornal de Notícias apanhou-me com um maço de livros arrancados de uma das prateleiras dos cientistas ocupantes. Eu nem dei por ele. Só soube quando vi a foto no diário! Em termos de processo judicial, nunca se fez nada contra a nossa "medida radical" e, passadas algumas semanas, metemos o rabinho entre as pernas e voltámos a ter apenas "o andar de baixo". E foi assim, como um anónimo criminoso fotografado em "flagrante delito" que saí numa das páginas da secção de Sociedade do JN em 2000 e picos.

No final do curso consegui – com ajuda da indispensável cunha, por supuesto – um precioso estágio. O meu padrinho falou com um amigo que tinha um outro amigo e que, sem acaso, era o responsável pelos estagiários da rádio de notícias TSF, uma das mais importantes estações de rádio de Portugal. Depois de uma entrevista para apurar capacidades, comecei a trabalhar logo no dia seguinte. Trabalhar não era bem o termo certo: o estágio era, apesar de bem-vindo, "não remunerado". Comecei por fazer o turno da manhã.

Saía bem cedo do apartamento onde morava junto ao Largo do Rato e tomava dois autocarros até chegar à redacção no Braço de Prata, quase a chegar ao Parque das Nações. O termo "não remunerado" era absoluto, e significava que eu tinha de pagar o meu transporte – a não ser as deslocações em trabalho – e nem incluía almoço. Valiam-me as bolachas e o iogurte trazidos de casa, e a máquina de café para ser usada à discrição. Depois passei para o turno da tarde.

Ao contrário do que se pensa no mundo fora do círculo jornalístico, nem todos os jornalísticas "aparecem". Nem todos são "estrelas". Antes pelo contrário, a profissão de jornalista é muito menos romântica. O meu trabalho era mais de apoio. Depois de escolher uma historia para cobrir, telefonava para aqui e acolá à cata de depoimentos de alguém com quem interessava falar por algum assunto. Por vezes fazia "trabalho de campo": saía da redacção para algum lugar em Lisboa para assistir a impossivelmente chatas conferências de imprensa, como reuniões de centrais sindicais. Entrevistei um ex-ministro da Ciência sobre o aniversário de Albert Einstein. Num seminário da Associação Luso-Americana entrei pela primeira e única vez no Sheraton de Lisboa, onde estaria o ministro do Trabalho. Eu não falei com ele, mas um jornalista de TV encontrou-o e rapidamente lhe fez uma pergunta pertinente. Tão rápido que eu nem tive tempo de ligar o meu microfone! Desastres de principiante.

A visita do presidente do Governo Regional dos Açores levou-me ao Palácio de Belém, a residência do Presidente da República. O líder açoriano falou alguma coisa que era importante, mas eu não entendi o interesse da coisa. No dia seguinte, à chegada à redacção, levei uma reprimenda quando me disseram que ele realmente tinha dito algo que era notícia. E que a TSF tinha deixado fugir. Outra rádio noticiou em primeira-mão. Aprenderam a não enviar um novato para cobrir assuntos de Estado. A única vez que a minha voz foi ouvida nas ondas hertzianas foi numa peça sobre uma "Feira do Livro Usado" realizada no Mercado da Ribeira. Com Carlos Paredes como música de fundo construí uma peça em linguagem poética. Foi "para o ar" nessa noite, a uma hora em que pouca gente ouve rádio. Repetiram-na de manhã cedo, ao início da hora de ponta do trânsito lisboeta.

Na altura estalou o escândalo de pedofilia na Casa Pia. Todos os dias apareciam revelações cada vez mais escabrosas. Na redacção, ouviam-se boatos implicando pessoas que, só semanas ou meses mais tarde, seriam trazidos a público. Ou nunca foram mencionadas "cá fora". Não imaginamos o podre que corre na antecâmara das notícias até fazermos parte de uma redacção.

Eram as vésperas da invasão americana do Iraque. A guerra estava iminente. Todos os dias, Bush e companhia revelavam outra razão para mandar Saddam Hussein para fora do poleiro. Era preciso saber o que diziam a CNN e a BBC e gravar o que noticiavam. Várias vezes traduzi e dobrei em estúdio declarações de Bush, Dick Cheney, Tony Blair e outros "peixes graúdos". A estação planeava quem iria mandar para o Médio Oriente, cobrindo os países mais importantes da região. "Armas de destruição maciça" era o termo mais usado nos media da altura. O Mundo não parece ter mudado muito desde essa altura...

Poucos dias depois de terminar os meses de estágio, assisti no meu quarto ao início da guerra em directo na RTP, a 20 de Março de 2003. Um providencial directo do jornalista Carlos Fino apanhou as primeiras bombas a cair em Bagdad. Aquela já não era a minha guerra. Eu estava de fora, a imaginar o reboliço que deveria ser a redacção da TSF. Ao todo foram apenas 4 meses. Aprendi alguma coisa, em especial o cuidado que temos de ter quando escutamos, vemos ou lemos algo nos media. As palavras cuidadosamente usadas para causarem polémica, para darem nome à casa, para a própria casa ser notícia por ter noticiado tal coisa, é mais importante do que revelar a notícia em si.

Alguns meses depois, trabalhei durante apenas um mês num semanário católico da diocese de Leiria. A coisa mais interessante na enfadonha rotina semanal era a montagem das notícias do jornal, às segundas e terças-feiras. Era interessante ver nascer o jornal que vai aparecer, dias depois, nas bancas. Organizar o enorme e desinteressante arquivo fotográfico do jornal ou escolher folhas de papel de impressão que ainda podiam ser usadas, foram outras coisas que eu fiz, nos dias em que não havia nada para fazer na sala onde funcionava o jornal, com apenas três funcionários.

No ano seguinte, passei para a televisão. Não, apesar das minhas tentativas e dezenas de currículos enviados não consegui ter outro estágio, nem mesmo "não remunerado" e ainda menos um emprego certo. Na altura, já começara a tomar forma o meu processo de conversão e foi nessa condição que apareci num programa de informação religiosa da RTP 2. Foram entrevistar os alunos que frequentavam as classes de conversão na sinagoga de Lisboa.

Com a ajuda do blog, fui entrevistado duas vezes sobre o assunto da minha conversão ao Judaísmo. Um leitor chileno entrevistou-me em inglês e publicou a notícia num jornal online do Canadá. O mês passado, foi a vez de uma jornalista brasileira, de um jornal judaico do Rio de Janeiro se interessar pela minha história.

Há meses, um amigo português (nascido em Moçambique) residente em Jerusalém foi descoberto pelo jornalista Henrique Cymerman, correspondente da SIC em Israel. A história de um português de origem "marrana" (em hebriaco anussim, os judeus obrigados a converterem-se ao Catolicismo e mantidos judeus em segredo), hoje 100% judeu, a trabalhar no Jardim Botânico de Jerusalém deu origem a uma reportagem de televisão. Depois da realização da reportagem, o meu amigo avisou-me que o jornalista estava interessado em conhecer outros portugueses em Israel e que por isso, lhe tinha dado o meu contacto.

Até hoje, alguns meses depois, espero o tal telefonema do Henrique Cymerman. Ainda não foi desta que apareci na SIC!

publicado por Boaz às 03:17
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Domingo, 30 de Agosto de 2009

Duas medidas

Em Israel, há poucos anos, um programa da televisão israelita foi considerado ofensivo para a comunidade cristã. Estoirou na altura uma polémica com o Vaticano. O então Primeiro-Ministro Ehud Olmert criticou o programa, sem prejuízo para a liberdade de expressão.

Alguém comentou assim o último artigo: "É que, na Suécia, a liberdade de expressão e publicação é direito sagrado. Não cabe a nenhuma autoridade criticar a publicação de um artigo de jornal. Da mesma forma que o Primeiro-Ministro da Dinamarca se recusou a pedir perdão pela publicação das caricaturas de Maomé, também as autoridades suecas têm o dever constitucional de se abster de condenar o que os jornais publicam. Simples assim!"

Na verdade, não é tão "simples assim". No episódio das caricaturas de Maomé na Dinamarca, depois de um boicote islâmico, das ameaças de morte e de bombardeio de negócios e embaixadas dinamarquesas, de centenas de manifestações que fizeram dezenas de mortes por esse mundo (islâmico) fora, o governo do país tentou limpar a cara pela afronta à dignidade muçulmana, anunciando que iria patrocinar a construção de uma enorme mesquita em Copenhaga, a capital do país.

Na Suécia, as autoridades do país, que reclamam que a liberdade de imprensa tem de ser absoluta, exatamente na altura do caso dos cartoons de Maomé, o próprio ministro dos Negócios Estrangeiros da Suécia enviou uma carta especial a um líder religioso do Iémen (um país islâmico), pedindo desculpas pela publicação das ofensivas caricaturas ao profeta. Talvez tenha havido alguma brecha no "dever constitucional de se abster de condenar o que os jornais publicam"?

Ou seja, existe do lado sueco uma clara dualidade de critérios. Sejamos francos, porquê esta dualidade de critérios? Os suecos – representados pelos seus media e a sua classe política – sabem que não precisam de ter medo dos Judeus (apesar do eterno mito de que os Judeus controlam todo o planeta, desde os media ao comércio). Não precisam de temer que os Judeus bombardeiem as suas embaixadas. Que estoirem os seus hotéis, restaurantes e sistemas de transporte. Que os seus aviões sejam desviados e sejam derrubados os seus arranha-céus. Que os seus turistas e jornalistas em Israel sejam raptados e assassinados. Tudo como represália de algum caso de anti-semitismo que aconteça no seu país. O medo, esse, eles têm-no dos muçulmanos. E o medo é uma força muito poderosa.

Como disse um comediante norueguês, depois de queimar ao vivo algumas páginas do Antigo Testamento: "Eu só não queimei o Corão porque quero sobreviver mais do que uma semana". É de mau gosto, mas talvez valesse a pena pensar nas palavras do artista...

PS – Alguns dias depois da publicação da notícia, o próprio editor do jornal disse que a peça não apresentava qualquer fonte credível. Ainda assim, disse haveria razão para Israel investigar as "suspeitas". Benny Dagan, o embaixador israelita em Estocolmo, respondeu: "Tenho uma sugestão para si. Porque você não investiga porque a Mossad e os Judeus estiveram por detrás do atentado às Torres Gémeas? Porque não investigamos porque os Judeus estão a espalhar SIDA nos países árabes? Porque não investigamos porque os Judeus mataram crianças cristãs para fazer matzot (pão ázimo) na Páscoa?".

publicado por Boaz às 00:01
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Quinta-feira, 8 de Janeiro de 2009

Quando o jornalismo é um bem 'Público'

Durante o meu curso de jornalismo na faculdade, uma das coisas que estudei foi a importância das fontes das notícias e de como elas afectam a visão que temos do mundo. Acabei por fazer o meu trabalho final de curso (chamado pomposamente "tese de licenciatura") sobre esse assunto, intitulado "Da selecção das notícias ao aparecimento do Síndroma do Mundo Negativo". (Quem tiver curiosidade de ler a obra de quase 200 páginas, que vá à biblioteca do ISCSP, no Alto da Ajuda, em Lisboa. Deixei lá uma cópia.)

Mais tarde, acabei por me desapontar da profissão e desistir do sonho de uma carreira nessa área. A forma como muitos jornalistas aceitam a manipulação em nome de livros de estilo e de tendências políticas da classe jornalística, fez-me perceber que existe uma perversidade que mina a cadeia de transmissão da verdade. Esta minha apreensão é maior quando vejo as notícias sobre o Médio Oriente.

O artigo de opinião que se segue, da autoria da jornalista Helena Matos, do diário português Público, é um corajoso e honesto testemunho da verdade podre de algumas regras do jornalismo ocidental. Faz-me ter esperança que alguém, que não se informa para além dos media comuns, ainda consiga perceber com verdade o que se passa no Mundo. Em especial, no Médio Oriente.


Livro de estilo para referir Israel, por Helena Matos

Jornal Público
08.01.2009

No dia em que escrevo, quarta-feira, confirma-se que mais uma vez uma cadeia de televisão europeia, a France 2, transmitiu imagens falsas numa reportagem que dedicou ao ataque israelita a Gaza. Crianças mortas e uma casa destruída ilustravam os efeitos dramáticos entre os civis palestinianos dos bombardeamentos efectuados pelo exército de Israel.

Poucas horas após a emissão da reportagem concluía-se que destas imagens apenas os cadáveres e o prédio destruído não foram ficcionados. Aquelas pessoas morreram, mas não morreram a 5 de Janeiro de 2009, como afirma o jornalista da France 2, mas sim a 23 de Setembro de 2005. Também não morreram na sequência de um ataque israelita mas sim no resultado da explosão acidental de um camião que transportava rockets do Hamas dentro do campo de refugiados de Jabalya.

Defende-se a France 2 dizendo que foi enganada pela propaganda palestiniana. Nestas coisas da comunicação, os palestinianos têm de facto as costas demasiado largas, pois aquilo a que temos assistido nos últimos anos é à participação voluntária e entusiástica de vários órgãos de comunicação ocidental na diabolização de Israel, através da divulgação de imagens e notícias sem qualquer tipo de confirmação das fontes ou até mesmo com a promoção de imagens e notícias falsas. Foi assim com o relato da morte de Muhammad al-Durrah, o menino que, em Setembro de 2000, segundo uma reportagem da mesma France 2, teria sido baleado por soldados israelitas junto ao seu pai, acabando os dois assassinados. A imagem da criança tentando proteger-se sob o cadáver do pai emocionou o mundo e legitimou a segunda Intifada. Infelizmente, os mesmos jornalistas que tão rapidamente espalharam esta imagem não se deram ao trabalho de divulgar as investigações que provavam a sua manipulação. Maior silêncio ainda caiu sobre os responsáveis pela morte da família de Huda Ghaliya, a menina que o mundo inteiro viu chorando sobre os cadáveres de toda a sua família, numa praia de Gaza, em 2006. Os jornais ocidentais, com a mesma diligência com que a promoveram o novo ícone palestiniano, também o esqueceram quando se soube que a sua família não morrera vítima de um ataque israelita mas sim de armas palestinianas.

Os exemplos desta fábrica mediática de mártires para ocidente consumir levam-nos invariavelmente à constatação de que existe no ocidente uma espécie de "insurgentes de sofá". Tal como os treinadores de bancada raramente praticam qualquer desporto, também estes "insurgentes de sofá" jamais pegariam numa arma ou fariam um atentado. E não o fariam porque moralmente não seriam capazes e também porque este mundo ocidental do qual dizem tanto mal lhes tem proporcionado invejáveis padrões de vida. Israel torna-se assim no "lugar ideológico" que lhes permite acharem-se ideologicamente coerentes enquanto usufruem o que de melhor a democracia a que dantes chamavam burguesa tem para oferecer.

Claro que há algumas décadas outros povos acompanhavam os palestinianos como objecto da sua solidariedade. Eram então os vietnamitas, os cambodjanos, o então designado "povo mártir da Coreia do Sul", os angolanos, os moçambicanos, os rodesianos... enfim todos aqueles povos cujos problemas pudessem ser de alguma forma imputáveis a países que alinhassem no chamado bloco ocidental. No preciso dia em que a culpa deixou de poder ser assacada a portugueses, norte-americanos, ingleses... esses povos deixaram de gerar piedade e desapareceram os activistas. Os massacres no Ruanda, a fome no Zimbabwe, as epidemias no Congo e a corrupção em Angola não só deixaram o paradigma das notícias que causam indignação como passaram a ser apresentados sob as vestes da fatalidade histórica.

De igual modo, quando os palestinianos se matam entre si, por exemplo quando o Hamas chacinou os membros da Fatah, o facto é ignorado. Se Israel - ou seja, o país do nosso mundo - não é passível de ser responsabilizado então mal existem notícias e muito menos indignação. Donde também nunca ouvirmos falar da situação dos palestinianos no Líbano e no Egipto ou das medidas tomadas pela Jordânia para controlar os movimentos que os representam.

Estaria contudo a faltar à verdade caso se não reconhecesse que tem existido alguma evolução sobre Israel nos chamados defensores da causa palestiniana. Já admitem que o Estado de Israel vai continuar a existir mas não prescindem de uma espécie de livro de estilo para se lhe referir. Desse livro fazem parte alguns dogmas. A saber:

a) Entre os palestinianos só existem civis
Israel tem um exército e serviços secretos. Os palestinianos têm líderes espirituais ou de facção, activistas, militantes e figuras religiosas. O que de mais belicoso se concede ao seu estatuto é designá-los como combatentes. Mas nunca como militares. Não são apenas os membros do Hamas que cobardemente se misturam com a população, que usam as escolas, os hospitais, as mesquitas e as ambulâncias para fins militares. A linguagem usada por boa parte da imprensa ocidental transforma-os também em civis. Ou civis inocentes como é hábito dizer. Inversamente Israel tem militares. Ou seja, culpados, logo à partida.

b) Entre palestinianos, o estatuto de refugiado é eterno e transmissível
O que quer dizer exactamente a expressão "campo de refugiados palestinianos em Gaza"? Quer dizer que em território palestiniano, Gaza, existem palestinianos que saíram, há décadas, de localidades que fazem hoje parte de Israel (e também da Jordânia e do Egipto pois parte do território do Estado Palestiniano criado em 1948, ao mesmo tempo que o Estado de Israel, e recusado pelos países árabes, acabou por ser integrado naqueles dois países). Estes palestinianos mantêm-se com o estatuto de refugiados nos territórios palestianianos que eles mesmos administram. O que de mais equivalente com esta situação se pode conceber seria os retornados portugueses terem sido mantidos em campos, em alguns casos com direitos diferentes dos outros cidadãos da então metrópole, e ainda hoje eles, os seus filhos, netos, bisnetos e demais descendência serem todos considerados refugiados e Portugal continuar a exigir o direito do seu regresso às localidades donde fugiram nos anos 70. Esta condição de refugiado crónico condenou os palestinianos à exclusão que nenhum país democrático aceita para os seus cidadãos. Por isso os retornados são hoje simplesmente portugueses tal como milhares de judeus que após a criação do Estado de Israel tiveram de fugir dos países árabes como Marrocos, Egipto, Iraque, Líbia, Síria, Argélia, Tunísia e Iemen são simplesmente israelitas.

c) Toda e qualquer iniciativa de defesa levada a cabo por Israel está condenada ao fracasso. Se triunfa é porque é desproporcionada
Se de todo em todo se admite que Israel poderá reagir, logo se avisa que a estratégia escolhida está errada. (A propósito, qual é o balanço do tão vilipendiado muro?) Como, apesar de tanta opinião em contrário, Israel sobreviveu e mantém uma vitalidade política invejável, então temos o problema da desproporção da resposta. A não ser para aqueles que desejam o desaparecimento de Israel, dificilmente se entrevê um cenário mais terrível do que aquele que resultaria caso a situação fosse inversa - o Hamas ou a Fatah terem mais capacidade militar do que o exército israelita - ou terem forças equivalentes. A óbvia superioridade militar de Israel impede uma escalada da violência para níveis certamente inimagináveis.

d) As informações do médico norueguês, do padre católico e da activista da ONG são absolutamente verdadeiras
Estas fontes emudecem quando os ataques ocorrem entre os palestinianos e são possuídas por uma apreciável verborreia quando Israel intervém. Mas o seu papel mais grave nem é tanto o que de falso por vezes dizem mas sobretudo o facto de pouparem os líderes palestinianos a prestarem declarações. O discurso destes últimos, sobretudo se forem os integristas do Hamas com as suas promessas de extermínio de Israel e muita retórica do martírio religioso, gera anticorpos nas sociedades ocidentais. O médico norueguês, o padre católico e a activista da ONG não só são ocidentais como falam como ocidentais para ocidentais. De cada vez que eles falam, Israel torna-se no responsável por tudo o que acontece. Quando fala o Hamas, Israel ganha senão simpatia pelo menos compreensão.

Jornalista

publicado por Boaz às 22:33
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

O arco da crise

Com frequência, analistas, jornalistas e políticos referem-se à resolução do conflito entre Israel e os Palestinianos como a chave para a estabilização do Médio Oriente e daí, de todo o Planeta.

Recentemente, o Iraq Study Group (ISG) liderado por James Baker, antigo Secretário de Estado americano foi incumbido pelo presidente Bush de encontrar formas para vencer a guerra no Iraque, de uma forma mais rápida e menos custosa. Em sangue e dólares. A conclusão do ISG foi: "a resolução a disputa Israel-Palestina" é a chave para ganhar a guerra no Iraque.

A ideia da centralidade do conflito Israel-Palestinianos não é exclusiva de James Baker e seus associados. Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU partilha da mesma ideia. E também, aparentemente, o seu sucessor Ban Ki-Moon, que recentemente disse a um jornal sul-coreano: "Se as questões no conflito entre Israel e a Palestina [sic] forem bem, outras questões no Médio Oriente... irão da mesma forma ser resolvidas."

Será o conflito entre Israel e os Palestinianos assim tão central no Mundo e mesmo no Médio Oriente?

Façamos então um passeio pelo Grande Médio Oriente, ao qual Tony Blair chamou "o arco da crise". Estendendo-se do Atlântico ao Índico, compreende 22 países. Dezasseis deles árabes, mais a Turquia, Arménia, Azerbeijão, Israel, Irão, Afeganistão e Paquistão. Todos foram fundados após o desmembramento de algum império colonial. Como primeiro sinal de instabilidade, saiba-se que nenhum destes estados goza de fronteiras inteiramente reconhecidas. Todos têm diferendos fronteiriços com um ou mais vizinhos, reclamando partes dos seus territórios. A maioria já travou guerras em consequência dessas reclamações.

Comecemos a digressão pelo Afeganistão. Reclama a soberania sobre a paquistanesa Província da Fronteira Noroeste. Na década de 1960, os dois países travaram uma série de guerras fronteiriças pelo controle da região. O Irão, por seu lado, insiste no direito de supervisão no oeste do Afeganistão baseado no Tratado de Paris de 1855. Iranianos e afegãos disputam ainda as águas de três rios fronteiriços, o Hirmand, o Parian e o Harirud.

O Paquistão desde 1947 mantém uma longa disputa territorial com a Índia pelo controle de Caxemira, desde a divisão do antigo Império Britânico da Índia, em dois estados, em 1947. Caxemira foi a origem de três guerras em larga escala e numerosos episódios de violência na fronteira entre os dois países. É responsável ainda pela corrida de ambos às armas nucleares, além de centenas de ataques terroristas, sobretudo na Caxemira indiana. Além de Caxemira, o Paquistão mantém uma disputa com o Irão sobre águas territoriais no Mar Arábico e sobre a nacionalidade de várias tribos de etnia Baluch que vivem dos dois lados da fronteira entre os dos países.

Numa escala muito maior, o Irão e o Iraque travaram uma série de guerras desde 1936 pelo controle o estuário do Shatt al-Arab. Um tratado de paz foi assinado em 1975, mas em 1980 Saddam Hussein invadiu o Irão, começando uma guerra de oito anos e que fez mais de um milhão de mortos nos dois lados. Desde a deposição de Saddam em 2003, o Irão redesenhou a fronteira a seu favor. E continua a reclamar o direito de supervisão sobre santuários xiitas no Iraque como Samara ou Karbala.


Irão, Esquadrão de fuzilamento nos primeiros anos da Revolução Islâmica.
Foto de Jahangir Razmi, fotógrafo iraniano. Prémio Pulitzer

A sul, e desde 1971, o Irão reclama dos Emirados Árabes o controle de três estratégicas ilhas no estreito de Ormuz, por onde flúi diariamente metade do petróleo do Mundo. A norte, luta com o Turquemenistão, o Kazaquistão, o Azerbeijão e a Rússia pelo Mar Cáspio. Os vizinhos pretendem a divisão deste mar interior conforme a extensão das suas fronteiras. Para reclamar a divisão equitativa que duplicaria a sua extensão do Cáspio, o Irão mantém desde 1995 uma marinha de guerra e impede as petrolíferas internacionais de explorarem gás e petróleo nas águas azeris e turcumenas que Teerão reclama como suas. Teerão tenta ainda manter um controlo da província de Khuzestan, rica em petróleo. A região teve uma maioria de população árabe até à década de 1940. Desde então tem sido sistematicamente "persianizada." Recentemente, várias tribos árabes residentes perto da fronteira iraquiana foram expulsas e substituídas por habitantes persas do centro do Irão.

O Irão é visto pelos países árabes como uma ameaça directa, em especial os Estados do Golfo. No entanto, mesmo entre estes, as relações não são amistosas. Apesar das relações tribais entre as famílias reais da região, a Arábia Saudita travou em 1955 uma guerra com Omã pelo controle do oásis de Buraimi, alegadamente rico em petróleo. Décadas de negociações não foram suficientes para se chegar a um acordo. No ano passado os Emiratos Árabes renunciaram a um tratado de 1974 com a Arábia Saudita, adivinhando-se uma terceira reclamação sobre o oásis.

Desde o final da década de 1990, o Qatar luta com os sauditas pela região de Khor al-Udaid, rica em petróleo. Em 2000, os sauditas anexaram a área à força, cortando assim a fronteira do Qatar com os Emiratos. O Qatar reclama do vizinho Bahrain o controle das ilhas de Hawar, travando uma guerra naval em 2001.

Entre a Arábia Saudita e o Kuwait, alegadamente os mais próximos dentre os Estados do Golfo, mantém-se o diferendo acerca da demarcação de fronteiras na chamada "Zona Neutra." Após a Guerra do Golfo de 1992-93, a fronteira do Kuwait com o Iraque foi estabelecida. Todavia, mesmo o parlamento eleito do Iraque não abdicou ainda da reclamação de soberania sobre as ilhas kuwaitianas de Warbah e Bubiyan e da parte sul dos campos petrolíferos de Rumailah atribuídos ao Kuwait pela ONU. A desconfiança em relação a Bagdade, levou o governo do Kuwait a erguer fortificações, cercas electrificadas, armadilhas anti-tanque e a implantar uma “terra de ninguém” que se estende numa faixa de 15 quilómetros. A Arábia Saudita tem em construção estruturas similares na sua fronteira com o Iraque.

A dinastia hashemita da Jordânia mantém há décadas uma reclamação de suserania sobre a província saudita de Hejaz, onde se situam as cidades santas de Meca e Medina, despojada do controle das tribos hashemitas em 1924 pelas tribos que compõem a actual família real saudita. A cada onda de pressão sobre a casa real saudita pela Al-Qaeda ou por militantes xiitas, de Amã ouvem-se apoios a um Hejaz independente.

O Iémen continua sem conseguir traçar a sua fronteira com Omã ao longo do Golfo de Hauf e no deserto de Rub al-Khali, “o vazio da Arábia”. Em 1999 travou uma guerra com a Eritreia pelo controle das ilhas Hanish, um arquipélago estratégico na entrada do Mar Vermelho.

Desde os anos de 1940, o Iraque e a Síria mantêm um diferendo com a Turquia pela divisão das águas do Rio Eufrates. Ainda, tanto a Síria como o Iraque reclamam a província turca de Iskanderun, onde os Árabes compõem 30% da população. A Turquia reclama o direito de supervisão do Norte do Iraque baseado no Tratado de Lausanne de 1923, em especial sobre as regiões petrolíferas de Mossul e Kirkuk e tem treinado e armado grupos tribais turcomanos na região. Na década de 1990, a Turquia actuou militarmente na região na sua guerra contra a milícia marxista curda do PKK.

A Síria reclama a totalidade do Líbano como parte da "Grande Síria", da qual reclama também fazerem parte a Palestina histórica e parte do Norte da Jordânia. Em quase 30 dos 50 anos do Líbano independente, a Síria manteve aí um exército de ocupação e esteve activamente envolvida nas três guerras civis libanesas. A Síria foi em grande parte responsável pela morte de mais de 100 mil libaneses e pela fuga de outros dois milhões e meio. No ano passado, a Síria e o seu maior aliado, o Irão, encorajaram o Hezbollah a travar uma guerra com Israel. Nos últimos anos, Damasco tem sido responsável por grande parte da agitação social e política no Líbano e por uma série de assassinatos políticos, incluindo o primeiro-ministro Rafik Hariri.

O Egipto, o maior dos estados árabes, mantém divergências fronteiriças com a Líbia e o Sudão. Na década de 1960 fomentou várias guerras por todo o mundo árabe. Desde a guerra 1958-62 na Argélia a um golpe de estado no Iémen que deflagrou uma guerra civil que se prolongou por seis anos e fez mais de 200 mil mortos. Recentemente, anexou partes do território sudanês e mantém um conflito intermitente com a Líbia sobre uma área do deserto Egípcio. Ironicamente, a sua única fronteira estável e reconhecida internacionalmente é aquela que o separa de Israel.

A Líbia é desde os anos 70 um dos grandes patrocinadores do terrorismo internacional. O atentado contra o avião da PanAm que se despenhou em Lockerbie e uma bomba numa discoteca alemã frequentada por soldados americanos estão no cadastro de Muamar Khaddafi. Mantém disputas com o Chade, a Tunísia e o Sudão. No Sudão desenrola-se um dos maiores desastres humanitários da actualidade, na região de Darfur. Centenas de milhares de mortos e mais de um milhão de refugiados, resultado dos massacres das milícias janjaweed apoiadas pelo governo central. Ao longo de várias décadas, o país esteve numa guerra civil. Árabes muçulmanos do Norte contra tribos negras cristãs e animistas do Sul. Mais de dois milhões de mortos e outros tantos refugiados até ao recente acordo de paz.

Marrocos, Argélia e Mauritânia têm lutado entre si pelo controlo do Saara Ocidental. A região foi anexada por Marrocos em 1975. Em retaliação, a Argélia tem apoiado a Frente Polisário, que reclama ser o governo legítimo do povo Saraui. Desde 1976 que Marrocos e a Frente Polisário travam uma guerra de baixa intensidade. Na década de 1990, Marrocos retribuiu à Argélia o seu apoio à Frente Polisario fechando os olhos à sangrenta campanha terrorista dos islamistas que custou a vida a mais de 250 mil argelinos.

Tudo isto é apenas uma síntese do que tem acontecido no "arco da crise". Nas últimas seis décadas, a região sofreu não menos de 22 guerras de larga escala em disputas de território e recursos, nenhuma delas tendo alguma coisa a ver com Israel ou os Palestinianos (se tem dúvidas, volte atrás e releia o artigo). Além disso, a história destes países tem sido dominada por séries de lutas domésticas, golpes de estado, ondas de violência étnica e sectária, em muitos casos com altos níveis de crueldade.

O Grande Médio Oriente tem-se caracterizado por uma crónica instabilidade, níveis baixos de desenvolvimento e atraso cultural. A região é a única zona do Mundo que, de um modo geral, passou ao lado da onda de mudanças positivas que se seguiram ao fim da Guerra Fria. Imprensa ou universidades privadas, sindicatos livres, partidos políticos ou liberdade de associação e expressão são realidades distantes. No século XXI, as linhas de produção das grandes marcas internacionais estenderam-se da Polónia ao Vietname ou ao Peru. Mas não à Síria ou ao Egipto. Nenhum destes estados tem, por exemplo, fábricas de automóveis ou de produtos de alta tecnologia.

Os déspotas que chefiam os estados entre a Mauritânia e o Paquistão há muito que pretendem desviar as atenções dos seus oprimidos súbditos com o sonho de atirar ao mar "o inimigo sionista". Como fazia o antigo presidente Nasser do Egipto, sempre que espreitava a ameaça da revolta política, logo se apressava a assegurar às massas do seu país e da "grande nação" árabe que a reforma política e social teria de esperar até que "o inimigo" fosse expulso da "nossa amada Palestina."

Para até um grupo de, aparentemente, homens sábios americanos, adoptar a mesma visão retrógrada e facilmente refutável, demonstra uma absoluta e perigosa ignorância da realidade.

Baseado num artigo de Amir Taheri, ex-editor do diário iraniano Kayhan, para a Commentary Magazine.

publicado por Boaz às 11:03
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Quarta-feira, 13 de Julho de 2005

Selectiva falta de memória

Ontem à noite, a 2: transmitiu mais um programa "Parlamento". Eu não costumo ver esse tipo de programas, por achar insuportáveis a maioria dos nossos deputados, mais a sua retórica. Ontem, talvez por masoquismo, assisti ao programa, com a curiosidade de saber as opiniões de deputados das diversas bancadas da Assembleia da República sobre o fenómeno do terrorismo e os modos de o combater.

Os deputados do PS, PSD e CDS foram regulares, com o habitualmente maior "sentido de Estado" que os caracteriza. (Isto não se aplicaria se o PSDista fosse o Alberto João Jardim.) Anormalmente equilibrada achei a opinião do camarada "norte-coreano" Bernardino Soares. Como já se esperava, Ana Drago, a voz do Bloco de Esquerda no programa, insistiu na culpa do capitalismo em todos os males do Mundo. Até no terrorismo: a culpa é das operações offshore e da lavagem de dinheiro que aí se faz, que possibilitam o financiamento do crime organizado e do terrorismo. Pois muito bem...

Só que todos se esqueceram de um pormenor: o fanatismo que é a base do terrorismo da Al-Qaeda. É que, ao contrário do 11 de Setembro - que foi uma operação de grande envergadura -, o 11 de Março e o 7 de Julho foram esquemas relativamente simples, que não precisaram de muito dinheiro.

Explosivos, telemóveis e conhecimentos em fabricar bombas, que se adquirem em milhares de sites na Internet. Tudo somado, só falta um elemento fundamental: a motivação. E essa provém dos radicais infiltrados nas comunidades islâmicas que se aproveitam da liberdade de expressão existente na Europa - e muito especialmente no Reino Unido - e assim propagam as suas ideias assassinas.

Os senhores deputados, sempre preocupados com o politicamente correcto, meteram o rabinho entre as pernas e habilmente esqueceram-se do cerne do problema.

publicado por Boaz às 16:42
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Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2005

Mais do que semântica (II)

Depois do "Mais do que semântica (I)" era apenas uma questão de tempo até surgir a segunda parte. Porque a saga continua. Ora vejam. É vulgar nos nossos Média, em especial na televisão, com a RTP à cabeça, chamar "exército judaico" ao exército de Israel.

Exército israelita ou exército judaico?É óbvio que a maioria dos soldados israelitas são judeus, já que a maioria da população de Israel é de religião judaica. No entanto, quando um jornalista usa a expressão "exército judaico" demonstra que sabe pouco daquilo que fala, pois no exército de Israel há também elementos drusos e beduínos. Denota também uma confusão entre nacionalidade e religião.

O último caso deste tipo ocorreu no último fim-de-semana quando a RTP enviou o jornalista Paulo Dentinho ao Médio Oriente à região para fazer a cobertura das eleições palestinianas. Na única peça que vi dele, além da já habitual presença da expressão "exército judaico", apareceu também "prisões judaicas" (!). O jornalista falou com um palestiniano que no dia das eleições foi libertado de uma prisão em Israel, mas referiu-se-lhe como "prisão judaica".

Jamais ouvi chamar "exército católico" ao exército português, espanhol ou brasileiro, apesar de a maioria dos seus efectivos serem católicos (até há um bispo para as Forças Armadas!). Nem mesmo à Guarda Suíça do Vaticano. O termo "prisão católica" nem sequer se usa quando se fala das prisões da Santa Inquisição. E as prisões da Arábia Saudita ou do Irão (onde a justiça que se aplica segue a Sharia, lei islâmica) são somente prisões sauditas ou iranianas. Não "prisões islâmicas".

Num contexto religioso, é legítimo falar em israelita como judeu, judaico ou hebreu (ex. comunidade israelita = comunidade judaica). Mas tratando-se de nacionalidade, não são sinónimos.

É provável que não exista má-fé no uso destas expressões. No mínimo há falta de rigor ou mesmo ignorância. Porém, tratando-se de jornalismo não é de todo uma ignorância inocente.

publicado por Boaz às 16:56
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Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2005

O culto do medo

Parece que esta manhã houve um pequeno sismo no Algarve. Teve uma intensidade de cerca de 4 graus na escala de Richter. Tão fraco como o abalo provocado por um camião a passar na rua. Não mais do que isso. Anda-se numa psicose sísmica tal que as nossas televisões abriram os noticiários da tarde com esta grande notícia. Há falta de melhor, foi o que se arranjou...

Seguindo a mesma onda (palavra sem segundo sentido, não vá alguém pensar que é piada. É que não devem tardar as piadinhas de mau gosto com ondas...) a SIC, durante o Jornal de Sábado da SIC fartou-se de publicitar uma notícia sobre o alegado risco de Portugal ser afectado por um tsunami com dezenas de metros de altura.

A notícia acabou por ser uma coisita de minuto e meio sobre as suposições de cientistas que têm estudado o vulcão Cumbre Vieja na ilha de La Palma (e não Las Palmas, como foi referido na notícia!) nas Canárias. É que se o vulcão entrar em erupção, uma boa parte da ilha pode desabar para o mar e causar ondas enormes em direcção à América e Europa.

A verdade é que este assunto já anda a badalar na televisão há vários anos. Um dos canais de documentários por cabo (não sei se o Discovery Channel, o Odisseia ou o National Geographic) transmitia um programa sobre o Cumbre Vieja de 15 em 15 dias. Ora, a SIC é uma televisão que tem um canal de notícias 24 horas por dia. Com tanta falta de assunto na SIC notícias (repetem a mesma coisa vezes sem conta ao longo do dia, nem a introdução do apresentador muda), será que ninguém ainda tinha arranjado um tempinho para mudar de canal e tomar umas notas ao que passa no canal ao lado?

Com tanto "alerta", era bom que se lembrassem antes de formar a opinião pública para se exigir nas escolas e empresas a realização frequente de simulacros em caso de sismo ou incêndio.

publicado por Boaz às 17:57
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Quinta-feira, 25 de Novembro de 2004

Uma noite em claro

A noite passada não dormi. Não foram as insónias que, felizmente, não atacam muito para os lados da minha almofada. Por volta da meia-noite liguei o computador e escrevi o post anterior. Depois, já ligado à rede, fiz uns retoques estruturais no blog e fui navegar na blogosfera.

Andei pelos meus blogs favoritos: Aviz, Crónicas Matinais e Rua da Judiaria. Mais uma longa "caminhada". São sem dúvida três dos melhores blogs em português. Todos feitos por jornalistas portugueses, no estrangeiro. Como tenho de ter cuidado com os gastos telefónicos, carreguei as páginas - sempre enormes!!! - e depois regalei-me com a leitura, off-line.

O Aviz é um blog bem à altura do seu autor, o excelente jornalista e escritor Francisco José Viegas. Atento ao rectângulo lusitano, apesar do exílio brasileiro.

Crónicas Matinais, de Ana Albergaria, é o mais despudorado dos bons blogs nacionais. Digo eu. Entre as suas reflexões sérias, muito sérias por vezes, há momentos absolutamente hilariantes. Adoro o seu estilo apressado, nada light e de quem nunca se nega a uma boa pega de caras. Um verdadeiro bálsamo.

Por fim, Rua da Judiaria, o blog de Nuno Guerreiro (não, não é o da Ala dos Namorados, bolas!). Com apenas um ano, é já um monumento na blogosfera lusa. Um manancial de informação de um ponto de vista muito particular.

E foi assim que chegou a manhã. O gato miou à porta e eu fui abrir. Depois, tive mesmo de me deitar no sofá e passar pelas brasas. A repetir a dose. Talvez não pela noite dentro.

publicado por Boaz às 16:46
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