Domingo, 25 de Maio de 2014

Pontes e muros entre Roma e Jerusalém

Fiéis judeus ortodoxos passam por um grupo de cristãos que percorrem a Via Dolorosa, Cidade Velha de Jerusalém.
Foto de Micha Bar-Am.

Aos Cristãos e aos Judeus não faltam graves problemas internos. Alguns deles comuns. Assimilação e degradação de costumes. Afastamento e desinteresse das gerações mais jovens. Casos de pedofilia cometidos por membros do clero. Nenhuma religião tem o exclusivo da virtude. Menos ainda, exclusivo do pecado.

Do lado católico, a bomba dos escândalos de pedofilia rebentou na última década. Do lado judaico, o fenómeno do abuso sexual de menores só agora começa a aparecer nos media. O iceberg da pedofilia em escolas e comunidades judaicas mostrou até agora uma ponta muito pequena. Nos Estados Unidos, Austrália e outros países, alimentado pela onda de escândalos na Igreja Católica, o problema da pedofilia nas comunidades judaicas tem sido discutido. Em Israel, pelo contrário, mal se fala do assunto. Porém, quase todos os meses, descobre-se mais um episódio macabro. Debaixo da superfície, o monstro está vivo e, tal como acontecera no caso católico, é abafado por quem deveria travá-lo.

É óbvio que nenhum destes graves problemas internos é causado pelo outro lado. Mesmo que, há alguns meses, um importante cardeal católico tenha acusado os Judeus e o seu alegado “controlo dos media” de serem os responsáveis pelo escândalo de pedofilia que tem abalado o Catolicismo. Momentos de delírio deste género, de quem quer atirar responsabilidades para o quintal do vizinho acontecem também do nosso lado. Do alto das manias de perseguição que existem de parte a parte, parecemos acreditar que o outro lado só pensa em destruir-nos. Aumentar as divisões que existem antes ambos não resolverá nenhuma das polémicas mútuas. E muito menos os problemas internos.

Será dispensável dizer que a Igreja Católica e o papado não têm uma boa imagem entre os Judeus. Os casos de perseguição e violência contra judeus a mando dos Papas (ou outros com maior ou menor concordância papal) foram numerosos desde que o Catolicismo se estabeleceu como a religião maioritária e dominante na Europa. Todavia, a bem da sinceridade na análise histórica, a situação atual das relações judaico-católicas não podia ser mais distinta daquela que caracterizou os últimos séculos. Como mencionou o Presidente de Israel, Shimon Peres, acuando da eleição do novo Papa Francisco, as relações com o Vaticano nunca estiveram tão boas.

Bons sinais

As grandes mudanças começaram com o Concílio Vaticano II, nos anos 60. Logo em 1964, Paulo VI visitou Israel na sua primeira visita papal. (Uma parte da visita do Papa Francisco, que hoje chega a Israel, é para celebrar o 50º aniversário dessa histórica viagem.) Numa rápida estadia de apenas 11 horas na Terra Santa, visitou vários locais sagrados da Cristandade e encontrou-se pela primeira vez com o patriarca ortodoxo Atenágoras I, num sinal de aproximação entre Roma e Constantinopla, há quase 1000 anos de costas voltadas.

Ainda que na altura a Santa Sé e o Estado Hebraico não tivessem ainda estabelecido relações diplomáticas (apenas o seriam 30 anos depois, em 1994) e a visita tivesse sido conduzida como se Israel não fosse um país independente, o papa encontrou-se com o presidente israelita Zalman Shazar.

Foi um encontro de apenas 20 minutos num remoto posto da fronteira entre Israel e a então Margem Ocidental, ocupada pela Jordânia. Dois papados mais tarde, João Paulo II destacou-se por vários atos simbólicos de aproximação: o estabelecimento de relações diplomáticas com Israel, a visita a Auschwitz, o pedido de desculpas pela Inquisição e outras perseguições anti-judaicas. E acima de tudo a histórica visita a Israel, no ano 2000. Bento XVI voltou a repetir os atos simbólicos desde a sua visita à Alemanha e à sinagoga de Colónia. E o Papa Francisco é reconhecido pela sua excelente relação com os Judeus, já desde os anos em que era arcebispo de Buenos Aires.

Ainda assim, alguns episódios pontuais tenham azedado as relações com Israel e a comunidade judaica. Por exemplo, os planos (nunca concretizados) de canonização dos Reis Católicos, Fernando e Isabel, os quais introduziram a Inquisição em Espanha e ordenaram a Expulsão dos Judeus em 1492. E mais recentemente, já no papado de Bento XVI, o controverso processo de reabilitação do rebelde bispo Richard Williamson, conhecido pelas suas declarações anti-semitas e negação do Holocausto. (*ver nota no final) E também, o apoio declarado do Vaticano à causa palestiniana.

Do lado judaico, o diálogo ecuménico com o Cristianismo tem sido liderado pela corrente Reformista. Os “valores humanistas e universalistas” expressos pelo Judaísmo Reformista atendem antes de mais ao valor supremo do “espírito da modernidade”. Entre os Ortodoxos, as coisas são (um pouco) mais complicadas. Ainda mais em Israel. Na Diáspora, os Judeus, mesmo os ortodoxos, têm um contacto mais ou menos próximo com os não-judeus. Em especial com os Cristãos. Conhecem, por contacto cultural com a sociedade em geral, um pouco da cultura cristã. Pelo contrário, em Israel o contacto entre as diferentes religiões é superficial. E até mal visto. Os preconceitos e a ignorância mútuos são profundos.

Manifestações de desprezo

Se bem que sejam inegáveis as feridas abertas no Povo Judeu pela História, em muitos casos não é promovida uma atitude de reconciliação, mas de constante ênfase nessas feridas. Apesar de inúmeras fontes distintas, muitas delas expressando posições contraditórias entre si, a maioria do pensamento judaico não tem uma boa definição do “não-judeu”. As principais fontes legais judaicas foram escritas em períodos de intensa perseguição anti-judaica. A Mishná, durante a ocupação romana da Terra de Israel. O Talmude, nos primeiros três séculos da era comum, após a trágica destruição do Templo de Jerusalém. O Mishnê Torá de Maimónides, no meio das guerras de cristãos contra mouros da Reconquista. O Shulchan Aruch de Yosef Caro, durante a Inquisição Espanhola... Porém, apesar de não ser possível apagar a História, também não podemos olhar para o mundo como se nada tivesse mudado desde os anos de perseguição romana em que o Talmude foi escrito.

Ainda assim, em muitas yeshivot (academias de estudos judaicos) e em panfletos semanais distribuídos em sinagogas, sempre que o assunto envolve o Cristianismo, os tradicionais preconceitos anti-cristãos são expressos abertamente. Nos media israelitas que eu consumo (a maioria deles são em língua inglesa) frequentemente incluem notícias sobre a relação com os cristãos. Sejam casos passados em Israel ou na Diáspora. Em geral, em qualquer artigo que envolva – mesmo remotamente –, o Cristianismo, levanta-se uma onda de comentários dos leitores que demonstram até onde falta avançarmos no diálogo inter-religioso e na educação para a tolerância. Aliás, do de um comparável nível de intolerância manifestado por leitores “gentios” quando as notícias falam de Israel ou os Judeus.

O mesmo se passa com muitas páginas pró-Israel no Facebook. Em todas essas páginas abundam os “Amigos” cristãos, em geral evangélicos. Até aí, nenhuma objeção. Afinal, entre os gentios, eles são os mais entusiastas ativistas pró-Israel. Todavia, sem qualquer controle, como se fosse uma praga incontrolável, junto com as suas mensagens de apoio a Israel e ao Povo Judeu, costumam introduzir os habituais mantras evangélicos, espalhando a sua mensagem de apelo aos Judeus para aceitarem “a salvação”. Ou seja, Jesus. “Amigos”, mas com uma agenda pouco amistosa.

Da mesma forma que não aceito a difamação do Judaísmo e dos Judeus pelos Cristãos, também não aceito a difamação do Cristianismo feita por Judeus. No caso do Facebook, não foram poucas as páginas pró-Israel que deixei de acompanhar (ou seja, deixe de ser “Amigo”) por achar inaceitáveis as mensagens que aí eram propagadas pelos comentadores, com total conivência dos administradores da página. O discurso de ódio e desrespeito, levado a cabo por alguns fanáticos (de ambos os lados), está bem presente na maior rede social do planeta.

Em inúmeras ocasiões, encontrei-me na muito irónica posição de “defensor da honra cristã”. Logo eu! Ainda que eu próprio tenha a minha própria lista de oposições ao Cristianismo – se assim não fosse, não o teria abandonado – elas não implicam uma atitude de difamação ou até desprezo.

Faltam muitos passos a serem dados, de ambos os lados para que hoje, e no futuro, as relações entre os Judeus e os Cristãos, sejam amistosas. Sobretudo, falta educação. Só ela poderá ultrapassar preconceitos, ajudar a sarar feridas ainda abertas e instaurar o respeito mútuo. Que assim seja, Bezrat Hashem.

* Oficiais do Vaticano declararam que, antes da decisão de reabilitação do bispo Richard Williamson, desconheciam as polémicas opiniões do bispo. O Papa Bento XVI criticou o bispo por suas opiniões anti-semitas e ordenou que ele se retratasse publicamente da negação do Holocausto, sem o qual, não poderia exercer quaisquer funções episcopais dentro da Igreja. Há que realçar que a decisão de reabilitação do bispo Williamson foi uma questão interna católica a fim de integrar o grupo dissidente a que pertence, um pequeno cisma católico tradicional que não aceita as mudanças do Concílio Vaticano II.

publicado por Boaz às 10:00
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Sexta-feira, 15 de Março de 2013

Habemus "chaver" no Vaticano

Março de 2013, Papa Francisco na capa da revista Time.

Dezembro de 2012, o arcebispo Bergoglio acende uma vela de Chanucá numa sinagoga de Buenos Aires.

Com a eleição do novo Papa, é possível pensar na questão do ecumenismo e o diálogo entre Católicos e Judeus. Várias autoridades judaicas felicitaram o escolhido no conclave de 13 de Março. O entusiasmo pela escolha dos cardeais é visível nos círculos judaicos. A começar pelo presidente da República de Israel, Shimon Peres, que convidou o Papa Francisco a visitar Israel o mais breve possível. Ressalvou que as relações do Vaticano com a comunidade judaica estão agora “no melhor nível dos últimos 2000 anos”.

O Rabinato-Chefe de Israel declarou-se satisfeito com a escolha do novo líder da Igreja Católica, expressando os desejos que com o “Papa Francisco, cujas boas relações com o Povo Judeu são bem conhecidas, manterá o mesmo espírito e fortalecer e desenvolver as ligações da Igreja Católica com o Estado de Israel e o Povo Judeu”.

Jorge Mario Bergoglio, até agora Arcebispo de Buenos Aires tem sido uma figura ativa no ecumenismo na América Latina e notado pela relação amistosa com a comunidade judaica, a maior do continente sul-americano. Em Novembro passado, Bergoglio acolheu na catedral de Buenos Aires uma cerimónia evocativa da Kristallnacht, a Noite de Cristal. E em Dezembro, durante a celebração judaica de Chanuká, foi convidado para acender a quinta vela do candelabro numa sinagoga de Buenos Aires.

O Rabino David Rosen, diretor dos assuntos inter-religiosos do Comité Judaico Americano e que tem desempenhado a função de interlocutor do Rabinato-Chefe de Israel para as relações com o Cristianismo, relevou que “o Povo Judeu não poderia ter pedido uma escolha melhor em termos de relações Judaico-Católicas. Nenhum papa antes tinha sido um cardeal com tão próximas relações com uma comunidade judaica”.

Há menos de dois anos, participei numa palestra apresentada pelo tal Rabino David Rosen. Ele destruiu alguns mitos das relações judaico-cristãs. Os quais, de uma perspectiva judaica parecem piores do que são... Na ocasião, questionei-o sobre uma notícia recente que lera num influente diário israelita sobre uma reunião de bispos católicos do Médio Oriente. Na notícia, constava que uma das conclusões dessa reunião fora uma acusação contra Israel pela alegada perseguição aos cristãos (o que seria uma enorme injúria, uma vez que Israel é o único país da região onde existe plena liberdade de culto e onde a comunidade cristã tem crescido). O Rabino veementemente condenou o conteúdo da notícia, negando que essa declaração tenha existido nesses termos.

Ó, a nossa tendência de pintar de negro a nossa própria realidade. Como alguém disse, quando o judeu se esquece que é judeu, o anti-semita faz o favor de o lembrar. Em boa medida, nós parecemos alimentar a nossa identidade judaica à custa do anti-semitismo. (Ou não fosse o anti-semitismo em geral, e o Holocausto em particular, um pilar da atual identidade e mentalidade judaica. Mas isso é um assunto que merecia um artigo à parte).

As coisas parecem ser melhores entre Judeus e Cristãos do que nos parece. E ainda bem. Mas, porque será que apenas parece? Porque, apesar de haver um diálogo ecuménico permanente entre as autoridades religiosas judaicas e o Vaticano, essa boa relação não é ensinada aos leigos, ao povo de cada um dos lados? Muitos católicos mantêm opiniões anti-semitas. E muitos judeus continuam a perpetuar a histórica inimizade entre as duas religiões. Haverá alguma vergonha em destruir pela raiz os mitos e ódios mútuos que foram alimentados durante séculos?

Nota: Para os menos literados na língua hebraica, chaver significa amigo. Esperamos realmente que "Assim seja".

publicado por Boaz às 10:05
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Terça-feira, 30 de Agosto de 2011

Kiddush com tequila (Em todos os lugares se encontram judeus)

Cumprem-se hoje cinco meses desde o dia em que embarquei na mais longa viagem que fiz até hoje: Cancún, no México. Fui visitar a kehilá (comunidade judaica) local. A frequentar o curso de preparação de shelichut¹, recebemos uma proposta séria para a pequena comunidade judaica no Caribe mexicano. Depois de algumas conversas via Internet e troca de emails, fui convidado a passar uma semana com a kehilá. Apenas eu iria viajar para Cancún. Nesta fase inicial de contacto com a comunidade, decidiram que era prematuro que a restante família me acompanhasse.

O programa da visita foi um pouco complicado de gerir. Acima de tudo, por ser a primeira vez que passava por uma experiência deste género. Nas semanas anteriores à viagem tive de preparar várias classes, discursos a serem proferidos na sinagoga durante o Shabbat e atividades para as crianças. Contactei rabinos que tinham trabalhado na América Latina, incluindo no México, para saber que assuntos abordar nas classes, para manter as pessoas interessadas. Uma das classes seria para as mulheres. Aconselharam-me a falar sobre o Amor. Além disso organizaria uma “conferência” com um tema à minha escolha.


Praia de Cancún | Espetáculo de um mimo israelita no shopping Kukulcan Plaza.
Pequeno-almoço comunitário | Vitral maia, cúpula do Kukulcan Plaza.

Porém, o que me levantou mais dúvidas foi a convivência com a débil prática religiosa dos judeus locais. Como comer kosher durante uma semana? Se houvesse alguma atividade na praia ou na piscina – ambientes comuns no dia-a-dia dos judeus locais – como ficaria a questão de tzeniut² (ou modéstia feminina)? E, com alguns membros da comunidade não sendo judeus de acordo com a Lei Judaica (por via de conversões não-ortodoxas) como poderia organizar as rezas na sinagoga?

As conversas com o diretor da organização onde estudei dois anos para a preparação da shelichut deixaram-me bem mais descansado. Era preciso, antes de mais, “aliviar um pouco a cabeça” habituada à estrita ortodoxia da vida judaica de Israel. A comida seria providenciada pela cozinha da comunidade, que é kosher, e pelas famílias que respeitam as regras alimentares judaicas em suas casas, como havia comprovado o próprio diretor numa visita a Cancún, alguns meses antes. Na questão da tzeniut, as opiniões que consultei divergiam. Uma dizia para tentar fixar as atividades de forma que evitasse totalmente esse problema. Outra opinião, que me surpreendeu pela complacência, foi simplesmente um peremtório: “Não olhes”.

Quanto aos possíveis não-judeus que integram as rezas na sinagoga (neste caso, convertidos por correntes não-ortodoxas, que não aceitam todas as regras da Lei Judaica), fui aconselhado a ignorar esses casos e organizar as rezas da maneira regular. Existem inclusive algumas razões haláchicas para esta leniência, por isso durante a minha visita não deveria abordar estes casos problemáticos.

A viagem de avião para Cancún foi difícil de aguentar. O horário do voo, saído de madrugada de Tel Aviv, estragou-me a noite de sono. O frio, o barulho dos motores, das dezenas de pessoas a roncar e tossir e o choro das crianças tornaram o longo voo de 12 horas até Filadélfia uma tormenta. A paranóia de segurança dos EUA iria fazer-me correr na curta escala entre os voos. Nem mesmo para quem está habituado à apertada máquina de segurança em Israel, as regras praticadas nos EUA são fáceis de suportar.

Cheguei a Cancún quase 24 horas depois de sair de casa. Passei do fresco início de Primavera de Gush Etzion para o escaldante e interminável Verão das Caraíbas. À saída do aeroporto, a rajada sufocante dos mais de 30 graus e da imensa humidade. O ar condicionado seria o meu melhor amigo naquela semana. Fui recebido pelo presidente da comunidade. Antes de me levar ao hotel, no centro da cidade, passámos pelo pequeno centro comunitário judaico para conhecer as instalações, a dois quarteirões de distância do meu hotel.

Teria algumas horas para descansar, depois de um duche. Antes de me deitar, ainda mandei uma mensagem para casa, pela Internet. Sete horas de diferença em relação a Israel significavam um quase absoluto desencontro de horários para marcar uma conversa com a família. Uma pessoa da comunidade tinha mandado entregar dois cestos com comida kosher (fruta, sumos e bolachas) para satisfazer o meu apetite no hotel. Depois do duche, da mensagem para o lar, do curto descanso, de comer um pouco – no voo de 4 horas desde Filadélfia não havia comido nada – começava o programa de trabalho daquela semana de visita à comunidade judaica de Cancún. As reuniões foram todas à volta da mesa de jantar, com as famílias dos líderes da comunidade.

Antes do primeiro almoço de trabalho, fui levado a um breve passeio para apreciar a famosa praia de Cancún. A alguns quilómetros do centro da cidade, percorrendo a avenida onde se situam os gigantescos hotéis, os clubes noturnos e os centros comerciais luxuosos, chegámos a um ponto onde pude admirar o Mar das Caraíbas, de um azul-turquesa indescritível. Perante tal grandiosidade, recitei a bênção: “Bendito És Tu, Eterno Nosso Deus, que fazes a Obra da Criação”. Pela primeira vez, vi o Atlântico do seu lado ocidental.

Num local tão improvável para encontrar vida judaica organizada como a costa caribenha do México encontrei uma comunidade pequena, de apenas 40 famílias. Todos tinham chegado a Cancún vindos de outra região do México, a maioria da cidade do México. Ou de outros países. Sem escola própria, minada pela assimilação e os casamentos mistos, era até então uma comunidade associada ao Judaísmo Conservador. A atuação do último rabino da comunidade tinha sido de tal modo desastrosa, dando uma péssima fama da comunidade de Cancún, que esta decidiu contratar um rabino ortodoxo.

Não que, com a chegada de um rabino ortodoxo, a comunidade se tornaria só por si ortodoxa. Contudo, apercebi-me que as mudanças pretendidas eram mais do que cosméticas. A liderança estava consciente das mudanças profundas necessárias à sobrevivência da pequena congregação. O problema das conversões “expresso” ocorridas na fase “conservadora” era o assunto mais quente da futura atuação do futuro rabino da comunidade. Num fenómeno demasiado corrente na Diáspora, quase todos os homens da comunidade haviam casado com mulheres não-judias. Em alguns casos, elas tinham passado a tal conversão vapt-vupt, em outros nem isso. Isso significava que entre as crianças da comunidade, poucas seriam judias de acordo com a Halachá (a Lei Judaica).

Para uma comunidade tão pequena e tão pouco religiosa – poucas famílias cumprem as regras alimentares judaicas e apenas um membro da comunidade cumpre o Shabat – a participação nas atividades religiosas da sinagoga é bastante elevada. Ao contrário de comunidades maiores (como Lisboa, por exemplo), a sinagoga tem minyan diariamente. Todas as manhãs, após o serviço religioso: o pequeno-almoço comunitário é uma oportunidade de ouro para organizar uma breve sessão de estudo. No Shabat, após o Kabalat Shabat há sempre um jantar da comunidade, frequentado por umas 50 pessoas. E o almoço na manhã seguinte também é partilhado por várias famílias. Cada um sente a sua responsabilidade como membro, para que a restante comunidade possa manter-se ativa. O compromisso com a vida comunitária é fortíssimo e comovedor de testemunhar.

Durante a semana, servi de chazan (oficiante) durante os serviços matinais na sinagoga. Também fui eu que li na Torá. Duas estreias absolutas para mim. Não creio que me saí tão mal, mas precisarei de mais prática. Na manhã de domingo, a ocasião de conhecer algumas crianças e participar nas suas atividades semanais na sinagoga, junto com o animador do grupo de jovens, recém regressado de Israel. Através de algumas brincadeiras didáticas ensinei-lhes um pouco sobre a festa de Pessach, a acontecer daí a algumas semanas.

Por uma questão de cortesia, visitei o emissário Chabad na cidade. Devido à situação dos casamentos mistos e das conversões, ele tinha recusado a oferta de ser o rabino da comunidade. Por isso, tirando algumas aulas com algumas famílias e o abastecimento de alguma comida kosher importada, ele dedicava-se quase exclusivamente a assistir os turistas judeus de visita a Cancún.

Uma das coisas que mais me impressionou na visita foi a simpatia e informalidade dos judeus cancunenses. Apesar de quase todos serem milionários, vivendo em mansões faustosas, não tinham o menor toque de snobismo, tão comum entre os ricos. (E essa é a imagem que tenho dos judeus mexicanos).

Depois de uma semana de visita, apesar de todos os desafios que uma shelichut em Cancún implicaria, imaginei que seria uma comunidade interessante onde trabalhar. Sendo uma comunidade tão pequena e remota, era contudo extremamente unida e interessada na vida comunitária, algo que falta noutras paragens. O local também ajudara a criar uma boa perspetiva de decidir transplantar a família para tão distantes latitudes. As questões económicas nem sequer foram mencionadas. Esse assunto deveria ser relegado para uma etapa mais avançada nas negociações.

Poucos dias após o regresso a Israel recebi a resposta da kehilá. Eu não seria o escolhido para liderar a comunidade. A minha falta de experiência, face às complicadas questões que rodeiam a vida judaica em Cancún, determinara este desfecho. Ainda que um pouco desiludido, reconheço a razão da decisão. As tarefas são hercúleas e o novo shaliach terá de ter um pulso muito forte para aguentar as adversidades. Além de, diplomaticamente ter de engolir alguns sapos e por vezes fechar os olhos, por outro terá de ter coragem de bater na mesa quando seja imprescindível. Só desejo o maior sucesso ao que tomar o cargo que, um dia pensei que poderia ser eu a realizar. De Cancún e dos seus judeus guardo ótimas memórias.

¹ Shelichut – Literalmente, "missão". O termo aplica-se aos rabinos e educadores (sendo estes chamados de shelichim, "enviados"), que vão trabalhar temporária ou definitivamente com as comunidades judaicas da Diáspora. Também é aplicado aos diplomatas.

² Tzeniut – "descrição" ou "modéstia". Refere-se em especial às regras de vestuário feminino para evitar expor demasiado o corpo. Algo especialmente difícil nos 12 meses de verão de Cancún.

publicado por Boaz às 19:35
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Quarta-feira, 29 de Junho de 2011

Mazal tov!

Ainda que, como instituição o casamento esteja em grave crise, o dia da boda é – depois do nascimento – quase universalmente considerado a mais importante data da vida de alguém. Em todas as culturas, a formação de uma nova família é um evento rodeado de inúmeros rituais, tradições, formalidades e superstições.

As festas de casamento judaicas, apesar de serem ocasiões obviamente intensas e emocionantes, duram apenas algumas horas. Em Israel, pelo menos. Não um dia inteiro, como é normal nas bodas cristãs. Em Israel, o único dia de descanso semanal é o Shabbat, o Sábado. O Domingo, pelo contrário, é um dia de trabalho normal. Porém, de acordo com a Halachá, a Lei Judaica, não se realizam casamentos no Shabbat. Restarão os dias úteis para a realização do matrimónio. Depois do horário de trabalho, ao final da tarde, ou já de noite. Em Israel, a maior parte dos casamentos não se realizam em sinagogas. Toda a boda, incluindo a cerimónia religiosa, realiza-se normalmente num salão de festas. Ou num hotel.


Casamento judaico em Marrocos, de Delacroix. Museu do Louvre.

Tirando os membros mais chegados da família, é normal os convidados chegarem à boda diretamente do trabalho. A informalidade israelita não impõe o uso de gravata ou fato de cerimónia. Nem sequer ao noivo. Entre o público dati leumi, ou ortodoxo moderno israelita, é comum muitos dos homens, em especial os mais jovens, usarem sandálias que noutras paragens seriam consideradas adequadas a uma ida à praia. Se esse é o calçado que eles usam até no Shabbat, porque seriam impróprias para usar num casamento?

Entre os Judeus religiosos, muitos dos casais são unidos por intermédio de um shiduch. Algum intermediário combina o encontro entre o rapaz e uma potencial pretendente. Apesar de o shiduch ter a aparência de "casamento arranjado", a decisão de casar-se é feita exclusivamente pelos noivos e nem sequer pelos seus pais. A Lei Judaica proíbe absolutamente a coerção de uma das partes a casar-se com quem não deseja. Apenas o "empurrão inicial" e alguns conselhos intermédios são feitos pelo shadchan, o tal intermediário.

Após a oficialização do noivado – é comum haver uma pequena cerimónia – são poucos meses, ou mesmo só algumas semanas, até à realização do casamento. Não há tempo a perder, se o casal já deseja a união! Além dos inúmeros detalhes de uma qualquer cerimónia de casamento: a escolha do salão, do fotógrafo, da decoração, da banda ou do vestido de noiva, o casamento judaico implica outros trabalhos extras.

Em Israel não existem casamentos civis. Apenas religiosos. Sejam eles judaicos, muçulmanos, cristãos ou drusos. Para os Judeus, toda a burocracia do casamento tem de passar pelo rabinato local. Uma das dificuldades acrescidas nos últimos tempos é a exigência de uma "prova de Judaísmo". Com a imigração de gente de todo o mundo, com muitas pessoas nascidas de uniões não realizadas de acordo com a Halachá, ou que não possuem documentos que provam os casamentos familiares, torna-se mais difícil provar a cadeia familiar judaica. Sem a certeza de que se trata de duas pessoas judias (nascidas de mãe judia ou que passaram uma conversão ortodoxa), o casamento não pode ser realizado de acordo com a "Lei de Moisés e Israel".

Um dos fenómenos causados por estas exigências de prova de identidade – que por vezes revelam que afinal um dos noivos não é judeu – é a decisão de casar fora de Israel. Isto, no caso de o membro não-judeu do casal não desejar passar um processo de conversão. Desta forma, os noivos viajam para a Grécia ou Chipre e aí realizam um casamento civil. Esta união é reconhecida em Israel.

Depois de ultrapassada a burocracia do rabinato, existe a exigência de estudo das leis familiares judaicas. A separação do casal durante o período menstrual, rodeada de complicadas leis, é uma das mais respeitadas tradições do Judaísmo. Mesmo que não sejam cumpridas – em todo ou em parte –, pela maioria das famílias não-observantes, as futuras noivas judias passam pelo menos por uma classe sobre "as leis de pureza familiar". Entre os judeus religiosos, também os homens passam um período de estudo destas leis antes do casamento. Ao mesmo tempo, são estudados assuntos como a harmonia familiar e formas de a conservar, evitando a discórdia.

Nas vésperas do grande dia, noiva deve passar por uma imersão numa mikve, um tanque de águas usado para a purificação ritual. Também existe o costume de o noivo fazer uma imersão na mikve. Em algumas comunidades ultra-ortodoxas existe o costume de o futuro casal não se encontrar, e muitas vezes nem sequer falaram um com o outro pelo telefone, uma semana antes do casamento. Com isto pretende-se aumentar a saudade entre os dois e a ânsia de realizarem a sua união. No próprio dia do casamento cada um dos noivos costuma ser acompanhado por um "guardião". Alguém que os vigia e se assegura que tudo corre tranquilamente e não se deixam vencer pela ansiedade.

Como nos casamentos ocidentais, também o noivo judeu chega primeiro ao local da cerimónia. Há que tratar da assinatura da ketubá, o contrato matrimonial. Perante o rabino oficiante da cerimónia e duas testemunhas – e normalmente também o pai da noiva –, o noivo assina a ketubá, um documento que atesta os direitos da futura esposa e as obrigações do futuro marido. Nesta altura, enquanto o noivo trata das últimas formalidades legais, noutra parte do salão de festas a noiva encontra-se rodeada das amigas, sentada numa cadeira decorada.

Após a assinatura da ketubá, dá-se início à festa. A banda de música que anima a ocasião e os homens convidados rodeiam o noivo, que inicia um cortejo até ao lugar onde a sua noiva está sentada. Para os que cumprem o costume, esta é a primeira vez que os noivos se vêem numa semana. Aí, cobre-lhe a cabeça com o véu. Daí, o noivo, ladeado pelo pai e o sogro, é seguido pelo mesmo cortejo até à chupá, o pálio nupcial sob o qual será realizada a cerimónia religiosa. A noiva chega pouco depois acompanhada pela mãe e, às vezes, também a sogra.

A cerimónia é bastante simples e rápida. Sete bênçãos são recitadas sobre um copo de vinho. Às vezes, cada uma é recitada por um homem diferente, desde rabinos convidados até amigos e familiares dos noivos. Depois da segunda bênção, o noivo entrega a aliança à noiva, declarando que "Estás consagrada para mim através deste anel, como dita a lei de Moisés e Israel". "Consagrada, consagrada, consagrada!", os convidados declaram em voz alta. A ketubá é lida. Normalmente, este é um "momento morto" da cerimónia, uma vez que o contrato matrimonial está escrito em aramaico, uma língua que muito poucos entendem. Ao final das sete bênçãos, recorda-se Jerusalém: "Se eu te esquecer Jerusalém, que a minha mão direita perca a sua força; que a minha língua se cole ao meu palato se eu não te lembrar; se eu não te elevar ao topo da minha alegria".

O momento mais famoso da festa de casamento judaico é o quebrar do copo de vidro. Apesar de se seguir de um "Mazal tov!" (Boa sorte!) em uníssono, o ato simbólico de partir o copo representa a lembrança da destruição do Templo de Jerusalém e de como a alegria desta festa não pode ser completa, ao sabermos que o Templo continua ausente e o Povo de Israel ainda está distante da sua glória de outrora.

Os convidados invadem a chupá para saudar os noivos. Depois, novamente a barafunda do cortejo de convidados acompanha o casal desde a chupá até a um lugar onde os dois, pela primeira vez, se encontram a sós. É a hora de os convidados poderem sentar-se à mesa e comer. Porém, dentro de alguns minutos, quando os noivos voltarem, a euforia da festa será explosiva.

Nas festas de casamento judaicas ortodoxas, existe uma separação entre homens e mulheres. Ao menos na parte das danças. Homens e mulheres dançam em espaços distintos. E com uma barreira, mais ou menos alta, a separá-los. No caso das comunidades ultra-ortodoxas (e também alguns sionistas religiosos) até as mesas da refeição se encontram separadas por géneros.

O baile do casamento é uma ocasião frenética. É quase milagroso como não acontecem desastres durante a festa, dado o nível do frenesi. De mãos dadas em cadeia, os homens dançam em redor do noivo, cada vez mais rapidamente. O mesmo fazem as mulheres em volta da noiva. Os dançarinos mais enérgicos vão passando das rodas exteriores cada vez mais para o interior do furacão dançante. Um convidado mais entroncado levanta o noivo nos ombros. Outros levantarão o pai do noivo e o sogro. Rodando-os e balançando-os sob os aplausos delirantes dos convidados.

De tempos a tempos, o noivo é deixado sentar numa cadeira no centro da multidão de bailantes para descansar por alguns instantes. Suado e exausto, alguém lhe traz uma bebida. Perante o noivo sentado, alguns dos amigos fazem palhaçadas, acrobacias, exibições de dança ou até números de circo com fogo e malabarismos. Tomados pelo entusiasmo e assumindo a missão de alegrar os noivos, até respeitáveis rabinos se transformam em bobos da festa.

É preciso não esquecer que tudo isto acontece num dia de semana. E amanhã também se trabalha. Pelo que a festa acaba relativamente cedo. No final da refeição, restarão apenas os familiares e os amigos mais chegados. As mesmas bênçãos que foram recitadas sob o copo de vinho na chupá são repetidas após a bênção final da refeição. Ainda que a festa não dure sete dias como as bodas ciganas, as refeições festivas em honra do novo casal repetem-se durante uma semana. O primeiro Shabbat após o casamento é especialmente celebrado. Depois de passada a primeira semana, com o seu ambiente de festa quase diário, os noivos entrarão a sério na vida de casados. Para a maioria das jovens famílias, os filhos chegarão menos de um ano depois do “sim” nupcial.

Nesta altura do ano, o calendário judaico aproxima-se dos chamados yimei bein hametzarim, os "dias entre os sofrimentos". São as três semanas que separam 17 [do mês hebraico] de Tamuz e 9 [do mês] de Av, duas datas marcadas por tragédias na história judaica. Nesta época de luto parcial, não se realizam casamentos. Por isso, até à entrada nas três semanas fatídicas em que não se trocam os votos de casamento, acumulam-se as bodas em Israel.

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Sábado, 1 de Janeiro de 2011

Este não é o meu Deus

Mesmo depois de revelar a minha intenção de conversão ao Judaísmo aos meus amigos católicos, continuei a frequentar com fiel assiduidade o Grupo de Jovens da paróquia local, ao qual já pertencia há alguns anos. Por duas razões: todos os meus principais amigos eram também membros do grupo e os valores aí professados eram mais de natureza ética do que puramente religiosa. Ainda que aos poucos me fui abstendo de participar em certas atividades que estavam para lá da minha "linha vermelha" e eram inconciliáveis com a minha opção. A exclusão mais evidente foi cantar na igreja, mesmo que por uma questão diplomática, tenha aberto excepções pontuais por ocasião de casamentos de amigos. Também continuei a participar no Jantar de Natal, uma das raras ocasiões anuais em que o Grupo se encontrava completo.

Este ano, como em todos os Dezembros, os membros do Grupo (entretanto extinto, mas cujos ex-membros mantêm um contacto mais ou menos próximo) combinaram reunir-se uma vez mais para o encontro natalício. Na troca de e-mails para decidir os detalhes do encontro, surgiram várias opiniões distintas. Ao longe, decidi também intervir numa disputa que se levantava entre dois amigos. Numa tentativa de serenar os ânimos, alguém sublinhou que o grupo era composto de pessoas com opiniões diferentes. E, sem qualquer relação com a discussão, realçou que "seguir Jesus" fora a essência dos ensinamentos do Grupo. Na mesma frase, foi destacado que eu fora o único a sair do caminho de forma evidente.


Igreja e Sinagoga, esculturas na fachada da catedral de Estrasburgo, França.
À direita: 'Igreja', um rei segurando o cálice do sangue do Redentor.
À esquerda: 'Sinagoga', uma mulher vendada, de bastão partido e as Tábuas da Lei ao contrário.

Ainda que tenha dado toda a razão à declaração, decidi dar uma explicação: sim, eu havia deixado de "seguir Jesus", mas que o havia seguido durante bastante tempo durante a minha vida. Afinal, fizera a mesma catequese que todos os outros membros do Grupo. Realcei que não vivera o Cristianismo de forma superficial, e que também não fora de forma superficial que tomara a decisão de abandonar o Cristianismo e aderir ao Judaísmo. A minha declaração levantou uma onda de e-mails de conteúdo teológico e uma certa "militância cristã" como nunca me havia deparado desde a minha separação do Cristianismo. Senti-me a ser alvo de uma tentativa de re-evangelização.

Perante a minha afirmação de "apostasia consciente" recebi uma apaixonada descrição de Jesus como salvador e redentor, afirmando a universalidade da mensagem cristã. Nada de novo: toda aquela descrição condensava os meus anos de catequese e de vivência cristã ativa. O autor da mensagem parecia sugerir uma dúvida na seriedade da minha decisão, perguntando se eu havia dedicado à “busca de Jesus” o mesmo empenho que dedicara ao meu processo de conversão. Expliquei que, mesmo antes da decisão de conversão, existem imensas questões e mudanças não apenas na prática, mas sobretudo em termos de concepção do divino e da sua relação com o mundo. A esta altura percebi – e assim declarei – que obviamente aquela discussão não levaria a lugar algum. Nem eu, um judeu consciente, nem eles, cristãos convictos, iríamos mudar de opinião.

Porém, parece que do outro lado, essa constatação não foi entendida. Antes pelo contrário. E em resposta recebi uma citação da Epístola de Paulo aos Coríntios: “(…)E não fazemos como Moisés, que punha um véu sobre o seu rosto para que os filhos de Israel não vissem o fim do que era transitório. Mas o entendimento deles foi obscurecido, e ainda hoje, quando lêem o Antigo Testamento, esse mesmo véu continua a não ser removido, pois é só em Cristo que deve ser levantado. Sim, até hoje, todas as vezes que lêem Moisés, um véu cobre-lhes o coração. Mas, quando se converterem ao Senhor, o véu será tirado. (…)”

Na comparação evidente do Judaísmo com o Cristianismo, entre a riqueza das metáforas desta "Glória da Nova Aliança", encontram-se temas usados em todas as eras pelos teólogos cristãos, na afirmação da nova e radiante fé cristã em contraste com a velha e obsoleta fé judaica. A cegueira judaica que se recusa a ver e aceitar a luz, a ideia da exclusividade na salvação pela via cristã e a desonra dos descrentes. Tive a sensação de estar perante um exaltado pregador medieval, de crucifixo em punho, a tentar convencer os incrédulos, os desgraçados que se recusam a receber "a Glória".

Uma das perguntas clássicas que surgem quando falo acerca da minha conversão ao Judaísmo é: "mas como foi a reação das pessoas à tua decisão?". A curiosidade refere-se em especial à minha família, mas também aos amigos e companheiros cristãos. Ao revelar que nunca recebi qualquer tipo de oposição ou descriminação por parte dos amigos, os ouvintes mostram-se totalmente incrédulos. Cristalizada em muitas mentes judaicas está a ideia que os Cristãos perseguem, oprimem e odeiam os Judeus. Afinal, "Esaú odeia Jacob" ou em outras palavras "Roma odeia Israel". Sob esta ideia, seria inconcebível que um membro abandonasse tranquilamente o "rebanho", sem qualquer reação negativa dos crentes.

Na macabra contabilidade das centenas de milhões de sacrificados no altar das ideologias (sejam religiosas ou seculares), o Cristianismo detém um lugar de destaque. Cruzadas, Inquisições, Expulsões e perseguições implacáveis, conversões forçadas e guerras religiosas. No caso extremo da Shoá (o Holocausto), a atitude cristã, para lá de corajosas exceções, variou entre o silêncio cúmplice e a participação ativa. Estas são algumas das imagens que os cristãos deixaram na História nos últimos dois milénios e são aquelas que ficaram gravadas mais fundo entre os Judeus. É injusto generalizar, mas não é possível negar que o Catolicismo tem um sério “problema de imagem”. E não apenas entre os Judeus.

Na discussão com os meus amigos católicos acerca da minha conversão, evitei todavia referir a questão da tolerância e da aceitação da diferença por parte dos cristãos. Ainda que lemas catequéticos cristãos como "Deus é amor" e princípios éticos como "dar a outra face" tenham sido espezinhados inúmeras vezes ao longo da História, não foi por um conflito ético em aceitar o evidente fosso entre a mensagem apregoada pela Igreja e o comportamento de muitos dos seus líderes e seguidores que me levou a distanciar e por fim abandonar completamente o Catolicismo. Se a razão da minha mudança de religião fosse um desfasamento entre a doutrina e a prática dos fiéis católicos, eu poderia simplesmente ter aderido a uma outra corrente do Cristianismo. Ou até, passar a ser apenas mais um cristão "sem denominação", mantendo a crença em Jesus mas não em qualquer igreja ou religião organizada. Não foi esse o caso.

Ainda que nos últimos 2000 anos o Cristianismo tivesse – ao menos entre os seus próprios aderentes – instaurado a paz, o problema mantinha-se. A minha divergência era com o cerne da crença cristã de que Jesus não só é o Messias, o Salvador, como é o próprio Deus. "Verdadeiro Deus e verdadeiro homem", como foi declarado na referida troca de mensagens. E, apesar da enorme variedade das igrejas e seitas cristãs, esta crença é comum a todas as correntes do Cristianismo.

Reconheço como a crença em Jesus pode ser satisfatória para muita gente, reconfortante até. Tendo sido uma pessoa, com as suas dores, dúvidas e tentações, é extremamente fácil identificar-se com ele. Falando contra a corrupção das elites do seu tempo, proclamando a superioridade da justiça em relação aos rituais, a sua doutrina ética poderia ser apreciada até pelo pacifista ateu mais obstinado. (Aliás, a crítica de Jesus à corrupção e hipocrisia da liderança política e religiosa do seu tempo tampouco é original. Esta acusação foi proferida com veemência por vários profetas das Escrituras Judaicas.)

É muito mais difícil a identificação com uma divindade cuja essência é puramente espiritual e sem qualquer paralelo com algo que exista na natureza. Usando as palavras de Moshe Luzzatto no primeiro capítulo de "O Caminho de Deus", um Deus "cuja verdadeira natureza não pode ser entendida de qualquer forma por ninguém além Dele mesmo. A única coisa que sabemos sobre Ele é que a Sua existência é perfeita em todas as formas possíveis e não existe Nele qualquer deficiência".

Ou, como descreveu o Rabino Joseph Soloveitchik em "O Solitário Homem de Fé": “Deus, como o soberano cósmico, é contemplado na sua infinita majestade reinando supremo sobre a Criação, a Sua vontade cristalizada na lei natural, a Sua palavra determinando os padrões de comportamento da natureza. Ele está em todo o lado, mas ao mesmo tempo, acima e fora de tudo”. O Criador do Universo atua por detrás do "curso natural das coisas" e a Sua Presença acompanha os homens. Mas não é um deles.

A natureza humana de Jesus, em si mesma contradiz a existência da perfeição absoluta da essência de Deus. A natureza humana, por mais elevado que seja o nível que atinja, será sempre limitada, dependente, corruptível. No fundo, não existe nela a perfeição absoluta. Deus é único, indivisível, perfeito e independente de qualquer outra existência. E por isso, não pode ser reduzido a uma existência (mesmo que paralela, se atendermos à crença de duas dimensões da Trindade: o Pai e o Filho) dentro de um corpo humano.

Durante os meus anos de busca espiritual esforcei-me por entender o mistério da dualidade humana e divina de Jesus, assim como o conceito de Salvação defendido pelo Cristianismo. A morte de Jesus – ou seja, a morte do próprio Deus – servindo de perdão definitivo aos pecados de todos os homens. E apenas ela salva. Naquela época, entre as ruínas do meu edifício espiritual, apenas uma crença se manteve inabalável e a salvo do desmoronamento: a crença na existência de Deus.

Alguém que leia estas linhas poderá até considerar-me profundamente enganado em relação às verdades do Cristianismo. Alguém que faça as mesmas perguntas que eu fiz poderá, pelo seu próprio estudo e reflexão, encontrar respostas distintas que o satisfaçam. Poderá até emergir das respostas com uma fé cristã ainda mais fortalecida. Não ponho isso em causa. No entanto, creio que a maioria dos crentes – aliás, de qualquer religião – na verdade nunca se perguntaram a fundo sobre aquilo em que acreditam. Vivem (quando vivem) a sua religião pela força da inércia. A fé não tem de ser racionalmente lógica e, num tempo em que praticamente tudo pode ser explicado pelas teorias científicas, só o ato de acreditar já é um ato de coragem. Mas cada um, se leva a sério a sua fé e a assume de forma consciente, tem de conseguir conciliar os aparentes contrários.

Na altura da revelação da minha intenção de conversão ao Judaísmo aos meus amigos do Grupo de Jovens não revelei os porquês da decisão. Reconheço a delicadeza do tema. Reconheço como a fé em Jesus pode ser algo central na vida daqueles que acreditam nele. Estando num grupo de jovens católico, tive o cuidado de escolher apenas os membros com um Cristianismo mais amadurecido para saberem do meu abandono da fé cristã. Excluí os membros mais novos, há pouco tempo no caminho. Podia simplesmente abandonar o grupo e percorrer sozinho a minha jornada, sem dar satisfações aos meus amigos cristãos. Contudo, por serem amigos, achei importante partilhar a minha mudança com eles. Não me arrependo de o ter feito.

Por fim, afirmo que não existe possibilidade de diálogo teológico entre o Judaísmo e o Cristianismo. O diálogo é apenas possível como forma de trabalhar em conjunto para resolver problemas da Humanidade, em particular nas trágicas relações históricas entre Cristãos e Judeus. A barreira teológica entre ambas as religiões é absolutamente intransponível. Enquanto para os Cristãos, cuja religião se fundamenta na crença de Jesus como o Salvador, o cumpridor das profecias messiânicas judaicas e a própria divindade; para o Judaísmo, as profecias messiânicas ainda não foram cumpridas. Ainda que se fale tanto em "cultura judaico-cristã", o Cristianismo e o Judaísmo possuem na verdade, duas concepções antagónicas do divino.

Nunca me escusei às perguntas dos amigos, quando elas surgiam. A minha conversão foi uma decisão pessoal e eu não tinha a intenção de levar ninguém atrás de mim. Por isso sempre mantive o assunto na maior discrição. Ninguém me verá a pregar na praça ou a bater às portas, armado com a Bíblia Hebraica, tentando convencer os outros a aceitar a verdade judaica. Não é esse o caminho do Judaísmo.

Não espero a compreensão dos cristãos – nem sequer dos meus amigos – pela minha mudança de crença. Menos ainda a sua aprovação. Não peço nem uma nem outra. Só não aceito que ponham em causa a minha seriedade na forma como vivi o Cristianismo e de como o abandonei.

publicado por Boaz às 23:00
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Terça-feira, 7 de Dezembro de 2010

Fé e esforço

A chuva, que tardava neste Outono israelita, chegou ontem. Porém, a situação de seca extrema, que se agrava de ano para ano, não se resolve com um dia de aguaceiros, por muito generosos que sejam (o que nem sequer foi o caso de ontem). Devido à grave seca que se vive em Israel, causada pela extrema falta de chuvas – que até agora haviam caído apenas durante um dia desde a Primavera passada –, e com o Outono quente e seco já quase no fim, o Rabinato-Chefe de Israel apelou às comunidades judaicas para rezarem pelas chuvas. Durante os três serviços religiosos diários – na noite, manhã e tarde, por esta ordem – os fiéis devem incluir na oração principal um excerto pedindo pela misericórdia divina para que se abram as portas do céu e caiam chuvas abundantes. E não apenas isso, foi também decretado um dia de jejum.


Pescadores num cais de Tiberias, nas margens do Kineret, ou Mar da Galileia.
Veja-se o baixo nível das águas, em virtude da seca prolongada em Israel, 2009.

Israel, ao contrário da generalidade dos outros países, não dispõe praticamente de rios. O único que corre o ano inteiro, o Jordão, não é mais de um ribeiro estreito e, durante o Verão, é tão pouca a água que nele corre que não passa de uma vala fétida e lamacenta. As chuvas são portanto essenciais para as reservas de água da nação.

Na Yeshivat HaKotel, onde estudo, antes de Minchá (a oração da tarde), o Rosh (diretor) Yeshivá atual e o anterior falaram perante todos os alunos reunidos no Beit Midrash, a sala de estudos principal que funciona também como sinagoga. Lembraram a gravidade da condição de carência de chuvas e a relação, de acordo com as fontes judaicas, entre as bênçãos do céu e o cumprimento dos preceitos divinos. A seca é um sinal do alto, de que algo vai mal cá em baixo.

Apesar da importância da mensagem dos sábios, faltou referir algo que, ainda que seja simples, talvez não seja compreendido por todos: a necessidade de poupança de água. Nenhuma palavra foi dita nesse sentido. Fiquei espantado pela ausência deste recado nas prédicas dos rabinos. Porém, não totalmente. Afinal, a sociedade israelita em geral e o público religioso em particular, estão em grande medida afastados das questões ambientais.

Na região centro do país, nos arredores de Tel Aviv, a preocupação pela ecologia é algo que começa a fazer-se sentir, em especial nos subúrbios habitados por judeus originários da Europa e América do Norte. Para os judeus religiosos porém, a questão ecológica é relegada para um plano muito inferior na lista das prioridades. Talvez por estas questões estarem tão associadas aos esquerdistas, chilonim, os não-religiosos.

Um dos exemplos do descurar da poupança de água entre os religiosos relaciona-se com o preceito de netilat yadaim, a lavagem ritual das mãos. A Halachá (ou Lei Judaica) prescreve a lavagem das mãos para efeitos rituais assim que a pessoa se levanta, representando uma purificação do corpo que acaba de "renascer do sono". O mesmo se passa antes de comer pão, representando a pureza que deve existir na hora da refeição. A Halachá prescreve que a quantidade mínima de água necessária para netilat yadaim é de um reviit, uma medida de contagem de líquidos equivalente a pouco mais de 90 ml. Outras opiniões defendem que essa medida equivale a 160 ml. Em qualquer dos casos, não é muita água.

Para realizar o ritual de netilat yadaim usa-se uma natlá, uma caneca especial de duas asas. Uma natlá comum comporta cerca de um litro de água, ou até mais, bem acima da quantidade mínima necessária para a ablução das mãos. Porém, como se uma caneca cheia não fosse suficiente, alguns religiosos ainda são mais estritos no cumprimento desta prática, despejando sobre as mãos não apenas uma natlá cheia de água, mas duas. Um verdadeiro exagero, ainda mais nestes tempos de escassez.

A sabedoria judaica ensina que a reza destinada a receber uma bênção divina deve ser acompanhada do esforço pessoal para atingir esse objetivo. A isso chama-se histadelut. E o esforço não é sinal de falta de fé. Afinal, ninguém se questiona se em caso de doença, seja falta de fé ir ao médico e tomar medicamentos, ao mesmo tempo que se reza por saúde. Então, alguém pensará que é falta de fé rezar para que as chuvas caiam em abundância e, ao mesmo tempo esforçar-se para poupar as escassas reservas existentes?

Para além do aumento da reza, das boas ações e do estudo de Torá para receber a misericórdia dos Céus em relação às chuvas, deveria haver um esforço pessoal para não desperdiçar água. Não devemos esperar milagres nem basear a fé na sua eventual ocorrência. Só quando o homem dá o máximo de si mesmo, torna-se merecedor da ajuda divina.

publicado por Boaz às 10:24
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Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

Crescei e multiplicai-vos

Logo após a criação de Adão por Deus, este foi ordenado a dar continuidade à sua própria espécie. "Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e conquistai-a". Esta foi a primeira ordem divina ao ser primeiro humano recém-criado. Nenhuma outra criatura: animal, peixe ou planta, foi instruído para se reproduzir. Podemos presumir dessa exclusiva ordem divina aos humanos que "reproduzir-se" é mais do que seguir a lei natural, comum a todas as criaturas vivas.

Em todas as culturas – dos "primitivos" caçadores-recoletores da Nova Guiné aos "moderníssimos" japoneses, a formação de uma família é rodeada de uma simbologia especial. A família é a génese de todas as civilizações. Numerosos povos têm na sua mitologia histórias de pais, filhos e irmãos. Desde Zeus/Júpiter e os seus numerosos filhos que constituem o topo do panteão de deuses greco-romanos até às humanas dinastias reais em que o filho sucede – na maioria dos casos – ao pai.

Também no Judaísmo, desde os tempos do patriarca Abraham, que a família é a base da transmissão das tradições. Logo ao oitavo dia, os rapazes judeus são circuncidados. Em hebraico brit milá, o ritual é um dos mais respeitados no Judaísmo. Marca a entrada no pacto entre Deus e Abraham, daí que seja chamado o "pacto do nosso patriarca Abraham".


Cohanim, os membros da casta sacerdotal, abençoam um menino de oito dias,
após a circuncisão, Jerusalém, 2006.

Em geral, nas festas judaicas, a família tem um papel ativo nas celebrações. Em Pessach (a Páscoa Judaica), é em volta da mesa familiar que se realiza o Seder, a refeição acompanhada do relato do Êxodo da escravidão egípcia para a Terra de Canaã. A participação das crianças no desenrolar do Seder é essencial. Em Succot, a Festa das Cabanas, toda a família come durante sete dias em cabanas construídas na varanda ou no pátio da casa. As crianças contribuem para a decoração da sucá, a cabana, e dormir aí, em vez da normalidade de dormirem no seu quarto, transforma-se numa experiência inesquecível.

Ao longo da longa corrente das gerações do Povo Judeu, o nascimento de uma criança é considerado uma grande bênção. Israel é, entre os países desenvolvidos do Mundo, aquele que apresenta a taxa de natalidade mais elevada, ainda bem acima de dois filhos por mulher. Pelo contrário, na Europa e Japão a natalidade tem caído para níveis muito abaixo daquele que é o valor mínimo necessário para a renovação das gerações.

Entre as comunidades ultra-ortodoxas a média é mesmo superior a 8 filhos por mulher, uma das taxas mais altas do Mundo. E a taxa tem crescido, em contraste com a tendência mundial. Ao contrário, entre as mulheres árabes israelitas (e também as palestinianas), a natalidade tem decrescido gradualmente, situando-se por volta dos 4 filhos por mulher. A crescente escolarização das mulheres árabes em Israel – o país conta com a mais alta alfabetização das mulheres árabes no Médio Oriente – e a sua maior participação no mercado de trabalho, tem feito adiar a idade do casamento e decrescer o número de filhos em relação às gerações anteriores. (Estes dados deitam por terra a tão apregoada e quase apocalíptica teoria da bomba demográfica árabe em Israel.)

Mesmo entre os judeus seculares, com o seu estilo de vida tipicamente ocidental, a média de filhos por mulher é superior aos seus congéneres europeus ou americanos. É comum encontrar casais não-religiosos passeando com três criancinhas. Enquanto isso, na Europa, é mais comum ver um casal a passear com dois cachorros do que com duas crianças. Em outras sociedades tradicionais, os filhos eram vistos como uma forma de garantir a velhice e o sustento dos pais. No Povo Judeu, perseguido durante séculos, os filhos são vistos como a garantia da sobrevivência, acima de tudo, das tradições.

Em Alon Shevut, o colonato judeu religioso onde eu moro, os habitantes têm o costume de ajudar a família onde nasceu uma nova criança. Durante uma semana, assim que a mãe regressa da maternidade, a família recebe comida pronta dos vizinhos que se juntam para colaborar. A cargo com um novo bebé, a mãe não precisa, pelo menos durante uma semana, de cozinhar.

Não é por acaso que os Judeus são conhecidos como Filhos de Abraham, ou Filhos de Israel. A vivência judaica assenta antes de mais na transmissão das tradições dentro da família, para a próxima geração. Com a chegada de uma nova criança à família, também nós somos agraciados com a bênção de adicionar mais um anel na longa e milenar corrente do Povo de Israel. É sem dúvida, o melhor "Mazal tov!" que se pode receber.

publicado por Boaz às 14:56
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Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

Espanhóis vs. Alemães

Os Judeus, apesar do seu pequeno número em relação à população mundial – algo como 0,2% da humanidade –, são bastante variados em termos de costumes. Aquilo que em hebraico se chama min’hag. Tradicionalmente dividem-se em sefarditas e askenazitas. Os primeiros são provenientes da Península Ibérica (Sefarad em hebraico, que ainda hoje é também o nome para Espanha) e dos países árabes. Os segundos são descendentes das comunidades do Vale do Reno, na Alemanha (Ashkenaz em hebraico, ainda que hoje se lhe chame Guermânia) e da Europa Oriental. Além destes, ainda há alguns pequenos grupos como os judeus Italianos e os Iemenitas, que têm costumes muito próprios.


Minyan no Kotel. Onde se juntam todos os tipos de judeus.

A história de Sefarad fica marcada pela "Idade de Ouro do Judaísmo Espanhol" a qual produziu génios como Maimónides (o Rambam) e Nachmânides (o Ramban), o Cuzarí e dezenas de autores essenciais da filosofia e da literatura judaicas. Com a expulsão judaica dos reinos ibéricos, os sefarditas espalharam-se por grande parte do Mundo Judaico. Marrocos, Holanda, Itália, Grécia e o Império Otomano foram os principais destinos.

Com a descoberta do Novo Mundo em 1492 – o mesmo ano da Expulsão – e o início da colonização das Américas, judeus e "cristãos-novos" também se estabeleceram no Hemisfério Ocidental. A primeira sinagoga foi estabelecida por descendentes de Judeus portugueses na cidade brasileira de Recife, durante a ocupação holandesa. Após a reconquista da região pelos portugueses, os judeus escaparam para as Caraíbas (Curaçau, Barbados, Jamaica) e a recém-fundada Nova Amesterdão, que seria mais tarde Nova Iorque.

Em Portugal, Espanha e nas colónias – do México ao Brasil –, apesar da oficial Expulsão, nascia o fenómeno dos Marranos (Anussim, em hebraico). Judeus por dentro, cristãos por fora. Receosos da Inquisição sempre vigilante. As gerações passaram, a identidade foi-se perdendo aos poucos, mas mantiveram-se estranhos costumes como acender velas sexta-feira ao anoitecer, jejuar uma vez por ano no começo do Outono, limpar a casa e não comer nenhum alimento fermentado por voltas do início da Primavera. Para muitos, a origem destes costumes era desconhecida. Para outros, a alma e a identidade judaica, ainda que reprimidas, mantinham-se vivas. Em segredo.

Também na Europa Oriental a vida judaica era agitada de tempos a tempos por convulsões. Aí, o pensamento judaico tradicional dividia-se entre as linhas hassídicas com a sua forte componente mística e, em sua oposição, o racionalismo lituano fundador do moderno conceito da yeshivá, a academia rabínica. O liberalismo napoleónico promoveu aos poucos a integração dos Judeus à igualdade de cidadania. Ainda que a fera do anti-semitismo não tenha sido extinta pelo humanismo liberal. Dentro do próprio Judaísmo, a maior abertura social criou uma revolução. A Haskalá ou Iluminismo Judaico abriu caminho a um maior liberalismo na religião e mais tarde à fundação do movimento reformista.

No final do século XIX e no início do século XX, campanhas de massacres da população judaica às mãos de polacos, russos e dos cossacos ucranianos, levaram vários milhões de judeus askenazitas a todo o mundo anglo-saxónico. Hoje, eles são a imensa maioria dos judeus americanos, a maior comunidade da Diáspora Judaica. A liberdade americana fez florescer a comunidade judaica, atingindo um nível de desenvolvimento cultural e social nunca antes alcançado em qualquer outra etapa deste Exílio já bi-milenar.

Nas décadas de 1930-40, o Holocausto destruiu os maiores centros da vida judaica europeia. Por ter atingido em especial a Europa do Leste, a enorme maioria dos seis milhões de mortos judeus durante a Shoá eram askenazitas. Grupos hassídicos inteiros foram exterminados na voragem da ocupação nazi. Na mesma época, também importantes comunidades sefarditas como Salónica (Grécia), Sarajevo (Bósnia) e Amesterdão praticamente desapareceram.

Logo após a independência israelita em 1948, com uma crescente onda de anti-semitismo nos seus países de origem, mais de 800,000 judeus dos países árabes chegaram à Terra Santa. Até aos anos de 1990, antes da grande onda de imigrantes da ex-União Soviética que trouxe mais de um milhão de pessoas, os sefarditas compunham mais de 70% da população judaica do país. Hoje, a proporção entre as duas comunidades é praticamente idêntica, apenas com uma ligeira maioria de sefarditas. Porém, a nível mundial, a população judaica é maioritariamente de origem askenazi, numa proporção de 4 para 5.

Na sua versão moderna, o sionismo teve a origem no Leste Europeu. Os principais impulsionadores da ideia da fundação de um estado judeu na Terra de Israel eram askenazitas. Eles foram os pioneiros das comunidades coletivas locais, os kibbutzim e moshavim; fundadores das primeiras cidades judaicas da embrionária Israel e dos partidos políticos originais no país. Desde o início do Estado de Israel, a política tem sido dominada pelos askenazitas. Em 62 anos, todos os Primeiros-Ministros foram askenazitas. Entre os Presidentes da República, apenas dois eram sefarditas, Moshe Katzav, nascido no Irão, e Yitzhak Navon, descendente de uma família espanhola estabelecida em Jerusalém. Este desequilíbrio na esfera política levou à fundação do Partido Shas, dirigido pelo grande rabino Ovadia Yosef, é hoje o maior partido religioso em Israel e com uma crescente influência política, participando em todas as coligações de governo desde os anos de 1990.

A integração na moderna sociedade israelita de estilo marcadamente europeu, foi particularmente difícil para os judeus recém-chegados dos países árabes, provenientes de sociedades tradicionais. A maioria dos recém-chegados foi alojada em cidades de tendas construídas à pressa (as maabarot) ou insalubres "cidades de desenvolvimento" nas regiões periféricas de Israel. A ruptura com o seu modo de vida tradicional era evidente. Muitos haviam desfrutado de um elevado nível de vida nas suas terras de origem e na fuga à perseguição haviam perdido todos os seus bens. Viver em comunidades agrícolas também não foi bem sucedido, dado que nos países árabes os Judeus haviam sido mercadores e artesãos, e raramente se dedicavam à agricultura. Tal como acontecera com os Judeus na Europa medieval.

No novo país, composto por gente de tão variadas origens, recuperou-se a língua hebraica, a língua nativa dos Judeus. Usada durante os 2000 anos da Diáspora somente no âmbito religioso tornou-se o idioma da vida diária. Os askenazitas, falantes do yiddish, alemão, húngaro ou russo, contribuíram com a forma moderna do alfabeto. Os sefarditas, falantes do ladino, árabe, persa ou bukhari deram a sua pronúncia ao idioma moderno. Numa piada um pouco cínica, alguém definiu esta simbiose com a expressão bíblica "A mão de Esaú e a voz de Jacob".

Ainda hoje existe um certo sentimento de inferioridade dos judeus sefarditas em relação aos askenazitas. Todavia, a tendência parece visionar uma crescente influência dos sefarditas. A demografia joga a seu favor. Afinal, estes compõem a maioria dos judeus religiosos, que têm mais filhos que os seculares. Ainda que a face mais visível do judaísmo ortodoxo em Israel sejam os haredim askenazitas, notados pelas suas capotas negras e os shtreimels (chapéus de pêlo usados no Shabbat e dias festivos), estes são na verdade minoritários no panorama religioso em Israel. Por outro lado, os judeus tradicionalistas ou massoratim (não confundir com os adeptos do Movimento Masorti, uma denominação do Judaísmo Conservador) são parte de um fenómeno característico do público sefardita em Israel. Em geral, os askenazitas ou são ortodoxos ou declaradamente seculares. Esse "meio-termo entre a tradição e a modernidade" é a regra dos sefarditas não ortodoxos. E é raro encontrar um sefardita obstinadamente laico e totalmente ignorante da sua herança religiosa.

Mesmo na Diáspora, em países como o México, o Brasil, a França ou a Venezuela, as comunidades menos "assimiladas" são as sefarditas. Ao contrário, as comunidades askenazitas do mundo anglo-saxónico, com raras excepções, vão sendo dizimadas pelo fenómeno da assimilação e dos casamentos mistos. No moderno Estado de Israel, com a aliá de judeus de todos os cantos do planeta, realiza-se a profetizada kibbutz galuyot, a "reunião dos exilados" na Terra Prometida, o futuro parece antever um gradual atenuar das diferenças entre as diferentes comunidades judaicas.

Afinal, hoje em dia, é comum o casamento entre um homem sefardita e uma mulher askenazi. Ou o inverso. Ou até um homem louro de origem alemã com uma mulher etíope. A divisão askenazi/sefardita é um produto da Diáspora. O "novo judeu" – ideia romântica dos pioneiros sionistas inspirados em ideais socialistas –, é cada vez mais uma simbiose entre os costumes de ambos. Num exemplo caseiro, na mesa israelita é normal encontrar-se hoummous ao lado de gefilte fish. Afinal, pode dizer-se sem cair em sacrilégio que, tirando o toque especial da avozinha, seja ela húngara ou marroquina, cholent e dafina são basicamente a mesma coisa.

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Quarta-feira, 21 de Julho de 2010

'Olho por olho' e um erro de visão

A Mahatma Gandhi é atribuída a frase: “’Um olho por um olho’ apenas fará com que todo o Mundo fique cego”. A base desta frase tornada famosa é o versículo “Olho por olho, dente por dente” (Levítico 24:20). É um dos versículos mais conhecidos e também mais mal entendidos de toda a Torá. Numerosos pensadores o citaram e acabaram por inverter o seu sentido.

Um dos primeiros foi Jesus. Comentando o ensinamento da Torá disse: "Ouvistes que foi dito ‘olho por olho e dente por dente’. Porém, eu vos digo, não resistam ao mau, mas se alguém te bater na face direita oferece-lhe também a outra". A máxima de “dar a outra face”, uma das mais famosas da Cristandade, derivou na verdade de um erro de interpretação daquela passagem da Torá.

O livro “O Cuzarí”, uma das obras clássicas do pensamento judaico, escrita no século XII pelo Rabino Yehuda Halevi, expõe a intenção daquela passagem da Torá. (O livro desenrola-se sob a forma de um diálogo entre o Cuzarí, rei dos Cazares, e um sábio judeu.) O rei interroga-se como puderam os sábios judeus interpretar de forma tão diferente à letra do texto, impondo uma compensação monetária em vez de respeitar a ordem explícita: “conforme o que ele fez, assim lhe será feito”.

O sábio que responde às questões do Rei explica que os versículos próximos revelam exatamente o significado de “um olho por um olho”. No versículo 18 está escrito: “E quem ferir um animal, o pagará, vida por vida.” E no versículo seguinte: “conforme o defeito que causar ao homem, assim será obrigado a pagar”.

Afinal, haveria algum sentido se a Torá nos ordenasse matar o animal de alguém que matou o nosso? É óbvio que não, até porque isso não iria reembolsar o prejuízo que sofremos. E o mesmo se aplica aos danos físicos. Se alguém ferir o braço de outra pessoa, não pediremos que a pessoa ferida cause o mesmo ferimento no braço daquele que a feriu. Isso não solucionaria o prejuízo causado, antes deixaria – numa interpretação à moda de Gandhi – toda a gente com braço aleijado. Regra igual se aplica ao versículo “vida por vida”, interpretados como uma compensação a ser dada ao dono do animal morto, semelhante ao valor deste animal. Se era um animal forte e apto para trabalhar ou coxo e doente. Cada um com o seu valor.

Se interpretarmos estas leis literalmente, acabaremos por contradizer o bom senso. Vejamos o caso do “olho por olho”. Se o agressor já for cego de um olho, enquanto a vítima possui dois olhos sãos, como poderíamos cegar o único olho que resta ao agressor, deixando-o completamente cego, enquanto a vítima continuaria a ver? Isto, se aplicássemos literalmente o versículo “conforme ele fez, assim lhe será feito”.

As interpretações literais destes versículos eram defendidas por correntes consideradas hereges pela tradição judaica, como os Saduceus e os Caraítas, estes últimos ainda hoje existentes. O espírito desta passagem não é o da vingança – que é o que parece à primeira vista – mas antes um conceito muito em voga nos nossos dias: o princípio da compensação monetária por danos, ou indemnização.

Antes das modernas leis de defesa do consumidor e dos pedidos de reparação por prejuízos, a Torá já prescrevia as regras de compensação e o princípio da responsabilidade. A ignorância, a superficialidade na análise e a descontextualização causaram uma série de mal-entendidos em relação à justiça enunciada na Torá. Dai que não espante que gente como o recém-falecido Saramago – não propriamente reconhecido como teólogo – a tenha definido como “Um manual de maus-costumes”.

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Domingo, 4 de Abril de 2010

A caça ao fermento

É uma das tradições mais enraizadas no Judaísmo: não comer comidas fermentadas em Pessach, a Páscoa. Para recordar a pressa da libertação da escravidão do Egito, quando a massa do pão não teve tempo de fermentar, a Torá ordena a proibição de comer e possuir qualquer tipo de chametz, comida fermentada feita a partir de cinco tipos de cereais: trigo, centeio, cevada, aveia e espelta. A comida mais importante da quadra é a matzá, ou pão ázimo, ou seja, não fermentado.


Seder de Pessach, de Arnold Eagle

Para alguns, o esforço de eliminar o chametz começa logo depois da festa de Purim, um mês antes de Pessach. As famílias deixam de comprar vários tipos de alimentos fermentados bastante tempo antes da época em que passam a ser proibidos, gastando o stock existente na dispensa.

Nas duas semanas antes de Pessach, o trabalho da faxina é intenso. É a barrela anual nas casas judaicas. O objetivo da limpeza é que até o mais ínfimo resíduo de chametz desapareça da casa. Todas as migalhas são eliminadas, nos sofás, no carro, nas carpetes, nos bolsos da roupa, nas mochilas das crianças... Os armários da cozinha e o frigorífico são bem limpos. O esforço maior é dedicado ao forno e ao fogão. Os tachos e panelas de metal são fervidos para serem “casherizados”. As louças da cozinha usadas durante o resto do ano são substituídas por outras, exclusivas de Pessach. (É interessante que, em muitas regiões rurais de Portugal, os católicos também têm o costume de fazer uma grande limpeza nesta altura do ano e até mesmo caiar a casa, a fim de receber o senhor prior que visita cada uma das casas da terrinha).

Na última noite antes da grande data procede-se à busca do fermento que eventualmente escapou à destruição. A tradição manda que a busca seja feita à luz de uma vela e com uma pena na mão. Com pouca luz, a atenção da busca concentra-se numa pequena área de cada vez. A pena permite vasculhar até nas fendas da casa. Na manhã seguinte o que foi encontrado na busca noturna é queimado. Acabou-se, não há mais fermento em casa! E assim será durante uma semana.

Com a dispensa desprovida de pão, cerveja, bolachas, bolos, massas, há que encontrar alternativas para a alimentação durante a semana que dura a Páscoa. No caso dos judeus ashkenazitas (originários da Europa do Leste) as coisas são ainda mais complicadas. A sua tradição proíbe-os também de comer kitniot, um termo que designa todo o tipo de grãos e sementes. Por serem parecidos com os cereais proibidos em Pessach, feijão, ervilha, fava, grão-de-bico, milho, soja, lentilhas, arroz e seus derivados, são também excluídos. Existe discussão acerca de grãos e sementes de uso recente, como a quinoa, a canola ou a linhaça. Os judeus sefarditas (de origem ibérica e árabe) não seguem a proibição destes grãos adicionais, ainda que haja algumas comunidades que costumam não consumir arroz nesta época.

Algumas pequenas comunidades têm costumes específicos e outras limitações na alimentação, que remontam há séculos. Umas não bebem leite, outras não comem tomate (porque as sementes parecem grãos), peixe… Para a generalidade dos judeus ashkenazitas avizinha-se uma semana à base de carne, ovos, batatas e mais batatas.

Para compensar a exclusão das farinhas no fabrico de pão e bolos, surgem na semana da Páscoa produtos novos, marcados como Kosher para Pessach. Mesmo estando há poucos anos em Israel e tendo experimentado poucas vezes a festa de Pessach, há que admitir que, de ano para ano, a qualidade aumenta. Há anos, eram tristes as alternativas aos bolos, massas e biscoitos do resto do ano, invariavelmente produzidos com farinha de batata, com um aspeto, sabor e consistência pouco atraentes. Hoje, as empresas esforçam-se para produzir alternativas saborosas. Este ano, a novidade foi a farinha de tapioca, permitida por todos os costumes. Porém, apareceu também a lecitina de colza como alternativa à derivada da soja, o que deixou algumas pessoas baralhadas e a perguntar que raio de coisa é essa…

Tirando o hábito tão enraizado de comer pão, que tem um papel tão importante no Judaísmo, central em qualquer refeição festiva, em especial no Shabat, é bastante tranquilo “sobreviver” à Páscoa. É que, com as alternativas inventadas todos os anos pela tecnologia alimentar, já quase não se sente a diferença entre Pessach e o resto do ano.

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Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

Falar para dentro, sobre o mundo lá fora

Ser “Luz entre as Nações”, esta é a principal missão universal judaica. Para realizar esta missão universal, nós temos não apenas de saber quem nós somos como Judeus, mas também quem nós somos em relação ao Mundo. Compreender estas duas perspetivas é essencial para atingir essa missão.

A Torá parece ensinar-nos justamente isso na sua estrutura. Afinal, como começa o livro sagrado do Judaísmo? Não com o nascimento do Povo Judeu, mas com o nascimento do Mundo. Começa com a Criação de um único ser humano, para nos ensinar que todos viemos do mesmo lugar e partilhamos o mesmo cerne que nos une. Depois da ideia da Criação do Mundo por Deus, esta é a primeira lição que nós somos ensinados na Torá.


"E esta é a Torá..."

Ao ensinar-nos a viver como Seu Povo, Deus começa por orientar-nos a reconhecer a nossa humanidade comum com todas as pessoas. Talvez porque apenas com este reconhecimento nós seremos suficientemente impulsionados a mudar o Mundo e a guiá-lo da forma correta. Só assim poderemos ser forças de Tikun Olam, o aperfeiçoamento do Mundo. Reconhecer o que há de comum entre todos nós inspira respeito, atenção e a capacidade de nos relacionarmos com os restantes seres humanos. Sem isto, falharíamos em assistir, ensinar e orientar o Mundo com humildade e respeito, pois falharemos em reconhecer a tzelem elokim, a imagem de Deus que existe em todos nós.

O Rav Avraham Kook explica de forma magnífica como isto é essencial: “É impossível atingir o elevado nível de ‘Louva o Senhor, chama o Seu Nome, declara as Suas obras entre as nações’, sem um amor interior que encha as profundidades do coração e o espírito, para provocar o progresso de todas as nações, melhorar o seu nível material e aumentar a sua felicidade... E o ponto de vista estreito que causa que uma pessoa veja tudo o que é estrangeiro a uma nação particular, mesmo o que está fora do Povo Judeu, como feio e corrupto, é uma das mais medonhas trevas que trazem a destruição geral de todo o edifício da bondade espiritual, cuja luz todo o ser sensível deseja ver”.

O universal não basta

Todavia, é óbvio que apreciar o universal e os seus valores não é suficiente para o Judeu. Ele tem de apreciar a sua identidade única e usá-la, se ele quer contribuir para o mundo no máximo do seu potencial. Negar essa singularidade é negar a mesma essência de quem nós somos. É que ninguém pode ser feliz durante muito tempo ou viver uma vida significativa se recusar a sua própria essência. Aquilo que nos torna únicos como Judeus é tão vital como aquilo que nos torna similares a todos os outros povos. E negar qualquer uma delas é limitar a nossa capacidade de viver uma vida plena e realizar os nossos objetivos como Povo.

Talvez seja por isso que o Livro de Bereshit (ou Génesis) serve apenas como o começo da nossa história. Ele continua com estabelecimento do Povo Judeu, descrevendo como e porque nós nos tornámos quem somos. Como se nos quisesse ensinar que uma vez que nós sabemos o que temos em comum, nós temos de entender exatamente como nós somos únicos.

É verdade que a nossa fundação é a mesma de todos os outros povos, mas nós também somos diferentes. Fomos escolhidos para uma tarefa única e dotados de atributos e potencialidades excepcionais para a atingir. Para vivermos uma vida judaica plena, temos de montar duas concepções de religião e identidade aparentemente opostas. De um lado, a dimensão universal, que afirma a nossa comunhão e ligação com o resto do mundo. Por outro, a dimensão particular e exclusiva: os nossos papeis separados e identidades únicas como Judeus.

Infelizmente, para nós é difícil manter as duas concepções ao mesmo tempo e muitas vezes enfatizamos um à custa do outro. Hoje, parece que o mundo religioso se foca nos elementos exclusivos do Judaísmo, à custa dos elementos universais. Enquanto isso, os judeus não-religiosos focam-se mais no universal, em detrimento do “exclusivamente judaico”. Qualquer uma das perspetivas diminui a missão e a visão judaica.

Em muitos casos, estas escolhas parecem ser reação ao mundo moderno e os desafios que este coloca ao Judaísmo. Talvez, porque o mundo moderno valoriza a razão em vez da crença, nós nos focamos na crença à custa da razão. Porque o mundo se foca nos elementos universais à custa das diferenças únicas, nós salientamos as nossas diferenças para nos mantermos à parte. O mundo moderno fala em “ser uma boa pessoa”, nós falamos em “sermos bons judeus”. Se o mundo atual enfatiza o amor e repudia o temor, nós falamos mais do temor e depreciamos a influência positiva do amor. Quando os outros valorizam a alegria, o prazer e o físico acima de tudo o mais, nós colocamos estes valores no fundo da lista.

Ao enaltecermos valores opostos aos do mundo à nossa volta, nós tentamos proteger o Judaísmo e erradicar valores aparentemente anti-judaicos da nossa vida e da nossa educação. Infelizmente, isto tem consequência na capacidade de criar um Judaísmo mais inspirador. Ainda mais, porque ao erradicarmos estes princípios de dentro do nosso mundo, isso não as erradica no “mundo lá fora”.

Pelo contrário, isso leva-nos a perder algumas das partes mais preciosas e inspiradoras da nossa tradição. Afinal, de onde “o mundo lá fora” tirou alguns dos seus valores mais estimados? Exatamente, do Judaísmo. É claro que no geral o mundo distorceu esses valores, focando-se num dos fins à custa do outro. Porém, ao distorcermos os mesmos valores no sentido inverso, não só não nos ajuda a conseguir um equilíbrio, como retiramos de nós e das nossas crianças a oportunidade de usufruir de muita da beleza da nossa milenar herança.

Porque a beleza do Judaísmo não pode ser vista por aquilo que ele exclui, mas pelo que inclui. A grandeza do Judaísmo está, em parte, na sua exímia capacidade de equilibrar valores aparentemente contraditórios. Ao dar a cada um o seu devido lugar.

(inspirado no livro Off the Derech, um dos livros que terminei de ler recentemente, sobre o fenómeno dos judeus religiosos que saem da prática religiosa, as suas causas e possíveis soluções.

Nota: Este texto foi também publicado no HaKotel Brasil, o e-mail semanal de Divrei Torá (textos de Torá), realizado pelo grupo dos alunos sul-americanos da Yeshivat HaKotel, do qual eu sou um dos responsáveis.

publicado por Boaz às 22:45
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Domingo, 31 de Janeiro de 2010

A hora de deixar o ninho

Depois de alguns meses numa yeshivá em Israel, para a maioria dos alunos estrangeiros chega a hora de regressar aos seus países. Os estudantes americanos chegam, geralmente, de um ambiente religioso, com famílias observantes e comunidades bem organizadas. Muitos vêm para a yeshivá como alternativa a um ano de estudos na Yeshiva University, uma conceituada universidade judaica ortodoxa dos EUA, em Nova Iorque. O ano que estudam em Israel dá-lhes créditos para o curso universitário e, a anuidade na yeshivá é muito menor que a da universidade, por isso compensa financeiramente às famílias enviar os filhos para Israel.

Com os brasileiros e outros latinos a situação é bem diferente. A grande maioria dos alunos que chegam do Brasil fez teshuvá (tornaram-se religiosos) por via de algum movimento judaico juvenil – em geral o Bnei Akiva. Em alguns casos, esse desvio em direção à observância religiosa não foi acompanhado pelas respetivas famílias. Assim, a hora de voltar é um passo duplamente difícil.


Beit Midrash, o centro de estudos da yeshivá.
A quantidade e variedade de livros é impressionante.

Muitos chegam com um nível básico de hebraico, obtido durante os estudos nalgum colégio judaico. Em termos de conhecimentos de Torá a situação não é melhor. Alguns começaram há pouco a cumprir as leis do Shabbat e da alimentação casher. Apesar de “verdes” chegam com uma ânsia enorme de aprender.

Praticamente nunca tiveram contato com o Talmude, a base de todo o estudo na yeshivá. O choque inicial é enorme. A dificuldade com a intrincada construção das discussões talmúdicas e o obstáculo da língua aramaica – a língua da Guemará, parte principal do Talmude –, significam um avanço lento nos estudos. O “verdinho”, um popular dicionário aramaico-hebraico-inglês, é consultado a cada duas palavras do texto da Guemará.

Nas primeiras semanas, a frustração é evidente em muitos destes alunos. Em conversas com os alunos mais experientes, alguns confessam pensar em desistir. Raramente o fazem. Na yeshivá o tempo passa rápido e uma clara progressão é visível logo ao fim de um mês. Aos poucos, o “verdinho” é posto cada vez mais de lado. A repetição dos termos talmúdicos e a classe diária sobre o assunto em discussão ajudam a entrar na dinâmica da Guemará.

O Shabbat é um dos tempos mais extraordinários na yeshivá. O ambiente de festa, com canções e até mesmo dança durante as refeições festivas deixam uma marca profunda. Com o tempo, alguns dos que viam a sua estadia na yeshivá como algo temporário decidem não regressar definitivamente a casa. Na verdade, decidiram que a sua casa é em Israel e voltar para um ambiente não religioso torna-se impensável.

Para os que ficam, várias questões se colocam: tratar já do processo de aliyá (a imigração para Israel) ou permanecer por enquanto como residente estrangeiro? Continuar na yeshivá mais um ou vários anos, ou sair e ir para a faculdade? E a entrada no serviço militar – agora, ou adia-se mais um pouco?

Mesmo os que saem da yeshivá e tomam algum outro caminho em Israel – exército, trabalho ou faculdade –, mantêm um contacto com o local e os amigos que lá fizeram. Nas horas vagas dos estudos lá fora ou nos dias de licença militar regressam aos bancos do Beit Midrash, a sala de estudos principal. Com frequência passam o Shabbat na yeshivá ou em casa de um rabino ou de um aluno já casado. Todos se reencontram nos casamentos de amigos. E a yeshivá é uma fábrica de casamentos!

Ainda assim, há os que têm mesmo de voltar para os seus países. Para terminar a faculdade que ficou “trancada”. Para o trabalho deixado em pausa. Para a família que insiste que voltem. As semanas que antecedem a partida são de grande ansiedade. A preocupação maior é manter o nível elevado que foi conseguido na yeshivá. Compram livros indispensáveis para continuar os estudos de Torá, livros impossíveis de encontrar fora de Israel (ou quando se encontram à venda são caríssimos!). Estudam como casherizar a cozinha da família, o que se pode ou não pode comer fora de casa, como respeitar o Shabbat quando a família não é religiosa. Fazem-se contatos com rabinos e famílias religiosas nas suas cidades, para que os possam acolher no Shabbat e nas festas.

De volta a casa, uma decisão unânime é dedicar um tempo para trabalhar com kiruv – a ajuda aos jovens judeus para se aproximarem do Judaísmo. (Kiruv significa aproximação, em hebraico). A partilha dos conhecimentos e experiências da yeshivá são uma excelente forma de atrair os jovens para aderir a uma forma de vida comprometida com os valores judaicos.

Em regra, o regresso é apenas temporário. O tempo suficiente para terminar os estudos e ir convencendo a família a deixá-los fazer aliyá. Aquilo que conquistaram com os meses passados na yeshivá é demasiado precioso para se arriscar a deixar perder num ambiente pouco cooperante com a observância judaica.

É um orgulho ver a incomparável metamorfose por que passam os novos alunos que chegam. Como crescem e se desenvolvem humana e espiritualmente. São muitos os milagres produzidos nos bancos da yeshivá.

publicado por Boaz às 22:39
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Domingo, 24 de Janeiro de 2010

Voltar a Lisboa?

Desde que decidimos, eu e a minha esposa, frequentar um curso de preparação para "shelichim" – emissários para as comunidades judaicas na Diáspora – pensámos na possibilidade de irmos para Portugal. Brasil, Espanha ou qualquer país de língua espanhola da América são outras possibilidades. Em Portugal, a única comunidade com a qual tive um contacto directo foi a de Lisboa, desde a minha entrada na faculdade.

Desde o início do meu processo de conversão, com melhores ou piores momentos, tivemos uma relação um pouco atribulada. A hostilidade face aos candidatos à conversão, numa altura em que não havia sequer rabino na sinagoga, resultou em alguns momentos amargos. O primeiro contacto, em Fevereiro de 1998, foi desastroso. Tanto que, durante alguns anos, até 2002, não voltei a contactar a comunidade.

Tive o discernimento suficiente para perceber que uma comunidade judaica não faz todo o Judaísmo, ou que alguns judeus não fazem todo o Povo Judeu. Por isso, não desisti. Com a porta de Lisboa aparentemente trancada, continuei a estudar o Judaísmo o melhor que conseguia, pela Internet e nos poucos livros que conseguia encontrar nas bibliotecas. Assim que descobri – já não me lembro por que maneira –, que havia chegado um rabino à comunidade, e que ele tinha um endereço de e-mail, apressei-me a tentar essa nova porta. Pensei: se a reacção for negativa, pelo menos não será tão dramática como ao vivo.


Sinagoga de Lisboa, Shaare Tikva, os Portões da Esperança.

Todas as semanas, enviava ao rabino pelo menos um e-mail com perguntas. As respostas eram sempre secas e, pelo menos aparentemente, desinteressadas. (Existe o costume de tentar demover o candidato à conversão, para que este prove o seu real interesse). Tantos e-mails enviei que o rabino deve ter ficado farto de mim e decidiu entregar o meu caso a um membro da comunidade. Esta reviravolta mostrou-se providencial. As respostas aos meus e-mails passaram a ser mais pacientes e atenciosas. Tivemos algumas discussões filosóficas interessantes e acabámos por nos tornar amigos.

Alguns meses depois, em Fevereiro de 2003, fui convidado a visitar a sinagoga. "Uma visita turística", pensei. Não, na hora de Kabalat Shabat, o serviço religioso que dá início ao Shabat! Incrédulo com a ocasião do convite, pedi explicações: "Não seria melhor ir a outra hora?". A resposta, ainda hoje me soa como a um magnífico lema de vida: "Quando se aprende a nadar numa piscina, podes saltar do lado mais baixo ou do lado mais fundo. Eu acho que deverias saltar do lado fundo".

Perante tal encorajamento, decidi aceitar o convite. Até então, ainda não conhecia pessoalmente o paciente judeu que há meses respondia aos meus e-mails. Esperou por mim no portão da sinagoga para facilitar a minha entrada. Foi a minha primeira experiência com a segurança do local.

O primeiro Kabalat Shabat foi estranho. O hebraico, as melodias das rezas, a sinagoga quase vazia, não conhecer ninguém além do meu amigo-por-email-e-agora-também-em-pessoa. Seguia as orações pelo livrinho em hebraico, português e transliteração. Absolutamente lindo, o primeiro Lechá Dodi. No estranho oceano da língua hebraica, as seis palavras da declaração de fé judaica: “Shemá Israel, Hashem Elokeinu, Hashem Ehad” foram a única ilha algo familiar em toda a cerimónia. O cúmulo do meu desnorteio chegou quando, pouco depois, todos se levantaram, viraram-se na direcção da Arca Sagrada (também a direcção de Jerusalém) e ficaram em silêncio, balançando-se como costumam fazer muitos judeus quando rezam. Perdi-me nas páginas do livrinho. “Onde vão?” Folheei, para a frente e para trás a tentar adivinhar o que rezavam em silêncio. Fiquei na minha, sentindo-me meio estúpido, e discretamente tentando o mais possível parecer um deles.

Alguns minutos depois, voltaram a rezar alto. “E onde vão agora?”. Um novo folhear atrapalhado. Foi impossível achar o fio à meada. Uns minutos depois e o serviço terminou. À saída, o meu amigo perguntou: “O que achaste?”. “Estranho, mas bonito”. “Podes voltar na próxima semana, se quiseres”. Obviamente voltei. Desta vez, na entrada não havia ninguém à espera, além do segurança de ocasião. A custo, deixou-me entrar. O meu amigo não estava para confirmar o convite que me fizera. Enquanto esperava para começar a cerimónia, um membro da comunidade perguntou-me se eu era judeu. Precisavam de gente para completar o minyan (conjunto mínimo de dez homens necessário para as orações públicas). "Não, não sou". Fiquei marcado.

Na semana seguinte, o segurança barrou-me a porta. "A sinagoga é só para membros", disse-me, de forma antipaticamente peremptória. Nem valeu a pena invocar o convite do meu amigo. "Se quiser voltar, terá de enviar uma carta para a direcção de segurança da comunidade, a pedir autorização para frequentar a sinagoga". Frustrante. Enviei a carta. Esperei um mês pela resposta. Fui perguntando por e-mail ao meu amigo, se sabia algo da dita carta: onde tinha ido parar, se tinha sido recebida. Decidi enviar outra. "Talvez se tenha extraviado", deduzi. Um mês, dois, três… e nada. Nesta altura já tinha terminado o meu estágio na Rádio TSF e voltara a viver na Batalha, a 120 quilómetros de Lisboa. E a comunidade voltara a ficar sem rabino.

Alguns meses depois, voltei a Lisboa por algumas semanas para um curso pós-universitário de jornalismo. Aproveitando a oportunidade do meu regresso à capital, o meu amigo na comunidade voltou a convidar-me para um Kabalat Shabat. Sem ter recebido qualquer resposta em mais de 6 meses, fiquei apreensivo em aceitar o convite. "Eu espero-te do lado de fora do portão e entramos juntos", assegurou-me. Chegámos cedo, o vigilante ainda não tinha chegado. Não tive problemas para entrar. A meio do serviço vi-o entrar na sinagoga. Gelei. Pareceu ignorar-me. Imaginei, "depois de tantos meses talvez nem se lembre de mim".

À saída, ainda no pátio da sinagoga, o segurança provou a sua boa memória. "Você não volta a fazer o que fez! Não tem autorização para entrar aqui!" Da forma colérica como me falou parecia acusar-me de ter arrombado o portão. Encaminhámo-nos para a rua. Tentei defender-me como podia: "Como pode falar assim, se o senhor não estava aqui quando cheguei…" Com o passar do tempo, o jovem estava cada vez mais agitado. Cheguei a temer que me batesse.

Deixei-o falar. Afinal, nada do que eu pudesse dizer iria fazê-lo acalmar-se. "Escreva outra carta! Não há duas sem três. E enquanto não receber resposta, está proibido de entrar aqui!" Num aviso ameaçador, disse-me que se voltasse à sinagoga, seria expulso nem que tivesse de recorrer "à força". É verdade, ele tinha razão, eu não tinha autorização formal, mas também não era preciso fazer tamanho escândalo. Porém, confesso que de todo este episódio vergonhoso, o que mais me custou nem foi o rapazote furioso e malcriado, cumprindo com orgulho o papel que alguém lhe tinha confiado. O pior foi mesmo o silêncio. O silêncio daqueles que iam saindo da sinagoga e ficavam parados à nossa volta durante um minuto ou dois, a admirar tranquilamente aquela luta de galos no meio da rua. Sem nada fazer, ou dizer. (Quem cala, consente?) Humilhado, fui embora, com o meu amigo, que entretanto saíra da sinagoga e levara também ele uma dose de desaforo do tal segurança.

Escrevi a terceira carta, desta vez iria enviá-la registada. Nela, incluí uma linha sobre o memorável episódio da minha última visita à sinagoga. Mais dois meses de espera. Recebi a autorização numa carta breve e seca. Nenhum comentário sobre o comportamento do segurança. E no tempo da espera terminara o meu mini-curso de jornalismo escrito em Lisboa e voltara de novo para casa da família. A resposta chegara tarde demais.

Quase seis meses depois, quando já havia chegado um novo rabino, voltei a ser convidado para a sinagoga, mais propriamente para comer na sucá (cabana que se constrói para a festa de Sucot). Seria uma oportunidade para falar com o rabino sobre o meu caso. Acabei por não falar com ele, já que aquele não era um assunto para discutir à mesa, em frente à família dele e alguns convidados. Alguns dias depois, voltámos a encontrar-nos para uma entrevista formal. No final, convidou-me a entrar na classe de conversão da comunidade já na semana seguinte. Que abertura!

Semana a semana, durante 11 meses, fui de propósito a Lisboa apenas para as aulas de conversão na sinagoga. Era um grupo de mais de 20 pessoas, todas da região de Lisboa. Eu era o único "da província". Desde essa altura, deixámos – eu e os outros candidatos à conversão – de ter problemas para entrar na sinagoga. O novo rabino estava "do nosso lado" ainda que tivesse de bater de frente com alguns "hostis". Aos poucos, a comunidade tornou-se mais tolerante connosco.

Voltar a Lisboa seria voltar a muitas recordações. Algumas amargas, outras deliciosas. Foram algumas pedras no longo caminho da minha conversão, mas mesmo as mais aguçadas ajudaram a pavimentar a estrada. Não guardo escoriações pelas quedas, nem rancores.

publicado por Boaz às 10:25
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Quinta-feira, 7 de Janeiro de 2010

Esplendor no lixo

Numa das últimas semanas, fui rezar a oração do final de Shabbat numa das sinagogas de Alon Shevut, o colonato onde vivo. Escolhi a sinagoga de rito ashkenazi (europeu oriental), que sempre começa o serviço um pouco mais tarde. Como a oração no santuário da sinagoga já havia começado, o grupo de homens do qual eu fazia parte reuniu-se numa sala lateral onde funciona a biblioteca.

Na biblioteca da sinagoga, junto à arca onde se guardam os rolos da Torá, alguém tinha deixado uma caixa com livros, marcada como "hefker", sem dono. É pegar e levar. Entre os congregantes estava o rabino-chefe de Alon Shevut, o qual, no final do serviço sempre dá algum conselho ou explicação da Lei Judaica sobre um assunto relevante. O rabino inspeccionou-os e descobriu serem traduções para inglês do Sefer ha’Zohar, o Livro do Esplendor, a obra principal da Cabalá. O rabino falou do assunto.

"O que fazer com estes livros sem dono?", alguém perguntou. "Deitá-los ao lixo", foi a resposta do rabino. E explicou: "Quem quiser ter uma cópia do Zohar em casa, eu até recomendo, mas é preciso ter cuidado com esta tradução. Foi feita pelo Kabbalah Center. Agora, sabendo isto, cada um que faça o que quiser."


A Árvore das Sefirot, numa gravura medieval.

O interesse pela Cabalá é um dos fenómenos da nova espiritualidade que atravessa o planeta. Um dos grandes promotores desse interesse é exactamente o Centro de Cabalá. Rodeado de controvérsia dentro e fora do mundo judaico, atraiu gente famosa como as cantoras Madonna e Britney Spears e o futebolista David Beckham. Alegadamente "com fins não lucrativos", a verdade é que a organização vende a bom preço tanto os seus cursos e seminários, como uma série de produtos ditos milagrosos, desde água "benta" que cura até o cancro, até os fios de lã vermelhos que protegem do "mau-olhado". (Em qualquer canto do Bairro Judeu da Cidade Velha de Jerusalém encontram-se charlatães que vendem a turistas os mesmos fios vermelhos por apenas 5 shekels, menos de um euro!)

A promessa da saúde, da riqueza e da felicidade do Centro de Cabalá é passada por líderes carismáticos com ensinamentos de proveniência duvidosa: uma mistura "à la carte" das obras cabalistas tradicionais, com máximas New Age e o que mais der na cabeça dos pregadores. Os seus congressos atraem celebridades a Israel.

Madonna e companhia já vieram a Israel algumas vezes à custa da crença nos poderes do fiozinho escarlate. Durante a sua primeira visita, a cantora tentou encontrar-se com o maior cabalista vivo – entretanto falecido –, o rabino Yitzhak Kaduri. Questionado sobre a possibilidade de se encontrar com a tão ilustre visitante, o santo rabino terá declarado que nunca tinha ouvido falar de Madonna e que nunca se encontraria com ela. A fama, nem sequer a de Madonna, abre todas as portas. Restou à estrela passar pelo Muro Ocidental e visitar um túmulo de um rabino cabalista no Monte das Oliveiras.

Na tradição judaica, a Cabalá está reservada aos homens casados e com mais de 40 anos. Os seus ensinamentos não são para ser tomados de cabeça leve e não prometem a felicidade e o sucesso por via de fios de lã, águas bentas ou a recitação de mantras. Uma evidente sede espiritual, junto com o crescente gosto pela mística – graças a modas como "Harry Potter", "O Código Da Vinci" e "O Segredo" alimentam a máquina da Cabalá light e das suas receitas fáceis.

Quem procurar com seriedade nas fontes cabalísticas, tal como em qualquer outra fonte judaica, descobrirá que é pelo contínuo esforço pessoal que se chega ao aperfeiçoamento, exatamente o oposto daquilo que ensinam os curandeiros do Centro de Cabalá.

publicado por Boaz às 20:55
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Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

O enviado

Desde princípios de Setembro, eu e a minha esposa estamos a frequentar um curso de preparação para trabalhar com comunidades judaicas fora de Israel – aquilo que se chama, em linguagem judaica: a Diáspora. Ao fim de dois anos – nalguns casos ainda no período de estudos – o casal é enviado para uma comunidade onde desempenhará as funções de rabino (e respectiva esposa) ou de professor da escola judaica.

Durante a sua estadia na Diáspora, os alunos do curso tornam-se shelichim, "enviados" ou "emissários". É um modelo executado com sucesso em especial pela corrente judaica ultra-ortodoxa Chabad, que tem milhares de "emissários" em todos os Continentes. Por exemplo, de todos os países na Europa, Portugal é o único com mais de 500 judeus, sem um emissário Chabad. (Por várias razões que não me compete discutir). Porém, enquanto os "emissários" Chabad são incumbidos de uma missão para durar uma vida inteira, ou pelo menos bastantes anos, os "emissários" da organização onde estudo têm uma missão temporária, normalmente de 2 a 3 anos.


O tradicional Kinus, a cerimónia anual de reunião dos "emissários" Chabad.
Frente ao famoso 770, Crown Heights, Nova Iorque, 2009

A organização que ministra este curso está dentro da linha ortodoxa moderna, sionista, o Instituto Amiel-Strauss. É um curso de dois anos, durante o qual, o casal (com a excepção de um aluno solteiro, todos os outros cerca de 20 elementos da turma são casados) é preparado para cumprir funções de liderança na comunidade judaica. Todas as terças-feiras, das 13:45 às 20:30 frequento as aulas do curso. As esposas têm 4 horas de aulas uma vez a cada 15 dias. Os desafios das comunidades judaicas – com os seus dilemas e casos bicudos – como resolvê-los à luz da necessidade com a moldura da Halachá, a Lei Judaica?

Um dos elementos centrais do curso e uma das partes que me foi mais fortemente recomendada, foi a formação na área da Retórica. Como dar uma palestra, aula na sinagoga de uma forma interessante? Que temas explorar e como? Como passar os temas difíceis de uma forma atrativa?

Frequentemente, recebemos a visita de atuais e ex-emissários nas comunidades do mundo inteiro que nos contam as suas experiências: as dificuldades que encontraram, os desafios que passaram, o que conseguiram fazer, o que desejariam ter feito. Tudo isto nos dá indicações como estarmos preparados para enfrentar o mundo judaico "lá fora", fora de Israel.

São realizados contactos com potenciais comunidades para envio dos alunos. Comunidades que estão interessadas em receber um rabino, um professor para a escola judaica, um animador do grupo de jovens, etc. De qualquer forma, as funções acabam por não ser tão fixas e o emissário que fora designado para ser professor da escola judaica poderá acabar por se tornar o rabino da comunidade. Obviamente, em qualquer caso, um rabino desempenha sempre funções de professor.

Ao longo da nossa trajetória judaica, tanto eu como a minha esposa fomos ajudados por "emissários". Eu, vindo de uma família e de um ambiente não-judaico em Portugal, no processo de conversão; ela, crescida numa família pouco religiosa no Brasil, no seu retorno à religiosidade judaica.

Numa altura em que o Povo Judeu se encontra numa situação delicada, ameaçado por níveis de assimilação e um desinteresse (ou pelo menos grande desconhecimento) das novas gerações pela sua herança espiritual e histórica, é uma enorme responsabilidade dar uma ajuda para travar este processo. É a nossa vez de contribuir para este grande esforço. As potencialidades são gigantescas. O terreno, apesar de difícil, é fértil.

A par do fenómeno gravíssimo da assimilação, existem cada vez mais judeus interessados na religiosidade (o que também acontece noutras religiões). Aquilo que chamamos teshuvá, ou "retorno". Jovens e adultos afastados descobrem uma identificação com as suas raízes judaicas. Em muitos casos, essas raízes foram cortadas por "casamentos mistos" dos seus pais ou avós e o "retorno" significa na verdade uma "conversão".

Hoje, como em muitas outras épocas da História, o Povo Judeu encontra-se numa encruzilhada. De um lado, as forças da assimilação que arrancam membros ao Povo Judeu. Do outro, a redescoberta das origens e da espiritualidade pelos "afastados". São fenómenos que se encontram em todas as comunidades no disperso mundo judaico e em todas as famílias judaicas do planeta. Na mesma família, acontece um dos filhos se casar com um não-judeu e o outro tornar-se religioso.

Ainda é cedo para saber par onde iremos depois de terminado o curso. Pela afinidade linguística, Portugal ou Brasil seriam os destinos mais "naturais". Espanha ou a América Latina são outras possibilidades ou, mais remotamente, até algum país de língua inglesa. Porém, admito que voltar a Lisboa na condição de "emissário" seria, no mínimo, estranhíssimo.

PS – É importante ressalvar que os "emissários" não são missionários, dedicando-se exclusivamente aos assuntos das comunidades judaicas. Não existe prática "missionária" no Judaísmo. Existe assistência aos que, eventualmente se desejem converter, mas não existe qualquer acção de propaganda do Judaísmo fora das esferas da comunidade judaica.

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Domingo, 15 de Novembro de 2009

Degraus de uma longa escada

Por via do blog e de um dos assuntos que trata: a conversão ao Judaísmo, muita gente me contacta pedindo informações sobre esse tema. Aqui fica uma lista dos passos do processo, com a explicação de cada um deles. Não é uma receita, nem um kit de montagem, mas talvez dê algumas dicas a quem procura assistência neste caminho às vezes tão complicado.


Jimmy e Pamela Harris são parte de um novo fenómeno americano:
negros convertidos ao Judaísmo.

0 – Porquê?
É o passo "0", porque antes de partir para o primeiro degrau, há que ter a mínima consciência do que implica uma conversão ao Judaísmo. As razões que levam cada pessoa a enveredar por este caminho variam e são pessoais. Do gosto pelo humor judaico (Porque não? É interessante poder contar piadas em nome próprio, por exemplo), reunião com as raízes familiares, busca espiritual, etc.

Na maior parte dos casos, são pouco mais que irrelevantes para o sucesso da empreitada. Como ouvi uma vez o meu rabino dizer: "Não me interessam as razões das pessoas. Só me interessa que sejam honestas". É apenas o ponto de partida.

1 – Contactar um rabino.
Obviamente, recomendo um rabino ortodoxo. As conversões das linhas reformista e conservadora não são reconhecidas pela linha ortodoxa. Apesar de as conversões não-ortodoxas darem o direito a emigrar para Israel, levantam problemas para quem desejar casar em Israel, pois apenas a linha ortodoxa é reconhecida para efeitos de casamento. Os rabinos ultra-ortodoxos (como os da linha Chabad) normalmente são mais hostis ao assunto da conversão, mas nem sempre.

O Judaísmo ortodoxo moderno é mais tolerante neste campo. As comunidades judaicas sírias (Nova Iorque e México, por exemplo) são completamente avessas ao assunto das conversões, considerando inválidas as conversões realizadas para efeito de casamento, por exemplo.

2 – Estudo de Judaísmo.
Depois de conseguir contactar com um rabino que aceite tratar do assunto da conversão, o candidato deve passar a estudar com ele. A maioria – se não todas – as comunidades têm classes de conversão. Normalmente, os rabinos não cobram qualquer quantia pelas aulas de conversão. Ensinar faz parte das funções normais do rabino. Podem ser cobradas despesas com fotocópias ou livros de estudo mas mais do que isso será, a meu ver, abusivo.

Além do estudo em classes, é importante estudar sozinho. Hoje há muita literatura sobre o assunto, seja em inglês como em português. A Internet também é uma ferramenta preciosa, mas a ser usada com cuidado. Nem todas as fontes são confiáveis.

3 – Contacto com a comunidade judaica.
Durante o período de estudo, que pode estender-se de alguns meses a vários anos, é muito importante ir mantendo um contacto com a comunidade, a par da frequência das aulas de conversão. Conhecer o ciclo anual judaico, como o Shabbat e as festas (Pessach, Shavuot, Rosh Hashaná, Yom Kippur, Succot, Chanuka, Purim) só se consegue com um contacto com a comunidade. Além de ser uma experiência preciosa, atesta o interesse do candidato no Judaísmo. Também ajuda a ter uma melhor relação com o rabino.

4 – Recomendação a um Bet Din (Tribunal Rabínico).
Dependendo do progresso do candidato na prática do estudo e da sua prática das tradições judaicas, o rabino fará uma recomendação a um Tribunal Rabínico. A maior parte dos países não têm Bet Din. Isso implica contactar com um Tribunal Rabínico noutro país. A melhor opção será Israel.

A falta de Bet Din pode implicar que a pessoa, pura e simplesmente, não possa terminar o processo no seu próprio país sem integrar um ulpan (curso) de conversão em Israel. É o que se passa na maioria dos casos de Portugal. Normalmente, o Tribunal Rabínico não facilita os processos de pessoas vindas de comunidades com poucas estruturas judaicas (como o caso de Portugal). Pode acontecer o Bet Din impor como condição a permanência em Israel (foi o meu caso).

5 – Reunião no Bet Din.
É um procedimento relativamente simples, apesar de ser o mais ansiado. Afinal, esta é a “grande prova”. Com as devidas diferenças, quem já passou um exame oral na escola pode ter ideia do tipo de acontecimento que é uma reunião de um Tribunal Rabínico. Três juízes rabínicos fazem várias perguntas ao candidato. Primeiro de apresentação, para saber a origem, como chegou ao Judaísmo, quanto tempo estudou, qual a prática que o candidato tem, etc.

Normalmente, o candidato vai acompanhado de alguém, seja o seu próprio rabino ou um professor do ulpan de conversão, ou alguém que conhece bem o candidato. São pedidas cartas de recomendação, do rabino que acompanhou o processo, da família adoptiva, de professores de yeshiva ou do ulpan, etc. São feitas várias perguntas sobre o Judaísmo: bênçãos sobre mitzvot (mandamentos judaicos) e alimentos, aspectos e leis das festas judaicas, etc.

É comum perguntarem sobre as diferenças entre o Cristianismo e o Judaísmo, para atestar a segurança das crenças do candidato à conversão, já que na maioria provêm de um ambiente cristão.

6 – Aprovação pelo Bet Din.
No final da reunião, que normalmente não dura mais de uma hora, no caso de o candidato ser aprovado como novo membro do Povo de Israel, o converso tem de enunciar a oração de Shemá Israel. É a profissão de fé judaica, na qual declara a fé no Deus Único e a aceitação da Torá e das mitzvot.

Nesta altura, o converso é obrigado ao cumprimento de todas as mitzvot. Apenas está excluído temporariamente de contar para um minyan – o número mínimo de 10 homens necessário para as cerimónias públicas judaicas.

7 – Brit Milá ou Circuncisão (só para homens).
Esta que é uma das mais respeitadas tradições do Judaísmo é uma das fases cruciais do processo. Quem estuda o fenómeno da conversão ao Judaísmo explica que a enorme predominância de mulheres em relação aos homens como candidatos à conversão, se deve à obrigação da circuncisão. Nem todos os homens estão dispostos a passar por esta operação.

No caso dos adultos, a operação é realizada num hospital, mas sempre por um mohel, um homem formado especialmente na realização da circuncisão de acordo com a lei judaica. Se o candidato já é circuncidado, é feita uma revisão por um rabino, para saber se está de acordo com a Halachá. Pode ter se ser realizada uma nova operação de correção, mas na maioria dos casos é apenas realizada uma pequena cerimónia em que é retirada uma gota de sangue, simbolizando que a circuncisão foi feita de acordo com a lei judaica.

8 – Tevilá ou Banho ritual
A Tevilá ou banho ritual consiste na imersão num mikve, que é um tanque de águas especial, construído de acordo com regras específicas e que se destina à purificação ritual. Para que a imersão seja completa, não pode existir qualquer barreira entre o corpo da pessoa e a água, por isso é a pessoa entra completamente nua na água.

A imersão é verificada por três rabinos (que são como um novo Bet Din). Estes, porém, não vêm a pessoa nua, já que apenas entram na sala de imersão quando a pessoa já está dentro da água. No caso das mulheres que passam pela tevilá, é uma mulher quem verifica que a imersão foi integral e apta. Neste caso os três juízes encontram-se num local onde não vêm a mulher dentro da água. Tudo é feito com discrição. No caso de o candidato tiver de passar pela circuncisão, a ferida da operação terá de curar completamente antes de poder ir ao mikve, o que pode demorar cerca de um mês.

A partir da imersão, a pessoa pertence oficialmente ao Povo Judeu, em todos os assuntos. As únicas limitações são a proibição de uma mulher convertida se casar com um cohen, um membro da antiga tribo sacerdotal judaica.

Todas estas fases, cada uma com as suas complicações, apenas pretendem garantir que a pessoa está realmente comprometida com o Judaísmo. Afinal, o Judaísmo não é uma religião missionária. Não procura converter os demais, nem impor-lhes a Torá, nem considera os não-judeus como "infiéis contra os quais há que travar uma guerra santa" ou "condenados ao fogo do Inferno".

Quaisquer que sejam as motivações para a conversão, é essencial que todos os que entram no Povo de Israel o fazem com fé clara e consciência da responsabilidade de cumprimento da Torá.

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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Segredo da confissão

Nos meus tempos de católico, um dos momentos mais difíceis da minha prática religiosa era a ida à confissão. A primeira vez que passei por esse ritual foi nas vésperas da "Primeira Comunhão", por volta dos 7 anos. Como o nome indica, era a primeira vez que iria "comungar", por isso, a lei mandava que deveria estar "livre de pecado". Lembro-me de ter ido em grupo, com todos os meus colegas de catequese. Nas semanas anteriores, uma parte das dominicais aulas de catequese foi dedicada à preparação de tal momento, em especial sobre o que dizer quando chegasse a hora de me ajoelhar ou sentar em frente do sacerdote.


Pequei... douh!

Começava com uma breve declaração de arrependimento: o "acto de contrição". Se não soubesse dizê-la de memória, o padre até ajudava. Menos mal. Seguia-se uma revelação dos pecados que vinha confessar. Era a parte mais complicada. "Não obedeci aos meus pais. Briguei com a minha irmã e não lhe emprestei os meus brinquedos..." Que grandes pecados se têm aos 7 anos. Ainda assim, era difícil ter de discorrer a lista de máculas perante um desconhecido. (E não acho que seria mais fácil se a confissão fosse feita a um conhecido). Depois de tal prova, o padre mandava rezar um certo número de "pais-nossos" e "avé-Marias". Podia rezá-los logo ali, na igreja. Assim, já liberto da obrigação do ritual, voltava para casa com algum descanso. No dia seguinte, poderia comungar pela primeira vez, sem culpa.

Este ritual repetiu-se algumas vezes, sobretudo na altura dos feriados religiosos católicos, como a Páscoa ou o Natal. No resto do ano, ainda que fosse semanalmente à missa, eram raras as vezes em que comungava. Porém, assim que fazia algo que eu achasse que devia ser confessado, deixava de comungar. Nos meus anos de católico comprometido, conhecedor da importância da comunhão, mantive a coerência de não "tomar o corpo de Cristo" sem cumprir as regras prescritas. As reticências face ao ritual da confissão faziam adiar a ida ao confessionário. Nem era por não confiar no segredo da confissão que o padre jurara, pois ainda hoje vejo-o como um "segredo profissional" como outro qualquer. O problema era o acto de confissão em si e a forma de penitência. Demasiado forçado o primeiro, demasiado automática, a segunda.

Não via como revelar os meus erros a uma pessoa que não tinha nada a ver com eles, me poderia ajudar a ultrapassá-los. A conta de "pais-nossos" e "avé Marias" também me parecia pouco convincente. Durante os meus anos de católico praticante, ouvi várias explicações do significado e da função da confissão. A mim, nenhuma delas me convenceu. Aceito que algumas – muitas – pessoas as tomem como válidas e sintam naquela forma de confissão uma forma de restabelecimento espiritual.

No Judaísmo também existe confissão. Ela é, porém, individual e privada. Não existem intermediários na oração ou na salvação. Diariamente, nas orações matinais, uma das partes do serviço é o vidui (confissão em hebraico). De pé, com solenidade, em voz baixa, cada um lê do livro de rezas uma lista de transgressões. Só Deus e cada um saberão quais delas se aplicam a si mesmo. Cada uma das transgressões é enunciada na primeira pessoa do plural. "Fomos culpados, atraiçoámos, roubámos, falámos calúnias..." Cada judeu é responsável por si mesmo e, ao mesmo tempo por todo o Povo de Israel.

No calendário hebraico, esta altura do ano é o período especial da reconciliação e da introspeção. Estamos entre Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico que se celebra em festa durante dois dias, e Yom Kippur, o grande Dia do Perdão, um dia de jejum absoluto. Cada um deve procurar emendar as suas falhas, mesmo as aparentemente insignificantes. Deus é a única testemunha da confissão particular, só Ele sabe os sentimentos de culpa – e de que culpa – que passam pelo coração daquele que se confessa. Em silêncio.

publicado por Boaz às 23:03
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Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Dia da maioridade

Na tradição judaica, a Torá é dividida em porções semanais, as parashiot, lidas publicamente na sinagoga na manhã de Shabbat. Uma parte mais reduzida da mesma porção semanal é lida também no serviço religioso matinal às segundas e quintas-feiras.


Celebração de Bar Mitzvá no Kotel, Jerusalém, 8 de Adar de 5767 (26.2.2007)

Estes três dias da semana, em que é lida a Torá, são também ocasiões para o Bar Mitzvá – a cerimónia de passagem dos rapazes judeus de 13 anos à idade adulta. É evidente que em muitos aspetos, um rapaz de 13 anos é ainda um adolescente, mas a lei judaica determina que a partir dessa idade – exatamente 13 anos e um dia – ele passa a ser responsável por si mesmo no cumprimento dos preceitos religiosos.

O Bar Mitzvá – literalmente "filho do mandamento" – é o momento para uma festa pública em honra do rapaz. O acontecimento central da celebração é a leitura pública do rolo da Torá, pela voz do próprio "bar mitzvado". Após alguns meses de treino intensivo, aprendendo o texto e a melodia especial da leitura da Torá, o jovem mostra os seus dotes de baal korê, o leitor da Torá.

A família que decide fazer o Bar Mitzvá no Shabbat organiza depois um banquete público – ou no mínimo um pequeno lanche matinal – após o final do serviço religioso. Muitas famílias, em especial as não-tanto-religosas, decidem fazer a festa no Kotel, o Muro Ocidental, em Jerusalém, às segundas e quintas-feiras. São esses os dias mais movimentados no lugar mais santo do Judaísmo. Dezenas de rapazes, acompanhados pelas suas famílias rumam ao Kotel para a sua festa de Bar Mitzvá. Com eles, chegam fotógrafos e operadores de câmara com a missão de perpetuar o momento para a posteridade.

Para os menos preparados na arte de ler a Torá, alguém mais experiente é convidado para fazer a leitura em seu lugar. Nesses casos, a participação do rapaz no ritual limita-se então a "subir à Torá": aproxima-se do rolo da Torá, faz uma bênção e escuta a leitura. Por várias vezes, presenciei cerimónias de Bar Mitzvá de rapazes de famílias não-religiosas. A estranheza do rapaz perante tal momento inédito na sua vida é comovente. Ele é um alienígena num planeta desconhecido, um planeta que os pais nunca lhe mostraram.

Ele é o ator principal daquela peça, mas está totalmente baralhado pelo seu papel, imerso na estranheza – para ele – dos rituais. Para muitos destes filhos de famílias "afastadas", esta será a primeira vez que participam num serviço religioso. Ainda assim, a família pouco cumpridora dos mandamentos diários, teima em manter a tradição e realiza a festa do rito de passagem do seu filho com grande orgulho e empenho.

Judeus estrangeiros abastados, em especial americanos, têm o costume de vir a Jerusalém por ocasião do Bar Mitzvá dos seus filhos. À porta do hotel onde a família fica hospedada, são afixadas faixas de felicitação ao "novo adulto" e em alguns pontos estratégicos do trajeto até ao Muro cartazes indicam o local da festa aos outros convidados.

Nas décadas mais recentes, introduziu-se este costume também para as meninas. Ao atingir a maturidade religiosa aos 12 anos, as meninas judias também têm uma celebração especial. Não lêem da Torá, nem ninguém lê a Torá para elas publicamente. A versão feminina deste rito de passagem não é mais do que um banquete com as amigas. Por vezes, o banquete é partilhado por várias meninas de 12 anos que celebram juntas o seu Bat Mitzvá, "a filha do mandamento". Inventado pelas correntes reformistas do Judaísmo, desejosas da "integração" e "igualdade" da mulher na vida religiosa judaica, aos poucos o ritual foi penetrando no mundo ortodoxo judaico. Com algumas reticências, como é óbvio.

No Brasil, por exemplo, é costume a festa de Bar mitzvá ser uma oportunidade para a ostentação do status familiar. Os banquetes contam com a atuação de estrelas da música local – conheço gente que teve a Elba Ramalho ou um desfile de escola de samba na sua "pouco ortodoxa" festa.

Em todos os casos, o Bar Mitzvá e o Bat Mitzvá – ortodoxo, reformista, ou meio-termo, é um momento de festa que é recordado para toda a vida. Para os afastados, será das raras vezes que tiveram e terão contato com a tradição judaica – talvez por muitos anos. Para outros, é exatamente aquilo que a festa pretende ser: a porta de entrada na vida judaica ativa. O momento em que eles passam da inconsequente menoridade, à consciente adoção da rica e extraordinária tradição judaica.

publicado por Boaz às 22:20
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Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Todos juntos (e apertados)

Normalmente, rezo Minchá, a oração da tarde, na yeshivá, antes da pausa para o almoço. Porém, na última quarta-feira, um compromisso à hora de almoço, fez-me perder a reza com todos os alunos da yeshivá. As longas tardes do final da Primavera permitem alargar mais o horário para rezar Minchá.

Saindo da yeshivá às sete da tarde, ainda tenho algum tempo para encontrar uma sinagoga disponível. Planeando fazer as compras semanais no mercado de Machane Yehuda, dirigi-me ao centro de Jerusalém. Em frente à entrada do mercado, do outro lado da Rua de Jaffa, uma pequena sinagoga tem sempre movimento.


Sinagoga Zaharei Chama, Rua de Jaffa, Jerusalém.

Àquela hora, os atrasados (como eu) na reza, correm à sinagoga, tentando apanhar o último minyan, o grupo de 10 homens necessário para rezar uma oração pública. Ao entrar na pequena sinagoga, o grupo presente já está no final da reza. Frustrado por ter perdido a oportunidade, reparo então que, no final do salão da sinagoga, há outras salas onde se pode rezar.

Aquela é uma sinagoga de estilo shtiebel - significa "a pequena casa", uma residência em que cada divisão foi transformada numa pequena sinagoga. Assim, a toda a hora começa um novo grupo de homens a rezar, sem ser preciso esperar pelo horário fixo da reza.

Entro num pequeno quarto com apenas dois bancos. Vários homens recém-chegados entram também. Depressa se completa o necessário grupo de dez. Por se situar junto aos bairros de Geula e Mekor Baruch, a maioria dos homens que aparecem para rezar são haredim, ultra-ortodoxos. Ainda assim, também alguns sionistas religiosos como eu.

Ali, as diferenças de linha religiosa são praticamente ignoradas. Sefarditas, askenazim, haredim de "chapéu-preto", sionistas. Todos são incluídos no grupo.

Continuam a entrar mais homens. O minúsculo quarto, onde caberiam à-vontade 5 pessoas, contém agora mais de 15. Outros rezam no corredor. No final da Amidá, a parte principal da reza, entoada individualmente e em silêncio, é costume recuar três passos do local onde se rezou, o que simboliza a retirada perante da presença de Deus, o Rei diante do qual acabámos de rezar. Ali, naquele espaço exíguo e apinhado, é impossível recuar os tais três passos, sem pisar os pés ao homem que reza atrás de nós.

Aquele foi o último minyan da oração da tarde, na última hora possível. Fim do tempo: o sol já se começa a pôr. Nas salas ao lado começam entretanto a chamar para a oração da noite, Arvit. Depois da repetição da reza em voz alta pelo hazan (o oficiante do serviço religioso) e da conclusão do serviço, sigo para as compras.

No mercado, tal como na sinagoga, juntam-se todos os tipos de judeus. O minyan das compras e da vida diária compõe-se das muitas cores de Israel.

publicado por Boaz às 15:58
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Segunda-feira, 11 de Maio de 2009

O visitante


Cúpula do Rochedo e uma cruz. Foto de Sarah Duishart, Maio 2005

Começou hoje a visita do papa Bento XVI a Israel. Não é uma visita pacífica, ainda que ele tenha apresentado a sua viagem ao Médio Oriente como uma "de apelo à paz e à compreensão entre as religiões". Bom slogan, mas algo distante daquilo que tem sido o seu papado.

No ano passado, Bento XVI provocou um escândalo com o Islão, ao citar uma obra cristã medieval que caracterizava alguns ensinamentos de Maomé "maléficos e desumanos", em especial "o seu mandamento de espalhar a fé pela espada". As autoridades muçulmanas exigem um pedido de desculpas pela grave afronta ao profeta.

Com os Judeus, a sua relação também não tem sido a mais amistosa. Restaurou uma passagem antiga da missa em que apela à conversão dos Judeus. E mais recentemente reabilitou um bispo inglês renegado, Richard Williamson, famoso pelo seu revisionismo do Holocausto. Ao visitar o Yad Vashem, o Museu do Holocausto em Jerusalém, será difícil não pensar nesta questão e que o jovem Joseph Ratzinger (o verdadeiro nome do papa) foi membro da Juventude Hitleriana – ainda que a incorporação no movimento de propaganda nazi fosse obrigatória para todos os jovens arianos e o seu pai fosse um crítico do Nazismo.

Este será o terceiro papa a visitar Israel, depois de Paulo VI e João Paulo II. A vista de 2000, é vista por muitos como a mais importante do pontificado de João Paulo II. Em 1964, Paulo VI fez uma vista relâmpago de menos de 12 horas. Na altura, recusou-se encontrar-se com o presidente da República Zalman Shazar, em Jerusalém, encontrando-se com ele apenas no posto de fronteira de Meggido, nunca lhe dirigindo a palavra como chefe de estado. E, mais estranho ainda, durante a visita não mencionou o nome do país “Israel”. Na altura, o Vaticano ainda não reconhecia o Estado Judaico (isso só veio a acontecer 30 anos depois). O re-estabelecimento da soberania judaica na Terra Santa era uma espinha difícil de engolir pelo Catolicismo, herdeiro da ideia do novo pacto, em substituição do antigo pacto de Deus com o Povo de Abraão.

Nas semanas que antecederam a visita uma nova questão difícil foi levantada entre Israel e a Igreja Católica. O Vaticano reclama direitos de soberania sobre vários locais santos cristãos em Israel, entre eles: a igreja da Anunciação em Nazaré e a igreja das Beatitudes em Tiberias. Além da problemática questão de extra-territorialidade – porque há-de ter o Vaticano soberania sobre igrejas em Israel se uma sinagoga em Roma não é território israelita? –, o próprio favorecimento do controle católico desses locais implica uma exclusão das outras confissões cristãs. O Catolicismo nem sequer é a principal confissão cristã em Israel, sendo uma minoria entre as várias comunidades ortodoxas.

Por outro lado, é sabido que a comunidade católica a nível internacional nem é conhecida por ser pró-Israel, nem o turismo católico é de grande expressão entre os peregrinos cristãos que vistam o país, ao contrário de várias igrejas evangélicas. Então, para quê o favorecimento?

Tal como o Rabino Norman Lamm, director da importante Yeshiva University de Nova York comentou: "O papa é um intelectual e como tal existe algo nas entrelinhas do seu comportamento. Os seus interesses são principalmente teológicos. Nada de grande consequência sairá da visita. É importante não pintar o papa como um demónio. Ele tem uma grande porção de poder e influência, e é importante ter um amigo. Mas ele deve saber que nós [os Judeus] não estamos à venda."

publicado por Boaz às 22:56
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