Terça-feira, 10 de Julho de 2012

Morto e envenenado (por esta ordem)

Quase oito anos depois da sua morte, Yasser Arafat é ressuscitado. Apenas nas notícias (Alá seja louvado).

Uma investigação divulgada pela rede de televisão Al-Jazeera revelou que altos níveis do elemento radioativo polónio-210 foram encontrados em alguns objetos pessoais de Arafat. Os objetos estavam na posse de Suha Arafat, a viúva do histórico líder palestiniano e foram analisados pelo Instituto de Física Radiactiva de Lausanne, na Suíça. A morte de Arafat, num hospital de Paris a 11 de Novembro de 2004, continua a ser fonte de muita especulação, aumentada pela não realização de uma autópsia. A divulgação do relatório médico integral foi sempre recusada tanto pela viúva como pela Autoridade Palestiniana. As teorias acumulam-se.


Guarda de honra no túmulo de Yasser Arafat, na Muqata, o complexo governamental
da Autoridade Palestiniana, em Ramallah (Tristam Sparks, Wikipedia)

O médico pessoal de Arafat durante 18 anos, Ashraf al-Kurdi, que o assistia permanentemente, mesmo em caso de um simples resfriado, não teve qualquer acesso ao líder palestiniano quando o seu estado de saúde se deteriorou gravemente em Novembro de 2004. A viúva Arafat proibiu-o até de visitar Arafat no hospital francês onde estava a ser tratado e, posteriormente, de inspeccionar o cadáver. Apesar das opiniões dos médicos franceses que foram divulgadas não terem sido conclusivas para apurar a causa de morte de Arafat, Suha também recusou a realização de uma autópsia. Haveria algo a esconder? Decerto, se fosse algo que facilmente incriminasse Israel, uma autópsia teria sido feita sem demora...

Resultados divulgados em 2005 indicaram que Arafat morrera de um acidente vascular cerebral desencadeado por uma doença desconhecida. Análises desses resultados sugeriram como causa de morte uma infecção, envenenamento ou até Sida. Apesar dos seus numerosos rivais entre o aparelho político palestiniano, suspeitas de um envenenamento recairiam sempre sobre Israel. (Quem mais?)

A suspeita de morte devido a Sida foi uma das mais difundidas em várias investigações dos relatórios médicos parciais. De acordo com fontes do governo americano, a CIA tinha conhecimento da doença de Arafat, e recomendou a Israel não assassinar o líder palestiniano. Ao falecer com a doença, Arafat ficaria irremediavelmente desacreditado pelos rumores relacionando a Sida à homossexualidade. Aliás, a alegada homossexualidade de Arafat foi documentada em 1987, no livro Red Horizons: Chronicles of a Communist Spy Chief, ("Horizontes Vermelhos: Crónicas de um chefe espião comunista") de Ian Mihai Pacepa, um antigo general da Securitate, o serviço secreto da Roménia comunista. O livro, que descreve entre outros assuntos a relação próxima entre o KGB, a Securitate e a OPL, relata que durante as suas visitas a Bucareste (Arafat era um protegido do regime de Ceausescu e fora treinado pelo KGB nos anos de 1970-80) o quarto do líder da OLP estava sob escuta. As orgias entre Arafat e os seus guarda-costas alemães-orientais eram gravadas e foram relatadas detalhadamente por Constantin Munteaunu, o general romeno destacado para a OLP.

Mas voltando ao polónio descoberto nos bens pessoais de Arafat. Esse elemento radioativo tem uma "meia-vida" de 138 dias, o que significa que metade da substância se degrada a cada quatro meses e meio. Porém, oito anos após a morte de Arafat, o relatório dos cientistas suíços refere níveis altos da substância. Ely Karmon, especialista em terrorismo nuclear, biológico e químico do Instituto de Contra-terrorismo de Herzlyia, explicou que "Se tivesse sido usado para envenenamento, níveis mínimos seriam encontrados nesta altura. Todavia, níveis muito mais altos foram encontrados. Alguém colocou o polónio muito mais tarde." O mesmo investigador questionou-se sobre alguns dados da investigação da Al-Jazeera. "Se Suha Arafat guardou estes objetos contaminados, porque sete anos depois ela não foi também envenenada? Ela tocou estes pertences de Arafat no hospital". A profundidade da investigação da televisão Al-Jazeera foi também questionada, entre outros pontos, por não ter sido verificada a existência de polónio nas casas de Suha em Paris e Malta. Além disso, as informações divulgadas pelos médicos franceses que trataram Arafat não coincidem com um envenenamento com polónio.

O governo de Israel negou qualquer envolvimento nos novos rumores sobre a morte do líder palestiniano. Paul Hirschon, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, mostrou-se céptico em relação às novas suspeitas, gracejando: "De repente, Suha estava a verificar o seu cesto de roupa suja e descobriu coisas que não foram lavadas há oito anos. Subitamente, umas peças de roupa aparecem; são testadas e pronto! Têm polónio!"

Como se nada de mais grave acontecesse no Médio Oriente, a Liga Árabe convocou uma reunião para debater as novas alegações sobre a misteriosa morte de Arafat. Os milhares de mortos na guerra civil da Síria; a insegurança no Iraque, Iémen e Bahrain; o fanatismo islâmico e o terrorismo que daí provém; o Irão em trajetória nuclear; as mulheres tratadas como objectos; os cristãos, bahaí’is e opositores políticos perseguidos; os jovens desempregados e sem futuro; a corrupção dos regimes e milhões de cidadãos sem direitos, todos podem esperar pelas decisões dos xeques e ditadores árabes.

Agora, como há mais de 50 anos, os árabes esperam pela resolução dos seus problemas. E, agora como há mais de 50 anos, os seus líderes adiam a discussão desses mesmos problemas, até que a Palestina e os seus mitos sejam resolvidos. Onde quer que esteja, Yasser Arafat estará exultante, com mais uma das suas bem montadas encenações.

publicado por Boaz às 22:57
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Quarta-feira, 4 de Abril de 2012

Vêm aí os Persas?

Tal como em Israel, também no resto do Mundo Ocidental os diplomatas têm andado agitados com a questão nuclear iraniana. O assunto aparece nas notícias todos os dias. Desde as crescentes sanções contra o regime iraniano, às declarações dos políticos. Mais do que factos, transmitem-se especulações sobre o estado do programa nuclear iraniano e o vai-não-vai de um ataque israelita contra os centros atómicos dos ayatollahs. O anúncio de sanções pela comunidade internacional, em especial a União Europeia que declarou um embargo à compra de petróleo iraniano para o próximo Verão, levou a mais uma subida do preço do petróleo. Mais um fator a fazer piorar a crise económica internacional.

De um lado, o presidente iraniano Ahmadinejad continua a aparecer em propagandísticos eventos que promovem os avanços imparáveis das suas forças armadas e do seu programa nuclear – que alega ser apenas para produção elétrica, algo estranho para um país cujo solo é ensopado de petróleo e gás natural. Do outro, o Primeiro-Ministro israelita Benyamin Netanyahu e o Ministro dos Negócios Estrangeiros Avigdor Lieberman desenrolam-se em encontros com Obama e outros líderes ocidentais para alertar sobre os perigos de um Irão dotado de armas nucleares.

Para lá das fronteiras de Israel, entre as restantes nações do Médio Oriente, também há preocupação com a perspectiva de um Irão atómico. Esse é um dos pontos mais destacados pela diplomacia israelita: um Irão dotado de armas nucleares não é somente uma ameaça para Israel, mas para toda a região e o resto do Mundo. Numa região em constante conflito, uma nova potência militar desequilibraria as frágeis relações entre os vários países e complicaria a influência americana na região.

A questão nuclear iraniana entrou na ordem do dia com a subida de Mahmud Ahmadinejad ao poder. A retórica populista, o fanatismo militante, o declarado anti-israelismo que declara a vontade de “apagar Israel do mapa”, tornaram-no um espalha-brasas na arena internacional. Ainda que seja admirado por alguns elementos da extrema-esquerda europeia e sul-americana. Sem a menor vergonha, organizou conferências destinadas a negar o Holocausto, convidando a Teerão pseudo-especialistas, adeptos do mais danado revisionismo histórico. Ninguém sabe muito bem o que poderá fazer o maníaco de Teerão, com o militarismo lunático de quem se considera o mensageiro que trará o Mahdi (o messias islâmico) após uma guerra apocalíptica contra os Infiéis, nem que para isso arruine o seu próprio país. Ahmadinejad parece seguir à letra a ideologia destruidora do falecido ayatollah Khomeini, o ideólogo da República Islâmica: “Deixem esta terra [o Irão] ser queimada, desde que o Islão desponte triunfante no resto do Mundo”. Pelo menos, entre o aparelho político iraniano, o parlamento parece mais moderado do que o atual presidente, limitando em parte os seus delírios.


Imagens com esta mensagem (sem o sarcasmo final) têm sido publicadas na Internet,
provenientes de Israel. Do Irão a resposta tem sido idêntica.

Além da ameaça declarada contra Israel, Ahmadinejad é uma ameaça também para os seus vizinhos árabes. Apesar das proximidades culturais, o Irão não é um país árabe, mas persa. As inimizades entre persas e árabes são antigas. A minoria árabe no Irão é altamente descriminada. A tradição islâmica iraniana é maioritariamente xiita, ao contrário da maioria dos muçulmanos árabes que seguem a tradição sunita. Os xiitas, seguidores da tradição de Ali, o sobrinho de Maomé e seu herdeiro espiritual de acordo com o Islamismo Xiita, são vistos como hereges pela maioritária corrente sunita. A secular descriminação dos xiitas pela maioria sunita deixou cicatrizes por sarar entre as duas maiores correntes do Islão.

Com o seu poder militar, as receitas do petróleo e a influência política, o Irão tem apoiado ativamente os movimentos xiitas nos países árabes. Do Iraque – onde os xiitas são a maioria, dominados e massacrados pela minoria sunita durante a ditadura de Saddam Hussein –, ao Líbano, onde o Hizbollah é um verdadeiro posto avançado dos ayatollas na fronteira norte de Israel. Na pequena ilha-estado do Bahrain, no Golfo Pérsico, a maioria xiita tem reclamado maiores direitos, face ao domínio sunita da dinastia reinante.

O temor dos países do Golfo face ao expansionismo atómico dos ayatollahs tem-se manifestado em rumores de um possível apoio de alguns países a um ataque de Israel às centrais nucleares iranianas. Rumores publicados nos jornais indicaram que a Arábia Saudita permitiria aos aviões de combate israelitas sobrevoarem o seu território a caminho de um ataque ao Irão. Obviamente que este apoio não é, nem pode ser declarado publicamente. Isso seria considerado uma traição dos muçulmanos árabes face aos seus irmãos iranianos, mesmo que sejam vistos como hereges. Ainda mais cooperando com o odiado inimigo sionista. Aos olhos do mundo ocidental e muçulmano, a unidade da Umma, a Comunidade dos Crentes Muçulmanos, continua a ser um mito propagado. Um apoio declarado dos países árabes a um ataque ocidental contra o Irão, seria prontamente explorado pela propaganda iraniana para incendiar ainda mais o mundo islâmico contra os EUA e Israel, chamados na terminologia iraniana de “Grande e Pequeno Satã”.

Israel tem aumentado as relações com o Azerbeijão, uma ex-república soviética, de maioria muçulmana mas secular, que faz fronteira a norte do Irão. Um artigo recente da revista “Foreign Policy” afirmou que o governo azeri teria autorizado o exército de Israel a usar as suas bases militares próximas da fronteira iraniana, num eventual ataque israelita ao Irão. O Azerbeijão tem um diferendo com o vizinho Irão no controle do Mar Cáspio, rico em petróleo.

Apesar do nervosismo dos diplomatas, dos repetidos simulacros de ataques, dos testes de novos mísseis para o exército, das recorrentes notícias alarmantes sobre um possível ataque nuclear contra o país e de uma possível operação militar israelita contra o Irão, em Israel o povo parece estar alheio a toda esta agitação pré-apocalíptica. As preocupações diárias do comum israelita prendem-se com a falta de casas ou o preço proibitivo das rendas nas principais cidades, o custo de vida em ascensão, o aumento dos combustíveis (ninguém poderá negar a relação entre a subida do preço do petróleo com a corrente vaga de sanções contra o Irão, um dos maiores exportadores mundiais de petróleo). As manifestações gigantescas ocorridas durante meses no Verão passado não tiveram a ver com a ameaça iraniana, mas com as dificuldades internas.

O preço elevado do queijo cottage – uma das paixões nacionais – tornou-se uma desculpa para protestos contra as dificuldades económicas. Depois da campanha para reduzir o preço do queijo, vieram os outros laticínios. Motivados pela sensação de poder nas mãos, a campanha popular virou-se para o preço das casas. Armaram-se tendas em todas as cidades de Israel, que permaneceram ativas todo o Verão e uma boa parte do Inverno. Depois, a revolta popular virou-se para o elevado custo da educação. E o governo instituiu a educação gratuita desde os três anos de idade. “O povo exige justiça social!”, o slogan gritado nas ruas e que fez estremecer o governo de Netanyahu no último Verão – e promete regressar nos próximos meses – nada tinha a ver com a ameaça iraniana (ou a eterna questão palestiniana).

Em evidente contra-mão às preocupações do quotidiano nacional, os militares e políticos israelitas insistem em manter a questão nuclear iraniana na sua agenda diária. Face à incerteza do que poderá resultar da Guerra Civil na Síria, até à perspetiva de um crescente armamento do Hezbollah no Líbano – o Irão não quererá perder os seus únicos aliados no Médio Oriente – o aparelho militar israelita tem insistido em aumentar o orçamento da Defesa, que já consome algumas dezenas de biliões de shekels do orçamento de Estado. Em geral, o orçamento militar em Israel é algo sagrado que nenhum governo se atreve a controlar, mas o governador do Banco de Israel e o próprio Ministro das Finanças têm tentado controlar as ânsias gastadoras dos generais.

Na verdade, ninguém saberá quando e se o ataque acontecerá. Mais incertas são as consequências de um bombardeamento israelita: desde a real eficácia de uma acção militar para travar o programa nuclear iraniano, à dispersão de materiais radioativos no território iraniano e até aos países vizinhos. E claro, a resposta dos ayatollahs a um ataque. Certo é que, não ficaria sem resposta. E o Irão tem um poderoso exército, dotado de mísseis de longo alcance. Com ou sem armas nucleares, um contra-ataque iraniano contra Israel seria catastrófico.

A mensagem da ameaça iraniana (real ou exagerada) não está a passar como os líderes israelitas desejariam. Ou talvez os israelitas, com o seu pragmatismo natural, considerem que não faz sentido preocupar-se com cenários hipotéticos de guerra – ainda que alguns incluam a perspetiva do extermínio – se não podem garantir confortos básicos imediatos como casa própria e queijo barato. Numa recente campanha na Internet, que se tornou viral, israelitas publicaram fotos suas em forma de cartaz, declarando que amam os Iranianos e que Israel não bombardeará o seu país. Do outro lado, houve uma reação no mesmo sentido, mas mais comedida, dadas as limitações à liberdade de expressão com que vivem os iranianos.

Antes de tentar convencer o mundo da importância de um ataque militar para deter o programa nuclear iraniano, parece que o governo israelita precisa de convencer a própria população israelita que essa é uma prioridade nacional. Para lá da habitação acessível, a educação grátis e as guerras do queijo cottage.

publicado por Boaz às 22:25
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Quarta-feira, 1 de Junho de 2011

Seis dias em Junho

Passaram mais de 40 anos, mas os acontecimentos de 5 a 10 de Junho de 1967 têm consequências até à atualidade. Conhecida por "Guerra dos Seis Dias", é um dos mais dramáticos episódios da história de Israel. Desde o dia da sua fundação, em 14 de Maio de 1948, o moderno Estado de Israel foi ameaçado pelos seus vizinhos árabes. Com o cessar-fogo da Guerra da Independência, em 1949, não foi instaurada a segurança e a estabilidade nas fronteiras do jovem Estado Judaico.

A partir do Sinai e da Faixa de Gaza – ocupada pelo Egito em 1949 –, as violações da fronteira de Israel eram constantes. A cada ataque seguiam-se retaliações da parte de Israel. O clima de guerra era permanente e, com a nacionalização do Canal de Suez, o Egito esperava represálias também da França e do Reino Unido, que pretendiam defender os seus interesses no Canal.

Sabendo dos interesses anglo-franceses, Israel decidiu ser o primeiro a atacar. A intenção israelita não ocupar o Sinai permanentemente. O objetivo era impor uma derrota ao beligerante regime de Nasser, que levasse o exército egípcio a terminar com as ameaças às fronteiras de Israel. A “Operação Kadesh” de 1956 causou uma derrota egípcia, mas o ambiente de guerra não abandonou a região. Com a colocação de milhares de soldados da ONU no Sinai para vigiar o cessar-fogo, as incursões árabes em território israelita terminaram durante alguns anos. A confiança israelita nas suas tropas cresceu consideravelmente.

A tranquilidade relativa da fronteira egípcia contrastava com os repetidos ataques na fronteira síria. Povoações no norte da Galileia e nas margens do Kinneret (Mar da Galileia) eram bombardeadas a partir de posições sírias no estratégico planalto de Golan. Em Jerusalém e na fronteira oriental, a ameaça do exército jordano também era crescente. Ainda que o Rei Hussein fosse o mais moderado dos vizinhos de Israel, era pressionado pelos milhares de residentes palestinianos no seu país e pelos restantes líderes árabes.

A situação agravou-se com a ordem do presidente egípcio Abdel Nasser de expulsão das tropas da ONU estacionadas no Sinai e a retoma do controlo militar da península pelo poderoso exército egípcio. No estreito de Tiran, no fundo do Sinai, foi imposto um bloqueio aos navios de Israel, impedindo o seu acesso ao Mar Vermelho. A guerra era de novo eminente.

Os dois blocos da “Guerra Fria” armavam cada um dos lados. Os soviéticos equipavam as forças árabes, enquanto Israel usava armas de fabrico americano, francês e britânico. Em evidente desvantagem numérica e estratégica, a única hipótese de Israel conseguir uma vitória no conflito que estava eminente, seria desencadear um ataque surpresa, rápido e massivo.

Na manhã de 5 de Junho, a aviação israelita atacou as bases aéreas egípcias a partir do Mediterrâneo. Voando a baixa altitude evitaram ser detetados pelos radares. Em algumas horas, a Força Aérea de Israel reduziu a cinzas toda a frota de aviões de Nasser. Simultaneamente, foram atacadas bases na Síria, Jordânia e Iraque. Este ataque fulminante permitiu a Israel o controlo absoluto do espaço aéreo, podendo depois concentrar-se na ofensiva terrestre.

Perante o ataque israelita, as populações árabes reagiram com entusiasmo. Afinal, não haviam sido informadas da pesada derrota aérea pela comunicação social controlada pelos seus regimes. Num esforço propagandístico evidente, a Rádio Damasco difundia a mensagem: “Destruiremos Israel em quatro dias”.

Os combates foram rápidos no Sinai. Em apenas três dias, a maior parte das forças egípcias – o mais poderoso exército árabe – foram derrotadas em batalhas de blindados. O exército de Israel avançou até à margem oriental do canal de Suez. Com a frente egípcia totalmente dominada, Israel concentrou-se na frente oriental. O exército jordano atacava a Cidade Nova de Jerusalém, pretendendo avançar pela cidade rumo ao Mar Mediterrâneo, cortando Israel ao meio.

As tropas israelitas atravessaram a "terra de ninguém"; que se estendia ao longo da fronteira que dividia a cidade desde 1949 e cercaram a Cidade Velha. Após dois dias de combates, o exército jordano foi repelido da Cidade Santa e a cidade foi finalmente reunificada. Pela manhã do dia 7 de Junho, já os fiéis judeus rezavam no Kotel, o Muro das Lamentações, pela primeira vez em 19 anos. O local mais sagrado do Judaísmo havia estado inacessível aos Judeus desde 1948, quando Jerusalém Oriental, incluindo a Cidade Velha, fora capturada pela Jordânia.


Fiéis judeus no Kotel, uma realidade impossível até 1967.

Israel avançou para Oriente, conquistando o território da Judeia e Samaria, que desde 1949 estava sob controlo jordano. Em 1950, esses territórios haviam sido mesmo anexados pelo Reino da Jordânia. Nessa altura, ainda ninguém reclamava a região para fundar um "Estado Palestiniano". Com as vitórias no sul e no leste asseguradas, restava suster a ameaça da Síria. Antes que as Nações Unidas decretassem um cessar-fogo, os blindados israelitas venceram o exército sírio nos Montes Golan. A 10 de Junho foi instaurado o cessar-fogo. A essa altura, as tropas israelitas já haviam avançado até próximo da capital síria, Damasco.

Em menos de uma semana, Israel aumentou mais de três vezes o tamanho do seu território. (A península do Sinai seria devolvida ao Egito em 1981, instaurando o primeiro tratado de paz israelo-árabe, o qual se mantém até hoje, apesar de alguns momentos problemáticos nas relações entre os dois países.) A partir de 20 de Junho foi autorizado a todos os Muçulmanos o acesso à mesquita de Al-Aqsa, no Monte do Templo (ou Esplanada das Mesquitas). Anteriormente, os fieis muçulmanos que viviam do lado israelita da “Linha Verde” também não podiam rezar nos seus santuários da Cidade Velha.

A espetacular vitória israelita causou um fortalecimento sem precedentes da identidade judaica. No espaço dos últimos 2000 anos, nunca as profecias de Redenção pareceram tão reais. Em todo o mundo, milhares de judeus seculares que até então desprezavam a sua origem judaica, passaram a afirmar com orgulho o seu Judaísmo. Milhares de Judeus fora de Israel passaram a usar com orgulho as suas kippot, publicamente. Na União Soviética, onde os Judeus sofriam uma forte perseguição religiosa, mesmo debaixo da opressão do regime despertara um movimento que reclamava o direito de imigrar para Israel.

Desde que Israel unificou Jerusalém, a cidade experimentou uma fase de desenvolvimento sem precedentes. Nunca a cidade se tornara verdadeiramente num local santo para as três religiões monoteístas. Apenas sob o domínio israelita foi instaurada a liberdade religiosa para todos os seus habitantes.

Hoje, o calendário judaico marca o Yom Yerushalaim, o Dia de Jerusalém, que celebra a reunificação da Cidade Santa, ocorrida durante a Guerra dos Seis Dias. Ele simboliza a restauração do domínio do Povo de Israel sobre a sua capital ancestral. O retorno a Sião, base do Sionismo, a ideologia fundadora do Estado de Israel, que é a ânsia dos Judeus de regressarem à sua pátria histórica depois de quase dois mil anos de exílio. A coroa regressou ao seu legítimo soberano.

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Domingo, 30 de Janeiro de 2011

A revolta dos arredores

Enquanto no Cairo e algumas outras cidades egípcias, o povo se revolta para tombar o regime, em Jerusalém o governo olha, atento ao que se passa com o grande vizinho do sul. Até agora, a palavra de ordem em Jerusalém sobre a crise egípcia é, simplesmente manter o silêncio. Isso e realçar o interesse de Israel em manter os acordos de paz com o Egito, assinados há precisamente 30 anos. Do resto do Mundo, também é evidente a cautela em decretar a morte do regime. Esperar para ver.

Uma das coisas que mais surpreende sobre o que se tem passado na Tunísia, Egito e noutros pontos do Mundo Árabe, para quem assiste a partir de Israel é a ausência de referências ao conflito com os Palestinianos. Entre os gritos dos manifestantes em Tunis e no Cairo não se escutam apelos a "morte a Israel" ou à "Palestina Livre".


Polícia de choque frente a manifestantes anti-Mubarak, Janeiro 2011.

Para aqueles que consideram a questão israelo-palestiniana como o cerne de todos os problemas no Médio Oriente, as revoltas nas capitais árabes provam o contrário. Nos últimos anos, políticos e diplomatas nos EUA, na Europa e nas Nações Unidas repetem o mesmo mantra: "a resolução do problema dos Palestinianos conduzirá à resolução de todos os demais problemas do Médio Oriente". Para apaziguar os ditatoriais governos árabes hostis às mudanças, a diplomacia internacional – interessada em manter boas relações com o poder instituído – raramente refere a necessidade de reformas políticas e económicas a fim de melhorar as condições sociais no Mundo Árabe. Pelo contrário, Israel e a situação dos Palestinianos sempre estão na agenda das visitas oficiais a um qualquer estado árabe.

Ao longo das décadas, em todo o Mundo Árabe o apoio à causa palestiniana é recorrente nos discursos políticos. Na década de 1960, no Egito de Nasser, face à pressão popular pela reforma política (já nessa altura os egípcios queriam mudar de regime), o ditador acenava com a causa palestiniana como o maior objetivo nacional. A resolução dos gravíssimos problemas do Egito: falta de liberdade política e religiosa, analfabetismo, corrupção do governo e desemprego, foi repetidamente adiada sob a demagógica bandeira da "libertação dos irmãos árabes da Palestina".

Porém, os manifestantes da "Revolução de Jasmim" tunisina, tal como aqueles que há uma semana marcham no Egito, e também esporadicamente na Jordânia, Iémen, Marrocos, Argélia, Líbano, Sudão e os que já apelam à mobilização popular na Síria, anseiam pela sua própria liberdade. A questão palestiniana e o ódio contra Israel são distrações recorrentes para a sua própria desgraça. Mais do que sobre israelitas e palestinianos, a instabilidade social e política do Mundo Árabe é sobre os próprios árabes. Sobre o seu desemprego e pobreza (que leva milhões a imigrar para a Europa). Sobre o desespero de quem não vislumbra um bom futuro.

A Palestina está diariamente nas primeiras páginas dos jornais, nas reuniões das Nações Unidas, nos discursos das chancelarias. Israel é repetidamente incriminado na arena internacional. Porém, perante os abusos que se prolongam há décadas e que originaram a explosão popular que se espalha pelo Médio Oriente, a resposta da diplomacia internacional tem sido nula.

A história ensina que em muitas revoluções populares que desejavam a democracia, o resultado foi a tragédia e a brutalidade. Da "mãe das revoluções", a Revolução Francesa, saiu um breve período democrático do qual nasceu a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão. Pouco tempo depois, o ímpeto democrático foi varrido pelo "Reino do Terror" liderado por Robespierre. Em 1979, com a queda do regime do Xá do Irão também surgiram breves ventos democráticos pela mão de Shapour Bakhtiar, mas o fanatismo islâmico do ayatollah Khomeini acabou com as esperanças de democracia. Até aos nossos dias.

Por enquanto, parece um movimento de espontânea revolta popular. Ao contrário das manifestações em Teerão depois das últimas eleições presidenciais fraudulentas, na revolta egípcia não há uma liderança clara dos que pretendem a reforma do regime de Hosni Mubarak. Porém, à espreita nas sombras, os extremistas islâmicos da Irmandade Muçulmana estarão a preparar-se para um assalto ao poder. Israel olha com cautela para as ruas do Cairo.

publicado por Boaz às 19:25
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Segunda-feira, 6 de Setembro de 2010

O negócio da verdade ou a verdade do negócio

Apesar de descartada a outrora sonhada carreira de jornalista, tento de alguma maneira manter-me informado acerca do que se passa no Mundo, em especial pela via dos meios de comunicação social portuguesa e israelita. Quase diariamente consulto os sites de jornais portugueses. Como é natural, interesso-me de modo particular pela cobertura dos acontecimentos no Médio Oriente. No último ano da faculdade realizei o meu trabalho final do Curso de Comunicação Social, dedicado em parte à cobertura das notícias do Médio Oriente por dois diários portugueses. Os anos passam, os velhos erros continuam (e agravam-se). Aquilo que, há quase 10 anos parecia uma tendência de jornais populistas, alastrou hoje ao jornalismo tido como "de referência".

Os jornalistas profissionais são regidos por um Código Deontológico (CD), um conjunto de regras éticas formuladas pela própria classe jornalística para regular a sua atividade. A cada atropelo de alguma dessas regras por "forças externas", a defesa das regras supremas é categoricamente afirmada. Porém, quando a falha vem da própria classe jornalística, nem sempre a retificação é feita, apesar de uma das regras do CD – no caso de Portugal, mas o mesmo vale para os outros países –, ser "promover a pronta retificação das informações que se revelem inexactas ou falsas". Em pouquíssimos casos é dado um destaque à retificação idêntico àquele que merecera a notícia. (Uma retificação significa um admitir de erro na transmissão da verdade, e nenhum meio de comunicação social gosta de passar por mentiroso). Ou seja, serão também poucas as pessoas que conhecerão a retificação dos factos, mantendo-se como "verdade" pública o erro que fora inicialmente noticiado.


Os gritos de Huda Ghaliya, numa praia de Gaza. | Muhammad Al-Dura, o ícone.
Nuvens de Photoshop sobre Beirute | Os órgãos roubados, por Donald Boström.

No caso das notícias sobre o Médio Oriente, os últimos anos têm sido férteis em casos graves de atropelos às regras jornalísticas. Em geral, em desfavor de Israel. O mais famoso dos quais continua a ser a história de Muhammad Al-Dura, o menino palestiniano morto em 30 de Setembro de 2000, no segundo dia da Segunda Intifada. A sua morte foi filmada pelo repórter de câmara palestiniano Talal Abu Rahma ao serviço da TV France 2. A história foi transmitida ao Mundo pelo repórter Charles Enderlin, correspondente do canal em Israel, que não estivera no local das filmagens, comentando uma sequência editada de imagens com menos de um minuto (de um total de mais de 17 minutos de filmagem nunca transmitidos em público), dizendo que o menino tinha sido "alvo de tiros de uma posição militar israelita".

Sérias dúvidas sobre o caso Al-Dura surgiram nos dias seguintes. Porém, na opinião pública mundial, bombardeada pelas imagens do tiroteio, a culpa israelita estava já cristalizada. O caso de Huda Ghaliya e da sua agonia ao lado dos cadáveres dos seus familiares numa praia de Gaza é idêntico ao de Muhammad Al-Dura. A chamada "Batalha de Jenin" também continua a ter fama de massacre, ainda que se tenha provado que tenham morrido 52 palestinianos (a maioria deles armados) e não as centenas que foram noticiados. E por aí em diante. Nestes casos e noutros, nenhuma investigação seria considerada séria. No máximo, uma investigação que provasse a inocência, ou ao menos introduzisse a presunção da inocência do lado de Israel, seria vista como uma manifestação do "poder da propaganda sionista". E por isso, até hoje, Muhammad Al-Dura, Huda Ghaliya e Jenin continuam a ser poderosos e inquestionáveis ícones da causa palestiniana.

A Guerra do Líbano produziu mais alguns casos de fabricação de notícias contra Israel. O fotógrafo libanês Adnan Hajj, trabalhando para a agência Reuters, divulgou algumas fotos de Beirute durante os bombardeamentos israelitas, em Agosto de 2006. O fumo dos bombardeamentos, propositadamente manipulado digitalmente pelo fotógrafo, chegou às redações de todo o Mundo. Esta e outras tramas em redor da manipulação de fotos da guerra do Líbano foram descobertas por vários bloguistas americanos. A Reuters admitiu os erros e o fotógrafo foi dispensado. Mas isso não diminuiu o estrago mediático contra Israel.

Um dos casos recentes foi a notícia do tablóide sueco Aftonbladet, em Agosto de 2009, da autoria do jornalista freelancer Donald Boström alegando que, em 1992, o Exército de Israel recolheu órgãos de prisioneiros palestinianos. A notícia provocou uma crise diplomática entre a Suécia e Israel. O jornalista confessou mais tarde que não tinha quaisquer provas daquilo que escrevera e que apenas pretendia o assunto investigado e declarou que: "se é verdade ou não – Eu não tenho ideia. Não tenho qualquer pista". As próprias fontes mencionadas pelo jornalista revelaram depois não terem fornecido nenhuma das informações contidas no seu artigo. Ainda assim, com todas estas falhas, o artigo foi publicado e o editor do jornal manteve o apoio ao deplorável trabalho do jornalista.

As regras sagradas do jornalismo parecem ser constantemente quebradas quando o assunto é Israel. A falta de confirmação das fontes e o uso de expressões de opinião disfarçadas em verdades noticiosas são fenómenos repetidos. Outro dos mistérios da relação dos media com o conflito Israel-Palestinianos é a persistente ausência de factos de enorme valor noticioso que sejam desfavoráveis ao lado palestiniano. Por exemplo: o fenómeno da corrupção e do défice das contas da Autoridade Palestiniana (em 2005, as doações atingiram os 1,1 mil milhões de dólares e o défice chegou aos 800 milhões) não aparece nas páginas de economia dos jornais europeus, ainda que o bolso dos europeus seja o principal financiador da Autoridade Palestiniana.

As contradições na situação em Gaza também não parecem merecer a análise dos media ocidentais. Ao mesmo tempo que políticos e comentadores europeus comparam Gaza com um "campo de prisioneiros" (o último a usar a brilhante metáfora foi o novo PM inglês David Cameron), no território dominado pelo Hamas são inaugurados hotéis de cinco estrelas, uma piscina olímpica, resorts de praia, restaurantes de luxo e centros comerciais. Esta pujança de construção contrasta profundamente com a ideia expressa nos relatos do persistente bloqueio israelita à Faixa: causador da falta de materiais de construção, água, e outros produtos básicos. E mais estranho parece quando, os hotéis recém-inaugurados, os resorts e os restaurantes sejam frequentados pelos mesmos jornalistas estrangeiros, deputados do Parlamento Europeu e trabalhadores das ONGs de visita a Gaza que, entre umas braçadas na piscina, um banquete no restaurante Roots e uma sessão de compras nos shoppings e mercados fartos, relatam a "total miséria" do local e repetem a a já costumeira comparação com "um campo de prisioneiros".

E, se a situação é grave no que toca ao trabalho dos jornalistas, pior é com os comentários dos leitores nos sites de notícias. É de acreditar que a maioria das pessoas que lêem aqueles jornais até sejam gente decente, informada (e minimamente bem formada). É provável que muitos dos tais comentaristas de ocasião até saibam discutir com calma uma variada série de assuntos, com mais ou menos capacidades. E acima de tudo, o consigam fazer de uma forma tranquila. Porém, misteriosamente, tudo se transforma quando o assunto é Israel.

A cada ato de Israel, mesmo que nada tenha a ver com o conflito com os Palestinianos, seguem-se inacreditáveis e numerosas manifestações de raiva verbal. Expressões cheias de ódio, as eternas comparações grosseiras com o Holocausto. (José Saramago parece ter deixado uma numerosa horda de sucessores intelectuais). Uma das mais comuns é afirmar que "Hitler deveria ter terminado o trabalho". Será que as pessoas têm real consciência da dimensão do bizarro daquilo que se atrevem a expressar? Talvez a maioria nem sequer seja anti-semita – até acho que o termo está demasiado banalizado –, talvez estejam apenas tremendamente mal informadas sobre os assuntos: a situação do Médio Oriente e o Holocausto.

A par da incredulidade face à índole dos comentários, espanta-me que as mesmas regras de "justiça" e crítica dirigidas a Israel sejam totalmente alteradas quando se muda a geografia dos factos. Por exemplo, por ocasião da decisão recente de expulsar centenas de imigrantes ilegais de Israel, choveram os tais comentários indignados. A mesma indignação aconteceu na semana seguinte, quando a França e a Itália decidiram expulsar milhares de imigrantes ciganos romenos. Porém, desta vez, o conteúdo das opiniões foi bem mais civilizado. E até compreensivo.

Talvez ser anti-Israel seja uma atitude que simboliza a modernidade, o atual auge do progresso das ideias. Afinal, a causa palestiniana é "a Causa" entre a intelectualidade europeia e americana. Desta forma, quem se atreva a apartar-se da causa, arrisca-se a ser qualificado de antiquado, reaccionário, imperialista e outros apodos de mau crédito. Contudo, é interessante notar que, das mesmas vozes que não se inibem de acusar Israel, nunca se escutam criticas à violência entre os próprios Palestinianos. Como a que é exercida pelo Hamas sobre as mulheres, os opositores políticos e os cristãos em Gaza, ou a da própria Autoridade Palestiniana também em relação aos seus opositores, aos denunciantes da corrupção do regime ou aos "traidores informantes de Israel". O mediático "humanismo" dos pensadores só funciona num sentido. E fora outras centenas de valorosas causas mantidas na ignorância das massas e no silêncio dos "formadores de opinião".

Uma amiga jornalista, numa discussão recente sobre este assunto talvez tenha revelado a essência do enigma: "O jornalismo é uma profissão como qualquer outra, há bons e maus profissionais, cometem-se erros, injustiças... mas é um negócio como qualquer outro". Na esfera mediática parece compensar ser anti-Israel. O negócio floresce pela existência de polémicas. Israel atiça paixões como nenhum outro país do Mundo. A "Causa" vende bem. E talvez por isso, ainda mais em tempos de crise, se justifiquem tantos atropelos à transmissão da verdade.

E assim, parece cumprir-se uma cínica máxima atribuída (sem qualquer prova) a Joseph Goebbels, o sinistro mestre da propaganda nazi: "Uma mentira repetida milhares de vezes torna-se verdade". E segue solta esta verdade frouxa, sem ninguém que a pare.

publicado por Boaz às 13:36
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Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010

Hebron, entre o Céu e a guerra

No último dia das férias do Verão, antes do recomeço dos estudos na yeshivá, decidi visitar – desta vez sozinho – a cidade de Hebron, situada a apenas 20 quilómetros de casa. Há três anos que não visitava a cidade dos Patriarcas. Apesar da importância histórica e espiritual daquela que é a segunda cidade santa do Judaísmo, confesso que não é dos lugares que mais me atraem. Para lá da santidade, é uma cidade conflituosa, além de terrivelmente suja. Da primeira visita, recordo o som de tiros esporádicos e o persistente fedor a esterco de burro.


"Sétimo Degrau" | Túmulo de Sara
Túmulo de Yishai e Rute | Checkpoint "Tarpat"

Apanhei boleia no cruzamento de Gush Etzion. Destino: Kiryat Arba. Assim que se sai do cruzamento do Gush em direção a sul, a estrada torna-se mais estreita. Ao lado do caminho há vinhas e campos de cultivo, alguns abandonados. Atravessamos várias aldeias árabes. A maioria das casas parecem inacabadas. Grafittis em árabe estão em quase todas as paredes. Entre a miséria das aldeias sobressaem as casas dos ricos locais, com um telhado em forma de pagode chinês. Destoam tanto como as casas de imigrantes com inclinados telhados alpinos que pululam nas aldeias de Portugal. Montes de entulho de obras e das pedreiras e sucatas ferrugentas pontilham a paisagem. O lixo despejado na borda do jardim ou junto às paredes das casas fazem jus à proverbial imundície dos povoados árabes. Em frente a cada cruzamento, uma torre de vigia do exército de Israel. Na beira da estrada, placas vermelhas e brancas avisam os cidadãos israelitas da proibição de entrar no território da Autoridade Palestiniana. Ameaçadoramente declaram “Estão por sua conta e risco”.

Chegados a Kiryat Arba, o condutor da boleia deixa-me numa praça do colonato. Pergunto como chegar a Hebron. “Siga esta rua até ao cruzamento e espere uma boleia até à Gruta dos Patriarcas.” Pergunto se é possível chegar a pé. “Sim, tem presença do exército e da polícia. Não tem problema.” Ao chegar ao tal cruzamento, olho para Hebron, do outro lado da cerca que rodeia Kiryat Arba. Tirando o posto de controlo na entrada do colonato, não se vêm soldados na rua. Decidi não arriscar a caminhada e esperei pela boleia, que chegou logo a seguir. Quase não se avistam pessoas na rua. O calor do meio-dia não encoraja a sair de casa.

Na praça em frente à Gruta dos Patriarcas uma multidão de centenas de turistas franceses com bandeiras de Israel chega para visitar o santuário. Num dos cantos do edifício situa-se o lugar conhecido como o Sétimo Degrau. Desde a conquista islâmica no século XIII aquele era o ponto mais próximo onde os peregrinos judeus podiam rezar do túmulo dos Patriarcas. Depois de 1967, quando Israel conquistou a cidade à Jordânia, os Judeus puderam voltar a rezar no interior do santuário. Mesmo com a permissão, ainda hoje, muitos visitantes continuam a rezar no Sétimo Degrau, recordando 800 anos de humilhante proibição. Homens e mulheres, haredim e os tais turistas franceses, rezam juntos no local. Algumas mulheres choram.

À entrada do santuário há dois pontos de controlo dos visitantes. Não se pode entrar com armas. Nem com bandeiras, mesmo as de Israel que os franceses empunham. Grupos de homens estudam. Ao lado, um minyan reza Minchá, a oração da tarde. Uma vedação de madeira separa-os das mulheres que recitam salmos. No pátio interior coberto por um toldo, outro grupo de homens reza. De cada extremo do pátio, dois pequenos santuários entre os túmulos dos casais dos Patriarcas sepultados no local. Jacob e Leah de um lado. Abraão e Sara do outro. A decoração do local é tipicamente muçulmana, denotando o domínio islâmico quase ininterrupto durante 1400 anos. As pinturas nos tectos têm um aspeto renovado. Sob o túmulo de Leah, os pombos – indiferentes à santidade do local –, deixaram os seus despojos.

Decido estudar um pouco enquanto espero por um novo minyan para a oração da tarde. Saio pouco depois de terminada a reza. Ao descer as escadas para a rua pondero se devo ou não visitar outros locais de Hebron onde residem os judeus. Paro a alguns metros de um soldado que vigia um cruzamento da rua principal. Acerco-me e pergunto: “Quero ir até Tel Rumeida, é seguro?”. “Sim, não tem problema”, assegura-me.

A cidade de Hebron é um dos principais pontos de disputa entre Israel e os Palestinianos. Uma parte da Cidade Velha, em redor da Gruta dos Patriarcas e junto a Kiryat Arba, é controlada por Israel. Nessa área, três pequenos núcleos abrigam algumas centenas de habitantes judeus. Os bairros árabes têm um aspeto de cidade fantasma. A violência da Segunda Intifada – que em Hebron teve alguns dos seus piores episódios – levaram a prolongados períodos de recolher obrigatório e encerramento de lojas. Muitos dos habitantes árabes mudaram-se para o outro lado da cidade, controlada pela Autoridade Palestiniana.

À minha frente, na rua principal, caminha um casal de árabes idosos. O homem usa um longo keffiyeh branco e vermelho. Um pouco adiante, um turista asiático. Ao passar por ele cumprimenta-me com um sorriso: “Hello”. Retribuo a saudação e pergunto-lhe de onde vem. É sul-coreano. No caminho tento conversar um pouco com ele, mas o seu inglês é terrivelmente limitado. Decide parar junto a uma paragem de autocarro que me parece abandonada.

Continuo sozinho a minha jornada. Olho as varandas sobre a rua principal, todas protegidas por finas redes de ferro. “Ao menos assim, não tenho de me preocupar que me atirem alguma pedra…”, penso. Todavia, um cano de espingarda passa bem entre os buracos da rede. Confio que o Exército deve ter procedido à limpeza das armas da cidade. No caminho, uma cafetaria self-service para uso dos soldados israelitas que patrulham as ruas. Beit Hadassa, o antigo hospital judaico é hoje uma das residências judaicas em Hebron. O local foi palco de um massacre da comunidade judaica às mãos dos vizinhos árabes, em 1929. Um pequeno museu recorda a tragédia.

Até há alguns anos, em cada porta havia uma loja. Hoje estão todas fechadas e trancadas com uma barra de ferro. A Intifada matou o comércio nesta metade da cidade. Não sei se ainda vivem árabes naquela área. Alguns barulhos de conversas e de televisões informam-me que sim. No fim da rua, um checkpoint serve de passagem de pedestres para a parte palestiniana de Hebron.

Tel Rumeida, o meu destino, situa-se no alto de uma colina. A estrada é íngreme. Ao lado, o muro que separa a cidade. Quase no alto da encosta, uma abertura no muro permite observar a cidade palestiniana do outro lado. Ao contrário da área onde me encontro, daquele lado vejo shoppings e mais shoppings, com cúpulas vistosas. Prédios residenciais modernos. Aqui e além, mais alguns pagodes chineses. E um ininterrupto barulho de buzinas.

No alto da ladeira, dois soldados patrulham um cruzamento muito próximo de Tel Rumeida. Ali situa-se, ao lado de uma pequena base militar israelita, o núcleo judaico mais isolado de Hebron. A maior parte das famílias vivem em caravanas, ao lado das ruínas milenares de Tel Hebron. Entro no recinto da base para visitar o túmulo de Yishai e Rute, pai e bisavó do rei David. É uma ruína poeirenta e deserta. Uma vela memorial colocada sobre a laje escurecida testemunha que alguém passou ali recentemente. Entro na pequena sinagoga ao lado. Está vazia, mas a luz e a ventoinha estão ligadas. Sento-me por alguns minutos para descansar do calor e da caminhada. Recito alguns salmos. As eternas palavras do Rei David entoadas na cidade onde ele reinou por sete anos têm outro significado. Dou uma volta pelas ruínas. Um painel informa a existência de uma antiga sinagoga. Entro, curvando-me, por uma porta baixa. No interior, nada lembra tratar-se de uma sinagoga. Exceto alguns livros sagrados numa estante ou amontoados num canto, cobertos de pó.

São horas de regressar a casa. Desço a encosta em direção ao centro da cidade. Algumas crianças árabes caminham também por ali. Passa por mim um carro israelita, o primeiro que vejo passar desde que saí há mais de uma hora da Gruta dos Patriarcas. Junto a Beit Hadassa várias crianças judias correm pela rua. Para eles aquele é o espaço de brincadeiras, independente da situação que se viva na cidade.

Avisto o autocarro 160 que vai partir para Jerusalém. Cheguei em boa hora. Na segunda paragem, o turista coreano ainda espera o transporte de regresso a Jerusalém. Olho a cidade passar pelo vidro sujo do autocarro. Sujo como as ruas da Cidade Velha com casas esventradas, cicatrizes da Intifada. Hebron é um dos símbolos das intermináveis (e talvez insolúveis) negociações com os Palestinianos. É difícil para Israel manter a situação atual, pelos custos económicos e humanos. O exemplo da entrega de Gaza não perspetiva bons resultados para futuras transferências de território. Até porque Hebron é um dos mais poderosos redutos do Hamas na Cisjordânia.

Santa e conflituosa. Cheia de preces. Cansada de mágoas.

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Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Quando apenas resta a gestão dos estragos

Uma frota de barcos, carregada de ajuda humanitária para a desgraçada e bloqueada Gaza, a ser entregue por algumas centenas de ativistas dos direitos humanos. Esta seria a definição simples da "Frota da Liberdade". Porém, esta definição é também profundamente ingénua e distorcida. Em primeiro lugar, os organizadores da iniciativa pertencem a uma organização turca de direitos humanos, que a par de louváveis iniciativas de caráter humanitário no Terceiro Mundo, é suspeita de canalizar fundos para várias organizações envolvidas na Jihad, entre elas, o Hamas. Além disso, três dos turcos mortos na tomada de um dos barcos pelo exército de Israel haviam declarado querer morrer como mártires pela Palestina. Ou seja, esta era para eles nada menos que uma missão suicida.

Comprometido com um bloqueio naval e terrestre à Faixa de Gaza governada pelo Hamas, há mais de uma semana que Israel negociava com os organizadores da "Frota". O governo de Israel tentou convencer a organização da missão a canalizarem a ajuda para Gaza através da via terrestre, permitindo antecipadamente a verificação da carga para eliminar qualquer suspeita de tráfico de armas ou material que pudesse ser usado pelo Hamas contra Israel. Todas as vias de negociação foram recusadas pelos ativistas. Recusado foi também um pedido da família do soldado israelita Gilad Shalit, sequestrado em Gaza há quatro anos, para lhe ser entregue também um pacote de ajuda.

É óbvio que o resultado é trágico. Nove mortos (as fontes iniciais falavam em 15 ou mesmo 20). E várias dezenas de feridos. Israel reclama que agiu em legítima defesa, quando os soldados foram recebidos à bastonada e com facas pelos auto-intitulados tais defensores dos direitos humanos no navio "Mavi Marmara". Nos outros cinco barcos não houve violência. Os militares estavam equipados com espingardas de paintball e com pistolas a ser usadas apenas em última análise. Não esperavam tamanha resistência por parte dos integrantes da "Frota".

Qualquer que fosse o desfecho, ele nunca seria bom para Israel. E seria sempre muito conveniente para o Hamas. Na semana que antecedeu a tomada dos barcos, durante as discussões entre o governo de Israel e os organizadores da "Frota", o próprio Primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniyeh, declarou que o Hamas sairia vencedor deste episódio, fosse qual fosse o desfecho. Não é preciso ser profeta para fazer essa declaração. Se os barcos fossem deixados passar, isso significaria um furo no bloqueio israelita: uma vitória para o Hamas. Se os barcos fossem impedidos de chegar, em qualquer caso, Israel ficaria mal visto: uma vitória para o Hamas.

A "Frota" disfarçada de missão de ajuda humanitária foi uma perfeita e bem montada operação de Relações Públicas para o Hamas. É assim que se pode resumir, numa frase, toda esta história da "Frota da Liberdade". Os ativistas internacionais, embebedados por um ódio anti-Israel deixaram-se levar pelo engodo. Ou, sem qualquer vergonha, aderiram a ele deliberadamente. Israel não tinha como ganhar o confronto. Nesta, como noutras crises, resta fazer uma gestão dos estragos na imagem internacional de Israel. Mais difícil ainda com um temperamental Ministro dos Negócios Estrangeiros com fama de "falcão". Frente às embaixadas israelitas por essa Europa fora, multidões gritam contra Israel e a favor dos Palestinianos com os slogans do costume. Em Lisboa eram uns 50 gatos-pingados.

A causa ganhou mais alguns mártires. Alguns deles mártires por vontade própria. Todos com direito ao harém de 70 virgens prometido pelo profeta. Esta tarde, de regresso a casa, reparei que praticamente todas as lojas do mercado árabe da Cidade Velha de Jerusalém se encontravam fechadas. Um sinal de protesto pela tragédia ao largo de Gaza. De qualquer forma, algumas lojas estavam de porta entreaberta. Não fosse aparecer algum turista interessado na quinquilharia disponível. Imagino que haja festejos à porta fechada. Aos olhos do Mundo, Israel saiu (mais) mal visto. O Hamas cantará vitória.

PS – Atenções mundiais viradas para Israel e, a Turquia – pátria dos barcos e da maioria dos ativistas da "Frota da Liberdade" – teve um timing perfeito para bombardear posições dos seus opositores curdos no Curdistão Iraquiano. Não se esperam manifestações anti-turcas frente às respetivas embaixadas.

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Domingo, 28 de Março de 2010

Fénix de pedra

Estava em obras desde o Verão de 2006. A antiga sinagoga Hurva (a Ruína, em hebraico) era um dos símbolos do Bairro Judeu da Cidade Velha de Jerusalém. Foi fundada no início do século XVIII pelos seguidores do rabino Yehuda he-Hasid, que liderou o maior grupo de imigrantes judeus para a Terra de Israel em muitos séculos.

Poucos anos após a fundação, foi destruída, ficando arruinada durante mais de 140 anos. Daí o nome por que ficou famosa, “A Ruína”. Foi reconstruída em meados do século XIX, quando se intensificou a imigração judaica e o desenvolvimento de Jerusalém. Era a maior sinagoga de toda a Terra de Israel. Até 27 de Maio de 1948.

A Hurva foi uma das vítimas da Guerra da Independência de Israel. Os combates em Jerusalém, entre a Legião Árabe e as tropas da Haganá, uma das milícias que daria origem ao futuro exército de Israel, foram especialmente violentos. Em Maio de 1948, durante a batalha pelo controle da Cidade Velha, a sinagoga era um dos últimos redutos dos soldados da Haganá. O comandante da Legião Árabe, por intermédio da Cruz Vermelha, avisou a Haganá para abandonar o local, sob pena de um ataque em força. A liderança da Haganá recusou, consciente que o abandono do local significaria a derrota na batalha pelo Bairro Judeu.

A recusa da retirada resultou em combates no local. No final, a bandeira da Legião Árabe foi içada no cimo da cúpula da sinagoga. Mas esse não foi o fim da destruição da Hurva. Após a captura do local pelas forças árabes, o que restava da sinagoga foi deliberadamente minado e detonado. Nos meses seguintes, O mesmo destino teve a maioria do Bairro Judeu da Cidade Velha. Uma campanha de destruição arrasou centenas de casas, dezenas de sinagogas centenárias e antigas yeshivot. Os residentes judeus foram expulsos de Jerusalém Oriental e o acesso aos locais sagrados, como o Muro Ocidental, foi proibido a todos os judeus.

Nos 19 anos que se seguiram, durante o domínio jordano em Jerusalém Oriental, a cidade esteve dividida. Uma faixa de território, uma “terra de ninguém”, separou a Cidade Velha e Jerusalém Oriental da moderna Jerusalém Ocidental. As ruínas das casas do Bairro Judeu foram usadas como currais para cabras e burros. O milenar cemitério judeu do Monte das Oliveiras, onde estão sepultados centenas de sábios e ilustres judeus, também foi profanado. Lajes dos túmulos foram usadas para pavimentar estradas.

A reunificação da cidade em 1967 marcou o renascimento do Bairro Judeu. Foi totalmente reconstruído com arquitetura moderna. O Muro Ocidental, o local mais sagrado para o Judaísmo, voltou a estar acessível. E não só a Judeus, mas a pessoas de todos os credos e países.

Porém, a Hurva manteve-se no que foi na maior parte da sua história, uma ruína. Planos foram desenhados com propostas modernas para a reconstrução. No meio da indecisão entre arquitetos e políticos, um arco comemorativo da antiga sinagoga foi erguido em 1977 que se tornou num dos símbolos do Bairro Judeu.

No final do Verão de 2006, quando foi estudar para a Yeshivat HaKotel, vizinha da praça onde se situa a Hurva, já se havia decidido o que fazer com a velha sinagoga. A reconstrução de acordo com o aspeto que tinha antes da devastação de 1948 havia sido iniciada. Durante quatro anos, uma grua esteve erguida no local, montando pedra a pedra as paredes e a enorme cúpula da Hurva. Todos os dias, passava no local e via crescer a obra.

A Hurva reconstruída foi oficialmente inaugurada há menos de duas semanas com a presença de políticos e rabinos. No dia seguinte, residents árabes de Jerusalém Oriental envolveram-se em confrontos com a polícia israelita. Mentes paranóicas viram na reconstrução da Hurva algum indício de desejos de reconstrução do antigo Templo de Jerusalém no Monte do Templo, o local onde hoje se situa o santuário islâmico da Cúpula do Rochedo e a mesquita de Al-Aqsa. Por isso, grupos palestinianos apelaram a um “dia da raiva” em protesto pela reabertura da sinagoga.

A Hurva arruinada era o emblema da destruição deliberada da antiga sinagoga e de todo o Bairro Judeu ocorrida durante o domínio árabe em Jerusalém Oriental. A reconstrução simboliza o renascimento da cidade, algo pelo qual os judeus religiosos rezam três vezes por dia. A glória de Jerusalém é também a glória do Judaísmo. E isso é inaceitável para os Árabes.

publicado por Boaz às 16:00
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Quinta-feira, 11 de Março de 2010

O legado dos Patriarcas nas mãos dos políticos

No dia 21 de Janeiro, o governo de Israel apresentou um plano de restauro do património nacional. Num país marcado pela história religiosa de Judeus, Cristãos e Muçulmanos, é óbvio que locais sagrados seriam incluídos no documento. Todavia, a lista não teria chegado às primeiras páginas dos jornais e levantado polémica – inclusive a nível internacional –, se não constassem locais nos chamados Territórios Palestinianos.

Kever Rachel, o túmulo da matriarca Raquel na entrada da cidade de Belém, e Maarat HaMachpelá, a Gruta dos Patriarcas em Hebron, são os pontos da polémica. Depois da divulgação da lista, ocorreram confrontos entre residentes árabes e o exército israelita que controla uma parte da cidade de Hebron.


Maarat HaMachpela
, a Gruta dos Patriarcas, em Hebron.
O local é partilhado por Judeus e Muçulmanos.
Uma multidão de peregrinos judeus espera para entrar na sala do túmulo de Isaac,
onde o acesso de Judeus é permitido apenas duas vezes por ano.

De acordo com a declaração do governo, uma das intenções ao formular esta lista é promover a preservação dos locais e permitir o acesso a pessoas de todas as religiões. "A nossa existência aqui, no nosso país, depende não apenas da força do Tzahal (Forças de Defesa de Israel) e do nosso poderio económico e tecnológico. Está ancorada, mais do que tudo, no nosso legado nacional e emocional, o qual nós inspiramos na nossa juventude e nas próximas gerações".

É evidente que a lista tem uma intenção política, mostrando o plano político de afirmar o controle israelita desses locais. Porém, existe também seriedade na decisão do governo de Israel em querer preservar património judaico em locais reclamados por Muçulmanos. A história deu a Israel, e aos Judeus em geral, provas evidentes do destino dos locais sagrados judaicos quando caem sob a tutela dos não-judeus, em especial dos poderes árabes.

Em 1994, quando foi instituída a Autoridade Nacional Palestiniana (ANP), Israel entregou à nova entidade o controlo da cidade de Jericó e da maioria da Faixa de Gaza. Em Jericó, logo após a transmissão de poderes para a ANP, polícias palestinianos subiram ao telhado da antiga sinagoga “Shalom al Israel” e ostentaram a bandeira palestiniana, num sinal de evidente desprezo pelo lugar. No ano 2000, com o estalar da segunda Intifada, livros sagrados e relíquias da sinagoga foram queimados, o antigo chão de mosaico destruído e o local foi transformado numa mesquita.

Em Shechem (Nablus), no mesmo dia da entrega da cidade à Autoridade Palestiniana, em 17 de Outubro de 2000, uma multidão de palestinianos saqueou o antigo túmulo de José, um dos filhos do patriarca Jacob, esmagando a cúpula com picaretas e ateando fogo ao santuário. Após o ataque, o exército de Israel proibiu o acesso ao local aos peregrinos judeus, por motivos de segurança. Alguns dias depois, iniciaram-se obras de reconstrução e as autoridades palestinianas proibiram os peregrinos judeus de rezarem no local, até que uma comissão internacional independente determinasse se o local era santo para Muçulmanos ou para Judeus. (Mas nunca para ambos?) Ainda assim, de forma clandestina alguns peregrinos atreviam-se, de tempos a tempos, a visitar o local.

Com o tempo o santuário foi sujeito a vários atos de vandalismo, tornando-se depósito de lixo e de queima de pneus. Em 2007, jovens palestinianos de novo encheram o local de pneus e atearam-lhes fogo. Em resposta, o líder palestiniano Mahmud Abbas declarou o túmulo local santo islâmico. (A santidade da terra queimada...) Esse novo estatuto não salvou o lugar da selvajaria e da profanação. Em Abril de 2009, a pedra tumular foi esmagada e suásticas pintadas nas paredes.

A ONU e a UNESCO protestaram imediatamente a inclusão do Túmulo de Raquel e da Gruta dos Patriarcas na recente lista israelita do património a preservar. Porém, nunca protestaram a sucessiva depredação do Túmulo de José nem o vandalismo em Jericó ou em dezenas de outros locais judaicos – antigas sinagogas e túmulos de personagens bíblicos – situados em áreas controladas pela Autoridade Palestiniana.

No entanto, não foi apenas às mãos dos palestinianos que o património judaico foi vandalizado e desprezado. No Iraque, outrora pátria de uma significativa comunidade judaica, o túmulo do profeta Yechezkel (Ezequiel) era local de peregrinação de Judeus, Cristãos e Muçulmanos. Durante séculos, o santuário esteve ao cuidado da numerosa comunidade judaica. Após a independência de Israel, em 1948, os judeus iraquianos foram alvo de campanhas de intimidação e a maioria abandonou o Iraque. O venerado túmulo do profeta foi caindo em ruína.

Recentemente, as autoridades iraquianas iniciaram obras no local com vista à sua preservação. Porém, inscrições em hebraico e outros sinais judaicos foram apagados. A intenção é transformar o túmulo numa mesquita. Outros milenares túmulos judaicos no Iraque, como os do profeta Jonas, de Ezra o Escriba e do Rei Tzidkiahu (Zedequias) poderão num futuro próximo ser alvo da islamização forçada.

A lista do património a defender pelo Estado de Israel levantou críticas entre alguns políticos muçulmanos. Uma das mais ofensivas foi a do PM turco, Recep Tayyip Erdogan. Um jornal saudita citou-o, dizendo que o Túmulo de Raquel e a Gruta dos Patriarcas "não foram e nunca serão locais judaicos, mas islâmicos".

Na verdade, o acesso à Gruta dos Patriarcas tem sido partilhado entre Judeus e Muçulmanos, já que estes reconhecem o local como a Mesquita de Al-Ibrahim. No caso de Kever Rachel, após mais de 1700 anos de reconhecimento como o túmulo da matriarca Raquel, no ano 2000, muçulmanos começaram a chamar o local como mesquita Bilal ibn Rabah. Desde então, a novíssima denominação muçulmana passou a integrar o discurso politico palestiniano.

A cínica ignorância histórica de Erdogan, um político considerado moderado, é apenas mais um episódio de uma sistemática campanha para tentar romper qualquer ligação dos Judeus à Terra de Israel e a Jerusalém. Para além de argumentos religiosos, históricos e políticos sobre o direito de controlo e preservação, ou no mínimo de acesso de peregrinos judeus aos locais sagrados judaicos na Judeia e Samaria, a situação no terreno desde os Acordos de Oslo tem mostrado que os Palestinianos não têm respeitado o seu compromisso de preservação e liberdade de acesso a estes locais de culto.

O Túmulo de Raquel, reconhecido como um santuário judaico por mais de 2000 anos, e como tal mencionado inclusive em abundante literatura islâmica, tornou-se um local disputado por reclamações recentes. Tal como fizeram em outras ocasiões, os Palestinianos usam reais ou imaginárias reclamações religiosas para conseguir capital político para a sua campanha nacional. Nos sermões dos políticos árabes e dos imãs muçulmanos, uma das novidades é insistir que até o antigo Templo de Salomão não foi construído em Jerusalém. Para estes arqueólogos e historiadores de quintal, o Templo afinal foi construído... no Iémen.

publicado por Boaz às 23:46
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Quarta-feira, 7 de Outubro de 2009

Terra de (maravilhosos) contrastes

Atenção a estes dois factos do dia aqui neste cantinho do planeta:

Em Israel, uma mulher cientista, Ada Yohath, ganhou o Prémio Nobel da Química de 2009. (Foi a primeira mulher a ganhar o Nobel da Química em mais de 40 anos.)

Enquanto isso em Gaza, o Hamas baniu as mulheres de andarem de mota, a fim de conservar as "tradições árabes".

O cientista político Samuel Phillips Huntington chamou-lhe uma vez: "choque de civilizações". As feministas dos anos 60 chamavam-lhe "queima de sutiãs". No caso de Gaza, as donas dos sutiãs são queimadas com os respetivos.

publicado por Boaz às 23:50
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Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Pegar o touro pelos cornos

Com frequência, falo com amigos em Israel sobre os erros da política externa de Israel. Em regra, a atitude tem sido a de lamentar a incompreensão da ONU e do resto do Mundo, e ainda mais a oposição sistemática face às acções militares de Israel, em especial a última operação em Gaza. Isto, sem nunca confrontar as acusações com a perspectiva israelita sobre os factos. E sem apontar a dualidade de critérios na permanente condenação de Israel e o injusto silêncio dos diplomatas face à situação em outros pontos do globo. Ou o silêncio quando as vítimas são israelitas.

A ONU realizou na semana passada a sua Assembleia-Geral. Dezenas de chefes de Estado e de governo discursaram no palanque da ONU. O presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad fez um discurso pejado de ataques a Israel. Dias antes, ainda em Teerão declarou-se orgulhoso de negar o Holocausto, como tem feito desde que foi eleito presidente pela primeira vez. No dia seguinte ao vergonhoso discurso de Ahmadinejad, foi a vez do Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu discursar. E que discurso!

No seu brilhante discurso, Benjamin Netanyahu fez exactamente isso. Como mencionou o PM israelita, a ONU foi fundada após a II Guerra Mundial precisamente para prevenir a ocorrência de tais eventos. "Nada minou mais essa missão, nada a impediu mais, que o assalto sistemático à verdade. Ontem o presidente do Irão esteve neste pódio vomitando o seu mais recente discurso anti-semita. Há uns dias, ele reivindicou que o Holocausto é uma mentira.", disse.

Apontou o dedo a Ahmadinejad, por repetir as habituais diatribes anti-semitas, ainda mais no palco da ONU. Elogiou os países que não compareceram na sala para escutar o ditador iraniano e os que abandonaram a sala quando ele começou a exibir o seu ódio. Foram apenas 12 países. Só doze. (A ONU tem quase 200 estados membros.)

"Não têm vergonha? Não têm decência?", Netanyahu interpelou os representantes dos países que testemunharam o discurso do presidente do Irão. Mostrando uma cópia da acta da Conferência de Wannsee, ocorrida em 20 de Janeiro de 1942, e a planta original da construção do campo de concentração de Auschwitz, perguntou "Isto são mentiras?". Mencionou os números tatuados nos braços dos sobreviventes: "São também mentira?".

A presença dos diplomatas e o seu silêncio durante o discurso de Ahmadinejad legitimaram as eleições fraudulentas que o reelegeram, deram a razão ao violento regime que matou dezenas de manifestantes que apelavam à democracia e à transparência após as eleições.

Netanyahu e Israel não são, nem podem pretender ser, embaixadores dos que anseiam pela democracia nos países muçulmanos. Não são uma voz aceite para falar em seu nome. Dos opositores encarcerados nas prisões dos Irão, do Egipto ou da Síria. Das mulheres brutalizadas, excisadas e segregadas como cidadãos de segunda classe ou, pior que isso, como animais. Das minorias religiosas perseguidas, como os xiitas e os cristãos na Arábia Saudita, os cristãos em Gaza ou os bahá'ís no Irão.

Porém, todas estas vítimas olham para as democracias ocidentais com esperança. Que os diplomatas e políticos das nações livres se indignem quando os inocentes são atacados, que defendam as suas causas na arena internacional. O "silêncio dos bons" perante um ditador descarado ladrão de eleições, assassino e mentiroso é uma desgraça no panorama da democracia mundial.

Durante mais de 20 anos, Portugal foi a única voz que falou em nome do povo de Timor-Leste, que defendeu os seus interesses e direitos na ONU. Contra todas as diplomacias do Mundo – incluindo a poderosa América – interessadas nas riquezas petrolíferas da Indonésia e na sua influência no mundo árabe.

Uma democracia reconhecida, com um assinalável registo de direitos humanos a nível internacional, Portugal não foi um dos países que se recusaram a dar o aval à ditadura iraniana e à sua doutrina. Dos 27 estados da União Europeia, apenas seis viraram as costas a Ahmadinejad. Da América, além dos EUA e Canadá, apenas a pequena Costa Rica teve a ousadia de ser corajosa.

O Brasil teve uma das mais desprezíveis demonstrações de falta de moral. O presidente brasileiro Lula da Silva, hoje considerado como um dos mais influentes líderes dos países em desenvolvimento, apertou a mão do ditador iraniano. Em Nova Iorque fez-se história. A ONU assistiu apática ao espezinhar dos valores da sua carta fundadora. Valeu Netanyahu, que teve a coragem de enfrentar o touro pelos cornos.

Apesar de não ter votado nele nas últimas eleições em Israel, senti um grande orgulho na sua frontalidade. Ainda que saiba que, de qualquer forma, não se esperará grande compreensão do resto do Mundo às suas palavras - a maior parte delas são demasiados inconvenientes. Ao menos que a estratégia diplomática israelita mude daqui em diante.

PS - Quem quiser assistir ao discurso de Netanyahu (em inglês, sem legendas), clique aqui.

publicado por Boaz às 14:00
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Quinta-feira, 6 de Agosto de 2009

O lado certo

A situação de segurança entre Israel e o Líbano nunca é muito garantida. Apesar da presença de mais de dez mil soldados das Nações Unidas com a missão de patrulhar a região fronteiriça e evitar as escaramuças, a conjuntura permanece tensa. Em especial para os habitantes da região.

Um dos casos mais bicudos é o da aldeia de Ghajar, situada nos montes Golan. Conquistada por Israel na Guerra dos Seis Dias, junto com a restante região dos Golan, os seus habitantes aceitaram ser cidadãos de Israel. A aldeia cresceu em direção ao norte durante a ocupação israelita do Sul do Líbano incorporando na sua área território libanês. Com a retirada do exército de Israel em 2000, as Nações Unidas determinaram que a fronteira entre os dois países passaria pelo meio da aldeia.


 Ghajar, vista do parque de Tel Dan no norte de Israel. 

Desde a retirada israelita, o local transformou-se num ponto de contrabando de artigos roubados em Israel e da entrada de mercadoria proibida, em especial drogas. Após a Segunda Guerra do Líbano, Israel manteve uma presença militar na área e construiu uma cerca em redor da parte norte da aldeia. Há poucos meses, o governo de Israel planeou a retirada da parte norte da aldeia, reconhecida como território libanês.

Face à retirada israelita, os habitantes locais temem as represálias do Hezbollah. Nas palavras do líder muçulmano da aldeia: “Nós não queríamos ser refugiados em Israel, por isso recebemos sobre nós a cidadania israelita com a Lei do Golan, e agora nós não estamos dispostos a ser refugiados no Líbano e ser massacrados pelo Hezbollah. A divisão da aldeia de Ghajar é uma pena de morte para nós, é o equivalente a sermos apanhados para ser mortos no meio da praça”. É sabido como a guerrilha terrorista libanesa trata os traidores, por isso, o mais provável é que pouco tempo após a retirada israelita e consequente divisão da aldeia, uma boa parte da população, ou pelo menos os homens, fossem massacrados.

Esta atitude de retaliação não é exclusiva do Hezbollah. Aquando do assalto do Hamas à Faixa de Gaza, em 2007, houve centenas de mortos em confrontos entre membros da Fatah e do Hamas. (Aliás, alguém ouviu falar disto nas notícias? Alguém viu protestos em frente às embaixadas da Palestina nessa Europa tão humanista?) Face à superioridade numérica e militar do Hamas, os militantes da Fatah – o movimento do presidente da Autoridade Palestiniana – correram para os postos de fronteira da Faixa, a fim de serem socorridos por Israel.

O que não deixa de ser uma tremenda ironia. Ainda esta semana, num congresso da organização, a Fatah declarou não aceitar a existência de Israel como um estado judaico; não desistir da questão do regresso dos refugiados palestinianos, a qual a realizar-se significaria o fim de Israel (ou não fosse essa a principal razão da insistência nessa questão).

Quando as coisas estão calmas, os Árabes tentam de tudo para destruir Israel e negar o seu direito a existir. Porém, quando a briga estala entre árabe e árabe, perante a morte certa às mãos dos seus irmãos palestinianos, não têm vergonha de buscar a providencial ajuda do grande inimigo sionista.

publicado por Boaz às 17:40
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Segunda-feira, 22 de Junho de 2009

A queda do império, ou apenas um abanão

O Irão revolta-se. O povo cansado de ayatollas e de ditadura sai à rua. A descarada fraude nas últimas eleições presidenciais é apenas uma excelente desculpa para desencadear a gigantesca onda de protestos. Uma juventude - que compõe 60% da população do país - que nunca conheceu outro regime a não ser o fanatismo herdado da Revolução Islâmica, expressa com raiva e sangue a vontade de mudança.

O regime sabe que, caso a onda não seja controlada, mesmo com a mais brutal repressão, este pode ser o início da queda. Tiananmen em Teerão. Tal como em Junho de 1989, na grande praça de Pequim os jovens chineses se revoltaram contra a opressão comunista, hoje em Teerão, a juventude e as mulheres iranianas gritam contra os ayatollas e a sua abusiva ordem. Hoje no Irão, como em 1989 na China, talvez a revolução acabe com um banho de sangue. É o que as notícias (muito filtradas) parecem mostrar.

Os chineses pagaram caro a afronta e poucos se atrevem, ao vivo, a desafiar o poderoso aparelho comunista. Os iranianos porém, munidos do ideal xiita do martírio, estarão dispostos a imolar-se por uma brecha no regime, através da qual possam respirar um pouco de liberdade. Dentro do clube dos ayatollas também aparecem vozes dissidentes. Ao contrário da maioria dos estados islâmicos, a juventude iraniana é letrada e exigente. Nas ruas, atrevem-se a gritar a verdade à muito evidente: "Khamenei [o líder supremo]ditador! Morte ao ditador!". Até as mulheres jovens desafiam as regras de vestuário, descaradamente mostrando, centímetro a centímetro, mais um pouco do seu cabelo obrigatoriamente escondido.

Israel olha para o antigo império persa com apreensão. Uma mudança de regime - neste caso para o declarado derrotado nas eleições Mir Hussein Mousavi - pode não significar um recuo no temido programa nuclear iraniano. É que, nos anos 80, Mousavi foi um dos precursores desse mesmo programa nuclear que o actual presidente tanto deseja ver concretizado.

Seja como for, as coisas podem estar a mudar para melhor no Irão. Ainda que as mudanças possam não ser imediatas. Um regime apoiado num poderoso clero resistente a cedências, com uma gigantesca máquina militar e de propaganda ao seu dispor, não se deixará dominar por manifestações de jovens. Ainda assim, o povo cansado que exige liberdades, a juventude com poucas perspectivas de emprego e uma inflação de 30% ao ano, mesmo com gigantes reservas de petróleo e gás, podem significar uma mudança nas prioridades nacionais, incluindo o abandono, ou ao menos recuo nas ambições atómicas iranianas. Ninguém deseja mais a paz com o Irão do que Israel.

publicado por Boaz às 00:30
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Domingo, 8 de Fevereiro de 2009

Quando a bolha rebenta

Depois de vários anos em que o preço do petróleo subiu a níveis nunca vistos, chegando aos 147 dólares por barril em Julho do ano passado, hoje encontra-se a menos de 50 dólares – e há poucas semanas esteve a menos de 40. Alguns analistas de economia explicam que uma das razões para a actual crise económica é exactamente a instabilidade do preço do crude. Quando o valor do principal motor da economia internacional se baseia na pura especulação, o resultado global não pode ser positivo. E quando o motor falha, todo o sistema vai abaixo.

Nos anos dourados das economias árabes, com um fluxo de receitas de exportações de petróleo que parecia não ter fim, construíram-se uma imensa colecção de elefantes-brancos dignos das histórias das Mil e Uma Noites. O melhor exemplo desta febre é o Dubai. Em pouco mais de uma década, passou de um pequeno porto nas margens do Golfo Pérsico para um dos maiores centros turísticos e empresariais do Mundo. Os projectos arquitectónicos cada vez mais arrojados fizeram a fama do pequeno emirado, um dos sete Emirados Árabes Unidos.


O Hotel Burj Al Arab, símbolo do ultra-luxo do Dubai.

Dois enormes aeroportos internacionais, uma gigantesca marina rodeada de hotéis de luxo e arranha-céus residenciais de ultra-luxo, vários dos edifícios mais altos do Mundo, as ilhas artificiais Palm Islands (três ilhas em forma de palmeira) e The World (um arquipélago com a forma dos continentes), hotéis que quebraram a escala das cinco estrelas. Todos os luxos que os (aparentemente) inesgotáveis petro-dólares, os desafios da engenharia e a mão-de-obra barata podem proporcionar. Os novos projectos sucessivamente ultrapassam a imaginação e os orçamentos dos seus concorrentes.

Noutras ocasiões em que o preço do petróleo desceu abruptamente, em especial na década de 1970 como consequência do embargo de petróleo ao Ocidente, verificaram-se convulsões sociais nos países árabes. Com a redução drástica dos orçamentos dos estados, os serviços prestados às populações foram cortados. Nessa altura, o luxo babilónico em que viviam as famílias reais árabes deixou de ser aceitável aos olhos do cidadão comum.

Quando há pita e um prato de feijão em casa, o árabe comum não reclama pela falta de direitos políticos, pela opressão das mulheres e das minorias religiosas, pelo analfabetismo, o atraso económico ou a falta de alternativas de emprego para os jovens. Porém, quando a crise chega à mesa da família, a extravagância dos sultões é ainda mais desavergonhada.

O mesmo poderá acontecer nos próximos tempos. Ainda mais quando o petróleo caro não significou, na maior parte dos casos, uma melhoria das condições de vida dos cidadãos dos países produtores. E mesmo que a gasolina continuasse mais barata que a água, Mohammad queixava-se "de que me serve a gasolina barata, se não a posso beber?" Praticamente sem actividade económica para lá da indústria petrolífera, e tendo de importar tudo o resto, de cereais à roupa e aos automóveis, a inflação disparou na generalidade dos países produtores de petróleo do Médio Oriente.

No Ocidente, a crise também fez os europeus e americanos olhar com cautela para os luxos. Nem os milionários de Nova Iorque e Londres deixam de pensar duas vezes antes de gastar mais de 10,000 dólares por uma noite num hotel de 7 – sim, 7! – estrelas, investir algumas dezenas de milhões numa ilha artificial no Golfo Pérsico, ou até em comprar ou arrendar um escritório num dos inúmeros novos arranha-céus nos novos centros financeiros das Arábias. Essa reserva do mercado levou de volta ao fundo da gaveta alguns dos projectos megalómanos sonhados para o Dubai e outros oásis fabulosos das vizinhanças. A fúria urbanística atingiu uma tal força que dificilmente é acompanhada pela procura, pelo que centenas de arranha-céus arriscam-se a ficar vazios.

Em Israel as coisas não estão tão tranquilas em termos económicos como nos últimos anos, mesmo que a descoberta de uma importante jazida de gás natural ao largo de Haifa e os crescentes projectos do país em desenvolver as energias renováveis, podem ser bons sinais económicos. Ainda que a miséria dos nossos vizinhos não deva ser fonte de contentamento, talvez possamos sentir algum alívio ao saber que, um dos efeitos colaterais da crise financeira mundial pode ser a diminuição das ajudas do Irão aos movimentos terroristas palestinianos e libaneses.

Parece que todo o desmedido e fascinante luxo das Arábias foi construído sob frágeis pilares de barro. Não admira que aos poucos o ouro se descasque e o edifício acabe por cair em ruína.

publicado por Boaz às 21:55
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Quarta-feira, 3 de Setembro de 2008

A ilha dos helicópteros


Kinneret, Mar da Galileia ou Lago de Tiberíades. Imagem de satélite.

Ao voltar da viagem de duas semanas de férias em Portugal, a primeira impressão que tive ao sair do aeroporto de Tel Aviv foi o calor extremo. Eram 4 horas da manhã, mas os termómetros marcavam quase 30ºC. Até à altura da minha saída para Portugal, o Verão israelita, nomeadamente em Jerusalém, tinha sido relativamente ameno. Nada de temperaturas extremas ou ondas de calor. Porém, à chegada, o céu de Jerusalém apresentava-se cinzento-acastanhado. Não por via dos incêndios florestais, os quais felizmente, são desastres raros de em Israel, mas pelo Hamsin, uma onda de calor vinda do deserto da Arábia, marcada pelos ventos carregados de areia.

Uma das primeiras notícias que recebi foi sobre o estado de gravidade da principal reserva de água doce de Israel, o Kinneret, ou Mar da Galileia. Tão grave que actualmente é visível uma ilha numa zona do lago anteriormente coberta de água. A sua área é suficiente para albergar seis helicópteros.

Há anos que o nível de água no lago está alguns metros abaixo da quota máxima. Em Tiberias (ou Tiberíades), a principal cidade da região, situada na margem ocidental do Mar da Galileia, uma escultura moderna situada na margem do lago, informa da altura da água. Há um ano, quando estive na cidade, indicava que a altura da água se encontrava mais de 2 metros abaixo do normal. Hoje a situação é ainda de maior penúria. A falta de chuvas abundantes nos últimos Invernos e a permanente captação de água do Kinneret – para ser distribuída pelo Aqueduto Nacional para todo o país –, levaram o lago a uma situação grave.

A sul do Mar da Galileia, no local onde o Rio Jordão sai do lago e inicia a sua descida até ao Mar Morto, a parede de uma barragem parece uma estrutura totalmente obsoleta. Foi construída para regular o nível da água do lago. A abertura das comportas da barragem serviria para evitar as inundações na cidade de Tiberias e das povoações limítrofes do Kinneret, em caso de subida acentuada do nível das águas. Há mais de 20 anos que as comportas não são abertas.

publicado por Boaz às 22:34
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Terça-feira, 10 de Junho de 2008

Rumo ao Sul

Desde o dia 3 de Abril último que a minha residência oficial é a Rehov Ha'teena (Rua da Figueira) no colonato de Alon Shevut. Depois de mais de um ano e meio a partilhar um quarto na Yeshivat HaKotel, finalmente arranjei uma casa que, apesar de alugada, posso chamar de "minha".

Alon Shevut é um pequeno colonato, cerca de 15 quilómetros a sul de Jerusalém. Saindo da Cidade Velha, na direcção sul, quem segue pela Estrada de Hebron, ao chegar às imediações de Belém, quando no fim da estrada se avista o posto de controlo junto ao Túmulo de Raquel, vira à direita. Duas centenas de metros e chega-se ao Cruzamento de Gilo, a ponta sul de Jerusalém.

Aí, durante todo o dia e parte da noite, sempre há alguém a pedir boleia. Quem viaja para sul, normalmente para algum dos colonatos do bloco de Gush Etzion ou para a cidade de Hebron, costuma parar e oferecer um lugar no carro. Uma boa alternativa, se pensarmos que a maioria das viagens de autocarro para o Gush – como é conhecida em Jerusalém a região de Etzion – apesar de serem baratos, têm pouca frequência e demoram imenso tempo.

Os túneis, o posto de controlo e o muro

À esquerda da estrada vê-se a cidade árabe de Belém. Nota-se que a cidade tem crescido, depois da crise da Segunda Intifada, quando os hotéis estiveram praticamente vazios durante anos a fio. Logo a seguir, os túneis de Gilo. Um túnel curto, um viaduto sobre o vale e o túnel mais longo. Antes da construção destas obras, a estrada para o sul cruzava a cidade árabe de Beit Jala. Com a Intifada, eram frequentes os tiroteios e o lançamento de pedras contra os carros que passavam o viaduto. Por isso se ergueu um muro de betão de um dos lados, para tapar a vista dos atiradores.

Assim que se sai do túnel, chega-se a um enorme posto de controlo ainda em construção. Todo o trânsito que sai do sul de Jerusalém em direcção à capital, é verificado nesta instalação. Soldados patrulham as várias faixas do posto, 24 horas por dia. Todos os dias.

Os carros vindos dos colonatos não costumam ter problemas para passar. No máximo, o enfadado soldado de serviço pergunta "De onde vem?". As mulheres soldados, talvez "para mostrar serviço" costumam ser mais insistentes. Os carros, táxis e autocarros árabes, pelo contrário, são verificados minuciosamente. Os passageiros costumam ser mandados sair da viatura, e as bagagens inspeccionadas. Excesso de zelo? Pense-se o que se quiser, mas a segurança é uma palavra levada a sério por aqui.

No posto de controlo começa uma das novas secções do muro que Israel constrói na Margem Ocidental. Ironia, todos os trabalhadores da obra são árabes. Até a empresa que fornece o cimento é árabe, descobriu-se que um dos seus donos é o ex-PM palestiniano Ahmed Qorei. Durante quilómetros, o muro acompanha o lado oriental da estrada. Até há alguns meses, do outro lado do muro viam-se povoados árabes. Hoje, apenas o muro de pedra e, de tempos a tempos, uma cinzenta torre de vigia militar.

Para os palestinianos, o muro tem o efeito psicológico de marcar a presença israelita. Para que eles saibam quem tem o controlo. Para os colonos israelitas o muro é visto como uma possível – e não desejada – fronteira com um possível – e não desejado – estado palestiniano. Por outro lado, é também uma maneira de esconder o outro lado. De uma certa forma, esconder o problema palestiniano. Longe da vista...

As grandes colónias

À chegada ao extremo norte do colonato de Efrat, termina o muro à beira da estrada. Do outro lado não há árabes. Os perigos para os automobilistas já não são os atiradores furtivos. Agora só os próprios condutores, que há muito tempo que matam mais que o terrorismo. Saindo da estrada principal, um pequeno posto de controlo, vigia os carros que entram em Efrat pelo norte. À frente, um acesso para os bairros de caravanas de Dagan Hill e Tamar. Apesar de já contarem com alguns anos, nunca se transformaram em bairros de casas de cimento. A expansão do colonato, que se estende por vários quilómetros do lado ocidental de uma montanha, está suspensa. Só no perímetro do próprio colonato ainda se constrói, embora pouco.


Efrat, a capital do Gush

Na continuação da estrada principal começa a parte mais povoada de Gush Etzion. Primeiro Neve Daniel, situado no alto de uma montanha, a quase 1000 metros de altitude, é um dos pontos mais altos do centro de Israel. Do local, ventoso durante todo o ano, tem-se uma vista espectacular. A ocidente, em dias de céu limpo, avista-se toda a região entre Jerusalém e o Mediterrâneo, de Tel Aviv a Gaza.

Um pouco abaixo, fica a colónia de Beitar Illit, a cidade com maior taxa de natalidade em Israel, habitada por judeus ultra-ortodoxos. É tal a procura de casa por novas famílias e o seu crescimento populacional, que se prevê que a população quase triplique até ao final da década, chegando aos 100.000 habitantes.

Perto de Neve Daniel, fica Elazar, em frente do vale que separa a estrada principal da colónia de Efrat. É um colonato pequeno, com belas casas. À entrada, um pequeno jardim zoológico, que faz as delícias das crianças da região. Depois de uma curva perigosa e de uma recta propícia a altas velocidades fica a entrada principal para Efrat e a colónia agrícola de Migdal Oz. Efrat é casa de quase 10.000 pessoas, a maioria americanos endinheirados. Em algumas das suas ruas, sucedem-se mansões gigantescas, com jardins bem cuidados.

A estrada do Gush continua até ao seu ponto central, o Tzomet haGush (Cruzamento do Gush). O cruzamento é o destino de muitos trampistas, os viajantes à boleia. Daí, é fácil chegar a qualquer ponto da região. Para ocidente, três singulares colónias de Gush Etzion: a aristocrática Alon Shevut; a campestre Kefar Etzion e a alternativa Bat Ayin. Para sul, a estrada continua até à dividida cidade santa de Hebron, um dos principais pontos de discórdia entre Israelitas e Árabes. E a militante Kiryat Arba.

O trajecto cruza, como se tudo fosse tranquilo, várias aldeias árabes. A paisagem vai mudando, de vinhas e olivais entre os belos muros de pedra – como me lembram a Serra de Aire! – a colinas cada vez mais secas, pontilhadas ora de cinzentas aldeias árabes, ora de bucólicas colónias judaicas. Pelas colinas do sul da Judeia, ruma para sul, até ao deserto do Neguev, seguindo para Beer Sheva, a grande cidade do sul. Porém, aí, é um mundo à parte, bem longe da tranquilidade aparente e das disputas políticas que são o quotidiano do Gush.

publicado por Boaz às 22:06
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Terça-feira, 27 de Maio de 2008

Há quem lhe chame assim

País de merda. Assim mesmo. É desta forma que Israel é visto, chamado, (des)considerado, sentido, em muitos lugares do mundo, na mente de muita gente.

O jovem David Navarro, um espanhol residente em Israel, decidiu pegar nesta concepção e mostrar o outro lado de Israel. Aquele lado tapado muitas vezes pela trampa que passa pelos meios de comunicação social do Mundo acerca deste país.

Criou um site chamado, muito a propósito, País de mierda. Eu sei que em Portugal, as coisas ainda não tendem a ser tão escatologicamente distorcidas em relação a Israel, como em países como Espanha ou o Brasil, mas mesmo para os portugueses ainda há muitas ideias erradas que persistem.

Proponho uma visita. Prometo que não tem cheiro.

NOTA: Parece que este caso já dá que falar em Espanha: ABC, El Mundo, Telecinco, 20 minutos.

publicado por Boaz às 22:12
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Quarta-feira, 7 de Maio de 2008

"Este é o dia que o Eterno fez"

Ainda a tinta das assinaturas na Declaração de Independência de Israel não tinha secado e, cinco nações árabes (Egipto, Transjordânia [actual Jordânia], Síria, Líbano e Iraque) alinhavam as suas tropas frente às fronteiras demarcadas pela ONU, prontas para invadir o recém-criado Estado Judaico. A estratégia árabe era simples e previa que a derrota judaica seria alcançada num prazo de uma ou duas semanas apenas.

Isto foi há 60 anos. Israel ficou abalado. Resistiu. Triunfou. Alguém religioso não nega o magnífico "dedo de Deus" presente em muitos dos momentos históricos destas seis décadas em Israel. Mesmo os cépticos certamente se perguntam como esta pequena nação, composta na sua maioria por refugiados, conseguiu erguer um país como o Israel do presente. Um puzzle social confuso, composto de peças dificilmente ajustáveis: judeus e árabes, religiosos e seculares, sefarditas e askenazitas, ex-soviéticos, americanos, etíopes, peruanos, filipinas e tailandeses.

O "milagre israelita" não é fantasia. É conhecida a metáfora do pequeno território composto, ainda há menos de um século, por pântanos e desertos, transformado num fértil jardim. As coisas não acontecem por acaso. Tudo - tudo mesmo - em Israel funciona à custa de muito suor e engenho humano. E fé. Da irrigação dos campos ao trânsito na auto-estrada.

Vim pela primeira a Israel em 1999. Queria passar dois meses das minhas férias de Verão no país, gastando o mínimo de dinheiro possível. Ser voluntário num kibbutz foi a opção ideal. Sem conhecer ninguém no país, sem falar nada da língua local. (Valeu-me o meu inglês.) À chegada, a surpresa: um país verdadeiramente moderno. É certo que já tinha visto imagens de Israel na TV, mas ao vivo é outra sensação. Os arranha-céus de Tel Aviv. Um mito destruído de imediato: a influência americana era quase inexistente. Cartazes publicitários em hebraico! Como era possível viver num país moderno sem usar uma língua ocidental? Peço desculpa pelo eurocentrismo idiota.

Nessa altura, o meu interesse em Israel já não era meramente turístico ou mesmo cultural. Eu estava a bater à porta do Povo de Israel. Nos meus planos, mesmo desconhecendo inteiramente o alcance desse ideal, estava uma conversão ao Judaísmo. Passaram-se anos até voltar a pisar a Terra Santa. Na segunda visita, de apenas 11 dias, o meu processo de conversão já dera muitas e difíceis voltas, mas finalmente começara a tomar forma.

Em apenas quatro meses estaria de volta. Para sempre. Nem eu sabia à partida. Conseguira uma vaga num curso oficial de conversão ao Judaísmo, nos arredores de Jerusalém. Sem trabalho fixo em Portugal, sem ter uma família para sustentar, pouco me prendeu em casa. Fiquei seis meses no curso de conversão e entretanto entrei numa yeshiva. Pela primeira vez, entrei a fundo no mundo religioso judaico.

Sem planos para ficar em Israel, a princípio planeei ficar apenas 6 meses. Ir, converter-me, voltar. As minhas identidades portuguesa e judaica pareciam perfeitamente equilibráveis. O retorno à minha vila da Batalha foi estranho. Eu era um estranho. Foi um regresso a casa, apenas de visita. Fui um turista na minha terra natal. Foi um alívio voltar a Jerusalém.

As mudanças são muito rápidas e radicais para quem vive por estes lados. Em 2005, chegara quando ainda se sentia em força o abalo da destruição dos colonatos de Gaza. Passei cá a Segunda Guerra do Líbano, com os telefonemas quase diários da minha mãe, aterrada com as violentas imagens da guerra transmitidas pela televisão. Implorou-me para voltar para casa. Tentei, como podia, descansá-la. "Que iria eu fazer a Portugal?", pensei. Não queria sair naquela hora difícil. Não queria ter problemas para voltar, caso saísse.

Frequentemente recebo mensagens de amigos em Portugal que me pedem para voltar. Alegam que esta não é a minha terra. Que não tenho nada a fazer por aqui. Que o meu lugar é em Portugal. Entendo o ponto de vista deles. Um emigrante é visto como um ente temporariamente distante. Não conhecem a essência da emigração para Israel. Afinal, transplantar as raízes para um novo lugar é sempre um choque, também para a terra deixada vaga. Israel foi recém reimplantado nesta terra. Recém, se lembrarmos a cadeia de mais de 3500 anos de história judaica. Todos os que, como eu, decidiram viver aqui, são parte deste novo e impressionante reflorescimento judaico na Terra de Israel.

Estou em Israel há menos de três anos. Como judeu, há quase dois. Como cidadão, ainda não completei sequer um ano. Casei por cá, há exactamente um mês. Não me consigo imaginar a viver, de forma permanente, noutro lugar. Ao fim de um ano de aliya, dentro de alguns meses, vou poder tirar o passaporte israelita. Um ano de israelita em 60 anos de Israel.

Nota: O título provém de um versículo entoado na recitação de Halel, o conjunto de cânticos de louvor a Deus entoados nos dias mais alegres do ano. O Dia da Independência de Israel é um desses dias.

A ideia para este artigo partiu de Nuno Guerreiro, um jornalista judeu português residente em Nova Iorque e autor do excelente blog Rua da Judiaria. A intenção dele era publicar textos de escritores, jornalistas e bloguistas de língua portuguesa residentes em Israel. (A minha foto que acompanha o artigo já tem uns aninhos, mas, verdade seja dita, eu também não mudei assim tanto).

publicado por Boaz às 16:44
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

O arco da crise

Com frequência, analistas, jornalistas e políticos referem-se à resolução do conflito entre Israel e os Palestinianos como a chave para a estabilização do Médio Oriente e daí, de todo o Planeta.

Recentemente, o Iraq Study Group (ISG) liderado por James Baker, antigo Secretário de Estado americano foi incumbido pelo presidente Bush de encontrar formas para vencer a guerra no Iraque, de uma forma mais rápida e menos custosa. Em sangue e dólares. A conclusão do ISG foi: "a resolução a disputa Israel-Palestina" é a chave para ganhar a guerra no Iraque.

A ideia da centralidade do conflito Israel-Palestinianos não é exclusiva de James Baker e seus associados. Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU partilha da mesma ideia. E também, aparentemente, o seu sucessor Ban Ki-Moon, que recentemente disse a um jornal sul-coreano: "Se as questões no conflito entre Israel e a Palestina [sic] forem bem, outras questões no Médio Oriente... irão da mesma forma ser resolvidas."

Será o conflito entre Israel e os Palestinianos assim tão central no Mundo e mesmo no Médio Oriente?

Façamos então um passeio pelo Grande Médio Oriente, ao qual Tony Blair chamou "o arco da crise". Estendendo-se do Atlântico ao Índico, compreende 22 países. Dezasseis deles árabes, mais a Turquia, Arménia, Azerbeijão, Israel, Irão, Afeganistão e Paquistão. Todos foram fundados após o desmembramento de algum império colonial. Como primeiro sinal de instabilidade, saiba-se que nenhum destes estados goza de fronteiras inteiramente reconhecidas. Todos têm diferendos fronteiriços com um ou mais vizinhos, reclamando partes dos seus territórios. A maioria já travou guerras em consequência dessas reclamações.

Comecemos a digressão pelo Afeganistão. Reclama a soberania sobre a paquistanesa Província da Fronteira Noroeste. Na década de 1960, os dois países travaram uma série de guerras fronteiriças pelo controle da região. O Irão, por seu lado, insiste no direito de supervisão no oeste do Afeganistão baseado no Tratado de Paris de 1855. Iranianos e afegãos disputam ainda as águas de três rios fronteiriços, o Hirmand, o Parian e o Harirud.

O Paquistão desde 1947 mantém uma longa disputa territorial com a Índia pelo controle de Caxemira, desde a divisão do antigo Império Britânico da Índia, em dois estados, em 1947. Caxemira foi a origem de três guerras em larga escala e numerosos episódios de violência na fronteira entre os dois países. É responsável ainda pela corrida de ambos às armas nucleares, além de centenas de ataques terroristas, sobretudo na Caxemira indiana. Além de Caxemira, o Paquistão mantém uma disputa com o Irão sobre águas territoriais no Mar Arábico e sobre a nacionalidade de várias tribos de etnia Baluch que vivem dos dois lados da fronteira entre os dos países.

Numa escala muito maior, o Irão e o Iraque travaram uma série de guerras desde 1936 pelo controle o estuário do Shatt al-Arab. Um tratado de paz foi assinado em 1975, mas em 1980 Saddam Hussein invadiu o Irão, começando uma guerra de oito anos e que fez mais de um milhão de mortos nos dois lados. Desde a deposição de Saddam em 2003, o Irão redesenhou a fronteira a seu favor. E continua a reclamar o direito de supervisão sobre santuários xiitas no Iraque como Samara ou Karbala.


Irão, Esquadrão de fuzilamento nos primeiros anos da Revolução Islâmica.
Foto de Jahangir Razmi, fotógrafo iraniano. Prémio Pulitzer

A sul, e desde 1971, o Irão reclama dos Emirados Árabes o controle de três estratégicas ilhas no estreito de Ormuz, por onde flúi diariamente metade do petróleo do Mundo. A norte, luta com o Turquemenistão, o Kazaquistão, o Azerbeijão e a Rússia pelo Mar Cáspio. Os vizinhos pretendem a divisão deste mar interior conforme a extensão das suas fronteiras. Para reclamar a divisão equitativa que duplicaria a sua extensão do Cáspio, o Irão mantém desde 1995 uma marinha de guerra e impede as petrolíferas internacionais de explorarem gás e petróleo nas águas azeris e turcumenas que Teerão reclama como suas. Teerão tenta ainda manter um controlo da província de Khuzestan, rica em petróleo. A região teve uma maioria de população árabe até à década de 1940. Desde então tem sido sistematicamente "persianizada." Recentemente, várias tribos árabes residentes perto da fronteira iraquiana foram expulsas e substituídas por habitantes persas do centro do Irão.

O Irão é visto pelos países árabes como uma ameaça directa, em especial os Estados do Golfo. No entanto, mesmo entre estes, as relações não são amistosas. Apesar das relações tribais entre as famílias reais da região, a Arábia Saudita travou em 1955 uma guerra com Omã pelo controle do oásis de Buraimi, alegadamente rico em petróleo. Décadas de negociações não foram suficientes para se chegar a um acordo. No ano passado os Emiratos Árabes renunciaram a um tratado de 1974 com a Arábia Saudita, adivinhando-se uma terceira reclamação sobre o oásis.

Desde o final da década de 1990, o Qatar luta com os sauditas pela região de Khor al-Udaid, rica em petróleo. Em 2000, os sauditas anexaram a área à força, cortando assim a fronteira do Qatar com os Emiratos. O Qatar reclama do vizinho Bahrain o controle das ilhas de Hawar, travando uma guerra naval em 2001.

Entre a Arábia Saudita e o Kuwait, alegadamente os mais próximos dentre os Estados do Golfo, mantém-se o diferendo acerca da demarcação de fronteiras na chamada "Zona Neutra." Após a Guerra do Golfo de 1992-93, a fronteira do Kuwait com o Iraque foi estabelecida. Todavia, mesmo o parlamento eleito do Iraque não abdicou ainda da reclamação de soberania sobre as ilhas kuwaitianas de Warbah e Bubiyan e da parte sul dos campos petrolíferos de Rumailah atribuídos ao Kuwait pela ONU. A desconfiança em relação a Bagdade, levou o governo do Kuwait a erguer fortificações, cercas electrificadas, armadilhas anti-tanque e a implantar uma “terra de ninguém” que se estende numa faixa de 15 quilómetros. A Arábia Saudita tem em construção estruturas similares na sua fronteira com o Iraque.

A dinastia hashemita da Jordânia mantém há décadas uma reclamação de suserania sobre a província saudita de Hejaz, onde se situam as cidades santas de Meca e Medina, despojada do controle das tribos hashemitas em 1924 pelas tribos que compõem a actual família real saudita. A cada onda de pressão sobre a casa real saudita pela Al-Qaeda ou por militantes xiitas, de Amã ouvem-se apoios a um Hejaz independente.

O Iémen continua sem conseguir traçar a sua fronteira com Omã ao longo do Golfo de Hauf e no deserto de Rub al-Khali, “o vazio da Arábia”. Em 1999 travou uma guerra com a Eritreia pelo controle das ilhas Hanish, um arquipélago estratégico na entrada do Mar Vermelho.

Desde os anos de 1940, o Iraque e a Síria mantêm um diferendo com a Turquia pela divisão das águas do Rio Eufrates. Ainda, tanto a Síria como o Iraque reclamam a província turca de Iskanderun, onde os Árabes compõem 30% da população. A Turquia reclama o direito de supervisão do Norte do Iraque baseado no Tratado de Lausanne de 1923, em especial sobre as regiões petrolíferas de Mossul e Kirkuk e tem treinado e armado grupos tribais turcomanos na região. Na década de 1990, a Turquia actuou militarmente na região na sua guerra contra a milícia marxista curda do PKK.

A Síria reclama a totalidade do Líbano como parte da "Grande Síria", da qual reclama também fazerem parte a Palestina histórica e parte do Norte da Jordânia. Em quase 30 dos 50 anos do Líbano independente, a Síria manteve aí um exército de ocupação e esteve activamente envolvida nas três guerras civis libanesas. A Síria foi em grande parte responsável pela morte de mais de 100 mil libaneses e pela fuga de outros dois milhões e meio. No ano passado, a Síria e o seu maior aliado, o Irão, encorajaram o Hezbollah a travar uma guerra com Israel. Nos últimos anos, Damasco tem sido responsável por grande parte da agitação social e política no Líbano e por uma série de assassinatos políticos, incluindo o primeiro-ministro Rafik Hariri.

O Egipto, o maior dos estados árabes, mantém divergências fronteiriças com a Líbia e o Sudão. Na década de 1960 fomentou várias guerras por todo o mundo árabe. Desde a guerra 1958-62 na Argélia a um golpe de estado no Iémen que deflagrou uma guerra civil que se prolongou por seis anos e fez mais de 200 mil mortos. Recentemente, anexou partes do território sudanês e mantém um conflito intermitente com a Líbia sobre uma área do deserto Egípcio. Ironicamente, a sua única fronteira estável e reconhecida internacionalmente é aquela que o separa de Israel.

A Líbia é desde os anos 70 um dos grandes patrocinadores do terrorismo internacional. O atentado contra o avião da PanAm que se despenhou em Lockerbie e uma bomba numa discoteca alemã frequentada por soldados americanos estão no cadastro de Muamar Khaddafi. Mantém disputas com o Chade, a Tunísia e o Sudão. No Sudão desenrola-se um dos maiores desastres humanitários da actualidade, na região de Darfur. Centenas de milhares de mortos e mais de um milhão de refugiados, resultado dos massacres das milícias janjaweed apoiadas pelo governo central. Ao longo de várias décadas, o país esteve numa guerra civil. Árabes muçulmanos do Norte contra tribos negras cristãs e animistas do Sul. Mais de dois milhões de mortos e outros tantos refugiados até ao recente acordo de paz.

Marrocos, Argélia e Mauritânia têm lutado entre si pelo controlo do Saara Ocidental. A região foi anexada por Marrocos em 1975. Em retaliação, a Argélia tem apoiado a Frente Polisário, que reclama ser o governo legítimo do povo Saraui. Desde 1976 que Marrocos e a Frente Polisário travam uma guerra de baixa intensidade. Na década de 1990, Marrocos retribuiu à Argélia o seu apoio à Frente Polisario fechando os olhos à sangrenta campanha terrorista dos islamistas que custou a vida a mais de 250 mil argelinos.

Tudo isto é apenas uma síntese do que tem acontecido no "arco da crise". Nas últimas seis décadas, a região sofreu não menos de 22 guerras de larga escala em disputas de território e recursos, nenhuma delas tendo alguma coisa a ver com Israel ou os Palestinianos (se tem dúvidas, volte atrás e releia o artigo). Além disso, a história destes países tem sido dominada por séries de lutas domésticas, golpes de estado, ondas de violência étnica e sectária, em muitos casos com altos níveis de crueldade.

O Grande Médio Oriente tem-se caracterizado por uma crónica instabilidade, níveis baixos de desenvolvimento e atraso cultural. A região é a única zona do Mundo que, de um modo geral, passou ao lado da onda de mudanças positivas que se seguiram ao fim da Guerra Fria. Imprensa ou universidades privadas, sindicatos livres, partidos políticos ou liberdade de associação e expressão são realidades distantes. No século XXI, as linhas de produção das grandes marcas internacionais estenderam-se da Polónia ao Vietname ou ao Peru. Mas não à Síria ou ao Egipto. Nenhum destes estados tem, por exemplo, fábricas de automóveis ou de produtos de alta tecnologia.

Os déspotas que chefiam os estados entre a Mauritânia e o Paquistão há muito que pretendem desviar as atenções dos seus oprimidos súbditos com o sonho de atirar ao mar "o inimigo sionista". Como fazia o antigo presidente Nasser do Egipto, sempre que espreitava a ameaça da revolta política, logo se apressava a assegurar às massas do seu país e da "grande nação" árabe que a reforma política e social teria de esperar até que "o inimigo" fosse expulso da "nossa amada Palestina."

Para até um grupo de, aparentemente, homens sábios americanos, adoptar a mesma visão retrógrada e facilmente refutável, demonstra uma absoluta e perigosa ignorância da realidade.

Baseado num artigo de Amir Taheri, ex-editor do diário iraniano Kayhan, para a Commentary Magazine.

publicado por Boaz às 11:03
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Quarta-feira, 6 de Junho de 2007

Silêncios ao som das bombas

Desde há quase duas semanas, que todos os dias ouvimos e vemos nas notícias o regresso da violência em larga escala no Líbano. O exército libanês ataca com toda a sua força as posições de uma tal Fatah al-Islam, um grupo terrorista palestiniano derivado da OLP e com alegadas ligações à Al-Qaeda em dois campos de refugiados. Os sinistros membros desse grupo terrorista fizeram já saber que lutarão até à morte. Como todo o bom terrorista, aliás.

Ao mesmo tempo que a situação se arrasta, não vemos qualquer reacção dos nossos "defensores dos oprimidos" de ocasião. Voltemos então no tempo até Março de 2002 e façamos uma breve comparação.

Na altura, a Europa tinha manifestações umas atrás das outras a condenar Israel por uma acção militar no campo de refugiados de Jenin, onde o exército israelita combatia militantes palestinianos armados. Israel foi, sem piedade, acusado de enormes atrocidades e de matar centenas de civis. Mesmo em Lisboa, frente à embaixada israelita, bloquistas, comunistas e simpatizantes gritaram slogans acusatórios e empunharam cartazes mostrando de um lado, uma inocente e heróica criancinha palestiniana de pedra na mão e do outro, o arrogante e terrível tanque israelita.

"Estes bárbaros são capazes de tudo!" rosnava um músico decadente aos microfones da televisão. "Podiam ser os nossos filhos...", carpia uma mãezinha amargurada de cartaz em punho.

Investigações posteriores por parte de observadores internacionais provaram que as "centenas de civis chacinados" em Jenin foram afinal 70 e, na sua maioria, militantes armados. Na altura, Israel mandou soldados de infantaria para o terreno para minorar as baixas civis e limitar a destruição. Mesmo assim as acusações choveram contra Israel, apesar de terem morrido mais de 20 soldados do Tzahal durante a operação.

Ora, de volta ao presente, o exército libanês bombardeia diariamente e com artilharia pesada campos de refugiados no norte e no sul do país, onde muitos civis ainda se encontram encarcerados sem conseguir escapar do meio dos combates.

E os justiceiros da nossa praça calam-se. Parecem não ver as ligações entre os casos. É que até os coitadinhos são aparentados: tanto a Fatah al-Islam de Nahr al-Bared, como as Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa de Jenin descendem de uma forma ou de outra do aparelho da OLP, a organização fundada pelo saudoso Yasser Arafat, o grande herói da malta que gritava contra Israel por essa Europa fora em 2002.

A razão deste silêncio é evidente. Afinal, é ideia aceite que os Árabes e os Muçulmanos são inimputáveis. Afinal, se eles se matam entre eles, alguma razão devem ter. Seja o exército libanês, os sunitas e xiitas em guerra aberta entre si no Iraque, os talibãs no Afeganistão, os lacaios do governo sudanês no Darfur, os senhores da guerra na Somália e por aí em diante. A lista seguiria longa. Só vale mesmo a pena ladrar e empunhar vistosos cartazes quando são as bestas ocidentais a matar cidadãos árabes. Seja Israel (posto avançado do Ocidente no Mundo Árabe), sejam os EUA no Iraque.

É que é apenas seguindo este modelo que o tradicional maniqueísmo da esquerda europeia funciona. É óbvio que esses senhores não estão para admitir que os seus modelos de valores estão, há muito, caducos.

publicado por Boaz às 20:47
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