Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

No fundo de rodapé da fama


Quase famoso.

Apesar de ser licenciado em Comunicação Social, em poucas ocasiões apliquei o que estudei nos 4 anos do curso. Agora, nem tenho televisão em casa – e não o lamento. O contacto com o Mundo faz-se pela Internet. Ainda antes do sonho da carreira na Comunicação Social, tinha tido algum contacto com o mundo jornalístico na escola. Aos 13 ou 14 anos, entrei quase por acaso para o Clube de Jornalismo da Escola Secundária da Batalha. A experiência durou apenas algumas semanas, mas ainda me lembro de escrever alguns textos que seriam publicados no jornal da escola. E de fazer desenhos para ilustrar as peças.

Na mesma altura, ou poucos anos depois, o Jornal da Batalha teve a ideia de dedicar uma das suas páginas a uma das turmas da escola local. Os alunos escreveriam textos e a turma apareceria numa foto de grupo. Ainda guardo numa mala de documentos a página que foi feita pela minha turma... Ainda que seja difícil ver onde estou no meio da foto de turma, foi a primeira vez que "saí no jornal".

A segunda vez que "fui para as bancas" foi já nos anos da faculdade. Ao contrário de uma pacífica e sóbria foto nos idos anos do ensino secundário, a notícia da época universitária dizia respeito a uma "invasão". Os revolucionários alunos do ISCSP, o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, a minha faculdade em Lisboa, decidiram tomar de volta e à força o andar de cima do secular Palácio Burnay onde funcionava a faculdade. Havia sido "nosso" até à extinção temporária do ISCSP algumas décadas antes, mas aí funcionavam alguns dos serviços de outra instituição, o Instituto de Investigação Científica e Tropical. Era a parte mais nobre do palácio e era uma vergonha que estivesse a ser usado por "eles".

Na cobertura jornalística da invasão – como é que chegaram tão rápido? Estavam avisados? –, um fotógrafo do Jornal de Notícias apanhou-me com um maço de livros arrancados de uma das prateleiras dos cientistas ocupantes. Eu nem dei por ele. Só soube quando vi a foto no diário! Em termos de processo judicial, nunca se fez nada contra a nossa "medida radical" e, passadas algumas semanas, metemos o rabinho entre as pernas e voltámos a ter apenas "o andar de baixo". E foi assim, como um anónimo criminoso fotografado em "flagrante delito" que saí numa das páginas da secção de Sociedade do JN em 2000 e picos.

No final do curso consegui – com ajuda da indispensável cunha, por supuesto – um precioso estágio. O meu padrinho falou com um amigo que tinha um outro amigo e que, sem acaso, era o responsável pelos estagiários da rádio de notícias TSF, uma das mais importantes estações de rádio de Portugal. Depois de uma entrevista para apurar capacidades, comecei a trabalhar logo no dia seguinte. Trabalhar não era bem o termo certo: o estágio era, apesar de bem-vindo, "não remunerado". Comecei por fazer o turno da manhã.

Saía bem cedo do apartamento onde morava junto ao Largo do Rato e tomava dois autocarros até chegar à redacção no Braço de Prata, quase a chegar ao Parque das Nações. O termo "não remunerado" era absoluto, e significava que eu tinha de pagar o meu transporte – a não ser as deslocações em trabalho – e nem incluía almoço. Valiam-me as bolachas e o iogurte trazidos de casa, e a máquina de café para ser usada à discrição. Depois passei para o turno da tarde.

Ao contrário do que se pensa no mundo fora do círculo jornalístico, nem todos os jornalísticas "aparecem". Nem todos são "estrelas". Antes pelo contrário, a profissão de jornalista é muito menos romântica. O meu trabalho era mais de apoio. Depois de escolher uma historia para cobrir, telefonava para aqui e acolá à cata de depoimentos de alguém com quem interessava falar por algum assunto. Por vezes fazia "trabalho de campo": saía da redacção para algum lugar em Lisboa para assistir a impossivelmente chatas conferências de imprensa, como reuniões de centrais sindicais. Entrevistei um ex-ministro da Ciência sobre o aniversário de Albert Einstein. Num seminário da Associação Luso-Americana entrei pela primeira e única vez no Sheraton de Lisboa, onde estaria o ministro do Trabalho. Eu não falei com ele, mas um jornalista de TV encontrou-o e rapidamente lhe fez uma pergunta pertinente. Tão rápido que eu nem tive tempo de ligar o meu microfone! Desastres de principiante.

A visita do presidente do Governo Regional dos Açores levou-me ao Palácio de Belém, a residência do Presidente da República. O líder açoriano falou alguma coisa que era importante, mas eu não entendi o interesse da coisa. No dia seguinte, à chegada à redacção, levei uma reprimenda quando me disseram que ele realmente tinha dito algo que era notícia. E que a TSF tinha deixado fugir. Outra rádio noticiou em primeira-mão. Aprenderam a não enviar um novato para cobrir assuntos de Estado. A única vez que a minha voz foi ouvida nas ondas hertzianas foi numa peça sobre uma "Feira do Livro Usado" realizada no Mercado da Ribeira. Com Carlos Paredes como música de fundo construí uma peça em linguagem poética. Foi "para o ar" nessa noite, a uma hora em que pouca gente ouve rádio. Repetiram-na de manhã cedo, ao início da hora de ponta do trânsito lisboeta.

Na altura estalou o escândalo de pedofilia na Casa Pia. Todos os dias apareciam revelações cada vez mais escabrosas. Na redacção, ouviam-se boatos implicando pessoas que, só semanas ou meses mais tarde, seriam trazidos a público. Ou nunca foram mencionadas "cá fora". Não imaginamos o podre que corre na antecâmara das notícias até fazermos parte de uma redacção.

Eram as vésperas da invasão americana do Iraque. A guerra estava iminente. Todos os dias, Bush e companhia revelavam outra razão para mandar Saddam Hussein para fora do poleiro. Era preciso saber o que diziam a CNN e a BBC e gravar o que noticiavam. Várias vezes traduzi e dobrei em estúdio declarações de Bush, Dick Cheney, Tony Blair e outros "peixes graúdos". A estação planeava quem iria mandar para o Médio Oriente, cobrindo os países mais importantes da região. "Armas de destruição maciça" era o termo mais usado nos media da altura. O Mundo não parece ter mudado muito desde essa altura...

Poucos dias depois de terminar os meses de estágio, assisti no meu quarto ao início da guerra em directo na RTP, a 20 de Março de 2003. Um providencial directo do jornalista Carlos Fino apanhou as primeiras bombas a cair em Bagdad. Aquela já não era a minha guerra. Eu estava de fora, a imaginar o reboliço que deveria ser a redacção da TSF. Ao todo foram apenas 4 meses. Aprendi alguma coisa, em especial o cuidado que temos de ter quando escutamos, vemos ou lemos algo nos media. As palavras cuidadosamente usadas para causarem polémica, para darem nome à casa, para a própria casa ser notícia por ter noticiado tal coisa, é mais importante do que revelar a notícia em si.

Alguns meses depois, trabalhei durante apenas um mês num semanário católico da diocese de Leiria. A coisa mais interessante na enfadonha rotina semanal era a montagem das notícias do jornal, às segundas e terças-feiras. Era interessante ver nascer o jornal que vai aparecer, dias depois, nas bancas. Organizar o enorme e desinteressante arquivo fotográfico do jornal ou escolher folhas de papel de impressão que ainda podiam ser usadas, foram outras coisas que eu fiz, nos dias em que não havia nada para fazer na sala onde funcionava o jornal, com apenas três funcionários.

No ano seguinte, passei para a televisão. Não, apesar das minhas tentativas e dezenas de currículos enviados não consegui ter outro estágio, nem mesmo "não remunerado" e ainda menos um emprego certo. Na altura, já começara a tomar forma o meu processo de conversão e foi nessa condição que apareci num programa de informação religiosa da RTP 2. Foram entrevistar os alunos que frequentavam as classes de conversão na sinagoga de Lisboa.

Com a ajuda do blog, fui entrevistado duas vezes sobre o assunto da minha conversão ao Judaísmo. Um leitor chileno entrevistou-me em inglês e publicou a notícia num jornal online do Canadá. O mês passado, foi a vez de uma jornalista brasileira, de um jornal judaico do Rio de Janeiro se interessar pela minha história.

Há meses, um amigo português (nascido em Moçambique) residente em Jerusalém foi descoberto pelo jornalista Henrique Cymerman, correspondente da SIC em Israel. A história de um português de origem "marrana" (em hebriaco anussim, os judeus obrigados a converterem-se ao Catolicismo e mantidos judeus em segredo), hoje 100% judeu, a trabalhar no Jardim Botânico de Jerusalém deu origem a uma reportagem de televisão. Depois da realização da reportagem, o meu amigo avisou-me que o jornalista estava interessado em conhecer outros portugueses em Israel e que por isso, lhe tinha dado o meu contacto.

Até hoje, alguns meses depois, espero o tal telefonema do Henrique Cymerman. Ainda não foi desta que apareci na SIC!

publicado por Boaz às 03:17
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Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

Normalidade

Eleições nos Estados Unidos. Tragédia (ou apenas continuação dela) no Congo. Descalabro das bolsas um pouco por todo o Mundo. Estes são os assuntos de hoje. De há várias semanas e, no caso das eleições americanas, a novela das 8 dos últimos meses. De Israel, já mal se fala. Talvez ainda se oiça, de quando em vez sobre a Ministra dos Negócios Estrangeiros Tzipi Livni, entretanto chegada a Primeira-ministra. Mas mais em nota de rodapé que em peça de noticiário.

É um dos sinais da normalidade que se vive por aqui. É certo que em muitos aspectos, a situação em Israel não mudou. A questão com os palestinianos continua na mesma: Gaza é o covil da matilha do Hamas e as cidades palestinianas da Cisjordânia são o arquipélago da desgraça que é o governo da Fatah. O soldado israelita Gilad Shalit continua sequestrado em Gaza (desde 25 de Junho de 2006) e não há perspectivas concretas para o seu resgate com vida. Como escreveu o Rei Salomão: "Não há nada de novo debaixo do Sol."

Porém, em muitos outros aspectos, a situação aproxima-se da de um país normal. Na rádio, para lá das histórias das novelas políticas, normais em todos os Estados, ainda mais com a aproximação das eleições municipais, fala-se sobretudo dos acidentes de trânsito. As histórias de arrepiar os cabelos dos atentados terroristas tão frequentes até há 3 anos, foram substituídas por contos sobre os mortos na estrada. Todos os dias, 2, 3, 5 pessoas morrem nas estradas de Israel e os media transmitem os berros dos familiares enlutados. De fazer chorar as pedras da calçada. Anúncios "choque" na rádio (eu não vejo TV, por isso não sei o que lá se mostra, mas imagino que a moda seja a mesma) alertam para os perigos da estrada.

Desvio de foco

Tão normal é o quotidiano local, que até as grandes cadeias de comunicação internacionais – até há pouco observavam com olhos de falcão o que aqui se passa – se aperceberam da actual "pobreza noticiosa" israelita. Isso não significa que por cá não aconteçam coisas importantes. Se por um lado, muito daquilo que era mostrado pelos media, em vez de se ter resolvido simplesmente passou a ser ignorado, de tão "gasta" que estava a história. Por outro lado, há fatalidades mais interessantes para encher jornais e noticiários.

Uma das consequências foi a redução acentuada do staff das representações de jornalistas estrangeiros. BBC, CNN, NBC e a maioria dos grandes canais de televisão mandaram uma boa parte dos seus antigos correspondentes para outras paragens mais interessantes: Iraque, África, Rússia, China.

Pela primeira vez em muitos anos, Israel não está no centro das atenções. Isso parece ser bom.

publicado por Boaz às 22:00
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Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

Passar ao lado da História

11 de Setembro, por pouco, não passava alheio à histórica data. Sem televisão em casa – bem, na verdade até temos o aparelho, mas há cinco meses que permanece desligado, ainda dentro da própria caixa –, o acesso ao mundo exterior é mais ocasional. Na yeshivá, apesar de ter mais de 100 alunos americanos, não ouvi falar do assunto.

Do jovem de 20 e poucos anos interessado em prosseguir uma carreira jornalística e viciado em telejornais e notícias, sou hoje um fraco consumidor de notícias e dos media. O sonho da carreira jornalística passou e o pouco uso que faço do que aprendi na faculdade é o (bastante útil) olhar crítico em relação às notícias e, obviamente, este humilde blog.

Há 7 anos, nesta altura estava em minha casa, a terminar as férias do Verão. Assistia, como fazia quase todos os dias, aos noticiários matinais no canal de notícias europeu EuroNews. Com noticiários de meia em meia-hora, é fácil estar em cima do acontecimento. Começara a transmitir as primeiras imagens de Nova Iorque, naquela manhã inesquecível. A princípio, os relatos da jornalista informavam a suspeita de que uma avioneta chocara contra uma das torres do World Trade Center. O que, a ser verdade, seria a segunda vez.

Eram quase 13 horas, o tempo dos noticiários de início da tarde nos canais portugueses. Passei a emissão para a SIC, que nessa altura já tinha interrompido o programa matinal de Fátima Lopes para mostrar as imagens da nuvem de fumo, do buraco na Torre Sul do WTC, acompanhada de relatos cheios de dúvidas do que acontecera. Três minutos depois do início do Jornal da Uma, em directo para a minha sala de estar – e para todo o mundo – o segundo avião chocou contra a Torre Sul.


Uma pessoa salta do World Trade Center depois da Torre Norte
ter sido atingida por um dos aviões sequestrados (AP Photo/Richard Drew).

Naquele momento, deixara de ser um estranho acidente, para passar a ser um macabro e terrível ataque terrorista. Naquela tarde, segui a emissão televisiva com um ávido apetite por notícias. Todos os programas foram suspensos e, em suspenso também eu fiquei, durante todo o dia, até às 2 da manhã do dia seguinte, quando o último dos canais nacionais (em minha casa em Portugal não havia, nem hoje existe, televisão por cabo) regressou à programação normal.

O auge do êxtase foi a inacreditável queda da primeira torre. Mesmo no conforto da minha sala, senti-me gelar de terror. Logo depois, a segunda torre a cair. Nem a mais demente produção de Hollywood poderia conceber um cenário daqueles. As imagens das pessoas trancadas nos edifícios a saltarem para a morte, foram algumas das mais sinistras experiências visuais a que assisti. Em que pensariam as pessoas no último momento antes de se lançarem? Era impossível não se interrogar...

No dia seguinte, apesar da continuação do tempo de férias, acordei cedo. A avidez de notícias – uma noite inteira de coisas a acontecer um pouco por todo o Mundo depois de uma tragédia daquelas! – despertou-me bem cedo e fez-me correr para a frente da televisão. Não conseguia deixar-me ficar sem saber o que se passava...

Os meses passaram, tiraram-se conclusões acerca das origens do ataque. Os EUA começaram uma guerra global que, há muito começara, mas que passara até então despercebida para a maioria das pessoas. Os muçulmanos ganharam um infame herói, Osama Bin Laden, auto-proposto salvador da sua civilização. O "choque de civilizações" retomava a sua sangrenta e imparável cavalgada. Muitos, mesmo depois de tantas mortes que causou, mantêm-no como o seu modelo. Triste, muito triste.

Invasão do Afeganistão, atrocidades e queda dos talibãs, Bali, 11 de Março em Madrid, Metro de Londres, Istambul, invasão do Iraque, falência de companhias aéreas. Foram apenas algumas das manchetes que surgiram nos meses e anos seguintes, relacionadas com o 11 de Setembro de 2001. Habituámo-nos à repetição de atentados: muda a geografia, mas a marca é a mesma. Rendemo-nos às novas regras de segurança nos aeroportos: depois do bombista dos sapatos obrigaram-nos a descalçar; com o terrorista da bomba-líquida proibiram-nos de levar mais de 100ml do que quer que fosse na bagagem de mão.

O nosso Mundo é hoje muito diferente daquele que existia em 2001. Porém, acostumámo-nos às mudanças. Cada um à sua maneira. Daí que, até eu, outrora um ávido consumidor de notícias, quase me tornei indiferente à data. Do lema: "Nunca esqueceremos", nesta como noutras tragédias, virou pouco mais que um slogan. Quase tudo daquilo que entrou na nossa vida após o 9/11 simplesmente já faz parte da nossa normalidade.


publicado por Boaz às 00:33
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Segunda-feira, 3 de Março de 2008

Moralidade à distância

Israel invadiu Gaza. Sim, a operação "Inverno Quente" é a manchete da semana. Até agora já se contam mais de 100 mortos árabes. Os soldados israelitas mortos já são pelo menos três. Desproporção de números e de meios? Sim. Os mortos em Gaza são, na maioria, operacionais do Hamas prontos a entrar no Paraíso e a receber o seu carregamento de virgens.

Quem ouviu falar dos mísseis Qassam que caem em Sdetot, Netivot ou Ashkelon? As pobres e indefesas crianças e mães palestinianas gritam mais alto frente aos microfones dos média internacionais, ávidos de "imagens choque" para abertura de telejornal. As crianças, em Gaza e em Sderot são igualmente inocentes, mas não os seus pais. Os pais de Gaza elegeram – viva a democracia! – o Hamas. E ao Hamas sacrificam os filhos. Sacrifício em troca de virgens, ou pelo menos, da morte de mais algum israelita.


Mísseis Qassam lançados de Gaza para Israel, 22 Maio 2007. Foto: Emilio Morenatti.

Quantas das crianças árabes desgraçadas – sim, é uma desgraça que morram crianças – vítimas da aviação israelita, não morreram por serem usadas como "escudos humanos" pelos terroristas do Hamas? Em troca do paraíso prometido aos heróicos shahada, os mártires. Tal como lhes é injectado, desde cedo, pela TV oficial e pelo sistema de ensino palestiniano. Aliás, seja pela TV do Hamas ou da Autoridade Palestiniana, sem grandes diferenças. Ou simplesmente são obrigadas a ser "escudos humanos" frente ao convincente cano das kalashnikov dos terroristas. Por uma notícia trágica, por uma oportuna foto sangrenta, bons meios de propaganda, o terror não evita imolar os seus filhos. Perdão, os filhos dos outros.

O Hamas reina em Gaza. Pensou que reinaria sem oposição, instaurando o terror como política oficial a partir da Faixa e expandindo o pânico para o Sul de Israel. No pânico da morte pela mão da aviação israelita, a liderança do Hamas abriga-se nos bunkers. Os líderes fogem, não se imolam. Afinal a história do paraíso virginal oferecido aos mártires é apenas engodo para os pobres de espírito.

Não se exija de Israel que se contenha face às ameaças a que estão sujeitos os cidadãos das regiões próximas de Gaza. Os Europeus, há muito que se esqueceram do terror da guerra à sua porta. Distantes, no conforto dos seus sofás, ou das poltronas dos parlamentos. Ignorantes, de visão toldada pela miopia jornalística, estão completamente alheios à realidade em Israel. Em Lisboa ou Bruxelas não se escutam as ameaças diárias do Hamas, do Hezbollah ou do Irão.

Israel é o culpado, o cruel, o matador de crianças, o tanque imponente contra a pedra na mão de um menino. Slogans gastos pelo uso, mas que continuam a servir. A ser servidos às massas. A Europa, na sua bendita serenidade, e a caduca ONU, seguem implorando "piedade!" em direcção a Israel. De longe.

publicado por Boaz às 21:55
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Domingo, 8 de Julho de 2007

Ousar a Utopia

Numa pesquisa recente na Internet encontrei no sítio da revista Foreign Policy uma série de textos de activistas e pensadores sobre a situação actual do nosso Mundo. O mote apresentado a esses pensadores, publicado na edição de Maio/Junho de 2007 foi apresentado como "21 soluções para salvar o Mundo". Implementação da democracia, respeito pelos direitos humanos, leis de mercado tendencialmente justas, alternativas energéticas, mudança de políticas ambientais para travar/reverter o aquecimento global, luta contra a pobreza ou acesso à educação, eram alguns dos gigantescos desafios para os quais apresentaram ideias.

Por exemplo, o ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, hoje convertido em activista político (e grande opositor de Vladimir Putin) propôs a assinatura de uma Magna Carta global que substituísse a caduca Organização das Nações Unidas. Afinal, como observa Kasparov, "terroristas e ditadores são recebidos com cortesia na arena da diplomacia, apesar do seu total desprezo, e até ódio pelo que representa a civilização ocidental."

Sendo a ONU uma organização onde democratas e tiranos são colocados no mesmo nível do palanque, e onde, para vergonha universal, os primeiros se deixam – em grande parte por via dos seus interesses em matérias-primas – manipular pelos segundos e fecham os olhos a gritantes atrocidades, a Magna Carta de Kasparov teria como valor absoluto a vida humana, em vez do território, a ideologia ou o comércio.

O escandaloso fosso entre os ricos e os pobres (só para que conste, Portugal é o segundo, entre os países desenvolvidos onde esse fosso é maior, logo atrás dos EUA) poderia ser atenuado por uma lei que tornaria realidade a máxima de Robin dos Bosques. Não sob a forma de assaltos as carteiras mais recheadas, mas leis que, de princípio limitariam a acumulação de riqueza. Actualmente, a absoluta e aparentemente intocável liberdade de mercado permite por um lado uma acumulação de riquezas sem limites, por outro, uma implacável submissão à lei do mais forte.

Assim, naquilo a que chamou "o embaraço da riqueza", o professor Howard Gardner, de Harvard, propõe um limite ao enriquecimento individual. Afinal, para que faz uma pessoa com os seus lucros anuais de 200 milhões de dólares? Como pode o Mundo ser justo quando há empresários que ganham no final do ano, o equivalente ao Produto Nacional Bruto de alguns pequenos países? (Ou, por exemplo, o orçamento de um clube de futebol como o Manchester United ser equivalente ao valor das exportações do Burundi?).

Gardner propõe como salário anual máximo o equivalente a 100 vezes o salário médio de um trabalhador desse país. Por exemplo, se o trabalhador médio aufere 40,000 dólares, o mais bem pago do país receberia um máximo de 4 milhões. Ainda, cada indivíduo não poderia acumular como fortuna pessoal mais do que 50 vezes o rendimento máximo permitido anualmente. Duzentos milhões de dólares constituiriam então o limite máximo de riqueza. Ainda assim generoso, não?

Qualquer rendimento adicional teria de reverter para caridade ou para o governo sob a forma de doação geral, ou dirigido a um qualquer fim específico, como a assistência aos veteranos de guerra ou um fundo de apoio às artes. Com os biliões acumulados mundialmente, haveria finalmente dinheiro para implantar os projectos urgentes para resolver os grandes e, aparentemente insolúveis, problemas da Humanidade.

Pode parecer utópico um plano deste género, mas vejamos que, ao longo dos séculos ideias tidas como revolucionárias, apesar de enormes objecções, conseguiram abolir instituições tão enraizadas na sociedade como a escravatura, ou a implantação do direito de voto universal.

As soluções não foram apresentadas como mágicas, nem com a facilidade que se associa mais aos super-heróis do que aos simples mortais que somos. Baseiam-se na urgência de soluções corajosas e radicais para resolver os desafios do Mundo actual. Um Mundo que não pode esperar nem pela lentidão da evolução política e muito menos pelo contínuo cinismo dos governantes.

Nestes, como noutros casos no passado, serão os visionários que alguns chamarão de loucos e sonhadores a encontrar resoluções onde outros apenas viam castelos nas nuvens.

publicado por Boaz às 21:31
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Sexta-feira, 22 de Junho de 2007

Rádio-grafia

Na última quarta-feira, teve lugar na Sociedade Portuguesa de Autores um seminário onde se discutiu a sobrevivência da rádio. Num grupo de gente ilustre da rádio portuguesa, entre os quais Luís Montez, Luís Osório e António Sala, várias vozes vaticinaram o fim da rádio.

O jornalista Luís Filipe Costa disse mesmo que "a rádio vai morrer muito em breve e só a publicidade é que decidirá por quanto tempo é que ela se mantém".

O peso da televisão (em especial pela fatia da publicidade que ela abocanha em detrimento da rádio), a Internet e outras novas tecnologias precipitam o fim da rádio segundo alguns.

Já assistimos há décadas a essa previsão da desgraça da rádio. Quando surgiu a TV na década de 1930 a rádio foi enterrada. Hoje, vemos que há mais rádios do que em qualquer outra era no passado. Nem todas bem de saúde, mas subsistem.

A Internet vai matar a rádio? Não creio. Acho mesmo que a Internet vai ser a definitiva alavanca para o futuro risonho da rádio. Afinal, hoje através da Internet, podemos ouvir uma rádio bem para lá dos confins das ondas hertzianas. Até as rádios locais, estando disponíveis on-line, tornaram-se media de alcance planetário.

Parece que, como disseram, que o futuro da rádio depende apenas da vontade da publicidade em manter este suporte – aliás, vejamos as coisas com clareza, isso é o que já acontece há muito tempo, na esmagadora maioria das rádios privadas.

Creio é que publicidade terá de descobrir as novas oportunidades surgidas com a rádio on-line.

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Quarta-feira, 26 de Janeiro de 2005

Bye bye Mr. ayatollah

Michael Powell, presidente da FCC (Comissão Federal das Comunicações americana) anunciou há poucos dias a sua resignação. Apontado em 1997 pelo antigo presidente Bill Clinton, Michael Powell - que é filho de Colin Powell, até há pouco Secretário de Estado americano - deixou como principal legado a auto-censura na forma de fazer televisão nos EUA.

Foi especialmente notado o caso da polémica em torno do «acidente» do seio descoberto de Janet Jackson no final do Super Bowl do ano passado. Por causa do escândalo levantado por tantos telespectadores americanos ofendidos, a televisão que transmitia o programa teve de pagar uma multa choruda.

A consequência mais imediata foi a transmissão, poucos dias depois da cerimónia dos Óscares com alguns minutos de atraso... não fosse um seio mais atrevido saltar para a frente das câmaras.

As multas para a «programação indecente» excederam os 7,7 milhões de dólares só em 2004 (no ano anterior à chegada de Powell à FCC as multas atingiram apenas 48 mil dólares.

Desde então a situação de auto-censura chegou ao absurdo de televisões recusarem transmitir o filme "O resgate do soldado Ryan" por ter «linguagem grosseira». Recentemente, um episódio da série "Serviço de Urgência" foi cancelado porque mostrava, por breves instantes, os seios de uma senhora idosa.

É (também) assim que vai a auto-intitulada "land of the free".

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Quarta-feira, 12 de Janeiro de 2005

Até à náusea

No Domingo passado, entre os convidados do Herman SIC esteve um casal de portugueses que sobreviveram ao tsunami na Tailândia. Durante os últimos dias, o "spot" de promoção do programa apresentava-os como atracções, entre cantores, travestis e imagens das rábulas do Quintal dos Ranhosos.

É certo que o programa só os teve lá porque eles aceitaram ir - obviamente a convite da produção. Mas dá nojo este aproveitamento da tragédia para ganhar audiência, esta busca da lágrima fácil, para lá da cobertura noticiosa já de si questionável.

E pior, transformar as cicatrizes e os pesadelos em entretenimento.

publicado por Boaz às 17:05
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Mais do que semântica (II)

Depois do "Mais do que semântica (I)" era apenas uma questão de tempo até surgir a segunda parte. Porque a saga continua. Ora vejam. É vulgar nos nossos Média, em especial na televisão, com a RTP à cabeça, chamar "exército judaico" ao exército de Israel.

Exército israelita ou exército judaico?É óbvio que a maioria dos soldados israelitas são judeus, já que a maioria da população de Israel é de religião judaica. No entanto, quando um jornalista usa a expressão "exército judaico" demonstra que sabe pouco daquilo que fala, pois no exército de Israel há também elementos drusos e beduínos. Denota também uma confusão entre nacionalidade e religião.

O último caso deste tipo ocorreu no último fim-de-semana quando a RTP enviou o jornalista Paulo Dentinho ao Médio Oriente à região para fazer a cobertura das eleições palestinianas. Na única peça que vi dele, além da já habitual presença da expressão "exército judaico", apareceu também "prisões judaicas" (!). O jornalista falou com um palestiniano que no dia das eleições foi libertado de uma prisão em Israel, mas referiu-se-lhe como "prisão judaica".

Jamais ouvi chamar "exército católico" ao exército português, espanhol ou brasileiro, apesar de a maioria dos seus efectivos serem católicos (até há um bispo para as Forças Armadas!). Nem mesmo à Guarda Suíça do Vaticano. O termo "prisão católica" nem sequer se usa quando se fala das prisões da Santa Inquisição. E as prisões da Arábia Saudita ou do Irão (onde a justiça que se aplica segue a Sharia, lei islâmica) são somente prisões sauditas ou iranianas. Não "prisões islâmicas".

Num contexto religioso, é legítimo falar em israelita como judeu, judaico ou hebreu (ex. comunidade israelita = comunidade judaica). Mas tratando-se de nacionalidade, não são sinónimos.

É provável que não exista má-fé no uso destas expressões. No mínimo há falta de rigor ou mesmo ignorância. Porém, tratando-se de jornalismo não é de todo uma ignorância inocente.

publicado por Boaz às 16:56
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Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2005

Para lá do maniqueísmo e do politicamente correcto

Na última sexta-feira vi na 2: o programa "Causas Comuns". Normalmente é uma verdadeira seca, quer pelos temas que costuma apresentar, quer pelo tom sonolento dos convidados e ainda mais do apresentador. Desta vez surpreendeu-me pela positiva. O tema: o Médio Oriente. Os convidados eram a diplomata e investigadora Manuela Franco e Vasco Rato, do Instituto de Defesa Nacional.

Foi uma raríssima, se não mesmo única vez em que na RTP foi abertamente exposta uma explicação sobre o conflito entre Israel e os Palestinianos sem a usual tendência para o politicamente correcto e o maniqueísmo que reduz o assunto a um confronto entre o Bem e o Mal, as vítimas e os carrascos, os inocentes e os culpados, em que os primeiros são sempre os palestinianos e os segundos são sempre os israelitas.

E a prova bem eloquente desse simplismo que impera na análise do conflito israelo-árabe surgiu quando se mostraram várias opiniões de populares apanhados na rua. O vox populi não era mais que uma sucessão de lugares comuns e interpretações básicas, ingénuas mesmo.

Só é pena que o programa tenha sido na 2: e ao final da tarde, uma hora de tão pobres audiências. Noutro canal e noutro horário iria contribuir para informar os telespectadores que no caso do Médio Oriente, as coisas são mais complicadas do que aquilo que muitas vezes se apresenta.

publicado por Boaz às 16:56
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Segunda-feira, 3 de Janeiro de 2005

O culto do medo

Parece que esta manhã houve um pequeno sismo no Algarve. Teve uma intensidade de cerca de 4 graus na escala de Richter. Tão fraco como o abalo provocado por um camião a passar na rua. Não mais do que isso. Anda-se numa psicose sísmica tal que as nossas televisões abriram os noticiários da tarde com esta grande notícia. Há falta de melhor, foi o que se arranjou...

Seguindo a mesma onda (palavra sem segundo sentido, não vá alguém pensar que é piada. É que não devem tardar as piadinhas de mau gosto com ondas...) a SIC, durante o Jornal de Sábado da SIC fartou-se de publicitar uma notícia sobre o alegado risco de Portugal ser afectado por um tsunami com dezenas de metros de altura.

A notícia acabou por ser uma coisita de minuto e meio sobre as suposições de cientistas que têm estudado o vulcão Cumbre Vieja na ilha de La Palma (e não Las Palmas, como foi referido na notícia!) nas Canárias. É que se o vulcão entrar em erupção, uma boa parte da ilha pode desabar para o mar e causar ondas enormes em direcção à América e Europa.

A verdade é que este assunto já anda a badalar na televisão há vários anos. Um dos canais de documentários por cabo (não sei se o Discovery Channel, o Odisseia ou o National Geographic) transmitia um programa sobre o Cumbre Vieja de 15 em 15 dias. Ora, a SIC é uma televisão que tem um canal de notícias 24 horas por dia. Com tanta falta de assunto na SIC notícias (repetem a mesma coisa vezes sem conta ao longo do dia, nem a introdução do apresentador muda), será que ninguém ainda tinha arranjado um tempinho para mudar de canal e tomar umas notas ao que passa no canal ao lado?

Com tanto "alerta", era bom que se lembrassem antes de formar a opinião pública para se exigir nas escolas e empresas a realização frequente de simulacros em caso de sismo ou incêndio.

publicado por Boaz às 17:57
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Quarta-feira, 22 de Dezembro de 2004

Mais do que semântica (I)

Terrorismo? Resistência.Terrorismo? Militância.

É costume ver tratados nas notícias factos cujas denominações são, muitas vezes, aligeiradas. Noutros casos, dá-se-lhes um nome bem distinto do que são na realidade.

Veja-se o caso do Iraque. Todos os dias há ataques à bomba. A maioria contra civis, como foi o caso de dois dos últimos atentados, cujos alvos foram pessoas perto de duas mesquitas, em Kerbala e Najaf. A isto se chama "acções da resistência". Há poucos dias, na BBC World verifiquei que aos autores destas acções se chama insurgents. Insurgent (insurgente, em português) quer dizer insubmisso, que se subleva.

As nossas televisões, em especial a RTP e a TVI, chamam-lhes tão simplesmente "rebeldes". Ora, rebelde e insubmisso é o que os pais normalmente chamam aos filhos que "saem da linha". Não creio que teimosia juvenil e ataques à bomba possam ser chamados da mesma maneira. Esses ataques são TERRORISMO. Puro e simples.

Mesmo o ataque há dois dias contra uma base americana em Mossul é terrorismo. Por muito que se possa discordar da invasão e da ocupação americana no Iraque, nem tudo é válido para lhe pôr fim. Os fins não justificam todos os meios. E é preciso não esquecer que os fins de Zarqawi, o "rebelde" jordano da al-Qaeda que lidera a "resistência" no Iraque, não são a paz, a democracia e a estabilidade. Não estamos a falar de imitadores dos franceses ou dos gregos que atacavam os nazis na II Guerra Mundial. Estamos perante criminosos que apenas procuram espalhar o terror e o caos.

O mesmo em relação ao Médio Oriente. Aos ataques de bombistas suicidas palestinianos contra autocarros, discotecas, mercados, restaurantes ou pessoas à saída de sinagogas chama-se "resistência". Os bombistas são "activistas" ou "militantes". No extremo, "radicais".

Não aceito este aligeirar das coisas. Em assuntos e factos bem menos sérios empregam-se os nomes mais graves. Aqui parece preferir-se um pretenso politicamente correcto ou um suposto distanciamento em relação às partes. Ou então é uma atitude de compreensão ou mesmo simpatia para com algo que eu não sou compreensivo. E muito menos simpático.

publicado por Boaz às 17:57
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Quinta-feira, 21 de Outubro de 2004

Um Michael Moore em versão gordurosa

supersizeme_finalposter.jpg

Um mês a enfardar (sim, não é simplesmente comer) fast-food no que é que dá? É esta a experiência relatada num novo filme-documentário que estreia esta quinta-feira em Portugal. Chama-se "Super Size Me - 30 dias de fast-food" e é da autoria de um tal Morgan Spurlock.

O filme conta-se em poucas palavras. O realizador resolveu passar um mês a comer apenas no McDonald's, desde os seus hamburgueres de toda a espécie, batatas fritas e sumos, até aos brownies, gelados e sundaes... O resultado foi o aumento de 11 quilos e graves problemas de fígado e tensão arterial.

A moda do filme-panfleto pegou e depois dos ataques do rei do género, Michael Moore, à gigante General Motors, aos fabricantes de armas e seus lobbies e a George W. Bush; o mau da fita é agora a McDonald's e a sua ementa. O filme, como as outras obras do género, pretende mostrar o lado perverso das multinacionais e neste caso, culpabiliza a McDonald’s pelo aumento de peso dos americanos.

É obvio que não me vou por do lado da McDonald's - eu nem sequer como carne e mesmo nos meus tempos de carnívoro raramente fui cliente da marca, simplesmente porque não quis - e não nego que o problema da obesidade é uma realidade gravíssima, mas na sua intenção de denúncia-choque, falta no filme um elemento essencial: a responsabilidade das pessoas nos seus actos.

Os seres humanos - na pessoa única do Sr. Spurlock - são tratados como pobres almas indefesas ao poder da McDonald's, como se não tivessem alternativa alimentar sem ser o fast-food e como se a decisão de não fazerem qualquer exercício físico, não fosse apenas sua. E quando se vê que a maioria dos clientes desse tipo de comida são crianças e jovens, onde está a responsabilidade dos pais na educação dos filhos, já para não falar no papel da escola na formação de bons hábitos?

Seremos todos tábuas rasas à espera de sermos talhados pelos grandes poderes, sem fuga possível? E estamos nós condenados a gramar com esta onda de pasquins maniqueítas em formato cinema que mostram o mundo como se fosse tão simples como o bem contra o mal?

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publicado por Boaz às 09:08
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Sexta-feira, 8 de Outubro de 2004

Israel, o bicho-papão dos Árabes

Há uns dias, nas minhas pesquisas de notícias sobre o Médio Oriente na Internet, deparei-me com um artigo de opinião no diário saudita em língua inglesa Arab News. É verdade que, sendo um jornal saudita, não se pode esperar grande coisa, jornalisticamente falando, mas na verdade já lá tenho lido algumas notícias num tom que deixa o "liberalismo" da Al-Jazeera a milhas.

Da autoria de Hassan Tahsin e intitulado «Perigo da presença israelita no Iraque», o artigo espelha bem a ideia da "conspiração sionista" que anda por aí a fazer tremer o Mundo e que, para a generalidade dos Árabes - sem excepção das suas elites letradas, antes pelo contrário - é a base de todo o mal que acontece naquelas bandas. Aliás, tal ideia nem é de admirar, com a quantidade de exemplares dos «Protocolos dos Sábios de Sião» que por lá se vendem e com os currículos das escolas...

Segue-se a tradução do dito artigo, publicado em 6 de Setembro.

«Na década de 1940, as forças britânicas na Palestina permitiram aos gangues sionistas ocupar a Palestina. Isto resultou no estabelecimento do estado racista israelita que expulsou milhares de Palestinianos da sua terra e os transformou em refugiados.

A História, devemos temer, está a repetir-se. O Iraque está em perigo de lhe acontecer o mesmo.

Perguntamo-nos se as forças da coligação que invadiram o Iraque sem razão abriram a porta à imigração judaica no Iraque. Estarão eles a tentar criar um Estado judeu no norte do Iraque que é uma área rica em recursos naturais? Será esta a realização do sonho sionista de criar um Estado judaico do Nilo ao Eufrates? Tudo isto surge nos calcanhares da decisão israelita de forçar os Palestinianos que ainda restam para fora da sua terra, para nunca se estabelecer um Estado palestiniano e desafiar todas as iniciativas de paz.

Aqueles que seguem o que acontece no Iraque verão que Israel tem uma mão no país. A Mossad, os seus serviços secretos, tem muitos centros de operações em Bagdade e nas maiores cidades do Iraque; o seu trabalho é organizar actividades terroristas para garantir que o Iraque permaneça instável. Oficiais da Mossad também supervisionaram a tortura de prisioneiros iraquianos, uma vez que têm ganho tanta experiência na tortura dos seus prisioneiros palestinianos.

Esta informação deriva não de fontes árabes, mas americanas apoiadas em documentos. Uma presença israelita no Iraque é injustificada. Israel tem trabalhado a fundo para escalar os problemas entre o Iraque e a América. O alvo principal não é livrar-se de Saddam. As forças da coligação poderiam ter acabado com Saddam se assim o quisessem, após a guerra para libertar o Kuwait. Contudo, não o fizeram, escolhendo manter Saddam no poder e usá-lo como desculpa para permanecer na região. A principal razão para a recente invasão do Iraque foi destruir o exército e dividir o país em vários pequenos estados. Esta situação trágica é um verdadeiro convite para Israel entrar e usá-lo para alcançar os seus sonhos.

Porque invadindo o Iraque era primeiro que tudo benéfico para Israel, o Estado judaico jogou um importante papel mantendo a presença nas instituições decisórias do Ocidente, particularmente nos Estados Unidos, até à invasão. Seymour Hersh num artigo no The New York Times em 21 Junho escreveu: Existe uma forte presença israelita no Curdistão que pretende construir um forte exército regional curdo, capaz de equilibrar a crescente influência iraniana no Iraque e também equilibrar a milícia sunita do Baath no país. Os Curdos também serão usados para realizar operações na Síria e no Irão, de forma a destabilizar ainda mais a situação. Isto faz parte da preparação do estabelecimento de um Estado curdo independente que inclua todos os Curdos do Iraque, Irão, Síria e Turquia.

Uma vez sucedido, o caminho para o controle israelita do Iraque estará aberto; os Israelitas estarão prontos para fazer a guerra e chamar-lhe a "Segunda Guerra de Libertação" - com a primeira a ter sido a guerra que eles travaram para tomar a terra palestiniana. A penetração israelita no Iraque devia levantar o aviso de que a tragédia da Palestina se repita; isto seria inaceitável para todos. É uma ameaça à paz internacional e eleva o nível de perigo consideravelmente. O próprio Israel é a ameaça real à paz internacional.»

Só para acabar: desconfio que este tal de Hassan Tahsin também é daqueles que acredita que os Judeus foram avisados dos ataques de 11 de Setembro e que, por isso, ficaram em casa nesse dia... Ah, e que tudo aquilo foi obra da Mossad.

publicado por Boaz às 16:05
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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