Quinta-feira, 13 de Maio de 2010

Como contar um segredo

Era final de Fevereiro de 1998. Tinha começado a faculdade em Lisboa há poucos meses. Naquela tarde, depois de semanas de tentativas, conseguira finalmente falar com a pessoa da comunidade judaica encarregada da educação religiosa. Já tinha falado com ele dois meses antes. Assim que me mudei para Lisboa, telefonei para a comunidade para tratar do meu interesse na conversão ao Judaísmo.

Na falta de rabino indicaram-me o responsável pelos assuntos de educação da comunidade. Na primeira conversa telefónica, em Novembro, disse-me: “Agora não há conversões. Ligue-me em dois meses”. Apesar da espera, dois meses não fariam grande diferença. Afinal, eu já andava a ruminar a ideia da conversão há uns dois anos. Portanto, o que custariam mais dois meses de espera?

Nem sequer fazia muito tempo que eu descobrira que a conversão era algo possível. De início, pensava mesmo que era algo irrealizável. Cheguei a imaginar que eu era a única pessoa no mundo com aquele tipo de ideias. E nunca tinha falado sobre o assunto com ninguém. Nem amigos nem família. Nos meses anteriores à entrada na faculdade, trabalhara num escritório que tinha Internet e foi pela porta virtual que descobri que a quimera era possível. Um alívio!

Cartas de revelação

Naquela quarta-feira de finais de Fevereiro ouvi do outro lado da linha: “Encontramo-nos no próximo Sábado, ao meio-dia, na sinagoga, para falar do seu assunto”. Foi um dos momentos mais eufóricos de que me lembro. Antevia o encontro na sinagoga daí a dois dias como o ansiado começo da minha caminhada em direcção ao Judaísmo. Finalmente, a aspiração iria começar a tomar forma. A luz ao fundo do túnel! Assim que desliguei o telefone escrevi – uma a seguir à outra – cinco cartas. As minhas “cartas de revelação”. A minha mãe, Pedro e Lucas, os meus dois melhores amigos do Grupo de Jovens, uma prima especialmente próxima e todo o Grupo, seriam os destinatários. Chegara a hora de contar o segredo.

A manhã de Sábado chegou. Apesar das enormes espetativas, o encontro na sinagoga foi uma desilusão. Não houve nenhum início de processo de conversão. Parece que a luz ao fundo do túnel afinal era o comboio que vinha na minha direcção… Nessa tarde de Sábado, na reunião do Grupo de Jovens da Batalha, alguém reparou que eu parecia triste. Desapontado, arrumei as cartas no fundo da gaveta. Não havia nada para revelar. Revelar para quê, se nada mudara?

Porém, tornou-se cada vez mais difícil continuar com esse assunto apenas guardado para mim mesmo. Era especialmente complicado ir todas as semanas ao Grupo de Jovens católico, como se fosse tudo normal. Inclusive, continuei a cantar na missa uma vez por mês, com o resto do Grupo. Como iria explicar a recusa em ir? Havia um sentimento de traição, pela falta de honestidade em relação aos meus companheiros de grupo.

O primeiro a saber sobre "aquilo"

A certa altura, semana após semana, até levava comigo as ditas cartas para os encontros do Grupo de Jovens, para as entregar aos dois amigos. E nunca arranjava coragem para as entregar. Até que, um dia prometi a mim mesmo “desta semana não passa”. Naquele Sábado não houve encontro. Um concerto das festas da vila, na praça mesmo em frente à nossa sala de reuniões perturbava o ambiente. Decidimos ir a Leiria. Uma banda da cidade, Silence 4, começava a fazer furor e iriam dar o seu primeiro concerto, numa praça da cidade. No final da noite, antes de voltar para casa, só consegui encontrar um dos dois amigos, Pedro. Entreguei-lhe a carta. “Lê só quando chegares a casa”, pedi-lhe. “É algo mau?”, perguntou-me. “Não. Talvez algumas pessoas achem que é mau, mas não creio que seja”. “Amanhã passo por tua casa para falarmos”, prometeu-me.


O Grupo (incompleto), num dos nossos muitos passeios.

Aos Domingos, era costume de família ir passear pelas redondezas e almoçar fora. Decidi ficar em casa ansioso pela visita do meu amigo. Chegou a hora de almoço, passou a uma da tarde, as duas… E ele não vinha. Pensei que o pior acontecera, “Não aceitou”. Passados alguns minutos bateu à porta. Talvez por algum dom profético, Pedro trazia com ele Lucas, o amigo que tinha desaparecido durante o concerto da noite anterior. Fui ao meu quarto buscar a segunda carta. Pedro seguiu-me. Sentou-se na minha cama e disse simplesmente: “Sobre ‘aquilo’, não tem problema”.

No Sábado seguinte, ao chegar à reunião do Grupo, fui recebido por Lucas com um sorriso enorme. Perguntou-me: “Também vais usar aqueles barretinhos que os judeus usam?” Só pude sorrir de volta. Estava tudo bem. Durante as semanas seguintes encontrei-me com Pedro algumas vezes para falarmos sobre o meu caso. “Tens de contar ao resto do Grupo”, avisou-me. “Tenho uma ideia: escreves uma carta como a que escreveste para mim e eu leio-a para o Grupo.”

Realmente acredito que ele tenha dom de profecia. Ou talvez ele só me conheça verdadeiramente bem, como acontece com os melhores amigos. Era exatamente aquilo que eu lhe queria pedir! Não precisei. Ele ofereceu-se com toda a generosidade. Decidimos a quem iríamos revelar o assunto. Concordámos que nem todos estariam preparados para saber. Alguns membros estavam há pouco no Grupo. E eu não queria baralhar as ideias de ninguém. Reformulei a carta destinada ao Grupo que eu já escrevera há uns meses.

Pedro marcou o encontro e leu a carta para todos. Eu só desejava ter sido uma mosquinha para ter estado presente. No dia seguinte, fui a casa dele saber das reações. “Todos aceitaram muito bem”. Na carta, pedira para discutirem se eu deveria continuar a pertencer ao Grupo, sabendo que havia coisas que eu já não poderia fazer, em especial cantar na igreja. “E querem que continues. Seria uma grande perda se tu saísses”.

Agora todos sabem

As reuniões continuaram tranquilas. O assunto da minha vontade de conversão ao Judaísmo não foi mencionado entre nós. Só com uma ou outra pessoa eu falei do assunto, discretamente. No Verão, talvez em Julho, fomos passar umas férias numa casa de campo numa praia do Alentejo, no Sul de Portugal. Aproveitei para deixar a carta da minha mãe na caixa do correio, quando saí de casa para a viagem. Tirando uma menina, há pouco tempo entrada no Grupo, todos os amigos sabiam.

Ao final da primeira tarde na praia, no Sábado, decidiam se e onde iriam à missa dominical. Estávamos todos deitados nas toalhas, num grande círculo. “Algum dia, o Gabriel tem de nos levar a uma 'missa judaica'”, alguém propôs. Fiquei mudo. “Eu fico à espera do casamento dele!”, outro atirou. Tive a impressão de todos terem pensado: “há uma pessoa que não sabe!!”. A tal menina nem deve ter entendido, nem fez qualquer pergunta.

No regresso a casa, falei com uma pessoa do grupo para que averiguasse se a tal menina já sabia. E se não soubesse, que lhe dissesse. Passados alguns minutos da nossa chegada a casa, fui avisado que já fora informada. “Agora todos sabem. Já podemos falar do assunto”, pensei. Sem sussurros e indiretas. Todavia, ninguém falou. E eu também não queria puxar o assunto. Só no final do dia seguinte, quando estava a ler um livro no meu quarto da casa de férias, ouvi alguém chamar-me do outro lado da casa: “Gabriel, vem à sala, há uma coisa que nós precisamos falar”. Falámos. Fizeram perguntas. Respondi. Naquela noite senti plenamente o que significa a amizade incondicional.

Telefonei à minha mãe para falar como estava a passar as férias. Não toquei no assunto. Nem ela. Alguns dias depois regressámos para a Batalha. Nesta altura, a minha irmã, independente, já tinha saído de casa. Estávamos só os dois em casa ao jantar. Durante a refeição, a minha mãe não se conteve: “Porque é que puseste uma carta na caixa do correio? Não podias ter falado comigo diretamente?”. “Achei que era mais fácil assim”, expliquei. “Se tu te quisesses converter à Igreja Universal do Reino de Deus, ou às Testemunhas de Jeová, eu ficava preocupada, mas ao Judaísmo não. Os Judeus são bons”.

E assim, sobre a questão da minha vontade de conversão esta foi a única conversa familiar durante anos, enquanto o processo não se desenvolveu. Com as dificuldades de acesso à sinagoga de Lisboa, nada tinha mudado. Só eu ia estudando por mim mesmo, quando o resto da vida seguia normal. Uma vez ou outra, a minha mãe lá largava uma ou outra frase sobre o tema. Como quando via algo sobre Israel na televisão. Ou quando, depois de comer a metade de uma meloa, e restando apenas a casca gracejou: “Vês, podias usar isto como um daqueles chapéuzinhos dos judeus”, referindo-se à kippá.

Com a minha irmã, a revelação veio mais tarde. A nossa relação não era assim tão próxima. Soube quando eu já entrara nas aulas de conversão na sinagoga. A ela, contara-lhe que estava a aprender hebraico. Eu já havia estado dois meses em Israel como voluntário num kibbutz, daí que ela entendia que eu tinha algum interesse nessa área. Com a época da Páscoa a aproximar-se, a minha mãe convidou-a a ir almoçar lá em casa na Domingo de Páscoa. Acabaram a falar algo de mim. “Esta não é a Páscoa do Gabriel”, disse a minha mãe. A minha irmã foi rapidíssima a juntar as peças do puzzle. “Não é a Páscoa dele? Mas agora ele é judeu, é?”.

Posso dizer que fui um privilegiado com os meus amigos e família, em relação ao assunto da conversão. Nunca recebi hostilidade da parte deles. E, apesar de ir definindo as nossas diferenças, procurei também nunca hostilizar ninguém. Para os amigos católicos, ainda que a conversão significasse uma negação daquele que tomam como Deus, a nossa amizade foi mais importante. (Aliás, foi a razão principal que me fez continuar no Grupo, depois da "revelação"). Na família, afastada há anos do Catolicismo praticante, o "ser uma boa pessoa" foi mais importante do que qualquer diferença de crenças. Que todos os candidatos à conversão recebessem tanta compreensão dos seus como eu recebi.

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Segunda-feira, 12 de Abril de 2010

E se estivéssemos lá

Foi numa aula de História do 9º ano da escola. Creio que estávamos já no terceiro período lectivo, ou no final do segundo. O final do ano não estava longe. Desde o início do ano que a professora – ainda lembro o nome dela, Fernanda Ruivo –, não se limitava a ensinar, a despejar matéria como tantos professores fazem.

Ela era muito mais emotiva que a maioria dos professores. Na primeira aula do ano, durante a apresentação, quando soube que me chamava Gabriel fez a seguinte observação: "Gabriel é o nome do meu maior inimigo". Engoli em seco. Na altura achei que tinha ficado marcado, mas aquele ano de aulas de História foi um dos meus melhores de sempre.

Depois de passarmos a Revolução Francesa, a colonização de África, a I Guerra Mundial (fiz um monumental trabalho de grupo sobre o assunto), chegou a vez da II Guerra. E o Holocausto. É um assunto pesadíssimo, mas no nosso livro de História não ocupava mais do que uma página. Para ensiná-lo a adolescentes, portugueses, em geral sem qualquer relação com o tema, ou se transmite de uma maneira seca, ou marcante. A professora escolheu a segunda opção.


Jovens sobreviventes de Auschwitz, no dia da libertação, 27 de Janeiro de 1945.

Primeiro, a professora explicou a sociedade alemã antes da guerra e as Leis de Nuremberga, base da política de descriminação racial do regime nazi. Depois falou sobre os campos, as deportações, os guetos. Com 16 anos, eu já tinha visto alguns filmes, séries e documentários sobre a Shoá, mas naquela manhã o tema foi apresentado de uma forma mais especial. A professora adoptou uma estratégia de choque: “Imaginem que vocês viviam na Europa ocupada pelos nazis”. E com esta ideia em mente – na dela e na nossa –, prosseguiu. “Se vocês vivessem naqueles tempos, de todos aqueles que se encontram nesta sala, provavelmente apenas dois sobreviveriam. Apenas a Susana e o Gabriel [eu] têm um aspecto ariano.”

Nunca, nem antes nem depois, presenciei uma aula como aquela. Impressionou-me tanto a exposição do tema pela professora, como o pesado silêncio respeitador dos alunos. Uma turma de jovens de 15 anos, em silêncio absoluto, atentos a ouvir uma professora falar. Alguns minutos depois, a campainha da escola tocou. O toque de saída. Ao contrário de todas as outras aulas a que alguma vez assisti, não houve alvoroço na saída. As cadeiras quase não se arrastaram. Todos arrumaram as suas pastas e mesas em silêncio e saíram calados.

Nos meses e anos seguintes li alguns livros sobre o Holocausto. A pequena biblioteca municipal da Batalha foi a minha fonte de informação. O primeiro e um dos mais marcantes: “Os feiticeiros do Céu”, do jornalista francês Christian Bernadac. Sobre as experiências de alguns padres e freiras católicos e pastores protestantes deportados pelos nazis. Encontrei-o por acaso, na estante de História da biblioteca, por causa de uma estranha e macabra foto na lombada do livro. Hoje em dia, infelizmente, a sua vasta obra sobre vários capítulos menos conhecidos do Holocausto, é difícil de encontrar até em alfarrabistas.

Aos 16 ou 17 anos, as histórias macabras que li fizeram-me questionar muita coisa. A culpa, a inocência, a fé, a salvação. Alarguei o rol de leituras a outros assuntos relacionados. A história judaica mais vasta, Israel... Daí ao interesse crescente pela espiritualidade judaica foi um salto de alguns meses e muitas, muitas perguntas. Pode ter sido aquela aula marcante o início da minha caminhada em direção ao Judaísmo. Não sei. É tão-somente o facto mais remoto que consigo recordar em relação a este assunto.

A cada ano que passa, é mais difícil contar a história do Holocausto. Os sobreviventes são cada vez menos e mais envelhecidos. A velhice fez muitos perder a memória daquilo por que passaram. Muitos, por causa da enormidade do trauma, nunca sequer falaram do assunto, nem com os familiares. As memórias morrerão com eles sem nunca terem sido passadas às gerações mais novas.

No calendário judaico, hoje é o Yom Ha'Shoá, o Dia da Memória do Holocausto. Daqui a alguns anos, não haverá mais pessoas para contar na primeira pessoa o terror da perseguição nazi. E são poucos os professores que, tal como a minha professora do 9º ano, contam a história com a intensidade necessárias para inspirar os seus alunos.

publicado por Boaz às 20:05
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Domingo, 22 de Novembro de 2009

Memória dos avós

Recentemente lembrei-me dos meus avós maternos. Por acaso – se realmente existir algo na vida como "um acaso". (Os tempos de viagem de casa para a yeshiva são férteis em pensamentos. Entre alguma atenção às 400 músicas que guardo no leitor de mp3 e umas olhadelas à paisagem tantas vezes passada e repassada, cogitações várias passam pela minha cabeça.)

Alguns anos após a morte dos meus avós maternos – primeiro o avô e poucos meses depois a avó – recordo a sua vida simples e melancólica. Eram um oásis da vida "à moda antiga" numa sociedade moderna e em rápida mudança. Uma amostra de um Portugal desaparecido ou em vias de extinção. Era uma vida marcada pelas estações do ano, dominada pelo cuidado da pequena fazenda, tratada apenas à força de braços. O avô não tinha tractor.


Os avós de alguém.
Casal de judeus camponeses pobres, região de Dubromil, hoje Ucrânia.
Feita por um fotógrafo ambulante, anos 1920.

A vinha – que ocupava metade da fazenda – era o local de reunião das filhas e netos uma vez por ano. A época das vindimas era a altura mais animada na casa dos avós. De balde e tesoura da poda na mão, todos se debruçavam junto às cepas, procurando pelos belos cachos de uvas. Tudo era levado para a velha adega, ao lado da casa. O avô fazia o próprio vinho. A avó aproveitava alguns cachos que secava no sótão da cozinha, para fazer passas.

Nos cantos da vinha havia algumas árvores de fruto que produziam pouco: macieiras, pessegueiros, uma pereira, um pero-sousa. A ameixieira ao lado da coelheira era a única que se carregava de fruta. Na parte de baixo da fazenda, separada da casa e da vinha pela estrada alcatroada, ficava a horta, irrigada com a água do poço cavado pelo próprio avô ou tirada do pequeno ribeiro que limitava o fundo da fazenda e que por vezes secava no auge do Verão. Ao lado do poço, a gigante figueira era o tesouro de toda a herdade. Os deliciosos figos pingo-de-mel eram muito cobiçados. Sem uma escada para alcançar o topo da árvore, os pardais ficavam com a maior parte.

No quintal ao lado da cozinha viviam algumas galinhas. Em volta, as coelheiras, dois quintais dos porcos e o curral das cabras onde quase todos os anos nascia mais um ou dois cabritos. Uma pequena gaiola abrigava uma pacífica família de rolas – pelas quais dei a alcunha da avó: "a avó cu-cu-ru". Era com desenvoltura que a avó matava uma galinha de vez em quando. Alimentadas a milho e couves da horta, as galinhas da avó acabavam numa canja sem igual. Com os anos, a prática "degoladora" da avó foi-se perdendo. Um dos sinais da decadência foi um galo jazendo degolado na bacia que, ao levar com a água a ferver para ser depenado, despertou e correu pelo quintal até chocar com a parede mais próxima.

Os rituais da vida no campo repetiam-se ao sabor das estações. Durante alguns anos, todos os anos, realizava-se a matança do porco. Nunca assisti a esse espetáculo macabro, mas lembro-me de ver depois o animal já estripado, pendurado num gancho no tecto da adega. A carne era guardada numa arca cheia de sal, lembrança das eras anteriores à invenção do congelador. Com uma parte do sangue, alguma carne e gordura, arroz e algumas especiarias, a avó fazia um panelão de morcelas, que eram depois defumadas na larga chaminé da lareira da cozinha.

Uma vez por semana, nas tardes de Sábado, a avó ocupava-se do ritual de fazer o pão. Enchia o tradicional forno da cozinha com ramos da videira aproveitados depois da poda da vinha. Batia à mão vários quilos de farinha na velha e brilhante bacia de barro, a "amassadeira". Apesar do enorme esforço, a avó era desconfiada da batedeira elétrica. Tinha razão, o pão dela não era cheio de buracos como o pão industrial. Uma pequena porção de massa era guardada para a fornada da semana seguinte. Numa taça, coberto com azeite e sal, o "crescente" era o fermento natural que dava o sabor especial ao pão da avó.

Ao Domingo, a caminho da missa, a avó passava por nossa casa, situada ao lado da igreja para deixar um pão cozido na véspera. Transportado no grande cesto de pano azul, onde a avó levava as compras da mercearia e às vezes trazia surpresas para mostrar aos netos. Como o pequeno ouriço-cacheiro encontrado na horta e que, depois de mostrado, foi levado de volta para a sua toca.

Não havia televisão em casa dos avós. Excepto uma semana, quando a avó partiu uma perna e a minha mãe decidiu levar um pequeno televisor a preto-e-branco que tínhamos em casa para lhe animar os dias em que tinha de estar imóvel na cama. Durante aquela semana, a avó deliciou-se com as tramas e paixões das novelas brasileiras – era a época do Roque Santeiro –, até o avô reclamar pelo barulho constante em casa. O rádio era o único contacto com as comunicações. Durante a semana ao final da tarde, com uma fidelidade absoluta, a avó sentava-se a escutar a reza do terço. Enquanto descascava uma tigela cheia de ervilhas ou favas para o jantar, ou costurava as meias do avô. O avô era menos dado a rezas e sempre criticava o padre da aldeia e o seu carro novo.

As suas companhias eram os gatos, ariscos para os de fora e todos com nomes estranhos escolhidos pelo sentido de humor peculiar do avô: as gatas Espilrina e Lina e o gato Zé foram alguns dos últimos bichanos a partilhar o seu colo e a lareira. Era tal a dedicação aos animais, à casa e à fazenda, que os avós eram incapazes de abandonar por mais de um dia a vida no campo. O avô era ainda mais "agarrado" à rotina do quotidiano que a avó. Por isso, quando os dois filhos emigrados no Canadá lhes ofereceram uma viagem ao seu país adotivo para conhecerem os netos, o avô decidiu ficar a cuidar dos animais e da horta. Pelo contrário, sem problemas de consciência, a avó largou a casinha e a vidinha sossegada e aproveitou a viagem – a única vez que saiu de Portugal.

Quase não tenho fotos dos meus avós. Talvez por isso, a minha foto de infância favorita seja aquela em que estou, com menos de três anos, ao colo do avô, tirada numa tarde de Verão durante um piquenique que fizemos na Praia das Paredes, perto da Batalha. A preciosa foto era também uma das favoritas da minha mãe. Levava-a sempre na carteira. Até ao dia em que foi assaltada, à saída da missa, em Fátima. Passados alguns meses, os despojos da carteira foram encontrados na beira de uma auto-estrada, largados pelos ladrões. Porém, a ação dos elementos não poupou a foto. Até que, anos mais tarde, em conversa com uma tia sobre o piquenique em que fora tirada, há mais de 20 anos, lembrou-se que ela própria tinha uma cópia. Hoje tenho uma reprodução grande da foto ao colo do avô, que há meses ando a prometer a mim mesmo pendurar no quarto da minha filha, assim que lhe arranjar uma moldura decente.

Da última vez que estive em Portugal visitei o seu túmulo, no cemitério da aldeia onde viviam e onde a minha mãe ainda vive. Comovi-me ao olhar as fotos que quase já esquecera, anos depois do seu desaparecimento, na pequena laje da cabeceira da sepultura. O avô morreu há oito anos, nesta semana. Talvez seja este o "acaso" que me fez, subitamente, lembrar-me dele. Talvez este seja uma espécie de kaddish.*

É curioso que hoje, graças às inúmeras experiências na vida campestre que partilhei com eles, entendo tantas expressões agrícolas descritas pelo Talmude. Ao contrário dos meus colegas de yeshiva, meninos da cidade, que não fazem ideia do que seja mondar, empar ou joeirar. A memória e as histórias dos avós passarão de geração em geração, como as fotos supostamente perdidas que são reencontradas.

* Kaddish é a oração judaica pelos falecidos, a qual curiosamente, não fala de morte.

publicado por Boaz às 08:00
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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Natal sem Natal

Alguém me pediu para escrever sobre o Natal. Pedido difícil feito a alguém que deixou de festejar o Natal faz uns anos... Apesar de este não ser um artigo feito por encomenda, decidi aceder ao pedido.

Na minha infância, tal como na da grande maioria das infâncias no Ocidente, o Natal era a época mais esperada do ano. Pouco me importava o menino Jesus e ainda menos o Pai Natal. Aliás, em minha casa os meus pais sempre nos informaram que eram eles próprios quem oferecia os presentes e que estes não apareciam caídos, sem esforço, por via de um velho gordo que chegara pela chaminé de madrugada. Sabíamos que as prendas tinham de ser pagas com dinheiro a sério e, para as poderem comprar, os pais teriam de trabalhar. Não era menos mágico o meu Natal, mesmo com essa lição de economia doméstica.

No início, os presentes eram entregues só de manhãzinha. Decisão pedagógica. Era o único dia do ano em que eu e a minha irmã saltávamos da cama. (Ouve outra ocasião em que saltei da cama, quando a minha mãe me acordou dizendo que tinha nevado!) Com o tempo, os presentes passaram a ser entregues à noite, assim que tocavam as doze badaladas na igreja vizinha. Éramos mais crescidos e mais difíceis de domar e os meus pais já não aguentavam a nossa ânsia de receber os presentes.

Despojada do significado religioso, pela gradual secularização da família, aquela era apenas uma festa familiar. Os únicos marcos da tradição eram a árvore decorada e o presépio – o único símbolo religioso resistente na festa, presente mais pela graça de ir recolher musgo ao pinhal e montar o cenário do que pela veneração do menino na manjedoura. E a enorme travessa das filhós que a minha mãe pacientemente fazia e eu ajudava a polvilhar de açúcar e canela.

Com o meu crescente afastamento do Cristianismo, o Natal tornou-se um verdadeiro embaraço familiar e pessoal. A certa altura eu até pedia à minha mãe e aos amigos para não me comprarem e oferecerem presentes. E informava que não daria presentes a ninguém. Era difícil. Nem sempre era bem aceite a minha decisão. Ir contra a tradição e o espírito da época era um acto de rebeldia. Até vir para Israel, a única coisa que eu mantinha era a troca de presentes com o grupo de amigos local. Porém, era mais para festejar a nossa amizade e podermos, ao menos uma vez por ano, conseguirmos reunir-nos do que, de novo, pelo menino.

Num dos meus últimos anos em Portugal, uma crise familiar fez que não fizéssemos festa nenhuma em casa. O almoço de Natal acabou por ser num restaurante na praia da Nazaré. Foi horrível, especialmente para a minha mãe. Deve ter sido uma frustração brutal. Eu tinha ido contrariado, sem qualquer pachorra para a festa. Ela bem tentava puxar conversa, mas eu só queria acabar de comer e voltar para casa. Enquanto ela queria dar um pouco de alegria e significado festivo à data. Felizmente, só dura um dia.

Nessa altura, eu ainda não tinha começado oficialmente o meu processo de conversão ao Judaísmo, por isso ela ainda não entendia bem o meu comportamento de indiferença pela data em questão. Mesmo que ela soubesse das minhas intenções de conversão, que já duravam há uns anos. Talvez pensasse que era apenas uma fase minha ou que aquele desejo não implicava nenhuma mudança extraordinária.

Desde que vim para Israel, o Natal acabou definitivamente. Em Jerusalém, as poucas marcas do Natal que detecto, são as raras árvores decoradas nas janelas das casas do Bairro Arménio da Cidade Velha, a pouca distância da yeshiva onde estudo. Ou nas casas de cristãos nos bairros árabes do lado oriental da cidade. Mais para o sul da cidade, o cenário muda: o final da Estrada de Belém – a estrada que liga Jerusalém a Belém – está iluminado com luzes coloridas. Para agradar aos milhares de turistas cristãos que inundam a região nesta altura.

Na yeshiva é um dia de estudo como outro qualquer. Com uma excepção: à meia-noite do dia 24, apesar de não haver um anúncio oficial para o efeito, os alunos devem parar no estudo durante uns minutos. (Os poucos que a essa hora ainda persistem no Beit Midrash, a sala de estudos principal). A interrupção não é por respeito à ocasião. Antes pelo contrário. É inesquecível que as maiores tragédias do povo judeu aconteceram às mãos de alguns dos seguidores do menino da manjedoura. Por isso, a dignidade de estudar Torá não deve ser dada a tal momento. Por isso alguns interrompem o estudo para jogar xadrez.

publicado por Boaz às 12:21
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Terça-feira, 25 de Setembro de 2007

O silêncio do mimo


Marcel Marceau - 1923-2007

O génio do silêncio, o actor judeu francês Marcel Marceau, morreu este Sábado, aos 84 anos. Para a eternidade fica o Bip, a sua personagem mais famosa, paradigma da arte de fazer mímica.

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publicado por Boaz às 21:43
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