Domingo, 11 de Setembro de 2011

9/11 – A década

Lembro-me como se tivesse sido ontem, pensarão muitos, que terão ainda bem vivo na memória o abalo daquele dia. Para aqueles que presenciaram – mesmo pela televisão – o desenrolar do mais delirante ataque terrorista de sempre, o 11 de Setembro de 2001 é um dia inesquecível. Poderei dizer que será o dia mais negro deste ainda curto século XXI. O mais marcante, pelo menos.

Até hoje, sentimos as repercussões do embate dos dois aviões e a consequente queda das majestosas Torres Gémeas do World Trade Center. (Sem esquecer o ataque ao Pentágono e a queda do 4º avião num campo da Pensilvânia, heroicamente despenhado pelos próprios passageiros). A guerra ao terror, com todos os seus erros e más decisões, não tornou o mundo mais seguro depois do 9/11. Pelo contrário.

A invasão do Afeganistão e perseguição de Bin Laden – finalmente morto há poucos meses, depois de quase uma década de busca pelos americanos – não eliminou a ameaça dos Talibãs e do seu fanatismo. A sinistra al-Qaeda está ativa. Apesar de ferozmente acossada pelo exército americano, continua a espalhar o medo e a morte. Mesmo morto, Bin Laden continua a inspirar seguidores, dispostos a matar e morrer em nome da sua doutrina. Como uma sanguinária divindade pagã, a cujo culto devem ser sacrificados todos os que ousem recusar o seu tirânico domínio.


Segurança nos aeroportos | Prisão de Guantanamo, em Cuba | Abu Hamza al-Mazri, líder da mesquita de Finsbury Park, em Londres, um dos focos do radicalismo islâmico na Europa
Embate do segundo avião no World Trade Center, em NY | A queda da Torre Norte
Soldado americano ferido no Iraque | Jovens afegãs de burka numa cerimónia de graduação

O Afeganistão, para lá das principais cidades controladas pelo regime central apoiado e guardado pelo Ocidente, continua a ser um imenso campo de treino terrorista como era nos tempos em que a canalha de Bin Laden dominava o país. Espantados em parte do Afeganistão, os terroristas da al-Qaeda pululam hoje no Paquistão, na Somália, no Iraque e (suspeita-se) em Gaza. Ou onde quer que a confusão reine pelo mundo muçulmano.

A invasão do Iraque e a queda de Saddam Hussein provou-se um desaire militar e de relações públicas para os EUA. E um sorvedouro de dinheiro dos impostos americanos: de acordo com alguns cálculos, mais de 3 triliões (!) de dólares já foram gastos com a invasão e os quase oito anos de ocupação do Iraque. As armas de destruição maciça não passavam de uma boa desculpa para derrubar um ditador anti-americano e brutal, mas inocente em relação ao que se passou naquela manhã de Setembro. O Iraque é hoje um campo de treino e o maior palco de ação de organizações terroristas. Tirando o Curdistão Iraquiano, o resto do país é marcado pelos ataques às tropas ocupantes, as autoridades locais e a perseguição às minorias religiosas. Carnificinas diárias matam indiscriminadamente dezenas de pessoas, em atentados contra estações de polícia, mesquitas e mercados. O número de refugiados iraquianos nos países vizinhos e dentro do próprio país atinge os 4 milhões.

As invasões do Afeganistão e Iraque até poderiam ter sido "justas", ou no mínimo justificadas, se tivessem resultado numa pacificação desses países. Poderiam ter tornado o mundo num local mais seguro. Porém, o perpetuar da ocupação militar já custou alguns milhares de mortos entre as tropas americanas e britânicas. E entre os iraquianos, o número de mortos desde a invasão e bombardeamentos iniciais aos milhares de atentados que aconteceram desde então, varia entre algumas centenas de milhar e mais de um milhão, dependendo das fontes. Tudo isto fez rapidamente perder a simpatia pela "Guerra ao Terror", em especial na Europa, onde a imagem dos EUA é cada vez mais negativa. Nos EUA, o aparelho de segurança, apesar de consumir um orçamento astronómico de dezenas de biliões de dólares anualmente, continua a ser pouco eficiente. Nisto, Israel tem muito a ensinar aos Estados Unidos e a qualquer outro país.

Logo a seguir ao 11 de Setembro, as autoridades entenderam a necessidade de limitar os direitos individuais em nome da segurança coletiva. Hoje, essa concepção parece estar a perder apoio, tanto entre o povo, como entre os políticos. Por exemplo, enquanto radicais islâmicos propagam abertamente a sua doutrina nas ruas e mesquitas da Europa, as autoridades permanecem, em muitos cais, sem qualquer reação. Também, ou talvez sobretudo, por medo da retaliação violenta dos fanáticos.

Um ensinamento do Midrash (uma forma de explicar a narrativa bíblica) diz: "Aquele que é misericordioso com os cruéis, acabará sendo cruel com os misericordiosos" (Midrash Tanhuma, Parashat Mezorá, 1). Esta expressão poderia ser entendida e recebida, ainda que a contra-gosto, por muitos políticos e cidadãos comuns no seguimento dos ataques de Setembro de 2001. Hoje porém, a sua aceitação será menos unânime. Em nome da supremacia da "liberdade de expressão" e dos "direitos humanos".

O fanatismo islâmico, apesar de todos os apelos a uma auto-análise e reforma islâmica, também não diminuiu de força. Para lá das iniciais reações de júbilo pelos ataques de 11 de Setembro entre alguma populaça muçulmana, a opinião pública no mundo árabe e islâmico não se tornou mais pró-americana ou anti-fundamentalista. A verdade é que tampouco foram educados para tal pelos seus governantes e líderes religiosos. Tirando algumas cosméticas operações de caça a terroristas e seus apoiantes na Arábia Saudita, Iémen ou Paquistão, pouco foi feito para combater o radicalismo islâmico na sua origem. E mesmo estas operações destinaram-se mais a defender a permanência dos próprios regimes face à ameaça da oposição destes fundamentalistas, do que a combater os agentes armados do Islão radical.

Apesar de todas as discussões sobre os perigos do crescente radicalismo islâmico e a urgência de uma reforma social, política e religiosa no mundo islâmico, pouco mudou dentro do Islão desde 2001. Bin Laden e a sua ideologia fanática ainda alimentam paixões e fervoroso apoio populares. Os líderes políticos árabes continuam tão corruptos e fanáticos como antes. Até as revoltas populares que têm alastrado um pouco por todo a região, apesar das enormes esperanças da instauração da democracia, correm o risco de se transformarem em oportunidades de tomada do poder pela via democrática pelas forças radicais, como a Irmandade Muçulmana no Egito.

Na Líbia, até agora um dos mais liberais regimes árabes em termos de igualdade entre os sexos, já se nota o aumento do número de mulheres que usa o véu publicamente, um sinal da crescente influência do Islão tradicional, depois do derrube do regime secular de Kadhafi. Os líderes da oposição líbia que tomaram o poder em Tripoli já anunciaram que a Sharia (a Lei Islâmica) deve ser a base da futura constituição da Líbia pós-Kadhafi. A esperança da "Primavera Árabe" poderá transformar-se num tempestuoso Inverno islâmico no Médio Oriente e Norte de África.

Os líderes religiosos muçulmanos, em especial no mundo árabe, tirando algumas figuras fora do mainstream, seguem a retórica da jihad contra o Ocidente. O Wahhabismo, a doutrina mais fanática dentro do Islão atual – apesar de ser considerada uma heresia por algumas das escolas islâmicas mais influentes – continua em forte expansão. Os abundantes petrodólares sauditas que patrocinam a construção de centenas de mesquitas dos EUA ao Brasil e a toda a Europa e África, patrocinam também os respetivos imãs, doutrinados de acordo com a corrente islâmica wahhabi, a única permitida na Arábia Saudita.

A Europa, com a sua cada vez mais alienada juventude muçulmana, dividida entre a sociedade europeia onde reside e a sua origem cultural, tem sido um fértil campo de recrutamento para o terrorismo. Os próprios autores do 11 de Setembro tinham sido estudantes em universidades europeias. E alguns dos mais ousados ataques (ou tentativas de ataque) desde o 11 de Setembro foram cometidos por muçulmanos europeus, como o "terrorista do sapato", o inglês Richard Reid.

Em termos políticos, a União Europeia tem sido cronicamente incapaz de ter uma voz única em termos de diplomacia, seguindo perigosa e estupidamente impotente face ao avanço do Islão radical dentro das suas fronteiras. O anti-americanismo doentio de alguns setores da política europeia tem minado uma completa cooperação em termos de segurança entre os dois lados do Atlântico que é indispensável para os desafios que se nos apresentam. A expressão "guerra ao terror" tornou-se quase inócua 10 anos passados do mais mortal atentado terrorista da história. As mudanças ao nível da segurança já caíram na rotina de muitos cidadãos.

Como comentou Uri Bar Lev, um especialista israelita em terrorismo: "Precisamos de começar a preparar-nos para a próxima guerra, em vez de para as guerras que já travámos. Estamos numa nova era, inteiramente diferente e mais perigosa do que a era passada. Não podemos dar-nos ao luxo de vacilar em face desta nova realidade."

publicado por Boaz às 13:00
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Sábado, 27 de Novembro de 2010

A Igreja e a borrachinha

Depois de anos a lutar contra a maré, as críticas, as manifestações de repúdio, os cartoons ofensivos – acrescentaria ainda a modernidade libertina e os esquerdistas anti-tudo-o-que-cheirar-a-velho –, o Papa resolveu dar o braço a torcer e permitir o uso do preservativo (camisinha, em português do Brasil). Porém, a permissão é apenas "em certos casos", para reduzir o risco de contaminação por HIV, o vírus da Sida (ou Aids). "Finalmente". "Um passo no bom caminho". "Já vem tarde", etc. Este é o tipo de reações ao volte-face papal. Numa instituição atacada por todos os lados, nada do que possa fazer, chega para melhorar os estragos já feitos.


Preservativo Papal, o polémico cartoon de António, 1993 | Bordel em Nairobi, Quénia.
O presidente sul-africano Jacob Zuma, com as três atuais esposas. Em Dezembro casará com a quarta.
Tem pelo menos 23 filhos de 11 mulheres diferentes. No país com maior número de seropositivos do planeta, o presidente além de polígamo é também famoso por ser promíscuo. Um exemplo para a nação.

Virou moda atacar o Cristianismo. Não há que negar os abusos. A pedofilia entre os sacerdotes católicos e respetivo encobrimento pela liderança da Igreja são factos graves. Porém, se alguém pensava o contrário, membros do clero pedófilos (e encobrimento dos casos pelas altas esferas da hierarquia) também existem no Islão, no Protestantismo, no Judaísmo ou no Hinduísmo. E poucos saberão o que se passa com os jovens monges nos recônditos mosteiros budistas. Experimente googlar sobre o tema – foi o que eu fiz – e saberá que, por detrás da reclusão e da modéstia monástica oriental, também há predadores da inocência infantil. Não é só na sombra da cruz que se escondem os depravados.

Abuso de poder do clero. Mas não existem pastores, imãs, rabinos, gurus e lamas que se aproveitam da sua posição para enriquecimento ilícito? E relações demasiados próximas entre o poder clerical e temporal em todos os países onde uma religião – seja ela qual for – seja a maioria, o que leva tantas vezes à corrupção daqueles que se acham e dizem incorruptíveis? Obviamente que o facto de haver outros que também pecam não desculpa os pecados de ninguém. Talvez os torne mais relativos. Menos exclusivos. Este rol de crimes, abusos, pecados e pecadilhos é em muitos casos público, criticado e condenado. E obviamente, condenável.

De toda a má fama que a Igreja ganhou com tantos escândalos, tornou-se alvo de todas as acusações. A cada discussão sobre o uso do preservativo e a SIDA, os dedos acusadores viram-se para o Vaticano. Uma das acusações é culpar o Vaticano/a Igreja Católica pela propagação da Sida, por via da proibição católica do uso do preservativo. Em primeiro lugar, este tipo de acusação é absurdamente cínico. À laia dos medievais (e em alguns casos ainda atuais) libelos de sangue anti-judaicos, este é nada menos que um libelo. Libelo de esperma, digamos. É certo que a Igreja é contra o uso das borrachinhas, mas apenas os católicos são supostos cumprir os decretos vaticanos. Usemos um pouco a lógica. Apenas os católicos são infetados com Sida? E se, caso exista algum não-católico infetado, a quem devem atirar-se então as culpas? Se não à Igreja, então a quem?

É pura desonestidade intelectual acusar a Igreja de responsabilidade na propagação da Sida. Em termos de comportamento sexual, a doutrina oficial católica – a qual aliás, coincide com a posição da Lei Judaica – é bastante clara: proibição do uso do preservativo e do sexo antes do casamento e a obrigação da fidelidade conjugal. Na África Subsariana – onde vivem 70% dos infetados com a doença a nível mundial – a promiscuidade sexual, a poligamia e o recurso à prostituição são práticas correntes. Máximas da moral católica como a abstinência sexual pré-matrimónio e a fidelidade depois dele são antagónicas com a profundamente machista cultura africana. Sejamos honestos, estas são as razões para a alarmante propagação da epidemia em África (e não só). E não qualquer norma anti-preservativo saída da Cúria Romana.

E não é apenas em África que o "ideal do macho-alfa africano" adoece, morre, contagia e mata com Sida. Nos EUA, os Afro-Americanos somam 47% do total da população seropositiva (infetada com o vírus HIV) e, mesmo após várias décadas de campanhas de prevenção da doença, são mais de metade dos novos casos de contágio da doença, apesar de os Afro-Americanos totalizarem apenas 12% da população do país. Entre as mulheres afro-americanas as estatísticas mostram que elas têm 19 vezes mais hipóteses de sofrerem da doença do que as mulheres americanas brancas. Dezanove vezes! Porém, é racismo fazer estas correlações. (Tal como é homofobia referir que a maioria dos infetados nos EUA são homossexuais, incluindo metade dos novos casos reportados anualmente.) Isto não quer dizer, obviamente, que a homossexualidade ou o ser africano implica automaticamente contágio com Sida. Somente que, alguns comportamentos prevalentes nestes grupos – mas não exclusivamente neles – podem explicar os maiores níveis de incidência da doença.

O Uganda foi, nas décadas de 1980 e 1990 o país com maior prevalência da epidemia. Hoje é tido como o único caso de sucesso de controlo da doença em África, sendo o único país africano a conseguir reduzir a sua taxa de infeção por HIV. É verdade que campanhas de informação sobre o uso do preservativo tiveram os seus resultados no estancar da doença. Porém, mesmo contrariando a cultura local prevalente, houve também uma promoção da abstinência sexual antes do casamento e da fidelidade. Tal como tem sido a doutrina católica neste assunto. E assim continua a ser, apesar da nova permissão – em certos casos – do uso da camisinha.

Contudo, num mundo em que "É proibido proibir" é um dos lemas vigentes; o auto-controle é sinónimo de fraqueza; a virgindade, a fidelidade e o casamento estão ultrapassados e uma pessoa moderna é aquela que experimenta de tudo, colocar travões nas vontades é digno de condenação. Daí a impopularidade da posição tradicional do Catolicismo nesta questão. Podem elogiar quanto quiserem o uso da camisinha na diminuição do risco de infeção de Sida ou outras doenças sexualmente transmissíveis. Mas sem uma educação do compromisso e da responsabilidade pessoal e sexual, não virá da borracha a salvação.

publicado por Boaz às 22:05
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Sexta-feira, 20 de Agosto de 2010

Uma mesquita perto demais

A “Corboba House” (Casa de Córdoba) seria apenas mais uma mesquita a ser construída nos Estados Unidos. Afinal, de acordo com as estatísticas, o Islão é a religião que mais cresce nas terras do Tio Sam. Porém, esta não é uma mesquita qualquer. E a Baixa de Manhattan, em Nova Iorque, também não é um espaço qualquer. Apenas a dois quarteirões, ou 180 metros de distância situavam-se as "Torres Gémeas" do World Trade Center. Vozes contra e a favor do projeto depressa se manifestaram. Para os opositores, um estandarte do Islão – ainda que tolerante – ao lado do "solo sagrado" do Ground Zero é visto como uma provocação.

Em 11 de Setembro de 2001, o fanatismo islâmico alcançou o seu auge com os atentados terroristas nos EUA. O "choque de civilizações" manifestava a sua face mais violenta (e mediática). Foi o despoletar da "guerra ao terror". Que continua até hoje e, apesar da boa vontade do presidente americano Barack Obama, não tem perspetivas de terminar tão cedo. Este conflito é visto por alguns setores do mundo islâmico como uma nova Cruzada.


A Hajj, a peregrinação muçulmana a Meca, Arábia Saudita.

Dentro do próprio Islão, a par da enorme popularidade da figura de Osama bin-Laden, correntes moderadas exigiam uma auto-reflexão do Islamismo. Com o alastrar do terror em larga escala pela mão da Al-Qaeda e de outras organizações terroristas muçulmanas a quase todo o planeta: Madrid, Londres, Bali, Carachi, Istambul, Jerusalém, Beirute, Bombaim, Moscovo, Bagdade, Cabul, a imagem do Islão ficou severamente afetada. Políticos e clérigos muçulmanos tentaram (e tentam) convencer o mundo de que os terroristas são uma minoria no Islão. Estadistas e pensadores ocidentais, muitas vezes aderindo fielmente às regras do politicamente correto, ajudaram nessa campanha de limpeza de imagem.

É neste âmbito que entra a "Iniciativa Córdoba". Esta organização, fundada por Feisal Abdul Rauf, um imã americano nascido no Kuwait, pretende estabelecer um centro cultural e social islâmico perto do Ground Zero a fim de mostrar aos Americanos a face tolerante do Islão. Abdul Rauf declarou que a sua intenção é "enviar a declaração contrária àquilo que aconteceu em 11 de Setembro". "Nós queremos dar um empurrão contra os extremistas", declarou.

Todavia, tanto o espaço escolhido para a construção do centro islâmico como o nome do futuro centro não são inocentes. O local, apesar de se situar a dois quarteirões do Ground Zero, foi um dos edifícios secundários destruídos total ou parcialmente naquela manhã de Setembro de 2001. Na altura do embate na Torre Sul, uma parte do trem de aterragem do avião caiu sobre o número 45 da Rua Park Place, um dos dois edifícios a ser demolidos para a construção da mesquita.

O nome, por seu lado, também levanta sobrolhos. Córdoba lembra o Califado estabelecido no sul de Espanha, que marcou o período mais florescente da expansão islâmica no Ocidente. A refundação do Califado de Córdoba é declaradamente um dos sonhos de Osama bin Laden. A polémica (secundária) em redor do nome, levou a organização a renomear o projecto, escolhendo um inócuo "Park 51", ainda que reclamem que Córdoba evoque a cidade onde muçulmanos, cristãos e judeus viviam em convivência pacífica.

Numerosas personalidades se declararam a favor do empreendimento. Entre elas o próprio mayor Michael Bloomberg, alegando a liberdade de culto existente no país. O presidente Obama expressou apoio ao direito de construção do centro, dizendo: "Os muçulmanos têm o mesmo direito de praticar a sua religião como qualquer pessoa neste país. E isso inclui o direito de construir um local de culto e um centro comunitário em propriedade privada na Baixa de Manhattan, de acordo com as leis locais."

Uma das opiniões que considerei mais ponderadas foi a de Abraham Foxman, líder da Liga Anti-Difamação, o maior movimento de judaico de direitos humanos dos EUA. Afirmou que algumas das opiniões contra a mesquita são derivadas de fanatismo anti-islâmico e reconheceu o direito dos promotores de construírem o centro naquele local. Porém, apelou aos construtores para respeitarem a sensibilidade da família das vítimas, uma vez que a construção de uma mesquita naquele local poderia causar mais sofrimento a algumas famílias de vítimas do 11 de Setembro.

As vozes que se opõem ao projeto naquele local, na generalidade comparam o nível de infâmia na construção de um centro cultural muçulmano junto ao lugar onde outrora se ergueu o World Trade Center com a abertura de um centro cultural alemão em Treblinka. Ou um centro cultural japonês em Pearl Harbour. (Eu acrescentaria ainda um centro cultural americano em Hiroshima ou Nagasaki). No mínimo, desapropriado. Os familiares das vítimas dos atentados, ainda que alguns se manifestem a favor em prol da liberdade que é uma das bases da América, são uns dos mais declarados opositores da mesquita. Na sua opinião, o local seria um símbolo do "Islão triunfante".

Se o objetivo principal do centro é a promoção do islamismo tolerante, então em vez de Nova Iorque, ele devesse talvez ser construído em Bagdade, Cabul, Beirute, Gaza ou mesmo em Meca. Como demonstração de tolerância islâmica, porque não permitir a construção de igrejas na Arábia Saudita, para servirem de espaço de culto às centenas de milhar de imigrantes cristãos (em especial das Filipinas)? Aí, a prática de qualquer religião que não o Islão – e até mesmo a minoria xiita é altamente perseguida – é punível com penas de prisão, chibatadas e mesmo a morte por decapitação.

Mais do que um diálogo inter-religioso limitado a intelectuais e realizado no Ocidente, a melhoria da imagem do Islamismo seria conseguida por mudanças no próprio Mundo Islâmico. E não apenas em prol da melhoria das relações com os não-muçulmanos, mas sobretudo da vida nas próprias sociedades islâmicas. Mais do que uma grande e dispendiosa operação de Relações Públicas como a "Cordoba House", o Islão necessita de uma significativa reforma interna. Pois se é absolutamente verdade que a maioria dos muçulmanos não são terroristas, também parece inegável que a maioria dos terroristas são muçulmanos.

publicado por Boaz às 09:52
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Segunda-feira, 22 de Fevereiro de 2010

Falar para dentro, sobre o mundo lá fora

Ser “Luz entre as Nações”, esta é a principal missão universal judaica. Para realizar esta missão universal, nós temos não apenas de saber quem nós somos como Judeus, mas também quem nós somos em relação ao Mundo. Compreender estas duas perspetivas é essencial para atingir essa missão.

A Torá parece ensinar-nos justamente isso na sua estrutura. Afinal, como começa o livro sagrado do Judaísmo? Não com o nascimento do Povo Judeu, mas com o nascimento do Mundo. Começa com a Criação de um único ser humano, para nos ensinar que todos viemos do mesmo lugar e partilhamos o mesmo cerne que nos une. Depois da ideia da Criação do Mundo por Deus, esta é a primeira lição que nós somos ensinados na Torá.


"E esta é a Torá..."

Ao ensinar-nos a viver como Seu Povo, Deus começa por orientar-nos a reconhecer a nossa humanidade comum com todas as pessoas. Talvez porque apenas com este reconhecimento nós seremos suficientemente impulsionados a mudar o Mundo e a guiá-lo da forma correta. Só assim poderemos ser forças de Tikun Olam, o aperfeiçoamento do Mundo. Reconhecer o que há de comum entre todos nós inspira respeito, atenção e a capacidade de nos relacionarmos com os restantes seres humanos. Sem isto, falharíamos em assistir, ensinar e orientar o Mundo com humildade e respeito, pois falharemos em reconhecer a tzelem elokim, a imagem de Deus que existe em todos nós.

O Rav Avraham Kook explica de forma magnífica como isto é essencial: “É impossível atingir o elevado nível de ‘Louva o Senhor, chama o Seu Nome, declara as Suas obras entre as nações’, sem um amor interior que encha as profundidades do coração e o espírito, para provocar o progresso de todas as nações, melhorar o seu nível material e aumentar a sua felicidade... E o ponto de vista estreito que causa que uma pessoa veja tudo o que é estrangeiro a uma nação particular, mesmo o que está fora do Povo Judeu, como feio e corrupto, é uma das mais medonhas trevas que trazem a destruição geral de todo o edifício da bondade espiritual, cuja luz todo o ser sensível deseja ver”.

O universal não basta

Todavia, é óbvio que apreciar o universal e os seus valores não é suficiente para o Judeu. Ele tem de apreciar a sua identidade única e usá-la, se ele quer contribuir para o mundo no máximo do seu potencial. Negar essa singularidade é negar a mesma essência de quem nós somos. É que ninguém pode ser feliz durante muito tempo ou viver uma vida significativa se recusar a sua própria essência. Aquilo que nos torna únicos como Judeus é tão vital como aquilo que nos torna similares a todos os outros povos. E negar qualquer uma delas é limitar a nossa capacidade de viver uma vida plena e realizar os nossos objetivos como Povo.

Talvez seja por isso que o Livro de Bereshit (ou Génesis) serve apenas como o começo da nossa história. Ele continua com estabelecimento do Povo Judeu, descrevendo como e porque nós nos tornámos quem somos. Como se nos quisesse ensinar que uma vez que nós sabemos o que temos em comum, nós temos de entender exatamente como nós somos únicos.

É verdade que a nossa fundação é a mesma de todos os outros povos, mas nós também somos diferentes. Fomos escolhidos para uma tarefa única e dotados de atributos e potencialidades excepcionais para a atingir. Para vivermos uma vida judaica plena, temos de montar duas concepções de religião e identidade aparentemente opostas. De um lado, a dimensão universal, que afirma a nossa comunhão e ligação com o resto do mundo. Por outro, a dimensão particular e exclusiva: os nossos papeis separados e identidades únicas como Judeus.

Infelizmente, para nós é difícil manter as duas concepções ao mesmo tempo e muitas vezes enfatizamos um à custa do outro. Hoje, parece que o mundo religioso se foca nos elementos exclusivos do Judaísmo, à custa dos elementos universais. Enquanto isso, os judeus não-religiosos focam-se mais no universal, em detrimento do “exclusivamente judaico”. Qualquer uma das perspetivas diminui a missão e a visão judaica.

Em muitos casos, estas escolhas parecem ser reação ao mundo moderno e os desafios que este coloca ao Judaísmo. Talvez, porque o mundo moderno valoriza a razão em vez da crença, nós nos focamos na crença à custa da razão. Porque o mundo se foca nos elementos universais à custa das diferenças únicas, nós salientamos as nossas diferenças para nos mantermos à parte. O mundo moderno fala em “ser uma boa pessoa”, nós falamos em “sermos bons judeus”. Se o mundo atual enfatiza o amor e repudia o temor, nós falamos mais do temor e depreciamos a influência positiva do amor. Quando os outros valorizam a alegria, o prazer e o físico acima de tudo o mais, nós colocamos estes valores no fundo da lista.

Ao enaltecermos valores opostos aos do mundo à nossa volta, nós tentamos proteger o Judaísmo e erradicar valores aparentemente anti-judaicos da nossa vida e da nossa educação. Infelizmente, isto tem consequência na capacidade de criar um Judaísmo mais inspirador. Ainda mais, porque ao erradicarmos estes princípios de dentro do nosso mundo, isso não as erradica no “mundo lá fora”.

Pelo contrário, isso leva-nos a perder algumas das partes mais preciosas e inspiradoras da nossa tradição. Afinal, de onde “o mundo lá fora” tirou alguns dos seus valores mais estimados? Exatamente, do Judaísmo. É claro que no geral o mundo distorceu esses valores, focando-se num dos fins à custa do outro. Porém, ao distorcermos os mesmos valores no sentido inverso, não só não nos ajuda a conseguir um equilíbrio, como retiramos de nós e das nossas crianças a oportunidade de usufruir de muita da beleza da nossa milenar herança.

Porque a beleza do Judaísmo não pode ser vista por aquilo que ele exclui, mas pelo que inclui. A grandeza do Judaísmo está, em parte, na sua exímia capacidade de equilibrar valores aparentemente contraditórios. Ao dar a cada um o seu devido lugar.

(inspirado no livro Off the Derech, um dos livros que terminei de ler recentemente, sobre o fenómeno dos judeus religiosos que saem da prática religiosa, as suas causas e possíveis soluções.

Nota: Este texto foi também publicado no HaKotel Brasil, o e-mail semanal de Divrei Torá (textos de Torá), realizado pelo grupo dos alunos sul-americanos da Yeshivat HaKotel, do qual eu sou um dos responsáveis.

publicado por Boaz às 22:45
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Domingo, 29 de Novembro de 2009

Oinc oinc, eles andam aí

É oficial: a gripe A chegou a estes lados. Nada de alarmes. A pequena aguentou-se, apesar dos 40 graus de febre, a tosse, a fraqueza. Durante uma semana, a mãe e o pai revezaram-se para ficar com ela em casa. Na vizinhança soubemos de outros casos. Mais tarde ou mais cedo, chega a todos.

Tenho visto que as notícias são de alarme em Portugal. Escolas fechadas, campanhas de vacinação (e as grávidas que não aderem com receio que com elas se repitam os episódios da morte de fetos de outras grávidas que foram vacinadas). Até a equipa do Estrela da Amadora está "de baixa", com quase toda a equipa infetada.

Em Israel, depois da polémica inicial sobre como chamar à doença: “gripe A” não diz nada, “gripe mexicana” dava má publicidade ao país onde tudo começou e gripe suína tem uma conotação não-casher, decidiram-se mesmo pela "gripe dos porcos". Afinal, o vírus não precisa de ter certificado de cashrut... Hoje, mal se fala do assunto. Ainda assim, contam-se mais de 4000 casos e algumas dezenas de mortes. Nada de alarme. Aliás, para quê? Todos os anos, morre meio milhão de pessoas no mundo só com a gripe comum e ninguém puxa os cabelos por isso.

É preciso de ter medo de alguma coisa. Isso vende muitas notícias. Faz mover governos. E sustenta muitos negócios (quantos milhões de vacinas contra a gripe foram encomendadas à Roche, a empresa que tem a patente do Oseltamivir, o princípio ativo do famoso Tamiflu?). Eu não digo que andem interesses obscuros à solta. Há que confiar nos médicos, ainda que saibamos dos "prémios das farmacêuticas".

Acreditar que tudo não passa de uma grande conspiração é mais perigosos ainda. Um bom exemplo aconteceu com a vacinação contra a poliomielite. Em 2003, durante a campanha de vacinação para erradicação da poliomielite, surgiram rumores no norte da Nigéria que a vacina causava esterilidade nas raparigas. Os chefes tradicionais muçulmanos proibiram a campanha de vacinação, causando um aumento dramático dos casos de polio no país. Nos dez meses de suspensão da vacinação, a epidemia alastrou a toda a Nigéria e a 12 países vizinhos onde já havia sido declarada extinta. Hoje, as guerras no Sudão e a instabilidade na Costa do Marfim são os obstáculos contra a erradicação completa desta grave doença. Só este ano, foram detetados novos casos em 21 países. Tudo por causa de uma mentira sem fundamento.

No caso da gripe A, já andam por aí e-mails a circular, insinuando que é tudo um plano dos Estados Unidos (quem mais, se não o "Grande Satã"?) para reduzir a população mundial em 2/3. É maquiavélico mesmo. Vídeos no YouTube mostram uma respeitosa senhora finlandesa (obviamente, já que a Finlândia é um país tão credível). A senhora é apresentada nos ameaçadores e-mails como ex-ministra da saúde do tal país nórdico.

Na verdade, a fulana não passa de uma louca que apenas foi secretária da saúde de uma província finlandesa. Essas são mesmo as únicas credenciais positivas da criatura. Agora, se soubermos que ela se diz manter contatos com extra-terrestres – reclama já ter sido sequestrada para o espaço algumas vezes e a sua vida já foi salva em três ocasiões pelos sujeitos verdes de olhos grandes – perde toda a credibilidade. Tirando para os crentes das teorias de Ovnis. Ainda reclama que uma boa parte da humanidade tem implantes cranianos para controlo da mente, implantados à nascença. Sinceramente, prefiro a teoria do filme "Matrix".

Não se assustem meus amigos, duas doses ou três diárias de um qualquer anti-inflamatório (iboprufeno ou paracetamol, por exemplo) durante alguns dias são suficientes para aliviar os sintomas. Fiquem em casa durante uma semana. Evitem espaços com muita gente (não só pela gripe, mas também pelos carteiristas, os mendigos e os mercadores de "promoções imbatíveis").

Enquanto isso, ponham a leitura em dia. Bebam muita água e descansem. Depois voltem à rotina e não se ralem, que até o Inverno acabar ainda muito pingo vai cair dos vossos narizes. E para o ano há mais.

publicado por Boaz às 18:05
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Sexta-feira, 9 de Outubro de 2009

Nobel freudiano

Freud ficou famoso pelas suas teorias sobre a interpretação de sonhos. Suspeita-se que o Comité Nobel tenha lido a literatura freudiana nessa matéria de cabo a rabo e assim premiou o maior fabricante mundial de sonhos. Já foram Brad Pitt e Tom Cruise, mas hoje Barack Obama é o homem de quem se fala, com quem toda a gente sonha.

Jovem, bem vestido, bem falante, sorriso Colgate de estrela de cinema. Ele próprio cheio de sonhos e o mundo anda encantado por todos eles. É um prémio às boas intenções do príncipe encantado - ahhhh! (suspiro), mas vazio de substância. É que provas dadas das suas numerosas intenções ainda não há nenhumas.

Como disse Saramago - e eu não me consigo desculpar a mim próprio por citar tal personagem, outro sonhador desbocado: "É possível que comece a dizer-se que o Prémio Nobel da Paz [a Obama] foi prematuro, mas não o é se o tomarmos como um investimento".

PS – Se a escolha do Comité Nobel tivesse recaído sobre a Miss Universo, ninguém notaria a menor diferença. Afinal, tal como as misses – que também fazem sonhar meio-mundo – o presidente americano é uma bela combinação de sorriso fotogénico, acenos estudados à multidão de fãs e algumas palavras vagas sobre a paz mundial. Torço para que no próximo ano, o Nobel seja entregue a alguma fulana venezuelana em bikini.

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Sexta-feira, 13 de Março de 2009

Beleza escandinava

Era para ser apenas mais um jogo de ténis. Israel defrontava a poderosa Suécia no escalão principal da Taça Davis, a mais importante competição internacional de ténis masculino por equipas. A realizar em Malmö (lê-se "Malmou"), a terceira cidade da Suécia, com várias semanas de antecedência percebeu-se que aquele não iria ser apenas uma partida de ténis. A organização do torneio recebeu ameaças contra a presença dos atletas israelitas. Pouco mais de um mês após a operação "Chumbo Fundido" em Gaza, houve apelos ao boicote ao jogo com a equipa de Israel.

O boicote desportivo de Israel foi demonstrado recentemente pelo Dubai, quando recusou conceder um visto à tenista israelita Shahar Peer para participar no Torneio de ténis da cidade, um dos mais importantes do calendário da modalidade. A organização alegou que a recente operação militar em Gaza iria suscitar sentimentos negativos por parte dos fãs do ténis, contra a presença de atletas israelitas. Contudo, face à enorme controvérsia levantada e sob ameaça da suspensão do Torneio do Dubai do próximo ano, foi concedido um visto ao tenista israelita Andy Ram.

No caso sueco, o facto de a população de Malmö ser composta em quase 40% de imigrantes, a maioria muçulmanos, não foi alheio à massiva campanha anti-israelita intitulada "Parem o Jogo". Houve propostas para mudar o local da partida para outra cidade sueca. Porém, a organização recusou. Ao mesmo tempo, a polícia local declarou-se incapaz de garantir a segurança dos fãs israelitas. Daí que a "solução" foi a realização dos jogos à porta fechada. Para lá do IKEA, fica provada mais uma vez a eficiência sueca.


Malmö: Manifestações nas ruas e o estádio vazio.

No dia anterior aos jogos, houve violentas manifestações anti-Israel na cidade, com cerca de 7.000 participantes. O ambiente era tenso. Apenas um grupo restrito de 300 espectadores foi permitido de presenciar as partidas. Para a história, além da vergonhosa ingerência da política no torneio – política e desporto, digam o que disserem, andam sempre de mãos dadas – ficou a vitória de Israel. Os atletas israelitas foram recebidos como heróis em casa. Já a Suécia e a sua arrogância ficaram a cuspir pó após a derrota face a uma equipa israelita tecnicamente muito inferior.

Este é apenas um dos episódios da recente vaga anti-israelita na Escandinávia. Já esta semana, uma equipa de 45 lutadores israelitas de taekwondo que deveria participar num torneio também na Suécia, foi avisada para ficar em casa. De novo, as autoridades disseram que "não poderiam garantir a segurança" dos atletas e dos fãs que os acompanhassem.

Na vizinha Noruega, durante as semanas em que durou a operação militar israelita em Gaza, realizaram-se algumas das mais numerosas e virulentas manifestações anti-Israel em toda a Europa. Nos jornais noruegueses são comuns as notícias e os artigos de opinião (muitas vezes é difícil distinguir os dois tipos) declaradamente contra Israel. O mais famoso escritor norueguês da actualidade, Jostein Gaarder (autor do best-seller O Mundo de Sofia) é um dos mais ferozes intelectuais anti-Israel no país.

Esta hostilidade contra Israel traduz-se também em ameaças aos judeus suecos e noruegueses. Os ataques contra sinagogas têm aumentado de frequência. Em várias ocasiões, artistas têm realizado livremente actuações de carácter visivelmente anti-semita. Em 2004, um museu de Estocolmo exibiu a peça Branca de Neve e a Loucura da Verdade, em que glorificava uma terrorista suicida palestiniana que tinha morto 22 pessoas num café de Haifa. A exposição era coordenada por uma conferência pública sobre a prevenção do genocídio. Na Noruega, o comediante Otto Jespersen, numa das suas rotineiras actuações na televisão pública troçou: "Eu gostaria de aproveitar a oportunidade de lembrar todos os biliões de pulgas e piolhos que perderam as suas vidas nas câmaras de gás alemãs, sem terem feito nada de errado a não ser viver em pessoas de origem judaica". Na ocasião, uma queixa foi feita por um cidadão judeu contra o comediante. O artista recebeu o apoio declarado dos colegas e da televisão pública.

Historicamente, a Suécia e a Noruega, tidas como países liberais e defensores de nobres causas, têm um registo secular de anti-semitismo. Em 1685, o Rei Carlos XI da Suécia passou uma lei proibindo os Judeus de viver no país "pelo perigo da eventual influência da religião judaica na pura fé evangélica". Leis especiais anti-judaicas existiram na Suécia até meados do século XIX. No caso da Noruega, os Judeus foram oficialmente proibidos de residir no país durante mais de 800 anos, até ao século XIX.

Durante a Segunda Guerra Mundial, as autoridades da Noruega forneceram aos Nazis (que ocupavam o país) as listas dos membros da minúscula comunidade judaica. Mais de 700 judeus noruegueses morreram em Auschwitz. A Suécia, neutra durante a Guerra, acolheu a pedido da Dinamarca a quase totalidade dos judeus dinamarqueses, marcados para a morte pelos Nazis. As acções heróicas do diplomata Raoul Wallenberg, que salvou milhares de judeus húngaros da deportação, garantiram um bom-nome à nação.

Preso pelo Exército Vermelho depois da Guerra, Raoul Wallenberg desapareceu na escuridão do Gulag (o sistema soviético de "reeducação", eufemismo para campos de concentração e de trabalhos forçados). Numa desconhecida vala-comum onde jazerá, algures na Sibéria, o cadáver de Raoul Wallenberg deve revolver-se, perante o estado a que chegou a grandiosa democracia escandinava.

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Domingo, 8 de Março de 2009

Rol de excomungados

História macabra (divulgada a semana passada no Brasil, mas podia ser em qualquer outro lugar): pai viola filha de 9 anos. A menina fica grávida (de gémeos). A mãe da menina decide que a filha deve fazer um aborto. Perante o escândalo, o bispo católico de Recife excomunga a mãe e os médicos por terem autorizado (ela) e realizado (eles) a interrupção da gravidez.

"Não existe pecado sem perdão, mesmo para a pessoa que cometeu aborto. Agora, para receber o perdão é preciso arrepender-se, é preciso uma conversão", disse dom José Cardoso Sobrinho.

O pai exemplar não é mencionado na lista dos excomungados, nem na dos pecadores...

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Terça-feira, 3 de Março de 2009

Quem com ferros mata

Num golpe típico de cowboiadas e lutas de mafiosos, o presidente da Guiné-Bissau foi assassinado. Nada de extraordinário, num país que desde a independência tem vivido no caos e na miséria, na opressão de uma elite de tiranos e de gente despreocupada com a sorte dos seus concidadãos comuns. Sem ordem nem sistema capaz de a aplicar, a lei do mais forte impõe-se sempre que a ocasião o permite. Os militares, descontentes com a decapitação da chefia militar pelo mesmo Nino Vieira, vingaram-se matando-o a tiro.

Nino Vieira não deixará grandes saudades aos guineenses. Manda-chuva absoluto de um país miserável – cronicamente destacado entre os mais pobres do mundo – espremeu os poucos recursos da nação em proveito próprio. Nada de novo na bela colecção de ditadores e assassinos que têm dirigido os destinos da maioria dos estados africanos. Os ventos da mudança, que já sopram noutras latitudes do Continente Negro, ainda não chegaram com força positiva a Bissau.


Piroga na praia de Bubaque, Ilhas Bijagós, Guiné-Bissau.
Quem conhece, diz que poderia ser o paraíso...

Depois da independência, em 1974, conseguida depois da Guerra Colonial, a qual atingiu teve alguns dos seus episódios mais violentos exactamente no terreno da Guiné, o país foi controlado por um conselho revolucionário até 1984. As primeiras eleições multi-partidárias foram realizadas em 1994, mas uma sublevação militar em 1998 afastou à força o presidente – então o mesmo Nino Vieira, assassinado esta semana. O episódio desencadeou a Guerra Civil da Guiné-Bissau.

Em 2000, numas eleições cheias de esperanças para o comum guineense, desgraçado e cansado de guerra, foi eleito Kumba Ialá. Famoso pelo seu barrete vermelho (uma espécie de Saci-Pererê com duas pernas, mas nada mais do que isso), o novo presidente foi tão incompetente como os seus antecessores. Também ele foi deposto por um golpe militar.

Nos meus tempos da faculdade, em Lisboa, uma colega guineense descrevia o país onde nascera com a desilusão de quem se recusa a aceitar como certo o desprezo pelo mérito e o imperativo da lei da selva. Contava que, para passar de classe na sua escola de Bissau – ainda que fosse um colégio privado, já que o sistema de educação pública não responde aos critérios mínimos – tinha de "ajudar" os professores. Favores em dinheiro e géneros eram a única garantia de progredir na escada da educação. Depois de terminada licenciatura, preferiu a precariedade da procura de emprego pós-universidade em Portugal do que o regresso às difíceis origens. Mesmo que um canudo de uma universidade europeia lhe poderia ter aberto algumas portas mais promissoras.

Em 1998, durante a Expo’98, em Lisboa, lembro-me de visitar o pavilhão da Guiné-Bissau. Um vídeo mostrava as belezas naturais e as potencialidades turísticas do pequeno país. Aí, tornava-se ainda mais evidente, quanto tudo o que de bom o país tem é desperdiçado pelos erros da elite que o governa.

A Guiné é o típico estado falhado africano. Os guineenses, presos nas malhas do analfabetismo, do autoritarismo tribal e político, de tradições bárbaras como a mutilação genital feminina, têm sido vítimas da sua impossibilidade de sair do ciclo de tragédias que tem sido a sua história pré e pós-colonial.

E como o resto do Mundo não deposita grandes recursos para ajudar um pequeno país de pouco mais de um milhão de habitantes, parece perpetuar-se "o estado das coisas". Uma fatalidade africana no seu melhor.

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Domingo, 28 de Dezembro de 2008

A nação deslumbrada

De acordo com uma sondagem publicada na última sexta-feira pelo jornal USA Today, o presidente eleito dos EUA, Barack Obama, é o homem no mundo que os americanos mais admiram. Não é o vendedor de beigels de rua, o rancheiro texano ou o cantor de country do bar da esquina. Quase um terço dos inquiridos referiram Obama, que é empossado presidente em menos de um mês, como "o mais admirado".

Não se admirem, é provavel que seja só um deslumbramento passageiro... Afinal, todos os hot-shots passam por um estrelato destes. Seja o futuro presidente, seja o vencedor do Big Brother. Por agora Obama tem apenas belas poses no palco, frases bem estudadas ou fotos de família na praia.

Deixem-no começar a mexer na papelada da Casa Branca, fazer alguma coisa em nome da América, ter de tomar decisões impopulares, que o papel de "herói do momento" depressa se desvanece. Tem até 20 de Janeiro para curtir a boa fama.

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Sexta-feira, 28 de Novembro de 2008

BOMBA-im

É irónico o nome da cidade. É trágico o que está a acontecer – até ser libertado o último refém. Porém, que ninguém sonhe que algo irá mudar depois deste dia. É só mais um dia de manchetes de jornais, de palavras nervosas nas chancelarias internacionais, de vazios votos de condolências e de inconsequentes declarações de apoio aos atacados... Nada mudará. Como praticamente nada de essencial mudou depois do 11 de Setembro de Nova Iorque, do 11 de Março de Madrid, dos ataques no metro de Londres, de Istambul, de Bali ou das centenas de outros atentados. Afinal, voltámos ao mesmo de antes. Ou pelo menos, habituámo-nos a viver neste "mundo novo", em que o terror é apenas mais uma das normalidades. O mundo não sabe – ou simplesmente não quer – distinguir entre o bem e o mal.

Não são só as centenas de hóspedes dos hotéis, ou o rabino Gavriel Holtzberg e a esposa no Centro Chabad Lubavitch que estão reféns (hoje houve rezas especiais por eles na yeshiva). O Mundo todo está refém do terrorismo. A Europa, os Estados Unidos, a Índia, todas as democracias do planeta têm um medo de morte do terrorismo islâmico. Daí o silêncio e o "voltar ao normal" a que assistiremos já daqui a uns dias. Engolir as bombas e seguir em frente. Nada mais.

A fera, cada vez se fortalece mais, porque ninguém tem coragem de lhe fazer frente. E quem ousar dizer alguma coisa, terá uma fatwa apelando à sua morte e centenas de voluntários candidatos para a fazer cumprir. Se os Estados Unidos lançam uma guerra no Afeganistão ou no Iraque, se bombardeiam lugares suspeitos na Somália, no Sudão ou na Líbia; se Israel dá caça aos terroristas na Faixa de Gaza e na Cisjordânia, ou se destrói uma central nuclear em construção na Síria, os europeus (ditos) defensores da liberdade e dos povos oprimidos, arrancam os cabelos e fazem manifestações contra os EUA e Israel. Boicotes e marchas.

As respostas americanas e israelitas foram brutais e injustificadas, ou na melhor das hipóteses "desproporcionais". O terrorismo, essa "arma dos pobres" tornada aos poucos legítima e compreensível, é simplesmente a resposta desses "pobres sem outra alternativa" face ao domínio brutal do capitalismo e outros fantasmagóricos ismos usados pelos defensores dos pobrezinhos...

O Irão continua a desenvolver o seu programa nuclear, o Hezbollah continua a aumentar o seu arsenal militar, o Hamas encheu a fronteira que separa Gaza do Egipto com centenas de túneis por onde passa armamento cada vez mais sofisticado, mísseis caem diariamente no Sul de Israel, junto à Faixa de Gaza. Ninguém faz nada. Ninguém permite que alguma coisa seja feita. A menos do que inapta Agência Internacional de Energia Atómica ignora a ameaça iraniana. A velha e caduca ONU – não sem o apoio de muitas democracias europeias, que se alinham com os exemplares regimes árabes e africanos – aprova resolução atrás de resolução contra Israel. Só esta semana foram 20, para celebrar como deve de ser o "Dia de Solidariedade com a Palestina", exemplarmente celebrado pela ONU. Contra o Líbano, por deixar à solta o Hezbollah; contra o Egipto, por não controlar o tráfico de armas para Gaza; contra a Síria, por manter o apoio ao Hezbollah e desestabilizar o Líbano; contra o Irão, governado por um lunático de tendências genocidas e atómicas; contra a Autoridade Palestiniana, por nunca ter cumprido um único ponto dos acordos de paz assinados com Israel... nada, nem sequer uma palavra contra.

A máxima, normalmente atribuída ao filósofo Edmund Burke: "A única coisa necessária para o triunfo do mal é que os homens de bem não façam nada", não poderia ser mais adequada ao tempo em que vivemos.

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Quinta-feira, 11 de Setembro de 2008

Passar ao lado da História

11 de Setembro, por pouco, não passava alheio à histórica data. Sem televisão em casa – bem, na verdade até temos o aparelho, mas há cinco meses que permanece desligado, ainda dentro da própria caixa –, o acesso ao mundo exterior é mais ocasional. Na yeshivá, apesar de ter mais de 100 alunos americanos, não ouvi falar do assunto.

Do jovem de 20 e poucos anos interessado em prosseguir uma carreira jornalística e viciado em telejornais e notícias, sou hoje um fraco consumidor de notícias e dos media. O sonho da carreira jornalística passou e o pouco uso que faço do que aprendi na faculdade é o (bastante útil) olhar crítico em relação às notícias e, obviamente, este humilde blog.

Há 7 anos, nesta altura estava em minha casa, a terminar as férias do Verão. Assistia, como fazia quase todos os dias, aos noticiários matinais no canal de notícias europeu EuroNews. Com noticiários de meia em meia-hora, é fácil estar em cima do acontecimento. Começara a transmitir as primeiras imagens de Nova Iorque, naquela manhã inesquecível. A princípio, os relatos da jornalista informavam a suspeita de que uma avioneta chocara contra uma das torres do World Trade Center. O que, a ser verdade, seria a segunda vez.

Eram quase 13 horas, o tempo dos noticiários de início da tarde nos canais portugueses. Passei a emissão para a SIC, que nessa altura já tinha interrompido o programa matinal de Fátima Lopes para mostrar as imagens da nuvem de fumo, do buraco na Torre Sul do WTC, acompanhada de relatos cheios de dúvidas do que acontecera. Três minutos depois do início do Jornal da Uma, em directo para a minha sala de estar – e para todo o mundo – o segundo avião chocou contra a Torre Sul.


Uma pessoa salta do World Trade Center depois da Torre Norte
ter sido atingida por um dos aviões sequestrados (AP Photo/Richard Drew).

Naquele momento, deixara de ser um estranho acidente, para passar a ser um macabro e terrível ataque terrorista. Naquela tarde, segui a emissão televisiva com um ávido apetite por notícias. Todos os programas foram suspensos e, em suspenso também eu fiquei, durante todo o dia, até às 2 da manhã do dia seguinte, quando o último dos canais nacionais (em minha casa em Portugal não havia, nem hoje existe, televisão por cabo) regressou à programação normal.

O auge do êxtase foi a inacreditável queda da primeira torre. Mesmo no conforto da minha sala, senti-me gelar de terror. Logo depois, a segunda torre a cair. Nem a mais demente produção de Hollywood poderia conceber um cenário daqueles. As imagens das pessoas trancadas nos edifícios a saltarem para a morte, foram algumas das mais sinistras experiências visuais a que assisti. Em que pensariam as pessoas no último momento antes de se lançarem? Era impossível não se interrogar...

No dia seguinte, apesar da continuação do tempo de férias, acordei cedo. A avidez de notícias – uma noite inteira de coisas a acontecer um pouco por todo o Mundo depois de uma tragédia daquelas! – despertou-me bem cedo e fez-me correr para a frente da televisão. Não conseguia deixar-me ficar sem saber o que se passava...

Os meses passaram, tiraram-se conclusões acerca das origens do ataque. Os EUA começaram uma guerra global que, há muito começara, mas que passara até então despercebida para a maioria das pessoas. Os muçulmanos ganharam um infame herói, Osama Bin Laden, auto-proposto salvador da sua civilização. O "choque de civilizações" retomava a sua sangrenta e imparável cavalgada. Muitos, mesmo depois de tantas mortes que causou, mantêm-no como o seu modelo. Triste, muito triste.

Invasão do Afeganistão, atrocidades e queda dos talibãs, Bali, 11 de Março em Madrid, Metro de Londres, Istambul, invasão do Iraque, falência de companhias aéreas. Foram apenas algumas das manchetes que surgiram nos meses e anos seguintes, relacionadas com o 11 de Setembro de 2001. Habituámo-nos à repetição de atentados: muda a geografia, mas a marca é a mesma. Rendemo-nos às novas regras de segurança nos aeroportos: depois do bombista dos sapatos obrigaram-nos a descalçar; com o terrorista da bomba-líquida proibiram-nos de levar mais de 100ml do que quer que fosse na bagagem de mão.

O nosso Mundo é hoje muito diferente daquele que existia em 2001. Porém, acostumámo-nos às mudanças. Cada um à sua maneira. Daí que, até eu, outrora um ávido consumidor de notícias, quase me tornei indiferente à data. Do lema: "Nunca esqueceremos", nesta como noutras tragédias, virou pouco mais que um slogan. Quase tudo daquilo que entrou na nossa vida após o 9/11 simplesmente já faz parte da nossa normalidade.


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Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Uma luz na selva

Ingrid Betancourt, libertada das garras dos guerrilheiros-traficantes das FARC (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia). A senadora e antiga candidata presidencial franco-colombiana estava sequestrada na selva há 6 anos. Uma boa notícia para a Colômbia.

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Domingo, 17 de Fevereiro de 2008

Sinistra trupe

Fidel, Ahmadinejad e três palhaços latino-americanos. Todos armados em justiceiros e redentores dos pobres. A imagem diz “Aliança pela Justiça”. A verdade é que em nenhum dos países governados por estes senhores se vive num estado de justiça.

A Venezuela há décadas que vive numa situação de enorme divisão social. Nada de novo para a América Latina. Os multimilionários e os miseráveis, lado a lado. Apenas com os altos muros dos condomínios privados e os vidros fumados dos carros topo-de-gama a separá-los. A promessa de Hugo Chavez de instaurar a justiça está longe do horizonte da Venezuela. A mentira chavista continua a enganar os ingénuos venezuelanos. Porém, a derrota num referendo recente parece ter furado as pretensões de eternidade de Chavez.

Ahmadinejad, o anão iraniano com aspirações nucleares, tomou como missão pessoal a eliminação de Israel do mapa. Os seus berros anti-Israel, a conferência de negação do Holocausto e outras demonstrações do seu elevado nível intelectual, são páginas de jornal todos os dias. Com o presente caso do filme holandês sobre o Corão, o regime iraniano também já mostrou as garras e já soaram as ameaças veladas à Holanda pelo atrevimento anti-islâmico.

Fidel, o pontífice dos ditadores, mantém a sua Cuba atrasada e por sua teimosia, isolada. A queda que sofreu durante um comício há poucos anos e a doença têm-no mantido afastado do contacto directo com as massas, mas o regime não parece cambalear. O irmão de Fidel, Raul Castro está destinado a suceder-lhe nos destinos de Cuba.

Ivo Morales, o índio presidente da Bolívia, herdou o mais pobre país da América do Sul. A sua política de nacionalizações das essenciais indústrias mineira e petrolífera só fizeram piorar o já triste cenário social boliviano.

O quinto elemento é o mais recente dos paradigmas de mau governo da América Central. Daniel Ortega, antigo ditador sandinista da Nicarágua, regressou ao poder da mais falida das Repúblicas das Bananas situadas entre o México e a Colômbia. Um regresso à miséria da utopia socialista centro-americana.

Perguntem a cada um dos súbditos – mentiria se lhes chamasse “cidadãos” – de qualquer de um destes países, o que acham da situação em que vivem. Se tivessem a mínima hipótese de se expressarem, sem medos de tenebrosas polícias secretas e aparelhos militares repressivos, a última coisa que diriam é que vivem sob o domínio da justiça. Esse etéreo conceito tão apregoado pelos seus líderes gritado a par com a luta contra o malévolo gigante americano.

O desejo de justiça seria certamente o mais ansiado dos seus sonhos. Um sonho que nunca alcançarão pelos senhores que os governam.

publicado por Boaz às 21:09
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Domingo, 7 de Outubro de 2007

A estrada da Birmânia

Depois dos protestos pela democracia em Rangum, brutalmente reprimidos pela sinistra polícia militar birmanesa, o Mundo parece ter despertado para o drama que há décadas se vive na Birmânia.

Aquele que os ocidentais raramente viam pelas revistas de viagens como um misterioso país de serenos monges budistas e magníficos pagodes dourados, apenas visitado por alguns turistas afoitos e bem recheados de dólares, é na verdade um dos mais terríveis e sanguinários infernos do planeta.

O país é governado por uma sádica "Junta" militar que teima em não aceitar os resultados eleitorais das últimas eleições democráticas que elegeram a líder da oposição Aung San Suu Kyi, sujeita há vários anos a um regime de prisão domiciliária.

Até há umas semanas era apenas mais um dos regimes ditatoriais esquecidos, ou melhor, coniventemente ignorados, como a China ou a Arábia Saudita. Quando o sangue jorra para as câmaras, torna-se difícil manter o silêncio. E virar a cara. Daí as manifs por todo o Mundo.


Manifestação na Malásia

Israel, tal como muitos países ocidentais, tem relações diplomáticas com a Birmânia. Hoje, a par das relações diplomáticas, existem relações económicas, em especial por numerosas empresas de armamento israelitas a fornecerem o regime militar birmanês. É óbvio que Israel não tem o exclusivo da venda de armas à Junta, mas de acordo com a publicação Jane's Intelligence Weekly, "empresas de segurança" israelitas são suspeitas de ter vendido Uzis e partes de espingardas de assalto Galil ao governo de Rangum. Ainda, mercenários israelitas são referidos como treinado a repressiva força policial do regime.

Até aos anos 70, Israel era conhecido entre os estados do Terceiro Mundo como o pequeno país que tinha feito florescer o deserto. Emissários de kibbutzim, as famosas cooperativas agrícolas israelitas, apoiavam projectos agrícolas por todo o continente africano. Depois da Guerra do Yom Kippur, o país abandonou os seus ideais agrários e a presença dos emissários agrícolas enviados pelo estado foi substituída pelas empresas de armamento e os mercenários.

Mercenários israelitas são conhecidos por ter trabalhado a favor de regimes autoritários em Angola, Argentina, Chile, Nicarágua, Congo ou Serra Leoa. A guarda pessoal de Manuel Noriega, ditador do Panamá, era dirigida por Mike Harari, um ex-agente da Mossad. São conhecidas também as ligações dos serviços secretos israelitas à antiga polícia do último Xá da Pérsia. Na Colômbia, o "rei dos mercenários" Yair Klein e seus capangas treinaram os esquadrões da morte da extrema-direita, cartéis de droga e outras organizações de terrível fama, dispostas a pagar milhões pelos seus serviços.

Se comparada com outros apoios, como o da petrolífera francesa Total, que explora campos de gás natural no sul da Birmânia no valor de muitos biliões de euros, é verdade que a parte do apoio israelita nesta equação é ínfima. De qualquer forma, a má fama que dá ao país não é negligenciável. Para lá da ainda mais pertinente questão moral.

O presidente Nicolas Sarcozy terá apelado às multinacionais francesas para congelarem investimentos na Birmânia, como retaliação à violência do regime. Vamos a ver se é só lábia de ocasião. Por enquanto, para a França, o sangue birmanês é mais amargo que o dos africanos, vítimas dos vários ditadores apoiados por Paris. Veremos se a influência da Total não adoça as bocas do Eliseu.

Israel é responsável por 10 a 12% das vendas de armamento a nível mundial. E, é evidente que esses negócios são feitos em virtude do lucro e de algumas considerações políticas. Se por um lado essas empresas com a anuência do governo não fazem, por razões claras, negócios com países árabes ou muçulmanos. Por outro, o governo deixa de ter legitimidade de criticar o apoio de empresas estrangeiras, russas ou chinesas, com o consentimento dos seus governos, a regimes como o Irão ou a Síria. Isto chama-se realpolitik.

Afinal, não existem princípios morais no negócio da guerra. Há interesses, nada mais. Israel faz os seus negócios de acordo com esses interesses e por essa via, perde a face para poder criticar com o argumento da moralidade, outros estados que fazem os seus negócios com os inimigos de Israel.

Custa afirmá-lo, mas no final, o sangue birmanês é tão vermelho como o israelita.

Nota: Estrada da Birmânia é o nome de uma rota construída pelas tropas israelitas, para abastecimento de Jerusalém, cercada por tropas árabes, durante a Guerra da Independência. O nome foi retirado da famosa estrada construída nas montanhas da Birmânia para permitir o abastecimento das tropas que combatiam os japoneses no sudeste asiático, durante a II Guerra Mundial.

publicado por Boaz às 15:32
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Segunda-feira, 3 de Setembro de 2007

Silêncio em Beslan

Passaram três anos desde o massacre na escola de Beslan, Rússia. Quem ainda se lembra?


Peluche e flores no chão do ginásio calcinado da escola nº 1 de Beslan

No primeiro dia de aulas, 1 de Setembro de 2004, um grupo de terroristas chechenos ocupou a escola da pequena cidade de Beslan, República da Ossécia do Norte, vizinha da Chechénia.

Após dois dias de sequestro, a 3 de Setembro, um esquadrão da polícia russa tomou a escola de assalto, desencadeando um tiroteio caótico com os terroristas. Resultado: Um massacre. Foram mortos pelos terroristas e pelas tropas russas quase 400 pessoas, dos quais 186 crianças, e ainda pais e professores confinados ao ginásio da escola.

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Domingo, 12 de Agosto de 2007

Glória enrugada

Os velhos impressionam-me com o seu sentido de dignidade. Bem expressada nesta foto que encontrei recentemente.


Ex-soldado com o uniforme do Exército Vermelho, emocionado,
nas celebrações do fim da II Guerra Mundial. Praçaa Vermelha, Moscovo, Maio 2007

E é óbvio, do ponto de vista jornalístico – apesar de ser também cínico – que as lágrimas são muito fotogénicas.

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publicado por Boaz às 16:47
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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Um Mundo (quase) perfeito

Despotismo estalinista na Coreia do Norte. Perseguição a opositores políticos e minorias étnicas e transferência forçada de populações na Birmânia. Violência sobre os opositores políticos (recentemente também sobre algumas personalidades religiosas discordantes), expulsão e espoliação de propriedade de membros da minoria branca no Zimbabwe. Grandes limitações na liberdade de imprensa e total repressão de opositores políticos em Cuba e na Bielorússia. Escravatura na Mauritânia e República Centro-Africana. Massacres e expulsões em massa contra minorias étnicas no Sudão, com participação activa de forças patrocinadas pelo governo. Tráfico de mulheres para escravatura sexual na Roménia, Ucrânia, Bulgária, Rússia e Ásia Central. Violência sectária no Iraque e Líbano. Esmagamento brutal de uma revolta separatista no Sri Lanka. Silenciamento dos meios de comunicação social críticos ao governo na Venezuela. Violência entre facções políticas em Timor-Leste.

Ausência de liberdade política no Egipto, Síria, Cuba, Bielorússia, Sudão, Líbia, Azerbeijão, Uzbequistão... Pena de morte (nalguns casos mesmo para menores) no Irão, Estados Unidos, China, Paquistão, Nepal, Birmânia, Cuba, Rússia, Vietname... Exploração de mão de obra e ausência de condições laborais na China, Índia, países do Golfo Pérsico, Tailândia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão... Excisão (mutilação sexual de mulheres) na Guiné-Bissau, Sudão, Egipto, Etiópia, Quénia, Somália, Burkina Faso, Mali... Perseguições de minorias religiosas no Irão, Arábia Saudita, China... Exploração sexual de crianças na Arábia Saudita, Índia, Paquistão, Bangladesh, Nepal, Cambodja, Tailândia, Indonésia... Mulheres como “cidadãos de segunda” no Irão, Arábia Saudita, Iémen, Kuwait, Afeganistão... Crianças usadas como combatentes em conflitos na Costa do Marfim, Somália, Uganda, Territórios Palestinianos, Sri Lanka... Exploração de mão-de-obra infantil no Peru, Bolívia, Brasil, Colômbia, Índia, Vietname, Paquistão, Afeganistão, México...


Crianças soldados e "mulheres de segunda"

Oh, como seria perfeito o Mundo, se não fosse... Israel.

A ver pela atenção dada pela Comissão de Direitos Humanos da ONU, violações de direitos humanos só acontecem em Israel. Casos gravíssimos de brutalidade patrocinada pelo governo no Sudão, Birmânia, Coreia do Norte ou Zimbabwe, são ignorados. Investigações agendadas sobre a situação em Cuba e na Bielorússia foram bloqueadas. Os meios da Comissão são devotados em permanentes críticas a Israel. Apenas.

Recentemente o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon foi atacado por criticar os estados islâmicos membros da Comissão, por ignorarem abusos dos direitos humanos em todo o Mundo e apontarem apenas Israel. A observação de Ban Ki-moon irritou a Organização da Conferência Islâmica quando disse, o mês passado, que a Comissão de Direitos Humanos da ONU deveria observar todas as situações de violações de direitos humanos.

Só parece não valer a pena olhar para eles.

publicado por Boaz às 12:50
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Domingo, 8 de Julho de 2007

Ousar a Utopia

Numa pesquisa recente na Internet encontrei no sítio da revista Foreign Policy uma série de textos de activistas e pensadores sobre a situação actual do nosso Mundo. O mote apresentado a esses pensadores, publicado na edição de Maio/Junho de 2007 foi apresentado como "21 soluções para salvar o Mundo". Implementação da democracia, respeito pelos direitos humanos, leis de mercado tendencialmente justas, alternativas energéticas, mudança de políticas ambientais para travar/reverter o aquecimento global, luta contra a pobreza ou acesso à educação, eram alguns dos gigantescos desafios para os quais apresentaram ideias.

Por exemplo, o ex-campeão mundial de xadrez Garry Kasparov, hoje convertido em activista político (e grande opositor de Vladimir Putin) propôs a assinatura de uma Magna Carta global que substituísse a caduca Organização das Nações Unidas. Afinal, como observa Kasparov, "terroristas e ditadores são recebidos com cortesia na arena da diplomacia, apesar do seu total desprezo, e até ódio pelo que representa a civilização ocidental."

Sendo a ONU uma organização onde democratas e tiranos são colocados no mesmo nível do palanque, e onde, para vergonha universal, os primeiros se deixam – em grande parte por via dos seus interesses em matérias-primas – manipular pelos segundos e fecham os olhos a gritantes atrocidades, a Magna Carta de Kasparov teria como valor absoluto a vida humana, em vez do território, a ideologia ou o comércio.

O escandaloso fosso entre os ricos e os pobres (só para que conste, Portugal é o segundo, entre os países desenvolvidos onde esse fosso é maior, logo atrás dos EUA) poderia ser atenuado por uma lei que tornaria realidade a máxima de Robin dos Bosques. Não sob a forma de assaltos as carteiras mais recheadas, mas leis que, de princípio limitariam a acumulação de riqueza. Actualmente, a absoluta e aparentemente intocável liberdade de mercado permite por um lado uma acumulação de riquezas sem limites, por outro, uma implacável submissão à lei do mais forte.

Assim, naquilo a que chamou "o embaraço da riqueza", o professor Howard Gardner, de Harvard, propõe um limite ao enriquecimento individual. Afinal, para que faz uma pessoa com os seus lucros anuais de 200 milhões de dólares? Como pode o Mundo ser justo quando há empresários que ganham no final do ano, o equivalente ao Produto Nacional Bruto de alguns pequenos países? (Ou, por exemplo, o orçamento de um clube de futebol como o Manchester United ser equivalente ao valor das exportações do Burundi?).

Gardner propõe como salário anual máximo o equivalente a 100 vezes o salário médio de um trabalhador desse país. Por exemplo, se o trabalhador médio aufere 40,000 dólares, o mais bem pago do país receberia um máximo de 4 milhões. Ainda, cada indivíduo não poderia acumular como fortuna pessoal mais do que 50 vezes o rendimento máximo permitido anualmente. Duzentos milhões de dólares constituiriam então o limite máximo de riqueza. Ainda assim generoso, não?

Qualquer rendimento adicional teria de reverter para caridade ou para o governo sob a forma de doação geral, ou dirigido a um qualquer fim específico, como a assistência aos veteranos de guerra ou um fundo de apoio às artes. Com os biliões acumulados mundialmente, haveria finalmente dinheiro para implantar os projectos urgentes para resolver os grandes e, aparentemente insolúveis, problemas da Humanidade.

Pode parecer utópico um plano deste género, mas vejamos que, ao longo dos séculos ideias tidas como revolucionárias, apesar de enormes objecções, conseguiram abolir instituições tão enraizadas na sociedade como a escravatura, ou a implantação do direito de voto universal.

As soluções não foram apresentadas como mágicas, nem com a facilidade que se associa mais aos super-heróis do que aos simples mortais que somos. Baseiam-se na urgência de soluções corajosas e radicais para resolver os desafios do Mundo actual. Um Mundo que não pode esperar nem pela lentidão da evolução política e muito menos pelo contínuo cinismo dos governantes.

Nestes, como noutros casos no passado, serão os visionários que alguns chamarão de loucos e sonhadores a encontrar resoluções onde outros apenas viam castelos nas nuvens.

publicado por Boaz às 21:31
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Quarta-feira, 6 de Junho de 2007

Silêncios ao som das bombas

Desde há quase duas semanas, que todos os dias ouvimos e vemos nas notícias o regresso da violência em larga escala no Líbano. O exército libanês ataca com toda a sua força as posições de uma tal Fatah al-Islam, um grupo terrorista palestiniano derivado da OLP e com alegadas ligações à Al-Qaeda em dois campos de refugiados. Os sinistros membros desse grupo terrorista fizeram já saber que lutarão até à morte. Como todo o bom terrorista, aliás.

Ao mesmo tempo que a situação se arrasta, não vemos qualquer reacção dos nossos "defensores dos oprimidos" de ocasião. Voltemos então no tempo até Março de 2002 e façamos uma breve comparação.

Na altura, a Europa tinha manifestações umas atrás das outras a condenar Israel por uma acção militar no campo de refugiados de Jenin, onde o exército israelita combatia militantes palestinianos armados. Israel foi, sem piedade, acusado de enormes atrocidades e de matar centenas de civis. Mesmo em Lisboa, frente à embaixada israelita, bloquistas, comunistas e simpatizantes gritaram slogans acusatórios e empunharam cartazes mostrando de um lado, uma inocente e heróica criancinha palestiniana de pedra na mão e do outro, o arrogante e terrível tanque israelita.

"Estes bárbaros são capazes de tudo!" rosnava um músico decadente aos microfones da televisão. "Podiam ser os nossos filhos...", carpia uma mãezinha amargurada de cartaz em punho.

Investigações posteriores por parte de observadores internacionais provaram que as "centenas de civis chacinados" em Jenin foram afinal 70 e, na sua maioria, militantes armados. Na altura, Israel mandou soldados de infantaria para o terreno para minorar as baixas civis e limitar a destruição. Mesmo assim as acusações choveram contra Israel, apesar de terem morrido mais de 20 soldados do Tzahal durante a operação.

Ora, de volta ao presente, o exército libanês bombardeia diariamente e com artilharia pesada campos de refugiados no norte e no sul do país, onde muitos civis ainda se encontram encarcerados sem conseguir escapar do meio dos combates.

E os justiceiros da nossa praça calam-se. Parecem não ver as ligações entre os casos. É que até os coitadinhos são aparentados: tanto a Fatah al-Islam de Nahr al-Bared, como as Brigadas dos Mártires de Al-Aqsa de Jenin descendem de uma forma ou de outra do aparelho da OLP, a organização fundada pelo saudoso Yasser Arafat, o grande herói da malta que gritava contra Israel por essa Europa fora em 2002.

A razão deste silêncio é evidente. Afinal, é ideia aceite que os Árabes e os Muçulmanos são inimputáveis. Afinal, se eles se matam entre eles, alguma razão devem ter. Seja o exército libanês, os sunitas e xiitas em guerra aberta entre si no Iraque, os talibãs no Afeganistão, os lacaios do governo sudanês no Darfur, os senhores da guerra na Somália e por aí em diante. A lista seguiria longa. Só vale mesmo a pena ladrar e empunhar vistosos cartazes quando são as bestas ocidentais a matar cidadãos árabes. Seja Israel (posto avançado do Ocidente no Mundo Árabe), sejam os EUA no Iraque.

É que é apenas seguindo este modelo que o tradicional maniqueísmo da esquerda europeia funciona. É óbvio que esses senhores não estão para admitir que os seus modelos de valores estão, há muito, caducos.

publicado por Boaz às 20:47
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