Terça-feira, 10 de Julho de 2012

Morto e envenenado (por esta ordem)

Quase oito anos depois da sua morte, Yasser Arafat é ressuscitado. Apenas nas notícias (Alá seja louvado).

Uma investigação divulgada pela rede de televisão Al-Jazeera revelou que altos níveis do elemento radioativo polónio-210 foram encontrados em alguns objetos pessoais de Arafat. Os objetos estavam na posse de Suha Arafat, a viúva do histórico líder palestiniano e foram analisados pelo Instituto de Física Radiactiva de Lausanne, na Suíça. A morte de Arafat, num hospital de Paris a 11 de Novembro de 2004, continua a ser fonte de muita especulação, aumentada pela não realização de uma autópsia. A divulgação do relatório médico integral foi sempre recusada tanto pela viúva como pela Autoridade Palestiniana. As teorias acumulam-se.


Guarda de honra no túmulo de Yasser Arafat, na Muqata, o complexo governamental
da Autoridade Palestiniana, em Ramallah (Tristam Sparks, Wikipedia)

O médico pessoal de Arafat durante 18 anos, Ashraf al-Kurdi, que o assistia permanentemente, mesmo em caso de um simples resfriado, não teve qualquer acesso ao líder palestiniano quando o seu estado de saúde se deteriorou gravemente em Novembro de 2004. A viúva Arafat proibiu-o até de visitar Arafat no hospital francês onde estava a ser tratado e, posteriormente, de inspeccionar o cadáver. Apesar das opiniões dos médicos franceses que foram divulgadas não terem sido conclusivas para apurar a causa de morte de Arafat, Suha também recusou a realização de uma autópsia. Haveria algo a esconder? Decerto, se fosse algo que facilmente incriminasse Israel, uma autópsia teria sido feita sem demora...

Resultados divulgados em 2005 indicaram que Arafat morrera de um acidente vascular cerebral desencadeado por uma doença desconhecida. Análises desses resultados sugeriram como causa de morte uma infecção, envenenamento ou até Sida. Apesar dos seus numerosos rivais entre o aparelho político palestiniano, suspeitas de um envenenamento recairiam sempre sobre Israel. (Quem mais?)

A suspeita de morte devido a Sida foi uma das mais difundidas em várias investigações dos relatórios médicos parciais. De acordo com fontes do governo americano, a CIA tinha conhecimento da doença de Arafat, e recomendou a Israel não assassinar o líder palestiniano. Ao falecer com a doença, Arafat ficaria irremediavelmente desacreditado pelos rumores relacionando a Sida à homossexualidade. Aliás, a alegada homossexualidade de Arafat foi documentada em 1987, no livro Red Horizons: Chronicles of a Communist Spy Chief, ("Horizontes Vermelhos: Crónicas de um chefe espião comunista") de Ian Mihai Pacepa, um antigo general da Securitate, o serviço secreto da Roménia comunista. O livro, que descreve entre outros assuntos a relação próxima entre o KGB, a Securitate e a OPL, relata que durante as suas visitas a Bucareste (Arafat era um protegido do regime de Ceausescu e fora treinado pelo KGB nos anos de 1970-80) o quarto do líder da OLP estava sob escuta. As orgias entre Arafat e os seus guarda-costas alemães-orientais eram gravadas e foram relatadas detalhadamente por Constantin Munteaunu, o general romeno destacado para a OLP.

Mas voltando ao polónio descoberto nos bens pessoais de Arafat. Esse elemento radioativo tem uma "meia-vida" de 138 dias, o que significa que metade da substância se degrada a cada quatro meses e meio. Porém, oito anos após a morte de Arafat, o relatório dos cientistas suíços refere níveis altos da substância. Ely Karmon, especialista em terrorismo nuclear, biológico e químico do Instituto de Contra-terrorismo de Herzlyia, explicou que "Se tivesse sido usado para envenenamento, níveis mínimos seriam encontrados nesta altura. Todavia, níveis muito mais altos foram encontrados. Alguém colocou o polónio muito mais tarde." O mesmo investigador questionou-se sobre alguns dados da investigação da Al-Jazeera. "Se Suha Arafat guardou estes objetos contaminados, porque sete anos depois ela não foi também envenenada? Ela tocou estes pertences de Arafat no hospital". A profundidade da investigação da televisão Al-Jazeera foi também questionada, entre outros pontos, por não ter sido verificada a existência de polónio nas casas de Suha em Paris e Malta. Além disso, as informações divulgadas pelos médicos franceses que trataram Arafat não coincidem com um envenenamento com polónio.

O governo de Israel negou qualquer envolvimento nos novos rumores sobre a morte do líder palestiniano. Paul Hirschon, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, mostrou-se céptico em relação às novas suspeitas, gracejando: "De repente, Suha estava a verificar o seu cesto de roupa suja e descobriu coisas que não foram lavadas há oito anos. Subitamente, umas peças de roupa aparecem; são testadas e pronto! Têm polónio!"

Como se nada de mais grave acontecesse no Médio Oriente, a Liga Árabe convocou uma reunião para debater as novas alegações sobre a misteriosa morte de Arafat. Os milhares de mortos na guerra civil da Síria; a insegurança no Iraque, Iémen e Bahrain; o fanatismo islâmico e o terrorismo que daí provém; o Irão em trajetória nuclear; as mulheres tratadas como objectos; os cristãos, bahaí’is e opositores políticos perseguidos; os jovens desempregados e sem futuro; a corrupção dos regimes e milhões de cidadãos sem direitos, todos podem esperar pelas decisões dos xeques e ditadores árabes.

Agora, como há mais de 50 anos, os árabes esperam pela resolução dos seus problemas. E, agora como há mais de 50 anos, os seus líderes adiam a discussão desses mesmos problemas, até que a Palestina e os seus mitos sejam resolvidos. Onde quer que esteja, Yasser Arafat estará exultante, com mais uma das suas bem montadas encenações.

publicado por Boaz às 22:57
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Quinta-feira, 11 de Março de 2010

O legado dos Patriarcas nas mãos dos políticos

No dia 21 de Janeiro, o governo de Israel apresentou um plano de restauro do património nacional. Num país marcado pela história religiosa de Judeus, Cristãos e Muçulmanos, é óbvio que locais sagrados seriam incluídos no documento. Todavia, a lista não teria chegado às primeiras páginas dos jornais e levantado polémica – inclusive a nível internacional –, se não constassem locais nos chamados Territórios Palestinianos.

Kever Rachel, o túmulo da matriarca Raquel na entrada da cidade de Belém, e Maarat HaMachpelá, a Gruta dos Patriarcas em Hebron, são os pontos da polémica. Depois da divulgação da lista, ocorreram confrontos entre residentes árabes e o exército israelita que controla uma parte da cidade de Hebron.


Maarat HaMachpela
, a Gruta dos Patriarcas, em Hebron.
O local é partilhado por Judeus e Muçulmanos.
Uma multidão de peregrinos judeus espera para entrar na sala do túmulo de Isaac,
onde o acesso de Judeus é permitido apenas duas vezes por ano.

De acordo com a declaração do governo, uma das intenções ao formular esta lista é promover a preservação dos locais e permitir o acesso a pessoas de todas as religiões. "A nossa existência aqui, no nosso país, depende não apenas da força do Tzahal (Forças de Defesa de Israel) e do nosso poderio económico e tecnológico. Está ancorada, mais do que tudo, no nosso legado nacional e emocional, o qual nós inspiramos na nossa juventude e nas próximas gerações".

É evidente que a lista tem uma intenção política, mostrando o plano político de afirmar o controle israelita desses locais. Porém, existe também seriedade na decisão do governo de Israel em querer preservar património judaico em locais reclamados por Muçulmanos. A história deu a Israel, e aos Judeus em geral, provas evidentes do destino dos locais sagrados judaicos quando caem sob a tutela dos não-judeus, em especial dos poderes árabes.

Em 1994, quando foi instituída a Autoridade Nacional Palestiniana (ANP), Israel entregou à nova entidade o controlo da cidade de Jericó e da maioria da Faixa de Gaza. Em Jericó, logo após a transmissão de poderes para a ANP, polícias palestinianos subiram ao telhado da antiga sinagoga “Shalom al Israel” e ostentaram a bandeira palestiniana, num sinal de evidente desprezo pelo lugar. No ano 2000, com o estalar da segunda Intifada, livros sagrados e relíquias da sinagoga foram queimados, o antigo chão de mosaico destruído e o local foi transformado numa mesquita.

Em Shechem (Nablus), no mesmo dia da entrega da cidade à Autoridade Palestiniana, em 17 de Outubro de 2000, uma multidão de palestinianos saqueou o antigo túmulo de José, um dos filhos do patriarca Jacob, esmagando a cúpula com picaretas e ateando fogo ao santuário. Após o ataque, o exército de Israel proibiu o acesso ao local aos peregrinos judeus, por motivos de segurança. Alguns dias depois, iniciaram-se obras de reconstrução e as autoridades palestinianas proibiram os peregrinos judeus de rezarem no local, até que uma comissão internacional independente determinasse se o local era santo para Muçulmanos ou para Judeus. (Mas nunca para ambos?) Ainda assim, de forma clandestina alguns peregrinos atreviam-se, de tempos a tempos, a visitar o local.

Com o tempo o santuário foi sujeito a vários atos de vandalismo, tornando-se depósito de lixo e de queima de pneus. Em 2007, jovens palestinianos de novo encheram o local de pneus e atearam-lhes fogo. Em resposta, o líder palestiniano Mahmud Abbas declarou o túmulo local santo islâmico. (A santidade da terra queimada...) Esse novo estatuto não salvou o lugar da selvajaria e da profanação. Em Abril de 2009, a pedra tumular foi esmagada e suásticas pintadas nas paredes.

A ONU e a UNESCO protestaram imediatamente a inclusão do Túmulo de Raquel e da Gruta dos Patriarcas na recente lista israelita do património a preservar. Porém, nunca protestaram a sucessiva depredação do Túmulo de José nem o vandalismo em Jericó ou em dezenas de outros locais judaicos – antigas sinagogas e túmulos de personagens bíblicos – situados em áreas controladas pela Autoridade Palestiniana.

No entanto, não foi apenas às mãos dos palestinianos que o património judaico foi vandalizado e desprezado. No Iraque, outrora pátria de uma significativa comunidade judaica, o túmulo do profeta Yechezkel (Ezequiel) era local de peregrinação de Judeus, Cristãos e Muçulmanos. Durante séculos, o santuário esteve ao cuidado da numerosa comunidade judaica. Após a independência de Israel, em 1948, os judeus iraquianos foram alvo de campanhas de intimidação e a maioria abandonou o Iraque. O venerado túmulo do profeta foi caindo em ruína.

Recentemente, as autoridades iraquianas iniciaram obras no local com vista à sua preservação. Porém, inscrições em hebraico e outros sinais judaicos foram apagados. A intenção é transformar o túmulo numa mesquita. Outros milenares túmulos judaicos no Iraque, como os do profeta Jonas, de Ezra o Escriba e do Rei Tzidkiahu (Zedequias) poderão num futuro próximo ser alvo da islamização forçada.

A lista do património a defender pelo Estado de Israel levantou críticas entre alguns políticos muçulmanos. Uma das mais ofensivas foi a do PM turco, Recep Tayyip Erdogan. Um jornal saudita citou-o, dizendo que o Túmulo de Raquel e a Gruta dos Patriarcas "não foram e nunca serão locais judaicos, mas islâmicos".

Na verdade, o acesso à Gruta dos Patriarcas tem sido partilhado entre Judeus e Muçulmanos, já que estes reconhecem o local como a Mesquita de Al-Ibrahim. No caso de Kever Rachel, após mais de 1700 anos de reconhecimento como o túmulo da matriarca Raquel, no ano 2000, muçulmanos começaram a chamar o local como mesquita Bilal ibn Rabah. Desde então, a novíssima denominação muçulmana passou a integrar o discurso politico palestiniano.

A cínica ignorância histórica de Erdogan, um político considerado moderado, é apenas mais um episódio de uma sistemática campanha para tentar romper qualquer ligação dos Judeus à Terra de Israel e a Jerusalém. Para além de argumentos religiosos, históricos e políticos sobre o direito de controlo e preservação, ou no mínimo de acesso de peregrinos judeus aos locais sagrados judaicos na Judeia e Samaria, a situação no terreno desde os Acordos de Oslo tem mostrado que os Palestinianos não têm respeitado o seu compromisso de preservação e liberdade de acesso a estes locais de culto.

O Túmulo de Raquel, reconhecido como um santuário judaico por mais de 2000 anos, e como tal mencionado inclusive em abundante literatura islâmica, tornou-se um local disputado por reclamações recentes. Tal como fizeram em outras ocasiões, os Palestinianos usam reais ou imaginárias reclamações religiosas para conseguir capital político para a sua campanha nacional. Nos sermões dos políticos árabes e dos imãs muçulmanos, uma das novidades é insistir que até o antigo Templo de Salomão não foi construído em Jerusalém. Para estes arqueólogos e historiadores de quintal, o Templo afinal foi construído... no Iémen.

publicado por Boaz às 23:46
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Terça-feira, 1 de Setembro de 2009

Parabéns amigo ditador

Há 40 anos, um coronel do exército da Líbia tomou o poder no país por uma Revolução a que chamam "o Grande Al-Fateh". Quatro décadas depois, Muammar Khadafi, o tal coronel golpista ainda controla os destinos da Líbia. Foram 40 anos marcados pela mais feroz doutrina laica alguma vez a tomar o poder num país muçulmano. O único avanço civilizacional a avançar na sociedade líbia - ao contrário da regra islâmica - foi mesmo a instauração de igualdade entre mulheres e homens. Ao menos isso temos de agradecer ao coronel. Porém...

Apoio ao terrorismo internacional, com a causa palestiniana à cabeça. Um atentado contra uma discoteca alemã onde morreram militares americanos e a bomba no avião da companhia PanAm que se despenhou em Lockerbie, na Escócia são outras das marcas do anti-americanismo militante que marcou o isolamento internacional da Líbia.

A exemplo de outros regimes ditatoriais em final de existência, como a União Soviética de Gorbatchov, a Líbia tenta a aproximação ao Ocidente. É um dos mais influentes países na diplomacia africana com um ou outro caso de sucesso na mediação de conflitos.

As suas reservas enormes de petróleo e gás tão apetecidas pela Europa parecem tornar os políticos e ainda mais as empresas europeias completamente indiferentes aos abusos cometidos pela Líbia. Ainda esta semana, o autor do atentado de Lockerbie foi recebido na capital líbia Tripoli por milhares de pessoas, depois de ter sido libertado de uma cadeia inglesa (alegadamente para facilitar um negócio multimilionário da petrolífera inglesa BP). Dai que as monumentais celebrações dos 40 anos da Revolução Líbia contem com a presença de altos dignitários europeus. O Primeiro Ministro Silvio Berlusconi, de Itália – a Líbia foi colónia italiana – e o português Luís Amado são alguns dos amigos de Khadafi.

É vergonhoso que um país democrático como Portugal se faça representar ao mais alto nível para festejar a ascensão ao poder de um ditador. Como a Líbia não é a única ditadura que merece ser celebrada, espera-se que Luís Amado ou até o Primeiro-Ministro José Sócrates estejam no próximo 9 de Setembro, em Pyongyang entre milhares de alegres criancinhas norte-coreanas – bem alimentadas para a ocasião – que exultarão pela gloriosa independência do país e subida ao poder do antigo "Grande Líder" Kim il-Sung.

A 7 de Outubro estarão na China, para festejar os 59 anos do início da invasão chinesa do Tibete. Como a vergonha não combina com os negócios e tantas vezes faz esquecer a história, até é possível que no próximo 7 de Dezembro se reúnam na Indonésia a lembrar a gloriosa a patriótica invasão de Timor-Leste, ocorrida há 34 anos. E por aí sucessivamente.

publicado por Boaz às 20:20
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

O arco da crise

Com frequência, analistas, jornalistas e políticos referem-se à resolução do conflito entre Israel e os Palestinianos como a chave para a estabilização do Médio Oriente e daí, de todo o Planeta.

Recentemente, o Iraq Study Group (ISG) liderado por James Baker, antigo Secretário de Estado americano foi incumbido pelo presidente Bush de encontrar formas para vencer a guerra no Iraque, de uma forma mais rápida e menos custosa. Em sangue e dólares. A conclusão do ISG foi: "a resolução a disputa Israel-Palestina" é a chave para ganhar a guerra no Iraque.

A ideia da centralidade do conflito Israel-Palestinianos não é exclusiva de James Baker e seus associados. Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU partilha da mesma ideia. E também, aparentemente, o seu sucessor Ban Ki-Moon, que recentemente disse a um jornal sul-coreano: "Se as questões no conflito entre Israel e a Palestina [sic] forem bem, outras questões no Médio Oriente... irão da mesma forma ser resolvidas."

Será o conflito entre Israel e os Palestinianos assim tão central no Mundo e mesmo no Médio Oriente?

Façamos então um passeio pelo Grande Médio Oriente, ao qual Tony Blair chamou "o arco da crise". Estendendo-se do Atlântico ao Índico, compreende 22 países. Dezasseis deles árabes, mais a Turquia, Arménia, Azerbeijão, Israel, Irão, Afeganistão e Paquistão. Todos foram fundados após o desmembramento de algum império colonial. Como primeiro sinal de instabilidade, saiba-se que nenhum destes estados goza de fronteiras inteiramente reconhecidas. Todos têm diferendos fronteiriços com um ou mais vizinhos, reclamando partes dos seus territórios. A maioria já travou guerras em consequência dessas reclamações.

Comecemos a digressão pelo Afeganistão. Reclama a soberania sobre a paquistanesa Província da Fronteira Noroeste. Na década de 1960, os dois países travaram uma série de guerras fronteiriças pelo controle da região. O Irão, por seu lado, insiste no direito de supervisão no oeste do Afeganistão baseado no Tratado de Paris de 1855. Iranianos e afegãos disputam ainda as águas de três rios fronteiriços, o Hirmand, o Parian e o Harirud.

O Paquistão desde 1947 mantém uma longa disputa territorial com a Índia pelo controle de Caxemira, desde a divisão do antigo Império Britânico da Índia, em dois estados, em 1947. Caxemira foi a origem de três guerras em larga escala e numerosos episódios de violência na fronteira entre os dois países. É responsável ainda pela corrida de ambos às armas nucleares, além de centenas de ataques terroristas, sobretudo na Caxemira indiana. Além de Caxemira, o Paquistão mantém uma disputa com o Irão sobre águas territoriais no Mar Arábico e sobre a nacionalidade de várias tribos de etnia Baluch que vivem dos dois lados da fronteira entre os dos países.

Numa escala muito maior, o Irão e o Iraque travaram uma série de guerras desde 1936 pelo controle o estuário do Shatt al-Arab. Um tratado de paz foi assinado em 1975, mas em 1980 Saddam Hussein invadiu o Irão, começando uma guerra de oito anos e que fez mais de um milhão de mortos nos dois lados. Desde a deposição de Saddam em 2003, o Irão redesenhou a fronteira a seu favor. E continua a reclamar o direito de supervisão sobre santuários xiitas no Iraque como Samara ou Karbala.


Irão, Esquadrão de fuzilamento nos primeiros anos da Revolução Islâmica.
Foto de Jahangir Razmi, fotógrafo iraniano. Prémio Pulitzer

A sul, e desde 1971, o Irão reclama dos Emirados Árabes o controle de três estratégicas ilhas no estreito de Ormuz, por onde flúi diariamente metade do petróleo do Mundo. A norte, luta com o Turquemenistão, o Kazaquistão, o Azerbeijão e a Rússia pelo Mar Cáspio. Os vizinhos pretendem a divisão deste mar interior conforme a extensão das suas fronteiras. Para reclamar a divisão equitativa que duplicaria a sua extensão do Cáspio, o Irão mantém desde 1995 uma marinha de guerra e impede as petrolíferas internacionais de explorarem gás e petróleo nas águas azeris e turcumenas que Teerão reclama como suas. Teerão tenta ainda manter um controlo da província de Khuzestan, rica em petróleo. A região teve uma maioria de população árabe até à década de 1940. Desde então tem sido sistematicamente "persianizada." Recentemente, várias tribos árabes residentes perto da fronteira iraquiana foram expulsas e substituídas por habitantes persas do centro do Irão.

O Irão é visto pelos países árabes como uma ameaça directa, em especial os Estados do Golfo. No entanto, mesmo entre estes, as relações não são amistosas. Apesar das relações tribais entre as famílias reais da região, a Arábia Saudita travou em 1955 uma guerra com Omã pelo controle do oásis de Buraimi, alegadamente rico em petróleo. Décadas de negociações não foram suficientes para se chegar a um acordo. No ano passado os Emiratos Árabes renunciaram a um tratado de 1974 com a Arábia Saudita, adivinhando-se uma terceira reclamação sobre o oásis.

Desde o final da década de 1990, o Qatar luta com os sauditas pela região de Khor al-Udaid, rica em petróleo. Em 2000, os sauditas anexaram a área à força, cortando assim a fronteira do Qatar com os Emiratos. O Qatar reclama do vizinho Bahrain o controle das ilhas de Hawar, travando uma guerra naval em 2001.

Entre a Arábia Saudita e o Kuwait, alegadamente os mais próximos dentre os Estados do Golfo, mantém-se o diferendo acerca da demarcação de fronteiras na chamada "Zona Neutra." Após a Guerra do Golfo de 1992-93, a fronteira do Kuwait com o Iraque foi estabelecida. Todavia, mesmo o parlamento eleito do Iraque não abdicou ainda da reclamação de soberania sobre as ilhas kuwaitianas de Warbah e Bubiyan e da parte sul dos campos petrolíferos de Rumailah atribuídos ao Kuwait pela ONU. A desconfiança em relação a Bagdade, levou o governo do Kuwait a erguer fortificações, cercas electrificadas, armadilhas anti-tanque e a implantar uma “terra de ninguém” que se estende numa faixa de 15 quilómetros. A Arábia Saudita tem em construção estruturas similares na sua fronteira com o Iraque.

A dinastia hashemita da Jordânia mantém há décadas uma reclamação de suserania sobre a província saudita de Hejaz, onde se situam as cidades santas de Meca e Medina, despojada do controle das tribos hashemitas em 1924 pelas tribos que compõem a actual família real saudita. A cada onda de pressão sobre a casa real saudita pela Al-Qaeda ou por militantes xiitas, de Amã ouvem-se apoios a um Hejaz independente.

O Iémen continua sem conseguir traçar a sua fronteira com Omã ao longo do Golfo de Hauf e no deserto de Rub al-Khali, “o vazio da Arábia”. Em 1999 travou uma guerra com a Eritreia pelo controle das ilhas Hanish, um arquipélago estratégico na entrada do Mar Vermelho.

Desde os anos de 1940, o Iraque e a Síria mantêm um diferendo com a Turquia pela divisão das águas do Rio Eufrates. Ainda, tanto a Síria como o Iraque reclamam a província turca de Iskanderun, onde os Árabes compõem 30% da população. A Turquia reclama o direito de supervisão do Norte do Iraque baseado no Tratado de Lausanne de 1923, em especial sobre as regiões petrolíferas de Mossul e Kirkuk e tem treinado e armado grupos tribais turcomanos na região. Na década de 1990, a Turquia actuou militarmente na região na sua guerra contra a milícia marxista curda do PKK.

A Síria reclama a totalidade do Líbano como parte da "Grande Síria", da qual reclama também fazerem parte a Palestina histórica e parte do Norte da Jordânia. Em quase 30 dos 50 anos do Líbano independente, a Síria manteve aí um exército de ocupação e esteve activamente envolvida nas três guerras civis libanesas. A Síria foi em grande parte responsável pela morte de mais de 100 mil libaneses e pela fuga de outros dois milhões e meio. No ano passado, a Síria e o seu maior aliado, o Irão, encorajaram o Hezbollah a travar uma guerra com Israel. Nos últimos anos, Damasco tem sido responsável por grande parte da agitação social e política no Líbano e por uma série de assassinatos políticos, incluindo o primeiro-ministro Rafik Hariri.

O Egipto, o maior dos estados árabes, mantém divergências fronteiriças com a Líbia e o Sudão. Na década de 1960 fomentou várias guerras por todo o mundo árabe. Desde a guerra 1958-62 na Argélia a um golpe de estado no Iémen que deflagrou uma guerra civil que se prolongou por seis anos e fez mais de 200 mil mortos. Recentemente, anexou partes do território sudanês e mantém um conflito intermitente com a Líbia sobre uma área do deserto Egípcio. Ironicamente, a sua única fronteira estável e reconhecida internacionalmente é aquela que o separa de Israel.

A Líbia é desde os anos 70 um dos grandes patrocinadores do terrorismo internacional. O atentado contra o avião da PanAm que se despenhou em Lockerbie e uma bomba numa discoteca alemã frequentada por soldados americanos estão no cadastro de Muamar Khaddafi. Mantém disputas com o Chade, a Tunísia e o Sudão. No Sudão desenrola-se um dos maiores desastres humanitários da actualidade, na região de Darfur. Centenas de milhares de mortos e mais de um milhão de refugiados, resultado dos massacres das milícias janjaweed apoiadas pelo governo central. Ao longo de várias décadas, o país esteve numa guerra civil. Árabes muçulmanos do Norte contra tribos negras cristãs e animistas do Sul. Mais de dois milhões de mortos e outros tantos refugiados até ao recente acordo de paz.

Marrocos, Argélia e Mauritânia têm lutado entre si pelo controlo do Saara Ocidental. A região foi anexada por Marrocos em 1975. Em retaliação, a Argélia tem apoiado a Frente Polisário, que reclama ser o governo legítimo do povo Saraui. Desde 1976 que Marrocos e a Frente Polisário travam uma guerra de baixa intensidade. Na década de 1990, Marrocos retribuiu à Argélia o seu apoio à Frente Polisario fechando os olhos à sangrenta campanha terrorista dos islamistas que custou a vida a mais de 250 mil argelinos.

Tudo isto é apenas uma síntese do que tem acontecido no "arco da crise". Nas últimas seis décadas, a região sofreu não menos de 22 guerras de larga escala em disputas de território e recursos, nenhuma delas tendo alguma coisa a ver com Israel ou os Palestinianos (se tem dúvidas, volte atrás e releia o artigo). Além disso, a história destes países tem sido dominada por séries de lutas domésticas, golpes de estado, ondas de violência étnica e sectária, em muitos casos com altos níveis de crueldade.

O Grande Médio Oriente tem-se caracterizado por uma crónica instabilidade, níveis baixos de desenvolvimento e atraso cultural. A região é a única zona do Mundo que, de um modo geral, passou ao lado da onda de mudanças positivas que se seguiram ao fim da Guerra Fria. Imprensa ou universidades privadas, sindicatos livres, partidos políticos ou liberdade de associação e expressão são realidades distantes. No século XXI, as linhas de produção das grandes marcas internacionais estenderam-se da Polónia ao Vietname ou ao Peru. Mas não à Síria ou ao Egipto. Nenhum destes estados tem, por exemplo, fábricas de automóveis ou de produtos de alta tecnologia.

Os déspotas que chefiam os estados entre a Mauritânia e o Paquistão há muito que pretendem desviar as atenções dos seus oprimidos súbditos com o sonho de atirar ao mar "o inimigo sionista". Como fazia o antigo presidente Nasser do Egipto, sempre que espreitava a ameaça da revolta política, logo se apressava a assegurar às massas do seu país e da "grande nação" árabe que a reforma política e social teria de esperar até que "o inimigo" fosse expulso da "nossa amada Palestina."

Para até um grupo de, aparentemente, homens sábios americanos, adoptar a mesma visão retrógrada e facilmente refutável, demonstra uma absoluta e perigosa ignorância da realidade.

Baseado num artigo de Amir Taheri, ex-editor do diário iraniano Kayhan, para a Commentary Magazine.

publicado por Boaz às 11:03
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Sexta-feira, 17 de Agosto de 2007

O engano do apartheid

Há não muito tempo estalou uma polémica em Israel acerca do conteúdo de um livro escrito pelo ex-presidente americano Jimmy Carter. Na obra “Palestine: Peace not Apartheid”, Carter comparou a sociedade israelita a um regime de apartheid. A ideia nem sequer é original. Há anos que virou bandeira da esquerda radical europeia, grafitada em paredes por todo o continente. A surpresa foi a adesão de alguém com o gabarito e as responsabilidades de Jimmy Carter a tal pensamento.

Contrapondo à assunção apartheidista de Carter, estão os dados de um estudo realizado pelo conceituado Peace Index da Universidade de Tel Aviv, pouco tempo depois da Segunda Guerra do Líbano, ocorrida há um ano. Os resultados revelaram que – contra todas as apostas, em especial as dos Cartistas – 73% dos Árabes de Israel preferem ser cidadãos de Israel do que de qualquer outro país do Mundo.

Estes resultados conjugam-se com os de outra investigação, efectuada pelo Joint Israeli-Palestinian Public Opinion Poll, que indicam que 52% dos Árabes de Israel concordam que "muitos dos cidadãos árabes de Israel se identificam com Israel em privado, mas evitam expressá-lo em público por pressões sociais".


Bandeiras de Israel e do Waqf, a autoridade muçulmana de Jerusalém,
hasteadas sobre o Monte do Templo

Não quero dizer que não exista descriminação ou preconceito em relação aos Árabes em Israel. As piadas que se contam deles são disso apenas um sinal. Todavia, vejamos que os Árabes israelitas, tal como muitas minorias em quase todos os países, enfrentam obstáculos no seu caminho para a igualdade. Sejam os Ciganos na Roménia ou em Portugal, os Negros nos EUA ou os Russos nos Estados Bálticos.

A situação dos Árabes em Israel está muito dependente da situação política e na delicada questão da segurança quotidiana. A cada ataque terrorista suicida cometido por um palestiniano, muitos israelitas sentiam-se cada vez mais desconfiados em relação à generalidade dos Árabes. E o facto de vários árabes israelitas terem participado activamente em operações terroristas ou ajudado os seus pares palestinianos, não ajudou a seu favor.

Os Árabes em Israel estão representados no parlamento. Aliás, os cidadãos árabes de Israel participam no processo democrático israelita mais livremente que os cidadãos de qualquer país árabe. Têm inclusive os seus próprios partidos políticos, apesar de haver também cidadãos árabes em vários partidos de maioria judaica. Salim Jubran, um juiz cristão árabe (sim, nem todos os árabes são muçulmanos – outra falácia muito difundida) tem um assento permanente no Supremo Tribunal de Israel. A liberdade de culto e a associação religiosa são direitos absolutos. Apenas as actividades de proselitismo são proibidas para qualquer confissão.

Apesar de estarem sub-representados, os cidadãos árabes são oficiais da polícia ou professores em todos os níveis de ensino e, no caso dos beduínos e dos druzos, participam como qualquer israelita nas Forças Armadas.

Então, em que ficamos? Existe apartheid ou orgulho nacional (mesmo que silencioso)?

publicado por Boaz às 11:04
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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Um Mundo (quase) perfeito

Despotismo estalinista na Coreia do Norte. Perseguição a opositores políticos e minorias étnicas e transferência forçada de populações na Birmânia. Violência sobre os opositores políticos (recentemente também sobre algumas personalidades religiosas discordantes), expulsão e espoliação de propriedade de membros da minoria branca no Zimbabwe. Grandes limitações na liberdade de imprensa e total repressão de opositores políticos em Cuba e na Bielorússia. Escravatura na Mauritânia e República Centro-Africana. Massacres e expulsões em massa contra minorias étnicas no Sudão, com participação activa de forças patrocinadas pelo governo. Tráfico de mulheres para escravatura sexual na Roménia, Ucrânia, Bulgária, Rússia e Ásia Central. Violência sectária no Iraque e Líbano. Esmagamento brutal de uma revolta separatista no Sri Lanka. Silenciamento dos meios de comunicação social críticos ao governo na Venezuela. Violência entre facções políticas em Timor-Leste.

Ausência de liberdade política no Egipto, Síria, Cuba, Bielorússia, Sudão, Líbia, Azerbeijão, Uzbequistão... Pena de morte (nalguns casos mesmo para menores) no Irão, Estados Unidos, China, Paquistão, Nepal, Birmânia, Cuba, Rússia, Vietname... Exploração de mão de obra e ausência de condições laborais na China, Índia, países do Golfo Pérsico, Tailândia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão... Excisão (mutilação sexual de mulheres) na Guiné-Bissau, Sudão, Egipto, Etiópia, Quénia, Somália, Burkina Faso, Mali... Perseguições de minorias religiosas no Irão, Arábia Saudita, China... Exploração sexual de crianças na Arábia Saudita, Índia, Paquistão, Bangladesh, Nepal, Cambodja, Tailândia, Indonésia... Mulheres como “cidadãos de segunda” no Irão, Arábia Saudita, Iémen, Kuwait, Afeganistão... Crianças usadas como combatentes em conflitos na Costa do Marfim, Somália, Uganda, Territórios Palestinianos, Sri Lanka... Exploração de mão-de-obra infantil no Peru, Bolívia, Brasil, Colômbia, Índia, Vietname, Paquistão, Afeganistão, México...


Crianças soldados e "mulheres de segunda"

Oh, como seria perfeito o Mundo, se não fosse... Israel.

A ver pela atenção dada pela Comissão de Direitos Humanos da ONU, violações de direitos humanos só acontecem em Israel. Casos gravíssimos de brutalidade patrocinada pelo governo no Sudão, Birmânia, Coreia do Norte ou Zimbabwe, são ignorados. Investigações agendadas sobre a situação em Cuba e na Bielorússia foram bloqueadas. Os meios da Comissão são devotados em permanentes críticas a Israel. Apenas.

Recentemente o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon foi atacado por criticar os estados islâmicos membros da Comissão, por ignorarem abusos dos direitos humanos em todo o Mundo e apontarem apenas Israel. A observação de Ban Ki-moon irritou a Organização da Conferência Islâmica quando disse, o mês passado, que a Comissão de Direitos Humanos da ONU deveria observar todas as situações de violações de direitos humanos.

Só parece não valer a pena olhar para eles.

publicado por Boaz às 12:50
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Sexta-feira, 26 de Janeiro de 2007

Adeus Europa

Num recente artigo do Jerusalem Post em tom gritante mas factualmente negro, o colunista Michael Freund apresentou factos que representam muito possivelmente o maior problema na Europa actual: o perigo de extinção. Essa extinção não é a de uma qualquer espécie animal rara, mas da própria Europa, da sua identidade tal como a conhecemos actualmente. E que tradicionalmente tomamos como a "moderna identidade europeia" forjada nos últimos séculos, desde talvez a Revolução Francesa.

O primeiro dos problemas apresentados por Freund é a evidente diminuição da fertilidade na população europeia. Um estudo da Rand Corporation revelou que as taxas de fertilidade estão em queda e os tamanhos das famílias a encolherem de década para década. Em todos os estados-membros da União Europeia, as taxas de fertilidade estão abaixo do valor de 2,1 filhos por mulher, o limiar absoluto de manutenção populacional. E este desastre silencioso alastrou por toda a Europa em apenas 20 anos.

No fundo da escala estão a Espanha, a Itália e a Grécia, países que há 30 anos tinham mesmo algumas das mais altas taxas de fertilidade do Velho Continente. Hoje, apresentam um valor a rondar os 1,3 filhos por mulher. Só no caso de Itália, a manter-se esta situação, a população descerá em mais de 1/3 nos próximos 25 anos. Na Alemanha, 30% das mulheres simplesmente não têm filhos. Nenhum.

Em 15 dos 27 estados da EU o número total de mortes anuais já excede o número de nascimentos. Na Europa, em termos absolutos, em 2004, morreram mais pessoas do que as que nasceram. Os cemitérios enchem enquanto as maternidades e os infantários têm cada vez menos demanda.

Federação das Repúblicas Islâmicas da Europa?

A par desta tragédia, um outro facto acontece paralelo e que significa só por si uma extrema alteração no panorama global da Europa: ao mesmo tempo que os Europeus caminham em direcção ao declínio, a população muçulmana na Europa Ocidental está em larga expansão.

Como refere Mark Steyn no seu recente livro América Alone, "Qual é a população muçulmana de Roterdão, Holanda? Quarenta por cento. Qual é o nome de bebé mais popular na Bélgica? Mohammed. Em Amsterdão? Mohammed. Em Malmoe, na Suécia? Mohammed." Em Inglaterra e Gales há hoje mais bebés chamados Mohammed do que George. Referindo-se a este facto com a tradicional ironia britânica o Daily Telegraph, disse que ele reflecte a diversidade étnica da população.

Se é verdade que com estes dados, a diversidade é a verdade mais evidente e até colorida, por outro lado também representa já a curto e inexoravelmente a longo prazo, uma mudança profunda em toda a paisagem humana do Continente.

E essa mudança cada vez mais veloz pode não ser - e não creio que realmente seja - a favor da Europa que conhecemos hoje. O Islão é, sem dúvida, a religião que mais cresce na Europa (e, já agora refira-se que também nos EUA). Projecções de um departamento federal dos EUA indicam que os 20 milhões de muçulmanos na UE, irão duplicar até 2025.

Como notou o autor Bruce Bawer em While Europe Slept (Enquanto a Europa Dormia, muito a propósito), em várias regiões da Europa Ocidental, 16 a 20% das crianças são hoje muçulmanas. Ou seja, num par de gerações vários estados europeus terão maiorias islâmicas.

Que implicações têm todas estas realidades no futuro da Europa? A tendência, numa sociedade onde desponta uma nova minoria em rápido crescimento, é o consequente crescimento das reclamações políticas e sociais dessa minoria. Aos poucos haverá mais e mais parlamentares representantes da minoria nos parlamentos da Europa (actualmente já existem em países como a França, Reino Unido ou Alemanha).

Mesmo num quadro em que os governos europeus decidam agir em favor da reversão da situação actual, e o consigam realizar, o que parece altamente improvável, os seus primeiros e discretos resultados aparecerão várias décadas antes de os seus efeitos sejam realmente sentidos.

E no entretanto, por força da sua influência crescente, a lei nacional tenderá por um lado a considerar acomodar costumes e regras da lei islâmica, actualmente não muito bem vistos pela sociedade europeia, como sejam o papel da mulher e da família. Por outro, os líderes políticos serão forçados pela opinião pública tradicional a ignorar a demanda dos seus cidadãos muçulmanos em reconhecer esses novos costumes como lei.

Inevitavelmente, o crescimento de uma cultura tomada na maior parte do Continente como "externa" e em parte "hostil" ou até "contrária" à cultura europeia irá causar reacções de oposição da população tradicional dos países. E como a evolução da situação é, inexoravelmente, para o crescimento da população muçulmana e decréscimo acentuado da população original, o panorama será certamente um conflito aberto. Num termo: guerra civil.

Para Israel, isso significa apenas o consumar de um processo já actualmente em curso: a tendência do alinhamento da Europa com o Mundo Árabe e a oposição a Israel. Até já há franjas da classe política na Europa que discutem (mesmo que discretamente) a legitimidade da existência de Israel.

Todo o panorama externo da Europa irá mudar. Já vemos isso hoje. O tradicional alinhamento Europa-EUA em muitas questões internacionais já não é hoje um facto seguro. A tendência será um desvio cada vez maior nos pontos de vista dos dois lados do Atlântico.

Imaginemos o que aconteceu aos índios na América, os africanos ou os indianos, com a chegada repentina dos brancos há alguns séculos atrás. Toda as culturas foram eternamente e drasticamente alteradas. Secções importantes desses povos pura e simplesmente desapareceram. Agora imaginemos um panorama idêntico mas em que é a cultura europeia a que está sob um implacável e imparável ataque. Toda a História é, sem dúvida uma eterna transformação. Nada é estático. Chegou a hora da Europa passar para a parte decrescente do gráfico.

Como concluiu sarcasticamente Michael Freund a sua crónica: "se nunca viu a Torre Eiffel ao vivo, é melhor não adiar muito. É que, antes que dê por isso, ela pode bem virar um minarete."

publicado por Boaz às 10:27
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Segunda-feira, 30 de Janeiro de 2006

Deixa-me rir (sem ofensa)

Garfield Maomé, em Ridiculopathy.com

O mundo islâmico, pouco conhecido pelo seu sentido de humor, em especial em relação a si mesmos, entrou em polvorosa por mais uma razão. Não bastava a habitual onda de violência em manifestações públicas de ódio contra Israel, agora o ódio virou-se também contra a - até agora inocente - Dinamarca.

O problema surgiu com a publicação no jornal Jyllands Posten de uma série de cartoons em que o profeta Maomé aparece, entre outras coisas, retratado com um rastilho saindo do seu turbante, fazendo a ligação directa entre a doutrina islâmica e o terrorismo. É obviamente ofensivo, mas a onda de protestos é um exagero e demontra uma enorme falta de maturidade das massas e dos poderes islâmicos em geral. Estranho é que os ditos cartoons tenham sido publicados há já quatro meses e, só agora tenha estalado o protesto...

Desconhecendo a noção de liberdade de imprensa e de independência editorial entre os media e o poder político, uma série de paises islâmicos decidiram chamar os seus embaixadores em Copenhaga e expressaram o seu repúdio ao governo dinamarquês pelo ultrage.

Nas ruas, multidões furiosas queimaram bandeiras dinamarquesas (por uns dias foi a bandeira mais queimada no mundo, em vez das israelitas e americanas). Embaixadas dinamarquesas receberam ameaças de bomba. Nos supermercados boicotaram-se os produtos dinamarqueses, malditos agora para os consumidores árabes.

Na Dinamarca, o editor do jornal pede desculpas mas defende-se com a liberdade de expressão. O governo pede desculpas tambem e alguém propõe a construção de uma mesquita em Copenhaga, para abrigar dignamente a comunidade islâmica do país. (Os 200 mil muçulmanos que vivem no país reunem-se em 50 mesquitas improvisadas.) Uma tentativa vã de limpar a cara e - pior que tudo - uma cedência aos radicais que ia dar razão aos seus protestos.

Até que ponto se pode brincar com os símbolos religiosos? Até onde se pode ir sem desencadear uma "guerra santa"?

Nota: Um artigo interessante de um site satírico, Ridiculopathy.com.

publicado por Boaz às 00:34
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Quinta-feira, 8 de Setembro de 2005

Como é difícil abdicar de velhos ódios

Vamos lá acabar com eles!Logo após a notícia do encontro em Istambul, dos ministros dos Negócios Estrangeiros de Israel e do Paquistão, Silvan Shalom e Khursheed Kasuri, milhares de pessoas manifestaram-se em Carachi e outras cidades paquistanesas, contra a possibilidade de aquele país islâmico poder, no futuro, reconhecer a existência da tão odiada "entidade sionista".

No ano passado, episódios idênticos verificaram-se na Indonésia. Na altura, milhares de pessoas marcharam em Jacarta contra qualquer diálogo com o "pequeno Satã". (A denominação é iraniana, mas, a par do petróleo, é uma das principais exportações do país dos ayatollas.)

O mundo islâmico parece suspenso pela situação entre Israel e os Palestinianos. As campanhas políticas, os discursos, para conseguirem a adesão (e histeria) popular, têm de se afirmar como defensores da causa palestiniana. Porque a causa palestiniana é "A Causa". Quando se quer fugir da discussão dos problemas do país ou da região, invoca-se como o entrave a todos os avanços. Mesmo no Paquistão.

Nada se resolve, em nada se avança no mundo árabe, enquanto os Palestinianos não tiverem o seu problema resolvido. Nem a questão dos direitos das mulheres, a liberdade religiosa e política, a corrupção, o desenvolvimento sócio-económico, o analfabetismo, a democracia. Nada. A Causa está à frente de tudo.

Por isso é importante continuar com a luta. Seja pela queima de bandeiras sionistas, seja pelo embargo às empresas que têm negócios em Israel (uma das máximas actuais de alguns grupos anti-globalização, em especial europeus), ou ao impedimento da entrada no país a todos os que tenham um infame carimbo israelita no passaporte.

publicado por Boaz às 01:25
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Domingo, 24 de Julho de 2005

Mas...

Sucessivamente, a cada ataque terrorista, aparecem algumas vozes a condenar o acto, para logo a seguir, acrescentarem um "mas". Em jeito de desculpa? Ou no mínimo, justificação? Encontrar algo de racional na acção terrorista?

Invariavelmente, em relação aos que fazem o terror em nome da causa palestiniana, a justificação é o desespero. Entre os nossos intelectuais, cabeças pensantes e líderes de opinião com mais ou menos seguidores, a certa altura até surgiu a comparação entre a causa palestiniana e a de Timor-Leste, na época da ocupação indonésia.

Analogias entre a Palestina e Timor-Leste?

Haja decência! Nem as condições são idênticas, nem a origem da ocupação israelita dos territórios palestinianos tem qualquer analogia com a da ocupação indonésia de Timor-Leste. A Indonésia invadiu Timor como decisão unilateral, aproveitando-se cobardemente do caos da guerra civil que se seguiu ao abrupto fim do poder colonial português. Uma invasão pura e simples com o objectivo de anexação. Pelo contrário, Israel ocupou Gaza, Jerusalém Oriental e a Margem Ocidental após uma declaração de guerra e tentativa de invasão por parte dos exércitos egípcio e jordano, cujos governos detinham o controlo desses territórios.

Quanto às condições da ocupação, por muito trágica e urgente que seja a situação da maioria da população palestiniana, não creio que se possa comparar ao martírio passado pelos timorenses sob o domínio indonésio. É verdade que os números não dizem tudo, mas mais de 200 mil timorenses mortos pelo exército indonésio deveriam ser suficientes para conseguir travar qualquer tipo de comparação...

Ainda há a questão do desespero. É desesperante a situação de vida de grande parte dos palestinianos, sem dúvida. Mas isso justifica o terror? Torna-o válido? Os que compararam a Palestina com Timor-Leste nunca pararam para pensar porque razão os timorenses nunca tomaram como "forma de luta" os ataques terroristas suicidas contra autocarros, hotéis, discotecas, restaurantes e fiéis à saída de mesquitas em Jacarta, como os suicidas palestinianos fizeram dezenas de vezes contra autocarros, hotéis, discotecas, restaurantes e fiéis à saída de sinagogas em Tel Aviv e Jerusalém? Estariam os timorenses por acaso numa situação menos desesperante que os palestinianos?

E, já agora, que desespero levou 19 indivíduos a lançarem aviões contra o World Trade Center e o Pentágono? Eram todos estudantes universitários, filhos de famílias de classe média-alta da Arábia Saudita e do Líbano, viviam bem mais desafogadamente que o comum dos seus concidadãos...

E sexta-feira à noite, que desespero motivou as bombas em Sharm el-Sheikh?

Após o 11 de Março, justificou-se o terror com o apoio do governo espanhol à invasão americana do Iraque. Nos ataques a Londres, a razão foi também o apoio do governo britânico à guerra no Iraque. Com essa ideia em mente, várias dezenas de dignitários muçulmanos britânicos alertaram Tony Blair para reflectir (e consequentemente mudar) a sua estratégia em relação ao Médio Oriente. Será só Blair que tem de repensar e mudar? E será isso suficiente para parar as ameaças e os ataques?

Sinceramente, creio que não. Basta pensar no caso da França, que foi, desde o início contra qualquer intervenção no Iraque. No entanto, isso não bastou para ser poupada às ameaças terroristas da Al-Qaeda. Vários franceses foram raptados no Iraque e o país recebeu ameaças directas de atentados. A razão: a aprovação da lei que proíbe o uso de símbolos religiosos nos lugares públicos, conhecida por "lei do véu islâmico".

Alguém ainda acha que os terroristas precisam de desculpas? Ou afinal, tudo serve de desculpa aos terroristas?

publicado por Boaz às 18:38
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Quinta-feira, 30 de Dezembro de 2004

Há coisas que não combinam

Ontem a Al-Qaeda ofereceu mais um dos seus "presentes" à Arábia Suadita, com a explosão de um carro armadilhado junto ao ministério do Interior, em Riade. Lembro-me de ter lido nas notícias, há já algum tempo, que em Fevereiro do próximo ano irá realizar-se, exactamente na capital da Arábia Saudita, uma conferência internacional para discutir o problema do terrorismo.

Ora, há aqui qualquer coisa que não bate certo. A Arábia Saudita é um país em que os seus governantes simpatizam abertamente com algumas das ideias típicas de grupos terroristas e patrocinam fortemente a expansão a nível mundial do wahhabismo, a versão mais radical do Islão. A que os taliban impunham no Afeganistão. Essa mesma.

Assim sendo, como é que se vai discutir - sem rodeios - o terrorismo, na Arábia Saudita, sem pôr em causa a ideologia que sustenta o próprio regime?

É tão surrealista como imaginar uma conferência sobre direitos das crianças, na Coreia do Norte, ou sobre liberdade de imprensa, em Cuba ou no Zimbabwe.

publicado por Boaz às 18:04
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Sexta-feira, 8 de Outubro de 2004

Israel, o bicho-papão dos Árabes

Há uns dias, nas minhas pesquisas de notícias sobre o Médio Oriente na Internet, deparei-me com um artigo de opinião no diário saudita em língua inglesa Arab News. É verdade que, sendo um jornal saudita, não se pode esperar grande coisa, jornalisticamente falando, mas na verdade já lá tenho lido algumas notícias num tom que deixa o "liberalismo" da Al-Jazeera a milhas.

Da autoria de Hassan Tahsin e intitulado «Perigo da presença israelita no Iraque», o artigo espelha bem a ideia da "conspiração sionista" que anda por aí a fazer tremer o Mundo e que, para a generalidade dos Árabes - sem excepção das suas elites letradas, antes pelo contrário - é a base de todo o mal que acontece naquelas bandas. Aliás, tal ideia nem é de admirar, com a quantidade de exemplares dos «Protocolos dos Sábios de Sião» que por lá se vendem e com os currículos das escolas...

Segue-se a tradução do dito artigo, publicado em 6 de Setembro.

«Na década de 1940, as forças britânicas na Palestina permitiram aos gangues sionistas ocupar a Palestina. Isto resultou no estabelecimento do estado racista israelita que expulsou milhares de Palestinianos da sua terra e os transformou em refugiados.

A História, devemos temer, está a repetir-se. O Iraque está em perigo de lhe acontecer o mesmo.

Perguntamo-nos se as forças da coligação que invadiram o Iraque sem razão abriram a porta à imigração judaica no Iraque. Estarão eles a tentar criar um Estado judeu no norte do Iraque que é uma área rica em recursos naturais? Será esta a realização do sonho sionista de criar um Estado judaico do Nilo ao Eufrates? Tudo isto surge nos calcanhares da decisão israelita de forçar os Palestinianos que ainda restam para fora da sua terra, para nunca se estabelecer um Estado palestiniano e desafiar todas as iniciativas de paz.

Aqueles que seguem o que acontece no Iraque verão que Israel tem uma mão no país. A Mossad, os seus serviços secretos, tem muitos centros de operações em Bagdade e nas maiores cidades do Iraque; o seu trabalho é organizar actividades terroristas para garantir que o Iraque permaneça instável. Oficiais da Mossad também supervisionaram a tortura de prisioneiros iraquianos, uma vez que têm ganho tanta experiência na tortura dos seus prisioneiros palestinianos.

Esta informação deriva não de fontes árabes, mas americanas apoiadas em documentos. Uma presença israelita no Iraque é injustificada. Israel tem trabalhado a fundo para escalar os problemas entre o Iraque e a América. O alvo principal não é livrar-se de Saddam. As forças da coligação poderiam ter acabado com Saddam se assim o quisessem, após a guerra para libertar o Kuwait. Contudo, não o fizeram, escolhendo manter Saddam no poder e usá-lo como desculpa para permanecer na região. A principal razão para a recente invasão do Iraque foi destruir o exército e dividir o país em vários pequenos estados. Esta situação trágica é um verdadeiro convite para Israel entrar e usá-lo para alcançar os seus sonhos.

Porque invadindo o Iraque era primeiro que tudo benéfico para Israel, o Estado judaico jogou um importante papel mantendo a presença nas instituições decisórias do Ocidente, particularmente nos Estados Unidos, até à invasão. Seymour Hersh num artigo no The New York Times em 21 Junho escreveu: Existe uma forte presença israelita no Curdistão que pretende construir um forte exército regional curdo, capaz de equilibrar a crescente influência iraniana no Iraque e também equilibrar a milícia sunita do Baath no país. Os Curdos também serão usados para realizar operações na Síria e no Irão, de forma a destabilizar ainda mais a situação. Isto faz parte da preparação do estabelecimento de um Estado curdo independente que inclua todos os Curdos do Iraque, Irão, Síria e Turquia.

Uma vez sucedido, o caminho para o controle israelita do Iraque estará aberto; os Israelitas estarão prontos para fazer a guerra e chamar-lhe a "Segunda Guerra de Libertação" - com a primeira a ter sido a guerra que eles travaram para tomar a terra palestiniana. A penetração israelita no Iraque devia levantar o aviso de que a tragédia da Palestina se repita; isto seria inaceitável para todos. É uma ameaça à paz internacional e eleva o nível de perigo consideravelmente. O próprio Israel é a ameaça real à paz internacional.»

Só para acabar: desconfio que este tal de Hassan Tahsin também é daqueles que acredita que os Judeus foram avisados dos ataques de 11 de Setembro e que, por isso, ficaram em casa nesse dia... Ah, e que tudo aquilo foi obra da Mossad.

publicado por Boaz às 16:05
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