Sexta-feira, 25 de Setembro de 2009

Pegar o touro pelos cornos

Com frequência, falo com amigos em Israel sobre os erros da política externa de Israel. Em regra, a atitude tem sido a de lamentar a incompreensão da ONU e do resto do Mundo, e ainda mais a oposição sistemática face às acções militares de Israel, em especial a última operação em Gaza. Isto, sem nunca confrontar as acusações com a perspectiva israelita sobre os factos. E sem apontar a dualidade de critérios na permanente condenação de Israel e o injusto silêncio dos diplomatas face à situação em outros pontos do globo. Ou o silêncio quando as vítimas são israelitas.

A ONU realizou na semana passada a sua Assembleia-Geral. Dezenas de chefes de Estado e de governo discursaram no palanque da ONU. O presidente iraniano Mahmud Ahmadinejad fez um discurso pejado de ataques a Israel. Dias antes, ainda em Teerão declarou-se orgulhoso de negar o Holocausto, como tem feito desde que foi eleito presidente pela primeira vez. No dia seguinte ao vergonhoso discurso de Ahmadinejad, foi a vez do Primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu discursar. E que discurso!

No seu brilhante discurso, Benjamin Netanyahu fez exactamente isso. Como mencionou o PM israelita, a ONU foi fundada após a II Guerra Mundial precisamente para prevenir a ocorrência de tais eventos. "Nada minou mais essa missão, nada a impediu mais, que o assalto sistemático à verdade. Ontem o presidente do Irão esteve neste pódio vomitando o seu mais recente discurso anti-semita. Há uns dias, ele reivindicou que o Holocausto é uma mentira.", disse.

Apontou o dedo a Ahmadinejad, por repetir as habituais diatribes anti-semitas, ainda mais no palco da ONU. Elogiou os países que não compareceram na sala para escutar o ditador iraniano e os que abandonaram a sala quando ele começou a exibir o seu ódio. Foram apenas 12 países. Só doze. (A ONU tem quase 200 estados membros.)

"Não têm vergonha? Não têm decência?", Netanyahu interpelou os representantes dos países que testemunharam o discurso do presidente do Irão. Mostrando uma cópia da acta da Conferência de Wannsee, ocorrida em 20 de Janeiro de 1942, e a planta original da construção do campo de concentração de Auschwitz, perguntou "Isto são mentiras?". Mencionou os números tatuados nos braços dos sobreviventes: "São também mentira?".

A presença dos diplomatas e o seu silêncio durante o discurso de Ahmadinejad legitimaram as eleições fraudulentas que o reelegeram, deram a razão ao violento regime que matou dezenas de manifestantes que apelavam à democracia e à transparência após as eleições.

Netanyahu e Israel não são, nem podem pretender ser, embaixadores dos que anseiam pela democracia nos países muçulmanos. Não são uma voz aceite para falar em seu nome. Dos opositores encarcerados nas prisões dos Irão, do Egipto ou da Síria. Das mulheres brutalizadas, excisadas e segregadas como cidadãos de segunda classe ou, pior que isso, como animais. Das minorias religiosas perseguidas, como os xiitas e os cristãos na Arábia Saudita, os cristãos em Gaza ou os bahá'ís no Irão.

Porém, todas estas vítimas olham para as democracias ocidentais com esperança. Que os diplomatas e políticos das nações livres se indignem quando os inocentes são atacados, que defendam as suas causas na arena internacional. O "silêncio dos bons" perante um ditador descarado ladrão de eleições, assassino e mentiroso é uma desgraça no panorama da democracia mundial.

Durante mais de 20 anos, Portugal foi a única voz que falou em nome do povo de Timor-Leste, que defendeu os seus interesses e direitos na ONU. Contra todas as diplomacias do Mundo – incluindo a poderosa América – interessadas nas riquezas petrolíferas da Indonésia e na sua influência no mundo árabe.

Uma democracia reconhecida, com um assinalável registo de direitos humanos a nível internacional, Portugal não foi um dos países que se recusaram a dar o aval à ditadura iraniana e à sua doutrina. Dos 27 estados da União Europeia, apenas seis viraram as costas a Ahmadinejad. Da América, além dos EUA e Canadá, apenas a pequena Costa Rica teve a ousadia de ser corajosa.

O Brasil teve uma das mais desprezíveis demonstrações de falta de moral. O presidente brasileiro Lula da Silva, hoje considerado como um dos mais influentes líderes dos países em desenvolvimento, apertou a mão do ditador iraniano. Em Nova Iorque fez-se história. A ONU assistiu apática ao espezinhar dos valores da sua carta fundadora. Valeu Netanyahu, que teve a coragem de enfrentar o touro pelos cornos.

Apesar de não ter votado nele nas últimas eleições em Israel, senti um grande orgulho na sua frontalidade. Ainda que saiba que, de qualquer forma, não se esperará grande compreensão do resto do Mundo às suas palavras - a maior parte delas são demasiados inconvenientes. Ao menos que a estratégia diplomática israelita mude daqui em diante.

PS - Quem quiser assistir ao discurso de Netanyahu (em inglês, sem legendas), clique aqui.

publicado por Boaz às 14:00
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Terça-feira, 21 de Abril de 2009

Feliz Dia do Holocausto

Hoje, em Israel e no calendário judaico, comemora-se o Yom HaShoá, o Dia do Holocausto. A data coincide com a revolta do Gueto de Varsóvia, em 1943 e acontece – não por acaso – uma semana antes do Dia da Independência de Israel.

O tom das celebrações repete-se todos os anos. No antigo campo de morte de Auschwitz-Birkenau, milhares de jovens participam na "Marcha da Vida". Em Israel, as cerimónias oficiais são centradas no Museu do Holocausto Yad Vashem, em Jerusalém. Alguns sobreviventes, cada vez mais escassos e cada vez mais idosos, acendem seis tochas em memória dos 6 milhões de mortos judeus às mãos dos Nazis e seus colaboradores.


Jovens visitam Auschwitz, durante a 'Marcha da Vida'. | O arrogante macaco iraniano.

Na véspera, lojas e restaurantes fecham ao final da tarde, e mantêm-se encerradas durante a noite. As televisões emitem filmes e documentários sobre a Shoá, entrevistas com sobreviventes, os telejornais descobrem algumas das histórias ainda não contadas 64 anos depois do fim da II Guerra Mundial. Os canais de entretenimento, simplesmente suspendem a sua programação, anunciando a que a emissão voltará "após o final do Dia do Holocausto".

Às 10 horas da manhã, por todo Israel toca uma sirene. O trânsito pára. Nas ruas das cidades e nas auto-estradas e os condutores saem das viaturas e ficam de pé. Nas lojas, repartições públicas, escolas, no meio da rua, as pessoas param também. Dois minutos de silêncio, apenas cortados pelo clamor ondulante da sirene.

Este ano, no Yom HaShoá, estive em Nahariya, uma pequena cidade turística do Norte de Israel. À hora da sirene, acabado de tomar o pequeno-almoço, corri para a entrada do hotel para observar a cidade parada, em sentido. Na sala de jantar do hotel, porém, um grupo de mulheres e crianças árabes riam e falavam alto, continuando a sua farta refeição matinal. O Dia do Holocausto não parece dizer-lhes nada. Para eles, o Holocausto é apenas “a desculpa de Israel para oprimir o povo Palestiniano”, “para fazerem aos Palestinianos aquilo que os Nazis fizeram aos Judeus, ou pior ainda”.

Ontem, na sede das Nações Unidas em Genebra, onde decorre a segunda Conferência Internacional sobre o Racismo, discursou Mahmud Ahmadinejad, o presidente do Irão, famoso por apelar à destruição de Israel e pelas suas declarações em que nega o Holocausto. Já se sabia o que ele iria dizer e ele, sem vergonha alguma, repetiu-o. Na véspera do dia em que se lembra o Holocausto. No melhor dos palanques, houve um timing perfeito, do ditador e da arena política internacional que lhe dá voz.

Nota: Para quem não entendeu a ironia, o adjectivo do título deve ser lido com umas aspas bem carregadas.

publicado por Boaz às 10:30
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Domingo, 7 de Outubro de 2007

A estrada da Birmânia

Depois dos protestos pela democracia em Rangum, brutalmente reprimidos pela sinistra polícia militar birmanesa, o Mundo parece ter despertado para o drama que há décadas se vive na Birmânia.

Aquele que os ocidentais raramente viam pelas revistas de viagens como um misterioso país de serenos monges budistas e magníficos pagodes dourados, apenas visitado por alguns turistas afoitos e bem recheados de dólares, é na verdade um dos mais terríveis e sanguinários infernos do planeta.

O país é governado por uma sádica "Junta" militar que teima em não aceitar os resultados eleitorais das últimas eleições democráticas que elegeram a líder da oposição Aung San Suu Kyi, sujeita há vários anos a um regime de prisão domiciliária.

Até há umas semanas era apenas mais um dos regimes ditatoriais esquecidos, ou melhor, coniventemente ignorados, como a China ou a Arábia Saudita. Quando o sangue jorra para as câmaras, torna-se difícil manter o silêncio. E virar a cara. Daí as manifs por todo o Mundo.


Manifestação na Malásia

Israel, tal como muitos países ocidentais, tem relações diplomáticas com a Birmânia. Hoje, a par das relações diplomáticas, existem relações económicas, em especial por numerosas empresas de armamento israelitas a fornecerem o regime militar birmanês. É óbvio que Israel não tem o exclusivo da venda de armas à Junta, mas de acordo com a publicação Jane's Intelligence Weekly, "empresas de segurança" israelitas são suspeitas de ter vendido Uzis e partes de espingardas de assalto Galil ao governo de Rangum. Ainda, mercenários israelitas são referidos como treinado a repressiva força policial do regime.

Até aos anos 70, Israel era conhecido entre os estados do Terceiro Mundo como o pequeno país que tinha feito florescer o deserto. Emissários de kibbutzim, as famosas cooperativas agrícolas israelitas, apoiavam projectos agrícolas por todo o continente africano. Depois da Guerra do Yom Kippur, o país abandonou os seus ideais agrários e a presença dos emissários agrícolas enviados pelo estado foi substituída pelas empresas de armamento e os mercenários.

Mercenários israelitas são conhecidos por ter trabalhado a favor de regimes autoritários em Angola, Argentina, Chile, Nicarágua, Congo ou Serra Leoa. A guarda pessoal de Manuel Noriega, ditador do Panamá, era dirigida por Mike Harari, um ex-agente da Mossad. São conhecidas também as ligações dos serviços secretos israelitas à antiga polícia do último Xá da Pérsia. Na Colômbia, o "rei dos mercenários" Yair Klein e seus capangas treinaram os esquadrões da morte da extrema-direita, cartéis de droga e outras organizações de terrível fama, dispostas a pagar milhões pelos seus serviços.

Se comparada com outros apoios, como o da petrolífera francesa Total, que explora campos de gás natural no sul da Birmânia no valor de muitos biliões de euros, é verdade que a parte do apoio israelita nesta equação é ínfima. De qualquer forma, a má fama que dá ao país não é negligenciável. Para lá da ainda mais pertinente questão moral.

O presidente Nicolas Sarcozy terá apelado às multinacionais francesas para congelarem investimentos na Birmânia, como retaliação à violência do regime. Vamos a ver se é só lábia de ocasião. Por enquanto, para a França, o sangue birmanês é mais amargo que o dos africanos, vítimas dos vários ditadores apoiados por Paris. Veremos se a influência da Total não adoça as bocas do Eliseu.

Israel é responsável por 10 a 12% das vendas de armamento a nível mundial. E, é evidente que esses negócios são feitos em virtude do lucro e de algumas considerações políticas. Se por um lado essas empresas com a anuência do governo não fazem, por razões claras, negócios com países árabes ou muçulmanos. Por outro, o governo deixa de ter legitimidade de criticar o apoio de empresas estrangeiras, russas ou chinesas, com o consentimento dos seus governos, a regimes como o Irão ou a Síria. Isto chama-se realpolitik.

Afinal, não existem princípios morais no negócio da guerra. Há interesses, nada mais. Israel faz os seus negócios de acordo com esses interesses e por essa via, perde a face para poder criticar com o argumento da moralidade, outros estados que fazem os seus negócios com os inimigos de Israel.

Custa afirmá-lo, mas no final, o sangue birmanês é tão vermelho como o israelita.

Nota: Estrada da Birmânia é o nome de uma rota construída pelas tropas israelitas, para abastecimento de Jerusalém, cercada por tropas árabes, durante a Guerra da Independência. O nome foi retirado da famosa estrada construída nas montanhas da Birmânia para permitir o abastecimento das tropas que combatiam os japoneses no sudeste asiático, durante a II Guerra Mundial.

publicado por Boaz às 15:32
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

O arco da crise

Com frequência, analistas, jornalistas e políticos referem-se à resolução do conflito entre Israel e os Palestinianos como a chave para a estabilização do Médio Oriente e daí, de todo o Planeta.

Recentemente, o Iraq Study Group (ISG) liderado por James Baker, antigo Secretário de Estado americano foi incumbido pelo presidente Bush de encontrar formas para vencer a guerra no Iraque, de uma forma mais rápida e menos custosa. Em sangue e dólares. A conclusão do ISG foi: "a resolução a disputa Israel-Palestina" é a chave para ganhar a guerra no Iraque.

A ideia da centralidade do conflito Israel-Palestinianos não é exclusiva de James Baker e seus associados. Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU partilha da mesma ideia. E também, aparentemente, o seu sucessor Ban Ki-Moon, que recentemente disse a um jornal sul-coreano: "Se as questões no conflito entre Israel e a Palestina [sic] forem bem, outras questões no Médio Oriente... irão da mesma forma ser resolvidas."

Será o conflito entre Israel e os Palestinianos assim tão central no Mundo e mesmo no Médio Oriente?

Façamos então um passeio pelo Grande Médio Oriente, ao qual Tony Blair chamou "o arco da crise". Estendendo-se do Atlântico ao Índico, compreende 22 países. Dezasseis deles árabes, mais a Turquia, Arménia, Azerbeijão, Israel, Irão, Afeganistão e Paquistão. Todos foram fundados após o desmembramento de algum império colonial. Como primeiro sinal de instabilidade, saiba-se que nenhum destes estados goza de fronteiras inteiramente reconhecidas. Todos têm diferendos fronteiriços com um ou mais vizinhos, reclamando partes dos seus territórios. A maioria já travou guerras em consequência dessas reclamações.

Comecemos a digressão pelo Afeganistão. Reclama a soberania sobre a paquistanesa Província da Fronteira Noroeste. Na década de 1960, os dois países travaram uma série de guerras fronteiriças pelo controle da região. O Irão, por seu lado, insiste no direito de supervisão no oeste do Afeganistão baseado no Tratado de Paris de 1855. Iranianos e afegãos disputam ainda as águas de três rios fronteiriços, o Hirmand, o Parian e o Harirud.

O Paquistão desde 1947 mantém uma longa disputa territorial com a Índia pelo controle de Caxemira, desde a divisão do antigo Império Britânico da Índia, em dois estados, em 1947. Caxemira foi a origem de três guerras em larga escala e numerosos episódios de violência na fronteira entre os dois países. É responsável ainda pela corrida de ambos às armas nucleares, além de centenas de ataques terroristas, sobretudo na Caxemira indiana. Além de Caxemira, o Paquistão mantém uma disputa com o Irão sobre águas territoriais no Mar Arábico e sobre a nacionalidade de várias tribos de etnia Baluch que vivem dos dois lados da fronteira entre os dos países.

Numa escala muito maior, o Irão e o Iraque travaram uma série de guerras desde 1936 pelo controle o estuário do Shatt al-Arab. Um tratado de paz foi assinado em 1975, mas em 1980 Saddam Hussein invadiu o Irão, começando uma guerra de oito anos e que fez mais de um milhão de mortos nos dois lados. Desde a deposição de Saddam em 2003, o Irão redesenhou a fronteira a seu favor. E continua a reclamar o direito de supervisão sobre santuários xiitas no Iraque como Samara ou Karbala.


Irão, Esquadrão de fuzilamento nos primeiros anos da Revolução Islâmica.
Foto de Jahangir Razmi, fotógrafo iraniano. Prémio Pulitzer

A sul, e desde 1971, o Irão reclama dos Emirados Árabes o controle de três estratégicas ilhas no estreito de Ormuz, por onde flúi diariamente metade do petróleo do Mundo. A norte, luta com o Turquemenistão, o Kazaquistão, o Azerbeijão e a Rússia pelo Mar Cáspio. Os vizinhos pretendem a divisão deste mar interior conforme a extensão das suas fronteiras. Para reclamar a divisão equitativa que duplicaria a sua extensão do Cáspio, o Irão mantém desde 1995 uma marinha de guerra e impede as petrolíferas internacionais de explorarem gás e petróleo nas águas azeris e turcumenas que Teerão reclama como suas. Teerão tenta ainda manter um controlo da província de Khuzestan, rica em petróleo. A região teve uma maioria de população árabe até à década de 1940. Desde então tem sido sistematicamente "persianizada." Recentemente, várias tribos árabes residentes perto da fronteira iraquiana foram expulsas e substituídas por habitantes persas do centro do Irão.

O Irão é visto pelos países árabes como uma ameaça directa, em especial os Estados do Golfo. No entanto, mesmo entre estes, as relações não são amistosas. Apesar das relações tribais entre as famílias reais da região, a Arábia Saudita travou em 1955 uma guerra com Omã pelo controle do oásis de Buraimi, alegadamente rico em petróleo. Décadas de negociações não foram suficientes para se chegar a um acordo. No ano passado os Emiratos Árabes renunciaram a um tratado de 1974 com a Arábia Saudita, adivinhando-se uma terceira reclamação sobre o oásis.

Desde o final da década de 1990, o Qatar luta com os sauditas pela região de Khor al-Udaid, rica em petróleo. Em 2000, os sauditas anexaram a área à força, cortando assim a fronteira do Qatar com os Emiratos. O Qatar reclama do vizinho Bahrain o controle das ilhas de Hawar, travando uma guerra naval em 2001.

Entre a Arábia Saudita e o Kuwait, alegadamente os mais próximos dentre os Estados do Golfo, mantém-se o diferendo acerca da demarcação de fronteiras na chamada "Zona Neutra." Após a Guerra do Golfo de 1992-93, a fronteira do Kuwait com o Iraque foi estabelecida. Todavia, mesmo o parlamento eleito do Iraque não abdicou ainda da reclamação de soberania sobre as ilhas kuwaitianas de Warbah e Bubiyan e da parte sul dos campos petrolíferos de Rumailah atribuídos ao Kuwait pela ONU. A desconfiança em relação a Bagdade, levou o governo do Kuwait a erguer fortificações, cercas electrificadas, armadilhas anti-tanque e a implantar uma “terra de ninguém” que se estende numa faixa de 15 quilómetros. A Arábia Saudita tem em construção estruturas similares na sua fronteira com o Iraque.

A dinastia hashemita da Jordânia mantém há décadas uma reclamação de suserania sobre a província saudita de Hejaz, onde se situam as cidades santas de Meca e Medina, despojada do controle das tribos hashemitas em 1924 pelas tribos que compõem a actual família real saudita. A cada onda de pressão sobre a casa real saudita pela Al-Qaeda ou por militantes xiitas, de Amã ouvem-se apoios a um Hejaz independente.

O Iémen continua sem conseguir traçar a sua fronteira com Omã ao longo do Golfo de Hauf e no deserto de Rub al-Khali, “o vazio da Arábia”. Em 1999 travou uma guerra com a Eritreia pelo controle das ilhas Hanish, um arquipélago estratégico na entrada do Mar Vermelho.

Desde os anos de 1940, o Iraque e a Síria mantêm um diferendo com a Turquia pela divisão das águas do Rio Eufrates. Ainda, tanto a Síria como o Iraque reclamam a província turca de Iskanderun, onde os Árabes compõem 30% da população. A Turquia reclama o direito de supervisão do Norte do Iraque baseado no Tratado de Lausanne de 1923, em especial sobre as regiões petrolíferas de Mossul e Kirkuk e tem treinado e armado grupos tribais turcomanos na região. Na década de 1990, a Turquia actuou militarmente na região na sua guerra contra a milícia marxista curda do PKK.

A Síria reclama a totalidade do Líbano como parte da "Grande Síria", da qual reclama também fazerem parte a Palestina histórica e parte do Norte da Jordânia. Em quase 30 dos 50 anos do Líbano independente, a Síria manteve aí um exército de ocupação e esteve activamente envolvida nas três guerras civis libanesas. A Síria foi em grande parte responsável pela morte de mais de 100 mil libaneses e pela fuga de outros dois milhões e meio. No ano passado, a Síria e o seu maior aliado, o Irão, encorajaram o Hezbollah a travar uma guerra com Israel. Nos últimos anos, Damasco tem sido responsável por grande parte da agitação social e política no Líbano e por uma série de assassinatos políticos, incluindo o primeiro-ministro Rafik Hariri.

O Egipto, o maior dos estados árabes, mantém divergências fronteiriças com a Líbia e o Sudão. Na década de 1960 fomentou várias guerras por todo o mundo árabe. Desde a guerra 1958-62 na Argélia a um golpe de estado no Iémen que deflagrou uma guerra civil que se prolongou por seis anos e fez mais de 200 mil mortos. Recentemente, anexou partes do território sudanês e mantém um conflito intermitente com a Líbia sobre uma área do deserto Egípcio. Ironicamente, a sua única fronteira estável e reconhecida internacionalmente é aquela que o separa de Israel.

A Líbia é desde os anos 70 um dos grandes patrocinadores do terrorismo internacional. O atentado contra o avião da PanAm que se despenhou em Lockerbie e uma bomba numa discoteca alemã frequentada por soldados americanos estão no cadastro de Muamar Khaddafi. Mantém disputas com o Chade, a Tunísia e o Sudão. No Sudão desenrola-se um dos maiores desastres humanitários da actualidade, na região de Darfur. Centenas de milhares de mortos e mais de um milhão de refugiados, resultado dos massacres das milícias janjaweed apoiadas pelo governo central. Ao longo de várias décadas, o país esteve numa guerra civil. Árabes muçulmanos do Norte contra tribos negras cristãs e animistas do Sul. Mais de dois milhões de mortos e outros tantos refugiados até ao recente acordo de paz.

Marrocos, Argélia e Mauritânia têm lutado entre si pelo controlo do Saara Ocidental. A região foi anexada por Marrocos em 1975. Em retaliação, a Argélia tem apoiado a Frente Polisário, que reclama ser o governo legítimo do povo Saraui. Desde 1976 que Marrocos e a Frente Polisário travam uma guerra de baixa intensidade. Na década de 1990, Marrocos retribuiu à Argélia o seu apoio à Frente Polisario fechando os olhos à sangrenta campanha terrorista dos islamistas que custou a vida a mais de 250 mil argelinos.

Tudo isto é apenas uma síntese do que tem acontecido no "arco da crise". Nas últimas seis décadas, a região sofreu não menos de 22 guerras de larga escala em disputas de território e recursos, nenhuma delas tendo alguma coisa a ver com Israel ou os Palestinianos (se tem dúvidas, volte atrás e releia o artigo). Além disso, a história destes países tem sido dominada por séries de lutas domésticas, golpes de estado, ondas de violência étnica e sectária, em muitos casos com altos níveis de crueldade.

O Grande Médio Oriente tem-se caracterizado por uma crónica instabilidade, níveis baixos de desenvolvimento e atraso cultural. A região é a única zona do Mundo que, de um modo geral, passou ao lado da onda de mudanças positivas que se seguiram ao fim da Guerra Fria. Imprensa ou universidades privadas, sindicatos livres, partidos políticos ou liberdade de associação e expressão são realidades distantes. No século XXI, as linhas de produção das grandes marcas internacionais estenderam-se da Polónia ao Vietname ou ao Peru. Mas não à Síria ou ao Egipto. Nenhum destes estados tem, por exemplo, fábricas de automóveis ou de produtos de alta tecnologia.

Os déspotas que chefiam os estados entre a Mauritânia e o Paquistão há muito que pretendem desviar as atenções dos seus oprimidos súbditos com o sonho de atirar ao mar "o inimigo sionista". Como fazia o antigo presidente Nasser do Egipto, sempre que espreitava a ameaça da revolta política, logo se apressava a assegurar às massas do seu país e da "grande nação" árabe que a reforma política e social teria de esperar até que "o inimigo" fosse expulso da "nossa amada Palestina."

Para até um grupo de, aparentemente, homens sábios americanos, adoptar a mesma visão retrógrada e facilmente refutável, demonstra uma absoluta e perigosa ignorância da realidade.

Baseado num artigo de Amir Taheri, ex-editor do diário iraniano Kayhan, para a Commentary Magazine.

publicado por Boaz às 11:03
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Quarta-feira, 1 de Agosto de 2007

Um Mundo (quase) perfeito

Despotismo estalinista na Coreia do Norte. Perseguição a opositores políticos e minorias étnicas e transferência forçada de populações na Birmânia. Violência sobre os opositores políticos (recentemente também sobre algumas personalidades religiosas discordantes), expulsão e espoliação de propriedade de membros da minoria branca no Zimbabwe. Grandes limitações na liberdade de imprensa e total repressão de opositores políticos em Cuba e na Bielorússia. Escravatura na Mauritânia e República Centro-Africana. Massacres e expulsões em massa contra minorias étnicas no Sudão, com participação activa de forças patrocinadas pelo governo. Tráfico de mulheres para escravatura sexual na Roménia, Ucrânia, Bulgária, Rússia e Ásia Central. Violência sectária no Iraque e Líbano. Esmagamento brutal de uma revolta separatista no Sri Lanka. Silenciamento dos meios de comunicação social críticos ao governo na Venezuela. Violência entre facções políticas em Timor-Leste.

Ausência de liberdade política no Egipto, Síria, Cuba, Bielorússia, Sudão, Líbia, Azerbeijão, Uzbequistão... Pena de morte (nalguns casos mesmo para menores) no Irão, Estados Unidos, China, Paquistão, Nepal, Birmânia, Cuba, Rússia, Vietname... Exploração de mão de obra e ausência de condições laborais na China, Índia, países do Golfo Pérsico, Tailândia, Indonésia, Bangladesh, Paquistão... Excisão (mutilação sexual de mulheres) na Guiné-Bissau, Sudão, Egipto, Etiópia, Quénia, Somália, Burkina Faso, Mali... Perseguições de minorias religiosas no Irão, Arábia Saudita, China... Exploração sexual de crianças na Arábia Saudita, Índia, Paquistão, Bangladesh, Nepal, Cambodja, Tailândia, Indonésia... Mulheres como “cidadãos de segunda” no Irão, Arábia Saudita, Iémen, Kuwait, Afeganistão... Crianças usadas como combatentes em conflitos na Costa do Marfim, Somália, Uganda, Territórios Palestinianos, Sri Lanka... Exploração de mão-de-obra infantil no Peru, Bolívia, Brasil, Colômbia, Índia, Vietname, Paquistão, Afeganistão, México...


Crianças soldados e "mulheres de segunda"

Oh, como seria perfeito o Mundo, se não fosse... Israel.

A ver pela atenção dada pela Comissão de Direitos Humanos da ONU, violações de direitos humanos só acontecem em Israel. Casos gravíssimos de brutalidade patrocinada pelo governo no Sudão, Birmânia, Coreia do Norte ou Zimbabwe, são ignorados. Investigações agendadas sobre a situação em Cuba e na Bielorússia foram bloqueadas. Os meios da Comissão são devotados em permanentes críticas a Israel. Apenas.

Recentemente o Secretário-Geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon foi atacado por criticar os estados islâmicos membros da Comissão, por ignorarem abusos dos direitos humanos em todo o Mundo e apontarem apenas Israel. A observação de Ban Ki-moon irritou a Organização da Conferência Islâmica quando disse, o mês passado, que a Comissão de Direitos Humanos da ONU deveria observar todas as situações de violações de direitos humanos.

Só parece não valer a pena olhar para eles.

publicado por Boaz às 12:50
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Terça-feira, 30 de Janeiro de 2007

Igualdade "Made in ONU"

Há muito que tinha percebido que a ONU tem um certo - para não dizer absoluto - desprezo por Israel.

Já nem vale a pena falar das distorcidas discussões acerca do conflito Israelo-Árabe, nas quais Israel é sempre condenado e a Autoridade Palestiniana, o Líbano ou a Síria sempre se safam de qualquer crítica ou qualquer responsabilidade no que se passa no Médio Oriente. Ou da vergonhosa Conferência de Durban sobre o racismo, em 2001, que se escusou a definir o anti-semitismo como racismo e foi plataforma da mais feroz propaganda anti-Israel e anti-semita. (Até à eleição do actual Presidente do Irão).

Um facto que soube recentemente é a prova cabal que a ONU - a par de muitos intelectuais de meia-tijela por esse mundo fora - simplesmente nega a Israel o estatuto de Estado e a sua legitimidade de fazer valer os seus valores e pontos de vista na cena internacional.

Cada estado na ONU tem exactamente os mesmos direitos. Com uma excepção: Israel. Apenas Israel - entre cerca de 200 estados membros da ONU - é excluído de qualquer órgão de decisão da organização. Para ao menos candidatar-se a ser membro da maioria dos órgãos da ONU, como por exemplo o Conselho de Segurança (membro não-permanente, mas apenas com um mandato de 2 anos) ou da Comissão de Direitos Humanos, um país tem de pertencer plenamente a um dos cinco grupos regionais.

Ora, Israel é excluído como membro pleno de qualquer um dos cinco grupos regionais. E isto é uma clara violação da própria Carta da ONU que (diz que) reconhece a "igualdade das nações, grandes ou pequenas".

publicado por Boaz às 12:00
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Sexta-feira, 28 de Abril de 2006

Oh Magoo, you've done it again!

A ONU tem destas coisas. Ao mesmo tempo que se eriçam os cabelos dos diplomatas com a questão do dossier nuclear iraniano, escolhe-se exactamente o Irão para a vice-presidência da Comissão de Desarmamento das Nações Unidas.

Ora, esta comissão é nada menos que a agência da ONU encarregada de limitar o uso do armamento nuclear no Planeta.

Capice?

publicado por Boaz às 16:24
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Terça-feira, 21 de Junho de 2005

Acto de contrição

Na maioria dos casos, costumo admitir os meus erros quando os detecto ou me chamam a atenção sobre eles. Por isso mesmo, queria pedir desculpas ao Alto-Comissário das Nações Unidas para os Refugiados, António Guterres, pelo meu comentário em relação à sua visita (de trabalho) ao Uganda, publicado no artigo anterior.

Ele trocou o mais que provável hotel de 5 estrelas na capital do país visitado por 2 noites numa tenda de plástico, entre os refugiados sudaneses no norte do Uganda, para assim chamar a atenção sobre a situação em que vivem e ter uma perspectiva mais próxima da sua realidade.

Sendo ele um alto funcionário da ONU e vendo-se que essa mesma ONU costuma brindar os seus dirigentes com luxos babilónicos à custa do seu limitado orçamento, presumi que ia cumprir os maus hábitos da casa. É bom ver que não foi este um desses casos. Perdoe-me então a precipitação na crítica.

publicado por Boaz às 14:26
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Terça-feira, 26 de Outubro de 2004

70000

É o número das vítimas mortais em Darfur, no Sudão. A última estimativa oficial das Nações Unidas era de 50000. Os refugiados são mais de 1,5 milhões.

Há cerca de um mês - na altura dos 50000 mortos - a ONU resolveu conceder, benevolentemente, ao amigável governo de Cartum, 30 dias para deixar de apoiar as milícias que massacraram aldeias inteiras no Darfur e para facilitar o apoio humanitário. Pouco ou nada foi feito: afinal, o número de vítimas aumentou bastante.

Esperamos que a ONU não aguarde que aos anteriores 50000 se acrescente mais um zero, para então fazer alguma coisa sem ser dar mais tempo aos assassinos para acabarem o trabalho.

Mais informação no blog Sudan: The Passion of the Present.

publicado por Boaz às 16:13
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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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