Sábado, 17 de Novembro de 2012

Quando a sirene toca, de verdade

As velas de Shabbat estavam acesas há poucos minutos. Com a minha filha mais velha, de quase 4 anos, saí de casa para a sinagoga, a menos de 500 metros de distância. O céu azul do final da tarde, pontilhado de nuvens, tinha uns tons alaranjados no Ocidente. Senti uma gota de sorte por estarmos longe de Gaza. Pensei como iriam passar o Shabbat os habitantes da região costeira de Israel, entre a Faixa de Gaza e Tel Aviv.

Há dois dias, uma nova guerra começara na região de Gaza e do sul de Israel. Quer dizer, a guerra nunca tinha realmente terminado. Desde a retirada militar israelita da Faixa, no Verão de 2005, as cidades israelitas nas proximidades do território palestiniano eram atingidas com frequência por mísseis lançados por terroristas palestinianos. Primeiro os mísseis eram artesanais e com fraca precisão. Com o passar dos anos e o aumento do tráfico de armas iranianas, líbias e sudanesas para a Faixa, o arsenal do Hamas tornou-se mais sofisticado, atingindo cidades cada vez mais distantes.

Na sexta-feira, pela primeira vez em mais de 20 anos, as sirenes de alarme soaram em Tel Aviv, desde que Saddam Hussein retaliou a invasão americana com uma chuva de Scuds sobre Israel. Na tranquilidade de Gush Etzion, lugares como Tel Aviv, Ashdod ou Ashkelon – onde o soar das bombas e das sirenes eram agora realidades presentes –, esta nova guerra parecia, mais uma vez, remota. Um vizinho brasileiro tinha sido chamado para a base. Um dos 16 mil soldados reservistas convocados para uma possível operação militar em Gaza. A esposa, com os dois filhos ficou em casa sem saber a data de regresso do marido. Tanto podem ser alguns dias, como semanas.

Na sinagoga, como habitualmente era a hora de Kabalat Shabat, o serviço religioso que marca o início do Shabbat. Sem paciência para ficar sentada no banco da sinagoga, a minha filha pediu para voltar para casa. Deixei-a ir, avisando que não podia ir para outro lugar. A congregação levanta-se para entoar o cântico Lechá Dodi. A meio da segunda estrofe, o uivo da sirene de alarme soa por toda a aldeia. Não é um simulacro, como os que acontecem pelo menos uma vez por ano, mas uma sirene de alarme verdadeira. Alguns dos congregantes continuam a cantar, outros param sem saber o que fazer. O gabai, responsável pelo funcionamento da sinagoga, interrompe o serviço e pede para todos descermos para o andar inferior da sinagoga, conforme indicações do Serviço de Emergência Civil.


Habitantes de uma cidade do Sul de Israel observam os rastos dos mísseis lançados de Gaza.
Ao soar a sirene de alarme, os habitantes devem abrigar-se num lugar coberto.
Quem está demasiado longe deve deitar-se no chão.

“Onde está a minha filha? Agora mesmo a mandei para casa e ela está na rua sozinha!”, pensei alarmado. Olhei para o hall de entrada da sinagoga. Fiquei um pouco aliviado ao ver que ela ainda não tinha saído. Corri a pegá-la ao colo e abracei-a forte. O aperto do abraço foi mais para mim do que para ela, que felizmente não entendia o que se passava. Descemos as escadas para o andar de baixo, mais seguro e longe das janelas do hall.
– “Porque nós temos de descer as escadas”?, perguntou a menina.
– Este som forte significa que é perigoso, temos de ir para o abrigo. Tentei explicar-lhe a situação.
– O barulho da ambulância?
– Não, chama-se azaká (sirene, em hebraico). Parece o som de uma ambulância, mas não é.

Na escuridão, alguns homens continuavam a entoar Lechá Dodi. Tive vontade de chorar, uma ou duas lágrimas escorreram-me pelo rosto. A sensação de incerteza é avassaladora. Apertei ainda mais a minha filha. Alguns minutos depois, ainda um velhinho descia as escadas amparado por um braço caridoso, a maioria da congregação decidiu voltar para o santuário da sinagoga. “O Serviço de Emergência Civil diz que devemos esperar 10 minutos antes de voltarmos”, avisou um homem. Ninguém o ouviu. Como os israelitas gostam de desafiar as regras… O serviço religioso prosseguiu (quase) como se nada tivesse acontecido. No final, rezámos um salmo especial, em honra dos soldados israelitas e dos residentes das cidades sob a mira dos mísseis do Hamas.

Durante quase todo o Shabbat, despertava-me a cada vez que o vento soprava com mais força nas árvores das redondezas, pensando tratar-se do início do uivo de mais uma sirene de alarme. Em todas as casas, o assunto na mesa de Shabbat foi obviamente a inédita azaká que soara em Gush Etzion. Uma senhora, que deixara o rádio ligado para poder receber informações de segurança durante o Shabbat, informou que ouvira que o míssil tinha caído a Norte de Jerusalém.

Na manhã seguinte, outros informaram que o míssil caiu na região de Nokedim, apenas alguns quilómetros a Oriente, no deserto da Judeia. Vários vizinhos relataram terem visto o rasto de fumo do míssil a cruzar os céus nas redondezas. No final do Shabbat, busquei nas notícias informações mais precisas sobre o ocorrido. Confirmou-se a caída do míssil no deserto da Judeia. Achei inacreditável o ataque. Toda a região fica rodeada de cidades árabes! Hebron, com 150 mil habitantes fica 25 km a sul. Belém, com 50 mil, e Jerusalém, onde residem mais de 200 mil Árabes, ficam a menos de 10 km do local atingido.

Não sabemos o que se vai passar nos próximos dias. Entretanto, outros 75 mil soldados reservistas foram convocados. Uma operação terrestre em Gaza com infantaria ligeira e pesada é algo extremamente arriscado. O risco de baixas numerosas no Exército de Israel e o possível sequestro de soldados é algo que pesa nas decisões dos líderes israelitas. Na região costeira do país, num raio de até 40 km de Gaza, amanhã não haverá aulas. Aqui em Gush Etzion, tal como em Tel Aviv, ao contrário de outras guerras no passado, ninguém pensará desta vez que tudo acontece lá longe. Afinal, estamos todos no mesmo barco.

publicado por Boaz às 20:27
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Terça-feira, 10 de Julho de 2012

Morto e envenenado (por esta ordem)

Quase oito anos depois da sua morte, Yasser Arafat é ressuscitado. Apenas nas notícias (Alá seja louvado).

Uma investigação divulgada pela rede de televisão Al-Jazeera revelou que altos níveis do elemento radioativo polónio-210 foram encontrados em alguns objetos pessoais de Arafat. Os objetos estavam na posse de Suha Arafat, a viúva do histórico líder palestiniano e foram analisados pelo Instituto de Física Radiactiva de Lausanne, na Suíça. A morte de Arafat, num hospital de Paris a 11 de Novembro de 2004, continua a ser fonte de muita especulação, aumentada pela não realização de uma autópsia. A divulgação do relatório médico integral foi sempre recusada tanto pela viúva como pela Autoridade Palestiniana. As teorias acumulam-se.


Guarda de honra no túmulo de Yasser Arafat, na Muqata, o complexo governamental
da Autoridade Palestiniana, em Ramallah (Tristam Sparks, Wikipedia)

O médico pessoal de Arafat durante 18 anos, Ashraf al-Kurdi, que o assistia permanentemente, mesmo em caso de um simples resfriado, não teve qualquer acesso ao líder palestiniano quando o seu estado de saúde se deteriorou gravemente em Novembro de 2004. A viúva Arafat proibiu-o até de visitar Arafat no hospital francês onde estava a ser tratado e, posteriormente, de inspeccionar o cadáver. Apesar das opiniões dos médicos franceses que foram divulgadas não terem sido conclusivas para apurar a causa de morte de Arafat, Suha também recusou a realização de uma autópsia. Haveria algo a esconder? Decerto, se fosse algo que facilmente incriminasse Israel, uma autópsia teria sido feita sem demora...

Resultados divulgados em 2005 indicaram que Arafat morrera de um acidente vascular cerebral desencadeado por uma doença desconhecida. Análises desses resultados sugeriram como causa de morte uma infecção, envenenamento ou até Sida. Apesar dos seus numerosos rivais entre o aparelho político palestiniano, suspeitas de um envenenamento recairiam sempre sobre Israel. (Quem mais?)

A suspeita de morte devido a Sida foi uma das mais difundidas em várias investigações dos relatórios médicos parciais. De acordo com fontes do governo americano, a CIA tinha conhecimento da doença de Arafat, e recomendou a Israel não assassinar o líder palestiniano. Ao falecer com a doença, Arafat ficaria irremediavelmente desacreditado pelos rumores relacionando a Sida à homossexualidade. Aliás, a alegada homossexualidade de Arafat foi documentada em 1987, no livro Red Horizons: Chronicles of a Communist Spy Chief, ("Horizontes Vermelhos: Crónicas de um chefe espião comunista") de Ian Mihai Pacepa, um antigo general da Securitate, o serviço secreto da Roménia comunista. O livro, que descreve entre outros assuntos a relação próxima entre o KGB, a Securitate e a OPL, relata que durante as suas visitas a Bucareste (Arafat era um protegido do regime de Ceausescu e fora treinado pelo KGB nos anos de 1970-80) o quarto do líder da OLP estava sob escuta. As orgias entre Arafat e os seus guarda-costas alemães-orientais eram gravadas e foram relatadas detalhadamente por Constantin Munteaunu, o general romeno destacado para a OLP.

Mas voltando ao polónio descoberto nos bens pessoais de Arafat. Esse elemento radioativo tem uma "meia-vida" de 138 dias, o que significa que metade da substância se degrada a cada quatro meses e meio. Porém, oito anos após a morte de Arafat, o relatório dos cientistas suíços refere níveis altos da substância. Ely Karmon, especialista em terrorismo nuclear, biológico e químico do Instituto de Contra-terrorismo de Herzlyia, explicou que "Se tivesse sido usado para envenenamento, níveis mínimos seriam encontrados nesta altura. Todavia, níveis muito mais altos foram encontrados. Alguém colocou o polónio muito mais tarde." O mesmo investigador questionou-se sobre alguns dados da investigação da Al-Jazeera. "Se Suha Arafat guardou estes objetos contaminados, porque sete anos depois ela não foi também envenenada? Ela tocou estes pertences de Arafat no hospital". A profundidade da investigação da televisão Al-Jazeera foi também questionada, entre outros pontos, por não ter sido verificada a existência de polónio nas casas de Suha em Paris e Malta. Além disso, as informações divulgadas pelos médicos franceses que trataram Arafat não coincidem com um envenenamento com polónio.

O governo de Israel negou qualquer envolvimento nos novos rumores sobre a morte do líder palestiniano. Paul Hirschon, porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, mostrou-se céptico em relação às novas suspeitas, gracejando: "De repente, Suha estava a verificar o seu cesto de roupa suja e descobriu coisas que não foram lavadas há oito anos. Subitamente, umas peças de roupa aparecem; são testadas e pronto! Têm polónio!"

Como se nada de mais grave acontecesse no Médio Oriente, a Liga Árabe convocou uma reunião para debater as novas alegações sobre a misteriosa morte de Arafat. Os milhares de mortos na guerra civil da Síria; a insegurança no Iraque, Iémen e Bahrain; o fanatismo islâmico e o terrorismo que daí provém; o Irão em trajetória nuclear; as mulheres tratadas como objectos; os cristãos, bahaí’is e opositores políticos perseguidos; os jovens desempregados e sem futuro; a corrupção dos regimes e milhões de cidadãos sem direitos, todos podem esperar pelas decisões dos xeques e ditadores árabes.

Agora, como há mais de 50 anos, os árabes esperam pela resolução dos seus problemas. E, agora como há mais de 50 anos, os seus líderes adiam a discussão desses mesmos problemas, até que a Palestina e os seus mitos sejam resolvidos. Onde quer que esteja, Yasser Arafat estará exultante, com mais uma das suas bem montadas encenações.

publicado por Boaz às 22:57
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Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010

Hebron, entre o Céu e a guerra

No último dia das férias do Verão, antes do recomeço dos estudos na yeshivá, decidi visitar – desta vez sozinho – a cidade de Hebron, situada a apenas 20 quilómetros de casa. Há três anos que não visitava a cidade dos Patriarcas. Apesar da importância histórica e espiritual daquela que é a segunda cidade santa do Judaísmo, confesso que não é dos lugares que mais me atraem. Para lá da santidade, é uma cidade conflituosa, além de terrivelmente suja. Da primeira visita, recordo o som de tiros esporádicos e o persistente fedor a esterco de burro.


"Sétimo Degrau" | Túmulo de Sara
Túmulo de Yishai e Rute | Checkpoint "Tarpat"

Apanhei boleia no cruzamento de Gush Etzion. Destino: Kiryat Arba. Assim que se sai do cruzamento do Gush em direção a sul, a estrada torna-se mais estreita. Ao lado do caminho há vinhas e campos de cultivo, alguns abandonados. Atravessamos várias aldeias árabes. A maioria das casas parecem inacabadas. Grafittis em árabe estão em quase todas as paredes. Entre a miséria das aldeias sobressaem as casas dos ricos locais, com um telhado em forma de pagode chinês. Destoam tanto como as casas de imigrantes com inclinados telhados alpinos que pululam nas aldeias de Portugal. Montes de entulho de obras e das pedreiras e sucatas ferrugentas pontilham a paisagem. O lixo despejado na borda do jardim ou junto às paredes das casas fazem jus à proverbial imundície dos povoados árabes. Em frente a cada cruzamento, uma torre de vigia do exército de Israel. Na beira da estrada, placas vermelhas e brancas avisam os cidadãos israelitas da proibição de entrar no território da Autoridade Palestiniana. Ameaçadoramente declaram “Estão por sua conta e risco”.

Chegados a Kiryat Arba, o condutor da boleia deixa-me numa praça do colonato. Pergunto como chegar a Hebron. “Siga esta rua até ao cruzamento e espere uma boleia até à Gruta dos Patriarcas.” Pergunto se é possível chegar a pé. “Sim, tem presença do exército e da polícia. Não tem problema.” Ao chegar ao tal cruzamento, olho para Hebron, do outro lado da cerca que rodeia Kiryat Arba. Tirando o posto de controlo na entrada do colonato, não se vêm soldados na rua. Decidi não arriscar a caminhada e esperei pela boleia, que chegou logo a seguir. Quase não se avistam pessoas na rua. O calor do meio-dia não encoraja a sair de casa.

Na praça em frente à Gruta dos Patriarcas uma multidão de centenas de turistas franceses com bandeiras de Israel chega para visitar o santuário. Num dos cantos do edifício situa-se o lugar conhecido como o Sétimo Degrau. Desde a conquista islâmica no século XIII aquele era o ponto mais próximo onde os peregrinos judeus podiam rezar do túmulo dos Patriarcas. Depois de 1967, quando Israel conquistou a cidade à Jordânia, os Judeus puderam voltar a rezar no interior do santuário. Mesmo com a permissão, ainda hoje, muitos visitantes continuam a rezar no Sétimo Degrau, recordando 800 anos de humilhante proibição. Homens e mulheres, haredim e os tais turistas franceses, rezam juntos no local. Algumas mulheres choram.

À entrada do santuário há dois pontos de controlo dos visitantes. Não se pode entrar com armas. Nem com bandeiras, mesmo as de Israel que os franceses empunham. Grupos de homens estudam. Ao lado, um minyan reza Minchá, a oração da tarde. Uma vedação de madeira separa-os das mulheres que recitam salmos. No pátio interior coberto por um toldo, outro grupo de homens reza. De cada extremo do pátio, dois pequenos santuários entre os túmulos dos casais dos Patriarcas sepultados no local. Jacob e Leah de um lado. Abraão e Sara do outro. A decoração do local é tipicamente muçulmana, denotando o domínio islâmico quase ininterrupto durante 1400 anos. As pinturas nos tectos têm um aspeto renovado. Sob o túmulo de Leah, os pombos – indiferentes à santidade do local –, deixaram os seus despojos.

Decido estudar um pouco enquanto espero por um novo minyan para a oração da tarde. Saio pouco depois de terminada a reza. Ao descer as escadas para a rua pondero se devo ou não visitar outros locais de Hebron onde residem os judeus. Paro a alguns metros de um soldado que vigia um cruzamento da rua principal. Acerco-me e pergunto: “Quero ir até Tel Rumeida, é seguro?”. “Sim, não tem problema”, assegura-me.

A cidade de Hebron é um dos principais pontos de disputa entre Israel e os Palestinianos. Uma parte da Cidade Velha, em redor da Gruta dos Patriarcas e junto a Kiryat Arba, é controlada por Israel. Nessa área, três pequenos núcleos abrigam algumas centenas de habitantes judeus. Os bairros árabes têm um aspeto de cidade fantasma. A violência da Segunda Intifada – que em Hebron teve alguns dos seus piores episódios – levaram a prolongados períodos de recolher obrigatório e encerramento de lojas. Muitos dos habitantes árabes mudaram-se para o outro lado da cidade, controlada pela Autoridade Palestiniana.

À minha frente, na rua principal, caminha um casal de árabes idosos. O homem usa um longo keffiyeh branco e vermelho. Um pouco adiante, um turista asiático. Ao passar por ele cumprimenta-me com um sorriso: “Hello”. Retribuo a saudação e pergunto-lhe de onde vem. É sul-coreano. No caminho tento conversar um pouco com ele, mas o seu inglês é terrivelmente limitado. Decide parar junto a uma paragem de autocarro que me parece abandonada.

Continuo sozinho a minha jornada. Olho as varandas sobre a rua principal, todas protegidas por finas redes de ferro. “Ao menos assim, não tenho de me preocupar que me atirem alguma pedra…”, penso. Todavia, um cano de espingarda passa bem entre os buracos da rede. Confio que o Exército deve ter procedido à limpeza das armas da cidade. No caminho, uma cafetaria self-service para uso dos soldados israelitas que patrulham as ruas. Beit Hadassa, o antigo hospital judaico é hoje uma das residências judaicas em Hebron. O local foi palco de um massacre da comunidade judaica às mãos dos vizinhos árabes, em 1929. Um pequeno museu recorda a tragédia.

Até há alguns anos, em cada porta havia uma loja. Hoje estão todas fechadas e trancadas com uma barra de ferro. A Intifada matou o comércio nesta metade da cidade. Não sei se ainda vivem árabes naquela área. Alguns barulhos de conversas e de televisões informam-me que sim. No fim da rua, um checkpoint serve de passagem de pedestres para a parte palestiniana de Hebron.

Tel Rumeida, o meu destino, situa-se no alto de uma colina. A estrada é íngreme. Ao lado, o muro que separa a cidade. Quase no alto da encosta, uma abertura no muro permite observar a cidade palestiniana do outro lado. Ao contrário da área onde me encontro, daquele lado vejo shoppings e mais shoppings, com cúpulas vistosas. Prédios residenciais modernos. Aqui e além, mais alguns pagodes chineses. E um ininterrupto barulho de buzinas.

No alto da ladeira, dois soldados patrulham um cruzamento muito próximo de Tel Rumeida. Ali situa-se, ao lado de uma pequena base militar israelita, o núcleo judaico mais isolado de Hebron. A maior parte das famílias vivem em caravanas, ao lado das ruínas milenares de Tel Hebron. Entro no recinto da base para visitar o túmulo de Yishai e Rute, pai e bisavó do rei David. É uma ruína poeirenta e deserta. Uma vela memorial colocada sobre a laje escurecida testemunha que alguém passou ali recentemente. Entro na pequena sinagoga ao lado. Está vazia, mas a luz e a ventoinha estão ligadas. Sento-me por alguns minutos para descansar do calor e da caminhada. Recito alguns salmos. As eternas palavras do Rei David entoadas na cidade onde ele reinou por sete anos têm outro significado. Dou uma volta pelas ruínas. Um painel informa a existência de uma antiga sinagoga. Entro, curvando-me, por uma porta baixa. No interior, nada lembra tratar-se de uma sinagoga. Exceto alguns livros sagrados numa estante ou amontoados num canto, cobertos de pó.

São horas de regressar a casa. Desço a encosta em direção ao centro da cidade. Algumas crianças árabes caminham também por ali. Passa por mim um carro israelita, o primeiro que vejo passar desde que saí há mais de uma hora da Gruta dos Patriarcas. Junto a Beit Hadassa várias crianças judias correm pela rua. Para eles aquele é o espaço de brincadeiras, independente da situação que se viva na cidade.

Avisto o autocarro 160 que vai partir para Jerusalém. Cheguei em boa hora. Na segunda paragem, o turista coreano ainda espera o transporte de regresso a Jerusalém. Olho a cidade passar pelo vidro sujo do autocarro. Sujo como as ruas da Cidade Velha com casas esventradas, cicatrizes da Intifada. Hebron é um dos símbolos das intermináveis (e talvez insolúveis) negociações com os Palestinianos. É difícil para Israel manter a situação atual, pelos custos económicos e humanos. O exemplo da entrega de Gaza não perspetiva bons resultados para futuras transferências de território. Até porque Hebron é um dos mais poderosos redutos do Hamas na Cisjordânia.

Santa e conflituosa. Cheia de preces. Cansada de mágoas.

publicado por Boaz às 21:10
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Segunda-feira, 31 de Maio de 2010

Quando apenas resta a gestão dos estragos

Uma frota de barcos, carregada de ajuda humanitária para a desgraçada e bloqueada Gaza, a ser entregue por algumas centenas de ativistas dos direitos humanos. Esta seria a definição simples da "Frota da Liberdade". Porém, esta definição é também profundamente ingénua e distorcida. Em primeiro lugar, os organizadores da iniciativa pertencem a uma organização turca de direitos humanos, que a par de louváveis iniciativas de caráter humanitário no Terceiro Mundo, é suspeita de canalizar fundos para várias organizações envolvidas na Jihad, entre elas, o Hamas. Além disso, três dos turcos mortos na tomada de um dos barcos pelo exército de Israel haviam declarado querer morrer como mártires pela Palestina. Ou seja, esta era para eles nada menos que uma missão suicida.

Comprometido com um bloqueio naval e terrestre à Faixa de Gaza governada pelo Hamas, há mais de uma semana que Israel negociava com os organizadores da "Frota". O governo de Israel tentou convencer a organização da missão a canalizarem a ajuda para Gaza através da via terrestre, permitindo antecipadamente a verificação da carga para eliminar qualquer suspeita de tráfico de armas ou material que pudesse ser usado pelo Hamas contra Israel. Todas as vias de negociação foram recusadas pelos ativistas. Recusado foi também um pedido da família do soldado israelita Gilad Shalit, sequestrado em Gaza há quatro anos, para lhe ser entregue também um pacote de ajuda.

É óbvio que o resultado é trágico. Nove mortos (as fontes iniciais falavam em 15 ou mesmo 20). E várias dezenas de feridos. Israel reclama que agiu em legítima defesa, quando os soldados foram recebidos à bastonada e com facas pelos auto-intitulados tais defensores dos direitos humanos no navio "Mavi Marmara". Nos outros cinco barcos não houve violência. Os militares estavam equipados com espingardas de paintball e com pistolas a ser usadas apenas em última análise. Não esperavam tamanha resistência por parte dos integrantes da "Frota".

Qualquer que fosse o desfecho, ele nunca seria bom para Israel. E seria sempre muito conveniente para o Hamas. Na semana que antecedeu a tomada dos barcos, durante as discussões entre o governo de Israel e os organizadores da "Frota", o próprio Primeiro-ministro do Hamas, Ismail Haniyeh, declarou que o Hamas sairia vencedor deste episódio, fosse qual fosse o desfecho. Não é preciso ser profeta para fazer essa declaração. Se os barcos fossem deixados passar, isso significaria um furo no bloqueio israelita: uma vitória para o Hamas. Se os barcos fossem impedidos de chegar, em qualquer caso, Israel ficaria mal visto: uma vitória para o Hamas.

A "Frota" disfarçada de missão de ajuda humanitária foi uma perfeita e bem montada operação de Relações Públicas para o Hamas. É assim que se pode resumir, numa frase, toda esta história da "Frota da Liberdade". Os ativistas internacionais, embebedados por um ódio anti-Israel deixaram-se levar pelo engodo. Ou, sem qualquer vergonha, aderiram a ele deliberadamente. Israel não tinha como ganhar o confronto. Nesta, como noutras crises, resta fazer uma gestão dos estragos na imagem internacional de Israel. Mais difícil ainda com um temperamental Ministro dos Negócios Estrangeiros com fama de "falcão". Frente às embaixadas israelitas por essa Europa fora, multidões gritam contra Israel e a favor dos Palestinianos com os slogans do costume. Em Lisboa eram uns 50 gatos-pingados.

A causa ganhou mais alguns mártires. Alguns deles mártires por vontade própria. Todos com direito ao harém de 70 virgens prometido pelo profeta. Esta tarde, de regresso a casa, reparei que praticamente todas as lojas do mercado árabe da Cidade Velha de Jerusalém se encontravam fechadas. Um sinal de protesto pela tragédia ao largo de Gaza. De qualquer forma, algumas lojas estavam de porta entreaberta. Não fosse aparecer algum turista interessado na quinquilharia disponível. Imagino que haja festejos à porta fechada. Aos olhos do Mundo, Israel saiu (mais) mal visto. O Hamas cantará vitória.

PS – Atenções mundiais viradas para Israel e, a Turquia – pátria dos barcos e da maioria dos ativistas da "Frota da Liberdade" – teve um timing perfeito para bombardear posições dos seus opositores curdos no Curdistão Iraquiano. Não se esperam manifestações anti-turcas frente às respetivas embaixadas.

publicado por Boaz às 23:00
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Quinta-feira, 11 de Março de 2010

O legado dos Patriarcas nas mãos dos políticos

No dia 21 de Janeiro, o governo de Israel apresentou um plano de restauro do património nacional. Num país marcado pela história religiosa de Judeus, Cristãos e Muçulmanos, é óbvio que locais sagrados seriam incluídos no documento. Todavia, a lista não teria chegado às primeiras páginas dos jornais e levantado polémica – inclusive a nível internacional –, se não constassem locais nos chamados Territórios Palestinianos.

Kever Rachel, o túmulo da matriarca Raquel na entrada da cidade de Belém, e Maarat HaMachpelá, a Gruta dos Patriarcas em Hebron, são os pontos da polémica. Depois da divulgação da lista, ocorreram confrontos entre residentes árabes e o exército israelita que controla uma parte da cidade de Hebron.


Maarat HaMachpela
, a Gruta dos Patriarcas, em Hebron.
O local é partilhado por Judeus e Muçulmanos.
Uma multidão de peregrinos judeus espera para entrar na sala do túmulo de Isaac,
onde o acesso de Judeus é permitido apenas duas vezes por ano.

De acordo com a declaração do governo, uma das intenções ao formular esta lista é promover a preservação dos locais e permitir o acesso a pessoas de todas as religiões. "A nossa existência aqui, no nosso país, depende não apenas da força do Tzahal (Forças de Defesa de Israel) e do nosso poderio económico e tecnológico. Está ancorada, mais do que tudo, no nosso legado nacional e emocional, o qual nós inspiramos na nossa juventude e nas próximas gerações".

É evidente que a lista tem uma intenção política, mostrando o plano político de afirmar o controle israelita desses locais. Porém, existe também seriedade na decisão do governo de Israel em querer preservar património judaico em locais reclamados por Muçulmanos. A história deu a Israel, e aos Judeus em geral, provas evidentes do destino dos locais sagrados judaicos quando caem sob a tutela dos não-judeus, em especial dos poderes árabes.

Em 1994, quando foi instituída a Autoridade Nacional Palestiniana (ANP), Israel entregou à nova entidade o controlo da cidade de Jericó e da maioria da Faixa de Gaza. Em Jericó, logo após a transmissão de poderes para a ANP, polícias palestinianos subiram ao telhado da antiga sinagoga “Shalom al Israel” e ostentaram a bandeira palestiniana, num sinal de evidente desprezo pelo lugar. No ano 2000, com o estalar da segunda Intifada, livros sagrados e relíquias da sinagoga foram queimados, o antigo chão de mosaico destruído e o local foi transformado numa mesquita.

Em Shechem (Nablus), no mesmo dia da entrega da cidade à Autoridade Palestiniana, em 17 de Outubro de 2000, uma multidão de palestinianos saqueou o antigo túmulo de José, um dos filhos do patriarca Jacob, esmagando a cúpula com picaretas e ateando fogo ao santuário. Após o ataque, o exército de Israel proibiu o acesso ao local aos peregrinos judeus, por motivos de segurança. Alguns dias depois, iniciaram-se obras de reconstrução e as autoridades palestinianas proibiram os peregrinos judeus de rezarem no local, até que uma comissão internacional independente determinasse se o local era santo para Muçulmanos ou para Judeus. (Mas nunca para ambos?) Ainda assim, de forma clandestina alguns peregrinos atreviam-se, de tempos a tempos, a visitar o local.

Com o tempo o santuário foi sujeito a vários atos de vandalismo, tornando-se depósito de lixo e de queima de pneus. Em 2007, jovens palestinianos de novo encheram o local de pneus e atearam-lhes fogo. Em resposta, o líder palestiniano Mahmud Abbas declarou o túmulo local santo islâmico. (A santidade da terra queimada...) Esse novo estatuto não salvou o lugar da selvajaria e da profanação. Em Abril de 2009, a pedra tumular foi esmagada e suásticas pintadas nas paredes.

A ONU e a UNESCO protestaram imediatamente a inclusão do Túmulo de Raquel e da Gruta dos Patriarcas na recente lista israelita do património a preservar. Porém, nunca protestaram a sucessiva depredação do Túmulo de José nem o vandalismo em Jericó ou em dezenas de outros locais judaicos – antigas sinagogas e túmulos de personagens bíblicos – situados em áreas controladas pela Autoridade Palestiniana.

No entanto, não foi apenas às mãos dos palestinianos que o património judaico foi vandalizado e desprezado. No Iraque, outrora pátria de uma significativa comunidade judaica, o túmulo do profeta Yechezkel (Ezequiel) era local de peregrinação de Judeus, Cristãos e Muçulmanos. Durante séculos, o santuário esteve ao cuidado da numerosa comunidade judaica. Após a independência de Israel, em 1948, os judeus iraquianos foram alvo de campanhas de intimidação e a maioria abandonou o Iraque. O venerado túmulo do profeta foi caindo em ruína.

Recentemente, as autoridades iraquianas iniciaram obras no local com vista à sua preservação. Porém, inscrições em hebraico e outros sinais judaicos foram apagados. A intenção é transformar o túmulo numa mesquita. Outros milenares túmulos judaicos no Iraque, como os do profeta Jonas, de Ezra o Escriba e do Rei Tzidkiahu (Zedequias) poderão num futuro próximo ser alvo da islamização forçada.

A lista do património a defender pelo Estado de Israel levantou críticas entre alguns políticos muçulmanos. Uma das mais ofensivas foi a do PM turco, Recep Tayyip Erdogan. Um jornal saudita citou-o, dizendo que o Túmulo de Raquel e a Gruta dos Patriarcas "não foram e nunca serão locais judaicos, mas islâmicos".

Na verdade, o acesso à Gruta dos Patriarcas tem sido partilhado entre Judeus e Muçulmanos, já que estes reconhecem o local como a Mesquita de Al-Ibrahim. No caso de Kever Rachel, após mais de 1700 anos de reconhecimento como o túmulo da matriarca Raquel, no ano 2000, muçulmanos começaram a chamar o local como mesquita Bilal ibn Rabah. Desde então, a novíssima denominação muçulmana passou a integrar o discurso politico palestiniano.

A cínica ignorância histórica de Erdogan, um político considerado moderado, é apenas mais um episódio de uma sistemática campanha para tentar romper qualquer ligação dos Judeus à Terra de Israel e a Jerusalém. Para além de argumentos religiosos, históricos e políticos sobre o direito de controlo e preservação, ou no mínimo de acesso de peregrinos judeus aos locais sagrados judaicos na Judeia e Samaria, a situação no terreno desde os Acordos de Oslo tem mostrado que os Palestinianos não têm respeitado o seu compromisso de preservação e liberdade de acesso a estes locais de culto.

O Túmulo de Raquel, reconhecido como um santuário judaico por mais de 2000 anos, e como tal mencionado inclusive em abundante literatura islâmica, tornou-se um local disputado por reclamações recentes. Tal como fizeram em outras ocasiões, os Palestinianos usam reais ou imaginárias reclamações religiosas para conseguir capital político para a sua campanha nacional. Nos sermões dos políticos árabes e dos imãs muçulmanos, uma das novidades é insistir que até o antigo Templo de Salomão não foi construído em Jerusalém. Para estes arqueólogos e historiadores de quintal, o Templo afinal foi construído... no Iémen.

publicado por Boaz às 23:46
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Quarta-feira, 16 de Dezembro de 2009

Viram? ou Toda a gente estava à espera desta, mas ninguém o disse porque pensavam que o gajo se contentava

Aviso que vou despejar uma bela dose de cinismo nas próximas linhas. Apeteceu-me. Acho que também tenho direito a um pouco de mangação.*

Há poucos dias, o Primeiro-Ministro de Israel, Benyamin Netanyahu revelou uma decisão do governo em congelar durante 10 meses todas as novas construções nos colonatos judaicos na Judeia e Samaria (chamadas pela comunidade internacional Cisjordânia ou Margem Ocidental ou Territórios Palestinianos). Em Israel, essa decisão causou um escândalo. Até mesmos os partidos da oposição de esquerda, mas propensos a cedências ao outro lado, atacaram a decisão de "Bibi" por colocar no mesmo saco os colonatos estratégicos como Gush Etzion e Maale Adumim e os pequenos colonatos clandestinos, compostos de caravanas em locais isolados.

Ninguém sabe bem a intenção do chefe do governo. Uns dizem que, com esta cedência ele quer "colocar a pressão do lado dos Palestinianos" para retomarem as negociações. Outros dizem que quer dar um pequeno empurrãozinho aos "moderados" da Fatah, adversários dos "radicais" do Hamas nas próximas eleições para a Autoridade palestiniana. Uma terceira versão diz que tudo não passa de uma manobra bem calibrada para que Obama e a Senhora Clinton – aflitos para melhorarem a imagem dos States no mundo árabe já que a decisão de mandar mais 10 mil soldados para o Afeganistão e os carros-bomba diários em Bagdad não ajudam nas Relações Públicas e uns puxões de orelhas aos Judeus parecem servir a causa – deixem de enfadar o governo de Israel para retomar o "processo de paz".

Mas, se alguém achava que um congelamento da construção nos colonatos ajudava em alguma coisa – ao pressionado "Bibi" ou à pressionada Fatah – a resposta do outro lado foi simplesmente inventar mais uma desculpa para continuar no mesmo cinismo desde 1991 quando começaram a falar com Israel para ver se lhe arranjarmos um cantinho para montarem mais um curral com pretensões de país para sobreviver às custas da comunidade internacional.

Mahmud Abbas, presidente da Autoridade Palestiniana, mandou de volta o presentinho de "Bibi" e ainda fez uma exigência para o próximo presente: "não há negociações até que o Mundo – não apenas Israel, estão a ouvir? – reconheça as fronteiras de 1967 para o futuro estado palestiniano."

Sinceramente, até agradeço a sinceridade ao Sr. Abbas. Ao menos um que ponha as cartas em cima da mesa. Assim, ninguém se engana a pensar que ele tem alguma boa vontade nesta coisa do "processo". Os "maus da fita" do Hamas já o fizeram há muito tempo, como em 2005, quando Israel saiu de Gaza. Declararam logo: "hoje Gaza, amanhã Tel Aviv". O Sr. Abbas quis dizer exatamente o mesmo, mas apenas o fez com uma raiva jihadista menos evidente.

Então, pensavam mesmo que conseguiam alguma coisa com a gracinha do congelamento? Eu até imagino que não, mas há que fazer alguma coisa quando se está no poleiro e a coisa ferve. Em Portugal, a silly-season da política é mais para o Verão. Em Israel, parece funcionar em imprevistas intermitências, de Janeiro a Dezembro.

* Foi o melhor sinónimo de "troça" que encontrei no dicionário.

publicado por Boaz às 23:49
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Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

A geração dos 'Pardais'

Nesta última semana de intervalo nos estudos da yeshiva tive uma pequena mas interessante proposta de trabalho: ser guia de um grupo de jovens sul-americanos em visita a Gush Etzion, o bloco de colonatos a sul de Jerusalém e onde vivo há quase ano e meio. Fui substituir um brasileiro residente – tal como eu – em Alon Shevut e mais acostumado a estas andanças de guia turístico.

Nas vésperas, avisaram-me por e-mail que deveria falar da região de Gush Etzion, a sua situação política e estratégica, o modo de vida dos colonos, as diferenças entre os vários colonatos do "Bloco" e um pouco da história da região. Uma pesquisa noturna à pressa pela Internet, com as páginas da Wikipédia a encabeçarem as opções na busca de informação, deu-me alguns dados para completar aquilo que já sabia de cabeça. O episódio da "caravana dos 35" – que, nem por coincidência deu nome à minha rua, foi um dos pontos que mais destacaram que eu deveria falar.

Encontrei-me com o grupo às 11:45 junto ao alon ha'boded, o carvalho solitário que é o símbolo da zona. Tinham-me avisado que os jovens do grupo não eram religiosos. Bem, "não religiosos" seria uma definição algo branda para aquele bando. Membros da organização judaica de inspiração socialista, HaBonim Dror, os jovens eram na verdade mais do género "anti-religioso". De qualquer forma, sempre se mostraram respeitosos pela minha presença. A kippá grande, as longas peyot e os tzitzit à mostra não os assustaram. Eu também não me senti intimidado pelos grandes decotes e calções de verão das meninas e pelos penteados estranhos e os piercings dos rapazes. (Eu também já fui da "malta moderna". E até já usei um piercing! Vidas passadas.)

Depois da breve visita à histórica árvore, fomos para o kibbutz vizinho de Kfar Etzion, o mais antigo colonato da região, palco de um massacre exatamente no dia anterior à declaração de Independência de Israel. Era já hora de almoço e sentámo-nos à sombra de umas árvores num parque. Aí, tive a oportunidade de conversar com alguns dos outros guias, do Brasil e da Argentina.

Depois, dividimo-nos e metade do grupo foi visitar a yeshivá de Alon Shevut. Uma explicação – talvez demasiado longa – sobre alguns achados arqueológicos no jardim da yeshivá. Subimos até à ala das mulheres, com uma vista soberba do Beit Midrah, o lugar de estudos principal da yeshivá. Imagine-se aquela gente que nunca tinha entrado numa yeshivá – possivelmente muitos nem sequer entraram alguma vez numa sinagoga. Só nessa altura, os outros guias se lembraram que não tinham avisado as meninas para se vestirem de forma "composta", um pouco mais tapadas. Explicámos como é a vida na yeshivá e o modo de vida dos estudantes. Cinco minutos de explicação e voltámos aos autocarros.

Há que voltar daqui a pouco até "à base", onde metade do grupo tem outras atividades e nos espera para também fazerem este giro. Ainda temos alguns minutos para passar por Efrat, o maior colonato de Gush Etzion. Assim que chegámos à primeira rotunda de Efrat, o autocarro deu meia volta e voltou para trás. Não há mais tempo. Este meio-grupo não viu nada do local. Temos de mudar a estratégia para a próxima vez. Troquei de autocarro e tomei o microfone. Há que aproveitar os breves minutos da viagem entre os vários colonatos para ir falando.

Apesar de se identificarem como judeus – ainda que pelo talvez metade não o sejam de acordo com a lei judaica, filhos de pai judeu, mas não de mãe judia ou apenas netos de algum judeu – e imaginando que estão habituados a uma imagem de Israel muito desfocada pelos meios de comunicação social e pela ideologia de extrema-esquerda do Dror – a imagem do colono judeu fanático, sedento de sangue árabe, que come criancinhas palestinianas ao pequeno-almoço – tentei passar-lhes a ideia de que essa é uma ideia errada e que nem sequer todos os colonos são iguais. Que, tal como no resto do povo judeu no mundo inteiro, há judeus de todos os tipos e até seculares que habitam esta região.

Depois de 10 minutos de palestra, apercebi-me que o autocarro ainda não tinha saído do lugar. Ah, eu não tinha dado a ordem de largada! Bem, não me imaginava o líder da comitiva, mas apenas o que provê alguma informação. Fomos para Alon Shevut com quase 15 minutos de atraso. À chegada ao parque de estacionamento da yeshivá, uma vista sobre o enorme colonato de Beitar Illit, uma cidade habitada exclusivamente por judeus ultra-ortodoxos. Ao subirmos as escadas para a yeshiva, avisto o Rabino Aharon Lichstenstein, o director da yeshiva. "Aquele velhinho ali à frente é, apenas, um dos rabinos mais famosos do mundo", informo. Noto olhares impressionados entre os jovens. Não devem ter visto muitas vezes um rabino, ao vivo.

No andar de cima do Beit Midrash deixo-os fazer perguntas. "Porque está um aluno a dormir?" Explico como é cansativo estudar Torá o dia inteiro. "Aqui não estudam mulheres?" Falo da midrashá do kibbutz vizinho de Migdal Oz, com uma versão feminina da yeshivá de Alon Shevut, onde as mulheres estudam a Torá e outras fontes judaicas a fundo, a um nível raro a nível mundial e num ambiente judaico ortodoxo. Aproveito para explicar a evolução da perspetiva judaica em relação às mulheres e os avanços da Halachá (Lei Judaica) com a ajuda da ciência. Aponto o jovem no Beit Midrash que usa um computador e os dois jovens que estudam juntos por um volume da Guemará. As duas faces do estudo da Torá.

Ainda há tempo de ir a Efrat. Ali, temos 10 minutos até ao regresso. Uma visita ao belo miradouro ladeado de buganvílias e pinheiros. Observam o vale onde passa a estrada para Jerusalém e Elazar, o pequeno colonato do outro lado do vale. Mostro-lhes a tranquilidade da vida em Efrat. "E os Territórios Palestinianos, onde são?" Explico que, de acordo com a comunidade internacional, ali já são os "Territórios".

Antes de regressarmos, peço perguntas, mesmo as difíceis. Um rapaz pergunta: "Recebes alguma ajuda do governo para viver aqui?". E uma menina observa: "Isto é tudo muito lindo e tranquilo mas, e do outro lado da cerca, como vivem os Palestinianos?" A guia não me deixa responder ali. Temos de voltar para o autocarro. As respostas têm de ficar para a curta viagem de regresso. Explico que não tenho qualquer ajuda especial para viver ali. É certo que as casas são mais baratas naquela região do que numa qualquer cidade do país, mas apenas por uma questão das leis de mercado. E com a falta de casas os preços têm subido bastante. Ajudas? Eu pago 200 shekels – cerca de 40 euros – por mês, apenas para a empresa de segurança privada do colonato onde vivo.

A cerca... Achei bem explicar a "grande cerca", o Muro. É ruim, é feio, é injusto, mas é necessário. O facto de podermos viajar hoje de autocarro em Israel sem grandes receios, devemo-lo ao malfadado muro. Comparo com outro muro, igualmente caro e feio, mas bem menos polémico, e que ninguém condena: o muro construído com dinheiro da União Europeia em redor de Melilla, um enclave espanhol em Marrocos, para impedir a onda de imigrantes africanos de chegar à Europa. Se as intenções dos Palestinianos em relação a Israel fossem as daqueles imigrantes que apenas querem trabalhar, será que precisávamos do "nosso" muro?

Sei que não vai ser com alguns minutos de conversa que eles serão conquistados para apoiarem Israel. Pelo menos, espero que entendam um pouco melhor a posição das pessoas que vivem aqui. E que os tenha ajudado a destruir alguns estereótipos.

Nota: "Pardal" é a outra tradução possível de Dror, o nome pelo qual é conhecido do movimento a que pertenciam os jovens, HaBonim Dror, os "Construtores da Liberdade".

publicado por Boaz às 23:11
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Domingo, 29 de Março de 2009

O último acorde

Há poucos dias, uma orquestra composta por crianças do campo de refugiados palestinianos de Jenin realizou uma pequena actuação em Israel. A audiência: um grupo de sobreviventes do Holocausto. As crianças eram membros da orquestra palestiniana "Cordas da Liberdade" baseada naquele campo de refugiados. O concerto foi realizado no Centro de Sobreviventes do Holocausto de Holon, uma cidade próxima de Tel Aviv.

A princípio, as crianças não sabiam que iriam tocar para tal plateia. Os espectadores também não sabiam da proveniência das crianças. As crianças pensavam que era apenas um grupo de idosos israelitas. Os sobreviventes pensavam que as crianças provinham de uma aldeia árabe vizinha.

A surpresa mútua despertou curiosidade pela história de ambos os grupos. A vida dos refugiados palestinianos não é assunto de quotidiano em Israel. As crianças nunca tinham ouvido falar do Holocausto - não é assunto ensinado nas escolas palestinianas, e se, por acaso for mencionado, é mostrado apenas como "propaganda sionista".

Hoje, em reacção à participação das crianças no concerto, a orquestra foi desmantelada por autoridades palestinianas. O apartamento onde funciona a escola de música foi confiscado. O caso foi visto como "perigoso, porque foi dirigido contra a identidade cultural e nacional dos Palestinianos".

Mais importante do que cultivar a música ou o entendimento, é manter a luta. Manter as crianças treinadas na propaganda da causa, está acima de tudo.

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publicado por Boaz às 22:33
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Terça-feira, 9 de Outubro de 2007

Política, mentiras e vídeo

Há menos de duas semanas, o Jerusalem Post publicou no seu sítio na Internet, o vídeo do assassínio de uma jovem de 16 anos, que teve lugar em Julho, em Gaza. Mais um caso de “crime de honra”. A notícia foi apresentada como um exclusivo do jornal. O vídeo tinha sido obtido pelo jornalista Khaled Abu Toameh, o correspondente do jornal para os assuntos palestinianos.

Porém, em poucas horas, o “furo jornalístico” revelou-se uma mentira. O vídeo era real, mas não havia sido gravado em Gaza, antes no Iraque, em Abril. Uma cilada na qual se via envolvido o mais prestigiado dos jornais israelitas.

Quem entregou o vídeo ao jornalista? A Fatah, o movimento do presidente palestiniano, que controla a Cisjordânia. O jornalista havia sido chamado ao Quartel-general de Informações da Fatah em Ramallah, onde um oficial da Fatah lhe entregou o vídeo e os telefones de duas alegadas testemunhas do assassinato, que iriam corroborar a história.

Descobriu-se depois que as “testemunhas” eram na verdade milicianos da Fatah em Gaza. A história era uma total fabricação. Com que objectivo? Mostrar a Fatah e o governo de Mahmud Abbas como credíveis, parceiros para a paz e lutadores contra as forças do mal representadas pelo Hamas, que há meses controla a Faixa de Gaza, instituindo um estado de terror e não de ordem. A história do assassinato da jovem acabou por ser retirada do site do Jerusalem Post e não foi publicada no jornal no dia seguinte. O ardil montado pela propaganda da Fatah, esse sim, foi revelado.

Na semana passada, o governo de Israel libertou da prisão 87 palestinianos condenados por participação em actos terroristas. Um pormenor que não é circunstancial: todos eram afiliados da Fatah. A acção destinou-se a fortalecer a Fatah e o governo de Abbas na Cisjordãnia, contra o governo do Hamas que controla Gaza.

Esta acção de libertação dos prisioneiros vem sem contrapartidas. A Fatah não tem de dar nada em troca da liberdade dos 87 terroristas. Afinal, nem sequer a televisão palestiniana deixa de passar programas “educativos” anti-Israel. As escolas continuam a ensinar o ódio. Os políticos da Fatah continuam a insistir no retorno dos 4 milhões de refugiados palestinianos, uma ideia que evidentemente resultaria na destruição de Israel.

O governo de Israel sabe de isto tudo. E mesmo assim libertou os 87 terroristas. Apenas para fortalecer a Fatah contra o Hamas. No passado, várias acções de libertação de prisioneiros, por vários governos de Israel tiveram o efeito contrário ao pretendido.

Descobriu-se que mais de 100 israelitas morreram em ataques realizados ou planeados por terroristas que tinham sido libertados da prisão por ordem do governo. O caso mais conhecido foi a libertação do xeque Ahmed Yassin, o paralítico líder espiritual do Hamas. Na altura, a libertação de Yassin destinava-se a enfraquecer e desacreditar Yasser Arafat. Mesmo limitado a uma cadeira de rodas, o diabólico Yassin continuou a instruir milhares de terroristas do Hamas que mataram centenas de israelitas.

Na mesma semana da mentira do vídeo, a Fatah realizou outra acção de propaganda: entregou às tropas de Israel uma série de tubos de metal descobertos próximos de Belém e que, alegadamente seriam usados na construção de mísseis. O caso parece ter causado algum sobressalto em Jerusalém, perante a perspectiva de ataques diários de mísseis à cidade, a partir de Belém, como os que acontecem em Sderot e outras localidades, vítimas dos ataques diários a partir de Gaza. A entrega dos tubos pretendia mostrar o governo de Abbas como um lutador contra o terrorismo. Soube-se depois que afinal os tubos de metal eram exactamente isso: tubos de metal. E que eram usados como brinquedo por algumas crianças.

Se é importante destruir o terrorismo do Hamas, não é menos importante deixar de fortalecer o terrorismo da Fatah. Uns, aberta, os outros, disfarçadamente, desejam o mesmo: apagar Israel do mapa.

Ps – O Hamas e a Fatah têm-se envolvido numa guerra de propaganda que atingiu níveis sórdidos. Ambos reclamam ter vídeos dos outros envolvendo escândalos sexuais. Desde relações homossexuais envolvendo altas figuras do regime, abusos pedófilos numa mesquita do Hamas em Gaza, adultério de líderes da Fatah. Tudo vale para ganhar a confiança da plebe e mostrar que o outro lado é o mau da fita.

publicado por Boaz às 15:05
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

O arco da crise

Com frequência, analistas, jornalistas e políticos referem-se à resolução do conflito entre Israel e os Palestinianos como a chave para a estabilização do Médio Oriente e daí, de todo o Planeta.

Recentemente, o Iraq Study Group (ISG) liderado por James Baker, antigo Secretário de Estado americano foi incumbido pelo presidente Bush de encontrar formas para vencer a guerra no Iraque, de uma forma mais rápida e menos custosa. Em sangue e dólares. A conclusão do ISG foi: "a resolução a disputa Israel-Palestina" é a chave para ganhar a guerra no Iraque.

A ideia da centralidade do conflito Israel-Palestinianos não é exclusiva de James Baker e seus associados. Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU partilha da mesma ideia. E também, aparentemente, o seu sucessor Ban Ki-Moon, que recentemente disse a um jornal sul-coreano: "Se as questões no conflito entre Israel e a Palestina [sic] forem bem, outras questões no Médio Oriente... irão da mesma forma ser resolvidas."

Será o conflito entre Israel e os Palestinianos assim tão central no Mundo e mesmo no Médio Oriente?

Façamos então um passeio pelo Grande Médio Oriente, ao qual Tony Blair chamou "o arco da crise". Estendendo-se do Atlântico ao Índico, compreende 22 países. Dezasseis deles árabes, mais a Turquia, Arménia, Azerbeijão, Israel, Irão, Afeganistão e Paquistão. Todos foram fundados após o desmembramento de algum império colonial. Como primeiro sinal de instabilidade, saiba-se que nenhum destes estados goza de fronteiras inteiramente reconhecidas. Todos têm diferendos fronteiriços com um ou mais vizinhos, reclamando partes dos seus territórios. A maioria já travou guerras em consequência dessas reclamações.

Comecemos a digressão pelo Afeganistão. Reclama a soberania sobre a paquistanesa Província da Fronteira Noroeste. Na década de 1960, os dois países travaram uma série de guerras fronteiriças pelo controle da região. O Irão, por seu lado, insiste no direito de supervisão no oeste do Afeganistão baseado no Tratado de Paris de 1855. Iranianos e afegãos disputam ainda as águas de três rios fronteiriços, o Hirmand, o Parian e o Harirud.

O Paquistão desde 1947 mantém uma longa disputa territorial com a Índia pelo controle de Caxemira, desde a divisão do antigo Império Britânico da Índia, em dois estados, em 1947. Caxemira foi a origem de três guerras em larga escala e numerosos episódios de violência na fronteira entre os dois países. É responsável ainda pela corrida de ambos às armas nucleares, além de centenas de ataques terroristas, sobretudo na Caxemira indiana. Além de Caxemira, o Paquistão mantém uma disputa com o Irão sobre águas territoriais no Mar Arábico e sobre a nacionalidade de várias tribos de etnia Baluch que vivem dos dois lados da fronteira entre os dos países.

Numa escala muito maior, o Irão e o Iraque travaram uma série de guerras desde 1936 pelo controle o estuário do Shatt al-Arab. Um tratado de paz foi assinado em 1975, mas em 1980 Saddam Hussein invadiu o Irão, começando uma guerra de oito anos e que fez mais de um milhão de mortos nos dois lados. Desde a deposição de Saddam em 2003, o Irão redesenhou a fronteira a seu favor. E continua a reclamar o direito de supervisão sobre santuários xiitas no Iraque como Samara ou Karbala.


Irão, Esquadrão de fuzilamento nos primeiros anos da Revolução Islâmica.
Foto de Jahangir Razmi, fotógrafo iraniano. Prémio Pulitzer

A sul, e desde 1971, o Irão reclama dos Emirados Árabes o controle de três estratégicas ilhas no estreito de Ormuz, por onde flúi diariamente metade do petróleo do Mundo. A norte, luta com o Turquemenistão, o Kazaquistão, o Azerbeijão e a Rússia pelo Mar Cáspio. Os vizinhos pretendem a divisão deste mar interior conforme a extensão das suas fronteiras. Para reclamar a divisão equitativa que duplicaria a sua extensão do Cáspio, o Irão mantém desde 1995 uma marinha de guerra e impede as petrolíferas internacionais de explorarem gás e petróleo nas águas azeris e turcumenas que Teerão reclama como suas. Teerão tenta ainda manter um controlo da província de Khuzestan, rica em petróleo. A região teve uma maioria de população árabe até à década de 1940. Desde então tem sido sistematicamente "persianizada." Recentemente, várias tribos árabes residentes perto da fronteira iraquiana foram expulsas e substituídas por habitantes persas do centro do Irão.

O Irão é visto pelos países árabes como uma ameaça directa, em especial os Estados do Golfo. No entanto, mesmo entre estes, as relações não são amistosas. Apesar das relações tribais entre as famílias reais da região, a Arábia Saudita travou em 1955 uma guerra com Omã pelo controle do oásis de Buraimi, alegadamente rico em petróleo. Décadas de negociações não foram suficientes para se chegar a um acordo. No ano passado os Emiratos Árabes renunciaram a um tratado de 1974 com a Arábia Saudita, adivinhando-se uma terceira reclamação sobre o oásis.

Desde o final da década de 1990, o Qatar luta com os sauditas pela região de Khor al-Udaid, rica em petróleo. Em 2000, os sauditas anexaram a área à força, cortando assim a fronteira do Qatar com os Emiratos. O Qatar reclama do vizinho Bahrain o controle das ilhas de Hawar, travando uma guerra naval em 2001.

Entre a Arábia Saudita e o Kuwait, alegadamente os mais próximos dentre os Estados do Golfo, mantém-se o diferendo acerca da demarcação de fronteiras na chamada "Zona Neutra." Após a Guerra do Golfo de 1992-93, a fronteira do Kuwait com o Iraque foi estabelecida. Todavia, mesmo o parlamento eleito do Iraque não abdicou ainda da reclamação de soberania sobre as ilhas kuwaitianas de Warbah e Bubiyan e da parte sul dos campos petrolíferos de Rumailah atribuídos ao Kuwait pela ONU. A desconfiança em relação a Bagdade, levou o governo do Kuwait a erguer fortificações, cercas electrificadas, armadilhas anti-tanque e a implantar uma “terra de ninguém” que se estende numa faixa de 15 quilómetros. A Arábia Saudita tem em construção estruturas similares na sua fronteira com o Iraque.

A dinastia hashemita da Jordânia mantém há décadas uma reclamação de suserania sobre a província saudita de Hejaz, onde se situam as cidades santas de Meca e Medina, despojada do controle das tribos hashemitas em 1924 pelas tribos que compõem a actual família real saudita. A cada onda de pressão sobre a casa real saudita pela Al-Qaeda ou por militantes xiitas, de Amã ouvem-se apoios a um Hejaz independente.

O Iémen continua sem conseguir traçar a sua fronteira com Omã ao longo do Golfo de Hauf e no deserto de Rub al-Khali, “o vazio da Arábia”. Em 1999 travou uma guerra com a Eritreia pelo controle das ilhas Hanish, um arquipélago estratégico na entrada do Mar Vermelho.

Desde os anos de 1940, o Iraque e a Síria mantêm um diferendo com a Turquia pela divisão das águas do Rio Eufrates. Ainda, tanto a Síria como o Iraque reclamam a província turca de Iskanderun, onde os Árabes compõem 30% da população. A Turquia reclama o direito de supervisão do Norte do Iraque baseado no Tratado de Lausanne de 1923, em especial sobre as regiões petrolíferas de Mossul e Kirkuk e tem treinado e armado grupos tribais turcomanos na região. Na década de 1990, a Turquia actuou militarmente na região na sua guerra contra a milícia marxista curda do PKK.

A Síria reclama a totalidade do Líbano como parte da "Grande Síria", da qual reclama também fazerem parte a Palestina histórica e parte do Norte da Jordânia. Em quase 30 dos 50 anos do Líbano independente, a Síria manteve aí um exército de ocupação e esteve activamente envolvida nas três guerras civis libanesas. A Síria foi em grande parte responsável pela morte de mais de 100 mil libaneses e pela fuga de outros dois milhões e meio. No ano passado, a Síria e o seu maior aliado, o Irão, encorajaram o Hezbollah a travar uma guerra com Israel. Nos últimos anos, Damasco tem sido responsável por grande parte da agitação social e política no Líbano e por uma série de assassinatos políticos, incluindo o primeiro-ministro Rafik Hariri.

O Egipto, o maior dos estados árabes, mantém divergências fronteiriças com a Líbia e o Sudão. Na década de 1960 fomentou várias guerras por todo o mundo árabe. Desde a guerra 1958-62 na Argélia a um golpe de estado no Iémen que deflagrou uma guerra civil que se prolongou por seis anos e fez mais de 200 mil mortos. Recentemente, anexou partes do território sudanês e mantém um conflito intermitente com a Líbia sobre uma área do deserto Egípcio. Ironicamente, a sua única fronteira estável e reconhecida internacionalmente é aquela que o separa de Israel.

A Líbia é desde os anos 70 um dos grandes patrocinadores do terrorismo internacional. O atentado contra o avião da PanAm que se despenhou em Lockerbie e uma bomba numa discoteca alemã frequentada por soldados americanos estão no cadastro de Muamar Khaddafi. Mantém disputas com o Chade, a Tunísia e o Sudão. No Sudão desenrola-se um dos maiores desastres humanitários da actualidade, na região de Darfur. Centenas de milhares de mortos e mais de um milhão de refugiados, resultado dos massacres das milícias janjaweed apoiadas pelo governo central. Ao longo de várias décadas, o país esteve numa guerra civil. Árabes muçulmanos do Norte contra tribos negras cristãs e animistas do Sul. Mais de dois milhões de mortos e outros tantos refugiados até ao recente acordo de paz.

Marrocos, Argélia e Mauritânia têm lutado entre si pelo controlo do Saara Ocidental. A região foi anexada por Marrocos em 1975. Em retaliação, a Argélia tem apoiado a Frente Polisário, que reclama ser o governo legítimo do povo Saraui. Desde 1976 que Marrocos e a Frente Polisário travam uma guerra de baixa intensidade. Na década de 1990, Marrocos retribuiu à Argélia o seu apoio à Frente Polisario fechando os olhos à sangrenta campanha terrorista dos islamistas que custou a vida a mais de 250 mil argelinos.

Tudo isto é apenas uma síntese do que tem acontecido no "arco da crise". Nas últimas seis décadas, a região sofreu não menos de 22 guerras de larga escala em disputas de território e recursos, nenhuma delas tendo alguma coisa a ver com Israel ou os Palestinianos (se tem dúvidas, volte atrás e releia o artigo). Além disso, a história destes países tem sido dominada por séries de lutas domésticas, golpes de estado, ondas de violência étnica e sectária, em muitos casos com altos níveis de crueldade.

O Grande Médio Oriente tem-se caracterizado por uma crónica instabilidade, níveis baixos de desenvolvimento e atraso cultural. A região é a única zona do Mundo que, de um modo geral, passou ao lado da onda de mudanças positivas que se seguiram ao fim da Guerra Fria. Imprensa ou universidades privadas, sindicatos livres, partidos políticos ou liberdade de associação e expressão são realidades distantes. No século XXI, as linhas de produção das grandes marcas internacionais estenderam-se da Polónia ao Vietname ou ao Peru. Mas não à Síria ou ao Egipto. Nenhum destes estados tem, por exemplo, fábricas de automóveis ou de produtos de alta tecnologia.

Os déspotas que chefiam os estados entre a Mauritânia e o Paquistão há muito que pretendem desviar as atenções dos seus oprimidos súbditos com o sonho de atirar ao mar "o inimigo sionista". Como fazia o antigo presidente Nasser do Egipto, sempre que espreitava a ameaça da revolta política, logo se apressava a assegurar às massas do seu país e da "grande nação" árabe que a reforma política e social teria de esperar até que "o inimigo" fosse expulso da "nossa amada Palestina."

Para até um grupo de, aparentemente, homens sábios americanos, adoptar a mesma visão retrógrada e facilmente refutável, demonstra uma absoluta e perigosa ignorância da realidade.

Baseado num artigo de Amir Taheri, ex-editor do diário iraniano Kayhan, para a Commentary Magazine.

publicado por Boaz às 11:03
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Quinta-feira, 11 de Janeiro de 2007

O presente armadilhado

Há poucas semanas houve uma reunião entre o PM israelita Ehud Olmert e o presidente da Autoridade Palestiniana Mahmud Abbas, para discutir algumas questões entre os dois lados, entre as quais o descongelamento de verbas de impostos aduaneiros palestinianos congelados por Israel. O Hamas, que controla o governo palestiniano, foi contra o encontro.

Na altura, Salah Bardaweel, um legislador (eufemismo para terrorista-de-gravata) do Hamas, reiterou a "oferta" do seu generoso movimento a Israel. Em troca de uma hudna (palavra árabe que significa trégua) de longo prazo, Israel deveria permitir o estabelecimento de um Estado Palestiniano em todos os territórios capturados por Israel em 1967, incluindo Jerusalém, e a libertação de todos os prisioneiros Palestinianos das prisões israelitas. Só. Tão simples.

No entanto, tão generoso embrulho vinha, naturalmente armadilhado. Conhecendo-se o currículo do emissário, não é de estranhar.

O senhor Bardaweel prontificou-se a clarificar o que significa para o Hamas uma trégua. A sua proposta não significaria de forma alguma que o Hamas iria reconhecer o direito de Israel a existir. "Estamos a falar de uma solução faseada". Pois "nunca desistiremos dos nosso direito a toda a terra da Palestina".

Ou seja, aquela "trégua de longo prazo" seria apenas pelo tempo necessário para encontrar refúgio algures no Mundo (ou até mesmo em Júpiter), para cada judeu que vive entre o Mediterrânico e o Jordão.

É com esta base ideológica do outro lado que Israel tem de lidar para conseguir a paz e a estabilidade. E os Europeus, com toda a sua hipocrisia de remorso mal sarado misturado com apetite petrolífero e temor que a jihad chegue em força à Europa, não conseguem ver o que realmente está em causa...

publicado por Boaz às 17:38
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Terça-feira, 5 de Setembro de 2006

Bem aventurados os crentes

Recebi o comentário de uma amiga portuguesa acerca da frase que encabeça este blog: "Se os árabes baixarem as armas, acaba-se a guerra. Se Israel baixar as armas, acaba-se Israel."

Perguntava-se ela: "Não deveríamos ser todos pela Paz?". Claro que sim, mas a verdade é que, quando se vive aqui, tem-se uma outra perspectiva das coisas que em Portugal ou qualquer outro país passa ao lado. A paz e a bondade são fundamentos essenciais do Judaísmo. Como diz o Talmude: a Torá (Pentateuco) começa com a bondade de Deus cobrindo a nudez de Adão e termina com Deus sepultando Moisés.

No entanto, Paz não pode ser apenas um ideal separado da realidade. Há que ter a consciência do que significa realmente e o que se pode fazer para atingir uma "paz autêntica". Não aquilo que é na verdade um estado passageiro de ausência de guerra.

Em Israel, chama-se muitas vezes aos bonzinhos de coração ashrei ha'maamim, ou seja "bem aventurados os crentes". Num sentido em que muitos dos que acreditam na bondade a todo o custo, não passam de ingénuos. A realidade em Israel não é, para o bem e para o mal, igual à do resto do Mundo.

Obviamente, eu também sou pela paz. Mas, não tenhamos ilusões, Israel vive na corda-bamba e se não se defender com todas as suas armas, depressa será esmagado. Sejamos honestos. Quantos passos deram os Árabes em direcção à paz com Israel, nos quase 60 anos de existência deste país? A negação árabe à ideia e ao projecto do Estado de Israel começou ainda o país não passava de um esboço num papel. Logo no primeiro dia de vida da Israel independente, em 14 de Maio de 1949, ainda o povo dançava nas ruas de Tel Aviv pela Declaração de Independência, já os exércitos de cinco países árabes se alinhavam nas fronteiras do novo estado a fim de o matar à nascença.

Se esperar pela ajuda e compreensão estrangeira em relação à sua defesa, Israel arrisca-se a desaparecer. O diálogo, a negociação são importantes e sem eles não se atingirá a ansiada paz. No entanto, Israel já experimentou por várias e trágicas ocasiões o que significa e onde tem levado o diálogo com o lado árabe do conflito. Casos não faltam.

Veja-se o Egipto, o primeiro país árabe a fazer as pazes com Israel, nos tempos de Anwar al-Sadat. Apesar do acordo de paz, da completa ausência de conflito bélico entre os dois Estados e da activa cooperação egípcia na resolução do conflito com os Palestinianos, basta ver os manuais escolares egípcios e ler o que têm sobre Israel. O hoje habitual ódio árabe contra Israel continua a ser propagado às novas gerações, mesmo num país onde ao menos ao nível político parece haver concórdia.

Desta forma, até quando durará a actual situação de não agressão entre o Egipto e Israel? Quando o poder actual for substituído por algum "inculturado" nesse ódio, como ficará esta relação? Nos recentes atentados contra estâncias turísticas egípcias no Sinai - Taba, Dahab e Sharm el-Sheikh - alguns ditos "analistas" egípcios depressa apontaram israelitas como os culpados pelos ataques. A paranóia anti-israelita vai ao nível de, num recente julgamento de homens homossexuais, uma das acusações apresentadas (verdadeiras ou falsas, não sei) foi que eles haviam ido aos "antros sodomitas de Tel Aviv". Como se o Cairo não tivesse suficientes "antros". Mas Israel é o tradicional bode expiatório de todos os problemas de qualquer país e cidadão árabe, porque não também a fonte da homossexualidade de alguns?

Até a ajuda e cooperação aparentemente incondicional dos EUA não é certo que dure eternamente. No Partido Democrata americano muitas vozes dominantes já opinam que o apoio americano a Israel tem sido prejudicial aos interesses americanos. No Partido Republicano, tradicionalmente o mais pró-Israel, dominado por evangélicos e outros cristãos tradicionalistas que por alguma razão são sionistas ou ao menos "amigos de Israel", também há vozes completamente contra o Estado de Israel. Então, podemos questionar-nos até onde e até quando durará esse apoio? E não tenhamos ilusões, o apoio americano que tanto irrita os árabes e os europeus não é incondicional como se pensa. Exige contrapartidas.

Portanto, Israel na verdade depende acima de tudo de si mesmo e tem de usar de todo o seu poder para se manter. Disso depende o seu presente e o seu futuro. Não da boa-vontade ou seriedade árabe ou do auxílio americano.

publicado por Boaz às 21:51
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Segunda-feira, 29 de Agosto de 2005

Amostra do que aí vem?

Ontem, num ataque suicida na estação de autocarros de Beersheva, sul de Israel, dez pessoas ficaram feriadas, duas das quais com gravidade. Foi o primeiro ataque terrorista desde a retirada israelita de Gaza, ocorrida na semana passada. A acção foi reivindicada conjuntamente pelos braços armados da Fatah e da Jihad Islâmica. Poucos dias antes, num vídeo divulgado pelo Hamas, o novo líder do movimento prometeu continuar com os atentados terroristas contra Israel.

Interpretando a retirada israelita de Gaza como uma capitulação israelita face à estratégia do terror, os movimentos terroristas palestinianos prometeram continuar com acções suicidas para conseguirem o seu objectivo de apagar Israel do mapa. "Primeiro Gaza, no futuro Jerusalém e toda a terra do Jordão ao Mediterrêneo."

A mesma perspectiva teve o Hezbollah em 2000, quando o exército de Israel retirou do sul do Líbano. Que a retirada não era só uma mudança de estratégia de segurança (nunca é), mas uma fuga face à ameaça constante das emboscadas, dos mísseis e dos ataques suicidas. Desde então verificam-se confrontos esporádicos, com lançamento de rockets sobre Kiryat Shmona e outras cidades junto à fronteira libanesa.

Não deixa de ser irónico que, para lá da "cedência de terras bíblicas", seja exactamente a mesma "capitulação ao terror" o argumento dos israelitas que se opõem ao plano de retirada.

publicado por Boaz às 17:30
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Quarta-feira, 9 de Fevereiro de 2005

Será desta?

Aperto de mão

Pode até parecer um gesto feito em esforço: Mahmud Abbas até tem de se apoiar na mesa para chegar à mão de Ariel Sharon, mas talvez seja o princípio de uma nova fase de entendimento entre o governo de Israel e a Autoridade Palestiniana.

E que - tal como nos tempos de negociações entre Barak e Arafat - o Hamas e a Jihad Islâmica não puxem o tapete aos que têm a vontade de fazer a paz.

NOTA: O Hamas depressa deu o seu a entender que não faz parte do acordo de cessar-fogo. Já hoje (5ª feira) o efectuou um ataque com mísseis Kassam sobre um colonato da Faixa de Gaza.

publicado por Boaz às 18:08
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Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2005

O senhor que se segue

Abbas sucede a Arafat

Mahmud Abbas (ou Abu Mazen) ganhou, como era esperado, as eleições presidenciais palestinianas. Com mais de 60% dos votos. Resta saber o que fará agora com esta legitimidade democrática, coisa rara no mundo árabe, aliás.

Se, como presidente da Autoridade Palestiniana se quer afirmar como parceiro para a paz e finalmente decide controlar os grupos terroristas, incluindo no interior da sua organização, a Fatah

Ou, pelo contrário, se quer mostrar-se como seguidor à letra de Arafat, mantendo a sua eterna linha inflexível e fechando os olhos às acções dos radicais para não correr o risco de ser considerado "traidor".

Está nas mãos de Abbas o resultado desta nova era para a Palestina.

publicado por Boaz às 16:58
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Quarta-feira, 10 de Novembro de 2004

O morto-vivo ou crónica de uma morte anunciada e desmentida e anunciada...

casal_arafat

Há mais de uma semana, desde que Arafat chegou a um hospital militar de Paris, que se repetem os anúncios da sua morte, rapidamente desmentidos por oficiais palestinianos. A razão para a doença de Arafat também é tema de grande especulação. Quase tudo se desmente. Nada se confirma.

Falou-se em cancro disto e daquilo (só faltou mesmo o cancro do colo do útero e dos ovários). Falou-se em envenenamento. Mais tarde foram excluídas estas possibilidades. Até se falou em SIDA. A tese mais defendida são os problemas sanguíneos derivados das deficiências sanitárias e alimentares que o líder palestiniano tem passado nos últimos anos, confinado a meia dúzia de divisões no seu arruinado complexo de Ramallah.

O que é certo é que toda a informação tem sido fortemente filtrada, tanto pela mulher de Arafat, Souha, como pelo poder político palestiniano. Às revelações não oficiais de que Arafat estava em "coma irreversível", seguiam-se relatos não confirmados de que terá aberto os olhos, falado e que teria mesmo melhorado. (Até é possível que tenha pedido uma pizza e um fato de jogging, porque lhe terá apetecido subir ao topo da Torre Eiffel. Pelas escadas, obviamente.)

Nos últimos dias as disputas entre os detentores do poder na Palestina e a estravagante Souha Arafat foram reavivadas. os dois homens que partilham o poder na ausência do líder, Mahmud Abbas e Ahmed Qorei, foram a Paris para se inteirarem o seu real estado de saúde e foram logo acusados por Madame Arafat de lhe quererem enterrar o marido ainda vivo.

Ao mesmo tempo veio à baila a gigantesca herança do moribundo, a qual suscita muita cobiça. São mais de mil milhões de euros em mais de cem contas bancárias em nome de Arafat, em vários países, reclamados pela Autoridade Palestiniana, mas da qual a esposa, naturalmente, não quer abrir mão.

Não condenemos a baronesa, que vive confortavelmente com a filha, a mãe e um séquito de servos num dos mais caros hoteis de Paris. É que não deve ser fácil para ela engolir a ideia de voltar a Gaza ou à Cisjordânia, onde ela não vai há 4 anos, nem para visitar o seu amado marido.

publicado por Boaz às 17:12
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Sexta-feira, 29 de Outubro de 2004

Don't cry for me, Palestina

Yasser_Arafat

Fontes oficiais palestinianas revelaram na passada quarta-feira que Yasser Arafat - esse lobo ex-terrorista, mal disfarçado em cordeirinho político - está gravemente doente, tendo sofrido um colapso e ficado inconsciente por diversas vezes. Metade dos médicos do mundo árabe romaram ao seu quartel-general e descobriram que tem um grave problema sanguíneo.

A mulher, Suha, abandonou por instantes o exílio dourado em Paris e fez o frete de voltar à miserável Ramallah para rever o marido, ao fim de 4 anos de ausência.

A França, sempre na linha da frente do apoio à causa árabe - e não há causa árabe maior que o próprio Arafat - ofereceu-se para tratar o enfermo em Paris e o Presidente Chirac disponibilizou o seu avião oficial para o transporte.

Os caciques locais vão desmentindo que o grande líder esteja nas últimas e até pedem aos jornalistas para não divulgarem notícias que não sejam baseadas em informações oficiais, para não alarmar as hostes. (Vê-se mesmo que não percebem nada de Comunicação Social!) Mesmo assim, apressam-se a em manobras de bastidores, na eventualidade de o cordeirinho já não durar muito tempo e é certo que vai haver luta feroz pelo seu lugar.

A quem Arafat fizer alguma falta, que corra depressa para Paris, para doar sangue, um rim ou mesmo o coração, a ver se salva o homem. Por mim, sou sincero: que se apague de vez!

E se pensarmos que, apesar daquela bendita queda, ainda não foi desta que Fidel Castro se foi reencontrar com Che Guevara, o ocaso de Arafat até não era uma má alternativa. Sempre era menos um ditador que, como é apanágio dos ditadores, nunca se preocupou com outra coisa a não ser com o poder e a fortuna pessoal.

Nota: Para uma outra imagem de Yasser Arafat, mais exactamente do seu valor: 1.3 biliões de dólares, para ser mais preciso.

publicado por Boaz às 14:51
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