Quinta-feira, 8 de Março de 2012

Jihad casher? – os fanáticos estão entre nós

Desde há alguns meses que uma das questões mais discutidas na sociedade israelita é a relação com o público haredi, ou ultra-ortodoxo. É uma comunidade fechada, com as suas próprias leis e que se opõe a muitas regras da sociedade moderna e secular. Particularmente controversa é a situação das mulheres nestas comunidades. O assunto invadiu as notícias e as conversas de rua após uma série de acontecimentos na cidade de Beit Shemesh, perto de Jerusalém.

Há anos que esta cidade mista – secular, ortodoxa-moderna e haredi – tem vivido episódios de conflito entre as suas várias comunidades. Para albergar a crescente população haredi, com uma das mais altas taxas de natalidade do mundo, novos bairros têm sido construídos em Beit Shemesh, alguns deles exclusivos para os ultra-ortodoxos. O município é acusado pelos membros de outras comunidades de favorecer o público haredi. Nos bairros vizinhos, ou nas poucas zonas em que as populações se misturam, têm ocorrido actos de violência.

O conflito subiu de tom em Setembro de 2011 com a abertura da escola de meninas Orot Banot, destinada ao público sionista-religioso, situada numa zona limítrofe com um bairro ultra-ortodoxo. Com frequência, grupos de fanáticos haredim ofendiam as alunas em frente à escola, por considerarem o seu modo de vida menos religioso e logo, desprezível. A polícia fez algumas detenções, mas os atos de intimidação continuaram. Liderada por alguns ultra-ortodoxos anti-sionistas mais radicais, uma manifestação foi organizada em frente à escola.


"Mulheres talibã" em Beit Shemesh | Onde está Hillary Clinton?, apagada por Photoshop.
Ativista na secção masculina de um autocarro separado | A histórica foto de Rosa Parks

Clamavam pela "manutenção da pureza dos bairros heredim contra os estrangeiros que conspiram para os profanar, apoiados pelo regime maléfico", numa referência clara ao Estado de Israel, desprezado por várias correntes no Judaísmo Haredi. Em Dezembro do ano passado, a vergonhosa situação em Beit Shemesh atingiu o auge, quando Naama Margolese, uma menina de 8 anos, apareceu na televisão descrevendo como alguns fanáticos a cuspiram e chamaram "prostituta" por frequentar a escola Orot Banot. Uma onda de choque percorreu a sociedade israelita, levando à intervenção das autoridades políticas, civis e religiosas.

Linhas de autocarro segregadas

Esta polémica das relações da sociedade haredi com o resto da população de Israel não é recente. Já nos primeiros anos da independência, eram comuns conflitos em alguns bairros de Jerusalém devido à violação do Shabbat. As “Guerras do Shabbat” tinham lugar num cruzamento do bairro de Mea Shearim, desde então chamado Praça do Shabbat. A polémica aumentou em 1997, com o aparecimento de linhas de autocarro em que homens e mulheres viajam em secções separadas. Os homens adiante. As mulheres atrás. Estas linhas de autocarros ligam cidades e bairros com numerosas populações de haredim, como Jerusalém, Bnei Brak, Ashdod, Arad ou Elad. São conhecidas como Linhas "Mehadrin", usando (indevidamente) uma expressão na Lei Judaica – normalmente usada nas regras da alimentação judaica – e que significa o nível mais estrito da lei, sem leniências. Várias autoridades rabínicas declaram-se contra a segregação – ainda mais sendo forçada, mas muitos mostraram-se compreensivos ou simplesmente calaram-se perante a situação.

De tempos a tempos, eram noticiados casos de mulheres maltratadas por fanáticos por se sentarem na “área masculina”. Algumas faziam-no por mero engano, pensando tratar-se de um autocarro como qualquer outro. Outras de propósito, por não concordarem com a descriminação, tentando desafiá-la. Quando estourou a polémica em Beit Shemesh, movimentos feministas – em especial liderados por não-religiosos – organizaram "invasões das linhas mehadrin". Grupos de mulheres apanhariam os malfadados autocarros segregados, sentando-se na parte da frente, e enfrentando a fúria dos opositores. Porém, avisados da planeada ação de protesto, os utilizadores ultra-ortodoxos dos autocarros, mantiveram a compostura.

Dos autocarros, a campanha de separação dos sexos passou para os lugares públicos. Em Mea Shearim, o mais famoso bairro haredi da Cidade Santa, e em alguns bairros de Bet Shemesh, há já muito tempo que nas principais ruas são visíveis sinais que alertam as mulheres – em especial as turistas – para se vestirem de forma "modesta": saias e mangas longas, blusas fechadas até ao pescoço, roupas folgadas que não revelem as formas do corpo. É com frequência que mulheres que não cumprem as regras de vestuário estipuladas nos cartazes são atacadas – verbal ou fisicamente – ao passar por estas áreas. As sortudas são alvo de cuspidelas ou insultos, mas não faltam casos de mulheres atingidas por sacos com urina ou lixívia, atirados de uma janela por algum vigilante.

Uma vez por ano, durante semana do festival de Succot, as ruas de Mea Shearim enchem-se de fiéis e turistas, para assistir às festividades de Simchat Beit Hashoeva, num dos dias da festa. A confusão e o enorme fluxo de pessoas nas ruas, levaram os fanáticos a impor mais uma das suas "regras de decência": separação das ruas. Um lado para os homens, outro para as mulheres. Com uma barreira a separá-los. Para manter as mulheres, ainda que vestidas de forma modesta, longe da vista dos homens, e salvá-los de eventuais pensamentos lascivos.

Talibanismo judaico

No mesmo bairro de Mea Shearim, um gangue de fanáticos conhecido por Sikrikim (em homenagem aos Sicários, um grupo de guerrilheiros judeus que aterrorizaram os Romanos durante a ocupação da Terra Santa, há dois milénios) começou a ameaçar os lojistas, caso não introduzissem medidas de separação dos sexos nas suas lojas. Filas separadas para pagamento, ou exclusão de mulheres a trabalhar nas caixas registradoras, foram algumas das medidas impostas. Em nome de algo que consideram ser "a moral". Uma das lojas resistentes, uma loja de livros e artigos judaicos especialmente popular entre os turistas, foi várias vezes vandalizada, por resistir a cumprir as ordens dos Sicários. Para além das "regras da modéstia" era imposta a exclusão de venda de livros em inglês, e de alguns autores proscritos pelos Sicários, incluindo todos os escritores sionistas-religiosos. Até que, farto dos prejuízos e da inoperância da polícia, o dono cedeu à maioria das demandas dos fanáticos.

De vez em quando, face à crescente reclamação contra o fanatismo em Mea Shearim, a polícia prendia um ou outro membro dos Sikrikim, para os soltar pouco tempo depois. Não deixa de ser irónico que a polícia de Jerusalém consegue entrar em força nos bairros árabes da zona oriental da cidade para prender (suspeitos ou confirmados) terroristas e toda a espécie de criminosos, ao mesmo tempo não se atreva a impor a ordem no bairro judeu de Mea Shearim. Aí, protestos organizados pelos fanáticos resultam frequentemente na vandalização de propriedade pública, como paragens de autocarro, contentores do lixo, e raramente, a destruição de montras de lojas e queima de carros.

A paranóia sexual haredi que impõe o desaparecimento forçado das mulheres da esfera pública chegou também aos jornais. Ao folhear qualquer jornal haredi, não se encontra qualquer imagem feminina, por mais discreta que esteja vestida. Num dos casos famosos, uma foto de Hilary Clinton durante a operação de captura de Osama bin Laden, foi publicada num jornal haredi de NY. Esta tendência, até há pouco exclusiva dos jornais ultra-ortodoxos, parece estar a alastrar também a alguns sectores do público sionista-religioso. Numa enorme crise de identidade e uma liderança gravemente débil, vários sectores do público sionista-religioso tendem a aproximar-se da ideologia ultra-ortodoxa, que muitos começam a ver como “mais religiosa, pura, judaica”.

Das imposições de vestuário aos não-aderentes às tradições dos locais, à separação nos autocarros, lojas e ruas, não demorou muito até ao surgimento de uma seita local de mulheres de burka. Mal vistas pela generalidade da população e dos líderes religiosos, as “mulheres taliban” não serão mais do algumas dezenas. São insultadas na rua e excluídas de entrar nas lojas, por aderirem a uma indumentária vergonhosa e sem qualquer base na tradição judaica. Cartazes afixados nas paredes de Mea Shearim condenavam a seita talibã como epikoros, hereges. A Eda HaCharedit, a maior organização haredi em Israel, juntando as principais correntes ultra-ortodoxas, emitiu um decreto declarando as burkas como um “fetiche sexual”, tão depravado como a roupa indiscreta ou a nudez. Todavia, comandadas por alguns fanáticos manipuladores, as “mulheres talibãs” resistem à oposição geral, mesmo após a prisão da líder do grupo.

Hilul Hashem, profanação do nome de Deus

É importante ressalvar que, nenhuma destas infâmias tem qualquer suporte na Halachá, a Lei Judaica. Apesar de existirem regras de modéstia estipuladas, estas são muito mais lenientes do que os cartazes de Mea Shearim ou os abusivos líderes das "mulheres talibã". E, tal como noutras coisas na Halachá, nenhuma regra pode ser imposta à força. E muito menos, mediante a humilhação. Neste rol de vergonha e enorme profanação do nome de Deus, várias perguntas saltam para a discussão: porque não se manifestam os próprios religiosos contra este fanatismo? Em especial as mulheres ultra-ortodoxas, que são as primeiras vítimas? E os rabinos, que são a maior autoridade nestas comunidades?

Para responder a estas questões, é preciso entender a sociedade ultra-ortodoxa. As suas regras de autoridade não são as mesmas para a sociedade em geral. Os problemas raramente são denunciados às autoridades civis, vistas como anti-religiosas e hereges. Praticamente todas as controvérsias se discutem ou resolvem através da influência dos grandes rabinos, sem qualquer discussão pública ou debate aberto. Em inquéritos de rua feitos por jornalistas em bairros ultra-ortodoxos, a maioria das mulheres preferia não falar da separação nos autocarros, nas clínicas ou na rua. Outras, falavam do assunto, mostrando a sua concordância com a situação, mas de forma visivelmente pouco convincente.

Numa sociedade onde as mulheres têm um papel secundário, são poucas as que se atrevem a desafiar a crescente exclusão dos seus direitos e desaparecimento forçado da vida pública. Mesmo os homens ultra-ortodoxos que discordam destes ditames do fanatismo mantêm-se em silencio, na maioria dos casos. Ser considerado "liberal" ou "moderno" é um anátema na sociedade haredi. Essa etiqueta implicaria marcar a família de forma fatídica, podendo os filhos ser excluídos do acesso às melhores escolas, prejudicar as hipóteses de conseguir um bom casamento, até à expulsão da comunidade. Mesmo aguentando a custo a situação vigente, poucos se atrevem a enfrentar tal perspetiva. Praticamente isolados do resto do Mundo, desconhecedores ou opositores das regras da sociedade secular e moderna, a exclusão da comunidade da qual dependem seria uma punição insuportável.

Inclusive os líderes religiosos haredim, supostamente todo-poderosos, demonstram ter pouco poder, dominados pelo crescente polvo originado em meia dúzia de lunáticos como os Sikrikim. Também eles receiam ser apelidados de “liberais”, afrontando o modo de vida fechado da comunidade. Os "guardiães da tradição", com o seu silêncio agem contra essa mesma tradição, contrariando o mandamento da Torá: "Não ficarás em silêncio enquanto o sangue do teu irmão é derramado" (Levítico/Vaicrá 19:16). A barreira de separação foi sendo aumentada pouco a pouco, e ninguém se atreve a derrubá-la, ou pelo menos a descê-la a um nível sensato. Salvo algumas excepções. Como o rabino Ovadia Yosef, uma das mais respeitadas autoridades rabínicas atuais, que emitiu uma eloquente condenação do fanatismo; o rabino Haim Amsalem, líder de um novo movimento cívico que une seculares e religiosos, ou o Rabinato-Chefe de Israel. Porém, estas autoridades, ainda que citando fontes irrefutáveis da Lei Judaica nas suas posições, são olhadas como modernistas dentro da ortodoxia, não sendo aceites pelos mais radicais.

Mais do que uma luta pelas regras da modéstia, esta controvérsia prende-se com uma luta pelo controle da própria sociedade haredi. Alguns sectores mais conservadores sentem que o seu modo de vida está ameaçado. Pelo secular Estado de Israel. Pela modernidade imparável que aos poucos começa a ameaçar algumas das suas tradições. A crescente influência da Internet e outros meios de comunicação possibilitou a troca de ideias fora dos círculos fechados das cortes rabínicas, a discussão de temas até agora mantidos debaixo do pano e a publicação de opiniões dissidentes. Não é de admirar que alguns líderes haredim tenham banido o uso da Internet, mesmo as páginas ortodoxas. Porém, as ordens dos líderes são cada vez menos escutadas pelos fiéis, em especial os jovens. Páginas como “Kikar Hashabbat” ou “Chaderei charedim” discutem abertamente temas tabus dentro da sociedade haredi e têm milhares de leitores e comentadores. Assim, face à crescente liberalização, alguns sectores reagem com o extremismo.

Procura-se Vered Ganim

Falta alguém de dentro da própria sociedade haredi, ou alguém de fora, que se oponha ao fanatismo sem provocações desnecessárias. Nos anos 60, para lutar contra a descriminação dos Negros no Sul dos EUA, uma mulher simples recusou sentar-se nos bancos traseiros dos autocarros, destinados aos passageiros "de cor", símbolos do seu estatuto de "segunda classe". Rosa Parks desafiou a descriminação de forma não violenta, mas determinada. Em Israel procura-se uma mulher desse género, uma Vered Ganim (tradução literal do nome Rosa Parks).

O caminho para a harmonia social entre os vários sectores da sociedade judaica em Israel ainda é longo. É precisa uma coragem cautelosa para tomar medidas que resolvam a situação. Às forças de autoridade para deter ações criminosas dos fanáticos, demonstrando que o crime não compensa. Aos políticos, preocupados em manter as frágeis coligações políticas que juntam ideologias opostas em nome da conveniente maioria parlamentar. Aos líderes religiosos, temerosos de parecerem "liberais", preocupam-se mais com a sua própria imagem de "guardiães da tradição" do que do bem e a unidade do povo. Aos seculares, pela sua geral falta de entendimento da sociedade haredi e profundos preconceitos contra ela, que muitas vezes tentam enfrentar os problemas de forma declaradamente provocatória, aumentando as ofensas mútuas.

publicado por Boaz às 16:35
link do artigo | Comente | favorito
Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Passerelle de Jerusalém

Na maior parte das sociedades que integram o chamado Mundo Ocidental, seguidoras fiéis das regras da moda que mudam a cada estação, quase todas as pessoas se vestem de forma idêntica. Apesar da abundância de estilos, de preços e marcas, a roupa não será um ponto central na identificação das pessoas. Tirando talvez os integrantes das consideradas "sub-culturas".

Pelo contrário, em Israel, a maneira de vestir pode dizer muito mais sobre uma pessoa do que somente o seu lado estético. Em muitos casos, as mudanças sazonais das passerelles de Paris, Milão ou Nova Iorque não afetam minimamente os roupeiros locais. Obviamente, esta regra não inclui os habitantes seculares. Atentos às modas mundiais, estes vestem-se como qualquer pessoa (dita) moderna em qualquer lugar do mundo. As lojas das grandes marcas internacionais estão presentes nos centros comerciais das principais cidades e as marcas locais seguem as tendências ditadas pelos gurus da moda.

Entre as 613 mitzvot (mandamentos) da Torá encontram-se algumas sobre a forma de vestir. Desde a proibição de uso de shaatnez – a mistura de lã e linho num mesmo tecido, que era exclusiva para as roupas sacerdotais; à obrigação de todas as peças de vestuário masculinas com quatro cantos terem tzitzit– uns fios presos nos cantos da roupa com uma série de nós. Vagamente, é mencionada a obrigação das mulheres casadas cobrirem o cabelo. O valor do recato das mulheres é citado em vários versículos por todas as Escrituras.


Haredi reza no Muro Ocidental, com shtreimel,
o estimado chapéu de pele usado por algumas correntes hassídicas no Shabbat e Festas.

As peças de vestuário que mais servem de identificação em Israel são as coberturas de cabeça. Kipáou chapéu para os homens. Lenço, chapéu ou peruca para as mulheres. Em cada um destes elementos, há inúmeras variações que, para os conhecedores são quase um cartão de apresentação pessoal e um símbolo de identificação ideológica. Curiosamente, ainda que seja um dos mais reconhecidos símbolos judaicos, não existe nas Escrituras e nas fontes antigas da Lei Judaica qualquer menção à obrigação de os homens cobrirem a cabeça permanentemente. Porém, nas fontes haláchicas mais recentes, este costume passou a obrigação.

De acordo com a tradição judaica atual, um homem judeu que não cobre a cabeça fora da sinagoga, declara-se dessa forma como "não religioso". Pode ser que seja o chamado massorati, o tradicionalista que cumpre Shabbat e Cashrut (as regras alimentares judaicas), mas que não se integra na maioria das regras da "ortodoxia". Para ele o uso da kipáestará reservado às rezas na sinagoga e às refeições festivas.

O estilo da kipá pode definir a aderência a uma ou outra ideologia política ou corrente religiosa. As kipot tricotadas identificam os sionistas religiosos ou ortodoxos modernos. As kipot de tecido preto, os ultra-ortodoxos. Se forem de pano liso, divididas em seis "gomos", indicarão os adeptos da corrente Chabad; em veludo, outras corrente hassídicas. As kipot tricotadas de grande tamanho são emblemas dos judeus mais nacionalistas, residentes em alguns colonatos específicos na Judeia e Samaria. Se forem parecidas com um gorro e com um pompom no topo, as kipot tricotadas identificam os fiéis (ou meros simpatizantes) do místico rabino hassídico do século XVIII, Nachman de Breslev. Muitas das kippot dos "Nachmans" têm bordado o mantra do grupo: "Na Nach Nachma Nachman MeUman". Todavia, a identificação através da kipánão é 100% garantida, já que alguns homens usam modelos normalmente usadas por membros de outras correntes. Por vezes, por uma questão de “moda”.

Os ortodoxos modernos vestem-se praticamente como qualquer pessoa em outras sociedades ocidentais. Porém, ainda que seguindo em certa medida as regras da moda, elas são combinadas com os preceitos judaicos. Ao contrário, os homens ultra-ortodoxos vestem-se invariavelmente de branco e preto. Branco para as camisas. Preto para o resto do roupeiro. Os chapéus negros são outros elementos de identificação entre as várias escolas do judaísmo ultra-ortodoxo. Existem dezenas de modelos, alguns com pequenas diferenças entre si, que somente um especialista em indumentária hassídica saberá distinguir. Os partidários da corrente Chabad usam o fedora, um modelo de chapéu popular na Europa no início do século XX, usado pelos seguidores desta corrente hassídica desde que o seu último Rebbe (o líder espiritual Chabad) adotou esse modelo de chapéu.

Ao contrário de muitas outras correntes do Judaísmo hassídico, os judeus Chabad não usam os chapéus de pele nos dias festivos. Estes chapéus – chamados em íidiche shtreimel ou spodik, conforme os modelos – são altamente apreciados pelos judeus hassídicos. Em geral, o primeiro shtreimel é usado no dia do casamento, oferecido pela família da noiva. Em algumas escolas hassídicas, os rapazes começam a usar shtreimeldesde a cerimónia de Bar Mitzvá, aos 13 anos, quando atingem a maioridade religiosa.

Feitos com a pele de coelho, marta, arminho ou cauda de raposa, podem custar vários milhares de dólares. Há poucos meses, o governo de Israel decidiu banir a importação de peles, consciente da crueldade a que são sujeitos os animais criados para a indústria de peles. Porém, a lei manteve uma cláusula de excepção para as peles usadas nos shtreimels. Houve agitação entre as hostes hassídicas perante a possibilidade de ser banido o seu estimado costume peludo. Todavia, existem hoje alternativas em pele sintética que custam somente algumas centenas de dólares. Poupa-se no chapéu e no sofrimento animal.

Em conjunto com os seus chapéus negros ou shtreimels, os judeus hassídicos usam largas capotas negras. Tal como os chapéus de pele, eram um vestuário típico no clima agreste Europa Oriental, parecendo totalmente deslocados do calor estival de Israel. Os modelos usados nos dias da semana são austeros e lisos, enquanto os de Shabbat podem ter belos padrões. Alguns Rebbes hassídicos, respeitados como soberanos absolutos, costumam usar magestosas capotas bordadas com motivos dourados.

A maior parte destes elementos do vestuário dos judeus ultra-ortodoxos aplicam-se tanto aos adultos como aos rapazes, que desde tenra idade começam a vestir-se como os seus pais, das capotas aos chapéus negros. A indumentária hassídica, é marcada pela aderência estrita às regras da modéstia, excluindo as cores vistosas. Porém, honestamente, é difícil parecer modesto quando se ostenta um enorme chapéu de pêlo valendo centenas ou milhares de dólares e uma longa capota, ainda que seja de austera cor negra.

Entre as mulheres judias, existem as mesmas diferenças de vestuário, de acordo com o nível de religiosidade e a corrente judaica a que pertencem. Não é costume uma mulher religiosa usar calças, consideradas vestuário exclusivamente masculino. Ainda assim, nos últimos anos surgiram modelos de calças de modelos folgados, adotados por algumas mulheres mais liberais dentro da ortodoxia.

De acordo com a Lei Judaica, uma mulher casada deve cobrir o cabelo. O espectro da cobertura de cabeça feminina vai dos lenços às perucas, passando por uma grande variedade de barretes e chapéus. As mulheres sionistas religiosas (ou da ortodoxia moderna) são as que cobrem a cabeça com a maior variedade de estilos. Algumas usam apenas uma bandana que deixa a maior parte do cabelo descoberto. As residentes em alguns colonatos da Judeia e Samaria – esposas e mães dos tais homens de largas kipottricotadas – usam vistosos lenços amarados das mais diversas formas. Algumas combinam vários lenços entrelaçados, construindo turbantes que variam entre a elegância alegre e o absurdo carnavalesco.

Entre as mulheres ultra-ortodoxas, as seguidoras do movimento Chabad destacam-se por cobrirem a cabeça somente com perucas. Noutras correntes chassídicas são comuns as toucas, algumas de modelos medonhos. Algumas mulheres casadas, mais jovens ou mais modernas, combinam com elegância a peruca com um pequeno barrete. É bem provável que Israel seja hoje o maior mercado mundial de perucas femininas e chapéus masculinos.

Entre os árabes, a forma de vestir também é um símbolo da sua religiosidade. Em termos de vestuário, os cristãos são indistintos dos judeus não-religiosos. Ainda assim, por uma tradição do Médio Oriente, não é costume ver uma mulher árabe, mesmo não-muçulmana, com um decote pronunciado ou uma micro-saia. Os homens muçulmanos vestem-se maioritariamente como qualquer homem moderno. Somente entre os mais velhos, ou os mais tradicionalistas, alguns usam abayas, as túnicas brancas, cinzentas ou castanhas típicas da Arábia e cobrem a cabeça com um barrete (muito parecido com uma kipá branca tricotada) ou o keffiyeh, o lenço típico dos beduínos do deserto popularizado por Arafat. Uma moda entre os jovens árabes é o uso de quantidades industriais de gel no cabelo, para manter impecáveis os seus penteados estranhos.

Os hijabs, lenços usados pelas mulheres e raparigas muçulmanas que cobrem o cabelo, tendem a ser coloridos, com lantejoulas ou bordados. Muitas famílias tradicionais muçulmanas começam a cobrir o cabelo das filhas assim que atingem a puberdade, ou ainda antes. Apesar de ocultarem a maior parte do corpo, muitas mulheres muçulmanas religiosas usam calças, por vezes justíssimas. As mais modestas usam casacos enormes, até aos pés, mesmo no Verão. E, o que os homens árabes exageram no uso de gel de cabelo, as suas mulheres exageram na maquilhagem. Contradições das leis do recato.

Em Israel, e mesmo nos Territórios Palestinianos, é muito raro encontrar mulheres completamente cobertas com o niqab, o véu islâmico que deixa apenas os olhos à mostra. Apesar das manifestações de fanatismo islâmico entre os Palestinianos, estes contam-se entre os muçulmanos mais seculares do Médio Oriente. A cultura ocidental também se manifesta na sociedade islâmica e, apesar dos movimentos que tentam evitar essa crescente influência, hoje em dia muitas jovens muçulmanas já dispensam o uso do véu e da túnica, vestindo-se ao estilo ocidental.

Quem visite Israel poderá encontrar toda a espécie de estilos e tendências de vestuário. Em cidades como Jerusalém ou Haifa, onde se misturam judeus e árabes, religiosos e seculares, a variedade nas formas de vestir dos residentes despertam a curiosidade dos turistas. Decidi escrever este artigo depois de verificar como algumas pessoas chegam ao Clara Mente. Quase todas as semanas, alguém procura em algum motor de busca da Internet pela expressão "O que vestir em Jerusalém". Os turistas portugueses podem usar as roupas da mesma estação que usam em Portugal. Aqui em Israel, o Verão também é quente (por vezes, muito quente) e o Inverno é ameno na costa e mais agreste nas montanhas, como em Portugal.

Espero que os leitores tenham entendido que podem vestir o que quiserem. Apenas tenham atenção ao visitarem um bairro ortodoxo como Mea Shearim, em Jerusalém, onde grandes letreiros em hebraico e inglês pedem para o respeito das regras da modéstia dos residentes. Estão avisados.

publicado por Boaz às 21:55
link do artigo | Comente | favorito
Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Os moicanos de hoje

23 de Março de 2006, por volta das 11 da manhã. Tinha acabado de passar o Bet Din (tribunal rabínico) que tinha julgado a minha conversão ao Judaísmo. O rabino que me aceitara na Comunidade Judaica de Lisboa e com quem tinha começado a estudar, dois anos antes, tinha-me acompanhado naquele momento crucial no processo de conversão. Foi em sua homenagem que escolhi o meu nome hebraico, Boaz.

À saída do edifício, o rabino disse-me, apontando as minhas têmporas: "Agora vais ter de deixar crescer as payot". "Naaa, acho que não", respondi, desinteressado em aceitar aquele costume. Porém, dois ou três meses depois, quando voltei a cortar o cabelo – a primeira vez que cortei o meu próprio cabelo – deixei sem cortar uma área acima das orelhas.


Enrolar as payot. É quase um vício daqueles que seguem este costume judaico.

A Torá proíbe aos homens judeus cortar completamente os cantos da cara – payot, em hebraico, baseada no versículo: "Não cortarás o cabelo dos cantos da vossa cabeça, e não rasparás [com navalha] a tua barba" (Levitico/Vaikrá 19:27). Umas das explicações para esta lei – se é possível explicar completamente os mandamentos da Torá – é distinguir os Judeus dos Gentios. Os judeus iemenitas tinham (e alguns ainda mantém) o costume de usar payot especialmente longas, às quais chamam "simanim" (sinais), exatamente por servirem de sinal de distinção com os não-judeus. Uma consequência desta proibição foi a difusão do costume de deixar crescer o cabelo nos cantos da cara entre alguns sectores judaicos mais ortodoxos. Ainda que esse não fosse o fundamento desta lei. A proibição é o corte completo do cabelo nos cantos da cabeça, sem haver qualquer obrigação de deixar crescer as payot.

Antes que os meus caracóis crescessem até poder prendê-los atrás das orelhas, habituei-me às piadas dos colegas da yeshivá. Diziam que as minhas pequenas payot pareciam orelhas de urso. Porém, nos meses seguintes, os tufos de cabelo junto às orelhas foram crescendo e foi possível "adestrá-los" atrás das orelhas. Acabaram-se aquelas piadas. Começariam outras.

Em algumas ocasiões, usava os "canudos" bem enroladinhos e presos atrás das orelhas, quase impercetíveis. Assim os usei em 2007, da segunda vez que voltei a Portugal depois da minha mudança para Israel. Por alturas do meu casamento, as minhas payot já quase alcançavam a altura dos ombros. Para as fotos na boda, usei-as enroladas e metidas atrás das orelhas. O balanço das danças depressa as fizeram saltar para fora do esconderijo. Alguns meses depois de casar, passei a usar os caracóis sem estarem colocados atrás das orelhas. Isso, junto com a minha barba ruiva, podia dar-me um ar marcadamente ultra-ortodoxo, ainda que essa não seja a corrente judaica que eu sigo.

No meu quarto regresso a Portugal, em 2009, em nenhum momento escondi as payot atrás das orelhas ou debaixo da kippá. Fosse no encontro com os amigos ou nas idas ao supermercado em Leiria ou na Batalha, a vila onde cresci, ou nos passeios em Lisboa. Se havia olhares de estranheza pelo meu aspecto tão incomum nas ruas portuguesas, nunca os percebi como hostis. Noutras paragens na Europa, por razões de segurança – inclusive por perigo de vida – teria sido recomendável ocultar aquele sinal judaico tão evidente.

Nos princípios de 2011, as minhas payot levaram o primeiro grande corte. Antes de uma entrevista importante sobre uma proposta para trabalhar como líder comunitário e professor de escola judaica numa cidade da Argentina, fui aconselhado a realizar uma séria tosquia. Entendo que o tal aspeto “demasiado ortodoxo” poderia causar uma certa rejeição inicial, em especial numa comunidade pouco religiosa. Por esse valor mais alto, aceitei sacrificar as minhas payot que começara a deixar crescer há quase cinco anos.

Na semana passada, desferi o último golpe no que ainda restava. Fui a uma barbearia de Jerusalém, que frequentara várias vezes, situada no bairro ultra-ortodoxo de Mea Shearim. Mera provocação: ir justamente ali cometer tamanho sacrilégio! No sofá da barbearia estava sentado um judeu ultra-ortodoxo, amigo do barbeiro. Naquela hora da tarde, sem clientes a quem servir, o barbeiro estava a estudar Torá com o amigo até à minha entrada no estabelecimento.

Ao sentar-me na cadeira do barbeiro pedi: "máquina número 3 de lado e tesoura em cima". Assim que pedi ao barbeiro que cortasse o meu cabelo com a máquina, o seu gesto imediato foi segurar uma das payot e passar a máquina à volta dela. Disse-lhe que poderia cortar também as payot. Parou subitamente, espantado com a minha ordem. "O que se passou?", perguntou ele. Respondi, "Nada, apenas desejo cortar as payot. Já as tive durante muito tempo. Chegou a altura de as cortar."

Nesse momento, iniciou-se uma discussão filosófica entre o barbeiro e o amigo. O barbeiro parecia decepcionado pela minha mudança de aspeto. Conversámos um pouco. Ao saber que eu já tinha saído da yeshivá e entrado no mundo do trabalho, o tal amigo sentado no sofá comentou “o trabalho é que guarda o juízo ao homem!”. Algo surpreendente vindo de alguém que pertence a um público onde muitos dos seus membros olham o trabalho como algo quase desprezível, defendendo que um homem deve apenas estudar Torá.

Curiosamente, o homem do sofá tinha umas payot longas, e uma barba a condizer. Numa declaração que parecia falar contra ele próprio, comentou que o aspeto dos ultra-ortodoxos os torna “os moicanos de hoje”. Com as suas longas (e muitas vezes desgrenhadas) barbas e as payot, são tão extravagantes como as coloridas cristas eriçadas que foram moda entre a juventude rebelde há algumas décadas.

Depois de terminado o trabalho do barbeiro, observou "Olha como ficou bonito! Tem barba, tem as payot que a Torá prescreve, que não precisam de ser longas, kipá e tzitzit à mostra. Abençoado sejas". Desejou-me boa sorte para o trabalho. E que sendo um judeu religioso no mundo do trabalho, que santifique o nome de Deus.

Este é um desafio dos judeus religiosos: manterem a prática religiosa no seu contacto com o mundo não-religioso. Muitos aspetos da “vida moderna” são contrários a certas determinações da Lei Judaica. Se do lado secular, existe uma certa aversão às manifestações exteriores de religiosidade, do lado religioso existe também a insistência em afirmar essa identidade religiosa. Ambos os lados se sentem ofendidos pela atitude do lado contrário.

Um judeu religioso, no seu trabalho, tem a dupla responsabilidade de ser um bom profissional e um bom cumpridor da Halachá. O seu aspeto exterior pode criar a aversão dos não-religiosos não só à sua pessoa, mas a todos os judeus religiosos. No caso em que ele seja o único judeu observante entre os colegas, ele será um embaixador de todo o público religioso. Um representante da tradição milenar judaica e um testemunho de que a Torá tem lugar e relevância em todas as eras, sem nunca cair em desuso, e muito menos parecer ultrapassada.

publicado por Boaz às 21:50
link do artigo | Comente | ver comentários (6) | favorito
Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

De bolha em bolha (de Copacabana aos Campos Elísios)

Há uns tempos, em conversa com um amigo americano sobre o lugar onde moramos, ele comentou que, por eu residir no colonato religioso de Alon Shevut, vivia numa espécie de "bolha". Em jeito de piada eu comentei-lhe que na verdade eu vivia dentro da "bolha brasileira" dentro da "bolha de Alon Shevut". Ele mora no vizinho colonato de Efrat, o melhor exemplo de uma "bolha americana" em Israel.

Desde que cheguei a Israel, há quase 7 anos, que o meu contacto com a sociedade israelita tem sido quase marginal. Eu explico. Vim para estudar num curso de conversão para sul-americanos, em que as únicas línguas usadas eram o português e o espanhol. Daí passei para uma yeshivá, o Machon Meir, estando integrado no grupo de estudos sul-americano. No meu quarto, falava português com os companheiros brasileiros e, pela falta do hebraico, usava o inglês com os dois companheiros israelitas. Apenas com um deles, de origem russa e com um inglês escasso, tentava falar um pouco em hebraico, à medida que ia aprendendo nas aulas do ulpan ivrit (curso oficial de hebraico).

Ao passar para a Yeshivat Hakotel, de novo para um programa de sul-americanos, o hebraico era apenas a quarta língua usada no meu dia-a-dia. Antes da língua sagrada, estavam o português, o espanhol e o inglês, usado com os muitos colegas americanos da yeshivá. O hebraico limitava-se às orações e os livros de estudo, mas não às discussões talmúdicas com os meus companheiros de estudo, que eram sempre brasileiros.

O mesmo aconteceu depois de entrar no grupo de alunos do kollel, a classe dos alunos casados, que estudam Torá num nível avançado. Na altura, tinha aberto um kollel para sul-americanos na yeshivá e eu integrei o grupo estreante. Apesar de estudarmos as fontes da Halachá (a Lei Judaica) na sua forma original em hebraico e aramaico, as duplas de estudo e discussão e as classes de semanais de revisão e desenvolvimento da matéria eram feitas exclusivamente em português.

Depois de casar, com uma brasileira, fomos viver para Alon Shevut, um pequeno colonato religioso 20 quilómetros a sul de Jerusalém, na região de Gush Etzion. A razão para a escolha da morada foi simples: a referida "bolha brasileira". Estar com pessoas que falam a mesma língua, e as quais já conhecíamos antes de casar, seria uma boa forma de nos integrarmos na vida local.

Conhecemos e somos próximos de quase todas as famílias brasileiras do povoado. É comum partilharmos a mesa de Shabbat, quer recebendo visitas ou sendo visitantes em suas casas. As crianças das famílias brasileiras são também bastantes próximas, se bem que muitas vezes brinquem em hebraico – a língua do infantário e da escola – e não tanto em português.

A língua sagrada, ainda que se fosse desenvolvendo naturalmente, era relegada para as ocasionais conversas de rua, no supermercado e no autocarro ou com os vizinhos israelitas. Mas sempre com a sensação de ser ainda uma língua estrangeira. Consigo pensar em português e mesmo em inglês ou espanhol, mas ainda não em hebraico.

Ao entrar no curso de preparação para shelichut, o meu nível de hebraico foi forçado a aumentar. Todas as classes, e praticamente todas as conversas com os companheiros de curso, eram exclusivamente em hebraico. Ainda que, no início, tenha perdido um pouco do conteúdo das aulas pelas dificuldades do idioma, o meu nível de hebraico melhorou consideravelmente com o tempo.

Há uns meses, chegou a hora de deixar a yeshivá e procurar trabalho "lá fora". Depois de algumas semanas de procura, encontrei um emprego numa empresa de call-center. A empresa é israelita, mas trabalha exclusivamente para o mercado internacional, em especial a França. No meu caso, sou o encarregado do serviço de atendimento aos clientes de uma empresa de material informático francesa que tem negócios em Portugal e Espanha. Mesmo a calhar. Por e-mail ou pelo telefone, trabalho exclusivamente nos idiomas ibéricos. Com os colegas de trabalho, todos franceses, falo em hebraico e começo a recuperar o idioma de Voltaire, abandonado desde que deixei de o estudar, no 9º ano da escola.

Apesar de ter encontrado trabalho, e de não me queixar das condições, continuo à procura de outro lugar. Ainda penso ser possível encontrar algum lugar onde possa por em prática aquilo que aprendi na faculdade. Se não for ao serviço do negócio da comunicação, que fosse ao serviço do Estado de Israel. Possivelmente, ainda demorará algum tempo até conseguir sair da bolha brasileira (e agora francesa) e finalmente integrar plenamente a sociedade israelita. Porém, como alguém me disse uma vez: "apesar de viver há mais de 30 anos em Israel, a dupla identidade – israelita e estrangeira – é algo que nunca nos larga".

publicado por Boaz às 22:03
link do artigo | Comente | ver comentários (8) | favorito
Quarta-feira, 2 de Março de 2011

Ecos da Diáspora

Numa das minhas últimas jornadas diárias para Jerusalém, apanhei boleia num carro onde viajavam duas mulheres que conheço vagamente, residentes em Alon Shevut, tal como eu. Mãe e filha conversaram num idioma estranho durante toda a viagem. Percebi imediatamente que não era hebraico. Apesar de ainda um pouco ferrugento na minha boca, o hebraico já não é “um idioma estranho” para mim.

“Talvez seja yiddish”, imaginei, lembrando-me da língua falada pelos Judeus oriundos da Europa Oriental, que é uma mistura de dialetos alemães e eslavos. “Não, também não é”, percebendo pela falta do forte sotaque alemão. Curioso, prestei atenção à conversa, sem entender uma única palavra daquele idioma misterioso. Da lista de possibilidades, fui sucessivamente excluindo as línguas germânicas e eslavas. “Húngaro!” concluí, atendendo à abundância do som “ô”. Aqui e acolá, a filha pontilhava o húngaro com expressões em hebraico e até português. *

Jerusalém, nas línguas do Mundo.

Na década de 1880, o escritor e jornalista Eliezer ben-Yehuda iniciou e reabilitação da língua hebraica como um idioma moderno. Consultando as fontes do Tanach (as escrituras judaicas, que incluem a Torá e os livros dos vários profetas), ben-Yehuda criou palavras novas a partir de velhos termos. Muitas das suas palavras novas são hoje parte do léxico hebraico, mas cerca de 2000 nunca foram adotadas.

Comparando com o português ou o espanhol, o idioma hebraico é bem menos rico em raízes de palavras. Porém, de apenas uma raiz, conseguiram criar-se dezenas de termos. Por exemplo, da palavra avir, “ar” em hebraico, surgiu aviron, “avião”. Porém, este é mais conhecido como matós, proveniente da raiz tas, “voar”. E como este, há dezenas de exemplos de vocábulos do hebraico moderno, com versões diferentes para a mesma coisa, dependendo da raiz que foi usada para nomear pela primeira vez uma coisa nova. Em maior ou menor medida, adotaram-se palavras com sonoridade grega, inglesa ou espanhola.

Porém, este renascimento da língua hebraica não apagou o uso das línguas que os Judeus usaram durante as gerações passadas na Diáspora. Os judeus haredim (ultra-ortodoxos), chegados da Europa Oriental, ainda hoje usam o yiddish como idioma do quotidiano, dos jornais da comunidade e dos pashkevilim, os cartazes afixados nas paredes dos bairros ultra-ortodoxos, contando as novidades, escândalos e alertas da comunidade. Inclusive na yeshivá, a academia de estudos religiosos, a Lei é discutida no idioma dos seus antepassados europeus. O hebraico, a língua sagrada, é reservado para os próprios livros da Lei e para as orações. Na opinião de muitos haredim, usar o hebraico nos assuntos do quotidiano seria misturar o sagrado com o profano. Um sacrilégio, portanto.

Os israelitas de origem russa – mais de um milhão, chegados na década de 1990 depois do colapso do Império Soviético – até hoje falam a sua língua materna. Ainda que aprendam hebraico com uma rapidez impressionante, mantém um fortíssimo sotaque eslavo. O mesmo se passa com os judeus franceses, a imigrar em cada vez maior número para Israel.

Os judeus provenientes do mundo islâmico mantêm o sotaque mais próximo da norma hebraica moderna, mas é normal ouvi-los a falar árabe, turco ou persa. Os mais velhos ainda falam os dialetos típicos dos judeus desses países, como o quase desaparecido haketia ou ladino ocidental, proveniente do Norte de Marrocos. Do mesmo modo, os judeus turcos e gregos guardam ainda o ladino oriental. E os bukharianos, o seu dialeto de origem turca.

Também os judeus imigrados do mundo anglo-saxónico continuam a usar o inglês em abundância. Em Jerusalém e nos colonatos e cidades dos arredores, existem numerosas comunidades de falantes de inglês. Daí que muitos, mesmo depois de vários anos a residir em Israel, continuem com um nível de hebraico muito básico. E, mesmo os que atingiram um nível fluente, quase todos continuam com sotaques inconfundíveis que denunciam a sua origem.

Numerosos empregos, em especial nos negócios e na alta-tecnologia, usam o inglês como língua franca, como em qualquer lugar do mundo. Assim, são muitos os imigrantes que não sentem sequer necessidade de falar o hebraico. Uma piada em Efrat, o principal colonato da região de Gush Etzion, habitado principalmente por americanos, diz que “em Efrat, de vez em quando até é possível escutar hebraico”. De facto, desde os negócios nas lojas até numerosas aulas de Torá, praticamente tudo se pode fazer usando apenas o inglês. Em Israel, hebraico e árabe partilham desde a fundação do Estado o estatuto de idiomas oficiais, apesar das discussões recentes de promover o hebraico a único idioma oficial e passar a considerar o árabe como semi-oficial, como são o inglês e o russo.

Casado com uma brasileira, em minha casa fala-se quase exclusivamente português, ainda que pontilhado por numerosas palavras e expressões hebraicas. Para falar com a família em Portugal, vejo-me por vezes a baralhar os idiomas. Há palavras portuguesas que, pura e simplesmente, desapareceram do meu discurso, substituídas pelas correspondentes hebraicas. Na yeshivá, apesar de usar livros em hebraico, estudo diariamente com brasileiros e outros sul-americanos. Muitos colegas da yeshivá são norte-americanos e ingleses. Assim, num dia normal uso o português, o espanhol e o inglês. O hebraico acaba muitas vezes por ser reservado apenas para breves conversas de autocarro ou para ser atendido no supermercado.

A filha mais velha, de 2 anos, frequenta o infantário local e aprende rapidamente a língua nacional, trazendo palavras novas todos os dias. Muitos nomes de objetos, alimentos, e também as cores e os números são aprendidos originalmente em hebraico. Vejo-me cada vez mais a entremear o idioma de Camões com o idioma de Moisés. Portubraico, digamos.

* A senhora octogenária, natural da Hungria, sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, onde trabalhava na clínica do macabro Dr. Mengele. Depois da guerra imigrou para o Brasil, onde nasceram os seus filhos. As suas memórias estão publicadas em hebraico e português.

publicado por Boaz às 20:20
link do artigo | Comente | ver comentários (7) | favorito
Sábado, 20 de Novembro de 2010

O regresso dos peregrinos

Israel está na moda. Esta afirmação pode parecer estranha, dadas as recorrentes notícias mostradas sobre o país, que lhe dão uma imagem em geral muito pouco atraente. Os terríveis cinco anos da Segunda Intifada fizeram afundar a imagem de Israel depois das boas (ou talvez sonhadoras) perspetivas criadas com os acordos de paz. A Guerra do Líbano em 2006 e a última guerra em Gaza no Inverno de 2008-2009 ainda estão na memória de muitos. E o episódio da flotilha turca em finais de Maio de 2010 incendiou mais uma vez a opinião pública contra Israel. Mas podemos generalizar?

Quando visitei Jerusalém em Maio de 2005, o turismo local ainda estava praticamente moribundo, depois do golpe da Intifada. No mercado árabe da Cidade Velha muitas lojas estavam encerradas. Na Ben Yehuda, uma rua pedonal de lojas de souvenirs e cafés no coração da Cidade Nova, viam-se poucos turistas. Tão poucos que as lojas ofereciam descontos aos “turistas corajosos”. Visitar Israel naquela época era manifestar nada menos que uma evidente declaração política. Essa foi a razão secreta para a minha viagem.


Rua do Bairro Latino da Cidade Velha de Jerusalém, próxima do Santo Sepulcro.
Quase deserta. Mas isto era em 2006.

A cidade de Belém, vizinha de Jerusalém e controlada pela Autoridade Palestiniana, onde me atrevi a entrar por algumas horas, era uma deprimente cidade-fantasma, de ruas poeirentas e hotéis desertos. Na altura, a presença de turistas era tão incomum que eu, junto com um grupo de ocidentais hospedados na velha Petra Hostel, fui entrevistado por um jornalista israelita da revista National Geographic Treveler, para uma reportagem sobre o regresso dos mochileiros às pousadas de Jerusalém.

Hoje, cinco anos, algumas guerras e muitos gritos anti-Israel depois, a realidade parece o oposto ao marasmo no turismo israelita vivido nos meados da década. Todos os dias, ao atravessar a Cidade Velha de Jerusalém pelo shuq, o mercado árabe, sou testemunha de uma verdadeira torrente de visitantes. Apesar da crise económica internacional e da persistente valorização da moeda israelita, o shekel, em relação ao dólar e o euro. A época alta do Verão e as Grandes Festas judaicas do início do Outono passaram, mas o fluxo de estrangeiros não parece abrandar.

A julgar pelo crescente número de turistas e as boas recomendações de várias cidades israelitas em meios de comunicação especializados em turismo, não se confirma em nada a má imagem do país na arena mundial. Tel Aviv foi recentemente classificada pelo famosíssimo guia “Lonely Planet” em terceiro lugar no Top 10 dos melhores lugares para visitar em 2011. “A cidade que nunca dorme” foi ainda votada como uma das 10 melhores cidades do Mundo para diversão, a par de lugares com muito “melhor fama”, como Berlim, Las Vegas, Ibiza ou Lisboa. Jerusalém também tem recebido várias recomendações de renome no panorama turístico internacional.

Os turistas israelitas, após alguns anos afastados da Cidade Santa devido à violência terrorista da Intifada, regressam aos mercados, aos cafés da Ben Yehuda, ao Muro das Lamentações (conhecido localmente como Kotel, “muro” em hebraico) e ao parque arqueológico da Cidade de David. Apesar de não haver escola em Israel que não organize passeios ao Kotel e de, durante o serviço militar muitos soldados realizarem visitas à Cidade Velha, é comum ser inquirido na rua por turistas israelitas sobre como chegar ao Muro.

A normalização das relações diplomáticas de Israel com alguns países muçulmanos, mesmo que seja abaladas a cada estalar do conflito com os Palestinianos, tem atraído um número cada vez maior de peregrinos islâmicos a Jerusalém. Depois de Meca e Medina, na Arábia Saudita, Jerusalém é a terceira cidade santa do Islão. Parecem ser indianos, malaios ou paquistaneses – os meus conhecimentos de antropologia não são suficientes para os identificar. E nunca tive coragem para lhes perguntar a origem.

Grupos de nigerianos cristãos, em especial as mulheres com os seus trajes coloridos e penteados entrançados, enchem as lojas de souvenirs. Admirava-me como um país com tanta pobreza como a Nigéria conseguia fornecer tantos turistas a Israel. Até descobrir que o governo do país patrocina a peregrinação dos fiéis cristãos à Terra Santa, tal como faz com a peregrinação de muçulmanos a Meca. Além dos produtos típicos do Médio Oriente, os nigerianos têm uma misteriosa predilecção por mantas e malas de viagem.

De Itália, Espanha, Polónia, França e Alemanha, com as suas bem estabelecidas comunidades católicas encontram-se numerosos peregrinos em excursões diocesanas acompanhadas com os respetivos padres. Da Rússia, vêm-se grupos de fiéis, a grande maioria mulheres, com a cabeça coberta com lenços brancos em sinal de recato seguindo o sacerdote ortodoxo, com os seus trajes negros e cabelos atados num longo rabo-de-cavalo. Destes lugares, quase todos os turistas são gente que já atingiu a idade da reforma. O mesmo se passa com os grupos de protestantes americanos. Sinal do desinteresse geral dos jovens por assuntos religiosos, que por essa razão preferem paragens mais exóticas e de veraneio.

Entre os judeus americanos estabeleceu-se o costume de viajar para Israel por ocasião do bar mitzva dos seus filhos. A cerimónia realizada pelos meninos de 13 anos que marca a sua entrada na idade adulta do cumprimento dos mandamentos costumava ser, e em muitos casos ainda é, uma ocasião efusiva, de exageros quase carnavalescos. Em vez de gastarem uma fortuna numa festa praticamente vazia de significado, as famílias decidem fazer uma viagem à Terra Santa, realizando a cerimónia religiosa no Kotel, o Muro das Lamentações. Nos hotéis vizinhos da Cidade Velha enormes cartazes dão as boas-vindas aos jovens e suas famílias.

Outro dos grupos numerosos é o dos sul-americanos. Colombianos ou mexicanos (identifico-os pelo sotaque) e sobretudo evangélicos brasileiros enchem as ruas do shuq. A decisão da companhia aérea israelita El Al de abrir uma ligação aérea direta Tel Aviv-São Paulo tem sido um sucesso. Por um lado, o Brasil é um dos destinos de eleição dos mochileiros israelitas para viagem pós-serviço militar. Por outro, para milhões dos fervorosos evangélicos brasileiros, uma viagem à Terra Santa é o sonho de uma vida.

Aqui, a TAP poderia fazer um bom negócio. A companhia portuguesa já é a companhia aérea estrangeira que mais voa para o Brasil, com ligações entre Lisboa e nove cidades brasileiras (com outras quatro que podem entrar na lista em breve). A El Al voa apenas para São Paulo. Apenas com abertura de uma ligação aérea entre Lisboa e Tel Aviv, Lisboa poderia servir de ponte aérea entre Israel e o Brasil, aproveitando-se do crescente fluxo de evangélicos brasileiros para a Terra Santa e da popularidade do Brasil em Israel.

E no final das contas, Lisboa até poderia impor-se como um destino por si só e não apenas como um aeroporto de escala. É que, até para os portugueses, Israel também já começa a voltar aos roteiros turísticos. De acordo com as estatísticas, ainda que os números absolutos ainda sejam baixos, em termos percentuais Portugal foi mesmo o país que mais aumentou a remessa de turistas para Israel. E sejam muito bem-vindos.

publicado por Boaz às 20:25
link do artigo | Comente | ver comentários (1) | favorito
Sexta-feira, 22 de Outubro de 2010

Objeto suspeito!

De repente, alguém desconfia de algo anormal. Dá o alarme. A zona é evacuada. Carros da polícia chegam para bloquear as ruas nas imediações. Os pedestres são impedidos de passar. É assim, cada vez que se descobre algum hafetz hashud, um objeto suspeito. Não são assim tão comuns no dia-a-dia israelita, mas não há quem não tenha passado por pelo menos um episódio destes. Quase se podia considerar uma experiência tipicamente israelita.


Soldado com um fato anti-explosivos. No filme "The Hurt Locker".

Encontrado num lugar público, seja no meio da rua, num centro comercial ou numa estação de transportes, a resposta a uma situação de "objeto suspeito" é sempre a evacuação dos civis. Em breves minutos, um esquadrão anti-bomba da polícia chega ao local para analisar o problema. Nos casos mais complicados aparece um veículo-estilo-robô que recolhe o objeto e o faz explodir de forma controlada. Noutros, um elemento da brigada anti-explosivos envolto num fato à prova de explosões (não todas, obviamente) aproxima-se para verificar o incómodo com olhos humanos.

Em cinco anos de residência em Israel, já assisti a estes espetáculos por vezes hollywoodescos. Felizmente, em nenhuma deles o perigo era real. Na última das situações, ontem mesmo durante o regresso a casa, observei as pessoas que tal como eu esperavam que o episódio se resolvesse. Habituadas a incontáveis incidentes do género, em especial durante os anos da Segunda Intifada, respondiam com uma expressão de tédio à informação de que se tratava de mais um hafetz hashud. Fazer o quê? Resta esperar. A polícia não deixa passar ninguém.

Em alguns minutos apenas, a situação resolve-se. O trânsito volta a circular. Em todas as paragens de autocarros acumulam-se passageiros impacientes, desconhecedores do que se passou no outro lado da cidade. Ao terminar a situação de alerta chegam filas de autocarros que haviam ficado retidos no bloqueio da rua.

A desconfiança securitária em Israel é por vezes stressante e exagerada. Na vida quotidiana, a qualquer momento, a normalidade pode ser interrompida por um objecto deixado no sítio errado. Talvez seja inocente – a maioria das vezes é mesmo –, mas não há lugar para indulgências quando está em causa a segurança pública. As ameaças por estes lados são um pouco mais sérias do que as que existem em quase todo o resto do Mundo.

publicado por Boaz às 02:12
link do artigo | Comente | favorito
Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

O enviado

Desde princípios de Setembro, eu e a minha esposa estamos a frequentar um curso de preparação para trabalhar com comunidades judaicas fora de Israel – aquilo que se chama, em linguagem judaica: a Diáspora. Ao fim de dois anos – nalguns casos ainda no período de estudos – o casal é enviado para uma comunidade onde desempenhará as funções de rabino (e respectiva esposa) ou de professor da escola judaica.

Durante a sua estadia na Diáspora, os alunos do curso tornam-se shelichim, "enviados" ou "emissários". É um modelo executado com sucesso em especial pela corrente judaica ultra-ortodoxa Chabad, que tem milhares de "emissários" em todos os Continentes. Por exemplo, de todos os países na Europa, Portugal é o único com mais de 500 judeus, sem um emissário Chabad. (Por várias razões que não me compete discutir). Porém, enquanto os "emissários" Chabad são incumbidos de uma missão para durar uma vida inteira, ou pelo menos bastantes anos, os "emissários" da organização onde estudo têm uma missão temporária, normalmente de 2 a 3 anos.


O tradicional Kinus, a cerimónia anual de reunião dos "emissários" Chabad.
Frente ao famoso 770, Crown Heights, Nova Iorque, 2009

A organização que ministra este curso está dentro da linha ortodoxa moderna, sionista, o Instituto Amiel-Strauss. É um curso de dois anos, durante o qual, o casal (com a excepção de um aluno solteiro, todos os outros cerca de 20 elementos da turma são casados) é preparado para cumprir funções de liderança na comunidade judaica. Todas as terças-feiras, das 13:45 às 20:30 frequento as aulas do curso. As esposas têm 4 horas de aulas uma vez a cada 15 dias. Os desafios das comunidades judaicas – com os seus dilemas e casos bicudos – como resolvê-los à luz da necessidade com a moldura da Halachá, a Lei Judaica?

Um dos elementos centrais do curso e uma das partes que me foi mais fortemente recomendada, foi a formação na área da Retórica. Como dar uma palestra, aula na sinagoga de uma forma interessante? Que temas explorar e como? Como passar os temas difíceis de uma forma atrativa?

Frequentemente, recebemos a visita de atuais e ex-emissários nas comunidades do mundo inteiro que nos contam as suas experiências: as dificuldades que encontraram, os desafios que passaram, o que conseguiram fazer, o que desejariam ter feito. Tudo isto nos dá indicações como estarmos preparados para enfrentar o mundo judaico "lá fora", fora de Israel.

São realizados contactos com potenciais comunidades para envio dos alunos. Comunidades que estão interessadas em receber um rabino, um professor para a escola judaica, um animador do grupo de jovens, etc. De qualquer forma, as funções acabam por não ser tão fixas e o emissário que fora designado para ser professor da escola judaica poderá acabar por se tornar o rabino da comunidade. Obviamente, em qualquer caso, um rabino desempenha sempre funções de professor.

Ao longo da nossa trajetória judaica, tanto eu como a minha esposa fomos ajudados por "emissários". Eu, vindo de uma família e de um ambiente não-judaico em Portugal, no processo de conversão; ela, crescida numa família pouco religiosa no Brasil, no seu retorno à religiosidade judaica.

Numa altura em que o Povo Judeu se encontra numa situação delicada, ameaçado por níveis de assimilação e um desinteresse (ou pelo menos grande desconhecimento) das novas gerações pela sua herança espiritual e histórica, é uma enorme responsabilidade dar uma ajuda para travar este processo. É a nossa vez de contribuir para este grande esforço. As potencialidades são gigantescas. O terreno, apesar de difícil, é fértil.

A par do fenómeno gravíssimo da assimilação, existem cada vez mais judeus interessados na religiosidade (o que também acontece noutras religiões). Aquilo que chamamos teshuvá, ou "retorno". Jovens e adultos afastados descobrem uma identificação com as suas raízes judaicas. Em muitos casos, essas raízes foram cortadas por "casamentos mistos" dos seus pais ou avós e o "retorno" significa na verdade uma "conversão".

Hoje, como em muitas outras épocas da História, o Povo Judeu encontra-se numa encruzilhada. De um lado, as forças da assimilação que arrancam membros ao Povo Judeu. Do outro, a redescoberta das origens e da espiritualidade pelos "afastados". São fenómenos que se encontram em todas as comunidades no disperso mundo judaico e em todas as famílias judaicas do planeta. Na mesma família, acontece um dos filhos se casar com um não-judeu e o outro tornar-se religioso.

Ainda é cedo para saber par onde iremos depois de terminado o curso. Pela afinidade linguística, Portugal ou Brasil seriam os destinos mais "naturais". Espanha ou a América Latina são outras possibilidades ou, mais remotamente, até algum país de língua inglesa. Porém, admito que voltar a Lisboa na condição de "emissário" seria, no mínimo, estranhíssimo.

PS – É importante ressalvar que os "emissários" não são missionários, dedicando-se exclusivamente aos assuntos das comunidades judaicas. Não existe prática "missionária" no Judaísmo. Existe assistência aos que, eventualmente se desejem converter, mas não existe qualquer acção de propaganda do Judaísmo fora das esferas da comunidade judaica.

publicado por Boaz às 00:00
link do artigo | Comente | ver comentários (4) | favorito
Domingo, 29 de Novembro de 2009

Oinc oinc, eles andam aí

É oficial: a gripe A chegou a estes lados. Nada de alarmes. A pequena aguentou-se, apesar dos 40 graus de febre, a tosse, a fraqueza. Durante uma semana, a mãe e o pai revezaram-se para ficar com ela em casa. Na vizinhança soubemos de outros casos. Mais tarde ou mais cedo, chega a todos.

Tenho visto que as notícias são de alarme em Portugal. Escolas fechadas, campanhas de vacinação (e as grávidas que não aderem com receio que com elas se repitam os episódios da morte de fetos de outras grávidas que foram vacinadas). Até a equipa do Estrela da Amadora está "de baixa", com quase toda a equipa infetada.

Em Israel, depois da polémica inicial sobre como chamar à doença: “gripe A” não diz nada, “gripe mexicana” dava má publicidade ao país onde tudo começou e gripe suína tem uma conotação não-casher, decidiram-se mesmo pela "gripe dos porcos". Afinal, o vírus não precisa de ter certificado de cashrut... Hoje, mal se fala do assunto. Ainda assim, contam-se mais de 4000 casos e algumas dezenas de mortes. Nada de alarme. Aliás, para quê? Todos os anos, morre meio milhão de pessoas no mundo só com a gripe comum e ninguém puxa os cabelos por isso.

É preciso de ter medo de alguma coisa. Isso vende muitas notícias. Faz mover governos. E sustenta muitos negócios (quantos milhões de vacinas contra a gripe foram encomendadas à Roche, a empresa que tem a patente do Oseltamivir, o princípio ativo do famoso Tamiflu?). Eu não digo que andem interesses obscuros à solta. Há que confiar nos médicos, ainda que saibamos dos "prémios das farmacêuticas".

Acreditar que tudo não passa de uma grande conspiração é mais perigosos ainda. Um bom exemplo aconteceu com a vacinação contra a poliomielite. Em 2003, durante a campanha de vacinação para erradicação da poliomielite, surgiram rumores no norte da Nigéria que a vacina causava esterilidade nas raparigas. Os chefes tradicionais muçulmanos proibiram a campanha de vacinação, causando um aumento dramático dos casos de polio no país. Nos dez meses de suspensão da vacinação, a epidemia alastrou a toda a Nigéria e a 12 países vizinhos onde já havia sido declarada extinta. Hoje, as guerras no Sudão e a instabilidade na Costa do Marfim são os obstáculos contra a erradicação completa desta grave doença. Só este ano, foram detetados novos casos em 21 países. Tudo por causa de uma mentira sem fundamento.

No caso da gripe A, já andam por aí e-mails a circular, insinuando que é tudo um plano dos Estados Unidos (quem mais, se não o "Grande Satã"?) para reduzir a população mundial em 2/3. É maquiavélico mesmo. Vídeos no YouTube mostram uma respeitosa senhora finlandesa (obviamente, já que a Finlândia é um país tão credível). A senhora é apresentada nos ameaçadores e-mails como ex-ministra da saúde do tal país nórdico.

Na verdade, a fulana não passa de uma louca que apenas foi secretária da saúde de uma província finlandesa. Essas são mesmo as únicas credenciais positivas da criatura. Agora, se soubermos que ela se diz manter contatos com extra-terrestres – reclama já ter sido sequestrada para o espaço algumas vezes e a sua vida já foi salva em três ocasiões pelos sujeitos verdes de olhos grandes – perde toda a credibilidade. Tirando para os crentes das teorias de Ovnis. Ainda reclama que uma boa parte da humanidade tem implantes cranianos para controlo da mente, implantados à nascença. Sinceramente, prefiro a teoria do filme "Matrix".

Não se assustem meus amigos, duas doses ou três diárias de um qualquer anti-inflamatório (iboprufeno ou paracetamol, por exemplo) durante alguns dias são suficientes para aliviar os sintomas. Fiquem em casa durante uma semana. Evitem espaços com muita gente (não só pela gripe, mas também pelos carteiristas, os mendigos e os mercadores de "promoções imbatíveis").

Enquanto isso, ponham a leitura em dia. Bebam muita água e descansem. Depois voltem à rotina e não se ralem, que até o Inverno acabar ainda muito pingo vai cair dos vossos narizes. E para o ano há mais.

publicado por Boaz às 18:05
link do artigo | Comente | ver comentários (5) | favorito
Domingo, 22 de Novembro de 2009

Memória dos avós

Recentemente lembrei-me dos meus avós maternos. Por acaso – se realmente existir algo na vida como "um acaso". (Os tempos de viagem de casa para a yeshiva são férteis em pensamentos. Entre alguma atenção às 400 músicas que guardo no leitor de mp3 e umas olhadelas à paisagem tantas vezes passada e repassada, cogitações várias passam pela minha cabeça.)

Alguns anos após a morte dos meus avós maternos – primeiro o avô e poucos meses depois a avó – recordo a sua vida simples e melancólica. Eram um oásis da vida "à moda antiga" numa sociedade moderna e em rápida mudança. Uma amostra de um Portugal desaparecido ou em vias de extinção. Era uma vida marcada pelas estações do ano, dominada pelo cuidado da pequena fazenda, tratada apenas à força de braços. O avô não tinha tractor.


Os avós de alguém.
Casal de judeus camponeses pobres, região de Dubromil, hoje Ucrânia.
Feita por um fotógrafo ambulante, anos 1920.

A vinha – que ocupava metade da fazenda – era o local de reunião das filhas e netos uma vez por ano. A época das vindimas era a altura mais animada na casa dos avós. De balde e tesoura da poda na mão, todos se debruçavam junto às cepas, procurando pelos belos cachos de uvas. Tudo era levado para a velha adega, ao lado da casa. O avô fazia o próprio vinho. A avó aproveitava alguns cachos que secava no sótão da cozinha, para fazer passas.

Nos cantos da vinha havia algumas árvores de fruto que produziam pouco: macieiras, pessegueiros, uma pereira, um pero-sousa. A ameixieira ao lado da coelheira era a única que se carregava de fruta. Na parte de baixo da fazenda, separada da casa e da vinha pela estrada alcatroada, ficava a horta, irrigada com a água do poço cavado pelo próprio avô ou tirada do pequeno ribeiro que limitava o fundo da fazenda e que por vezes secava no auge do Verão. Ao lado do poço, a gigante figueira era o tesouro de toda a herdade. Os deliciosos figos pingo-de-mel eram muito cobiçados. Sem uma escada para alcançar o topo da árvore, os pardais ficavam com a maior parte.

No quintal ao lado da cozinha viviam algumas galinhas. Em volta, as coelheiras, dois quintais dos porcos e o curral das cabras onde quase todos os anos nascia mais um ou dois cabritos. Uma pequena gaiola abrigava uma pacífica família de rolas – pelas quais dei a alcunha da avó: "a avó cu-cu-ru". Era com desenvoltura que a avó matava uma galinha de vez em quando. Alimentadas a milho e couves da horta, as galinhas da avó acabavam numa canja sem igual. Com os anos, a prática "degoladora" da avó foi-se perdendo. Um dos sinais da decadência foi um galo jazendo degolado na bacia que, ao levar com a água a ferver para ser depenado, despertou e correu pelo quintal até chocar com a parede mais próxima.

Os rituais da vida no campo repetiam-se ao sabor das estações. Durante alguns anos, todos os anos, realizava-se a matança do porco. Nunca assisti a esse espetáculo macabro, mas lembro-me de ver depois o animal já estripado, pendurado num gancho no tecto da adega. A carne era guardada numa arca cheia de sal, lembrança das eras anteriores à invenção do congelador. Com uma parte do sangue, alguma carne e gordura, arroz e algumas especiarias, a avó fazia um panelão de morcelas, que eram depois defumadas na larga chaminé da lareira da cozinha.

Uma vez por semana, nas tardes de Sábado, a avó ocupava-se do ritual de fazer o pão. Enchia o tradicional forno da cozinha com ramos da videira aproveitados depois da poda da vinha. Batia à mão vários quilos de farinha na velha e brilhante bacia de barro, a "amassadeira". Apesar do enorme esforço, a avó era desconfiada da batedeira elétrica. Tinha razão, o pão dela não era cheio de buracos como o pão industrial. Uma pequena porção de massa era guardada para a fornada da semana seguinte. Numa taça, coberto com azeite e sal, o "crescente" era o fermento natural que dava o sabor especial ao pão da avó.

Ao Domingo, a caminho da missa, a avó passava por nossa casa, situada ao lado da igreja para deixar um pão cozido na véspera. Transportado no grande cesto de pano azul, onde a avó levava as compras da mercearia e às vezes trazia surpresas para mostrar aos netos. Como o pequeno ouriço-cacheiro encontrado na horta e que, depois de mostrado, foi levado de volta para a sua toca.

Não havia televisão em casa dos avós. Excepto uma semana, quando a avó partiu uma perna e a minha mãe decidiu levar um pequeno televisor a preto-e-branco que tínhamos em casa para lhe animar os dias em que tinha de estar imóvel na cama. Durante aquela semana, a avó deliciou-se com as tramas e paixões das novelas brasileiras – era a época do Roque Santeiro –, até o avô reclamar pelo barulho constante em casa. O rádio era o único contacto com as comunicações. Durante a semana ao final da tarde, com uma fidelidade absoluta, a avó sentava-se a escutar a reza do terço. Enquanto descascava uma tigela cheia de ervilhas ou favas para o jantar, ou costurava as meias do avô. O avô era menos dado a rezas e sempre criticava o padre da aldeia e o seu carro novo.

As suas companhias eram os gatos, ariscos para os de fora e todos com nomes estranhos escolhidos pelo sentido de humor peculiar do avô: as gatas Espilrina e Lina e o gato Zé foram alguns dos últimos bichanos a partilhar o seu colo e a lareira. Era tal a dedicação aos animais, à casa e à fazenda, que os avós eram incapazes de abandonar por mais de um dia a vida no campo. O avô era ainda mais "agarrado" à rotina do quotidiano que a avó. Por isso, quando os dois filhos emigrados no Canadá lhes ofereceram uma viagem ao seu país adotivo para conhecerem os netos, o avô decidiu ficar a cuidar dos animais e da horta. Pelo contrário, sem problemas de consciência, a avó largou a casinha e a vidinha sossegada e aproveitou a viagem – a única vez que saiu de Portugal.

Quase não tenho fotos dos meus avós. Talvez por isso, a minha foto de infância favorita seja aquela em que estou, com menos de três anos, ao colo do avô, tirada numa tarde de Verão durante um piquenique que fizemos na Praia das Paredes, perto da Batalha. A preciosa foto era também uma das favoritas da minha mãe. Levava-a sempre na carteira. Até ao dia em que foi assaltada, à saída da missa, em Fátima. Passados alguns meses, os despojos da carteira foram encontrados na beira de uma auto-estrada, largados pelos ladrões. Porém, a ação dos elementos não poupou a foto. Até que, anos mais tarde, em conversa com uma tia sobre o piquenique em que fora tirada, há mais de 20 anos, lembrou-se que ela própria tinha uma cópia. Hoje tenho uma reprodução grande da foto ao colo do avô, que há meses ando a prometer a mim mesmo pendurar no quarto da minha filha, assim que lhe arranjar uma moldura decente.

Da última vez que estive em Portugal visitei o seu túmulo, no cemitério da aldeia onde viviam e onde a minha mãe ainda vive. Comovi-me ao olhar as fotos que quase já esquecera, anos depois do seu desaparecimento, na pequena laje da cabeceira da sepultura. O avô morreu há oito anos, nesta semana. Talvez seja este o "acaso" que me fez, subitamente, lembrar-me dele. Talvez este seja uma espécie de kaddish.*

É curioso que hoje, graças às inúmeras experiências na vida campestre que partilhei com eles, entendo tantas expressões agrícolas descritas pelo Talmude. Ao contrário dos meus colegas de yeshiva, meninos da cidade, que não fazem ideia do que seja mondar, empar ou joeirar. A memória e as histórias dos avós passarão de geração em geração, como as fotos supostamente perdidas que são reencontradas.

* Kaddish é a oração judaica pelos falecidos, a qual curiosamente, não fala de morte.

publicado por Boaz às 08:00
link do artigo | Comente | ver comentários (1) | favorito
Sexta-feira, 11 de Setembro de 2009

No fundo de rodapé da fama


Quase famoso.

Apesar de ser licenciado em Comunicação Social, em poucas ocasiões apliquei o que estudei nos 4 anos do curso. Agora, nem tenho televisão em casa – e não o lamento. O contacto com o Mundo faz-se pela Internet. Ainda antes do sonho da carreira na Comunicação Social, tinha tido algum contacto com o mundo jornalístico na escola. Aos 13 ou 14 anos, entrei quase por acaso para o Clube de Jornalismo da Escola Secundária da Batalha. A experiência durou apenas algumas semanas, mas ainda me lembro de escrever alguns textos que seriam publicados no jornal da escola. E de fazer desenhos para ilustrar as peças.

Na mesma altura, ou poucos anos depois, o Jornal da Batalha teve a ideia de dedicar uma das suas páginas a uma das turmas da escola local. Os alunos escreveriam textos e a turma apareceria numa foto de grupo. Ainda guardo numa mala de documentos a página que foi feita pela minha turma... Ainda que seja difícil ver onde estou no meio da foto de turma, foi a primeira vez que "saí no jornal".

A segunda vez que "fui para as bancas" foi já nos anos da faculdade. Ao contrário de uma pacífica e sóbria foto nos idos anos do ensino secundário, a notícia da época universitária dizia respeito a uma "invasão". Os revolucionários alunos do ISCSP, o Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, a minha faculdade em Lisboa, decidiram tomar de volta e à força o andar de cima do secular Palácio Burnay onde funcionava a faculdade. Havia sido "nosso" até à extinção temporária do ISCSP algumas décadas antes, mas aí funcionavam alguns dos serviços de outra instituição, o Instituto de Investigação Científica e Tropical. Era a parte mais nobre do palácio e era uma vergonha que estivesse a ser usado por "eles".

Na cobertura jornalística da invasão – como é que chegaram tão rápido? Estavam avisados? –, um fotógrafo do Jornal de Notícias apanhou-me com um maço de livros arrancados de uma das prateleiras dos cientistas ocupantes. Eu nem dei por ele. Só soube quando vi a foto no diário! Em termos de processo judicial, nunca se fez nada contra a nossa "medida radical" e, passadas algumas semanas, metemos o rabinho entre as pernas e voltámos a ter apenas "o andar de baixo". E foi assim, como um anónimo criminoso fotografado em "flagrante delito" que saí numa das páginas da secção de Sociedade do JN em 2000 e picos.

No final do curso consegui – com ajuda da indispensável cunha, por supuesto – um precioso estágio. O meu padrinho falou com um amigo que tinha um outro amigo e que, sem acaso, era o responsável pelos estagiários da rádio de notícias TSF, uma das mais importantes estações de rádio de Portugal. Depois de uma entrevista para apurar capacidades, comecei a trabalhar logo no dia seguinte. Trabalhar não era bem o termo certo: o estágio era, apesar de bem-vindo, "não remunerado". Comecei por fazer o turno da manhã.

Saía bem cedo do apartamento onde morava junto ao Largo do Rato e tomava dois autocarros até chegar à redacção no Braço de Prata, quase a chegar ao Parque das Nações. O termo "não remunerado" era absoluto, e significava que eu tinha de pagar o meu transporte – a não ser as deslocações em trabalho – e nem incluía almoço. Valiam-me as bolachas e o iogurte trazidos de casa, e a máquina de café para ser usada à discrição. Depois passei para o turno da tarde.

Ao contrário do que se pensa no mundo fora do círculo jornalístico, nem todos os jornalísticas "aparecem". Nem todos são "estrelas". Antes pelo contrário, a profissão de jornalista é muito menos romântica. O meu trabalho era mais de apoio. Depois de escolher uma historia para cobrir, telefonava para aqui e acolá à cata de depoimentos de alguém com quem interessava falar por algum assunto. Por vezes fazia "trabalho de campo": saía da redacção para algum lugar em Lisboa para assistir a impossivelmente chatas conferências de imprensa, como reuniões de centrais sindicais. Entrevistei um ex-ministro da Ciência sobre o aniversário de Albert Einstein. Num seminário da Associação Luso-Americana entrei pela primeira e única vez no Sheraton de Lisboa, onde estaria o ministro do Trabalho. Eu não falei com ele, mas um jornalista de TV encontrou-o e rapidamente lhe fez uma pergunta pertinente. Tão rápido que eu nem tive tempo de ligar o meu microfone! Desastres de principiante.

A visita do presidente do Governo Regional dos Açores levou-me ao Palácio de Belém, a residência do Presidente da República. O líder açoriano falou alguma coisa que era importante, mas eu não entendi o interesse da coisa. No dia seguinte, à chegada à redacção, levei uma reprimenda quando me disseram que ele realmente tinha dito algo que era notícia. E que a TSF tinha deixado fugir. Outra rádio noticiou em primeira-mão. Aprenderam a não enviar um novato para cobrir assuntos de Estado. A única vez que a minha voz foi ouvida nas ondas hertzianas foi numa peça sobre uma "Feira do Livro Usado" realizada no Mercado da Ribeira. Com Carlos Paredes como música de fundo construí uma peça em linguagem poética. Foi "para o ar" nessa noite, a uma hora em que pouca gente ouve rádio. Repetiram-na de manhã cedo, ao início da hora de ponta do trânsito lisboeta.

Na altura estalou o escândalo de pedofilia na Casa Pia. Todos os dias apareciam revelações cada vez mais escabrosas. Na redacção, ouviam-se boatos implicando pessoas que, só semanas ou meses mais tarde, seriam trazidos a público. Ou nunca foram mencionadas "cá fora". Não imaginamos o podre que corre na antecâmara das notícias até fazermos parte de uma redacção.

Eram as vésperas da invasão americana do Iraque. A guerra estava iminente. Todos os dias, Bush e companhia revelavam outra razão para mandar Saddam Hussein para fora do poleiro. Era preciso saber o que diziam a CNN e a BBC e gravar o que noticiavam. Várias vezes traduzi e dobrei em estúdio declarações de Bush, Dick Cheney, Tony Blair e outros "peixes graúdos". A estação planeava quem iria mandar para o Médio Oriente, cobrindo os países mais importantes da região. "Armas de destruição maciça" era o termo mais usado nos media da altura. O Mundo não parece ter mudado muito desde essa altura...

Poucos dias depois de terminar os meses de estágio, assisti no meu quarto ao início da guerra em directo na RTP, a 20 de Março de 2003. Um providencial directo do jornalista Carlos Fino apanhou as primeiras bombas a cair em Bagdad. Aquela já não era a minha guerra. Eu estava de fora, a imaginar o reboliço que deveria ser a redacção da TSF. Ao todo foram apenas 4 meses. Aprendi alguma coisa, em especial o cuidado que temos de ter quando escutamos, vemos ou lemos algo nos media. As palavras cuidadosamente usadas para causarem polémica, para darem nome à casa, para a própria casa ser notícia por ter noticiado tal coisa, é mais importante do que revelar a notícia em si.

Alguns meses depois, trabalhei durante apenas um mês num semanário católico da diocese de Leiria. A coisa mais interessante na enfadonha rotina semanal era a montagem das notícias do jornal, às segundas e terças-feiras. Era interessante ver nascer o jornal que vai aparecer, dias depois, nas bancas. Organizar o enorme e desinteressante arquivo fotográfico do jornal ou escolher folhas de papel de impressão que ainda podiam ser usadas, foram outras coisas que eu fiz, nos dias em que não havia nada para fazer na sala onde funcionava o jornal, com apenas três funcionários.

No ano seguinte, passei para a televisão. Não, apesar das minhas tentativas e dezenas de currículos enviados não consegui ter outro estágio, nem mesmo "não remunerado" e ainda menos um emprego certo. Na altura, já começara a tomar forma o meu processo de conversão e foi nessa condição que apareci num programa de informação religiosa da RTP 2. Foram entrevistar os alunos que frequentavam as classes de conversão na sinagoga de Lisboa.

Com a ajuda do blog, fui entrevistado duas vezes sobre o assunto da minha conversão ao Judaísmo. Um leitor chileno entrevistou-me em inglês e publicou a notícia num jornal online do Canadá. O mês passado, foi a vez de uma jornalista brasileira, de um jornal judaico do Rio de Janeiro se interessar pela minha história.

Há meses, um amigo português (nascido em Moçambique) residente em Jerusalém foi descoberto pelo jornalista Henrique Cymerman, correspondente da SIC em Israel. A história de um português de origem "marrana" (em hebriaco anussim, os judeus obrigados a converterem-se ao Catolicismo e mantidos judeus em segredo), hoje 100% judeu, a trabalhar no Jardim Botânico de Jerusalém deu origem a uma reportagem de televisão. Depois da realização da reportagem, o meu amigo avisou-me que o jornalista estava interessado em conhecer outros portugueses em Israel e que por isso, lhe tinha dado o meu contacto.

Até hoje, alguns meses depois, espero o tal telefonema do Henrique Cymerman. Ainda não foi desta que apareci na SIC!

publicado por Boaz às 03:17
link do artigo | Comente | ver comentários (4) | favorito
Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Palestra em mímica

Há dias, após o final da viagem à boleia desde Alon Shevut, que me deixou no bairro de Talpiyot – como acontece tantas vezes – continuei de autocarro a jornada até à Cidade Velha. Respeitando o pequeno letreiro numa das janelas do autocarro "Por favor continue para a parte de trás do veículo", sentei-me numa das últimas filas de bancos.

De manhã, a caminho da yeshiva, costumo escutar música no meu pequeno leitor de mp3. "Mais vale ouvir música do que disparates", podia ser uma boa razão para manter o canal auditivo coberto com os auscultadores. Ainda assim, gosto de observar as pessoas à minha volta, na boleia, no autocarro ou nas ruas...

À minha frente no autocarro – sentei-me naquela fileira especial em que as pessoas se sentam de frente para as outras – estava um senhor na casa dos 50 avançados. Vi que falava bastante. Não o ouvia, por manter a música do mp3 ligada. Durante os mais de 10 minutos da viagem até ao centro da cidade, o homem não se calou. Numa expressão de resmungo esbracejava e apontava para um lado e para o outro, reforçando a importância que dava à sua prédica.

Olhava-me e para os outros passageiros na vizinhança e continuava. Parecia tentar convencer a todos da sua razão. "Ainda bem que tenho a música a tocar...", pensei. Atrás dele, outro homem, também de auscultadores nos ouvidos, parecia achar piada ao que o velhote falava. A certa altura tirou um dos auscultadores do ouvido, deixando-o livre para escutar o orador. Este, deve ter percebido o interesse do seu vizinho de trás e repetidamente se virava para ele, a confirmar que o interesse no que ele falava se mantinha. O vizinho, rebolava os olhos de contentamento pela dissertação do velhote, disfarçava o riso e acenava "sim senhor" com a cabeça, dando gás ao falador para continuar.

De que se queixava? Dos Árabes e do Obama, do Beitar ou do Maccabi, da crise e dos preços no shuq, da mulher dele e dos vizinhos, das obras do metro em Jerusalém e dos atrasos nos autocarros. A mim, sem ouvir (e não lamento) o que o homem dizia, dava-me vontade de rir pela teatralidade da cena. Uma peça de mímica, ao vivo.

À chegada ao final da Rua Rei David, deixo o artista a falar sozinho. O bilhete de autocarro não inclui entretenimento a bordo e temo ter de, no final, pagar gorjeta ao artista. Sigo o resto do meu caminho a pé. Nas ruas pedonais do shopping Mamilla, no shuq árabe e na praça da Rova (o Bairro Judeu da Cidade Velha) também há animação.

No autocarro, no shuq ou na praça, sempre se encontra um velho cheio de histórias que insiste em partilhá-las para uma ocasional (real ou imaginária) audiência. Passo, olho, sorrio e continuo.

publicado por Boaz às 00:30
link do artigo | Comente | ver comentários (2) | favorito
Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Corrida aos bunkers


Entrada de um abrigo anti-aéreo na rua de uma cidade de Israel.

Esta semana, Israel organiza durante cinco dias um grande exercício de alerta e defesa da população civil. O maior da sua história, serão simulados cenários de ataques com mísseis do Hezbollah a partir do Líbano, rockets do Hamas a partir de Gaza, uma vaga de atentados, e cenários de guerra com a Síria e o Irão. Serão ensaiados procedimentos de segurança em caso de ataques com armas convencionais, mas também químicas e biológicas. Ou seja, o teatro do Apocalipse.

É o terceiro grande exercício do género desde o final da Segunda Guerra do Líbano em 2006, mas não é apenas um treino da população para a catástrofe. É também – talvez mais do que outra coisa – uma forma de mostrar aos inimigos de Israel, com o Irão e a Síria à cabeça, que o país está preparado para qualquer ocorrência. Amanhã, terça-feira, de manhã ocorrerá o ponto principal de toda a ação, quando as sirenes soarem em todo o país, um sinal alertando para a iminência dos ataques. A essa hora, toda a gente deve correr a refugiar-se nos abrigos, num tempo mínimo de três minutos.

Vêm aí os ayatollas!

Todas as casas e edifícios públicos em Israel são dotados de um abrigo de emergência, um verdadeiro bunker. Nos prédios de apartamentos, o piso mais abaixo é normalmente o escolhido. Porém, em Jerusalém, muitos prédios usam a enorme sala do abrigo como arrecadação da tralha de todos os moradores. A pequena probabilidade de um ataque com mísseis em Jerusalém – nenhum exército árabe quer arriscar-se a destruir a mesquita de Al-Aqsa, o terceiro local santo do Islão – deixa despreocupados os habitantes da cidade para este tipo de eventualidade.

No meu apartamento, situado na cave de uma casa maior, o quarto de casal é o bunker. Dotado de uma janela especial, com portas deslizantes de aço e um filtro na parede exterior, paredes maciças de betão armado – tão duras que foi um trabalhão conseguir furá-las para pendurar o espelho do quarto. Só a porta blindada é que não fecha, pelo simples facto de a ranhura da fechadura nunca ter sido aberta no arco da porta. Detalhe.

Este não é apenas o nosso bunker, mas também dos vizinhos de cima, os donos da casa. Amanhã, às 11 horas da manhã, a senhoria, junto com seu bebé de pouco mais de um mês, talvez apareça para "visitar" o abrigo. O marido deve fazer o exercício no trabalho e as filhas, na escola. Digo talvez porque nos últimos dias não recebemos nenhuma informação oficial do que fazer durante o exercício. Não temos televisão, por isso, apenas sabemos da informação que passou boca-em-boca ou escutámos ocasionalmente na rádio.

Apesar das repetitivas situações de emergência em Israel, não acredito que a maioria da população leve muito a sério este tipo de treino. Talvez até achem que tudo não passa de uma grande e cara palhaçada. Para Ahmadinejad ver. Tal como satirizou hoje um apresentador de rádio: "E se eu estiver na praia, como faço? Atiro-me ao mar e digo 'glu glu glu'?"

publicado por Boaz às 22:26
link do artigo | Comente | favorito
Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Uma bandeira num palito

Em Israel, ao contrário do que acontece em Portugal, a bandeira nacional é um objecto do quotidiano. Está em todo o lado. Um turista que chegue ao país depara-se, logo à saída do aeroporto de Tel Aviv, com dezenas de bandeiras que decoram a auto-estrada que conduz ao terminal. Em cada poste de iluminação pública, duas bandeiras. Os próprios postes já são construídos com um dispositivo colocado a meia altura que permite fixar as faixas. Na auto-estrada para Jerusalém – ou para qualquer outro lugar – contam-se milhares de ondulantes kahol ve’lavan, ou "azul e branco".

Nas semanas anteriores ao Dia da independência – comemorado este ano na última semana de Abril – vendedores de ocasião aproveitavam para ganhar uns trocos nos principais cruzamentos do país, vendendo pequenas bandeiras para colocar nos vidros dos automóveis. Sucesso (e dinheiro) garantido. Varandas, árvores, cercas e janelas das casas cobriram-se das cores nacionais.


Rua da colónia de Eli.

Ainda na pré-escola, as crianças aprendem uma alegre canção que as ajuda a identificar-se com a bandeira nacional: Ha'deguel sheli hu kahol ve'lavan!... (A minha bandeira é azul e branca!...). Os símbolos nacionais não são rodeados de um tabu como em Portugal e outros países. Aqui, a bandeira e o escudo com as insígnias do Estado de Israel são usadas numa enorme parafernália de objectos turísticos: postais, borrachas e lápis (com a consequente "extinção" da bandeira por via do uso), T-shirts ou até chinelos de praia. Abrenúncio, sujar a bandeira das quinas com o pó da rua!

A paixão e ostentação da bandeira é um fenómeno que em Israel dura o ano inteiro. Não é uma febre passageira dependente do feriado da Independência – ainda que tenha o seu pico nesta época. Em Portugal, apenas me lembro de uma febre destas por alturas do Euro’2004 quando o treinador Scolari apelou aos portugueses para cobrirem o país de vermelho e verde. O apelo de Scolari – foi preciso um brasileiro para apelar à paixão lusitana – foi um sucesso. Em especial para os supermercados. Algumas bandeiras mantiveram-se nas casas, mas com o distanciar da festa e as agruras dos elementos, poucas sobreviveram ao primeiro Inverno.

Eu, que nunca fui muito dado a clubismos e nacionalismos e que, em 2004 apenas pela emoção das vitórias da equipa portuguesa segui o rebanho dos decoradores de janelas com a bandeira das quinas, não decorei este ano a janela de casa com a "azul e branco". Porém, alguns dias antes do Dia da Independência, a caminho da yeshiva encontrei uma pequena bandeira num palito, caída no chão. Coloquei-a no fecho da minha mochila.

Só durou uma tarde, até um menino atrevido a ter topado no autocarro. "Posso?", perguntou ele, cobiçando a minha bandeira-miniatura. "OK…" deixando-o tirá-la e brincar com ela. A mãe não ficou muito entusiasmada e alguns minutos depois, farto de girar e balançar a bandeirinha no seu micro-mastro, o miúdo devolveu-a ao seu lugar no fecho da mochila. Desajeitado, partiu o palito que a sustentava. Guardei os despojos da mini kahol ve’lavan e em casa deitei-os no lixo.

Naquele final de tarde, enquanto viajava de autocarro para Gilo, a fim de chegar ao cruzamento onde costumo pedir boleia para Alon Shevut, observei os bairros árabes de Beit Safafa e Sharafat, que ladeiam a grande subida de Gilo. Nem uma bandeira de Israel.

Ali, as cores e as bandeiras serão outras, mas também não serão as verdes do Hamas. As fidelidades dos habitantes locais estão – secretamente – divididas. As sondagens efectuadas nas comunidades árabes de Israel demonstram que apesar de a maioria se sentir descriminada de alguma maneira pelo Estado, ainda assim a grande maioria prefere viver em Israel do que em qualquer outro país. Se existe algum apreço pela nação onde vivem, nenhum o declara. Nos bairros árabes, as paredes têm ainda mais ouvidos.

Nos últimos dias, uma nova bandeira tomou conta dos postes de iluminação pública em Jerusalém: a "branco e dourado", do Vaticano. A próxima visita do Papa à Terra Santa é a razão para a nova decoração das ruas. (Ah, os condutores já começam a perguntar quando chega o apifior – papa, em hebraico. Prevêem-se engarrafamentos monumentais numa cidade complicada até nos dias normais.) E quando o visitante for embora, as bandeiras vaticanas serão rapidamente substituídas por mais uma dose de "azul e branco". Até à visita do próximo VIP.

publicado por Boaz às 00:35
link do artigo | Comente | favorito
Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2009

Três vidas novas

O nascimento de um filho, ainda mais o primeiro, é um dos mais emocionantes momentos da vida. Por mais que a ciência explique, por mais que se estude a química e a biologia da concepção e da gestação, ainda sobram os mistérios e a aura milagrosa que rodeia aquele momento. Como é possível que, naqueles instantes saia da barriga de uma mulher, uma nova vida? Ao mesmo tempo independente e única, mas também absolutamente dependente da ajuda dos pais, em especial da mãe...

A tradição judaica diz que, durante o tempo da gravidez um bebé aprende toda a Torá. Prestes a sair, um anjo coloca um dedo sobre a sua boca – daí vem a covinha entre o nariz e os lábios – e o bebé torna-se incapaz de relatar tudo o que estudou. Cabe-lhe ao longo da vida recuperar tudo o que estudou durante a sua estadia no útero materno. Talvez seja esse ambiente de santidade intra-uterina que torne tão milagroso o período da gravidez e tão sublime o acto do nascimento.

O nome de uma criança não é apenas uma marca de assinatura. Para uma criança judia, é um título para os seus preceitos. Considera-se que os pais têm, na altura da escolha do nome, uma certa capacidade profética e que o nome é uma projecção do futuro do seu novo filho.

Hoje, são três vidas novas que começam. A minha, a da minha esposa e a da minha filha. A partir de hoje, eu sou – também e, creio que acima de tudo o resto – pai.

publicado por Boaz às 20:20
link do artigo | Comente | ver comentários (6) | favorito
Terça-feira, 6 de Janeiro de 2009

Quando é que o "aba" regressa?

Numa altura em que o país está em guerra, milhares de famílias em Israel estão suspensas pelas notícias. Não apenas por uma razão de solidariedade e preocupação nacional – somente nestas situações extremas o país consegue unir-se, ultrapassando as profundas marcas da crónica desunião da sociedade israelita. O foco das atenções é dirigido aos soldados que estão destacados em Gaza.

A calma nota-se, mas não deixa de ser aparente. Tudo funciona como numa época normal. E a maioria das notícias é positiva para o lado de Israel. Até ver... Porém, pais, esposas e filhos esperam ansiosos por notícias dos milhares de destacados para a frente de combate em Gaza, ou chamados para o serviço militar especial na fronteira com o Líbano e a Síria. Toda a gente conhece alguém que esteja neste momento em Gaza ou numa das fronteiras que, a qualquer momento, poderá tornar-se uma nova frente de batalha. (O Hezbollah deve estar neste momento a fazer as contas do que estará disposto a perder e a ganhar se entrar em guerra com Israel.)

As crianças são as que mais sentem a falta dos pais. Nervosas com a anormal ausência do papá, sobressaltam-se de cada vez que ouvem passos nas escadas ou alguém que toca à campainha da porta. "É o aba!" (É o pai!).

O rabino director do programa dos alunos sul-americanos da Yeshivat HaKotel ligou para o aluno encarregado do grupo, pediu-lhe para que todos ajudarmos a sua esposa o mais que pudermos, enquanto ele estiver de serviço no Golan.

Posso dar graças a Deus por saber que os meus filhos e a minha esposa não passarão por este tipo de ansiedade. Por ter feito aliyá (imigração para Israel) já depois da idade de 30 anos, não precisei de fazer o serviço militar. Apenas imagino o temor dos filhos e das esposas dos meus compatriotas soldados.

publicado por Boaz às 21:38
link do artigo | Comente | ver comentários (5) | favorito
Segunda-feira, 5 de Janeiro de 2009

Um dia normal... e a guerra ao longe

A vida segue normal, dentro do possível em Israel. Nas orações da manhã, em todas as sinagogas de Israel, salmos especiais são ditos pelos soldados que combatem no sul. Na viagem à boleia, a caminho da yeshiva, em Jerusalém, escuto com atenção as notícias na rádio. Na volta, ao início da noite, a mesma coisa. Fora do bulício de Jerusalém, de vez em quando, é possível escutar os helicópteros de vigilância. Mais soldados são levados para a região de Gaza.

Em Jerusalém, a guerra é "lá longe". Não que Israel seja um país grande – é menor que o Alentejo. Gaza fica a menos de duas horas da capital, mas é suficientemente longe para a tranquilidade ser aqui, praticamente absoluta.

De manhã, passo por jovens árabes de Jerusalém nas suas aulas de condução, na estrada de Hebron. O comum israelita espera pelo autocarro na paragem, como todos os dias. Os autocarros andam cheios. Notam-se mais polícias e soldados nas ruas. Não é nada que não tenha visto anteriormente. Na yeshiva, um aluno armado guarda a entrada - como vem sendo a norma desde há alguns meses (desde o atentado terrorista na yeshiva de Mercaz Harav).

À chegada, soube que o rabino brasileiro director do programa dos alunos sul-americanos foi chamado esta semana para miluim, o serviço de preparação periódica do Exército ao qual estão obrigados os ex-soldados, até aos 40 e poucos anos. Deixou em casa a mulher e o filho de dois anos. Está no gelado Monte Hermon, nos Golã, junto à fronteira síria. Esperemos que a Síria e o Hezbollah no Líbano, ali ao lado, não reservem surpresas nesta altura.

A meio da manhã, uma aula especial do Rosh Yeshivá, o director da yeshivá. Falou da importância do estudo de Torá nesta altura difícil para Israel. Os ânimos são altos. Milhares de famílias têm os filhos em Gaza. No entanto, há confiança entre os israelitas, apesar da situação difícil em Sderot, Beersheva, Ashdod e Ashkelon. E há união, num país normalmente tão dividido. Os jornais, tanto da esquerda como da direita, mostram-se ao lado da operação do Exército e da decisão do governo.

Permitam-me não pensar em Gaza, excepto nos soldados israelitas que lá estão a lutar contra o terror do Hamas. Há várias centenas de milhões de árabes e milhares de europeus eriçados a preocupar-se e a manifestarem-se pelos habitantes de Gaza. Deixem-me pensar nos israelitas que vivem nas cidades próximas da Faixa.

PS – A vida segue normal, dentro da anormalidade das notícias. A aproximação da chegada do bebé é a única coisa extraordinária no nosso quotidiano familiar. Hoje comprámos os lençóis do berço, as primeiras fraldas e o champô com que tomará os primeiros banhos.

publicado por Boaz às 00:30
link do artigo | Comente | ver comentários (2) | favorito
Sexta-feira, 12 de Dezembro de 2008

Nem para me coçar

Os dias continuam com 24 horas e isso significa que eu não tenho tempo para tudo. (Eu sei, não sou a primeira pessoa no mundo a queixar-se com falta de tempo). Tanta coisa para fazer...

Empacotar a casa para a mudar de sítio (são só uns 500 metros de distância, mas não dá para levar tudo nos bolsos). Escolher algumas mobílias, como o roupeiro do quarto e as estantes da sala, que a casa nova não tem... e não é nada prático manter a biblioteca em caixotes e a roupa em malas de viagem. Já nos estamos a preparar para a chegada do herdeiro da fortuna (Oh, oh!) e daí que já passámos horas e horas em lojas a escolher o carrinho de bebé, a banheira, as chupetas e a infinidade de coisas que um bebé precisa.

O e-mail de Dvar Torá da Yeshivat Hakotel vai de vento em popa. E como eu, além de escritor quinzenal do texto de Ética Judaica, sou o revisor, editor, montador de texto e a pessoa que carrega no botãozinho de "Enviar", todas as semanas... não me tem faltado trabalho. Agora até já tem uma versão em espanhol e por este andar, a coisa não vai ficar por aqui. Leitores de língua albanesa e cambodjana, preparem as caixas de correio electrónico!

O que sobra? Pouco, daí que apareça pouco por estas bandas para escrever mais uns artigos. Tenho vários na forja mas, como já dei a entender, o tempo não dá para tudo. Já entendi, a solução é dormir menos e correr mais. Vou tentar.

PS - Este artigo foi só mesmo para aliviar um pouco a pressão... Vai tudo bem. Tirando uma dorzinha de dentes, mas isso também passa.

publicado por Boaz às 02:00
link do artigo | Comente | ver comentários (4) | favorito
Quinta-feira, 6 de Novembro de 2008

Normalidade

Eleições nos Estados Unidos. Tragédia (ou apenas continuação dela) no Congo. Descalabro das bolsas um pouco por todo o Mundo. Estes são os assuntos de hoje. De há várias semanas e, no caso das eleições americanas, a novela das 8 dos últimos meses. De Israel, já mal se fala. Talvez ainda se oiça, de quando em vez sobre a Ministra dos Negócios Estrangeiros Tzipi Livni, entretanto chegada a Primeira-ministra. Mas mais em nota de rodapé que em peça de noticiário.

É um dos sinais da normalidade que se vive por aqui. É certo que em muitos aspectos, a situação em Israel não mudou. A questão com os palestinianos continua na mesma: Gaza é o covil da matilha do Hamas e as cidades palestinianas da Cisjordânia são o arquipélago da desgraça que é o governo da Fatah. O soldado israelita Gilad Shalit continua sequestrado em Gaza (desde 25 de Junho de 2006) e não há perspectivas concretas para o seu resgate com vida. Como escreveu o Rei Salomão: "Não há nada de novo debaixo do Sol."

Porém, em muitos outros aspectos, a situação aproxima-se da de um país normal. Na rádio, para lá das histórias das novelas políticas, normais em todos os Estados, ainda mais com a aproximação das eleições municipais, fala-se sobretudo dos acidentes de trânsito. As histórias de arrepiar os cabelos dos atentados terroristas tão frequentes até há 3 anos, foram substituídas por contos sobre os mortos na estrada. Todos os dias, 2, 3, 5 pessoas morrem nas estradas de Israel e os media transmitem os berros dos familiares enlutados. De fazer chorar as pedras da calçada. Anúncios "choque" na rádio (eu não vejo TV, por isso não sei o que lá se mostra, mas imagino que a moda seja a mesma) alertam para os perigos da estrada.

Desvio de foco

Tão normal é o quotidiano local, que até as grandes cadeias de comunicação internacionais – até há pouco observavam com olhos de falcão o que aqui se passa – se aperceberam da actual "pobreza noticiosa" israelita. Isso não significa que por cá não aconteçam coisas importantes. Se por um lado, muito daquilo que era mostrado pelos media, em vez de se ter resolvido simplesmente passou a ser ignorado, de tão "gasta" que estava a história. Por outro lado, há fatalidades mais interessantes para encher jornais e noticiários.

Uma das consequências foi a redução acentuada do staff das representações de jornalistas estrangeiros. BBC, CNN, NBC e a maioria dos grandes canais de televisão mandaram uma boa parte dos seus antigos correspondentes para outras paragens mais interessantes: Iraque, África, Rússia, China.

Pela primeira vez em muitos anos, Israel não está no centro das atenções. Isso parece ser bom.

publicado por Boaz às 22:00
link do artigo | Comente | favorito
Sábado, 4 de Outubro de 2008

Manter a calma

Há dias, a boleia matinal que consegui apanhar para chegar a Jerusalém, deixou-me no bairro de Talpiyot, a sul da capital. Apeei-me antes da zona dos centros comerciais e fui esperar pelo autocarro numa paragem na Estrada de Hebron, a principal avenida do bairro, que liga o sul ao centro da Cidade Santa.

Pouco depois de ter chegado, senti uma palmada nas costas. Nada de muito violento, estilo palmadinha de amigo. Virei-me de imediato, pensando que iria encontrar algum conhecido. Um sujeito totalmente estranho, perguntou-me com ar um levemente provocatório: "Atá coess alai?" (Estás chateado comigo?) Vi que o fulano tinha problemas... Respondi calmamente: "Não, não estou chateado. O que aconteceu?" Toda a situação foi um pouco surreal. Acabou por me fazer rir. Longe dos seus olhos, não fosse o homem ficar ofendido e querer oferecer-me outra palmada, desta vez menos amigável...

O tipo acabou por ter sorte em ter dado as palmadinhas em alguém calmo e "boa onda" como eu. Se tivesse escolhido o típico israelita, poderia ter tido uma resposta menos serena. O israelita comum é agitado, nervoso, fala alto e não evita qualquer oportunidade para responder a uma provocação.

Isso traduz-se em discussões por verdadeiras miudezas: no supermercado, no autocarro, na repartição pública, na espera que o semáforo mude para verde ao atravessar a rua, e especialmente, no trânsito. O uso permanente da buzina, o pé pesado no acelerador, o esbracejar quando a fila não anda e a pressa exige rapidez. Todas estas são expressões diárias desse nervosismo natural do israelita. A histórica situação de conflito e a instabilidade política também influenciam o estado de espírito normalmente agitado.

Quem vem pela primeira vez a Israel ou conhece o seu primeiro israelita, fica com a sensação de ser um povo um pouco impaciente, rude até. É só impressão. Os israelitas usam uma metáfora para descreverem esse modo peculiar de ser. Chamam-se a si mesmos de sabra, o cacto do deserto. Tal como os frutos do cacto, os israelitas são normalmente espinhosos por fora e doces por dentro.

publicado por Boaz às 21:37
link do artigo | Comente | ver comentários (1) | favorito

.Sobre o autor


Página Pessoal
Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


Envie comentários, sugestões e críticas para:
Correio do Clara Mente

.Pesquisar no blog

Este blog está registado
IBSN: Internet Blog Serial Number 1-613-12-5771

É proibido o uso de conteúdos sem autorização

.Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

.Ligações

.Visitantes

Jewish Bloggers
Powered By Ringsurf

.Arquivos

. Maio 2014

. Março 2013

. Novembro 2012

. Julho 2012

. Junho 2012

. Abril 2012

. Março 2012

. Fevereiro 2012

. Dezembro 2011

. Novembro 2011

. Setembro 2011

. Agosto 2011

. Julho 2011

. Junho 2011

. Março 2011

. Fevereiro 2011

. Janeiro 2011

. Dezembro 2010

. Novembro 2010

. Outubro 2010

. Setembro 2010

. Agosto 2010

. Julho 2010

. Maio 2010

. Abril 2010

. Março 2010

. Fevereiro 2010

. Janeiro 2010

. Dezembro 2009

. Novembro 2009

. Outubro 2009

. Setembro 2009

. Agosto 2009

. Julho 2009

. Junho 2009

. Maio 2009

. Abril 2009

. Março 2009

. Fevereiro 2009

. Janeiro 2009

. Dezembro 2008

. Novembro 2008

. Outubro 2008

. Setembro 2008

. Agosto 2008

. Julho 2008

. Junho 2008

. Maio 2008

. Abril 2008

. Março 2008

. Fevereiro 2008

. Janeiro 2008

. Dezembro 2007

. Novembro 2007

. Outubro 2007

. Setembro 2007

. Agosto 2007

. Julho 2007

. Junho 2007

. Maio 2007

. Abril 2007

. Março 2007

. Fevereiro 2007

. Janeiro 2007

. Dezembro 2006

. Novembro 2006

. Outubro 2006

. Setembro 2006

. Agosto 2006

. Julho 2006

. Junho 2006

. Maio 2006

. Abril 2006

. Março 2006

. Fevereiro 2006

. Janeiro 2006

. Dezembro 2005

. Novembro 2005

. Outubro 2005

. Setembro 2005

. Agosto 2005

. Julho 2005

. Junho 2005

. Maio 2005

. Abril 2005

. Março 2005

. Fevereiro 2005

. Janeiro 2005

. Dezembro 2004

. Novembro 2004

. Outubro 2004

.subscrever feeds

Partilhar