Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Passerelle de Jerusalém

Na maior parte das sociedades que integram o chamado Mundo Ocidental, seguidoras fiéis das regras da moda que mudam a cada estação, quase todas as pessoas se vestem de forma idêntica. Apesar da abundância de estilos, de preços e marcas, a roupa não será um ponto central na identificação das pessoas. Tirando talvez os integrantes das consideradas "sub-culturas".

Pelo contrário, em Israel, a maneira de vestir pode dizer muito mais sobre uma pessoa do que somente o seu lado estético. Em muitos casos, as mudanças sazonais das passerelles de Paris, Milão ou Nova Iorque não afetam minimamente os roupeiros locais. Obviamente, esta regra não inclui os habitantes seculares. Atentos às modas mundiais, estes vestem-se como qualquer pessoa (dita) moderna em qualquer lugar do mundo. As lojas das grandes marcas internacionais estão presentes nos centros comerciais das principais cidades e as marcas locais seguem as tendências ditadas pelos gurus da moda.

Entre as 613 mitzvot (mandamentos) da Torá encontram-se algumas sobre a forma de vestir. Desde a proibição de uso de shaatnez – a mistura de lã e linho num mesmo tecido, que era exclusiva para as roupas sacerdotais; à obrigação de todas as peças de vestuário masculinas com quatro cantos terem tzitzit– uns fios presos nos cantos da roupa com uma série de nós. Vagamente, é mencionada a obrigação das mulheres casadas cobrirem o cabelo. O valor do recato das mulheres é citado em vários versículos por todas as Escrituras.


Haredi reza no Muro Ocidental, com shtreimel,
o estimado chapéu de pele usado por algumas correntes hassídicas no Shabbat e Festas.

As peças de vestuário que mais servem de identificação em Israel são as coberturas de cabeça. Kipáou chapéu para os homens. Lenço, chapéu ou peruca para as mulheres. Em cada um destes elementos, há inúmeras variações que, para os conhecedores são quase um cartão de apresentação pessoal e um símbolo de identificação ideológica. Curiosamente, ainda que seja um dos mais reconhecidos símbolos judaicos, não existe nas Escrituras e nas fontes antigas da Lei Judaica qualquer menção à obrigação de os homens cobrirem a cabeça permanentemente. Porém, nas fontes haláchicas mais recentes, este costume passou a obrigação.

De acordo com a tradição judaica atual, um homem judeu que não cobre a cabeça fora da sinagoga, declara-se dessa forma como "não religioso". Pode ser que seja o chamado massorati, o tradicionalista que cumpre Shabbat e Cashrut (as regras alimentares judaicas), mas que não se integra na maioria das regras da "ortodoxia". Para ele o uso da kipáestará reservado às rezas na sinagoga e às refeições festivas.

O estilo da kipá pode definir a aderência a uma ou outra ideologia política ou corrente religiosa. As kipot tricotadas identificam os sionistas religiosos ou ortodoxos modernos. As kipot de tecido preto, os ultra-ortodoxos. Se forem de pano liso, divididas em seis "gomos", indicarão os adeptos da corrente Chabad; em veludo, outras corrente hassídicas. As kipot tricotadas de grande tamanho são emblemas dos judeus mais nacionalistas, residentes em alguns colonatos específicos na Judeia e Samaria. Se forem parecidas com um gorro e com um pompom no topo, as kipot tricotadas identificam os fiéis (ou meros simpatizantes) do místico rabino hassídico do século XVIII, Nachman de Breslev. Muitas das kippot dos "Nachmans" têm bordado o mantra do grupo: "Na Nach Nachma Nachman MeUman". Todavia, a identificação através da kipánão é 100% garantida, já que alguns homens usam modelos normalmente usadas por membros de outras correntes. Por vezes, por uma questão de “moda”.

Os ortodoxos modernos vestem-se praticamente como qualquer pessoa em outras sociedades ocidentais. Porém, ainda que seguindo em certa medida as regras da moda, elas são combinadas com os preceitos judaicos. Ao contrário, os homens ultra-ortodoxos vestem-se invariavelmente de branco e preto. Branco para as camisas. Preto para o resto do roupeiro. Os chapéus negros são outros elementos de identificação entre as várias escolas do judaísmo ultra-ortodoxo. Existem dezenas de modelos, alguns com pequenas diferenças entre si, que somente um especialista em indumentária hassídica saberá distinguir. Os partidários da corrente Chabad usam o fedora, um modelo de chapéu popular na Europa no início do século XX, usado pelos seguidores desta corrente hassídica desde que o seu último Rebbe (o líder espiritual Chabad) adotou esse modelo de chapéu.

Ao contrário de muitas outras correntes do Judaísmo hassídico, os judeus Chabad não usam os chapéus de pele nos dias festivos. Estes chapéus – chamados em íidiche shtreimel ou spodik, conforme os modelos – são altamente apreciados pelos judeus hassídicos. Em geral, o primeiro shtreimel é usado no dia do casamento, oferecido pela família da noiva. Em algumas escolas hassídicas, os rapazes começam a usar shtreimeldesde a cerimónia de Bar Mitzvá, aos 13 anos, quando atingem a maioridade religiosa.

Feitos com a pele de coelho, marta, arminho ou cauda de raposa, podem custar vários milhares de dólares. Há poucos meses, o governo de Israel decidiu banir a importação de peles, consciente da crueldade a que são sujeitos os animais criados para a indústria de peles. Porém, a lei manteve uma cláusula de excepção para as peles usadas nos shtreimels. Houve agitação entre as hostes hassídicas perante a possibilidade de ser banido o seu estimado costume peludo. Todavia, existem hoje alternativas em pele sintética que custam somente algumas centenas de dólares. Poupa-se no chapéu e no sofrimento animal.

Em conjunto com os seus chapéus negros ou shtreimels, os judeus hassídicos usam largas capotas negras. Tal como os chapéus de pele, eram um vestuário típico no clima agreste Europa Oriental, parecendo totalmente deslocados do calor estival de Israel. Os modelos usados nos dias da semana são austeros e lisos, enquanto os de Shabbat podem ter belos padrões. Alguns Rebbes hassídicos, respeitados como soberanos absolutos, costumam usar magestosas capotas bordadas com motivos dourados.

A maior parte destes elementos do vestuário dos judeus ultra-ortodoxos aplicam-se tanto aos adultos como aos rapazes, que desde tenra idade começam a vestir-se como os seus pais, das capotas aos chapéus negros. A indumentária hassídica, é marcada pela aderência estrita às regras da modéstia, excluindo as cores vistosas. Porém, honestamente, é difícil parecer modesto quando se ostenta um enorme chapéu de pêlo valendo centenas ou milhares de dólares e uma longa capota, ainda que seja de austera cor negra.

Entre as mulheres judias, existem as mesmas diferenças de vestuário, de acordo com o nível de religiosidade e a corrente judaica a que pertencem. Não é costume uma mulher religiosa usar calças, consideradas vestuário exclusivamente masculino. Ainda assim, nos últimos anos surgiram modelos de calças de modelos folgados, adotados por algumas mulheres mais liberais dentro da ortodoxia.

De acordo com a Lei Judaica, uma mulher casada deve cobrir o cabelo. O espectro da cobertura de cabeça feminina vai dos lenços às perucas, passando por uma grande variedade de barretes e chapéus. As mulheres sionistas religiosas (ou da ortodoxia moderna) são as que cobrem a cabeça com a maior variedade de estilos. Algumas usam apenas uma bandana que deixa a maior parte do cabelo descoberto. As residentes em alguns colonatos da Judeia e Samaria – esposas e mães dos tais homens de largas kipottricotadas – usam vistosos lenços amarados das mais diversas formas. Algumas combinam vários lenços entrelaçados, construindo turbantes que variam entre a elegância alegre e o absurdo carnavalesco.

Entre as mulheres ultra-ortodoxas, as seguidoras do movimento Chabad destacam-se por cobrirem a cabeça somente com perucas. Noutras correntes chassídicas são comuns as toucas, algumas de modelos medonhos. Algumas mulheres casadas, mais jovens ou mais modernas, combinam com elegância a peruca com um pequeno barrete. É bem provável que Israel seja hoje o maior mercado mundial de perucas femininas e chapéus masculinos.

Entre os árabes, a forma de vestir também é um símbolo da sua religiosidade. Em termos de vestuário, os cristãos são indistintos dos judeus não-religiosos. Ainda assim, por uma tradição do Médio Oriente, não é costume ver uma mulher árabe, mesmo não-muçulmana, com um decote pronunciado ou uma micro-saia. Os homens muçulmanos vestem-se maioritariamente como qualquer homem moderno. Somente entre os mais velhos, ou os mais tradicionalistas, alguns usam abayas, as túnicas brancas, cinzentas ou castanhas típicas da Arábia e cobrem a cabeça com um barrete (muito parecido com uma kipá branca tricotada) ou o keffiyeh, o lenço típico dos beduínos do deserto popularizado por Arafat. Uma moda entre os jovens árabes é o uso de quantidades industriais de gel no cabelo, para manter impecáveis os seus penteados estranhos.

Os hijabs, lenços usados pelas mulheres e raparigas muçulmanas que cobrem o cabelo, tendem a ser coloridos, com lantejoulas ou bordados. Muitas famílias tradicionais muçulmanas começam a cobrir o cabelo das filhas assim que atingem a puberdade, ou ainda antes. Apesar de ocultarem a maior parte do corpo, muitas mulheres muçulmanas religiosas usam calças, por vezes justíssimas. As mais modestas usam casacos enormes, até aos pés, mesmo no Verão. E, o que os homens árabes exageram no uso de gel de cabelo, as suas mulheres exageram na maquilhagem. Contradições das leis do recato.

Em Israel, e mesmo nos Territórios Palestinianos, é muito raro encontrar mulheres completamente cobertas com o niqab, o véu islâmico que deixa apenas os olhos à mostra. Apesar das manifestações de fanatismo islâmico entre os Palestinianos, estes contam-se entre os muçulmanos mais seculares do Médio Oriente. A cultura ocidental também se manifesta na sociedade islâmica e, apesar dos movimentos que tentam evitar essa crescente influência, hoje em dia muitas jovens muçulmanas já dispensam o uso do véu e da túnica, vestindo-se ao estilo ocidental.

Quem visite Israel poderá encontrar toda a espécie de estilos e tendências de vestuário. Em cidades como Jerusalém ou Haifa, onde se misturam judeus e árabes, religiosos e seculares, a variedade nas formas de vestir dos residentes despertam a curiosidade dos turistas. Decidi escrever este artigo depois de verificar como algumas pessoas chegam ao Clara Mente. Quase todas as semanas, alguém procura em algum motor de busca da Internet pela expressão "O que vestir em Jerusalém". Os turistas portugueses podem usar as roupas da mesma estação que usam em Portugal. Aqui em Israel, o Verão também é quente (por vezes, muito quente) e o Inverno é ameno na costa e mais agreste nas montanhas, como em Portugal.

Espero que os leitores tenham entendido que podem vestir o que quiserem. Apenas tenham atenção ao visitarem um bairro ortodoxo como Mea Shearim, em Jerusalém, onde grandes letreiros em hebraico e inglês pedem para o respeito das regras da modéstia dos residentes. Estão avisados.

publicado por Boaz às 21:55
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Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

Espanhóis vs. Alemães

Os Judeus, apesar do seu pequeno número em relação à população mundial – algo como 0,2% da humanidade –, são bastante variados em termos de costumes. Aquilo que em hebraico se chama min’hag. Tradicionalmente dividem-se em sefarditas e askenazitas. Os primeiros são provenientes da Península Ibérica (Sefarad em hebraico, que ainda hoje é também o nome para Espanha) e dos países árabes. Os segundos são descendentes das comunidades do Vale do Reno, na Alemanha (Ashkenaz em hebraico, ainda que hoje se lhe chame Guermânia) e da Europa Oriental. Além destes, ainda há alguns pequenos grupos como os judeus Italianos e os Iemenitas, que têm costumes muito próprios.


Minyan no Kotel. Onde se juntam todos os tipos de judeus.

A história de Sefarad fica marcada pela "Idade de Ouro do Judaísmo Espanhol" a qual produziu génios como Maimónides (o Rambam) e Nachmânides (o Ramban), o Cuzarí e dezenas de autores essenciais da filosofia e da literatura judaicas. Com a expulsão judaica dos reinos ibéricos, os sefarditas espalharam-se por grande parte do Mundo Judaico. Marrocos, Holanda, Itália, Grécia e o Império Otomano foram os principais destinos.

Com a descoberta do Novo Mundo em 1492 – o mesmo ano da Expulsão – e o início da colonização das Américas, judeus e "cristãos-novos" também se estabeleceram no Hemisfério Ocidental. A primeira sinagoga foi estabelecida por descendentes de Judeus portugueses na cidade brasileira de Recife, durante a ocupação holandesa. Após a reconquista da região pelos portugueses, os judeus escaparam para as Caraíbas (Curaçau, Barbados, Jamaica) e a recém-fundada Nova Amesterdão, que seria mais tarde Nova Iorque.

Em Portugal, Espanha e nas colónias – do México ao Brasil –, apesar da oficial Expulsão, nascia o fenómeno dos Marranos (Anussim, em hebraico). Judeus por dentro, cristãos por fora. Receosos da Inquisição sempre vigilante. As gerações passaram, a identidade foi-se perdendo aos poucos, mas mantiveram-se estranhos costumes como acender velas sexta-feira ao anoitecer, jejuar uma vez por ano no começo do Outono, limpar a casa e não comer nenhum alimento fermentado por voltas do início da Primavera. Para muitos, a origem destes costumes era desconhecida. Para outros, a alma e a identidade judaica, ainda que reprimidas, mantinham-se vivas. Em segredo.

Também na Europa Oriental a vida judaica era agitada de tempos a tempos por convulsões. Aí, o pensamento judaico tradicional dividia-se entre as linhas hassídicas com a sua forte componente mística e, em sua oposição, o racionalismo lituano fundador do moderno conceito da yeshivá, a academia rabínica. O liberalismo napoleónico promoveu aos poucos a integração dos Judeus à igualdade de cidadania. Ainda que a fera do anti-semitismo não tenha sido extinta pelo humanismo liberal. Dentro do próprio Judaísmo, a maior abertura social criou uma revolução. A Haskalá ou Iluminismo Judaico abriu caminho a um maior liberalismo na religião e mais tarde à fundação do movimento reformista.

No final do século XIX e no início do século XX, campanhas de massacres da população judaica às mãos de polacos, russos e dos cossacos ucranianos, levaram vários milhões de judeus askenazitas a todo o mundo anglo-saxónico. Hoje, eles são a imensa maioria dos judeus americanos, a maior comunidade da Diáspora Judaica. A liberdade americana fez florescer a comunidade judaica, atingindo um nível de desenvolvimento cultural e social nunca antes alcançado em qualquer outra etapa deste Exílio já bi-milenar.

Nas décadas de 1930-40, o Holocausto destruiu os maiores centros da vida judaica europeia. Por ter atingido em especial a Europa do Leste, a enorme maioria dos seis milhões de mortos judeus durante a Shoá eram askenazitas. Grupos hassídicos inteiros foram exterminados na voragem da ocupação nazi. Na mesma época, também importantes comunidades sefarditas como Salónica (Grécia), Sarajevo (Bósnia) e Amesterdão praticamente desapareceram.

Logo após a independência israelita em 1948, com uma crescente onda de anti-semitismo nos seus países de origem, mais de 800,000 judeus dos países árabes chegaram à Terra Santa. Até aos anos de 1990, antes da grande onda de imigrantes da ex-União Soviética que trouxe mais de um milhão de pessoas, os sefarditas compunham mais de 70% da população judaica do país. Hoje, a proporção entre as duas comunidades é praticamente idêntica, apenas com uma ligeira maioria de sefarditas. Porém, a nível mundial, a população judaica é maioritariamente de origem askenazi, numa proporção de 4 para 5.

Na sua versão moderna, o sionismo teve a origem no Leste Europeu. Os principais impulsionadores da ideia da fundação de um estado judeu na Terra de Israel eram askenazitas. Eles foram os pioneiros das comunidades coletivas locais, os kibbutzim e moshavim; fundadores das primeiras cidades judaicas da embrionária Israel e dos partidos políticos originais no país. Desde o início do Estado de Israel, a política tem sido dominada pelos askenazitas. Em 62 anos, todos os Primeiros-Ministros foram askenazitas. Entre os Presidentes da República, apenas dois eram sefarditas, Moshe Katzav, nascido no Irão, e Yitzhak Navon, descendente de uma família espanhola estabelecida em Jerusalém. Este desequilíbrio na esfera política levou à fundação do Partido Shas, dirigido pelo grande rabino Ovadia Yosef, é hoje o maior partido religioso em Israel e com uma crescente influência política, participando em todas as coligações de governo desde os anos de 1990.

A integração na moderna sociedade israelita de estilo marcadamente europeu, foi particularmente difícil para os judeus recém-chegados dos países árabes, provenientes de sociedades tradicionais. A maioria dos recém-chegados foi alojada em cidades de tendas construídas à pressa (as maabarot) ou insalubres "cidades de desenvolvimento" nas regiões periféricas de Israel. A ruptura com o seu modo de vida tradicional era evidente. Muitos haviam desfrutado de um elevado nível de vida nas suas terras de origem e na fuga à perseguição haviam perdido todos os seus bens. Viver em comunidades agrícolas também não foi bem sucedido, dado que nos países árabes os Judeus haviam sido mercadores e artesãos, e raramente se dedicavam à agricultura. Tal como acontecera com os Judeus na Europa medieval.

No novo país, composto por gente de tão variadas origens, recuperou-se a língua hebraica, a língua nativa dos Judeus. Usada durante os 2000 anos da Diáspora somente no âmbito religioso tornou-se o idioma da vida diária. Os askenazitas, falantes do yiddish, alemão, húngaro ou russo, contribuíram com a forma moderna do alfabeto. Os sefarditas, falantes do ladino, árabe, persa ou bukhari deram a sua pronúncia ao idioma moderno. Numa piada um pouco cínica, alguém definiu esta simbiose com a expressão bíblica "A mão de Esaú e a voz de Jacob".

Ainda hoje existe um certo sentimento de inferioridade dos judeus sefarditas em relação aos askenazitas. Todavia, a tendência parece visionar uma crescente influência dos sefarditas. A demografia joga a seu favor. Afinal, estes compõem a maioria dos judeus religiosos, que têm mais filhos que os seculares. Ainda que a face mais visível do judaísmo ortodoxo em Israel sejam os haredim askenazitas, notados pelas suas capotas negras e os shtreimels (chapéus de pêlo usados no Shabbat e dias festivos), estes são na verdade minoritários no panorama religioso em Israel. Por outro lado, os judeus tradicionalistas ou massoratim (não confundir com os adeptos do Movimento Masorti, uma denominação do Judaísmo Conservador) são parte de um fenómeno característico do público sefardita em Israel. Em geral, os askenazitas ou são ortodoxos ou declaradamente seculares. Esse "meio-termo entre a tradição e a modernidade" é a regra dos sefarditas não ortodoxos. E é raro encontrar um sefardita obstinadamente laico e totalmente ignorante da sua herança religiosa.

Mesmo na Diáspora, em países como o México, o Brasil, a França ou a Venezuela, as comunidades menos "assimiladas" são as sefarditas. Ao contrário, as comunidades askenazitas do mundo anglo-saxónico, com raras excepções, vão sendo dizimadas pelo fenómeno da assimilação e dos casamentos mistos. No moderno Estado de Israel, com a aliá de judeus de todos os cantos do planeta, realiza-se a profetizada kibbutz galuyot, a "reunião dos exilados" na Terra Prometida, o futuro parece antever um gradual atenuar das diferenças entre as diferentes comunidades judaicas.

Afinal, hoje em dia, é comum o casamento entre um homem sefardita e uma mulher askenazi. Ou o inverso. Ou até um homem louro de origem alemã com uma mulher etíope. A divisão askenazi/sefardita é um produto da Diáspora. O "novo judeu" – ideia romântica dos pioneiros sionistas inspirados em ideais socialistas –, é cada vez mais uma simbiose entre os costumes de ambos. Num exemplo caseiro, na mesa israelita é normal encontrar-se hoummous ao lado de gefilte fish. Afinal, pode dizer-se sem cair em sacrilégio que, tirando o toque especial da avozinha, seja ela húngara ou marroquina, cholent e dafina são basicamente a mesma coisa.

publicado por Boaz às 22:00
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Quinta-feira, 11 de Março de 2010

O legado dos Patriarcas nas mãos dos políticos

No dia 21 de Janeiro, o governo de Israel apresentou um plano de restauro do património nacional. Num país marcado pela história religiosa de Judeus, Cristãos e Muçulmanos, é óbvio que locais sagrados seriam incluídos no documento. Todavia, a lista não teria chegado às primeiras páginas dos jornais e levantado polémica – inclusive a nível internacional –, se não constassem locais nos chamados Territórios Palestinianos.

Kever Rachel, o túmulo da matriarca Raquel na entrada da cidade de Belém, e Maarat HaMachpelá, a Gruta dos Patriarcas em Hebron, são os pontos da polémica. Depois da divulgação da lista, ocorreram confrontos entre residentes árabes e o exército israelita que controla uma parte da cidade de Hebron.


Maarat HaMachpela
, a Gruta dos Patriarcas, em Hebron.
O local é partilhado por Judeus e Muçulmanos.
Uma multidão de peregrinos judeus espera para entrar na sala do túmulo de Isaac,
onde o acesso de Judeus é permitido apenas duas vezes por ano.

De acordo com a declaração do governo, uma das intenções ao formular esta lista é promover a preservação dos locais e permitir o acesso a pessoas de todas as religiões. "A nossa existência aqui, no nosso país, depende não apenas da força do Tzahal (Forças de Defesa de Israel) e do nosso poderio económico e tecnológico. Está ancorada, mais do que tudo, no nosso legado nacional e emocional, o qual nós inspiramos na nossa juventude e nas próximas gerações".

É evidente que a lista tem uma intenção política, mostrando o plano político de afirmar o controle israelita desses locais. Porém, existe também seriedade na decisão do governo de Israel em querer preservar património judaico em locais reclamados por Muçulmanos. A história deu a Israel, e aos Judeus em geral, provas evidentes do destino dos locais sagrados judaicos quando caem sob a tutela dos não-judeus, em especial dos poderes árabes.

Em 1994, quando foi instituída a Autoridade Nacional Palestiniana (ANP), Israel entregou à nova entidade o controlo da cidade de Jericó e da maioria da Faixa de Gaza. Em Jericó, logo após a transmissão de poderes para a ANP, polícias palestinianos subiram ao telhado da antiga sinagoga “Shalom al Israel” e ostentaram a bandeira palestiniana, num sinal de evidente desprezo pelo lugar. No ano 2000, com o estalar da segunda Intifada, livros sagrados e relíquias da sinagoga foram queimados, o antigo chão de mosaico destruído e o local foi transformado numa mesquita.

Em Shechem (Nablus), no mesmo dia da entrega da cidade à Autoridade Palestiniana, em 17 de Outubro de 2000, uma multidão de palestinianos saqueou o antigo túmulo de José, um dos filhos do patriarca Jacob, esmagando a cúpula com picaretas e ateando fogo ao santuário. Após o ataque, o exército de Israel proibiu o acesso ao local aos peregrinos judeus, por motivos de segurança. Alguns dias depois, iniciaram-se obras de reconstrução e as autoridades palestinianas proibiram os peregrinos judeus de rezarem no local, até que uma comissão internacional independente determinasse se o local era santo para Muçulmanos ou para Judeus. (Mas nunca para ambos?) Ainda assim, de forma clandestina alguns peregrinos atreviam-se, de tempos a tempos, a visitar o local.

Com o tempo o santuário foi sujeito a vários atos de vandalismo, tornando-se depósito de lixo e de queima de pneus. Em 2007, jovens palestinianos de novo encheram o local de pneus e atearam-lhes fogo. Em resposta, o líder palestiniano Mahmud Abbas declarou o túmulo local santo islâmico. (A santidade da terra queimada...) Esse novo estatuto não salvou o lugar da selvajaria e da profanação. Em Abril de 2009, a pedra tumular foi esmagada e suásticas pintadas nas paredes.

A ONU e a UNESCO protestaram imediatamente a inclusão do Túmulo de Raquel e da Gruta dos Patriarcas na recente lista israelita do património a preservar. Porém, nunca protestaram a sucessiva depredação do Túmulo de José nem o vandalismo em Jericó ou em dezenas de outros locais judaicos – antigas sinagogas e túmulos de personagens bíblicos – situados em áreas controladas pela Autoridade Palestiniana.

No entanto, não foi apenas às mãos dos palestinianos que o património judaico foi vandalizado e desprezado. No Iraque, outrora pátria de uma significativa comunidade judaica, o túmulo do profeta Yechezkel (Ezequiel) era local de peregrinação de Judeus, Cristãos e Muçulmanos. Durante séculos, o santuário esteve ao cuidado da numerosa comunidade judaica. Após a independência de Israel, em 1948, os judeus iraquianos foram alvo de campanhas de intimidação e a maioria abandonou o Iraque. O venerado túmulo do profeta foi caindo em ruína.

Recentemente, as autoridades iraquianas iniciaram obras no local com vista à sua preservação. Porém, inscrições em hebraico e outros sinais judaicos foram apagados. A intenção é transformar o túmulo numa mesquita. Outros milenares túmulos judaicos no Iraque, como os do profeta Jonas, de Ezra o Escriba e do Rei Tzidkiahu (Zedequias) poderão num futuro próximo ser alvo da islamização forçada.

A lista do património a defender pelo Estado de Israel levantou críticas entre alguns políticos muçulmanos. Uma das mais ofensivas foi a do PM turco, Recep Tayyip Erdogan. Um jornal saudita citou-o, dizendo que o Túmulo de Raquel e a Gruta dos Patriarcas "não foram e nunca serão locais judaicos, mas islâmicos".

Na verdade, o acesso à Gruta dos Patriarcas tem sido partilhado entre Judeus e Muçulmanos, já que estes reconhecem o local como a Mesquita de Al-Ibrahim. No caso de Kever Rachel, após mais de 1700 anos de reconhecimento como o túmulo da matriarca Raquel, no ano 2000, muçulmanos começaram a chamar o local como mesquita Bilal ibn Rabah. Desde então, a novíssima denominação muçulmana passou a integrar o discurso politico palestiniano.

A cínica ignorância histórica de Erdogan, um político considerado moderado, é apenas mais um episódio de uma sistemática campanha para tentar romper qualquer ligação dos Judeus à Terra de Israel e a Jerusalém. Para além de argumentos religiosos, históricos e políticos sobre o direito de controlo e preservação, ou no mínimo de acesso de peregrinos judeus aos locais sagrados judaicos na Judeia e Samaria, a situação no terreno desde os Acordos de Oslo tem mostrado que os Palestinianos não têm respeitado o seu compromisso de preservação e liberdade de acesso a estes locais de culto.

O Túmulo de Raquel, reconhecido como um santuário judaico por mais de 2000 anos, e como tal mencionado inclusive em abundante literatura islâmica, tornou-se um local disputado por reclamações recentes. Tal como fizeram em outras ocasiões, os Palestinianos usam reais ou imaginárias reclamações religiosas para conseguir capital político para a sua campanha nacional. Nos sermões dos políticos árabes e dos imãs muçulmanos, uma das novidades é insistir que até o antigo Templo de Salomão não foi construído em Jerusalém. Para estes arqueólogos e historiadores de quintal, o Templo afinal foi construído... no Iémen.

publicado por Boaz às 23:46
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Domingo, 26 de Julho de 2009

Raízes portuguesas no hino de Israel

O ministério da Educação de Israel, preocupado em incutir uma maior identificação com os símbolos nacionais nos estudantes do país, renovou o currículo sobre a história e o significado do Hatikvá, o hino nacional de Israel.

Para ser distribuído nas escolas seculares e religiosas do estado - mas não nas escolas ultra-ortodoxas e árabes, pouco recetivas àquilo que consideram "propaganda sionista" - a nova informação sobre o hino israelita deverá ser incorporada nas matérias das diferentes disciplinas. Novas pesquisas foram feitas sobre a origem da letra e da melodia do hino nacional israelita.

Até agora, era aceite que a melodia teria origem numa balada do folclore da Roménia. No entanto, foi descoberta uma fonte mais antiga, num texto de 1330 escrito com as anotações musicais da época, numa antiga sinagoga portuguesa.

Da próxima vez que cantar o hino de Israel vou tomar mais atenção à melodia. Talvez até consiga detectar nele algum tom de fado.

publicado por Boaz às 22:10
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Sexta-feira, 8 de Maio de 2009

Uma bandeira num palito

Em Israel, ao contrário do que acontece em Portugal, a bandeira nacional é um objecto do quotidiano. Está em todo o lado. Um turista que chegue ao país depara-se, logo à saída do aeroporto de Tel Aviv, com dezenas de bandeiras que decoram a auto-estrada que conduz ao terminal. Em cada poste de iluminação pública, duas bandeiras. Os próprios postes já são construídos com um dispositivo colocado a meia altura que permite fixar as faixas. Na auto-estrada para Jerusalém – ou para qualquer outro lugar – contam-se milhares de ondulantes kahol ve’lavan, ou "azul e branco".

Nas semanas anteriores ao Dia da independência – comemorado este ano na última semana de Abril – vendedores de ocasião aproveitavam para ganhar uns trocos nos principais cruzamentos do país, vendendo pequenas bandeiras para colocar nos vidros dos automóveis. Sucesso (e dinheiro) garantido. Varandas, árvores, cercas e janelas das casas cobriram-se das cores nacionais.


Rua da colónia de Eli.

Ainda na pré-escola, as crianças aprendem uma alegre canção que as ajuda a identificar-se com a bandeira nacional: Ha'deguel sheli hu kahol ve'lavan!... (A minha bandeira é azul e branca!...). Os símbolos nacionais não são rodeados de um tabu como em Portugal e outros países. Aqui, a bandeira e o escudo com as insígnias do Estado de Israel são usadas numa enorme parafernália de objectos turísticos: postais, borrachas e lápis (com a consequente "extinção" da bandeira por via do uso), T-shirts ou até chinelos de praia. Abrenúncio, sujar a bandeira das quinas com o pó da rua!

A paixão e ostentação da bandeira é um fenómeno que em Israel dura o ano inteiro. Não é uma febre passageira dependente do feriado da Independência – ainda que tenha o seu pico nesta época. Em Portugal, apenas me lembro de uma febre destas por alturas do Euro’2004 quando o treinador Scolari apelou aos portugueses para cobrirem o país de vermelho e verde. O apelo de Scolari – foi preciso um brasileiro para apelar à paixão lusitana – foi um sucesso. Em especial para os supermercados. Algumas bandeiras mantiveram-se nas casas, mas com o distanciar da festa e as agruras dos elementos, poucas sobreviveram ao primeiro Inverno.

Eu, que nunca fui muito dado a clubismos e nacionalismos e que, em 2004 apenas pela emoção das vitórias da equipa portuguesa segui o rebanho dos decoradores de janelas com a bandeira das quinas, não decorei este ano a janela de casa com a "azul e branco". Porém, alguns dias antes do Dia da Independência, a caminho da yeshiva encontrei uma pequena bandeira num palito, caída no chão. Coloquei-a no fecho da minha mochila.

Só durou uma tarde, até um menino atrevido a ter topado no autocarro. "Posso?", perguntou ele, cobiçando a minha bandeira-miniatura. "OK…" deixando-o tirá-la e brincar com ela. A mãe não ficou muito entusiasmada e alguns minutos depois, farto de girar e balançar a bandeirinha no seu micro-mastro, o miúdo devolveu-a ao seu lugar no fecho da mochila. Desajeitado, partiu o palito que a sustentava. Guardei os despojos da mini kahol ve’lavan e em casa deitei-os no lixo.

Naquele final de tarde, enquanto viajava de autocarro para Gilo, a fim de chegar ao cruzamento onde costumo pedir boleia para Alon Shevut, observei os bairros árabes de Beit Safafa e Sharafat, que ladeiam a grande subida de Gilo. Nem uma bandeira de Israel.

Ali, as cores e as bandeiras serão outras, mas também não serão as verdes do Hamas. As fidelidades dos habitantes locais estão – secretamente – divididas. As sondagens efectuadas nas comunidades árabes de Israel demonstram que apesar de a maioria se sentir descriminada de alguma maneira pelo Estado, ainda assim a grande maioria prefere viver em Israel do que em qualquer outro país. Se existe algum apreço pela nação onde vivem, nenhum o declara. Nos bairros árabes, as paredes têm ainda mais ouvidos.

Nos últimos dias, uma nova bandeira tomou conta dos postes de iluminação pública em Jerusalém: a "branco e dourado", do Vaticano. A próxima visita do Papa à Terra Santa é a razão para a nova decoração das ruas. (Ah, os condutores já começam a perguntar quando chega o apifior – papa, em hebraico. Prevêem-se engarrafamentos monumentais numa cidade complicada até nos dias normais.) E quando o visitante for embora, as bandeiras vaticanas serão rapidamente substituídas por mais uma dose de "azul e branco". Até à visita do próximo VIP.

publicado por Boaz às 00:35
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Terça-feira, 6 de Fevereiro de 2007

Hessed, Bondade

Este último Sábado estive com um grupo de cerca 25 estudantes estrangeiros da Yeshivat HaKotel em Bnei Brak, um subúrbio de Tel Aviv conhecido por ter a maior população haredi (ultra-ortodoxa) do Mundo.

A cidade, entalada entre auto-estradas que servem de fronteira entre as várias cidades-subúrbio, é recente. Não tem mais de 70 anos. A falta de espaço e a impossibilidade de expansão reflecte-se nas novas construções do sul da cidade. Ali, antigos edifícios foram deitados ao chão e construíram em seu lugar torres de mais de 20 andares para alojar uma população em crescimento rápido. No centro da cidade ainda se mantêm a regra dos prédios de 2 ou 3 andares, mas não creio que por muito tempo. A procura vai exigir que o camartelo avance também por lá nos próximos anos.

Os haredim são muito reservados no seu modo de vida e não é habitual encontrá-los em lugares onde se misturem muito com os pouco observantes. Bnei Brak e alguns bairros de Jerusalém acabam assim por versões modernas dos antigos shtetls, aldeias maioritariamente judaicas da Polónia e Rússia. Modernas, mas onde o modo de vida se mantém em muitos aspectos imutável ao longo das gerações.

Dois dos valores principais do Judaísmo, muito cultivados em Bnei Brak, apesar de ser a mais pobre de Israel, são tzedaka e hessed (leia-se o "H" como o "J" espanhol, aspirado, "jessed"). Tzedaka pode ser num sentido comum manifestada através da esmola. No entanto, é bem mais do que colocar algumas moedas numa qualquer caixinha de caridade - as quais abundam por toda a cidade, nos balcões das lojas, nas paragens de autocarro, nos sinais de trânsito, junto aos locais muito frequentados.

Hessed traduz-se por bondade ou rectidão. Receber os visitantes - ainda mais os que visitam a cidade para aí passar o Shabbat - é uma forma muito elevada de hessed. Eu e o resto do grupo tivemos a oportunidade de a experimentar em primeira-mão. Em primeiro lugar, ficámos alojados na casa de uma família que nos recebeu sabendo apenas que vínhamos da Yeshivat HaKotel de Jerusalém.

A casa era modesta e pequena, a família numerosa - eram pelo menos 10 filhos. Mas mesmo com as suas grandes limitações, receberam na sua casa 9 rapazes. Esperavam 12. Os dois quartos habitualmente ocupados pelos filhos mais pequenos foram-nos cedidos. À chegada, bolos e refrescos numa mesinha num dos quartos. Apesar de muito humilde, toda a família se esforçou por nos proporcionar o maior conforto e alegria.

Alguns vizinhos, já avisados da nossa visita, chegaram entretanto para convidar alguns do grupo para passarem as refeições com as suas famílias. Eu e Marcelo, um colega brasileiro, fomos com o primeiro dos vizinhos a chegar. Depois de uma breve visita à família fomos para a sinagoga.

Ali, fomos imediatamente detectados como sendo "de fora". Depois das orações de Kabbalat Shabbat (a Recepção do Shabbat) vários homens se acercaram de nós com a saudação "Bem-vindos" e querendo saber quem éramos. Chegámos até a ser convidados para passar o Shabbat com outra família além daquela a que estávamos destinados.

O facto do nascimento recente de mais um filho, não foi impedimento para a família em querer receber alguns dos visitantes. Mesmo muito pequenas, todas as crianças estavam já bem conscientes da importância de receber bem as visitas.

Um dos outros membros do grupo passou o almoço de Shabbat com o dono da casa onde todo o grupo passou a noite. Contou-nos depois o quanto se sentiu "incomodado" pela enorme generosidade dos anfitriões. Enquanto cada um dos membros da família recebeu uma pequena peça de carne, ele recebeu quase meio frango.

Terminados os almoços nas várias casas onde haviam sido repartidos, aos poucos foram chegando os restantes 8 estudantes. Rapidamente, o dono da casa fazia caber na pequena sala de jantar, já de si apinhada pela sua grande família, mais uma cadeira para que quem chegasse se juntasse à mesa. E mais comida era trazida. E entre a comida, o dono da casa, na sua imensa sabedoria, partilhava com todos algumas palavras da Torá. Os seus filhos mostravam-se honrados com a nossa presença e insistiam em que lhes ensinássemos algo, mesmo num hebraico ainda limitado.

No fim do Shabbat, já de regresso à yeshiva, discutimos sobre o enorme encargo que devemos ter sido para aquela modesta família. Imagino que passarão algumas dificuldades durante a semana, mas o Shabbat merece ser celebrado com a dignidade dos reis. E foi como reis, mais do que no mais sumptuoso dos palácios, que nos fizeram sentir.

Raramente vi tanta alegria autêntica no meio de tanta humildade. Dos casos que tenho próximos apenas posso compará-la à hospitalidade dos meus avós na sua modesta casa.

publicado por Boaz às 12:39
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Segunda-feira, 18 de Dezembro de 2006

Luz eterna

Durante os anos de domínio grego, o estudo da Torá foi proibido, para que, esquecendo a Torá, os Judeus deixassem de ser Judeus e aceitassem o domínio helénico, não só a nível político mas acima de tudo cultural e religioso. Após uma guerra em que um pequeno exército de judeus, comandados pelos famosos Macabeus, venceu o poderoso exército grego, o governo judaico foi restabelecido na Terra de Israel. Hannukiot, os candelabros de Hannukah. Yeshivat Hakotel, Cidade Velha de Jerusalém

Ao entrarem no templo profanado pelos Gregos, os Macabeus encontraram intacto apenas um pequeno jarro de azeite para acender o candelabro. Suficiente para um único dia de luz. Porém o azeite durou milagrosamente oito dias.


 

Hannukah significa inauguração. Os oito dias do "Festival das Luzes" que os Judeus celebram nesta altura lembram o milagre ocorrido no tempo dos Macabeus e a reinauguração do Templo de Jerusalém que havia sido profanado pelos invasores gregos, há mais de 2200 anos.

Os Gregos foram expulsos da Terra de Israel e o curso imparável da História reduziu o seu império a pó. Vieram os Romanos e a ruína acabou por tomar também conta de todo o seu fausto e poder. Como já haviam sido reduzidos os Egípcios, os Babilónicos e os Persas. Todos impérios poderosos. E depois deles, os impérios fundados pelos Cruzados, os Espanhóis, os Portugueses, os czares russos e os Nazis.

Apesar do seu poder e de todos terem lutado em enorme superioridade numérica contra os Judeus, a todos o Povo de Israel resistiu e sobreviveu.

Porque a luz sempre consegue vencer as trevas. Hannuka é a afirmação da certeza dessa vitória.

publicado por Boaz às 11:43
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Domingo, 2 de Outubro de 2005

Shana Tova - Feliz Ano Novo para...

Judeus Modernos, ultra ou apenas ortodoxos,
Judeus Haredim, Mitnagdim, Conservadores, Conservadoxos, Reformados & ConFormados,
Judeus Gartel e Judeus não-Gartel,
Judeus com sheitels & sem, Judeus Tichel,
Judeus Sheitel, tichel & com chapéu,
Adultos & crianças, Frum desde nascença, Baalei Teshuva, Satmar, Agudah,
De chapéu preto, kipa s'ruga,
Mir, Belz, Beta Yisrael, Bobov, Chaim Berlin, Yeshiva University,
Judeus de payos em frente da orelha, Judeus de payos atrás da orelha,
Judeus de kipa só na sinagoga / de chapéu na sinagoga / que nunca vão à sinagoga
Judeus Mizrachi, Judeus por escolha,
Judeus de robe à Sexta à noite, Judeus do Likud, Judeus Trabalhistas,
Judeus Meimad, das Dez Tribos Perdidas, Judeus cardíacos,
Judeus Irlandeses, Negros, Brancos, Judeus 3-dias-por-ano,
Judeus do Rav Nachman, do Rav Shlomo, da Neturei Karta,
Hasidim, Telz, Lakewood & Ner Yisrael,
Judeus Chofetz Chaim, Judeus zaftig, magricelas, Kookies,
Judeus JTS, RJJ, HUC, HTC, MTJ, BMT,
Judeus Celebridades, Judeus da Geração X, Y & Z,
Judeus da NCSY e de Solomon Schechter,
Judeus Chinuch Atzmai, Judeus Fackenheim, Judeus Yitz Greenberg, Judeus Kahane,
Judeus feministas, Judeus chauvinistas, Judeus igualitários, Judeus vegetarianos,
Judeus tradicionais, Judeus Kaddish-zuger,
Judeus políticos, Judeus intelectuais e Judeus ignorantes,
Judeus tomate & Judeus laranja, Judeus Shinui, e Judeus Shas,
Judeus Israelitas, Americanos, Persas e Russos,
Galitzianers, Litvaks, Polacks,
Judeus da birthright, Judeus solteiros, Judeus casados, Judeus quem me dera ser casado,
Judeus Esverdeados, Judeus Avermelhados, Judeus Escandinavos,
Judeus South of the Border, Judeus Italianos, Judeus nas notícias,
Judeus carecas, Judeus cabeludos,
Canadianos, Latinos, Ladinos,
Judeus em kapatas, em T-shirts,
Judeus em sandálias, em sapatilhas, em botas de montar,
Judeus Húngaros, Judeus Checos, Judeus na fronteira Húngaro-Checa,
Judeus Ashkenazitas, Sefarditas e Iemenitas, Judeus Afrikaner, Judeus Romenos,
Sionistas, não-Sionistas, anti-Sionistas, pós-Sionistas,
Judeus com sotaque, Judeus que falam um perfeito Hebraico Inglês do Midwest, Judeus Nativos Americanos,
Judeus Anglo-saxões, Judeus Britânicos, Judeus Escoceses, Judeus Galeses, Judeus Irlandeses,
Bons Judeus, Maus Judeus, Judeus feios, Judeus Hip-hop, Judeus curtidos,
Judeus fumadores, Judeus não-fumadores,
Judeus golfistas, Judeus cantores, Judeus Franceses, Judeus Alemães,
Judeus Gregos, Judeus Indianos, Judeus Chineses, Judeus JWannabee,
Judeus de Teorias da Conspiração, Judeus Japoneses, Judeus Shayna Panim, Judeus Meesekite, Judeus no armário,
Shnorrers, Baalei Tzedaka, Tzadikim, Baynonim, Rashaim,
Judeus Chacham-Tam-Ayni Yodea, kvetching e Guta Neshama,Vizhnitzer, Ger, Gerer, Chabadnik, Kohenim, Levi'im, Yisraelim,
Judeus Machers, Mavens & Pashet...

Todos os tipos de Judeus neste vasto Universo: Que nos unamos todos - sem brigas! – e juntos acendamos a grande luz de D-us. Que tenhamos um doce e abençoado ano, juntos e em verdadeira paz.

Shana Tova Umtuka! Paz em Israel

Nota: Isto é a tradução de um texto originalmente em inglês. Se alguém não entendeu alguma das denominações, não há problema. Para mim, em grande parte, isto também é muito confuso. :)

publicado por Boaz às 14:55
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Sexta-feira, 29 de Abril de 2005

10000 imagens!

A minha colecção de imagens com motivos judaicos atingiu a magnífica cifra de dez mil exemplares. Há anos que as procuro pela Internet, legendo e arquivo no meu computador.

Esta foi uma das primeiras fotos da colecção. E continua a ser uma das minhas favoritas.
Judeu Polaco, 1921

Inclui desde fotos de monumentos e lugares judaicos de todo o Mundo - em especial de Israel, com destaque para Jerusalém - acontecimentos históricos, cenas religiosas ou do quotidiano judaico, até paisagens de Israel e pinturas.

A variedade de fontes é de tal modo vasta - da maioria já nem me lembro da proveniência - que aqui ficam apenas algumas das fontes: National Photo Collection (Colecção Nacional de Fotografia de Israel), Israel Images, International Survey of Jewish Monuments, Zchor (daí é possível ir para centenas de outros sítios), Beyond the Pale - History of the Jews of Russia (História dos Judeus da Rússia, e não só), Shtetl Links; sites de notícias, como o Yahoo! News, World Photos, arquivos fotográficos de jornais e revistas on-line: New York Times, The Washington Post, Time Magazine e inúmeros sites das comunidades judaicas.

Se uma imagem vale mais que mil palavras, fazendo as contas, preciso de mais de 10 milhões de palavras para descrever a colecção que já juntei. A senda continua.

publicado por Boaz às 15:56
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