Terça-feira, 30 de Agosto de 2011

Kiddush com tequila (Em todos os lugares se encontram judeus)

Cumprem-se hoje cinco meses desde o dia em que embarquei na mais longa viagem que fiz até hoje: Cancún, no México. Fui visitar a kehilá (comunidade judaica) local. A frequentar o curso de preparação de shelichut¹, recebemos uma proposta séria para a pequena comunidade judaica no Caribe mexicano. Depois de algumas conversas via Internet e troca de emails, fui convidado a passar uma semana com a kehilá. Apenas eu iria viajar para Cancún. Nesta fase inicial de contacto com a comunidade, decidiram que era prematuro que a restante família me acompanhasse.

O programa da visita foi um pouco complicado de gerir. Acima de tudo, por ser a primeira vez que passava por uma experiência deste género. Nas semanas anteriores à viagem tive de preparar várias classes, discursos a serem proferidos na sinagoga durante o Shabbat e atividades para as crianças. Contactei rabinos que tinham trabalhado na América Latina, incluindo no México, para saber que assuntos abordar nas classes, para manter as pessoas interessadas. Uma das classes seria para as mulheres. Aconselharam-me a falar sobre o Amor. Além disso organizaria uma “conferência” com um tema à minha escolha.


Praia de Cancún | Espetáculo de um mimo israelita no shopping Kukulcan Plaza.
Pequeno-almoço comunitário | Vitral maia, cúpula do Kukulcan Plaza.

Porém, o que me levantou mais dúvidas foi a convivência com a débil prática religiosa dos judeus locais. Como comer kosher durante uma semana? Se houvesse alguma atividade na praia ou na piscina – ambientes comuns no dia-a-dia dos judeus locais – como ficaria a questão de tzeniut² (ou modéstia feminina)? E, com alguns membros da comunidade não sendo judeus de acordo com a Lei Judaica (por via de conversões não-ortodoxas) como poderia organizar as rezas na sinagoga?

As conversas com o diretor da organização onde estudei dois anos para a preparação da shelichut deixaram-me bem mais descansado. Era preciso, antes de mais, “aliviar um pouco a cabeça” habituada à estrita ortodoxia da vida judaica de Israel. A comida seria providenciada pela cozinha da comunidade, que é kosher, e pelas famílias que respeitam as regras alimentares judaicas em suas casas, como havia comprovado o próprio diretor numa visita a Cancún, alguns meses antes. Na questão da tzeniut, as opiniões que consultei divergiam. Uma dizia para tentar fixar as atividades de forma que evitasse totalmente esse problema. Outra opinião, que me surpreendeu pela complacência, foi simplesmente um peremtório: “Não olhes”.

Quanto aos possíveis não-judeus que integram as rezas na sinagoga (neste caso, convertidos por correntes não-ortodoxas, que não aceitam todas as regras da Lei Judaica), fui aconselhado a ignorar esses casos e organizar as rezas da maneira regular. Existem inclusive algumas razões haláchicas para esta leniência, por isso durante a minha visita não deveria abordar estes casos problemáticos.

A viagem de avião para Cancún foi difícil de aguentar. O horário do voo, saído de madrugada de Tel Aviv, estragou-me a noite de sono. O frio, o barulho dos motores, das dezenas de pessoas a roncar e tossir e o choro das crianças tornaram o longo voo de 12 horas até Filadélfia uma tormenta. A paranóia de segurança dos EUA iria fazer-me correr na curta escala entre os voos. Nem mesmo para quem está habituado à apertada máquina de segurança em Israel, as regras praticadas nos EUA são fáceis de suportar.

Cheguei a Cancún quase 24 horas depois de sair de casa. Passei do fresco início de Primavera de Gush Etzion para o escaldante e interminável Verão das Caraíbas. À saída do aeroporto, a rajada sufocante dos mais de 30 graus e da imensa humidade. O ar condicionado seria o meu melhor amigo naquela semana. Fui recebido pelo presidente da comunidade. Antes de me levar ao hotel, no centro da cidade, passámos pelo pequeno centro comunitário judaico para conhecer as instalações, a dois quarteirões de distância do meu hotel.

Teria algumas horas para descansar, depois de um duche. Antes de me deitar, ainda mandei uma mensagem para casa, pela Internet. Sete horas de diferença em relação a Israel significavam um quase absoluto desencontro de horários para marcar uma conversa com a família. Uma pessoa da comunidade tinha mandado entregar dois cestos com comida kosher (fruta, sumos e bolachas) para satisfazer o meu apetite no hotel. Depois do duche, da mensagem para o lar, do curto descanso, de comer um pouco – no voo de 4 horas desde Filadélfia não havia comido nada – começava o programa de trabalho daquela semana de visita à comunidade judaica de Cancún. As reuniões foram todas à volta da mesa de jantar, com as famílias dos líderes da comunidade.

Antes do primeiro almoço de trabalho, fui levado a um breve passeio para apreciar a famosa praia de Cancún. A alguns quilómetros do centro da cidade, percorrendo a avenida onde se situam os gigantescos hotéis, os clubes noturnos e os centros comerciais luxuosos, chegámos a um ponto onde pude admirar o Mar das Caraíbas, de um azul-turquesa indescritível. Perante tal grandiosidade, recitei a bênção: “Bendito És Tu, Eterno Nosso Deus, que fazes a Obra da Criação”. Pela primeira vez, vi o Atlântico do seu lado ocidental.

Num local tão improvável para encontrar vida judaica organizada como a costa caribenha do México encontrei uma comunidade pequena, de apenas 40 famílias. Todos tinham chegado a Cancún vindos de outra região do México, a maioria da cidade do México. Ou de outros países. Sem escola própria, minada pela assimilação e os casamentos mistos, era até então uma comunidade associada ao Judaísmo Conservador. A atuação do último rabino da comunidade tinha sido de tal modo desastrosa, dando uma péssima fama da comunidade de Cancún, que esta decidiu contratar um rabino ortodoxo.

Não que, com a chegada de um rabino ortodoxo, a comunidade se tornaria só por si ortodoxa. Contudo, apercebi-me que as mudanças pretendidas eram mais do que cosméticas. A liderança estava consciente das mudanças profundas necessárias à sobrevivência da pequena congregação. O problema das conversões “expresso” ocorridas na fase “conservadora” era o assunto mais quente da futura atuação do futuro rabino da comunidade. Num fenómeno demasiado corrente na Diáspora, quase todos os homens da comunidade haviam casado com mulheres não-judias. Em alguns casos, elas tinham passado a tal conversão vapt-vupt, em outros nem isso. Isso significava que entre as crianças da comunidade, poucas seriam judias de acordo com a Halachá (a Lei Judaica).

Para uma comunidade tão pequena e tão pouco religiosa – poucas famílias cumprem as regras alimentares judaicas e apenas um membro da comunidade cumpre o Shabat – a participação nas atividades religiosas da sinagoga é bastante elevada. Ao contrário de comunidades maiores (como Lisboa, por exemplo), a sinagoga tem minyan diariamente. Todas as manhãs, após o serviço religioso: o pequeno-almoço comunitário é uma oportunidade de ouro para organizar uma breve sessão de estudo. No Shabat, após o Kabalat Shabat há sempre um jantar da comunidade, frequentado por umas 50 pessoas. E o almoço na manhã seguinte também é partilhado por várias famílias. Cada um sente a sua responsabilidade como membro, para que a restante comunidade possa manter-se ativa. O compromisso com a vida comunitária é fortíssimo e comovedor de testemunhar.

Durante a semana, servi de chazan (oficiante) durante os serviços matinais na sinagoga. Também fui eu que li na Torá. Duas estreias absolutas para mim. Não creio que me saí tão mal, mas precisarei de mais prática. Na manhã de domingo, a ocasião de conhecer algumas crianças e participar nas suas atividades semanais na sinagoga, junto com o animador do grupo de jovens, recém regressado de Israel. Através de algumas brincadeiras didáticas ensinei-lhes um pouco sobre a festa de Pessach, a acontecer daí a algumas semanas.

Por uma questão de cortesia, visitei o emissário Chabad na cidade. Devido à situação dos casamentos mistos e das conversões, ele tinha recusado a oferta de ser o rabino da comunidade. Por isso, tirando algumas aulas com algumas famílias e o abastecimento de alguma comida kosher importada, ele dedicava-se quase exclusivamente a assistir os turistas judeus de visita a Cancún.

Uma das coisas que mais me impressionou na visita foi a simpatia e informalidade dos judeus cancunenses. Apesar de quase todos serem milionários, vivendo em mansões faustosas, não tinham o menor toque de snobismo, tão comum entre os ricos. (E essa é a imagem que tenho dos judeus mexicanos).

Depois de uma semana de visita, apesar de todos os desafios que uma shelichut em Cancún implicaria, imaginei que seria uma comunidade interessante onde trabalhar. Sendo uma comunidade tão pequena e remota, era contudo extremamente unida e interessada na vida comunitária, algo que falta noutras paragens. O local também ajudara a criar uma boa perspetiva de decidir transplantar a família para tão distantes latitudes. As questões económicas nem sequer foram mencionadas. Esse assunto deveria ser relegado para uma etapa mais avançada nas negociações.

Poucos dias após o regresso a Israel recebi a resposta da kehilá. Eu não seria o escolhido para liderar a comunidade. A minha falta de experiência, face às complicadas questões que rodeiam a vida judaica em Cancún, determinara este desfecho. Ainda que um pouco desiludido, reconheço a razão da decisão. As tarefas são hercúleas e o novo shaliach terá de ter um pulso muito forte para aguentar as adversidades. Além de, diplomaticamente ter de engolir alguns sapos e por vezes fechar os olhos, por outro terá de ter coragem de bater na mesa quando seja imprescindível. Só desejo o maior sucesso ao que tomar o cargo que, um dia pensei que poderia ser eu a realizar. De Cancún e dos seus judeus guardo ótimas memórias.

¹ Shelichut – Literalmente, "missão". O termo aplica-se aos rabinos e educadores (sendo estes chamados de shelichim, "enviados"), que vão trabalhar temporária ou definitivamente com as comunidades judaicas da Diáspora. Também é aplicado aos diplomatas.

² Tzeniut – "descrição" ou "modéstia". Refere-se em especial às regras de vestuário feminino para evitar expor demasiado o corpo. Algo especialmente difícil nos 12 meses de verão de Cancún.

publicado por Boaz às 19:35
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Segunda-feira, 26 de Abril de 2010

Dia santo na Babilónia

Desde que casei, posso contar pelos dedos as vezes que passei o Shabbat fora de casa. E depois do nascimento do bebé, a família apenas se atreveu a sair de casa para passar o Shabbat em duas ocasiões, e ambas em Jerusalém. Porém, há algumas semanas, aventurámo-nos até Tel Aviv. De férias na semana da Pessach, a Páscoa Judaica, tínhamos mais tempo para preparar a viagem de autocarro até à costa. À chegada, Tel Aviv depara-se completamente diferente de Jerusalém. No estilo dos edifícios e, mais ainda, nas pessoas.


Tel Aviv, vista da cidade velha de Jaffa.

Fomos convidados por uma família de amigos, antigos residentes de Alon Shevut – o colonato onde moramos, e que hoje vivem no bairro de Ramat Aviv, um dos mais ricos de Tel Aviv, no limite norte da cidade, com alamedas cheias de árvores e jardins que rodeiam cada prédio. Os nossos amigos que, há pouco mais de um ano trocaram as idílicas montanhas da Judeia pelo bulício da grande cidade, pertencem a um núcleo de famílias religiosas, com vontade de revitalizar a vida religiosa judaica local.

Para uma família religiosa, residir num prédio de vários andares apresenta um desafio adicional no Shabbat: a impossibilidade de usar o elevador. Em Jerusalém e noutras cidades com considerável população judaica ortodoxa, a solução são os “elevadores de Shabbat”, com um mecanismo programado antes da entrada do dia sagrado para que funcionem sem interrupção, parando em cada andar do prédio, sem necessidade de accionar os botões. Em Tel Aviv porém, excluindo os hotéis, não são muitos os prédios onde os seus residentes seculares concordam com esta solução para os seus vizinhos religiosos. Assim, por exemplo, para quem vive num andar alto, subir e descer vários lanços de escadas com um carrinho-de-bebé é uma tarefa árdua. Ficámos alojados em casa de uma outra família do tal núcleo que haviam passado a quadra festiva fora de Tel Aviv.

Uma dos projetos do pai da família que nos convidou é dinamizar o estudo de Torá numa das sinagogas do bairro. Uma das provas da grande secularização da população do bairro é que a sinagoga funciona apenas no Shabbat. Situada numa rua tranquila de casas luxuosas (o canto hollywoodesco de Tel Aviv), é um edifício bonito, rodeado de um belo jardim e com um hall em forma de tenda, usado para as recepções comunitárias nas manhãs de Shabbat. É nessa sinagoga que as famílias do bairro escolhem realizar as cerimónias de bar mitzva dos seus filhos, quando chegam aos 13 anos. Esses acontecimentos festivos são oportunidades preciosas para o rabino estabelecer contacto com as famílias afastadas, convidando-as a participar noutras atividades da sinagoga.

Na manhã de Shabbat, cheguei um pouco atrasado à sinagoga. Com o meu atraso receei que a cerimónia já fosse avançada. Porém, mesmo passando da hora marcada, fui o segundo a chegar. Durante a caminhada de 10 minutos desde a casa onde passámos a noite, quase não encontrei vivalma na rua, ainda que fossem 8 da manhã. Tel Aviv é chamada “a cidade que nunca dorme”, mas na manhã de Shabbat o seu lema não se cumpre, já que a cidade parece parada. Talvez o lema seja na verdade “A cidade que nunca dorme. De noite”. As únicas pessoas que encontro no trajecto são um judeu religioso que se dirige a outra sinagoga e uma mulher que faz a sua sessão de jogging matinal.

A visita à sinagoga fez-me sentir verdadeiramente fora de Israel. Nos cerca de 200 lugares do santuário, não havia mais do que 30 pessoas. Destas, a grande maioria não pareciam habituados a estar numa sinagoga. Algumas, inconscientes da santidade do lugar, falavam praticamente durante toda a cerimónia.

Também exteriormente se notava que não eram pessoas especialmente religiosas. As mulheres não se vestiam de forma discreta. Entre os homens, eram raros os que usavam barba – um dos sinais externos mais comuns do judeu religioso (ainda que não seja obrigatório). Mais raros ainda eram os jovens. Um deles, visivelmente um novato naquelas paragens, parecia desorientado na hora de entoar o kadish, a oração pelos mortos. Imagino que fosse um rapaz “afastado”, quando a morte de um familiar próximo o levou a frequentar a sinagoga, para aí poder dizer kadish pelo seu ente querido desaparecido. Ainda assim, há que reconhecer o mérito de, mesmo parecendo um pouco “deslocadas”, todas aquelas pessoas terem ido à sinagoga.

Antes do início da cerimónia de Shabbat, o rabino costuma fazer uma breve prédica com ensinamentos morais, normalmente baseada na porção semanal da Torá. Em Alon Shevut, onde todas as famílias são religiosas, estou habituado a escutar sermões mais “pesados” e mais longos, por vezes sobre questões complexas da lei judaica. Naquela sinagoga em Tel Aviv, o rabino falou de amor, algo que todos conseguem identificar-se, mesmo os mais afastados da prática religiosa.

Deixar o ambiente religioso da vida em Alon Shevut deixou marcas na família do rabino. As crianças não estudam perto de casa. Nas redondezas, nenhuma escola se enquadra nos padrões de religiosidade da família. Não há vizinhos religiosos no mesmo prédio, nem talvez na mesma rua. Antes, em Alon Shevut, as seis crianças da família brincavam sem problemas em casa dos vizinhos, ou toda a criançada das redondezas se reunia no pequeno jardim no meio do bairro. Em Tel Aviv, os pequenos têm de caminhar algumas centenas de metros até à casa da família religiosa mais próxima. E as ruas de Tel Aviv não são tão seguras como as de Alon Shevut. Assim, fora da escola, praticamente não têm amigos.

A solução é passarem mais tempo em casa. Uma das coisas que acabaram por absorver da vida de Tel Aviv é o gosto (diria quase fanático) pelo futebol. Incluindo as meninas, as pequenas crianças sabem de cor todas as equipas da Liga dos Campeões, da Liga Europa, os principais jogadores e os resultados dos últimos jogos! Ainda que a família tenha algum contacto e tente cativar os vizinhos não-religiosos, tem o cuidado de não deixar que os seus filhos sejam influenciados de alguma forma negativa pelo ambiente pouco ou nada religioso das redondezas.

Entre os judeus religiosos, Tel Aviv é muitas vezes destacada pelas manifestações extremas de não-religiosidade, ou até de ser anti-religiosa. Porém, apesar dessa face visível, em toda a cidade existem mais de 500 sinagogas ativas. A missão da família que visitámos no Shabbat é ajudar os habitantes da cidade a redescobrirem a preciosidade da vida judaica. Que não vejam o ser judeu religioso como alguém ultrapassado e fora da modernidade. Apesar das dificuldades, o rabino confessou-me notar progressos na sua comunidade. Resta saber quais serão as consequências para a própria família, no meio dessa missão de ajudar a “aproximar os afastados”.

publicado por Boaz às 23:30
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Domingo, 28 de Março de 2010

Fénix de pedra

Estava em obras desde o Verão de 2006. A antiga sinagoga Hurva (a Ruína, em hebraico) era um dos símbolos do Bairro Judeu da Cidade Velha de Jerusalém. Foi fundada no início do século XVIII pelos seguidores do rabino Yehuda he-Hasid, que liderou o maior grupo de imigrantes judeus para a Terra de Israel em muitos séculos.

Poucos anos após a fundação, foi destruída, ficando arruinada durante mais de 140 anos. Daí o nome por que ficou famosa, “A Ruína”. Foi reconstruída em meados do século XIX, quando se intensificou a imigração judaica e o desenvolvimento de Jerusalém. Era a maior sinagoga de toda a Terra de Israel. Até 27 de Maio de 1948.

A Hurva foi uma das vítimas da Guerra da Independência de Israel. Os combates em Jerusalém, entre a Legião Árabe e as tropas da Haganá, uma das milícias que daria origem ao futuro exército de Israel, foram especialmente violentos. Em Maio de 1948, durante a batalha pelo controle da Cidade Velha, a sinagoga era um dos últimos redutos dos soldados da Haganá. O comandante da Legião Árabe, por intermédio da Cruz Vermelha, avisou a Haganá para abandonar o local, sob pena de um ataque em força. A liderança da Haganá recusou, consciente que o abandono do local significaria a derrota na batalha pelo Bairro Judeu.

A recusa da retirada resultou em combates no local. No final, a bandeira da Legião Árabe foi içada no cimo da cúpula da sinagoga. Mas esse não foi o fim da destruição da Hurva. Após a captura do local pelas forças árabes, o que restava da sinagoga foi deliberadamente minado e detonado. Nos meses seguintes, O mesmo destino teve a maioria do Bairro Judeu da Cidade Velha. Uma campanha de destruição arrasou centenas de casas, dezenas de sinagogas centenárias e antigas yeshivot. Os residentes judeus foram expulsos de Jerusalém Oriental e o acesso aos locais sagrados, como o Muro Ocidental, foi proibido a todos os judeus.

Nos 19 anos que se seguiram, durante o domínio jordano em Jerusalém Oriental, a cidade esteve dividida. Uma faixa de território, uma “terra de ninguém”, separou a Cidade Velha e Jerusalém Oriental da moderna Jerusalém Ocidental. As ruínas das casas do Bairro Judeu foram usadas como currais para cabras e burros. O milenar cemitério judeu do Monte das Oliveiras, onde estão sepultados centenas de sábios e ilustres judeus, também foi profanado. Lajes dos túmulos foram usadas para pavimentar estradas.

A reunificação da cidade em 1967 marcou o renascimento do Bairro Judeu. Foi totalmente reconstruído com arquitetura moderna. O Muro Ocidental, o local mais sagrado para o Judaísmo, voltou a estar acessível. E não só a Judeus, mas a pessoas de todos os credos e países.

Porém, a Hurva manteve-se no que foi na maior parte da sua história, uma ruína. Planos foram desenhados com propostas modernas para a reconstrução. No meio da indecisão entre arquitetos e políticos, um arco comemorativo da antiga sinagoga foi erguido em 1977 que se tornou num dos símbolos do Bairro Judeu.

No final do Verão de 2006, quando foi estudar para a Yeshivat HaKotel, vizinha da praça onde se situa a Hurva, já se havia decidido o que fazer com a velha sinagoga. A reconstrução de acordo com o aspeto que tinha antes da devastação de 1948 havia sido iniciada. Durante quatro anos, uma grua esteve erguida no local, montando pedra a pedra as paredes e a enorme cúpula da Hurva. Todos os dias, passava no local e via crescer a obra.

A Hurva reconstruída foi oficialmente inaugurada há menos de duas semanas com a presença de políticos e rabinos. No dia seguinte, residents árabes de Jerusalém Oriental envolveram-se em confrontos com a polícia israelita. Mentes paranóicas viram na reconstrução da Hurva algum indício de desejos de reconstrução do antigo Templo de Jerusalém no Monte do Templo, o local onde hoje se situa o santuário islâmico da Cúpula do Rochedo e a mesquita de Al-Aqsa. Por isso, grupos palestinianos apelaram a um “dia da raiva” em protesto pela reabertura da sinagoga.

A Hurva arruinada era o emblema da destruição deliberada da antiga sinagoga e de todo o Bairro Judeu ocorrida durante o domínio árabe em Jerusalém Oriental. A reconstrução simboliza o renascimento da cidade, algo pelo qual os judeus religiosos rezam três vezes por dia. A glória de Jerusalém é também a glória do Judaísmo. E isso é inaceitável para os Árabes.

publicado por Boaz às 16:00
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Domingo, 24 de Janeiro de 2010

Voltar a Lisboa?

Desde que decidimos, eu e a minha esposa, frequentar um curso de preparação para "shelichim" – emissários para as comunidades judaicas na Diáspora – pensámos na possibilidade de irmos para Portugal. Brasil, Espanha ou qualquer país de língua espanhola da América são outras possibilidades. Em Portugal, a única comunidade com a qual tive um contacto directo foi a de Lisboa, desde a minha entrada na faculdade.

Desde o início do meu processo de conversão, com melhores ou piores momentos, tivemos uma relação um pouco atribulada. A hostilidade face aos candidatos à conversão, numa altura em que não havia sequer rabino na sinagoga, resultou em alguns momentos amargos. O primeiro contacto, em Fevereiro de 1998, foi desastroso. Tanto que, durante alguns anos, até 2002, não voltei a contactar a comunidade.

Tive o discernimento suficiente para perceber que uma comunidade judaica não faz todo o Judaísmo, ou que alguns judeus não fazem todo o Povo Judeu. Por isso, não desisti. Com a porta de Lisboa aparentemente trancada, continuei a estudar o Judaísmo o melhor que conseguia, pela Internet e nos poucos livros que conseguia encontrar nas bibliotecas. Assim que descobri – já não me lembro por que maneira –, que havia chegado um rabino à comunidade, e que ele tinha um endereço de e-mail, apressei-me a tentar essa nova porta. Pensei: se a reacção for negativa, pelo menos não será tão dramática como ao vivo.


Sinagoga de Lisboa, Shaare Tikva, os Portões da Esperança.

Todas as semanas, enviava ao rabino pelo menos um e-mail com perguntas. As respostas eram sempre secas e, pelo menos aparentemente, desinteressadas. (Existe o costume de tentar demover o candidato à conversão, para que este prove o seu real interesse). Tantos e-mails enviei que o rabino deve ter ficado farto de mim e decidiu entregar o meu caso a um membro da comunidade. Esta reviravolta mostrou-se providencial. As respostas aos meus e-mails passaram a ser mais pacientes e atenciosas. Tivemos algumas discussões filosóficas interessantes e acabámos por nos tornar amigos.

Alguns meses depois, em Fevereiro de 2003, fui convidado a visitar a sinagoga. "Uma visita turística", pensei. Não, na hora de Kabalat Shabat, o serviço religioso que dá início ao Shabat! Incrédulo com a ocasião do convite, pedi explicações: "Não seria melhor ir a outra hora?". A resposta, ainda hoje me soa como a um magnífico lema de vida: "Quando se aprende a nadar numa piscina, podes saltar do lado mais baixo ou do lado mais fundo. Eu acho que deverias saltar do lado fundo".

Perante tal encorajamento, decidi aceitar o convite. Até então, ainda não conhecia pessoalmente o paciente judeu que há meses respondia aos meus e-mails. Esperou por mim no portão da sinagoga para facilitar a minha entrada. Foi a minha primeira experiência com a segurança do local.

O primeiro Kabalat Shabat foi estranho. O hebraico, as melodias das rezas, a sinagoga quase vazia, não conhecer ninguém além do meu amigo-por-email-e-agora-também-em-pessoa. Seguia as orações pelo livrinho em hebraico, português e transliteração. Absolutamente lindo, o primeiro Lechá Dodi. No estranho oceano da língua hebraica, as seis palavras da declaração de fé judaica: “Shemá Israel, Hashem Elokeinu, Hashem Ehad” foram a única ilha algo familiar em toda a cerimónia. O cúmulo do meu desnorteio chegou quando, pouco depois, todos se levantaram, viraram-se na direcção da Arca Sagrada (também a direcção de Jerusalém) e ficaram em silêncio, balançando-se como costumam fazer muitos judeus quando rezam. Perdi-me nas páginas do livrinho. “Onde vão?” Folheei, para a frente e para trás a tentar adivinhar o que rezavam em silêncio. Fiquei na minha, sentindo-me meio estúpido, e discretamente tentando o mais possível parecer um deles.

Alguns minutos depois, voltaram a rezar alto. “E onde vão agora?”. Um novo folhear atrapalhado. Foi impossível achar o fio à meada. Uns minutos depois e o serviço terminou. À saída, o meu amigo perguntou: “O que achaste?”. “Estranho, mas bonito”. “Podes voltar na próxima semana, se quiseres”. Obviamente voltei. Desta vez, na entrada não havia ninguém à espera, além do segurança de ocasião. A custo, deixou-me entrar. O meu amigo não estava para confirmar o convite que me fizera. Enquanto esperava para começar a cerimónia, um membro da comunidade perguntou-me se eu era judeu. Precisavam de gente para completar o minyan (conjunto mínimo de dez homens necessário para as orações públicas). "Não, não sou". Fiquei marcado.

Na semana seguinte, o segurança barrou-me a porta. "A sinagoga é só para membros", disse-me, de forma antipaticamente peremptória. Nem valeu a pena invocar o convite do meu amigo. "Se quiser voltar, terá de enviar uma carta para a direcção de segurança da comunidade, a pedir autorização para frequentar a sinagoga". Frustrante. Enviei a carta. Esperei um mês pela resposta. Fui perguntando por e-mail ao meu amigo, se sabia algo da dita carta: onde tinha ido parar, se tinha sido recebida. Decidi enviar outra. "Talvez se tenha extraviado", deduzi. Um mês, dois, três… e nada. Nesta altura já tinha terminado o meu estágio na Rádio TSF e voltara a viver na Batalha, a 120 quilómetros de Lisboa. E a comunidade voltara a ficar sem rabino.

Alguns meses depois, voltei a Lisboa por algumas semanas para um curso pós-universitário de jornalismo. Aproveitando a oportunidade do meu regresso à capital, o meu amigo na comunidade voltou a convidar-me para um Kabalat Shabat. Sem ter recebido qualquer resposta em mais de 6 meses, fiquei apreensivo em aceitar o convite. "Eu espero-te do lado de fora do portão e entramos juntos", assegurou-me. Chegámos cedo, o vigilante ainda não tinha chegado. Não tive problemas para entrar. A meio do serviço vi-o entrar na sinagoga. Gelei. Pareceu ignorar-me. Imaginei, "depois de tantos meses talvez nem se lembre de mim".

À saída, ainda no pátio da sinagoga, o segurança provou a sua boa memória. "Você não volta a fazer o que fez! Não tem autorização para entrar aqui!" Da forma colérica como me falou parecia acusar-me de ter arrombado o portão. Encaminhámo-nos para a rua. Tentei defender-me como podia: "Como pode falar assim, se o senhor não estava aqui quando cheguei…" Com o passar do tempo, o jovem estava cada vez mais agitado. Cheguei a temer que me batesse.

Deixei-o falar. Afinal, nada do que eu pudesse dizer iria fazê-lo acalmar-se. "Escreva outra carta! Não há duas sem três. E enquanto não receber resposta, está proibido de entrar aqui!" Num aviso ameaçador, disse-me que se voltasse à sinagoga, seria expulso nem que tivesse de recorrer "à força". É verdade, ele tinha razão, eu não tinha autorização formal, mas também não era preciso fazer tamanho escândalo. Porém, confesso que de todo este episódio vergonhoso, o que mais me custou nem foi o rapazote furioso e malcriado, cumprindo com orgulho o papel que alguém lhe tinha confiado. O pior foi mesmo o silêncio. O silêncio daqueles que iam saindo da sinagoga e ficavam parados à nossa volta durante um minuto ou dois, a admirar tranquilamente aquela luta de galos no meio da rua. Sem nada fazer, ou dizer. (Quem cala, consente?) Humilhado, fui embora, com o meu amigo, que entretanto saíra da sinagoga e levara também ele uma dose de desaforo do tal segurança.

Escrevi a terceira carta, desta vez iria enviá-la registada. Nela, incluí uma linha sobre o memorável episódio da minha última visita à sinagoga. Mais dois meses de espera. Recebi a autorização numa carta breve e seca. Nenhum comentário sobre o comportamento do segurança. E no tempo da espera terminara o meu mini-curso de jornalismo escrito em Lisboa e voltara de novo para casa da família. A resposta chegara tarde demais.

Quase seis meses depois, quando já havia chegado um novo rabino, voltei a ser convidado para a sinagoga, mais propriamente para comer na sucá (cabana que se constrói para a festa de Sucot). Seria uma oportunidade para falar com o rabino sobre o meu caso. Acabei por não falar com ele, já que aquele não era um assunto para discutir à mesa, em frente à família dele e alguns convidados. Alguns dias depois, voltámos a encontrar-nos para uma entrevista formal. No final, convidou-me a entrar na classe de conversão da comunidade já na semana seguinte. Que abertura!

Semana a semana, durante 11 meses, fui de propósito a Lisboa apenas para as aulas de conversão na sinagoga. Era um grupo de mais de 20 pessoas, todas da região de Lisboa. Eu era o único "da província". Desde essa altura, deixámos – eu e os outros candidatos à conversão – de ter problemas para entrar na sinagoga. O novo rabino estava "do nosso lado" ainda que tivesse de bater de frente com alguns "hostis". Aos poucos, a comunidade tornou-se mais tolerante connosco.

Voltar a Lisboa seria voltar a muitas recordações. Algumas amargas, outras deliciosas. Foram algumas pedras no longo caminho da minha conversão, mas mesmo as mais aguçadas ajudaram a pavimentar a estrada. Não guardo escoriações pelas quedas, nem rancores.

publicado por Boaz às 10:25
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Sexta-feira, 19 de Junho de 2009

Todos juntos (e apertados)

Normalmente, rezo Minchá, a oração da tarde, na yeshivá, antes da pausa para o almoço. Porém, na última quarta-feira, um compromisso à hora de almoço, fez-me perder a reza com todos os alunos da yeshivá. As longas tardes do final da Primavera permitem alargar mais o horário para rezar Minchá.

Saindo da yeshivá às sete da tarde, ainda tenho algum tempo para encontrar uma sinagoga disponível. Planeando fazer as compras semanais no mercado de Machane Yehuda, dirigi-me ao centro de Jerusalém. Em frente à entrada do mercado, do outro lado da Rua de Jaffa, uma pequena sinagoga tem sempre movimento.


Sinagoga Zaharei Chama, Rua de Jaffa, Jerusalém.

Àquela hora, os atrasados (como eu) na reza, correm à sinagoga, tentando apanhar o último minyan, o grupo de 10 homens necessário para rezar uma oração pública. Ao entrar na pequena sinagoga, o grupo presente já está no final da reza. Frustrado por ter perdido a oportunidade, reparo então que, no final do salão da sinagoga, há outras salas onde se pode rezar.

Aquela é uma sinagoga de estilo shtiebel - significa "a pequena casa", uma residência em que cada divisão foi transformada numa pequena sinagoga. Assim, a toda a hora começa um novo grupo de homens a rezar, sem ser preciso esperar pelo horário fixo da reza.

Entro num pequeno quarto com apenas dois bancos. Vários homens recém-chegados entram também. Depressa se completa o necessário grupo de dez. Por se situar junto aos bairros de Geula e Mekor Baruch, a maioria dos homens que aparecem para rezar são haredim, ultra-ortodoxos. Ainda assim, também alguns sionistas religiosos como eu.

Ali, as diferenças de linha religiosa são praticamente ignoradas. Sefarditas, askenazim, haredim de "chapéu-preto", sionistas. Todos são incluídos no grupo.

Continuam a entrar mais homens. O minúsculo quarto, onde caberiam à-vontade 5 pessoas, contém agora mais de 15. Outros rezam no corredor. No final da Amidá, a parte principal da reza, entoada individualmente e em silêncio, é costume recuar três passos do local onde se rezou, o que simboliza a retirada perante da presença de Deus, o Rei diante do qual acabámos de rezar. Ali, naquele espaço exíguo e apinhado, é impossível recuar os tais três passos, sem pisar os pés ao homem que reza atrás de nós.

Aquele foi o último minyan da oração da tarde, na última hora possível. Fim do tempo: o sol já se começa a pôr. Nas salas ao lado começam entretanto a chamar para a oração da noite, Arvit. Depois da repetição da reza em voz alta pelo hazan (o oficiante do serviço religioso) e da conclusão do serviço, sigo para as compras.

No mercado, tal como na sinagoga, juntam-se todos os tipos de judeus. O minyan das compras e da vida diária compõe-se das muitas cores de Israel.

publicado por Boaz às 15:58
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Sábado, 30 de Abril de 2005

Páscoa, sentido de liberdade

Este ano aqui, para o ano em Jerusalém!

Este ano tive a primeira experiência da Pessah (Páscoa Judaica) vivida em comunidade. Nos outros anos costumava lembrar-me do dia, com a ajuda de um calendário, e pensava, no meu cantinho, naquilo que inúmeras famílias e comunidades do mundo inteiro poderiam estar a fazer naqueles dias.

Na semana anterior desenrolei-me em tarefas comuns em cada casa judaica nesta época do ano. A principal das quais é a eliminação de todo o género de comidas feitas a partir de cereais fermentados, antes do início da Páscoa. Fermento (hametz) é coisa proibida nesta época do ano, pelo que bolachas, cereais e massas foram desaparecendo ao ritmo das refeições e o stock não foi renovado. Estando eu habituado a petiscar umas bolachinhas a qualquer hora - sou viciado em bolachas de aveia! - e a comer uma tigela de cereais antes de dormir, ter de me livrar de todas estas coisas durante uma semana, levantou-me o problema de não saber o que comer...

A Páscoa propriamente dita começou no Sábado à noite. Cheguei a pensar que ia passar o jantar pascal sozinho, apenas com a visita do Profeta Elias*, mas acabei por ser convidado para o jantar da sinagoga. (Obrigado Ana). Depois do serviço religioso - nunca tinha visto a sinagoga tão cheia, mas gente mais conhecedora disse-me que nunca ali vira tantos lugares vagos durante a Páscoa - fui ajudar a ultimar a preparação do jantar, ou seder.

A Páscoa é, por excelência, a festa judaica em que o espírito familiar é mais forte. A refeição da primeira e segunda noite da Páscoa - a festa dura oito dias - requer participação de toda a família, com especial destaque para as crianças. Durante o jantar é lida a Hagadah, onde se relata a história de Moisés que tenta convencer o faraó a libertar os escravos, os episódios das pragas que se abateram no Egipto e finalmente o Êxodo.

Eu não estava em família - com a minha família - mas o ambiente era visivelmente familiar, o que ajudou a superar a estranheza perante muitas coisas que ainda desconheço. Entre as canções e orações, comem-se diversas comidas com um significado específico. Ervas amargas lembram a dor da escravatura; um doce de maçãs, amêndoas e nozes recorda a argamassa com que os escravos hebreus construíram as cidades faraónicas; o pão ázimo, a pressa na preparação da saída do cativeiro...

Uma das mensagens da Páscoa é que devemos recordar a libertação do Egipto como se nós próprios tivéssemos sido libertados e que, ainda hoje devemos libertar-nos dos "Egiptos" que nos escravizam. É esta transposição para o presente que faz com que a tradição se mantenha e torne a Pessah tão actual.

* A tradição judaica diz que o Profeta Elias visita cada casa durante a noite da Pessah. Por isso é costume, após o jantar, deixar na mesa um copo de vinho, que o profeta tomará quando passar.

publicado por Boaz às 23:14
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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