Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

Viver em cabanas

Os Judeus em todo o Mundo preparam-se para a festividade de Succot, a Festa das Cabanas, em memória das cabanas onde o Povo de Israel viveu durante os 40 anos do Êxodo do Egipto. Esta era uma das antigas ocasiões em que os Judeus faziam a peregrinação ao Templo de Jerusalém. Apesar de a peregrinação estar interrompida há quase 2000 anos, outras tradições persistem nesta festa.

O nome "Festa das Cabanas" deriva do facto da obrigação de residir numa cabana (sucá, em hebraico) durante os sete dias da festa. Nos primeiros dias do novo ano – o Ano Novo Judaico foi no último 30 de Setembro – milhares de famílias ocupam-se na construção da sua cabana particular. Seja no jardim, no lugar habitualmente ocupado pelo carro em frente da casa, ou na varanda, as cabanas têm aparecido como cogumelos nos bairros religiosos de Israel. São decoradas, muitas vezes com enfeites preparados pelas crianças, e transformadas em sala de jantar da família.

Na semana de Succot, as famílias devem fazer a maioria das suas actividades diárias na cabana. Devem comer todas as refeições, estudar nela. À excepção da linha Chabad do Judaísmo Ortodoxo, a tradição judaica defende que o homem deve dormir, se possível, na sua sucá.

Nos anos anteriores, costumava usar a sucá da yeshivá, apesar de optar por nunca dormir nela, tal era a desordem que a caracterizava. Dezenas de alunos costumam tirar as suas camas dos quartos, e durante a semana de Succot fazem da sucá o seu quarto colectivo. Sem os empregados da yeshivá para ordenarem o espaço, abunda a bagunça. E, para ajudar, há sempre os gatos vadios que habitualmente pernoitam no pátio da yeshivá.

Este foi o primeiro ano em que construí a minha própria sucá. Uma indústria sazonal fez surgir nos anos mais recentes, verdadeiros "milagres" como as cabanas que se montam em poucos minutos, bastando unir alguns ferros e atando uns panos ou plásticos a fazer de parede. Um dos pré-requisitos da cabana é que o seu telhado seja de matéria vegetal. Esteiras de cana ou palha e ramos de palmeira são as coberturas mais normais. A sucá, com toda a sua vulnerabilidade aos elementos da natureza e falta de conforto em relação a uma casa de tijolo e cimento, tem o simbolismo da plena confiança na protecção de Deus.


Inspecção do etrog no mercado das "quatro espécies", antes de Succot.

Para lá das cabanas que dão nome ao festival, o outro importante preceito de Succot é a presença dos arbaat ha'minim (as "quatro espécies"). São quatro tipos de plantas, usados pelos homens durante as rezas matinais dos sete dias. O ramo ainda fechado de uma palmeira (chamado lulav), dois ramos de chorão (aravá), três ramos de murta (hadas), e uma cidra (etrog), um fruto aparentado com o limão.

Um "quase-limão" por 20 Euros

A Halachá (Lei Judaica) é muito rigorosa com as características que devem ter cada uma das "quatro espécies". Nos bairros religiosos das cidades israelitas, surge nesta época um mercado especial para venda dos arbaat ha'minim. São centenas de vendedores que tentam atrair a clientela. Milhares de compradores verificam os ramos de murta e de chorão, inspeccionam cuidadosamente as pontas das folhas do lulav e, especialmente a cidra. Muitos usam lupas para conseguirem vislumbrar o mais pequeno defeito. O etrog, pela sua beleza e raridade – é difícil encontrar um exemplar perfeito – chega a atingir somas incríveis, para um fruto que parece um limão apenas um pouco mais rugoso.

Uma metáfora descreve as "quatro espécies" como os quatro tipos de Judeus. O lulav, que tem sabor (pelos seus frutos, as tâmaras) mas não tem cheiro, simboliza os Judeus que estudam Torá mas são pobres em boas acções. O hadas, ou murta, tem bom cheiro, mas não tem sabor, representa os Judeus que fazem boas acções, mas carecem de estudo da Torá. A aravá, ou chorão, não tem sabor nem cheiro, é como os Judeus que não estudam Torá nem fazem boas acções. O etrog, um fruto saboroso e com bom cheiro, simboliza os Judeus que são estudiosos da Torá e fazem boas acções. No entanto, tal como o conjunto não serve para cumprir o preceito se lhe faltar algum dos elementos, o Povo de Israel também não está completo sem cada um dos Judeus. Com todas as suas diferenças.

Apesar de alguns sinais da crise económica que também já começam a notar-se em Israel, o entusiasmo dos fiéis para cumprirem da melhor forma as mitzvot (os preceitos judaicos) da sucá e das "quatro espécies", não diminuiu. A agitação no mercado é a melhor prova. Se a chuva não estragar a quadra, impossibilitando dormir ou comer na cabana, o frio que já se começa a sentir, será o único senão da festa.

publicado por Boaz às 15:00
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Perfil do autor. História do Médio Oriente.
Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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