Segunda-feira, 25 de Junho de 2012

A onda africana

Durante os dois últimos anos que estudei na yeshivá, um dos empregados da limpeza era um africano, não judeu. Um dia, a caminho de casa ao final da tarde, encontrei-o no autocarro. Sentei-me ao seu lado. Devido ao seu limitado hebraico, tentei comunicar com ele em inglês. Ao saber que era da Eritreia, mencionei o primeiro nome do presidente do seu país: "Isaias" [Afwerki]. Fez uma cara de desaprovação e comentou "Mau, muito mau". Pouco mais falámos, ele desceu pouco depois do autocarro.

Nas últimas semanas, a atualidade israelita foi marcada pela questão dos africanos ilegais no país e o que fazer com eles. Esta semana, o governo decidiu levar a cabo uma acção de prisão de centenas de residentes ilegais e posterior deportação para o Sudão do Sul. Pagando a viagem de regresso ao seu país, que obteve a independência há cerca de um ano, e entregando 1000 euros por adulto e 500 por cada criança, o governo pretende resolver, ou pelo menos minorar, o problema dos residentes ilegais em Israel.


Israelitas manifestam-se contra os imigrantes ilegais africanos num bairro de Tel Aviv. No cartaz:
"E regressarão os sudaneses ao Sudão", um jogo de palavras baseado no versículo "E regressarão os filhos às suas fronteiras".

Infiltrados, refugiados, sudaneses, africanos, são várias as denominações destes imigrantes ilegais. É um fenómeno que começou há alguns anos. Fugindo da guerra, da perseguição étnica e da miséria, dezenas de milhar de africanos têm entrado em Israel pela fronteira egípcia. A maioria provêm da Eritreia, do Sudão e do recém-independente Sudão do Sul. Todos chegaram a Israel depois de uma longa e perigosa saga pelo deserto do Egito. Incontáveis imigrantes são baleados pelo exército egípcio para evitar que cruzem a fronteira com Israel.

Ao atravessarem o Sinai, última etapa antes da chegada à fronteira israelita, muitos são capturados por gangues de Beduínos. Às mãos destes traficantes de gente, e encerrados semanas ou meses em campos de prisioneiros montados a poucos quilómetros da fronteira, são sujeitos a violências de vária ordem, incluindo tortura e violação. Para serem libertados, são obrigados a contactar familiares ou amigos já residentes em Israel, para tentar angariar dinheiro para o seu resgate. Os que falham na colecta do dinheiro, que ascende a vários milhares de dólares, são mortos. Em alguns casos, os seus órgãos são extraídos e vendidos para redes internacionais de tráfico de órgãos. O caos político e social no Egipto; o vazio de poder na península do Sinai, transformada numa “Terra Sem Lei” dominada por traficantes de armas, gente e drogas; o pouco interesse que o assunto merece nas esferas do poder no Cairo e menos ainda entre os diplomatas internacionais, perpetua este negócio de tortura e escravidão de milhares de africanos.

A libertação às mãos dos traficantes Beduínos do Sinai não garante a entrada em Israel. Ainda resta atravessar a fronteira. Até há pouco mais de um ano, a fronteira com o Sinai era pouco mais de uma cerca ferrogenta, coberta pelas dunas em vários pontos. Atravessada livremente por camelos selvagens, traficantes de droga e imigrantes ilegais. Porém, com a crescente atividade terrorista na península do Sinai desde a queda do governo de Mubarak e o imparável fluxo de imigrantes africanos, o governo israelita decidiu reforçar a segurança na extensa fronteira com o Sinai. Uma moderna e bem vigiada cerca está em contrução nos mais de 200 quilómetros entre Eilat e Gaza. Até ao final deste ano estará completa.

Sabendo desta porta que se fecha no acesso a Israel, recentemente alguns migrantes africanos têm atravessado de barco o estreito Golfo de Aqaba, entre o Sinai e a Jordânia, entrando em território israelita pela fronteira oriental. Aí, além da cerca fronteiriça terão de evitar alguns campos minados. O desespero da fuga à miséria e violência diária nos seus países de origem leva os imigrantes a uma empreitada quase suicida.

Na pequena cidade turística de Eilat, no extremo sul de Israel, os africanos são já cerca de 5000, mais de 10% da população da cidade, trabalhando na indústria hoteleira e na construção civil. Porém, a maioria ruma a Tel Aviv, estebelecendo-se no sul da cidade. Há apenas 5 anos, os “sudaneses” em Tel Aviv eram cerca de 1000. Os bairros pobres de Shapira e Hatikva, na zona mais degradada da cidade em redor da Estação Central de Autocarros, têm experimentado uma verdadeira invasão africana. Ao longo dos últimos anos, têm chegado à cidade entre 1000 e 2000 africanos por mês. De acordo com algumas fontes, habitam atualmente estes bairros cerca de 40 mil infiltrados africanos, e 25 mil israelitas.

Até encontrarem um lugar para morar, durante os primeiros meses após a chegada a Tel Aviv, a maioria dos africanos dorme na rua, na entrada dos prédios ou parques da cidade. Outros dormem em casotas miseráveis. Sem casa de banho ou chuveiro, fazem as suas necessidades na rua e tomam banho com as mangueiras anti-incêndio. Ainda que apenas uma minoria esteja envolvida em atos criminosos, o número de queixas contra imigrantes ilegais africanos apresentadas na polícia aumentou mais de 50% no último ano. O clima de insegurança nos bairros do sul de Tel Aviv tem crescido, alimentado pelos casos relatados pelas notícias. Devido à atenção mediática que o tema tem alcançado em Israel, quase diariamente são noticiados casos de violência envolvendo os imigrantes: roubo, vandalismo, violação ou o abandono de dois recém-nascidos no hospital, no próprio dia em que nasceram, na semana passada.

A "invasão" de infiltrados africanos levou a vida dos residentes dos bairros a uma situação insuportável. É impossível sairem sozinhos à noite e a sensação de medo – real ou imaginário – é permanente. Em várias zonas da cidade, o parques infantis, os jardins públicos e até os pátios das escolas foram transformados em lugar de pernoita, ou mesmo residência fixa dos africanos. Todas as noites, grupos de jovens e adultos israelitas jogam nos parques públicos, numa atitude desafiadora – para marcar território – a fim de reconquistarem o espaço onde os seus filhos já não podem brincar em segurança. Os atos de violência contra os imigrantes também têm aumentado. Alguns locais onde se reunem foram incendiados por populares.

Neste triste panorama, o governo israelita decidiu começar a prender os imigrantes ilegais e repatriá-los para os seus países de origem. Esta operação apresenta uma série de problemas. Em primeiro lugar, por agora, apenas os naturais do Sudão do Sul serão repatriados. Depois de proclamar a independência no ano passado, o Sudão do Sul tem estreitado relações diplomáticas com Israel (que foi um dos primeiros países a reconhecer o novo país africano). Tendo terminado a guerra civil vivida na região durante mais de 30 anos, os sudaneses do sul poderão voltar para casa. O país é um dos mais miseráveis do planeta, apesar da enorme riqueza natural, incluindo grandes reservas de petróleo. Várias famílias de imigrantes sul-sudanesas voltaram para casa, com os filhos, alguns já nascidos em Israel e cuja língua materna é o hebraico. Aos jornalistas israelitas que acompanharam o repatriamento, as crianças desabafavam que queriam poder ir à escola, como em Israel.

Porém, os imigrantes naturais do Sudão do Sul, que começaram a ser repatriados a semana passada, são apenas uma pequena parte dos mais de 60 mil africanos ilegais em Israel. Mais de 30 mil provêm da Eritreia, uma das mais brutais ditaduras do Mundo, onde os emigrantes são considerados traidores ao regime e poderão ser perseguidos. Outros 15 mil chegaram do Sudão, incluindo a região de Darfur, onde há anos se desenrola um genocídio que, de acordo com algumas fontes internacionais, já causou a morte a quase meio milhão de pessoas. Nestes dois casos, a difícil situação dos países de origem dos imigrantes ilegais, torna impossível o seu repatriamento. Apesar de Israel ter relações diplomáticas com a Eritreia, o Sudão é considerado um “país inimigo”.

Membros da oposição ao governo e ativistas de direitos-humanos (que por vezes são uma e a mesma coisa) têm-se manifestado contra a decisão do governo de expulsar os ilegais. Ou pelo menos pela forma como está a ser feita. Porém, não parecem manifestar a mesma preocupação pelos residentes israelitas dos bairros onde os africanos ilegais são já a maioria. Alguns protestos de residentes contra os imigrantes tiveram a participação de políticos, em especial de direita. Em discursos inflamados alguns apelidaram os imigrantes como "um cancro na sociedade israelita", "um virus", e outras expressões marcadamente racistas.

A intervenção dos poucos políticos que estiveram nas manifestações não resolveu nenhum problema dos residentes dos bairros, e causou grande prejuízo tanto à defesa dos direitos dos moradores israelitas como dos imigrantes ilegais. As infelizes manifestações racistas deram novo alento aos comentadores de tudo o que se passa em Israel, que como é hábito, se apressaram a gritar slogans como "Estado racista", "Estado apartheid" e outros apodos do género. Incluindo alguns judeus americanos associados à causa palestiniana que não dispensam qualquer oportunidade para caluniar Israel. As expressões clichés de comparação com o Holocausto, a "falta de compaixão dos que foram perseguidos" e outros termos de auto-flagelação da consciência judaica foram abundantemente usadas pelos "ativistas". Dos humanistas estrangeiros ou dos nacionais, não se ouviram manifestações de apoio aos moradores dos bairros.

Para ter êxito nesta missão, a luta terá de ser feita de forma pacífica, sem violência e manifestações racistas. Não se pode legitimar ódio ou quaisquer ações violentas contra os estrangeiros. Esta não é uma campanha contra os africanos, mas contra a falta de acção das autoridades que pela sua inação, deixaram chegar a situação a um nível gravíssimo. A preocupação primordial terá de ser pelos próprios cidadãos israelitas e isso não é racismo. Não há nada de sábio ou razoável em querer ser "humanista" e generoso com os estrangeiros, se dessa forma se causa prejuízo aos cidadãos do próprio país. Afinal, como ensina a sabedoria judaica "os pobres da tua cidade estão primeiro".

Ao mesmo tempo que as autoridades israelitas procedem à repatriação dos ilegais africanos – até agora foram repatriados menos de 300 sudaneses do sul – desde o início do mês entraram em Israel pelo menos 800 imigrantes ilegais, que se encontram atualmente detidos.

publicado por Boaz às 10:15
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Terça-feira, 11 de Dezembro de 2007

Sudaneses em Jerusalém

Numa viagem de autocarro em Jerusalém, reparei recentemente num grupo de africanos no bairro de Talpiyot, uma das zonas comerciais e industriais da capital israelita. Pelas feições, a cara redonda e o tom muito escuro da pele, percebi que não eram etíopes, o principal grupo africano na população israelita, bem mais claros e de cara mais alongada. Provavelmente, eram sudaneses do Darfur. Tristes, sentados junto à entrada de um edifício comercial, suportando o frio do Outono de Jerusalém.

Desde o início do ano, Israel viu-se a braços com uma onda de refugiados provenientes de África, mais de 3000, a maioria deles originários de Darfur. Atravessaram o deserto sudanês – sabe-se lá os perigos porque passaram, os horrores que viram na sua terra –, cruzaram todo o Egipto e chegaram a Israel. Destino estranho, o que escolheram, dado que eles são muçulmanos. Com milhões de quilómetros quadrados de terras muçulmanas, escolheram o minúsculo Israel - mais pequeno que o Alentejo - como porto de abrigo.


Caricatura do jornal Ventura County Star

Face a pressões internacionais, em especial de várias organizações de direitos humanos judaicas americanas, que se destacam por serem as mais activas pela causa de Darfur (como o Museu do Holocausto de Washington), o governo israelita autorizou a permanência daqueles que conseguiram entrar no país.

Depois de centenas de boat-people vietnamitas, que em 1977 foram acolhidos em Israel, desta vez foram refugiados de Darfur, que receberam asilo político. É uma situação excepcional. São muito poucos os não-judeus que conseguem receber esse acolhimento em Israel. E, ainda por cima, estes refugiados cidadãos de um país hostil e que não reconhece o Estado Hebraico. A lei israelita nega mesmo o asilo a qualquer cidadão de um “estado inimigo”, como é o caso do Sudão.

O dilema de Israel era entre permitir a sua estadia, criando um precedente que poderia gerar um ainda maior fluxo de refugiados em direcção ao país ou, expulsá-los para o Egipto, o país através do qual haviam chegado a Israel. E sabendo que no Egipto muitos refugiados sudaneses foram maltratados e mortos e outros recambiados para o Sudão, onde o mais provável era serem fuzilados à chegada, como centenas de milhar dos seus conterrâneos de Darfur.

O mundo continua a ignorar o drama de Darfur. As Nações Unidas chamam Israel de sociedade de apartheid, de regime brutal e racista. Libelos repetidos também por deputados do Parlamento Europeu, em especial da extrema-esquerda.

Os darfurianos chegados e acolhidos em Israel, de cujo Estado e de várias ONGs recebem assistência, incluindo escola para as crianças, são uma bofetada na cara dos cínicos que da Europa apontam o dedo a Israel. (Nem falo dos patifes da Liga Árabe que apoiam o governo de Cartum e vêm na questão de Darfur um assunto interno sudanês, ou da apatia criminosa das Nações Unidas).

Quantos sudaneses recebeu – ou se prestou a receber – a União Europeia?

publicado por Boaz às 20:21
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Sexta-feira, 7 de Setembro de 2007

O arco da crise

Com frequência, analistas, jornalistas e políticos referem-se à resolução do conflito entre Israel e os Palestinianos como a chave para a estabilização do Médio Oriente e daí, de todo o Planeta.

Recentemente, o Iraq Study Group (ISG) liderado por James Baker, antigo Secretário de Estado americano foi incumbido pelo presidente Bush de encontrar formas para vencer a guerra no Iraque, de uma forma mais rápida e menos custosa. Em sangue e dólares. A conclusão do ISG foi: "a resolução a disputa Israel-Palestina" é a chave para ganhar a guerra no Iraque.

A ideia da centralidade do conflito Israel-Palestinianos não é exclusiva de James Baker e seus associados. Kofi Annan, ex-Secretário Geral da ONU partilha da mesma ideia. E também, aparentemente, o seu sucessor Ban Ki-Moon, que recentemente disse a um jornal sul-coreano: "Se as questões no conflito entre Israel e a Palestina [sic] forem bem, outras questões no Médio Oriente... irão da mesma forma ser resolvidas."

Será o conflito entre Israel e os Palestinianos assim tão central no Mundo e mesmo no Médio Oriente?

Façamos então um passeio pelo Grande Médio Oriente, ao qual Tony Blair chamou "o arco da crise". Estendendo-se do Atlântico ao Índico, compreende 22 países. Dezasseis deles árabes, mais a Turquia, Arménia, Azerbeijão, Israel, Irão, Afeganistão e Paquistão. Todos foram fundados após o desmembramento de algum império colonial. Como primeiro sinal de instabilidade, saiba-se que nenhum destes estados goza de fronteiras inteiramente reconhecidas. Todos têm diferendos fronteiriços com um ou mais vizinhos, reclamando partes dos seus territórios. A maioria já travou guerras em consequência dessas reclamações.

Comecemos a digressão pelo Afeganistão. Reclama a soberania sobre a paquistanesa Província da Fronteira Noroeste. Na década de 1960, os dois países travaram uma série de guerras fronteiriças pelo controle da região. O Irão, por seu lado, insiste no direito de supervisão no oeste do Afeganistão baseado no Tratado de Paris de 1855. Iranianos e afegãos disputam ainda as águas de três rios fronteiriços, o Hirmand, o Parian e o Harirud.

O Paquistão desde 1947 mantém uma longa disputa territorial com a Índia pelo controle de Caxemira, desde a divisão do antigo Império Britânico da Índia, em dois estados, em 1947. Caxemira foi a origem de três guerras em larga escala e numerosos episódios de violência na fronteira entre os dois países. É responsável ainda pela corrida de ambos às armas nucleares, além de centenas de ataques terroristas, sobretudo na Caxemira indiana. Além de Caxemira, o Paquistão mantém uma disputa com o Irão sobre águas territoriais no Mar Arábico e sobre a nacionalidade de várias tribos de etnia Baluch que vivem dos dois lados da fronteira entre os dos países.

Numa escala muito maior, o Irão e o Iraque travaram uma série de guerras desde 1936 pelo controle o estuário do Shatt al-Arab. Um tratado de paz foi assinado em 1975, mas em 1980 Saddam Hussein invadiu o Irão, começando uma guerra de oito anos e que fez mais de um milhão de mortos nos dois lados. Desde a deposição de Saddam em 2003, o Irão redesenhou a fronteira a seu favor. E continua a reclamar o direito de supervisão sobre santuários xiitas no Iraque como Samara ou Karbala.


Irão, Esquadrão de fuzilamento nos primeiros anos da Revolução Islâmica.
Foto de Jahangir Razmi, fotógrafo iraniano. Prémio Pulitzer

A sul, e desde 1971, o Irão reclama dos Emirados Árabes o controle de três estratégicas ilhas no estreito de Ormuz, por onde flúi diariamente metade do petróleo do Mundo. A norte, luta com o Turquemenistão, o Kazaquistão, o Azerbeijão e a Rússia pelo Mar Cáspio. Os vizinhos pretendem a divisão deste mar interior conforme a extensão das suas fronteiras. Para reclamar a divisão equitativa que duplicaria a sua extensão do Cáspio, o Irão mantém desde 1995 uma marinha de guerra e impede as petrolíferas internacionais de explorarem gás e petróleo nas águas azeris e turcumenas que Teerão reclama como suas. Teerão tenta ainda manter um controlo da província de Khuzestan, rica em petróleo. A região teve uma maioria de população árabe até à década de 1940. Desde então tem sido sistematicamente "persianizada." Recentemente, várias tribos árabes residentes perto da fronteira iraquiana foram expulsas e substituídas por habitantes persas do centro do Irão.

O Irão é visto pelos países árabes como uma ameaça directa, em especial os Estados do Golfo. No entanto, mesmo entre estes, as relações não são amistosas. Apesar das relações tribais entre as famílias reais da região, a Arábia Saudita travou em 1955 uma guerra com Omã pelo controle do oásis de Buraimi, alegadamente rico em petróleo. Décadas de negociações não foram suficientes para se chegar a um acordo. No ano passado os Emiratos Árabes renunciaram a um tratado de 1974 com a Arábia Saudita, adivinhando-se uma terceira reclamação sobre o oásis.

Desde o final da década de 1990, o Qatar luta com os sauditas pela região de Khor al-Udaid, rica em petróleo. Em 2000, os sauditas anexaram a área à força, cortando assim a fronteira do Qatar com os Emiratos. O Qatar reclama do vizinho Bahrain o controle das ilhas de Hawar, travando uma guerra naval em 2001.

Entre a Arábia Saudita e o Kuwait, alegadamente os mais próximos dentre os Estados do Golfo, mantém-se o diferendo acerca da demarcação de fronteiras na chamada "Zona Neutra." Após a Guerra do Golfo de 1992-93, a fronteira do Kuwait com o Iraque foi estabelecida. Todavia, mesmo o parlamento eleito do Iraque não abdicou ainda da reclamação de soberania sobre as ilhas kuwaitianas de Warbah e Bubiyan e da parte sul dos campos petrolíferos de Rumailah atribuídos ao Kuwait pela ONU. A desconfiança em relação a Bagdade, levou o governo do Kuwait a erguer fortificações, cercas electrificadas, armadilhas anti-tanque e a implantar uma “terra de ninguém” que se estende numa faixa de 15 quilómetros. A Arábia Saudita tem em construção estruturas similares na sua fronteira com o Iraque.

A dinastia hashemita da Jordânia mantém há décadas uma reclamação de suserania sobre a província saudita de Hejaz, onde se situam as cidades santas de Meca e Medina, despojada do controle das tribos hashemitas em 1924 pelas tribos que compõem a actual família real saudita. A cada onda de pressão sobre a casa real saudita pela Al-Qaeda ou por militantes xiitas, de Amã ouvem-se apoios a um Hejaz independente.

O Iémen continua sem conseguir traçar a sua fronteira com Omã ao longo do Golfo de Hauf e no deserto de Rub al-Khali, “o vazio da Arábia”. Em 1999 travou uma guerra com a Eritreia pelo controle das ilhas Hanish, um arquipélago estratégico na entrada do Mar Vermelho.

Desde os anos de 1940, o Iraque e a Síria mantêm um diferendo com a Turquia pela divisão das águas do Rio Eufrates. Ainda, tanto a Síria como o Iraque reclamam a província turca de Iskanderun, onde os Árabes compõem 30% da população. A Turquia reclama o direito de supervisão do Norte do Iraque baseado no Tratado de Lausanne de 1923, em especial sobre as regiões petrolíferas de Mossul e Kirkuk e tem treinado e armado grupos tribais turcomanos na região. Na década de 1990, a Turquia actuou militarmente na região na sua guerra contra a milícia marxista curda do PKK.

A Síria reclama a totalidade do Líbano como parte da "Grande Síria", da qual reclama também fazerem parte a Palestina histórica e parte do Norte da Jordânia. Em quase 30 dos 50 anos do Líbano independente, a Síria manteve aí um exército de ocupação e esteve activamente envolvida nas três guerras civis libanesas. A Síria foi em grande parte responsável pela morte de mais de 100 mil libaneses e pela fuga de outros dois milhões e meio. No ano passado, a Síria e o seu maior aliado, o Irão, encorajaram o Hezbollah a travar uma guerra com Israel. Nos últimos anos, Damasco tem sido responsável por grande parte da agitação social e política no Líbano e por uma série de assassinatos políticos, incluindo o primeiro-ministro Rafik Hariri.

O Egipto, o maior dos estados árabes, mantém divergências fronteiriças com a Líbia e o Sudão. Na década de 1960 fomentou várias guerras por todo o mundo árabe. Desde a guerra 1958-62 na Argélia a um golpe de estado no Iémen que deflagrou uma guerra civil que se prolongou por seis anos e fez mais de 200 mil mortos. Recentemente, anexou partes do território sudanês e mantém um conflito intermitente com a Líbia sobre uma área do deserto Egípcio. Ironicamente, a sua única fronteira estável e reconhecida internacionalmente é aquela que o separa de Israel.

A Líbia é desde os anos 70 um dos grandes patrocinadores do terrorismo internacional. O atentado contra o avião da PanAm que se despenhou em Lockerbie e uma bomba numa discoteca alemã frequentada por soldados americanos estão no cadastro de Muamar Khaddafi. Mantém disputas com o Chade, a Tunísia e o Sudão. No Sudão desenrola-se um dos maiores desastres humanitários da actualidade, na região de Darfur. Centenas de milhares de mortos e mais de um milhão de refugiados, resultado dos massacres das milícias janjaweed apoiadas pelo governo central. Ao longo de várias décadas, o país esteve numa guerra civil. Árabes muçulmanos do Norte contra tribos negras cristãs e animistas do Sul. Mais de dois milhões de mortos e outros tantos refugiados até ao recente acordo de paz.

Marrocos, Argélia e Mauritânia têm lutado entre si pelo controlo do Saara Ocidental. A região foi anexada por Marrocos em 1975. Em retaliação, a Argélia tem apoiado a Frente Polisário, que reclama ser o governo legítimo do povo Saraui. Desde 1976 que Marrocos e a Frente Polisário travam uma guerra de baixa intensidade. Na década de 1990, Marrocos retribuiu à Argélia o seu apoio à Frente Polisario fechando os olhos à sangrenta campanha terrorista dos islamistas que custou a vida a mais de 250 mil argelinos.

Tudo isto é apenas uma síntese do que tem acontecido no "arco da crise". Nas últimas seis décadas, a região sofreu não menos de 22 guerras de larga escala em disputas de território e recursos, nenhuma delas tendo alguma coisa a ver com Israel ou os Palestinianos (se tem dúvidas, volte atrás e releia o artigo). Além disso, a história destes países tem sido dominada por séries de lutas domésticas, golpes de estado, ondas de violência étnica e sectária, em muitos casos com altos níveis de crueldade.

O Grande Médio Oriente tem-se caracterizado por uma crónica instabilidade, níveis baixos de desenvolvimento e atraso cultural. A região é a única zona do Mundo que, de um modo geral, passou ao lado da onda de mudanças positivas que se seguiram ao fim da Guerra Fria. Imprensa ou universidades privadas, sindicatos livres, partidos políticos ou liberdade de associação e expressão são realidades distantes. No século XXI, as linhas de produção das grandes marcas internacionais estenderam-se da Polónia ao Vietname ou ao Peru. Mas não à Síria ou ao Egipto. Nenhum destes estados tem, por exemplo, fábricas de automóveis ou de produtos de alta tecnologia.

Os déspotas que chefiam os estados entre a Mauritânia e o Paquistão há muito que pretendem desviar as atenções dos seus oprimidos súbditos com o sonho de atirar ao mar "o inimigo sionista". Como fazia o antigo presidente Nasser do Egipto, sempre que espreitava a ameaça da revolta política, logo se apressava a assegurar às massas do seu país e da "grande nação" árabe que a reforma política e social teria de esperar até que "o inimigo" fosse expulso da "nossa amada Palestina."

Para até um grupo de, aparentemente, homens sábios americanos, adoptar a mesma visão retrógrada e facilmente refutável, demonstra uma absoluta e perigosa ignorância da realidade.

Baseado num artigo de Amir Taheri, ex-editor do diário iraniano Kayhan, para a Commentary Magazine.

publicado por Boaz às 11:03
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Quinta-feira, 12 de Abril de 2007

Quem sobreviverá hoje?


Touloum, Chade. Campo de refugiados de Darfur, 13 Maio 2004.
Foto de Jerry Fowler, Colecção USHMM

Com a colaboração do Google Earth, o Museu do Holocausto dos Estados Unidos lançou uma nova prova contra a permanente negação do governo sudanês em relação às atrocidades no Darfur. As centenas de aldeias destruídas pelas milícias apoiadas pelo governo de Cartum estão agora assinaladas com chamas nas fotos de satélite da região de Darfur.

O próprio Museu no seu site, na secção "Alert - Responding today to the threat of genocide" (Alerta - Respondendo hoje à ameaça de genocídio) destaca a região de Darfur como uma das de maior risco de ocorrência de genocídio no planeta, a par da Chéchénia e da região de Nuba, também no Sudão. Além da permanente lembrança do genocídio Nazi contra os Judeus, é fundamental abrir os olhos aos flagrantes genocídios perpetrados actualmente.

A não desprezar.

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publicado por Boaz às 14:06
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Segunda-feira, 5 de Junho de 2006

As mãos no fogo, por Darfur

Será que ela verá a paz?

Não tenho grande esperança, vendo quem são os intervenientes e a sua folha de serviço, mas após três anos de combates, 200 mil mortos, 2 milhões de refugiados e incontáveis actos de barbárie, o Governo do Sudão e a principal força rebelde de Darfur assinaram finalmente um acordo de paz.

PS - Sudão e Israel têm muito pouco a ver um com o outro. No entanto, nos últimos 18 meses, um facto tem ligado os dois países: o fluxo de refugiados sudaneses rumo a Israel. Serão cerca de 200, muçulmanos e cristãos. Há agora a questão de como lidar com eles, uma vez que entraram de forma ilegal no país, a partir da fronteira egípcia. Grupos de direitos humanos pedem ao Governo de Olmert uma decisão ponderada tendo em consideração o facto de muitos deles poderem ser presos e torturados pelas autoridades de Cartum, por dissidência política.

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publicado por Boaz às 20:34
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Terça-feira, 26 de Outubro de 2004

70000

É o número das vítimas mortais em Darfur, no Sudão. A última estimativa oficial das Nações Unidas era de 50000. Os refugiados são mais de 1,5 milhões.

Há cerca de um mês - na altura dos 50000 mortos - a ONU resolveu conceder, benevolentemente, ao amigável governo de Cartum, 30 dias para deixar de apoiar as milícias que massacraram aldeias inteiras no Darfur e para facilitar o apoio humanitário. Pouco ou nada foi feito: afinal, o número de vítimas aumentou bastante.

Esperamos que a ONU não aguarde que aos anteriores 50000 se acrescente mais um zero, para então fazer alguma coisa sem ser dar mais tempo aos assassinos para acabarem o trabalho.

Mais informação no blog Sudan: The Passion of the Present.

publicado por Boaz às 16:13
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