Quinta-feira, 8 de Março de 2012

Jihad casher? – os fanáticos estão entre nós

Desde há alguns meses que uma das questões mais discutidas na sociedade israelita é a relação com o público haredi, ou ultra-ortodoxo. É uma comunidade fechada, com as suas próprias leis e que se opõe a muitas regras da sociedade moderna e secular. Particularmente controversa é a situação das mulheres nestas comunidades. O assunto invadiu as notícias e as conversas de rua após uma série de acontecimentos na cidade de Beit Shemesh, perto de Jerusalém.

Há anos que esta cidade mista – secular, ortodoxa-moderna e haredi – tem vivido episódios de conflito entre as suas várias comunidades. Para albergar a crescente população haredi, com uma das mais altas taxas de natalidade do mundo, novos bairros têm sido construídos em Beit Shemesh, alguns deles exclusivos para os ultra-ortodoxos. O município é acusado pelos membros de outras comunidades de favorecer o público haredi. Nos bairros vizinhos, ou nas poucas zonas em que as populações se misturam, têm ocorrido actos de violência.

O conflito subiu de tom em Setembro de 2011 com a abertura da escola de meninas Orot Banot, destinada ao público sionista-religioso, situada numa zona limítrofe com um bairro ultra-ortodoxo. Com frequência, grupos de fanáticos haredim ofendiam as alunas em frente à escola, por considerarem o seu modo de vida menos religioso e logo, desprezível. A polícia fez algumas detenções, mas os atos de intimidação continuaram. Liderada por alguns ultra-ortodoxos anti-sionistas mais radicais, uma manifestação foi organizada em frente à escola.


"Mulheres talibã" em Beit Shemesh | Onde está Hillary Clinton?, apagada por Photoshop.
Ativista na secção masculina de um autocarro separado | A histórica foto de Rosa Parks

Clamavam pela "manutenção da pureza dos bairros heredim contra os estrangeiros que conspiram para os profanar, apoiados pelo regime maléfico", numa referência clara ao Estado de Israel, desprezado por várias correntes no Judaísmo Haredi. Em Dezembro do ano passado, a vergonhosa situação em Beit Shemesh atingiu o auge, quando Naama Margolese, uma menina de 8 anos, apareceu na televisão descrevendo como alguns fanáticos a cuspiram e chamaram "prostituta" por frequentar a escola Orot Banot. Uma onda de choque percorreu a sociedade israelita, levando à intervenção das autoridades políticas, civis e religiosas.

Linhas de autocarro segregadas

Esta polémica das relações da sociedade haredi com o resto da população de Israel não é recente. Já nos primeiros anos da independência, eram comuns conflitos em alguns bairros de Jerusalém devido à violação do Shabbat. As “Guerras do Shabbat” tinham lugar num cruzamento do bairro de Mea Shearim, desde então chamado Praça do Shabbat. A polémica aumentou em 1997, com o aparecimento de linhas de autocarro em que homens e mulheres viajam em secções separadas. Os homens adiante. As mulheres atrás. Estas linhas de autocarros ligam cidades e bairros com numerosas populações de haredim, como Jerusalém, Bnei Brak, Ashdod, Arad ou Elad. São conhecidas como Linhas "Mehadrin", usando (indevidamente) uma expressão na Lei Judaica – normalmente usada nas regras da alimentação judaica – e que significa o nível mais estrito da lei, sem leniências. Várias autoridades rabínicas declaram-se contra a segregação – ainda mais sendo forçada, mas muitos mostraram-se compreensivos ou simplesmente calaram-se perante a situação.

De tempos a tempos, eram noticiados casos de mulheres maltratadas por fanáticos por se sentarem na “área masculina”. Algumas faziam-no por mero engano, pensando tratar-se de um autocarro como qualquer outro. Outras de propósito, por não concordarem com a descriminação, tentando desafiá-la. Quando estourou a polémica em Beit Shemesh, movimentos feministas – em especial liderados por não-religiosos – organizaram "invasões das linhas mehadrin". Grupos de mulheres apanhariam os malfadados autocarros segregados, sentando-se na parte da frente, e enfrentando a fúria dos opositores. Porém, avisados da planeada ação de protesto, os utilizadores ultra-ortodoxos dos autocarros, mantiveram a compostura.

Dos autocarros, a campanha de separação dos sexos passou para os lugares públicos. Em Mea Shearim, o mais famoso bairro haredi da Cidade Santa, e em alguns bairros de Bet Shemesh, há já muito tempo que nas principais ruas são visíveis sinais que alertam as mulheres – em especial as turistas – para se vestirem de forma "modesta": saias e mangas longas, blusas fechadas até ao pescoço, roupas folgadas que não revelem as formas do corpo. É com frequência que mulheres que não cumprem as regras de vestuário estipuladas nos cartazes são atacadas – verbal ou fisicamente – ao passar por estas áreas. As sortudas são alvo de cuspidelas ou insultos, mas não faltam casos de mulheres atingidas por sacos com urina ou lixívia, atirados de uma janela por algum vigilante.

Uma vez por ano, durante semana do festival de Succot, as ruas de Mea Shearim enchem-se de fiéis e turistas, para assistir às festividades de Simchat Beit Hashoeva, num dos dias da festa. A confusão e o enorme fluxo de pessoas nas ruas, levaram os fanáticos a impor mais uma das suas "regras de decência": separação das ruas. Um lado para os homens, outro para as mulheres. Com uma barreira a separá-los. Para manter as mulheres, ainda que vestidas de forma modesta, longe da vista dos homens, e salvá-los de eventuais pensamentos lascivos.

Talibanismo judaico

No mesmo bairro de Mea Shearim, um gangue de fanáticos conhecido por Sikrikim (em homenagem aos Sicários, um grupo de guerrilheiros judeus que aterrorizaram os Romanos durante a ocupação da Terra Santa, há dois milénios) começou a ameaçar os lojistas, caso não introduzissem medidas de separação dos sexos nas suas lojas. Filas separadas para pagamento, ou exclusão de mulheres a trabalhar nas caixas registradoras, foram algumas das medidas impostas. Em nome de algo que consideram ser "a moral". Uma das lojas resistentes, uma loja de livros e artigos judaicos especialmente popular entre os turistas, foi várias vezes vandalizada, por resistir a cumprir as ordens dos Sicários. Para além das "regras da modéstia" era imposta a exclusão de venda de livros em inglês, e de alguns autores proscritos pelos Sicários, incluindo todos os escritores sionistas-religiosos. Até que, farto dos prejuízos e da inoperância da polícia, o dono cedeu à maioria das demandas dos fanáticos.

De vez em quando, face à crescente reclamação contra o fanatismo em Mea Shearim, a polícia prendia um ou outro membro dos Sikrikim, para os soltar pouco tempo depois. Não deixa de ser irónico que a polícia de Jerusalém consegue entrar em força nos bairros árabes da zona oriental da cidade para prender (suspeitos ou confirmados) terroristas e toda a espécie de criminosos, ao mesmo tempo não se atreva a impor a ordem no bairro judeu de Mea Shearim. Aí, protestos organizados pelos fanáticos resultam frequentemente na vandalização de propriedade pública, como paragens de autocarro, contentores do lixo, e raramente, a destruição de montras de lojas e queima de carros.

A paranóia sexual haredi que impõe o desaparecimento forçado das mulheres da esfera pública chegou também aos jornais. Ao folhear qualquer jornal haredi, não se encontra qualquer imagem feminina, por mais discreta que esteja vestida. Num dos casos famosos, uma foto de Hilary Clinton durante a operação de captura de Osama bin Laden, foi publicada num jornal haredi de NY. Esta tendência, até há pouco exclusiva dos jornais ultra-ortodoxos, parece estar a alastrar também a alguns sectores do público sionista-religioso. Numa enorme crise de identidade e uma liderança gravemente débil, vários sectores do público sionista-religioso tendem a aproximar-se da ideologia ultra-ortodoxa, que muitos começam a ver como “mais religiosa, pura, judaica”.

Das imposições de vestuário aos não-aderentes às tradições dos locais, à separação nos autocarros, lojas e ruas, não demorou muito até ao surgimento de uma seita local de mulheres de burka. Mal vistas pela generalidade da população e dos líderes religiosos, as “mulheres taliban” não serão mais do algumas dezenas. São insultadas na rua e excluídas de entrar nas lojas, por aderirem a uma indumentária vergonhosa e sem qualquer base na tradição judaica. Cartazes afixados nas paredes de Mea Shearim condenavam a seita talibã como epikoros, hereges. A Eda HaCharedit, a maior organização haredi em Israel, juntando as principais correntes ultra-ortodoxas, emitiu um decreto declarando as burkas como um “fetiche sexual”, tão depravado como a roupa indiscreta ou a nudez. Todavia, comandadas por alguns fanáticos manipuladores, as “mulheres talibãs” resistem à oposição geral, mesmo após a prisão da líder do grupo.

Hilul Hashem, profanação do nome de Deus

É importante ressalvar que, nenhuma destas infâmias tem qualquer suporte na Halachá, a Lei Judaica. Apesar de existirem regras de modéstia estipuladas, estas são muito mais lenientes do que os cartazes de Mea Shearim ou os abusivos líderes das "mulheres talibã". E, tal como noutras coisas na Halachá, nenhuma regra pode ser imposta à força. E muito menos, mediante a humilhação. Neste rol de vergonha e enorme profanação do nome de Deus, várias perguntas saltam para a discussão: porque não se manifestam os próprios religiosos contra este fanatismo? Em especial as mulheres ultra-ortodoxas, que são as primeiras vítimas? E os rabinos, que são a maior autoridade nestas comunidades?

Para responder a estas questões, é preciso entender a sociedade ultra-ortodoxa. As suas regras de autoridade não são as mesmas para a sociedade em geral. Os problemas raramente são denunciados às autoridades civis, vistas como anti-religiosas e hereges. Praticamente todas as controvérsias se discutem ou resolvem através da influência dos grandes rabinos, sem qualquer discussão pública ou debate aberto. Em inquéritos de rua feitos por jornalistas em bairros ultra-ortodoxos, a maioria das mulheres preferia não falar da separação nos autocarros, nas clínicas ou na rua. Outras, falavam do assunto, mostrando a sua concordância com a situação, mas de forma visivelmente pouco convincente.

Numa sociedade onde as mulheres têm um papel secundário, são poucas as que se atrevem a desafiar a crescente exclusão dos seus direitos e desaparecimento forçado da vida pública. Mesmo os homens ultra-ortodoxos que discordam destes ditames do fanatismo mantêm-se em silencio, na maioria dos casos. Ser considerado "liberal" ou "moderno" é um anátema na sociedade haredi. Essa etiqueta implicaria marcar a família de forma fatídica, podendo os filhos ser excluídos do acesso às melhores escolas, prejudicar as hipóteses de conseguir um bom casamento, até à expulsão da comunidade. Mesmo aguentando a custo a situação vigente, poucos se atrevem a enfrentar tal perspetiva. Praticamente isolados do resto do Mundo, desconhecedores ou opositores das regras da sociedade secular e moderna, a exclusão da comunidade da qual dependem seria uma punição insuportável.

Inclusive os líderes religiosos haredim, supostamente todo-poderosos, demonstram ter pouco poder, dominados pelo crescente polvo originado em meia dúzia de lunáticos como os Sikrikim. Também eles receiam ser apelidados de “liberais”, afrontando o modo de vida fechado da comunidade. Os "guardiães da tradição", com o seu silêncio agem contra essa mesma tradição, contrariando o mandamento da Torá: "Não ficarás em silêncio enquanto o sangue do teu irmão é derramado" (Levítico/Vaicrá 19:16). A barreira de separação foi sendo aumentada pouco a pouco, e ninguém se atreve a derrubá-la, ou pelo menos a descê-la a um nível sensato. Salvo algumas excepções. Como o rabino Ovadia Yosef, uma das mais respeitadas autoridades rabínicas atuais, que emitiu uma eloquente condenação do fanatismo; o rabino Haim Amsalem, líder de um novo movimento cívico que une seculares e religiosos, ou o Rabinato-Chefe de Israel. Porém, estas autoridades, ainda que citando fontes irrefutáveis da Lei Judaica nas suas posições, são olhadas como modernistas dentro da ortodoxia, não sendo aceites pelos mais radicais.

Mais do que uma luta pelas regras da modéstia, esta controvérsia prende-se com uma luta pelo controle da própria sociedade haredi. Alguns sectores mais conservadores sentem que o seu modo de vida está ameaçado. Pelo secular Estado de Israel. Pela modernidade imparável que aos poucos começa a ameaçar algumas das suas tradições. A crescente influência da Internet e outros meios de comunicação possibilitou a troca de ideias fora dos círculos fechados das cortes rabínicas, a discussão de temas até agora mantidos debaixo do pano e a publicação de opiniões dissidentes. Não é de admirar que alguns líderes haredim tenham banido o uso da Internet, mesmo as páginas ortodoxas. Porém, as ordens dos líderes são cada vez menos escutadas pelos fiéis, em especial os jovens. Páginas como “Kikar Hashabbat” ou “Chaderei charedim” discutem abertamente temas tabus dentro da sociedade haredi e têm milhares de leitores e comentadores. Assim, face à crescente liberalização, alguns sectores reagem com o extremismo.

Procura-se Vered Ganim

Falta alguém de dentro da própria sociedade haredi, ou alguém de fora, que se oponha ao fanatismo sem provocações desnecessárias. Nos anos 60, para lutar contra a descriminação dos Negros no Sul dos EUA, uma mulher simples recusou sentar-se nos bancos traseiros dos autocarros, destinados aos passageiros "de cor", símbolos do seu estatuto de "segunda classe". Rosa Parks desafiou a descriminação de forma não violenta, mas determinada. Em Israel procura-se uma mulher desse género, uma Vered Ganim (tradução literal do nome Rosa Parks).

O caminho para a harmonia social entre os vários sectores da sociedade judaica em Israel ainda é longo. É precisa uma coragem cautelosa para tomar medidas que resolvam a situação. Às forças de autoridade para deter ações criminosas dos fanáticos, demonstrando que o crime não compensa. Aos políticos, preocupados em manter as frágeis coligações políticas que juntam ideologias opostas em nome da conveniente maioria parlamentar. Aos líderes religiosos, temerosos de parecerem "liberais", preocupam-se mais com a sua própria imagem de "guardiães da tradição" do que do bem e a unidade do povo. Aos seculares, pela sua geral falta de entendimento da sociedade haredi e profundos preconceitos contra ela, que muitas vezes tentam enfrentar os problemas de forma declaradamente provocatória, aumentando as ofensas mútuas.

publicado por Boaz às 16:35
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Domingo, 12 de Fevereiro de 2012

Passerelle de Jerusalém

Na maior parte das sociedades que integram o chamado Mundo Ocidental, seguidoras fiéis das regras da moda que mudam a cada estação, quase todas as pessoas se vestem de forma idêntica. Apesar da abundância de estilos, de preços e marcas, a roupa não será um ponto central na identificação das pessoas. Tirando talvez os integrantes das consideradas "sub-culturas".

Pelo contrário, em Israel, a maneira de vestir pode dizer muito mais sobre uma pessoa do que somente o seu lado estético. Em muitos casos, as mudanças sazonais das passerelles de Paris, Milão ou Nova Iorque não afetam minimamente os roupeiros locais. Obviamente, esta regra não inclui os habitantes seculares. Atentos às modas mundiais, estes vestem-se como qualquer pessoa (dita) moderna em qualquer lugar do mundo. As lojas das grandes marcas internacionais estão presentes nos centros comerciais das principais cidades e as marcas locais seguem as tendências ditadas pelos gurus da moda.

Entre as 613 mitzvot (mandamentos) da Torá encontram-se algumas sobre a forma de vestir. Desde a proibição de uso de shaatnez – a mistura de lã e linho num mesmo tecido, que era exclusiva para as roupas sacerdotais; à obrigação de todas as peças de vestuário masculinas com quatro cantos terem tzitzit– uns fios presos nos cantos da roupa com uma série de nós. Vagamente, é mencionada a obrigação das mulheres casadas cobrirem o cabelo. O valor do recato das mulheres é citado em vários versículos por todas as Escrituras.


Haredi reza no Muro Ocidental, com shtreimel,
o estimado chapéu de pele usado por algumas correntes hassídicas no Shabbat e Festas.

As peças de vestuário que mais servem de identificação em Israel são as coberturas de cabeça. Kipáou chapéu para os homens. Lenço, chapéu ou peruca para as mulheres. Em cada um destes elementos, há inúmeras variações que, para os conhecedores são quase um cartão de apresentação pessoal e um símbolo de identificação ideológica. Curiosamente, ainda que seja um dos mais reconhecidos símbolos judaicos, não existe nas Escrituras e nas fontes antigas da Lei Judaica qualquer menção à obrigação de os homens cobrirem a cabeça permanentemente. Porém, nas fontes haláchicas mais recentes, este costume passou a obrigação.

De acordo com a tradição judaica atual, um homem judeu que não cobre a cabeça fora da sinagoga, declara-se dessa forma como "não religioso". Pode ser que seja o chamado massorati, o tradicionalista que cumpre Shabbat e Cashrut (as regras alimentares judaicas), mas que não se integra na maioria das regras da "ortodoxia". Para ele o uso da kipáestará reservado às rezas na sinagoga e às refeições festivas.

O estilo da kipá pode definir a aderência a uma ou outra ideologia política ou corrente religiosa. As kipot tricotadas identificam os sionistas religiosos ou ortodoxos modernos. As kipot de tecido preto, os ultra-ortodoxos. Se forem de pano liso, divididas em seis "gomos", indicarão os adeptos da corrente Chabad; em veludo, outras corrente hassídicas. As kipot tricotadas de grande tamanho são emblemas dos judeus mais nacionalistas, residentes em alguns colonatos específicos na Judeia e Samaria. Se forem parecidas com um gorro e com um pompom no topo, as kipot tricotadas identificam os fiéis (ou meros simpatizantes) do místico rabino hassídico do século XVIII, Nachman de Breslev. Muitas das kippot dos "Nachmans" têm bordado o mantra do grupo: "Na Nach Nachma Nachman MeUman". Todavia, a identificação através da kipánão é 100% garantida, já que alguns homens usam modelos normalmente usadas por membros de outras correntes. Por vezes, por uma questão de “moda”.

Os ortodoxos modernos vestem-se praticamente como qualquer pessoa em outras sociedades ocidentais. Porém, ainda que seguindo em certa medida as regras da moda, elas são combinadas com os preceitos judaicos. Ao contrário, os homens ultra-ortodoxos vestem-se invariavelmente de branco e preto. Branco para as camisas. Preto para o resto do roupeiro. Os chapéus negros são outros elementos de identificação entre as várias escolas do judaísmo ultra-ortodoxo. Existem dezenas de modelos, alguns com pequenas diferenças entre si, que somente um especialista em indumentária hassídica saberá distinguir. Os partidários da corrente Chabad usam o fedora, um modelo de chapéu popular na Europa no início do século XX, usado pelos seguidores desta corrente hassídica desde que o seu último Rebbe (o líder espiritual Chabad) adotou esse modelo de chapéu.

Ao contrário de muitas outras correntes do Judaísmo hassídico, os judeus Chabad não usam os chapéus de pele nos dias festivos. Estes chapéus – chamados em íidiche shtreimel ou spodik, conforme os modelos – são altamente apreciados pelos judeus hassídicos. Em geral, o primeiro shtreimel é usado no dia do casamento, oferecido pela família da noiva. Em algumas escolas hassídicas, os rapazes começam a usar shtreimeldesde a cerimónia de Bar Mitzvá, aos 13 anos, quando atingem a maioridade religiosa.

Feitos com a pele de coelho, marta, arminho ou cauda de raposa, podem custar vários milhares de dólares. Há poucos meses, o governo de Israel decidiu banir a importação de peles, consciente da crueldade a que são sujeitos os animais criados para a indústria de peles. Porém, a lei manteve uma cláusula de excepção para as peles usadas nos shtreimels. Houve agitação entre as hostes hassídicas perante a possibilidade de ser banido o seu estimado costume peludo. Todavia, existem hoje alternativas em pele sintética que custam somente algumas centenas de dólares. Poupa-se no chapéu e no sofrimento animal.

Em conjunto com os seus chapéus negros ou shtreimels, os judeus hassídicos usam largas capotas negras. Tal como os chapéus de pele, eram um vestuário típico no clima agreste Europa Oriental, parecendo totalmente deslocados do calor estival de Israel. Os modelos usados nos dias da semana são austeros e lisos, enquanto os de Shabbat podem ter belos padrões. Alguns Rebbes hassídicos, respeitados como soberanos absolutos, costumam usar magestosas capotas bordadas com motivos dourados.

A maior parte destes elementos do vestuário dos judeus ultra-ortodoxos aplicam-se tanto aos adultos como aos rapazes, que desde tenra idade começam a vestir-se como os seus pais, das capotas aos chapéus negros. A indumentária hassídica, é marcada pela aderência estrita às regras da modéstia, excluindo as cores vistosas. Porém, honestamente, é difícil parecer modesto quando se ostenta um enorme chapéu de pêlo valendo centenas ou milhares de dólares e uma longa capota, ainda que seja de austera cor negra.

Entre as mulheres judias, existem as mesmas diferenças de vestuário, de acordo com o nível de religiosidade e a corrente judaica a que pertencem. Não é costume uma mulher religiosa usar calças, consideradas vestuário exclusivamente masculino. Ainda assim, nos últimos anos surgiram modelos de calças de modelos folgados, adotados por algumas mulheres mais liberais dentro da ortodoxia.

De acordo com a Lei Judaica, uma mulher casada deve cobrir o cabelo. O espectro da cobertura de cabeça feminina vai dos lenços às perucas, passando por uma grande variedade de barretes e chapéus. As mulheres sionistas religiosas (ou da ortodoxia moderna) são as que cobrem a cabeça com a maior variedade de estilos. Algumas usam apenas uma bandana que deixa a maior parte do cabelo descoberto. As residentes em alguns colonatos da Judeia e Samaria – esposas e mães dos tais homens de largas kipottricotadas – usam vistosos lenços amarados das mais diversas formas. Algumas combinam vários lenços entrelaçados, construindo turbantes que variam entre a elegância alegre e o absurdo carnavalesco.

Entre as mulheres ultra-ortodoxas, as seguidoras do movimento Chabad destacam-se por cobrirem a cabeça somente com perucas. Noutras correntes chassídicas são comuns as toucas, algumas de modelos medonhos. Algumas mulheres casadas, mais jovens ou mais modernas, combinam com elegância a peruca com um pequeno barrete. É bem provável que Israel seja hoje o maior mercado mundial de perucas femininas e chapéus masculinos.

Entre os árabes, a forma de vestir também é um símbolo da sua religiosidade. Em termos de vestuário, os cristãos são indistintos dos judeus não-religiosos. Ainda assim, por uma tradição do Médio Oriente, não é costume ver uma mulher árabe, mesmo não-muçulmana, com um decote pronunciado ou uma micro-saia. Os homens muçulmanos vestem-se maioritariamente como qualquer homem moderno. Somente entre os mais velhos, ou os mais tradicionalistas, alguns usam abayas, as túnicas brancas, cinzentas ou castanhas típicas da Arábia e cobrem a cabeça com um barrete (muito parecido com uma kipá branca tricotada) ou o keffiyeh, o lenço típico dos beduínos do deserto popularizado por Arafat. Uma moda entre os jovens árabes é o uso de quantidades industriais de gel no cabelo, para manter impecáveis os seus penteados estranhos.

Os hijabs, lenços usados pelas mulheres e raparigas muçulmanas que cobrem o cabelo, tendem a ser coloridos, com lantejoulas ou bordados. Muitas famílias tradicionais muçulmanas começam a cobrir o cabelo das filhas assim que atingem a puberdade, ou ainda antes. Apesar de ocultarem a maior parte do corpo, muitas mulheres muçulmanas religiosas usam calças, por vezes justíssimas. As mais modestas usam casacos enormes, até aos pés, mesmo no Verão. E, o que os homens árabes exageram no uso de gel de cabelo, as suas mulheres exageram na maquilhagem. Contradições das leis do recato.

Em Israel, e mesmo nos Territórios Palestinianos, é muito raro encontrar mulheres completamente cobertas com o niqab, o véu islâmico que deixa apenas os olhos à mostra. Apesar das manifestações de fanatismo islâmico entre os Palestinianos, estes contam-se entre os muçulmanos mais seculares do Médio Oriente. A cultura ocidental também se manifesta na sociedade islâmica e, apesar dos movimentos que tentam evitar essa crescente influência, hoje em dia muitas jovens muçulmanas já dispensam o uso do véu e da túnica, vestindo-se ao estilo ocidental.

Quem visite Israel poderá encontrar toda a espécie de estilos e tendências de vestuário. Em cidades como Jerusalém ou Haifa, onde se misturam judeus e árabes, religiosos e seculares, a variedade nas formas de vestir dos residentes despertam a curiosidade dos turistas. Decidi escrever este artigo depois de verificar como algumas pessoas chegam ao Clara Mente. Quase todas as semanas, alguém procura em algum motor de busca da Internet pela expressão "O que vestir em Jerusalém". Os turistas portugueses podem usar as roupas da mesma estação que usam em Portugal. Aqui em Israel, o Verão também é quente (por vezes, muito quente) e o Inverno é ameno na costa e mais agreste nas montanhas, como em Portugal.

Espero que os leitores tenham entendido que podem vestir o que quiserem. Apenas tenham atenção ao visitarem um bairro ortodoxo como Mea Shearim, em Jerusalém, onde grandes letreiros em hebraico e inglês pedem para o respeito das regras da modéstia dos residentes. Estão avisados.

publicado por Boaz às 21:55
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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Os moicanos de hoje

23 de Março de 2006, por volta das 11 da manhã. Tinha acabado de passar o Bet Din (tribunal rabínico) que tinha julgado a minha conversão ao Judaísmo. O rabino que me aceitara na Comunidade Judaica de Lisboa e com quem tinha começado a estudar, dois anos antes, tinha-me acompanhado naquele momento crucial no processo de conversão. Foi em sua homenagem que escolhi o meu nome hebraico, Boaz.

À saída do edifício, o rabino disse-me, apontando as minhas têmporas: "Agora vais ter de deixar crescer as payot". "Naaa, acho que não", respondi, desinteressado em aceitar aquele costume. Porém, dois ou três meses depois, quando voltei a cortar o cabelo – a primeira vez que cortei o meu próprio cabelo – deixei sem cortar uma área acima das orelhas.


Enrolar as payot. É quase um vício daqueles que seguem este costume judaico.

A Torá proíbe aos homens judeus cortar completamente os cantos da cara – payot, em hebraico, baseada no versículo: "Não cortarás o cabelo dos cantos da vossa cabeça, e não rasparás [com navalha] a tua barba" (Levitico/Vaikrá 19:27). Umas das explicações para esta lei – se é possível explicar completamente os mandamentos da Torá – é distinguir os Judeus dos Gentios. Os judeus iemenitas tinham (e alguns ainda mantém) o costume de usar payot especialmente longas, às quais chamam "simanim" (sinais), exatamente por servirem de sinal de distinção com os não-judeus. Uma consequência desta proibição foi a difusão do costume de deixar crescer o cabelo nos cantos da cara entre alguns sectores judaicos mais ortodoxos. Ainda que esse não fosse o fundamento desta lei. A proibição é o corte completo do cabelo nos cantos da cabeça, sem haver qualquer obrigação de deixar crescer as payot.

Antes que os meus caracóis crescessem até poder prendê-los atrás das orelhas, habituei-me às piadas dos colegas da yeshivá. Diziam que as minhas pequenas payot pareciam orelhas de urso. Porém, nos meses seguintes, os tufos de cabelo junto às orelhas foram crescendo e foi possível "adestrá-los" atrás das orelhas. Acabaram-se aquelas piadas. Começariam outras.

Em algumas ocasiões, usava os "canudos" bem enroladinhos e presos atrás das orelhas, quase impercetíveis. Assim os usei em 2007, da segunda vez que voltei a Portugal depois da minha mudança para Israel. Por alturas do meu casamento, as minhas payot já quase alcançavam a altura dos ombros. Para as fotos na boda, usei-as enroladas e metidas atrás das orelhas. O balanço das danças depressa as fizeram saltar para fora do esconderijo. Alguns meses depois de casar, passei a usar os caracóis sem estarem colocados atrás das orelhas. Isso, junto com a minha barba ruiva, podia dar-me um ar marcadamente ultra-ortodoxo, ainda que essa não seja a corrente judaica que eu sigo.

No meu quarto regresso a Portugal, em 2009, em nenhum momento escondi as payot atrás das orelhas ou debaixo da kippá. Fosse no encontro com os amigos ou nas idas ao supermercado em Leiria ou na Batalha, a vila onde cresci, ou nos passeios em Lisboa. Se havia olhares de estranheza pelo meu aspecto tão incomum nas ruas portuguesas, nunca os percebi como hostis. Noutras paragens na Europa, por razões de segurança – inclusive por perigo de vida – teria sido recomendável ocultar aquele sinal judaico tão evidente.

Nos princípios de 2011, as minhas payot levaram o primeiro grande corte. Antes de uma entrevista importante sobre uma proposta para trabalhar como líder comunitário e professor de escola judaica numa cidade da Argentina, fui aconselhado a realizar uma séria tosquia. Entendo que o tal aspeto “demasiado ortodoxo” poderia causar uma certa rejeição inicial, em especial numa comunidade pouco religiosa. Por esse valor mais alto, aceitei sacrificar as minhas payot que começara a deixar crescer há quase cinco anos.

Na semana passada, desferi o último golpe no que ainda restava. Fui a uma barbearia de Jerusalém, que frequentara várias vezes, situada no bairro ultra-ortodoxo de Mea Shearim. Mera provocação: ir justamente ali cometer tamanho sacrilégio! No sofá da barbearia estava sentado um judeu ultra-ortodoxo, amigo do barbeiro. Naquela hora da tarde, sem clientes a quem servir, o barbeiro estava a estudar Torá com o amigo até à minha entrada no estabelecimento.

Ao sentar-me na cadeira do barbeiro pedi: "máquina número 3 de lado e tesoura em cima". Assim que pedi ao barbeiro que cortasse o meu cabelo com a máquina, o seu gesto imediato foi segurar uma das payot e passar a máquina à volta dela. Disse-lhe que poderia cortar também as payot. Parou subitamente, espantado com a minha ordem. "O que se passou?", perguntou ele. Respondi, "Nada, apenas desejo cortar as payot. Já as tive durante muito tempo. Chegou a altura de as cortar."

Nesse momento, iniciou-se uma discussão filosófica entre o barbeiro e o amigo. O barbeiro parecia decepcionado pela minha mudança de aspeto. Conversámos um pouco. Ao saber que eu já tinha saído da yeshivá e entrado no mundo do trabalho, o tal amigo sentado no sofá comentou “o trabalho é que guarda o juízo ao homem!”. Algo surpreendente vindo de alguém que pertence a um público onde muitos dos seus membros olham o trabalho como algo quase desprezível, defendendo que um homem deve apenas estudar Torá.

Curiosamente, o homem do sofá tinha umas payot longas, e uma barba a condizer. Numa declaração que parecia falar contra ele próprio, comentou que o aspeto dos ultra-ortodoxos os torna “os moicanos de hoje”. Com as suas longas (e muitas vezes desgrenhadas) barbas e as payot, são tão extravagantes como as coloridas cristas eriçadas que foram moda entre a juventude rebelde há algumas décadas.

Depois de terminado o trabalho do barbeiro, observou "Olha como ficou bonito! Tem barba, tem as payot que a Torá prescreve, que não precisam de ser longas, kipá e tzitzit à mostra. Abençoado sejas". Desejou-me boa sorte para o trabalho. E que sendo um judeu religioso no mundo do trabalho, que santifique o nome de Deus.

Este é um desafio dos judeus religiosos: manterem a prática religiosa no seu contacto com o mundo não-religioso. Muitos aspetos da “vida moderna” são contrários a certas determinações da Lei Judaica. Se do lado secular, existe uma certa aversão às manifestações exteriores de religiosidade, do lado religioso existe também a insistência em afirmar essa identidade religiosa. Ambos os lados se sentem ofendidos pela atitude do lado contrário.

Um judeu religioso, no seu trabalho, tem a dupla responsabilidade de ser um bom profissional e um bom cumpridor da Halachá. O seu aspeto exterior pode criar a aversão dos não-religiosos não só à sua pessoa, mas a todos os judeus religiosos. No caso em que ele seja o único judeu observante entre os colegas, ele será um embaixador de todo o público religioso. Um representante da tradição milenar judaica e um testemunho de que a Torá tem lugar e relevância em todas as eras, sem nunca cair em desuso, e muito menos parecer ultrapassada.

publicado por Boaz às 21:50
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Quarta-feira, 29 de Junho de 2011

Mazal tov!

Ainda que, como instituição o casamento esteja em grave crise, o dia da boda é – depois do nascimento – quase universalmente considerado a mais importante data da vida de alguém. Em todas as culturas, a formação de uma nova família é um evento rodeado de inúmeros rituais, tradições, formalidades e superstições.

As festas de casamento judaicas, apesar de serem ocasiões obviamente intensas e emocionantes, duram apenas algumas horas. Em Israel, pelo menos. Não um dia inteiro, como é normal nas bodas cristãs. Em Israel, o único dia de descanso semanal é o Shabbat, o Sábado. O Domingo, pelo contrário, é um dia de trabalho normal. Porém, de acordo com a Halachá, a Lei Judaica, não se realizam casamentos no Shabbat. Restarão os dias úteis para a realização do matrimónio. Depois do horário de trabalho, ao final da tarde, ou já de noite. Em Israel, a maior parte dos casamentos não se realizam em sinagogas. Toda a boda, incluindo a cerimónia religiosa, realiza-se normalmente num salão de festas. Ou num hotel.


Casamento judaico em Marrocos, de Delacroix. Museu do Louvre.

Tirando os membros mais chegados da família, é normal os convidados chegarem à boda diretamente do trabalho. A informalidade israelita não impõe o uso de gravata ou fato de cerimónia. Nem sequer ao noivo. Entre o público dati leumi, ou ortodoxo moderno israelita, é comum muitos dos homens, em especial os mais jovens, usarem sandálias que noutras paragens seriam consideradas adequadas a uma ida à praia. Se esse é o calçado que eles usam até no Shabbat, porque seriam impróprias para usar num casamento?

Entre os Judeus religiosos, muitos dos casais são unidos por intermédio de um shiduch. Algum intermediário combina o encontro entre o rapaz e uma potencial pretendente. Apesar de o shiduch ter a aparência de "casamento arranjado", a decisão de casar-se é feita exclusivamente pelos noivos e nem sequer pelos seus pais. A Lei Judaica proíbe absolutamente a coerção de uma das partes a casar-se com quem não deseja. Apenas o "empurrão inicial" e alguns conselhos intermédios são feitos pelo shadchan, o tal intermediário.

Após a oficialização do noivado – é comum haver uma pequena cerimónia – são poucos meses, ou mesmo só algumas semanas, até à realização do casamento. Não há tempo a perder, se o casal já deseja a união! Além dos inúmeros detalhes de uma qualquer cerimónia de casamento: a escolha do salão, do fotógrafo, da decoração, da banda ou do vestido de noiva, o casamento judaico implica outros trabalhos extras.

Em Israel não existem casamentos civis. Apenas religiosos. Sejam eles judaicos, muçulmanos, cristãos ou drusos. Para os Judeus, toda a burocracia do casamento tem de passar pelo rabinato local. Uma das dificuldades acrescidas nos últimos tempos é a exigência de uma "prova de Judaísmo". Com a imigração de gente de todo o mundo, com muitas pessoas nascidas de uniões não realizadas de acordo com a Halachá, ou que não possuem documentos que provam os casamentos familiares, torna-se mais difícil provar a cadeia familiar judaica. Sem a certeza de que se trata de duas pessoas judias (nascidas de mãe judia ou que passaram uma conversão ortodoxa), o casamento não pode ser realizado de acordo com a "Lei de Moisés e Israel".

Um dos fenómenos causados por estas exigências de prova de identidade – que por vezes revelam que afinal um dos noivos não é judeu – é a decisão de casar fora de Israel. Isto, no caso de o membro não-judeu do casal não desejar passar um processo de conversão. Desta forma, os noivos viajam para a Grécia ou Chipre e aí realizam um casamento civil. Esta união é reconhecida em Israel.

Depois de ultrapassada a burocracia do rabinato, existe a exigência de estudo das leis familiares judaicas. A separação do casal durante o período menstrual, rodeada de complicadas leis, é uma das mais respeitadas tradições do Judaísmo. Mesmo que não sejam cumpridas – em todo ou em parte –, pela maioria das famílias não-observantes, as futuras noivas judias passam pelo menos por uma classe sobre "as leis de pureza familiar". Entre os judeus religiosos, também os homens passam um período de estudo destas leis antes do casamento. Ao mesmo tempo, são estudados assuntos como a harmonia familiar e formas de a conservar, evitando a discórdia.

Nas vésperas do grande dia, noiva deve passar por uma imersão numa mikve, um tanque de águas usado para a purificação ritual. Também existe o costume de o noivo fazer uma imersão na mikve. Em algumas comunidades ultra-ortodoxas existe o costume de o futuro casal não se encontrar, e muitas vezes nem sequer falaram um com o outro pelo telefone, uma semana antes do casamento. Com isto pretende-se aumentar a saudade entre os dois e a ânsia de realizarem a sua união. No próprio dia do casamento cada um dos noivos costuma ser acompanhado por um "guardião". Alguém que os vigia e se assegura que tudo corre tranquilamente e não se deixam vencer pela ansiedade.

Como nos casamentos ocidentais, também o noivo judeu chega primeiro ao local da cerimónia. Há que tratar da assinatura da ketubá, o contrato matrimonial. Perante o rabino oficiante da cerimónia e duas testemunhas – e normalmente também o pai da noiva –, o noivo assina a ketubá, um documento que atesta os direitos da futura esposa e as obrigações do futuro marido. Nesta altura, enquanto o noivo trata das últimas formalidades legais, noutra parte do salão de festas a noiva encontra-se rodeada das amigas, sentada numa cadeira decorada.

Após a assinatura da ketubá, dá-se início à festa. A banda de música que anima a ocasião e os homens convidados rodeiam o noivo, que inicia um cortejo até ao lugar onde a sua noiva está sentada. Para os que cumprem o costume, esta é a primeira vez que os noivos se vêem numa semana. Aí, cobre-lhe a cabeça com o véu. Daí, o noivo, ladeado pelo pai e o sogro, é seguido pelo mesmo cortejo até à chupá, o pálio nupcial sob o qual será realizada a cerimónia religiosa. A noiva chega pouco depois acompanhada pela mãe e, às vezes, também a sogra.

A cerimónia é bastante simples e rápida. Sete bênçãos são recitadas sobre um copo de vinho. Às vezes, cada uma é recitada por um homem diferente, desde rabinos convidados até amigos e familiares dos noivos. Depois da segunda bênção, o noivo entrega a aliança à noiva, declarando que "Estás consagrada para mim através deste anel, como dita a lei de Moisés e Israel". "Consagrada, consagrada, consagrada!", os convidados declaram em voz alta. A ketubá é lida. Normalmente, este é um "momento morto" da cerimónia, uma vez que o contrato matrimonial está escrito em aramaico, uma língua que muito poucos entendem. Ao final das sete bênçãos, recorda-se Jerusalém: "Se eu te esquecer Jerusalém, que a minha mão direita perca a sua força; que a minha língua se cole ao meu palato se eu não te lembrar; se eu não te elevar ao topo da minha alegria".

O momento mais famoso da festa de casamento judaico é o quebrar do copo de vidro. Apesar de se seguir de um "Mazal tov!" (Boa sorte!) em uníssono, o ato simbólico de partir o copo representa a lembrança da destruição do Templo de Jerusalém e de como a alegria desta festa não pode ser completa, ao sabermos que o Templo continua ausente e o Povo de Israel ainda está distante da sua glória de outrora.

Os convidados invadem a chupá para saudar os noivos. Depois, novamente a barafunda do cortejo de convidados acompanha o casal desde a chupá até a um lugar onde os dois, pela primeira vez, se encontram a sós. É a hora de os convidados poderem sentar-se à mesa e comer. Porém, dentro de alguns minutos, quando os noivos voltarem, a euforia da festa será explosiva.

Nas festas de casamento judaicas ortodoxas, existe uma separação entre homens e mulheres. Ao menos na parte das danças. Homens e mulheres dançam em espaços distintos. E com uma barreira, mais ou menos alta, a separá-los. No caso das comunidades ultra-ortodoxas (e também alguns sionistas religiosos) até as mesas da refeição se encontram separadas por géneros.

O baile do casamento é uma ocasião frenética. É quase milagroso como não acontecem desastres durante a festa, dado o nível do frenesi. De mãos dadas em cadeia, os homens dançam em redor do noivo, cada vez mais rapidamente. O mesmo fazem as mulheres em volta da noiva. Os dançarinos mais enérgicos vão passando das rodas exteriores cada vez mais para o interior do furacão dançante. Um convidado mais entroncado levanta o noivo nos ombros. Outros levantarão o pai do noivo e o sogro. Rodando-os e balançando-os sob os aplausos delirantes dos convidados.

De tempos a tempos, o noivo é deixado sentar numa cadeira no centro da multidão de bailantes para descansar por alguns instantes. Suado e exausto, alguém lhe traz uma bebida. Perante o noivo sentado, alguns dos amigos fazem palhaçadas, acrobacias, exibições de dança ou até números de circo com fogo e malabarismos. Tomados pelo entusiasmo e assumindo a missão de alegrar os noivos, até respeitáveis rabinos se transformam em bobos da festa.

É preciso não esquecer que tudo isto acontece num dia de semana. E amanhã também se trabalha. Pelo que a festa acaba relativamente cedo. No final da refeição, restarão apenas os familiares e os amigos mais chegados. As mesmas bênçãos que foram recitadas sob o copo de vinho na chupá são repetidas após a bênção final da refeição. Ainda que a festa não dure sete dias como as bodas ciganas, as refeições festivas em honra do novo casal repetem-se durante uma semana. O primeiro Shabbat após o casamento é especialmente celebrado. Depois de passada a primeira semana, com o seu ambiente de festa quase diário, os noivos entrarão a sério na vida de casados. Para a maioria das jovens famílias, os filhos chegarão menos de um ano depois do “sim” nupcial.

Nesta altura do ano, o calendário judaico aproxima-se dos chamados yimei bein hametzarim, os "dias entre os sofrimentos". São as três semanas que separam 17 [do mês hebraico] de Tamuz e 9 [do mês] de Av, duas datas marcadas por tragédias na história judaica. Nesta época de luto parcial, não se realizam casamentos. Por isso, até à entrada nas três semanas fatídicas em que não se trocam os votos de casamento, acumulam-se as bodas em Israel.

publicado por Boaz às 00:05
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Quinta-feira, 28 de Outubro de 2010

Crescei e multiplicai-vos

Logo após a criação de Adão por Deus, este foi ordenado a dar continuidade à sua própria espécie. "Crescei e multiplicai-vos, enchei a terra e conquistai-a". Esta foi a primeira ordem divina ao ser primeiro humano recém-criado. Nenhuma outra criatura: animal, peixe ou planta, foi instruído para se reproduzir. Podemos presumir dessa exclusiva ordem divina aos humanos que "reproduzir-se" é mais do que seguir a lei natural, comum a todas as criaturas vivas.

Em todas as culturas – dos "primitivos" caçadores-recoletores da Nova Guiné aos "moderníssimos" japoneses, a formação de uma família é rodeada de uma simbologia especial. A família é a génese de todas as civilizações. Numerosos povos têm na sua mitologia histórias de pais, filhos e irmãos. Desde Zeus/Júpiter e os seus numerosos filhos que constituem o topo do panteão de deuses greco-romanos até às humanas dinastias reais em que o filho sucede – na maioria dos casos – ao pai.

Também no Judaísmo, desde os tempos do patriarca Abraham, que a família é a base da transmissão das tradições. Logo ao oitavo dia, os rapazes judeus são circuncidados. Em hebraico brit milá, o ritual é um dos mais respeitados no Judaísmo. Marca a entrada no pacto entre Deus e Abraham, daí que seja chamado o "pacto do nosso patriarca Abraham".


Cohanim, os membros da casta sacerdotal, abençoam um menino de oito dias,
após a circuncisão, Jerusalém, 2006.

Em geral, nas festas judaicas, a família tem um papel ativo nas celebrações. Em Pessach (a Páscoa Judaica), é em volta da mesa familiar que se realiza o Seder, a refeição acompanhada do relato do Êxodo da escravidão egípcia para a Terra de Canaã. A participação das crianças no desenrolar do Seder é essencial. Em Succot, a Festa das Cabanas, toda a família come durante sete dias em cabanas construídas na varanda ou no pátio da casa. As crianças contribuem para a decoração da sucá, a cabana, e dormir aí, em vez da normalidade de dormirem no seu quarto, transforma-se numa experiência inesquecível.

Ao longo da longa corrente das gerações do Povo Judeu, o nascimento de uma criança é considerado uma grande bênção. Israel é, entre os países desenvolvidos do Mundo, aquele que apresenta a taxa de natalidade mais elevada, ainda bem acima de dois filhos por mulher. Pelo contrário, na Europa e Japão a natalidade tem caído para níveis muito abaixo daquele que é o valor mínimo necessário para a renovação das gerações.

Entre as comunidades ultra-ortodoxas a média é mesmo superior a 8 filhos por mulher, uma das taxas mais altas do Mundo. E a taxa tem crescido, em contraste com a tendência mundial. Ao contrário, entre as mulheres árabes israelitas (e também as palestinianas), a natalidade tem decrescido gradualmente, situando-se por volta dos 4 filhos por mulher. A crescente escolarização das mulheres árabes em Israel – o país conta com a mais alta alfabetização das mulheres árabes no Médio Oriente – e a sua maior participação no mercado de trabalho, tem feito adiar a idade do casamento e decrescer o número de filhos em relação às gerações anteriores. (Estes dados deitam por terra a tão apregoada e quase apocalíptica teoria da bomba demográfica árabe em Israel.)

Mesmo entre os judeus seculares, com o seu estilo de vida tipicamente ocidental, a média de filhos por mulher é superior aos seus congéneres europeus ou americanos. É comum encontrar casais não-religiosos passeando com três criancinhas. Enquanto isso, na Europa, é mais comum ver um casal a passear com dois cachorros do que com duas crianças. Em outras sociedades tradicionais, os filhos eram vistos como uma forma de garantir a velhice e o sustento dos pais. No Povo Judeu, perseguido durante séculos, os filhos são vistos como a garantia da sobrevivência, acima de tudo, das tradições.

Em Alon Shevut, o colonato judeu religioso onde eu moro, os habitantes têm o costume de ajudar a família onde nasceu uma nova criança. Durante uma semana, assim que a mãe regressa da maternidade, a família recebe comida pronta dos vizinhos que se juntam para colaborar. A cargo com um novo bebé, a mãe não precisa, pelo menos durante uma semana, de cozinhar.

Não é por acaso que os Judeus são conhecidos como Filhos de Abraham, ou Filhos de Israel. A vivência judaica assenta antes de mais na transmissão das tradições dentro da família, para a próxima geração. Com a chegada de uma nova criança à família, também nós somos agraciados com a bênção de adicionar mais um anel na longa e milenar corrente do Povo de Israel. É sem dúvida, o melhor "Mazal tov!" que se pode receber.

publicado por Boaz às 14:56
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Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

Espanhóis vs. Alemães

Os Judeus, apesar do seu pequeno número em relação à população mundial – algo como 0,2% da humanidade –, são bastante variados em termos de costumes. Aquilo que em hebraico se chama min’hag. Tradicionalmente dividem-se em sefarditas e askenazitas. Os primeiros são provenientes da Península Ibérica (Sefarad em hebraico, que ainda hoje é também o nome para Espanha) e dos países árabes. Os segundos são descendentes das comunidades do Vale do Reno, na Alemanha (Ashkenaz em hebraico, ainda que hoje se lhe chame Guermânia) e da Europa Oriental. Além destes, ainda há alguns pequenos grupos como os judeus Italianos e os Iemenitas, que têm costumes muito próprios.


Minyan no Kotel. Onde se juntam todos os tipos de judeus.

A história de Sefarad fica marcada pela "Idade de Ouro do Judaísmo Espanhol" a qual produziu génios como Maimónides (o Rambam) e Nachmânides (o Ramban), o Cuzarí e dezenas de autores essenciais da filosofia e da literatura judaicas. Com a expulsão judaica dos reinos ibéricos, os sefarditas espalharam-se por grande parte do Mundo Judaico. Marrocos, Holanda, Itália, Grécia e o Império Otomano foram os principais destinos.

Com a descoberta do Novo Mundo em 1492 – o mesmo ano da Expulsão – e o início da colonização das Américas, judeus e "cristãos-novos" também se estabeleceram no Hemisfério Ocidental. A primeira sinagoga foi estabelecida por descendentes de Judeus portugueses na cidade brasileira de Recife, durante a ocupação holandesa. Após a reconquista da região pelos portugueses, os judeus escaparam para as Caraíbas (Curaçau, Barbados, Jamaica) e a recém-fundada Nova Amesterdão, que seria mais tarde Nova Iorque.

Em Portugal, Espanha e nas colónias – do México ao Brasil –, apesar da oficial Expulsão, nascia o fenómeno dos Marranos (Anussim, em hebraico). Judeus por dentro, cristãos por fora. Receosos da Inquisição sempre vigilante. As gerações passaram, a identidade foi-se perdendo aos poucos, mas mantiveram-se estranhos costumes como acender velas sexta-feira ao anoitecer, jejuar uma vez por ano no começo do Outono, limpar a casa e não comer nenhum alimento fermentado por voltas do início da Primavera. Para muitos, a origem destes costumes era desconhecida. Para outros, a alma e a identidade judaica, ainda que reprimidas, mantinham-se vivas. Em segredo.

Também na Europa Oriental a vida judaica era agitada de tempos a tempos por convulsões. Aí, o pensamento judaico tradicional dividia-se entre as linhas hassídicas com a sua forte componente mística e, em sua oposição, o racionalismo lituano fundador do moderno conceito da yeshivá, a academia rabínica. O liberalismo napoleónico promoveu aos poucos a integração dos Judeus à igualdade de cidadania. Ainda que a fera do anti-semitismo não tenha sido extinta pelo humanismo liberal. Dentro do próprio Judaísmo, a maior abertura social criou uma revolução. A Haskalá ou Iluminismo Judaico abriu caminho a um maior liberalismo na religião e mais tarde à fundação do movimento reformista.

No final do século XIX e no início do século XX, campanhas de massacres da população judaica às mãos de polacos, russos e dos cossacos ucranianos, levaram vários milhões de judeus askenazitas a todo o mundo anglo-saxónico. Hoje, eles são a imensa maioria dos judeus americanos, a maior comunidade da Diáspora Judaica. A liberdade americana fez florescer a comunidade judaica, atingindo um nível de desenvolvimento cultural e social nunca antes alcançado em qualquer outra etapa deste Exílio já bi-milenar.

Nas décadas de 1930-40, o Holocausto destruiu os maiores centros da vida judaica europeia. Por ter atingido em especial a Europa do Leste, a enorme maioria dos seis milhões de mortos judeus durante a Shoá eram askenazitas. Grupos hassídicos inteiros foram exterminados na voragem da ocupação nazi. Na mesma época, também importantes comunidades sefarditas como Salónica (Grécia), Sarajevo (Bósnia) e Amesterdão praticamente desapareceram.

Logo após a independência israelita em 1948, com uma crescente onda de anti-semitismo nos seus países de origem, mais de 800,000 judeus dos países árabes chegaram à Terra Santa. Até aos anos de 1990, antes da grande onda de imigrantes da ex-União Soviética que trouxe mais de um milhão de pessoas, os sefarditas compunham mais de 70% da população judaica do país. Hoje, a proporção entre as duas comunidades é praticamente idêntica, apenas com uma ligeira maioria de sefarditas. Porém, a nível mundial, a população judaica é maioritariamente de origem askenazi, numa proporção de 4 para 5.

Na sua versão moderna, o sionismo teve a origem no Leste Europeu. Os principais impulsionadores da ideia da fundação de um estado judeu na Terra de Israel eram askenazitas. Eles foram os pioneiros das comunidades coletivas locais, os kibbutzim e moshavim; fundadores das primeiras cidades judaicas da embrionária Israel e dos partidos políticos originais no país. Desde o início do Estado de Israel, a política tem sido dominada pelos askenazitas. Em 62 anos, todos os Primeiros-Ministros foram askenazitas. Entre os Presidentes da República, apenas dois eram sefarditas, Moshe Katzav, nascido no Irão, e Yitzhak Navon, descendente de uma família espanhola estabelecida em Jerusalém. Este desequilíbrio na esfera política levou à fundação do Partido Shas, dirigido pelo grande rabino Ovadia Yosef, é hoje o maior partido religioso em Israel e com uma crescente influência política, participando em todas as coligações de governo desde os anos de 1990.

A integração na moderna sociedade israelita de estilo marcadamente europeu, foi particularmente difícil para os judeus recém-chegados dos países árabes, provenientes de sociedades tradicionais. A maioria dos recém-chegados foi alojada em cidades de tendas construídas à pressa (as maabarot) ou insalubres "cidades de desenvolvimento" nas regiões periféricas de Israel. A ruptura com o seu modo de vida tradicional era evidente. Muitos haviam desfrutado de um elevado nível de vida nas suas terras de origem e na fuga à perseguição haviam perdido todos os seus bens. Viver em comunidades agrícolas também não foi bem sucedido, dado que nos países árabes os Judeus haviam sido mercadores e artesãos, e raramente se dedicavam à agricultura. Tal como acontecera com os Judeus na Europa medieval.

No novo país, composto por gente de tão variadas origens, recuperou-se a língua hebraica, a língua nativa dos Judeus. Usada durante os 2000 anos da Diáspora somente no âmbito religioso tornou-se o idioma da vida diária. Os askenazitas, falantes do yiddish, alemão, húngaro ou russo, contribuíram com a forma moderna do alfabeto. Os sefarditas, falantes do ladino, árabe, persa ou bukhari deram a sua pronúncia ao idioma moderno. Numa piada um pouco cínica, alguém definiu esta simbiose com a expressão bíblica "A mão de Esaú e a voz de Jacob".

Ainda hoje existe um certo sentimento de inferioridade dos judeus sefarditas em relação aos askenazitas. Todavia, a tendência parece visionar uma crescente influência dos sefarditas. A demografia joga a seu favor. Afinal, estes compõem a maioria dos judeus religiosos, que têm mais filhos que os seculares. Ainda que a face mais visível do judaísmo ortodoxo em Israel sejam os haredim askenazitas, notados pelas suas capotas negras e os shtreimels (chapéus de pêlo usados no Shabbat e dias festivos), estes são na verdade minoritários no panorama religioso em Israel. Por outro lado, os judeus tradicionalistas ou massoratim (não confundir com os adeptos do Movimento Masorti, uma denominação do Judaísmo Conservador) são parte de um fenómeno característico do público sefardita em Israel. Em geral, os askenazitas ou são ortodoxos ou declaradamente seculares. Esse "meio-termo entre a tradição e a modernidade" é a regra dos sefarditas não ortodoxos. E é raro encontrar um sefardita obstinadamente laico e totalmente ignorante da sua herança religiosa.

Mesmo na Diáspora, em países como o México, o Brasil, a França ou a Venezuela, as comunidades menos "assimiladas" são as sefarditas. Ao contrário, as comunidades askenazitas do mundo anglo-saxónico, com raras excepções, vão sendo dizimadas pelo fenómeno da assimilação e dos casamentos mistos. No moderno Estado de Israel, com a aliá de judeus de todos os cantos do planeta, realiza-se a profetizada kibbutz galuyot, a "reunião dos exilados" na Terra Prometida, o futuro parece antever um gradual atenuar das diferenças entre as diferentes comunidades judaicas.

Afinal, hoje em dia, é comum o casamento entre um homem sefardita e uma mulher askenazi. Ou o inverso. Ou até um homem louro de origem alemã com uma mulher etíope. A divisão askenazi/sefardita é um produto da Diáspora. O "novo judeu" – ideia romântica dos pioneiros sionistas inspirados em ideais socialistas –, é cada vez mais uma simbiose entre os costumes de ambos. Num exemplo caseiro, na mesa israelita é normal encontrar-se hoummous ao lado de gefilte fish. Afinal, pode dizer-se sem cair em sacrilégio que, tirando o toque especial da avozinha, seja ela húngara ou marroquina, cholent e dafina são basicamente a mesma coisa.

publicado por Boaz às 22:00
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Segunda-feira, 2 de Agosto de 2010

O rapaz judeu, o “Sim” e a filha do ex-presidente

Um jovem, Marc Mezvinsky, casa com a princesinha da América, Chelsea Clinton, filha do antigo presidente Bill e da atual secretária de Estado Hillary. Ele judeu. Ela metodista. Nos últimos meses, desde que a imprensa noticiara o compromisso entre Marc e Chelsea, os comentadores em Israel especulavam sobre o caso. Se Miss Clinton se iria converter ao Judaísmo e o que significa um casamento destes. Sabe-se que nas últimas “Grandes Festas” – Rosh Hashaná e Yom Kippur, ou o Ano Novo Judaico e o Dia do Perdão –, Chelsea e Marc participaram juntos nos serviços religiosos numa sinagoga. Isso parecia dar um sinal de esperança aos que sonhavam ver formar-se mais uma família no Povo de Israel.


Casamento judeu em Jaffa, 1899

Na América da integração, do "melting pot" onde tudo se funde, até é bastante aceitável uma cerimónia de casamento ecuménica. Como o de Marc e Chelsea. Por um lado, o casamento foi oficiado por um pastor metodista. Por outro, realizou-se debaixo de uma chuppá (o pálio nupcial judaico), com a recitação das Sheva Brachot (as sete bênçãos do casamento judaico), com o noivo de kipá e talit (o xaile de orações judaico), com a assinatura da ketubá, o contrato matrimonial e contou com a presença de um rabino. (Reformista, pois claro). À maneira americana, em nome de Moisés e Jesus. Apenas na aparência. Afinal, dados os factos, é evidente que nem para o noivo é assim tão importante ser judeu, e nem para a noiva significará alguma coisa ser cristã. Se assim fosse, nem se teriam casado, uma vez que fazendo-o, tanto um como o outro, estão a ir contra a tradição da sua religião.

Do ponto de vista judaico, apesar de toda a alegria de um casamento, este é apenas um sinal de um dos fenómenos mais significativos e trágicos da história judaica do último século: a assimilação. O fenómeno surgiu na sua expressão moderna com a emancipação judaica promovida pelo liberalismo napoleónico, quando os judeus da Europa deixaram aos poucos de ser "cidadãos de segunda" e foram integrados na sociedade. Durante séculos, judeu era sinónimo de perseguido.

Em muitos casos, como em Portugal e Espanha, a conversão ao Cristianismo não significava o fim das tormentas, pois continuava o estigma do cristão-novo e as suspeitas de judaizar. Ainda que perseguido, a permanência numa comunidade era o único refúgio para o judeu. Com o despertar das liberdades cívicas e da crescente igualdade de cidadania, independente da religião e origem social, a ideia da comunidade judaica como refúgio tornou-se praticamente obsoleta. Um judeu que saía do caminho do Judaísmo não se tornaria um pária completo “lá fora”. Ainda que, de vez em quando, ainda o fizessem lembrar de onde ele tinha saído. A mácula do cristão-novo, ou judeu-velho que teima em não desaparecer.

Foi na América, terra das liberdades e das oportunidades, que os Judeus mais se desenvolveram e prosperaram. Pela primeira vez na história, os Judeus deixaram de ser uma classe marginal para passarem a estar no mainstream. Para serem o mais fino desse mainstream: a elite na literatura, na filosofia, na política, na moda e no cinema. Elementos da cultura judaica – como palavras em língua yiddish e comidas típicas – foram integrados no quotidiano do americano comum.

Porém, a par da prosperidade económica e da plena liberdade social e de culto, cresceu a dissolução dos valores judaicos como em nenhuma outra sociedade até então. Aquilo que a Torá (em Devarim/Deuteronómio 32:15) descreve como: "E Yeshurun (outro nome de Israel) engordou e deu coices: engordaste, engrossaste e tornaste-te corpulento! E abandonou Deus..."

Esta será apenas mais uma família americana, das milhares de famílias americanas em que um dos cônjuges é judeu. Neste caso, caso Chelsea não se converta ao Judaísmo, no futuro, isso significa que os filhos desta família não serão judeus. (De acordo com a Halachá, a lei judaica, os filhos de mãe judia são sempre judeus, mesmo que o pai seja "gentio", enquanto que os filhos de um homem judeu e de mãe não-judia, serão considerados não-judeus). O abandono dos valores e tradições judaicos – para lá da circunstância de casar sob a chuppá, envolto num talit e de cabeça coberta com uma kippá, escutar as sete bênçãos e ter um rabino - ainda que reformista - a dirigir a cerimónia, realizada num Shabat, são um sinal da crise que vive uma grande parte do povo judeu. Mais ainda na Diáspora. Pior, nas sociedades onde os judeus são livres, com a América à cabeça.

Porém, o que poderíamos esperar de um jovem que nunca teve uma educação judaica significativa? O que significará para ele o Judaísmo para além de algumas velhas histórias de família? Sendo assim, honestamente, não poderíamos pedir mais do rapaz. Para lá do amor – que se diz ser cego – sentido por uma menina que ele achou ser a sua alma gémea. Mesmo que não-judia. Em termos judaicos, o problema de Marc Mezvinsky – e dos muitos como ele – não está nele próprio, mas na sua família que o criou como um não-judeu. Agora, ele apenas se casou em conformidade.

Nos comentários à notícia na Internet, não pude deixar de concordar com a honestidade do seguinte: "Quem disse que isto era um casamento misto? Ele não se importa com a fé dele, ela não se importa com a fé dela. Este é o casamento perfeito para duas pessoas que não se preocupam com a sua herança. Isto não é um casamento misto. É a triste realidade de uma sociedade sem outros valores para lá do ser liberal".

E depois da bela festa, dos flashes dos fotógrafos e as parangonas nas revistas cor-de-rosa, Marc e Chelsea viverão felizes para sempre. Ou, em menos de dois anos estarão a juntar-se à regra de "casar entre um divórcio e o outro". Para seguir fielmente mais uma tradição americana.

publicado por Boaz às 23:00
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Domingo, 4 de Abril de 2010

A caça ao fermento

É uma das tradições mais enraizadas no Judaísmo: não comer comidas fermentadas em Pessach, a Páscoa. Para recordar a pressa da libertação da escravidão do Egito, quando a massa do pão não teve tempo de fermentar, a Torá ordena a proibição de comer e possuir qualquer tipo de chametz, comida fermentada feita a partir de cinco tipos de cereais: trigo, centeio, cevada, aveia e espelta. A comida mais importante da quadra é a matzá, ou pão ázimo, ou seja, não fermentado.


Seder de Pessach, de Arnold Eagle

Para alguns, o esforço de eliminar o chametz começa logo depois da festa de Purim, um mês antes de Pessach. As famílias deixam de comprar vários tipos de alimentos fermentados bastante tempo antes da época em que passam a ser proibidos, gastando o stock existente na dispensa.

Nas duas semanas antes de Pessach, o trabalho da faxina é intenso. É a barrela anual nas casas judaicas. O objetivo da limpeza é que até o mais ínfimo resíduo de chametz desapareça da casa. Todas as migalhas são eliminadas, nos sofás, no carro, nas carpetes, nos bolsos da roupa, nas mochilas das crianças... Os armários da cozinha e o frigorífico são bem limpos. O esforço maior é dedicado ao forno e ao fogão. Os tachos e panelas de metal são fervidos para serem “casherizados”. As louças da cozinha usadas durante o resto do ano são substituídas por outras, exclusivas de Pessach. (É interessante que, em muitas regiões rurais de Portugal, os católicos também têm o costume de fazer uma grande limpeza nesta altura do ano e até mesmo caiar a casa, a fim de receber o senhor prior que visita cada uma das casas da terrinha).

Na última noite antes da grande data procede-se à busca do fermento que eventualmente escapou à destruição. A tradição manda que a busca seja feita à luz de uma vela e com uma pena na mão. Com pouca luz, a atenção da busca concentra-se numa pequena área de cada vez. A pena permite vasculhar até nas fendas da casa. Na manhã seguinte o que foi encontrado na busca noturna é queimado. Acabou-se, não há mais fermento em casa! E assim será durante uma semana.

Com a dispensa desprovida de pão, cerveja, bolachas, bolos, massas, há que encontrar alternativas para a alimentação durante a semana que dura a Páscoa. No caso dos judeus ashkenazitas (originários da Europa do Leste) as coisas são ainda mais complicadas. A sua tradição proíbe-os também de comer kitniot, um termo que designa todo o tipo de grãos e sementes. Por serem parecidos com os cereais proibidos em Pessach, feijão, ervilha, fava, grão-de-bico, milho, soja, lentilhas, arroz e seus derivados, são também excluídos. Existe discussão acerca de grãos e sementes de uso recente, como a quinoa, a canola ou a linhaça. Os judeus sefarditas (de origem ibérica e árabe) não seguem a proibição destes grãos adicionais, ainda que haja algumas comunidades que costumam não consumir arroz nesta época.

Algumas pequenas comunidades têm costumes específicos e outras limitações na alimentação, que remontam há séculos. Umas não bebem leite, outras não comem tomate (porque as sementes parecem grãos), peixe… Para a generalidade dos judeus ashkenazitas avizinha-se uma semana à base de carne, ovos, batatas e mais batatas.

Para compensar a exclusão das farinhas no fabrico de pão e bolos, surgem na semana da Páscoa produtos novos, marcados como Kosher para Pessach. Mesmo estando há poucos anos em Israel e tendo experimentado poucas vezes a festa de Pessach, há que admitir que, de ano para ano, a qualidade aumenta. Há anos, eram tristes as alternativas aos bolos, massas e biscoitos do resto do ano, invariavelmente produzidos com farinha de batata, com um aspeto, sabor e consistência pouco atraentes. Hoje, as empresas esforçam-se para produzir alternativas saborosas. Este ano, a novidade foi a farinha de tapioca, permitida por todos os costumes. Porém, apareceu também a lecitina de colza como alternativa à derivada da soja, o que deixou algumas pessoas baralhadas e a perguntar que raio de coisa é essa…

Tirando o hábito tão enraizado de comer pão, que tem um papel tão importante no Judaísmo, central em qualquer refeição festiva, em especial no Shabat, é bastante tranquilo “sobreviver” à Páscoa. É que, com as alternativas inventadas todos os anos pela tecnologia alimentar, já quase não se sente a diferença entre Pessach e o resto do ano.

publicado por Boaz às 15:30
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Segunda-feira, 21 de Setembro de 2009

Segredo da confissão

Nos meus tempos de católico, um dos momentos mais difíceis da minha prática religiosa era a ida à confissão. A primeira vez que passei por esse ritual foi nas vésperas da "Primeira Comunhão", por volta dos 7 anos. Como o nome indica, era a primeira vez que iria "comungar", por isso, a lei mandava que deveria estar "livre de pecado". Lembro-me de ter ido em grupo, com todos os meus colegas de catequese. Nas semanas anteriores, uma parte das dominicais aulas de catequese foi dedicada à preparação de tal momento, em especial sobre o que dizer quando chegasse a hora de me ajoelhar ou sentar em frente do sacerdote.


Pequei... douh!

Começava com uma breve declaração de arrependimento: o "acto de contrição". Se não soubesse dizê-la de memória, o padre até ajudava. Menos mal. Seguia-se uma revelação dos pecados que vinha confessar. Era a parte mais complicada. "Não obedeci aos meus pais. Briguei com a minha irmã e não lhe emprestei os meus brinquedos..." Que grandes pecados se têm aos 7 anos. Ainda assim, era difícil ter de discorrer a lista de máculas perante um desconhecido. (E não acho que seria mais fácil se a confissão fosse feita a um conhecido). Depois de tal prova, o padre mandava rezar um certo número de "pais-nossos" e "avé-Marias". Podia rezá-los logo ali, na igreja. Assim, já liberto da obrigação do ritual, voltava para casa com algum descanso. No dia seguinte, poderia comungar pela primeira vez, sem culpa.

Este ritual repetiu-se algumas vezes, sobretudo na altura dos feriados religiosos católicos, como a Páscoa ou o Natal. No resto do ano, ainda que fosse semanalmente à missa, eram raras as vezes em que comungava. Porém, assim que fazia algo que eu achasse que devia ser confessado, deixava de comungar. Nos meus anos de católico comprometido, conhecedor da importância da comunhão, mantive a coerência de não "tomar o corpo de Cristo" sem cumprir as regras prescritas. As reticências face ao ritual da confissão faziam adiar a ida ao confessionário. Nem era por não confiar no segredo da confissão que o padre jurara, pois ainda hoje vejo-o como um "segredo profissional" como outro qualquer. O problema era o acto de confissão em si e a forma de penitência. Demasiado forçado o primeiro, demasiado automática, a segunda.

Não via como revelar os meus erros a uma pessoa que não tinha nada a ver com eles, me poderia ajudar a ultrapassá-los. A conta de "pais-nossos" e "avé Marias" também me parecia pouco convincente. Durante os meus anos de católico praticante, ouvi várias explicações do significado e da função da confissão. A mim, nenhuma delas me convenceu. Aceito que algumas – muitas – pessoas as tomem como válidas e sintam naquela forma de confissão uma forma de restabelecimento espiritual.

No Judaísmo também existe confissão. Ela é, porém, individual e privada. Não existem intermediários na oração ou na salvação. Diariamente, nas orações matinais, uma das partes do serviço é o vidui (confissão em hebraico). De pé, com solenidade, em voz baixa, cada um lê do livro de rezas uma lista de transgressões. Só Deus e cada um saberão quais delas se aplicam a si mesmo. Cada uma das transgressões é enunciada na primeira pessoa do plural. "Fomos culpados, atraiçoámos, roubámos, falámos calúnias..." Cada judeu é responsável por si mesmo e, ao mesmo tempo por todo o Povo de Israel.

No calendário hebraico, esta altura do ano é o período especial da reconciliação e da introspeção. Estamos entre Rosh Hashaná, o Ano Novo Judaico que se celebra em festa durante dois dias, e Yom Kippur, o grande Dia do Perdão, um dia de jejum absoluto. Cada um deve procurar emendar as suas falhas, mesmo as aparentemente insignificantes. Deus é a única testemunha da confissão particular, só Ele sabe os sentimentos de culpa – e de que culpa – que passam pelo coração daquele que se confessa. Em silêncio.

publicado por Boaz às 23:03
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Segunda-feira, 6 de Julho de 2009

Dia da maioridade

Na tradição judaica, a Torá é dividida em porções semanais, as parashiot, lidas publicamente na sinagoga na manhã de Shabbat. Uma parte mais reduzida da mesma porção semanal é lida também no serviço religioso matinal às segundas e quintas-feiras.


Celebração de Bar Mitzvá no Kotel, Jerusalém, 8 de Adar de 5767 (26.2.2007)

Estes três dias da semana, em que é lida a Torá, são também ocasiões para o Bar Mitzvá – a cerimónia de passagem dos rapazes judeus de 13 anos à idade adulta. É evidente que em muitos aspetos, um rapaz de 13 anos é ainda um adolescente, mas a lei judaica determina que a partir dessa idade – exatamente 13 anos e um dia – ele passa a ser responsável por si mesmo no cumprimento dos preceitos religiosos.

O Bar Mitzvá – literalmente "filho do mandamento" – é o momento para uma festa pública em honra do rapaz. O acontecimento central da celebração é a leitura pública do rolo da Torá, pela voz do próprio "bar mitzvado". Após alguns meses de treino intensivo, aprendendo o texto e a melodia especial da leitura da Torá, o jovem mostra os seus dotes de baal korê, o leitor da Torá.

A família que decide fazer o Bar Mitzvá no Shabbat organiza depois um banquete público – ou no mínimo um pequeno lanche matinal – após o final do serviço religioso. Muitas famílias, em especial as não-tanto-religosas, decidem fazer a festa no Kotel, o Muro Ocidental, em Jerusalém, às segundas e quintas-feiras. São esses os dias mais movimentados no lugar mais santo do Judaísmo. Dezenas de rapazes, acompanhados pelas suas famílias rumam ao Kotel para a sua festa de Bar Mitzvá. Com eles, chegam fotógrafos e operadores de câmara com a missão de perpetuar o momento para a posteridade.

Para os menos preparados na arte de ler a Torá, alguém mais experiente é convidado para fazer a leitura em seu lugar. Nesses casos, a participação do rapaz no ritual limita-se então a "subir à Torá": aproxima-se do rolo da Torá, faz uma bênção e escuta a leitura. Por várias vezes, presenciei cerimónias de Bar Mitzvá de rapazes de famílias não-religiosas. A estranheza do rapaz perante tal momento inédito na sua vida é comovente. Ele é um alienígena num planeta desconhecido, um planeta que os pais nunca lhe mostraram.

Ele é o ator principal daquela peça, mas está totalmente baralhado pelo seu papel, imerso na estranheza – para ele – dos rituais. Para muitos destes filhos de famílias "afastadas", esta será a primeira vez que participam num serviço religioso. Ainda assim, a família pouco cumpridora dos mandamentos diários, teima em manter a tradição e realiza a festa do rito de passagem do seu filho com grande orgulho e empenho.

Judeus estrangeiros abastados, em especial americanos, têm o costume de vir a Jerusalém por ocasião do Bar Mitzvá dos seus filhos. À porta do hotel onde a família fica hospedada, são afixadas faixas de felicitação ao "novo adulto" e em alguns pontos estratégicos do trajeto até ao Muro cartazes indicam o local da festa aos outros convidados.

Nas décadas mais recentes, introduziu-se este costume também para as meninas. Ao atingir a maturidade religiosa aos 12 anos, as meninas judias também têm uma celebração especial. Não lêem da Torá, nem ninguém lê a Torá para elas publicamente. A versão feminina deste rito de passagem não é mais do que um banquete com as amigas. Por vezes, o banquete é partilhado por várias meninas de 12 anos que celebram juntas o seu Bat Mitzvá, "a filha do mandamento". Inventado pelas correntes reformistas do Judaísmo, desejosas da "integração" e "igualdade" da mulher na vida religiosa judaica, aos poucos o ritual foi penetrando no mundo ortodoxo judaico. Com algumas reticências, como é óbvio.

No Brasil, por exemplo, é costume a festa de Bar mitzvá ser uma oportunidade para a ostentação do status familiar. Os banquetes contam com a atuação de estrelas da música local – conheço gente que teve a Elba Ramalho ou um desfile de escola de samba na sua "pouco ortodoxa" festa.

Em todos os casos, o Bar Mitzvá e o Bat Mitzvá – ortodoxo, reformista, ou meio-termo, é um momento de festa que é recordado para toda a vida. Para os afastados, será das raras vezes que tiveram e terão contato com a tradição judaica – talvez por muitos anos. Para outros, é exatamente aquilo que a festa pretende ser: a porta de entrada na vida judaica ativa. O momento em que eles passam da inconsequente menoridade, à consciente adoção da rica e extraordinária tradição judaica.

publicado por Boaz às 22:20
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Quarta-feira, 8 de Abril de 2009

Os outros seis milhões

De acordo com a tradição judaica, apenas um quinto dos antigos escravos hebreus foi libertado do Egipto. A Torá revela que 600.000 homens com mais de 20 anos saíram da escravidão. Se juntarmos mulheres, crianças e jovens até aos 20 anos, teremos perto de três milhões de pessoas. E estes, lembremos, eram apenas 1/5 dos Filhos de Israel. Os outros, os que não saíram, nunca chegaram a receber a Torá. Nunca entraram em Israel. Nunca se tornaram Judeus. Os Hebreus que nunca saíram do Egipto morreram durante os três dias da praga da escuridão. A escuridão egípcia, na qual estavam tão imersos, sufocou completamente a sua identidade hebraica.

 
Travessa de Pessach com lugar para as diferentes comidas da festa.

No ano passado, a Agência Judaica realizou uma pesquisa destinada a determinar a população potencial de pessoas que podem fazer aliyá, a imigração para Israel. Praticamente esgotada a população de Judeus da antiga União Soviética, o estudo centrou-se nos Estados Unidos, o país com a maior comunidade judaica fora de Israel. Pelos números oficiais das comunidades judaicas, vivem nos EUA mais de 5 milhões de Judeus. Porém, o estudo da Agência Judaica descobriu que existem cerca de 11 milhões de norte-americanos com direito a imigrar para Israel – 6 milhões a mais do que o número oficial de Judeus!

Quem são estes seis milhões?

A grande parte dos judeus dos EUA chegou no período entre os finais do século XIX e o pós-II Guerra Mundial. Na sua maioria gente pobre que fugia de perseguições na Rússia, Polónia e Alemanha, fundaram a maior comunidade judaica do Mundo. No terreno da liberdade americana o Judaísmo atingiu o seu nível mais elevado desde a Idade de Ouro do Judaísmo Espanhol. O inglês tornou-se, segundo alguns, o "novo iídiche". Os Judeus atingiram a plena integração na sociedade americana: são líderes políticos e culturais, ícones da sociedade, apontados como exemplos do melhor que a América produz. No cinema, na ciência, na literatura.

Porém, em duas gerações apenas, milhões de descendentes dos judeus americanos perderam-se para o Judaísmo. A tranquilidade da vida judaica na América "ajudou" à assimilação. Muitos não têm qualquer vínculo com a comunidade judaica e a assimilação atingiu níveis alarmantes: mais de 50% dos judeus do país casam-se com não-judeus. (No Brasil a percentagem será superior.) Porém, mais do que uma catástrofe, muitos vêm este fenómeno como um sinal de "integração".

São numerosas as comédias que mostram um "casamento ecuménico", com um rabino e um padre católico ou pastor protestante partilhando a cerimónia. De novo, a "integração". Apesar da enorme presença de elementos judeus na cultura americana (e daí para todo o mundo), mais crianças judias sabem o nome da mãe de Jesus do que da mãe de Moisés. Muitas famílias judaicas celebram Channuka mas com uma árvore de Natal ao lado da chanukkia. Muitos judeus não celebram Rosh Hashaná nem escutam o toque do shofar, mas não perdem um Reveillon, nem deixam de escutar e admirar o fogo de artifício.

Em Portugal, dos fundadores da sinagoga de Lisboa, há pouco mais de 100 anos, são raros os seus descendentes que permanecem judeus. Mesmo das poucas famílias judias que restam, contam-se pelos dedos de uma mão as que são realmente religiosas. Há judeus suficientes para encher diariamente os cerca de 300 lugares da sinagoga, mas esta é usada apenas no Shabbat e festas. E o minyan (grupo mínimo de 10 homens necessário para realizar uma cerimónia religiosa) depende invariavelmente de algum ocasional turista. Sem escola judaica para as crianças, deixar o país é a opção para quem quer permanecer fiel às tradições. Em três gerações, as famílias judaicas tradicionais de Lisboa foram totalmente assimiladas. Restam os nomes de família apresentados com um orgulho aristocrata, mas pouco ou nada mais do que isso.

No calendário judaico, em Tisha be'Av, lembramos a destruição do Templo de Jerusalém e o consequente exílio que se lhe seguiu. Nesse dia lembramos também a Expulsão dos Judeus de Espanha, ocorrida na mesma data. É dia de jejum e de luto. Uma vez por ano, comemoramos o Yom HaShoá, o dia da memória do Holocausto. As sirenes tocam e o trânsito pára em Israel. Escolas e comunidades judaicas de todo o Mundo organizam palestras e exposições sobre o tema. Lembramos com solenidade nestas duas datas as maiores tragédias que caíram sobre o nosso Povo. Os milhões de Judeus que morreram e a glória do nosso passado. Todavia, não temos nenhuma data dedicada aos descendentes dos "Filhos de Israel" que nunca chegaram a ser Judeus.

A destruição do Templo, a Expulsão de Espanha, o Holocausto foram tragédias impostas aos Judeus por outros povos. Recordamo-las com dor pelas enormes perdas que sofremos. Lamentamos os Judeus que se perderam pela acção brutal dos Romanos, da Inquisição, dos Nazis. A assimilação, porém, é uma tragédia causada por nós mesmos, dentro do próprio Povo Judeu. De livre vontade, judeus casam-se fora da fé judaica. Alguns líderes judaicos chamaram-lhe "o Holocausto Silencioso". Silencioso, porque destrói sem sangue, sem tiros, sem cinzas. Mas – é possível – sem dor?

Como crescem os filhos dos Judeus que se casaram fora do Judaísmo? Que identidade têm? Sentem-se Judeus, ou outra coisa qualquer? Talvez até tenham passado pelo brit (circuncisão) e uma espécie de bar mitzva, estudaram em alguma escola judaica, tenham alguns amigos judeus… Como pode não sentir dor um filho de pai judeu e mãe não-judia quando entra numa sinagoga e, para o minyan, ele conta tanto como o turista que veio apenas tirar fotos?

O Judaísmo é uma corrente de elos unidos, formada desde Abraão. O elemento que mantém forte a corrente é a família judaica. Pessach - a Páscoa - é a festa judaica mais familiar. Não por acaso, as figuras centrais na celebração do seder de Pessach são as crianças. É nelas, na sua integração na história e tradições judaicas, que reside a coesão de toda a cadeia de transmissão que começou com Abraão. Afinal, Abraão foi escolhido para receber o pacto divino não apenas por ser um homem justo, mas porque D’us soube que Abraão transmitiria o Seu pacto às próximas gerações.

É nas crianças judias, frutos de um casamento e de uma família judaica, que se perpetua o pacto entre D’us e Abraão (reafirmado no Sinai a todo o Povo de Israel). Pessach, que significa "passagem", é o símbolo maior da transmissão da identidade judaica. Ao vivermos Pessach como se nós mesmos tivéssemos sido redimidos do Egito, renovamos a nossa fidelidade ao Povo de Israel. Decidimos se permanecemos, com os nossos filhos, fiéis ao pacto que recebemos dos nossos antepassados e aceitamos a redenção de D'us, ou se somos dos milhões que desapareceram na escuridão.

Nota: O nome da mãe de Moisés é Yocheved.

publicado por Boaz às 18:50
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Quarta-feira, 2 de Abril de 2008

Mudanças

Uma das maiores mudanças na vida de um ser humano – a maioria das pessoas concordará – é o casamento. No dia anterior, é-se solteiro. No dia seguinte, casado. Não é apenas uma alteração de estado civil, um "sim" dito entre tantos outros durante a vida. É toda uma nova forma de ser que começa.

Mesmo para os casais que vivem juntos durante um certo período sem se casarem, após dizerem o "sim" e assinarem os papeis, a sua realidade passa a ser diferente. O compromisso anterior era um comum acordo mais ou menos informal. Sem qualquer obrigação além daquelas que existem numa relação entre duas pessoas comuns. Agora é a lei que prescreve uma parte das obrigações e direitos de cada um.

Estou a menos de uma semana dessa enorme mudança. Desde 15 de Agosto do ano passado – ou 1 de Elul no calendário hebraico – data do nosso compromisso formal, foram meses intensos de preparações. Primeiro a decisão da data. Em Israel é normal os casais noivarem durante pouco tempo, umas semanas, um ou dois meses no máximo. Todavia, para nós não podia ser muito cedo, ainda durante o ano passado, para permitir que as nossas famílias, em Portugal e no Brasil, pudessem marcar férias com antecedência e virem ao casamento.

Por outro lado, não queríamos adiar demasiado até ao Verão seguinte, para evitar o intenso calor estival de Israel. Ainda, teria de ser antes da Páscoa Judaica, que este ano acontece em meados de Abril, pois a lei judaica proíbe os casamentos nos 40 dias depois da Páscoa. Depois desses 40 dias já estaríamos no Verão. Oito de Abril pareceu-nos a data ideal.

Marcámos o local da festa para a Yeshivat HaKotel, onde eu estudo, pois sabíamos que fariam um preço especial pelo facto de eu ser aluno da yeshiva. Com vários meses de antecedência, fizemos a reserva do salão da yeshiva. Um dos maiores salões do Bairro Judeu da Cidade Velha, com vista para o Muro Ocidental e o Monte do Templo, é um local cobiçado para festas.

Decidir o menu. Ressalvar que não queremos a comida picante, a pensar nas nossas famílias, pouco habituadas aos quentes temperos do Médio Oriente. A decoração. O salão não providencia tudo, por isso há que conseguir quem fornecerá as flores para as mesas.

Seguiu-se a decisão do número de convidados e a divisão deste número entre os convidados do noivo e os da noiva. Quem chamar, quem deixar "pendente", quem excluir? Não se pode chamar toda a gente. Quem ficará ressentido connosco se não o chamarmos? O fotógrafo. De boca em boca passam informações. Foi fácil de encontrar. A banda de música. Escutámos CDs de bandas que tocam em casamentos, prestámos atenção nos casamentos onde estivemos, fomos até a uma audição especial de um grupo num estúdio de Jerusalém.

Começar a pensar onde iremos morar. Decidimo-nos por um colonato alguns quilómetros a sul de Jerusalém, Alon Shevut, na região de Gush Etzion. É o local de residência de várias famílias brasileiras que ambos conhecemos. Além de ter sido a morada da noiva até há poucos meses, o que significa que ela conhece muita gente no local. O que significa que a integração será, assim, mais fácil para ambos. A burocracia israelita foi o próximo obstáculo a transpor. As autoridades religiosas exigem uma série de documentos. Fizemos várias visitas ao Tribunal Rabínico de Jerusalém para tratar de alguma papelada.

A roupa. Um vestido de noiva é algo que só se veste – em princípio – uma vez na vida. Comprar seria um desperdício de dinheiro. Em Israel, não faltam organizações que dão vestidos de noiva ou alugam a preços bem acessíveis. A minha roupa foi bem mais fácil de decidir. Um fato, ao mesmo tempo de noivo, mas que eu pudesse usar depois para o Shabbat. Uma camisa branca, uma gravata. Os meus sapatos de Shabbat. Sem dores de cabeça.

Outra ponderação foi: quem escolher para as duas testemunhas na cerimónia de casamento? É um cargo de honra na boda, convém que seja alguém de quem estejamos especialmente próximos. A quem chamar para dizer as sete bênçãos no pálio nupcial? Com a quantidade de rabinos que conhecemos não é difícil escolher. O problema é quem ficará de fora.

Estudar. A lei judaica é bastante minuciosa com as relações entre as pessoas. Ainda mais entre os membros do casal. Pelo facto de a lei judaica proibir o contacto entre marido e esposa durante o período menstrual, a relação está muito dependente do ciclo da mulher. Durante vários meses estudei com um rabino as leis de nidá, nome dado ao estado da mulher durante a menstruação, e Shalom bait, a paz em casa. É óbvio que o relacionamento entre o casal não pode ter como fundamento único a relação sexual. Nos dias em que o contacto físico entre os cônjuges é proibido, é essencial encontrar outros meios de manter a relação entre ambos forte e harmoniosa.

Esta última semana tem sido uma correria para tratar das coisas para a casa. Ainda mais, por coincidência, esta é a última semana do semestre da yeshiva. Desta forma, tenho de tirar todas as minhas coisas do meu quarto. A solução foi transferir tudo para o apartamento onde a minha noiva ainda mora em Jerusalém. Desta forma, a carrinha das mudanças poderá levar, de uma vez só, todas as nossas coisas para a casa nova.

Recebemos a maior parte da mobília e dos electrodomésticos. Mas tivemos de andar à procura em casas de móveis e em sítios de Internet que vendem artigos usados, para encontrar as coisas que nos faltavam. Visitar casas aqui e ali para apreciar as mobílias. Com todas estas coisas, não me posso queixar. Tivemos muitas ajudas. A mão estendeu-se muitas vezes para nos ajudar. Mesmo sem pedirmos.

A mitzva (preceito judaico) do casamento, a base da ordem divina "crescei e multiplicai-vos", é uma das mais apreciadas. É enorme e incansável o esforço e a generosidade das pessoas para ajudarem os futuros casais. Há organizações que doam de tudo, desde móveis e roupa de casa, até arranjos de flores para decorar o salão da festa. A sociedade judaica sustenta-se, acima de tudo, na família. Por isso tanto é investido para ajudar cada nova família que nasce.

publicado por Boaz às 12:08
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Quarta-feira, 26 de Março de 2008

Três vezes Purim

Este ano, a festa judaica de Purim festejou-se três dias seguidos, da passada sexta-feira a Domingo. Normalmente, dura apenas um dia. No entanto, sempre que a data da festa coincide com o Shabbat e para evitar violar as regras do Shabbat, as várias tradições da festa são divididas por três dias. É o Purim Meshulash, o "Purim Triangular".

Purim é o festival que lembra a salvação dos Judeus da Pérsia, sobre os quais havia sido decretada a aniquilação, às mãos do vizir Haman. A ordem para matar todos os judeus do reino estava marcada para aquele dia. Graças à intervenção da Rainha Ester, a esposa judia do rei Ahashverosh (Assuero ou Xerxes), os judeus conseguiram ser salvos.

A história é contada no Livro de Ester. Escrito num rolo de pergaminho, conhecido por Meguilat Ester, o conto é lido nestes dias em todas as sinagogas do Mundo. Um dos costumes mais populares da festa, durante a leitura pública da Meguilá, é fazer barulho de cada vez é lido o nome de Haman. Matracas, cornetas, assobios ou simplesmente bater com as mãos nas mesas, tudo serve para abafar o nome do perverso vizir.

A festa é comparada (erradamente) com o Carnaval – chamam-lhe o Carnaval Judaico, tal como a Hannuka chamam o Natal Judaico – apesar de não haver a mínima relação entre nenhuma das festas, além da proximidade no calendário. Tanto Purim como Hannuka são bem mais antigas que as festas cristãs celebradas na mesma época.

É o dia das máscaras. As máscaras simbolizam que o Mundo é mostrado ao contrário. Uma espécie de inversão de papeis e identidades. A oposição entre o que se revela e o que se esconde. Tal como Deus – aparentemente – esteve escondido, na história de Ester e dos Judeus da Pérsia. Tal como houve, no dia de Purim original, uma inversão de sortes. Os judeus, marcados para serem mortos, puderam defender-se e todos foram salvos.

É ainda o dia da bebida. Na yeshiva a festa é "regada" com alguma moderação, mas sempre há alunos que por conta própria, decidem "encher a cara", com as consequências esperadas. No dia seguinte, os empregados de limpeza da yeshiva têm trabalho redobrado. O after-party não é agradável para os exagerados. Diz-se que é em Purim que, nas yeshivot, são proclamados os melhores discursos dos rabinos. Ajudada pelo álcool, a inspiração é acrescida. "Entra o vinho, sai o segredo". E com ele, também cai a máscara. Revelam-se as verdadeiras personalidades.

No baile que tem lugar na yeshiva, alunos e rabinos dançam horas e horas, numa expressão de alegria impressionante. É a alegria da salvação, da memória da salvação dos Judeus da Pérsia, e de outras salvações ao longo dos séculos da história judaica. É a alegria da certeza de, aconteça o que acontecer, quaisquer que sejam os decretos, existe um Guardião que zela pelo Povo de Israel. Mesmo que pareça estar oculto.

publicado por Boaz às 22:06
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Domingo, 2 de Março de 2008

A Luz e o "buraco negro"

Nas preparações para o casamento – felizmente está tudo a correr de forma tranquila – um dos obstáculos mais aborrecidos de transpor é a pesadíssima burocracia israelita. Se a burocracia civil é conhecida por ser demorada e atrofiante, a burocracia religiosa não é mais eficiente. Atrasos, falta de organização, pouca simpatia e ineficiência dos funcionários imperam em ambos os campos.

Na esperança de ultrapassar algumas dificuldades, decidimos abrir o processo de casamento no antigo local de residência da minha futura esposa – um local menos populoso e, por causa disso, onde a burocracia é menos morosa. Ilusão. Como eu nunca morei no local, tive de abrir o meu processo em Jerusalém, o local onde moro actualmente. Aí, a burocracia assenta bem no modelo de instituição pesada e ineficaz.

Tivemos de pedir vários documentos no Tribunal Rabínico de Jerusalém. No nosso caso, precisávamos de um "atestado de identidade judaica" para a minha noiva. Para mim, um "atestado de solteiro", já que os documentos do tribunal rabínico que julgou o meu processo de conversão servem como atestado que sou judeu. Abrir pasta aqui, ir pagar acolá, marcar entrevista para outro dia. Ir, esperar, fazer, esperar, assinar, receber, esperar, carimbar...

Nestes meandros burocráticos, uma das tarefas mais complicadas é a obrigatoriedade da presença de duas testemunhas para atestar a veracidade dos factos, quando se pretende fazer um documento. Encontrar duas testemunhas idóneas, disponíveis e conhecedoras, que pudessem afirmar a favor das nossas pretensões: por um lado, que a minha noiva é judia e por outro, que eu sou solteiro.

O tribunal situa-se no edifício onde funcionou o parlamento israelita entre 1950 e 1966, no centro de Jerusalém. Em Israel, a lei civil não contempla as áreas de casamento e divórcio, sendo estes assuntos regulados exclusivamente pelas autoridades religiosas – judaica, cristã e islâmica. Por isso, religioso ou não, toda a gente que decida casar-se, tem de passar ao menos uma vez por um tribunal rabínico.

Nas mesmas salas onde se prestam pacíficos testemunhos para casamento, também se ouvem histórias por vezes escabrosas que envolvem o litígio dos casais em processo de divórcio. O segredo dos depoimentos é assegurado pela arquitectura: as salas são hermeticamente fechadas, as portas são almofadadas do lado de fora para abafar o som e, ao mesmo tempo, evitar que as pessoas que esperam (e desesperam) do lado de fora, não possam bater na porta, incomodando o juízo que decorre no interior.

Os inconciliáveis mundos religioso e secular, que vivem lado a lado, na sociedade israelita, encontram-se também nos corredores deste tribunal. Mulheres não-religiosas são facilmente topadas por usarem calças, quase sempre justas, por menos elegantes que possam ser os seus corpos. Numa sociedade onde o sinal mínimo de religiosidade masculina é o uso de kippa, os homens não-religiosos notam-se pela cabeça descoberta. Ou então, por usarem uma kippa que não condiz com o resto da roupa. Calças de ganga, blusão de couro e... kippa de veludo negro!? Esse não engana ninguém.

À entrada das salas de juízo, um diligente funcionário verifica se todos os homens entram com a cabeça coberta. Invariavelmente, a kippa disponível será de veludo negro. Apesar de o estilo "nacional religioso" prescrever a kippa tricotada, o sistema judicial rabínico é dominado pelos ultra-ortodoxos, que usam a kippa de tecido negro. E essa é a única moda oferecida aos que não levam a sua própria kippa.

À saída das salas é fácil perceber para o que estão as pessoas no local. Caras alegres e descontraídas são sinal de estarem a tratar de assuntos de casamento. Há gente que sai a chorar, após relatarem as mágoas de um casamento terminado em desastre.

A lei judaica permite o casamento e o divórcio. Pode ser que alguns dos separados nos juízos de hoje, dentro de alguns meses ou anos, voltem a cruzar os corredores da burocracia. Nessa altura trazendo de novo testemunhas, para depoimentos de felicidade, para assim conseguirem refazer as suas vidas junto com outra pessoa.

As kippot que não combinam, as mulheres de calças justas, os homens barbudos e de capota negra, os escriturários de pena e tinteiro na mão, os funcionários diligentes, as lágrimas dos frustrados e os imponentes juízes rabínicos estarão lá, juntos, a compor o surrealista quadro da burocracia nacional.

publicado por Boaz às 21:41
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Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2008

A farra e o julgamento

Ano Novo vs. Ano Novo

Em Israel, as celebrações do Ano Novo na noite de 31 de Dezembro, são bastantes discretas. Em Jerusalém, regida pela lei religiosa judaica, nem se dá conta delas. No máximo, alguns foguetes lançados de um dos bairros cristãos. Até as celebrações do milénio, tão apregoadas mundialmente, foram quase ignoradas na Cidade Santa. Ainda mais porque o fim do milénio coincidiu com o Shabbat e nesse dia é proibido o uso do fogo. E logo, também do fogo de artifício. Assim, não houve qualquer celebração oficial. Em Tel Aviv, onde, em muitos aspectos domina a cultura ocidental, há alguns bares, discotecas e hotéis que organizam algumas festas de Fim de Ano para os turistas e a juventude ocidentalizada.


Toque do shofar na sinagoga, postal alemão, início do séc. XX

O calendário hebraico conta os meses e os anos de forma distinta do calendário gregoriano. Os dois dias de Rosh Hashana, o Ano Novo Judaico, caem normalmente entre meados de Setembro e o início de Outubro. A essência das duas celebrações de Ano Novo não poderia ser mais distinta. Enquanto o Reveillon é dominado pela folia, o champanhe e o divertimento até cair para o lado, o espírito do Rosh Hashana é a submissão ao julgamento divino.

No último mês do ano judaico, Elul, apela-se à introspecção, ao arrependimento, à reconciliação. Entre os judeus sefarditas – judeus de origem portuguesa, espanhola e dos países árabes – é o mês de selihot, rezas especiais a meio da noite com o objectivo de alcançar esse estado de purificação espiritual.

Com a chegada do Rosh Hashana, o ambiente é solene. Ao mesmo tempo, existe a consciência de que cada ser humano está a ser julgado pelos seus actos durante o ano que passou. Julgado não por um qualquer falível e parcial juiz humano, mas pelo Juiz dos juízes. É o dia do reconhecimento de Deus como o Rei. Por isso, apesar da atitude de submissão perante o soberano máximo do Universo, não há mortificações de espécie alguma ou jejum. Com a devida diferença: também no dia da coroação de um qualquer rei de carne e osso, é dia de festa em todo o reino. Ainda mais sabendo que, apesar de, a par da sua omnipotência, o Rei dos Reis é também misericordioso.

Uma das poucas coisas comuns entre o Ano Novo e o Rosh Hashana é o formular de desejos para o ano que se inicia. No entanto, em vez de 12 passas, os judeus comem várias comidas simbólicas. Que o ano seja doce como a maça mergulhada no mel... Que os preceitos cumpridos sejam tantos como as sementes da romã...

A 31 de Dezembro nas discotecas troam os últimos sucessos da música. Nas sinagogas, em Rosh Hashana, repete-se a milenar tradição de soar o shofar, o corno de carneiro. A 1 de Janeiro, depois dos excessos da farra, há que ultrapassar a ressaca. No final da celebração do Rosh Hashana, com a confiança após o julgamento divino, a vida segue renovada.

publicado por Boaz às 22:16
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Quinta-feira, 27 de Dezembro de 2007

Mais do que uma questão dérmica

Lição básica de conduta em Israel

Todas as sociedades têm os seus códigos de conduta pública. O faz-se e o não se faz. Por exemplo, no Japão as pessoas cumprimentam-se com uma vénia – incluindo os apresentadores de notícias perante os telespectadores. Na Suécia, é considerado uma enorme falta de educação arrotar em público. Em Portugal, quatro pessoas não apertam as mãos ao mesmo tempo, fazendo um aperto por cima do outro. No Uruguai e em França, os homens cumprimentam-se com um beijo. São códigos que cada um aprende em contacto com a sociedade onde vive.

Em Israel, uma das regras entre a sociedade religiosa é: homens e mulheres não se tocam. A não ser entre o casal e pessoas de família muito chegadas. O que exclui também os casais de namorados. No que diz respeito a cumprimentos: homens cumprimentam homens com um aperto de mão ou abraço, as mulheres cumprimentam-se com um beijo, abraço ou um aperto de mão. Com o sexo oposto o cumprimento resume-se à forma oral: “Shalom”, "Como está?" e afins. Toque, nem pensar.

No ambiente militar, onde toda a sociedade israelita se mistura, o contacto entre os sexos foi ultrapassado em parte pela instituição dos batalhões para soldados religiosos. Nas bases em que se encontram estes batalhões, em geral não servem soldados do sexo feminino. Mesmo assim, entre as comunidades haredim (ultra-ortodoxas) existe uma tradicional oposição ao serviço militar. Por um lado, essa oposição deriva de uma opinião geral contra o Estado. Porém, mais do que a questão política, levanta-se a questão do contacto entre membros dos dois sexos, restringido pela Halacha, a lei judaica. Quem cumpre este código dentro da Halacha chama-se shomer neguia (guardar o contacto).

Em alguns sectores este comportamento é por vezes levado ao extremo. É o caso dos transportes públicos. Mesmo que a Halacha não prescreva qualquer limitação especial nestas situações, é costume aceite que homens e mulheres – não casados entre si – não se sentam um ao lado do outro. Em várias linhas de autocarros de Jerusalém que passam por bairros de população judaica haredi, impera a regra (não-oficial) "homens à frente, mulheres atrás".

Por vezes, as mulheres até entram no autocarro pela porta traseira, para evitar atravessar a "secção masculina". Mandam depois alguma criança – livre desses constrangimentos separatistas – pagar o bilhete ao motorista. No entanto, na maior parte dos casos, os autocarros estão tão lotados, que homens e mulheres têm de andar "perigosamente juntos". O que origina sistematicamente protestos das comunidades haredim aos serviços da Eged, a empresa de transportes públicos local.

Em Jerusalém, dominada pelo estilo de vida religioso – mesmo que não seja seguido por todos – esta regra é cumprida. As surpresas surgem quando, mesmo em Israel, se muda de cidade. Em Haifa, por exemplo, a população religiosa é muito menos influente e nem toda a gente conhece estes códigos. Há dias, de visita a uma família amiga da minha noiva, à chegada a sua casa, deparei-me com esta realidade.

A dona da casa abraçou calorosamente a minha noiva e a minha futura cunhada. Quando chegou a minha vez, ela estendeu a mão perguntando ao mesmo tempo "Toca, não toca?". A minha noiva apressou-se a avisar: "Não, não toca". Não houve grande embaraço, desta vez. A senhora entendeu. Mas há momentos em que as pessoas não entendem e sentem-se ofendidas.

Em alguns casos, face a uma mão estendida, dizem as regras que, se não der para resolver a questão de outra forma, é melhor dar mesmo o aperto de mão à senhora, do que causar o seu embaraço. "É preferível deixar-se lançar num fornalha em chamas, que causar vergonha ao seu vizinho".

publicado por Boaz às 22:30
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Segunda-feira, 17 de Dezembro de 2007

Natal sem Natal

Alguém me pediu para escrever sobre o Natal. Pedido difícil feito a alguém que deixou de festejar o Natal faz uns anos... Apesar de este não ser um artigo feito por encomenda, decidi aceder ao pedido.

Na minha infância, tal como na da grande maioria das infâncias no Ocidente, o Natal era a época mais esperada do ano. Pouco me importava o menino Jesus e ainda menos o Pai Natal. Aliás, em minha casa os meus pais sempre nos informaram que eram eles próprios quem oferecia os presentes e que estes não apareciam caídos, sem esforço, por via de um velho gordo que chegara pela chaminé de madrugada. Sabíamos que as prendas tinham de ser pagas com dinheiro a sério e, para as poderem comprar, os pais teriam de trabalhar. Não era menos mágico o meu Natal, mesmo com essa lição de economia doméstica.

No início, os presentes eram entregues só de manhãzinha. Decisão pedagógica. Era o único dia do ano em que eu e a minha irmã saltávamos da cama. (Ouve outra ocasião em que saltei da cama, quando a minha mãe me acordou dizendo que tinha nevado!) Com o tempo, os presentes passaram a ser entregues à noite, assim que tocavam as doze badaladas na igreja vizinha. Éramos mais crescidos e mais difíceis de domar e os meus pais já não aguentavam a nossa ânsia de receber os presentes.

Despojada do significado religioso, pela gradual secularização da família, aquela era apenas uma festa familiar. Os únicos marcos da tradição eram a árvore decorada e o presépio – o único símbolo religioso resistente na festa, presente mais pela graça de ir recolher musgo ao pinhal e montar o cenário do que pela veneração do menino na manjedoura. E a enorme travessa das filhós que a minha mãe pacientemente fazia e eu ajudava a polvilhar de açúcar e canela.

Com o meu crescente afastamento do Cristianismo, o Natal tornou-se um verdadeiro embaraço familiar e pessoal. A certa altura eu até pedia à minha mãe e aos amigos para não me comprarem e oferecerem presentes. E informava que não daria presentes a ninguém. Era difícil. Nem sempre era bem aceite a minha decisão. Ir contra a tradição e o espírito da época era um acto de rebeldia. Até vir para Israel, a única coisa que eu mantinha era a troca de presentes com o grupo de amigos local. Porém, era mais para festejar a nossa amizade e podermos, ao menos uma vez por ano, conseguirmos reunir-nos do que, de novo, pelo menino.

Num dos meus últimos anos em Portugal, uma crise familiar fez que não fizéssemos festa nenhuma em casa. O almoço de Natal acabou por ser num restaurante na praia da Nazaré. Foi horrível, especialmente para a minha mãe. Deve ter sido uma frustração brutal. Eu tinha ido contrariado, sem qualquer pachorra para a festa. Ela bem tentava puxar conversa, mas eu só queria acabar de comer e voltar para casa. Enquanto ela queria dar um pouco de alegria e significado festivo à data. Felizmente, só dura um dia.

Nessa altura, eu ainda não tinha começado oficialmente o meu processo de conversão ao Judaísmo, por isso ela ainda não entendia bem o meu comportamento de indiferença pela data em questão. Mesmo que ela soubesse das minhas intenções de conversão, que já duravam há uns anos. Talvez pensasse que era apenas uma fase minha ou que aquele desejo não implicava nenhuma mudança extraordinária.

Desde que vim para Israel, o Natal acabou definitivamente. Em Jerusalém, as poucas marcas do Natal que detecto, são as raras árvores decoradas nas janelas das casas do Bairro Arménio da Cidade Velha, a pouca distância da yeshiva onde estudo. Ou nas casas de cristãos nos bairros árabes do lado oriental da cidade. Mais para o sul da cidade, o cenário muda: o final da Estrada de Belém – a estrada que liga Jerusalém a Belém – está iluminado com luzes coloridas. Para agradar aos milhares de turistas cristãos que inundam a região nesta altura.

Na yeshiva é um dia de estudo como outro qualquer. Com uma excepção: à meia-noite do dia 24, apesar de não haver um anúncio oficial para o efeito, os alunos devem parar no estudo durante uns minutos. (Os poucos que a essa hora ainda persistem no Beit Midrash, a sala de estudos principal). A interrupção não é por respeito à ocasião. Antes pelo contrário. É inesquecível que as maiores tragédias do povo judeu aconteceram às mãos de alguns dos seguidores do menino da manjedoura. Por isso, a dignidade de estudar Torá não deve ser dada a tal momento. Por isso alguns interrompem o estudo para jogar xadrez.

publicado por Boaz às 12:21
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Segunda-feira, 29 de Outubro de 2007

Tzeduke, tzeduke!

Em Jerusalém é muito comum encontrar pessoas a pedir na rua. De acordo com as estatísticas, esta é a mais pobre cidade de Israel. O que é um paradoxo, pois esta também é uma das cidades mais caras para se viver. A cada ano, os cada vez mais incomportáveis preços das casas, levam milhares de jovens casais a abandonar a cidade para os subúrbios.

Ao mesmo tempo, no Bairro Judeu da Cidade Velha existem alguns dos apartamentos mais caros do mundo. Milionários estrangeiros dispõem-se a pagar centenas de milhares de dólares até por um cubículo sombrio, só para estarem perto do Muro Ocidental algumas semanas por ano.

Os bairros habitados por comunidades de judeus haredim, como Kiryat Zanz, San’hedria, Har Nof ou Mea Shearim, são dos mais sobrelotados da capital e, apesar de estarem entre os mais caros, têm uma boa parte dos seus residentes sustentados por organizações de caridade. Jovens recém-casados têm como alternativa os colonatos de Beitar Ilit, Modi’in Ilit ou Elad. E mesmo esses, dada a crescente procura, já começam a ficar caros para a maioria das bolsas.

Nas ruas dos bairros mais religiosos, dezenas de pessoas, na maioria homens, esticam a mão aos transeuntes, na esperança de receberem algum dinheiro. Nem todos serão necessitados, muitos aproveitam-se da generosidade dos locais e da inocência dos turistas. Os muitos loucos que param por estas bandas vivem do que conseguem juntar com a esmola. Nos tempos mais recentes apareceram e abancaram nas escadas de acesso ao Kotel os vendedores de pulseirinhas vermelhas – a moda cabalista adoptada e publicitada universalmente por Madonna. Cinco shekels, pouco menos de um euro. De euro em euro, se sustenta a barriga ou os vícios.

No Kotel, o Muro Ocidental, tanto na praça como no recinto de orações, abundam os que pedem. Aproximam-se das pessoas que caminham na praça para ir rezar junto ao Muro ou simplesmente dos turistas e vão pedindo: "tzedaka, tzedaka!" (em mau português será algo como "caridade, caridade!"). Pedem não tanto para proveito próprio, mas antes para obras de caridade: yeshivot, cantinas que servem comida aos necessitados, instituições que ajudam jovens casais ou soldados, etc.

As mãos estendidas só se recolhem no Shabbat e feriados judaicos. Nesses dias, existe a proibição religiosa de lidar com dinheiro. Mas a caridade não acaba com a entrada no Shabbat, antes toma outras formas.

Várias famílias religiosas em Jerusalém têm a casa aberta para quem quiser entrar e comer. Um desses casos é o Rav Mordehai Machlis, um rabino americano há mais de 20 anos em Israel. Todas as semanas, abre a sua sala de jantar para dezenas de pessoas: de estudantes de yeshivot aos turistas – nem todos judeus – que já sabem da sua fama e hospitalidade, e vários mendigos que procuram abrigo e uma comida melhor, ao menos no santo Shabbat.

A todos e sem distinção de credo ou condição social, o Rav Machlis acolhe com uma simpatia infinita e com a sua enorme sabedoria. A muitos proporciona a primeira experiência de uma refeição de Shabat, num ambiente religioso.

Apesar de não ter necessidade de ir a casa do Rav Machlis, volto lá de vez em quando. Para lá de um irresistível ambiente louco – imagine-se mais de 50 pessoas desconhecidas apertadamente sentadas numa sala de jantar – da experiência de ter de passar as travessas de comida por cima das cabeças para chegarem até às últimas mesas ao fundo da sala, é comovente admirar o deleite deste homem que, incansável, há anos que mantém a casa aberta, Sábado após Sábado, para dar a algumas dezenas de pessoas, em algumas horas, um pouco da experiência do dia mais santo do ano. Todas as semanas.

Nota: O termo hebraico tzedaka, tem um significado bem mais amplo do que caridade ou esmola. Significa antes de mais, justiça.

publicado por Boaz às 20:44
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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

O mais amado

O preceito judaico mais repetido nas escrituras é: "amarás o converso". É mencionado no Tanach (Escrituras Sagradas Judaicas) mais de 30 vezes.

A admiração pelos conversos e a importante mitzvah (preceito) de os acolher é bem expressa numa passagem da Gemará: Rabbi Elazar ben P’dat disse: "Deus enviou Israel para o exílio entre as nações pelo único propósito de juntar conversos ao seu número". (Talmude Babilónico, Tratado de Pessachim, 87b).

Mesmo que o Judaísmo, apesar das acusações contidas nalgumas passagens dos Evangelhos, nunca tenha tido uma atitude missionária de busca activa de conversos. A atitude judaica deve ser o acolhimento dos interessados à conversão, não a propaganda para que juntem ao Povo de Israel.

Nas palavras do sábio Rabbi Shimon ben Lakish: "O converso é mais querido por Deus que a multidão que esteve perante o Monte Sinai (na entrega da Torah e os Dez Mandamentos). Porquê? Porque essa multidão não teria aceite a soberania de Deus se não fosse o estrondo, os relâmpagos e os trovões e o tremor da montanha, enquanto estes (os conversos) não viram nem ouviram nada do género e ainda assim vêm e submetem-se a si mesmos ao Santo Bendito Seja e aceitam a soberania de Deus! Haverá alguém mais querido que isso?" (Tanchuma Lech Lecha 6).

publicado por Boaz às 13:36
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Segunda-feira, 5 de Março de 2007

O meu pé esquerdo

No passado Domingo festejou-se Purim em Jerusalém. Purim é uma festa judaica que recorda o milagre da salvação dos Judeus da Pérsia, do decreto de morte de todos os Judeus do império persa, pelo malvado vizir Haman.

(Interessante como menos de 2500 depois, da mesma Pérsia entretanto chamada Irão se levanta outro Haman, na pessoa do presidente Ahmadinejad).

É costume as pessoas mascararem-se (não sei se por influência do Carnaval), fazerem churrascos e, especialmente, beber até cair.

Eu, não bebi, mas caí. E o resultado foi uma luxação no dedo grande do pé esquerdo. Graças a Deus, não foi fractura.

Como as dores não paravam e o dedo estava inchado e roxo (bem madurinho, pronto para cair), fui ao Maguen David Adom (o equivalente israelita da Cruz Vermelha). Aí recomendaram-me descanso por dois dias.

publicado por Boaz às 11:57
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