Terça-feira, 30 de Agosto de 2011

Kiddush com tequila (Em todos os lugares se encontram judeus)

Cumprem-se hoje cinco meses desde o dia em que embarquei na mais longa viagem que fiz até hoje: Cancún, no México. Fui visitar a kehilá (comunidade judaica) local. A frequentar o curso de preparação de shelichut¹, recebemos uma proposta séria para a pequena comunidade judaica no Caribe mexicano. Depois de algumas conversas via Internet e troca de emails, fui convidado a passar uma semana com a kehilá. Apenas eu iria viajar para Cancún. Nesta fase inicial de contacto com a comunidade, decidiram que era prematuro que a restante família me acompanhasse.

O programa da visita foi um pouco complicado de gerir. Acima de tudo, por ser a primeira vez que passava por uma experiência deste género. Nas semanas anteriores à viagem tive de preparar várias classes, discursos a serem proferidos na sinagoga durante o Shabbat e atividades para as crianças. Contactei rabinos que tinham trabalhado na América Latina, incluindo no México, para saber que assuntos abordar nas classes, para manter as pessoas interessadas. Uma das classes seria para as mulheres. Aconselharam-me a falar sobre o Amor. Além disso organizaria uma “conferência” com um tema à minha escolha.


Praia de Cancún | Espetáculo de um mimo israelita no shopping Kukulcan Plaza.
Pequeno-almoço comunitário | Vitral maia, cúpula do Kukulcan Plaza.

Porém, o que me levantou mais dúvidas foi a convivência com a débil prática religiosa dos judeus locais. Como comer kosher durante uma semana? Se houvesse alguma atividade na praia ou na piscina – ambientes comuns no dia-a-dia dos judeus locais – como ficaria a questão de tzeniut² (ou modéstia feminina)? E, com alguns membros da comunidade não sendo judeus de acordo com a Lei Judaica (por via de conversões não-ortodoxas) como poderia organizar as rezas na sinagoga?

As conversas com o diretor da organização onde estudei dois anos para a preparação da shelichut deixaram-me bem mais descansado. Era preciso, antes de mais, “aliviar um pouco a cabeça” habituada à estrita ortodoxia da vida judaica de Israel. A comida seria providenciada pela cozinha da comunidade, que é kosher, e pelas famílias que respeitam as regras alimentares judaicas em suas casas, como havia comprovado o próprio diretor numa visita a Cancún, alguns meses antes. Na questão da tzeniut, as opiniões que consultei divergiam. Uma dizia para tentar fixar as atividades de forma que evitasse totalmente esse problema. Outra opinião, que me surpreendeu pela complacência, foi simplesmente um peremtório: “Não olhes”.

Quanto aos possíveis não-judeus que integram as rezas na sinagoga (neste caso, convertidos por correntes não-ortodoxas, que não aceitam todas as regras da Lei Judaica), fui aconselhado a ignorar esses casos e organizar as rezas da maneira regular. Existem inclusive algumas razões haláchicas para esta leniência, por isso durante a minha visita não deveria abordar estes casos problemáticos.

A viagem de avião para Cancún foi difícil de aguentar. O horário do voo, saído de madrugada de Tel Aviv, estragou-me a noite de sono. O frio, o barulho dos motores, das dezenas de pessoas a roncar e tossir e o choro das crianças tornaram o longo voo de 12 horas até Filadélfia uma tormenta. A paranóia de segurança dos EUA iria fazer-me correr na curta escala entre os voos. Nem mesmo para quem está habituado à apertada máquina de segurança em Israel, as regras praticadas nos EUA são fáceis de suportar.

Cheguei a Cancún quase 24 horas depois de sair de casa. Passei do fresco início de Primavera de Gush Etzion para o escaldante e interminável Verão das Caraíbas. À saída do aeroporto, a rajada sufocante dos mais de 30 graus e da imensa humidade. O ar condicionado seria o meu melhor amigo naquela semana. Fui recebido pelo presidente da comunidade. Antes de me levar ao hotel, no centro da cidade, passámos pelo pequeno centro comunitário judaico para conhecer as instalações, a dois quarteirões de distância do meu hotel.

Teria algumas horas para descansar, depois de um duche. Antes de me deitar, ainda mandei uma mensagem para casa, pela Internet. Sete horas de diferença em relação a Israel significavam um quase absoluto desencontro de horários para marcar uma conversa com a família. Uma pessoa da comunidade tinha mandado entregar dois cestos com comida kosher (fruta, sumos e bolachas) para satisfazer o meu apetite no hotel. Depois do duche, da mensagem para o lar, do curto descanso, de comer um pouco – no voo de 4 horas desde Filadélfia não havia comido nada – começava o programa de trabalho daquela semana de visita à comunidade judaica de Cancún. As reuniões foram todas à volta da mesa de jantar, com as famílias dos líderes da comunidade.

Antes do primeiro almoço de trabalho, fui levado a um breve passeio para apreciar a famosa praia de Cancún. A alguns quilómetros do centro da cidade, percorrendo a avenida onde se situam os gigantescos hotéis, os clubes noturnos e os centros comerciais luxuosos, chegámos a um ponto onde pude admirar o Mar das Caraíbas, de um azul-turquesa indescritível. Perante tal grandiosidade, recitei a bênção: “Bendito És Tu, Eterno Nosso Deus, que fazes a Obra da Criação”. Pela primeira vez, vi o Atlântico do seu lado ocidental.

Num local tão improvável para encontrar vida judaica organizada como a costa caribenha do México encontrei uma comunidade pequena, de apenas 40 famílias. Todos tinham chegado a Cancún vindos de outra região do México, a maioria da cidade do México. Ou de outros países. Sem escola própria, minada pela assimilação e os casamentos mistos, era até então uma comunidade associada ao Judaísmo Conservador. A atuação do último rabino da comunidade tinha sido de tal modo desastrosa, dando uma péssima fama da comunidade de Cancún, que esta decidiu contratar um rabino ortodoxo.

Não que, com a chegada de um rabino ortodoxo, a comunidade se tornaria só por si ortodoxa. Contudo, apercebi-me que as mudanças pretendidas eram mais do que cosméticas. A liderança estava consciente das mudanças profundas necessárias à sobrevivência da pequena congregação. O problema das conversões “expresso” ocorridas na fase “conservadora” era o assunto mais quente da futura atuação do futuro rabino da comunidade. Num fenómeno demasiado corrente na Diáspora, quase todos os homens da comunidade haviam casado com mulheres não-judias. Em alguns casos, elas tinham passado a tal conversão vapt-vupt, em outros nem isso. Isso significava que entre as crianças da comunidade, poucas seriam judias de acordo com a Halachá (a Lei Judaica).

Para uma comunidade tão pequena e tão pouco religiosa – poucas famílias cumprem as regras alimentares judaicas e apenas um membro da comunidade cumpre o Shabat – a participação nas atividades religiosas da sinagoga é bastante elevada. Ao contrário de comunidades maiores (como Lisboa, por exemplo), a sinagoga tem minyan diariamente. Todas as manhãs, após o serviço religioso: o pequeno-almoço comunitário é uma oportunidade de ouro para organizar uma breve sessão de estudo. No Shabat, após o Kabalat Shabat há sempre um jantar da comunidade, frequentado por umas 50 pessoas. E o almoço na manhã seguinte também é partilhado por várias famílias. Cada um sente a sua responsabilidade como membro, para que a restante comunidade possa manter-se ativa. O compromisso com a vida comunitária é fortíssimo e comovedor de testemunhar.

Durante a semana, servi de chazan (oficiante) durante os serviços matinais na sinagoga. Também fui eu que li na Torá. Duas estreias absolutas para mim. Não creio que me saí tão mal, mas precisarei de mais prática. Na manhã de domingo, a ocasião de conhecer algumas crianças e participar nas suas atividades semanais na sinagoga, junto com o animador do grupo de jovens, recém regressado de Israel. Através de algumas brincadeiras didáticas ensinei-lhes um pouco sobre a festa de Pessach, a acontecer daí a algumas semanas.

Por uma questão de cortesia, visitei o emissário Chabad na cidade. Devido à situação dos casamentos mistos e das conversões, ele tinha recusado a oferta de ser o rabino da comunidade. Por isso, tirando algumas aulas com algumas famílias e o abastecimento de alguma comida kosher importada, ele dedicava-se quase exclusivamente a assistir os turistas judeus de visita a Cancún.

Uma das coisas que mais me impressionou na visita foi a simpatia e informalidade dos judeus cancunenses. Apesar de quase todos serem milionários, vivendo em mansões faustosas, não tinham o menor toque de snobismo, tão comum entre os ricos. (E essa é a imagem que tenho dos judeus mexicanos).

Depois de uma semana de visita, apesar de todos os desafios que uma shelichut em Cancún implicaria, imaginei que seria uma comunidade interessante onde trabalhar. Sendo uma comunidade tão pequena e remota, era contudo extremamente unida e interessada na vida comunitária, algo que falta noutras paragens. O local também ajudara a criar uma boa perspetiva de decidir transplantar a família para tão distantes latitudes. As questões económicas nem sequer foram mencionadas. Esse assunto deveria ser relegado para uma etapa mais avançada nas negociações.

Poucos dias após o regresso a Israel recebi a resposta da kehilá. Eu não seria o escolhido para liderar a comunidade. A minha falta de experiência, face às complicadas questões que rodeiam a vida judaica em Cancún, determinara este desfecho. Ainda que um pouco desiludido, reconheço a razão da decisão. As tarefas são hercúleas e o novo shaliach terá de ter um pulso muito forte para aguentar as adversidades. Além de, diplomaticamente ter de engolir alguns sapos e por vezes fechar os olhos, por outro terá de ter coragem de bater na mesa quando seja imprescindível. Só desejo o maior sucesso ao que tomar o cargo que, um dia pensei que poderia ser eu a realizar. De Cancún e dos seus judeus guardo ótimas memórias.

¹ Shelichut – Literalmente, "missão". O termo aplica-se aos rabinos e educadores (sendo estes chamados de shelichim, "enviados"), que vão trabalhar temporária ou definitivamente com as comunidades judaicas da Diáspora. Também é aplicado aos diplomatas.

² Tzeniut – "descrição" ou "modéstia". Refere-se em especial às regras de vestuário feminino para evitar expor demasiado o corpo. Algo especialmente difícil nos 12 meses de verão de Cancún.

publicado por Boaz às 19:35
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Domingo, 6 de Fevereiro de 2011

Mais do que um destino de peregrinos

A onda de peregrinos na última quadra natalícia, incluindo as celebrações de alguns cristãos ortodoxos, que ocorrem alguns dias mais tarde que o calendário gregoriano, encheu o país de visitantes estrangeiros. O ano de 2010 foi o melhor de sempre para o turismo israelita. Pela primeira vez, mais de 3 milhões de visitantes estrangeiros entraram em Israel. Não é um número impressionante se comparado com referências no turismo mundial como a França, Espanha ou Itália com mais de 50 milhões de visitantes por ano cada um. Mas “3 milhões” é um marco assinalável.

O turismo cristão representa mais de 50% de todos os visitantes em Israel. Mesmo nos anos negros da Segunda Intifada (2000-2005), os cristãos continuaram a afluir à Terra Santa. A sonhada enchente da Passagem do Milénio foi uma quimera, mas os cristãos (em especial evangélicos), mais até do que os judeus, continuaram a visitar o país. As numerosas igrejas em Jerusalém e Nazaré, a Via Dolorosa, a igreja da Natividade em Belém, uma imersão no Rio Jordão (agora pouco mais é que uma vala imunda, pouco recomendável) em forma de baptismo e um passeio num “barco de Jesus” no Mar da Galileia, estes são os passeios obrigatórios para o peregrino em viagem pela Terra Santa. Porém, ainda que estes locais sejam o destaque de qualquer campanha de promoção turística para Israel, o país tem muito mais para oferecer do que os locais sagrados das Escrituras.


Monte Meron de mochila às costas | Monte Arbel e Mar da Galileia
Cratera de Ramon, no deserto de Negev | Mar Vermelho, junto a Eilat.

Em Haifa, na face norte do Monte Carmelo situa-se um dos melhores postais turísticos de Israel. O Centro Mundial da Fé Bahá'í, com os seus jardins grandiosos construídos em degraus e os seus edifícios de arquitectura neoclássica, é uma das Maravilhas do Mundo. Muito perto de Haifa, a cidade de Akko é um museu de história a céu aberto. As muralhas da Cidade Velha encerram uma fortaleza do tempo dos Cruzados e um mercado árabe muito mais autêntico que o de Jerusalém.

Na capital, ainda que seja impossível ignorar os lugares santos, uma típica peregrinação pode ser complementada com outro tipo de visitas. O Museu de Israel, que recentemente foi aumentado e modernizado, é um paraíso para os apreciadores de arqueologia e de todo o tipo de artes. Num registo bem distinto, o Yad Vashem, o moderno Museu do Holocausto, e o vizinho Monte Herzl, onde fica um cemitério militar e o “panteão nacional”, são lugares imperdíveis. Em Holon, o original Museu das Crianças tem exibições especiais que permitem aos visitantes experimentar o Mundo do “ponto de vista” dos cegos e dos surdos.

Para os apreciadores de arte, em Tel Aviv e Ashdod encontram-se bons museus de arte contemporânea. Em Safed, no norte da Galileia, para lá das muitas sinagogas e as sepulturas dos grandes mestres cabalistas, encontram-se inúmeras galerias de arte. A cidade tem uma numerosa colónia de artistas e mostra uma curiosa fusão entre a excentricidade dos artistas e a tradição dos judeus ortodoxos.

A fortaleza de Massada, situada num planalto próximo do Mar Morto, a pouco mais de uma hora de Jerusalém, é um dos locais históricos mais importantes do Médio Oriente. É o maior símbolo da independência judaica e da resistência contra o domínio estrangeiro. São admiráveis os seus palácios romanos bem preservados, as cisternas gigantescas escavadas na rocha, destoantes num local extremamente seco. Tudo isto num planalto de paredes abruptas entre a paisagem quase lunar do deserto da Judeia, a ocidente, e o profundo azul-cobalto do Mar Morto, a oriente. Com as vermelhas montanhas de Moav, na Jordânia, do outro lado do espelho de águas.

Ali perto, o oásis de Ein Gedi com as suas cascatas de água doce desafia a implacável secura do deserto. A poucas centenas de metros, no fundo da escarpa, jaz o domínio do sal. O Mar Morto, o local mais profundo da superfície terrestre é o mar (na verdade é um lago) mais salgado do Mundo. Dar umas braçadas ou apenas flutuar naquela água espessa e morna é uma das experiências mais originais de uma visita a Israel. A salinidade extrema que impossibilita a vida e impede que os corpos se afundem, fez florescer o turismo com numerosos hotéis e spas e é a base de uma indústria de cosméticos de renome mundial.

Um dos lemas do turismo em Israel são mesmo os seus “quatro mares”. Na verdade, são apenas dois, mas cada um ligado a um oceano distinto, o que é algo de nota num país tão pequeno. Enquanto a costa ocidental é banhada pelo Mediterrâneo, que liga ao Atlântico, a pequena faixa de 12 quilómetros da costa de Eilat, no extremo sul, é banhada pelo Golfo de Aqaba, o ponto mais a norte do Mar Vermelho, uma parte do Oceano Índico. Porém, uma das denominações do Kinneret, um lago de água doce, é Mar da Galileia e o lago salgado conhecido por Mar Morto não tem outro nome. Assim se completam os tais “quatro mares”.

No deserto do Neguev, quem tenha força nas pernas pode aderir a uma das paixões dos israelitas: as caminhadas pela natureza. As inóspitas montanhas do sul de Israel têm um aspeto desolado, mas ao longo dos milénios foram refúgio de profetas e de civilizações há muito desaparecidas. Como os nabateus – os construtores de Petra, na Jordânia – que deixaram marcos também deste lado da fronteira. A gigantesca cratera de Ramon é um dos panoramas mais espetaculares do país. Parece uma cratera vulcânica, mas é um makhtesh, um raríssimo fenómeno geológico exclusivo de Israel. Para lá da visão assombrosa no miradouro sobre a cratera, às primeiras horas da manhã é possível ver os elegantes ibexes da Núbia, uma espécie de cabra do deserto, que sobem a escarpa e se aventuram pelas ruas ermas da pequena cidade de Mitzpe Ramon.

Apreciar a vida selvagem é um dos valores de uma visita a Israel. Desde um mergulho nos corais de Eilat junto com centenas de peixes coloridos, até observação de aves no Vale do Jordão. Israel é um dos principais pontos de passagem na migração de milhões de aves entre o Norte da Europa e a África Oriental. No norte da Galileia, o vale de Hula, com os seus pequenos e numerosos lagos, serve de descanso e refúgio de passagem às aves, durante a longa migração. Nos últimos anos, foram ali reintroduzidos os búfalos de água, outrora extintos. No oásis de Ein Gedi, entre um mergulho junto às cascatas, podem-se avistar as fugidias lebres das rochas, bandos de abutres e, para os mais atentos, até alguns leopardos. Ainda que o país tenha ainda que dar muitos passos em termos de ecologia, uma boa parte do seu território é composto por reservas naturais.

Do lado oriental da Galielia situa-se o Kinneret ou Mar da Galileia. O clima subtropical na maior parte do ano torna-o um agradável destino turístico. As ruínas das antigas termas em Tiberias e Hamat Gader testemunham que já desde a Antiguidade a região atraía a elite romana e mais tarde bizantina e otomana. Outra opção é um passeio de bicicleta nas margens do lago.

Nos Montes Golan, conquistados à Síria na Guerra dos Seis Dias em 1967, situa-se o ponto mais alto de Israel. O monte Hermon é local de esqui durante algumas semanas no Inverno. Nada que se possa comparar com uma qualquer estância de Inverno dos Alpes, dos Cárpatos ou mesmo do Líbano. Ainda assim, a abertura das pistas de esqui do Hermon é ansiada por muitos israelitas assim que caem os primeiros nevões.

Uma piada que revela a exiguidade de Israel, e ao mesmo tempo a sua espantosa variedade diz que, num dia de Inverno é possível esquiar de manhã no Hermon e algumas horas depois apreciar uma praia no ambiente subtropical de Eilat.

publicado por Boaz às 20:35
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Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

A geração dos 'Pardais'

Nesta última semana de intervalo nos estudos da yeshiva tive uma pequena mas interessante proposta de trabalho: ser guia de um grupo de jovens sul-americanos em visita a Gush Etzion, o bloco de colonatos a sul de Jerusalém e onde vivo há quase ano e meio. Fui substituir um brasileiro residente – tal como eu – em Alon Shevut e mais acostumado a estas andanças de guia turístico.

Nas vésperas, avisaram-me por e-mail que deveria falar da região de Gush Etzion, a sua situação política e estratégica, o modo de vida dos colonos, as diferenças entre os vários colonatos do "Bloco" e um pouco da história da região. Uma pesquisa noturna à pressa pela Internet, com as páginas da Wikipédia a encabeçarem as opções na busca de informação, deu-me alguns dados para completar aquilo que já sabia de cabeça. O episódio da "caravana dos 35" – que, nem por coincidência deu nome à minha rua, foi um dos pontos que mais destacaram que eu deveria falar.

Encontrei-me com o grupo às 11:45 junto ao alon ha'boded, o carvalho solitário que é o símbolo da zona. Tinham-me avisado que os jovens do grupo não eram religiosos. Bem, "não religiosos" seria uma definição algo branda para aquele bando. Membros da organização judaica de inspiração socialista, HaBonim Dror, os jovens eram na verdade mais do género "anti-religioso". De qualquer forma, sempre se mostraram respeitosos pela minha presença. A kippá grande, as longas peyot e os tzitzit à mostra não os assustaram. Eu também não me senti intimidado pelos grandes decotes e calções de verão das meninas e pelos penteados estranhos e os piercings dos rapazes. (Eu também já fui da "malta moderna". E até já usei um piercing! Vidas passadas.)

Depois da breve visita à histórica árvore, fomos para o kibbutz vizinho de Kfar Etzion, o mais antigo colonato da região, palco de um massacre exatamente no dia anterior à declaração de Independência de Israel. Era já hora de almoço e sentámo-nos à sombra de umas árvores num parque. Aí, tive a oportunidade de conversar com alguns dos outros guias, do Brasil e da Argentina.

Depois, dividimo-nos e metade do grupo foi visitar a yeshivá de Alon Shevut. Uma explicação – talvez demasiado longa – sobre alguns achados arqueológicos no jardim da yeshivá. Subimos até à ala das mulheres, com uma vista soberba do Beit Midrah, o lugar de estudos principal da yeshivá. Imagine-se aquela gente que nunca tinha entrado numa yeshivá – possivelmente muitos nem sequer entraram alguma vez numa sinagoga. Só nessa altura, os outros guias se lembraram que não tinham avisado as meninas para se vestirem de forma "composta", um pouco mais tapadas. Explicámos como é a vida na yeshivá e o modo de vida dos estudantes. Cinco minutos de explicação e voltámos aos autocarros.

Há que voltar daqui a pouco até "à base", onde metade do grupo tem outras atividades e nos espera para também fazerem este giro. Ainda temos alguns minutos para passar por Efrat, o maior colonato de Gush Etzion. Assim que chegámos à primeira rotunda de Efrat, o autocarro deu meia volta e voltou para trás. Não há mais tempo. Este meio-grupo não viu nada do local. Temos de mudar a estratégia para a próxima vez. Troquei de autocarro e tomei o microfone. Há que aproveitar os breves minutos da viagem entre os vários colonatos para ir falando.

Apesar de se identificarem como judeus – ainda que pelo talvez metade não o sejam de acordo com a lei judaica, filhos de pai judeu, mas não de mãe judia ou apenas netos de algum judeu – e imaginando que estão habituados a uma imagem de Israel muito desfocada pelos meios de comunicação social e pela ideologia de extrema-esquerda do Dror – a imagem do colono judeu fanático, sedento de sangue árabe, que come criancinhas palestinianas ao pequeno-almoço – tentei passar-lhes a ideia de que essa é uma ideia errada e que nem sequer todos os colonos são iguais. Que, tal como no resto do povo judeu no mundo inteiro, há judeus de todos os tipos e até seculares que habitam esta região.

Depois de 10 minutos de palestra, apercebi-me que o autocarro ainda não tinha saído do lugar. Ah, eu não tinha dado a ordem de largada! Bem, não me imaginava o líder da comitiva, mas apenas o que provê alguma informação. Fomos para Alon Shevut com quase 15 minutos de atraso. À chegada ao parque de estacionamento da yeshivá, uma vista sobre o enorme colonato de Beitar Illit, uma cidade habitada exclusivamente por judeus ultra-ortodoxos. Ao subirmos as escadas para a yeshiva, avisto o Rabino Aharon Lichstenstein, o director da yeshiva. "Aquele velhinho ali à frente é, apenas, um dos rabinos mais famosos do mundo", informo. Noto olhares impressionados entre os jovens. Não devem ter visto muitas vezes um rabino, ao vivo.

No andar de cima do Beit Midrash deixo-os fazer perguntas. "Porque está um aluno a dormir?" Explico como é cansativo estudar Torá o dia inteiro. "Aqui não estudam mulheres?" Falo da midrashá do kibbutz vizinho de Migdal Oz, com uma versão feminina da yeshivá de Alon Shevut, onde as mulheres estudam a Torá e outras fontes judaicas a fundo, a um nível raro a nível mundial e num ambiente judaico ortodoxo. Aproveito para explicar a evolução da perspetiva judaica em relação às mulheres e os avanços da Halachá (Lei Judaica) com a ajuda da ciência. Aponto o jovem no Beit Midrash que usa um computador e os dois jovens que estudam juntos por um volume da Guemará. As duas faces do estudo da Torá.

Ainda há tempo de ir a Efrat. Ali, temos 10 minutos até ao regresso. Uma visita ao belo miradouro ladeado de buganvílias e pinheiros. Observam o vale onde passa a estrada para Jerusalém e Elazar, o pequeno colonato do outro lado do vale. Mostro-lhes a tranquilidade da vida em Efrat. "E os Territórios Palestinianos, onde são?" Explico que, de acordo com a comunidade internacional, ali já são os "Territórios".

Antes de regressarmos, peço perguntas, mesmo as difíceis. Um rapaz pergunta: "Recebes alguma ajuda do governo para viver aqui?". E uma menina observa: "Isto é tudo muito lindo e tranquilo mas, e do outro lado da cerca, como vivem os Palestinianos?" A guia não me deixa responder ali. Temos de voltar para o autocarro. As respostas têm de ficar para a curta viagem de regresso. Explico que não tenho qualquer ajuda especial para viver ali. É certo que as casas são mais baratas naquela região do que numa qualquer cidade do país, mas apenas por uma questão das leis de mercado. E com a falta de casas os preços têm subido bastante. Ajudas? Eu pago 200 shekels – cerca de 40 euros – por mês, apenas para a empresa de segurança privada do colonato onde vivo.

A cerca... Achei bem explicar a "grande cerca", o Muro. É ruim, é feio, é injusto, mas é necessário. O facto de podermos viajar hoje de autocarro em Israel sem grandes receios, devemo-lo ao malfadado muro. Comparo com outro muro, igualmente caro e feio, mas bem menos polémico, e que ninguém condena: o muro construído com dinheiro da União Europeia em redor de Melilla, um enclave espanhol em Marrocos, para impedir a onda de imigrantes africanos de chegar à Europa. Se as intenções dos Palestinianos em relação a Israel fossem as daqueles imigrantes que apenas querem trabalhar, será que precisávamos do "nosso" muro?

Sei que não vai ser com alguns minutos de conversa que eles serão conquistados para apoiarem Israel. Pelo menos, espero que entendam um pouco melhor a posição das pessoas que vivem aqui. E que os tenha ajudado a destruir alguns estereótipos.

Nota: "Pardal" é a outra tradução possível de Dror, o nome pelo qual é conhecido do movimento a que pertenciam os jovens, HaBonim Dror, os "Construtores da Liberdade".

publicado por Boaz às 23:11
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Terça-feira, 23 de Setembro de 2008

Jerusalém de ouro

Numa das minhas últimas viagens matinais de boleia até Jerusalém, o generoso motorista de ocasião deixou-me no bairro de Katamon, no centro da Cidade Santa. Na minha caminhada até à Cidade Velha, tive a oportunidade de apreciar uma sucessão de diferentes ambientes na cidade.

Katamon é um dos bairros mais caros do centro da capital israelita. Ao lado, em Talbiye, imperam as vivendas luxuosas de estilo neo-renascentista dos anos de 1930, habitadas originalmente por ricas famílias de Cristãos Árabes. Hoje, muitas albergam sedes de instituições culturais e consulados, como o da Bélgica, que ocupa a notável Villa Salameh. A residência oficial do Presidente da República é outra das marcas de luxo do bairro.

Sem conhecer direito o bairro consegui, logo à primeira, acertar com a direcção do caminho para a Cidade Velha. Para grande alívio do meu sentido de orientação, consegui a certa altura reconhecer no horizonte a torre do sino da Basílica da Dormição, no Monte Sião, ao lado da Cidade Velha. Descendo a Rua Jabotinski, cheguei ao cruzamento junto ao Parque do Sino da Liberdade, um pequeno jardim que contém uma réplica do famoso Liberty Bell de Filadélfia.

Do outro lado da avenida, o bairro de Yemin Moshe. Foi um dos primeiros bairros fora das muralhas da Cidade Velha. Foi fundado no final do século XIX, patrocinado pelo banqueiro judeu inglês Moses (Moshe) Montefiore, com o objectivo de aliviar o sobrepovoamento e as difíceis condições sanitárias existentes dentro das muralhas. Os primeiros habitantes chegaram a ser pagos para aí morar, mas o perigo de viver fora das muralhas – alvo de frequentes ataques de ladrões – nunca atraiu muitos residentes. Uma epidemia de cólera que grassou na Cidade Velha em 1866 levou várias famílias a optarem residir definitivamente no bairro. Porém, recusavam-se a passar aí a noite. Hoje, é uma famosa colónia de artistas, com as suas casas, alamedas floridas e escadarias arborizadas, o seu famoso moinho de vento (que nunca funcionou) e a grandiosa vista para a Cidade Velha e o Monte Sião.

A pouca distância de Yemin Moshe, seguindo a King David Street, o histórico hotel King David. Durante décadas, ainda durante o domínio britânico na região, foi o mais luxuoso e aristocrático hotel de Jerusalém. Em frente, o também histórico e de arquitectura inconfundível edifício do YMCA. Caminhando em direcção à Cidade Velha sucedem-se as galerias comerciais e os condomínios de luxo. Todos com o nome do Rei David: King David Crown, King David Court e King David Residence. Com a promessa do requinte com vista para a Cidade Velha, a marca do Rei salmista vende bem.

No final da rua, o enorme hotel David Citadel. Construído originalmente pela cadeia Hilton antes do ano 2000, de olhos na esperada enchente de turistas na passagem do milénio, o hotel nunca deu os resultados esperados. O Sr. Hilton decidiu vender o gigantesco hotel a um magnata russo, a preço de saldo. Hoje, marca o novo topo do luxo de Jerusalém.

Mas não será por muito tempo. Mesmo em frente, no antigo edifício da Alfândega Turca, abandonado há vários anos, já está em construção o futuro hotel Palace da cadeia Waldorf-Astoria. Será um dos poucos hotéis no mundo a exibir o luxuoso nome do famoso hotel da Quinta Avenida de Nova Iorque. No quarteirão ao lado, há anos que se fala da construção do Museu da Tolerância e Centro da Dignidade Humana, da responsabilidade do Centro Simon Weisenthal de Los Angeles. O controverso projecto (no arrojado estilo do Museu Guggenheim de Bilbau) parece entretanto ter ido por água abaixo. A razão: os protestos pela escolha do lugar para a sua construção: um antigo e degradado cemitério islâmico.

Actualmente, o lugar da moda em Jerusalém é o novo Shopping Mamilla. Estendendo-se numa antiga rua do bairro de Mamilla, foi inicialmente apenas uma estação de autocarros e um parque de estacionamento subterrâneos. O resto do projecto esteve 16 anos parado. Até que há poucos anos, os planos foram retomados para reabilitar a área. O mesmo bilionário russo dono do antigo Hilton investiu centenas de milhões de dólares no complexo, que inclui o centro comercial, um novo hotel de cinco estrelas e um condomínio de luxo. Em Maio de 2007, as primeiras lojas do centro comercial foram abertas. Marcas internacionais como Versace, Tommy Hilfiger, Mango ou The Body Shop, rivalizam com as cadeias locais. Às lojas de roupa de luxo sucedem-se as joalharias e a vários cafés de estilo, com agradáveis esplanadas.

Na praça a meio da avenida comercial é costume haver pequenos concertos e entretenimento ao ar livre. Nas paredes, entre as montras das lojas, encontram-se com frequência quadros pendurados. Uma galeria de arte improvisada. Clientela endinheirada não falta. No final da rua, o supra-sumo do luxo, a loja de jóias da cadeia brasileira H. Stern. Em frente, subindo um pequeno lanço de escadas, a Porta de Jaffa.

A pouca distância da recém montada pompa internacional, o centenário shuq (o mercado árabe), onde se vende toda a espécie de traquitana, numa mistura sui-generis. Numa mesma loja é possível encontrar kippot judaicas empilhadas junto a imagens de santos e crucifixos, ao lado de keffies (os típicos lenços estilo Arafat), e terços de oração muçulmanos. Almofadas em motivos garridos, T-shirts com slogans para turista. Trajes de lantejoulas para a dança do ventre e narguilas, os cachimbos de água do Médio Oriente. Mercearias dispõem, bem ordenados, montinhos de cheirosas e coloridas especiarias e servem sumos de romã, laranja ou cenoura feitos na hora.

Hotéis baratos para o turista 'mochileiro' onde, por cerca de 10 dólares por noite, é possível dormir num colchão no telhado, debaixo do céu estrelado de Jerusalém. Dispostas ao longo da rua, bandejas de objectos alegadamente arqueológicos. E toda a espécie de mercadoria de aparência tipicamente local, mas com a inevitável etiqueta "Made in China". Aqui, ao contrário do shopping moderno e elitista, tudo pode, e deve, ser regateado. E os experientes vendedores não hesitam em fazer uso dos seus dotes para línguas estrangeiras. E tão-pouco de servirem um típico café turco, para convencerem o turista a comprar.

Cruzo o shuq ao som do meu leitor de mp3, passando por entre grupos de turistas (não é raro encontrar grupos de portugueses). Em escassos minutos chego à praça da Rova, o Bairro Judeu. A poucos passos dali, a yeshivá. Para lá da efemeridade do luxo dourado e do aroma das especiarias, a eternidade das palavras dos Sábios. Tenho um dia de estudo de Torá pela frente. Ao final da tarde, farei o caminho do shuq e do shopping no sentido contrário, de regresso a casa.

publicado por Boaz às 20:06
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Terça-feira, 2 de Setembro de 2008

Viagens na minha (outra) terra

Na última Sexta-feira regressei de mais uma viagem a Portugal. Foi o meu terceiro regresso, desde que vim para Israel, em Setembro de 2005. Desta vez, porém, havia um elemento novo na viagem: Nicole, a minha esposa, de visita pela primeira vez ao meu país de origem. Ficámos pouco mais de duas semanas. Vida de casado e compromissos de estudo obrigaram à constrição das férias.


Arco da Rua Augusta, Lisboa; Sítio da Nazaré
São Pedro de Alcântara, Lisboa; Óbidos.

À partida, o obstáculo da língua estava praticamente ultrapassado – sendo brasileira e convivendo comigo há mais de um ano –, as nuances do português que o tornam intrincado para o ouvinte brasileiro, foram superadas com facilidade. Ainda assim, até mesmo eu, de vez em quando, esbugalhava os olhos, a pensar no que pensaria a Nicole acerca de algumas expressões portuguesas.

A alimentação, pela dificuldade em conseguir comida casher em Portugal (tirando a limitada variedade existente numa minúscula secção num supermercado lisboeta) foi a maior das contrariedades. Com antecedência, contactei uns amigos judeus em Portugal, a fim de conseguir a lista de produtos casher, para nos precavermos na ida ao supermercado. Cortámos a carne da dieta e aderimos em força às frutas, ao leite de soja e ao peixe. Como é abençoado o mar de Portugal! (Nem a propósito, a nossa primeira visita turística foi ao Oceanário de Lisboa.) Na bagagem de volta acabámos por trazer dois quilos de bacalhau, os quais ficarão guardados até voltar o desejo do "fiel amigo", depois de comermos bacalhau durante as duas semanas, quase dia-sim-dia-sim.

A inédita experiência da sardinhada não deixou boas memórias à minha cara-metade. Assadas inteiras, com tripas e tudo, com o consequente trabalho de tirar essa parte não comestível do peixe, foi um episódio desagradável. Já os joaquinzinhos fritos ficaram aprovados. E ainda mais, o arroz de grelos a acompanhá-los.

Com pouco tempo disponível, praticamente todos os dias tínhamos de ter uma coisa que só poderíamos fazer uma vez. Visitar a minha irmã e as minhas sobrinhas, antes que abalassem de férias para o distante Algarve, foi uma das primeiras tarefas. Sentia-me, diariamente, como que a marcar um xis numa lista de tarefas a cumprir, ao ritmo da sua execução: visitar a minha irmã, ver os amigos do antigo Grupo de Jovens, visitar a família de Alcobaça e de Lisboa. Cada coisa encaixada num horário apertado.

Consegui reunir a maioria dos amigos de infância após o Shabbat que passámos em minha casa. Reunimo-nos à volta do álbum das fotos do casamento. No geral parece estar quase tudo na mesma. Os mesmos empregos, os mesmos amores, e as mesmas eternas piadas que só nós entendemos.

Sem carro próprio, usámos o carro da minha mãe, com o compromisso de a ir buscar à sua hora de saída do trabalho. Assim, nos nossos passeios, estávamos limitados às proximidades da vila da Batalha. A cidade de Tomar e a sua modesta sinagoga (a precisar de algum restauro), Óbidos e a enchente de turistas italianos – e a ginjinha casher que serviremos aos nossos convidados no Shabbat –, Nazaré e a maravilhosa vista do Sítio, o castelo de Leiria.

Em Lisboa, estivemos menos tempo do que desejaríamos. Ainda assim, na Sexta-feira anterior ao Shabbat que passámos na capital (para termos algum contacto com a comunidade judaica local) aproveitámos para passear. As longas tardes de Verão deram-nos tempo para fazermos um dos mais típicos passeios lisboetas: uma viagem no eléctrico 28. Apanhámos o histórico “bonde” amarelo frente à Basílica e ao Jardim da Estrela. Apinhado, apesar de ter iniciado a sua viagem apenas duas estações antes, em Campo de Ourique. Turistas italianos, espanhóis e americanos compunham a maioria dos passageiros. Tivemos de ir em pé a maior parte da viagem, até à Avenida Almirante Reis.

São Bento, Bairro da Bica, Chiado, Baixa Pombalina, Sé, Alfama, Graça, Anjos, Martim Moniz. Uma delicia! Terminada a viagem de eléctrico, fomos a pé até à Praça da Figueira, descemos toda a Baixa até à Praça do Comércio. Subimos até ao Rossio pela Rua Augusta, eternamente alegrada pelos artistas de rua. Gostei especialmente das pinturas com os eléctricos de Lisboa em milhentas opções.

Fomos ao Chiado e aproveitámos o ar condicionado do Centro Comercial para recuperar o fôlego e arrefecer um pouco o corpo, naquela tarde quente. Continuámos pelo Bairro Alto até São Pedro de Alcântara, um dos mais privilegiados miradouros de Lisboa, agora mais limpo e cuidado do que da última vez que lá apreciei a sua magnífica vista. Pelo Rato chegámos ao ponto de partida do passeio. Alimentámos os atrevidos patos e os pombos do Jardim da Estrela com bolachas de água e sal.

O Shabbat foi muito especial. Hospedados em casa de uma família de amigos alemães, judeus ortodoxos, fomos recebidos como reis. A generosidade foi farta, com a mesa da família partilhada por mais sete pessoas: todos de Israel e de passagem por Lisboa. Voltámos à capital mais uma vez, de regresso do nosso passeio a Sintra. Fomos de comboio – foi a primeira vez que viajei na Linha de Sintra.

Dois dias depois regressámos a casa, a Israel. Não sei quando voltaremos. Esta será, possivelmente, em muitos anos, a única viagem que faremos apenas os dois, em casal. Em breve chegarão os filhos e aí as dificuldades de transporte, assim como as prioridades familiares, serão outras. Poderemos dizer que esta foi a nossa lua-de-mel não oficial.

publicado por Boaz às 22:08
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Domingo, 1 de Julho de 2007

A minha mala de cartão

Cheguei a Israel na passada quarta-feira. Todavia, esta chegada, a minha quinta ao país, não tem paralelo com as outras. Agora cheguei como imigrante. Sem o aparato de muitas chegadas de imigrantes dos Estados Unidos, com milhares de pessoas à espera com bandeirinhas, mas com todos os passos planeados a partir do momento da aterragem no aeroporto de Ben Gurion.


Imigrantes de Marrocos no aeroporto de Lod, onde chegaram num avião vindo de França, 1954

Comecei o processo de aliya (nome dado à emigração para Israel e que, literalmente, significa "subida") ainda em Jerusalém, nos finais de Fevereiro último. Numa ida ocasional a um gabinete da Agência Judaica, para acompanhar um colega da yeshiva entretanto chegado a Israel, pedi eu também informações sobre os procedimentos de imigração.

Mais dúvidas surgiram e acabei por contactar o serviço em língua espanhola ou portuguesa do Global Center da Agência Judaica. Fui a uma entrevista, preenchi uns papéis e levei os meus documentos essenciais à abertura do ficheiro para a minha imigração: o passaporte e a chamada teudat hamará (uma declaração que atesta que eu sou judeu após passar o processo de conversão), essencial para assegurar o meu direito a emigrar para Israel.

Mais uma ida ao Global Center entregar uns papéis que faltavam e uma troca de e-mails com informações. Aos poucos, a data da minha aliya ia ficando mais clara. Após receber a garantia de ter todo o processo tratado e entretanto transferida a minha pasta para a delegação da Agência Judaica em Madrid – responsável também pelos raros casos de portugueses que emigram para Israel – resolvi comprar a viagem para Portugal. Todo o dinheiro que havia ganho em sete dias de trabalho nas limpezas antes de Pessah serviu para pagar o bilhete. Aproveitava para visitar a família e sabia que o meu voo de regresso a Israel seria pago pela Agência Judaica. E entretanto evitaria ter de renovar o meu visto de turista, entretanto a caducar. E como só poderia fazer aliya quando completasse um ano após a conversão, seria o timing perfeito.

Com a chegada a Portugal tive de ligar para Jerusalém, a confirmar que já me encontrava fora do país. Os trâmites seguiriam agora a partir de Madrid. Informada a embaixada israelita em Lisboa, estava aberta a porta para a obtenção de um "visto de aliya". Só foi necessário encontrar uma data em que o horário da embaixada coincidisse com a minha permanência em Lisboa às sextas-feiras. Coisa difícil, já que a delegação israelita fecha ao meio-dia e eu chegava normalmente à capital à uma da tarde. Levantar-me bem mais cedo e apanhar o autocarro das 8 da manhã para Lisboa foi a única opção. E esperar que não houvesse nada de extraordinário na embaixada que me impedisse de tratar da burocracia.

Numa das minhas idas de final de semana à capital para passar o Shabbat, fui à embaixada para pedir o visto. O habitual aparato de segurança no local foi facilmente ultrapassado com uma conversa em hebraico com um dos seguranças israelitas e o mostrar do passaporte com uma série de carimbos estampados em Israel. Algumas informações num questionário e pronto. Seria só esperar dois dias e o visto estaria pronto. E o senhor cônsul desejava falar comigo...

Chegara a altura de marcar a data do voo de regresso a Israel. Oferta do governo de Israel através da EL-AL, foi-me dito que o receberia por e-mail. Só sabia a data e a hora. Mas havia um problema: o voo seria apenas entre Madrid e Tel Aviv. A viagem Lisboa-Madrid teria eu de a comprar e seria posteriormente reembolsado. Procedimento estranho se comparado com o que acontece com os emigrantes que viajam da América Latina, aos quais a viajem é paga integralmente desde o início. Com grande aperto, lá consegui um voo para Madrid na data exacta que necessitava. E ainda tive de enviar o próprio bilhete, a factura e os dados da minha conta bancária para a delegação madrilena da Agência Judaica.

Telefonema para um lado, e-mail para o outro, agora parece que o dito cujo vai ser pago pelo consulado de Israel em Espanha. Vá-se lá saber... We wait and we wonder.

E ainda me falta toda a fase do processo após a chegada. Isso é outra empreitada.

publicado por Boaz às 11:51
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Terça-feira, 27 de Março de 2007

De costa a costa

Israel é um país muito pequeno. Em termos comparativos, é mais pequeno que o Alentejo. Apesar disso, a variedade de paisagens é impressionante. Desde o enorme deserto do Neguev, a sul, que constitui mais de metade da área do país. Às montanhas do centro - verdejantes a norte e secas a sul de Jerusalém. E a Galileia, o norte do país. Verde, com colinas e vales férteis.

Os israelitas, desde os pioneiros judeus que chegaram desde o século XIX, apreciam muito as caminhadas ao ar livre. É comum encontrar grupos de mochileiros percorrendo as muitas áreas de paisagem protegida distribuídas por todo o território. Por isso, trilhos bem assinalados para caminhantes existem por todo o lado.

No início das férias da Páscoa Judaica, a Yeshivat HaKotel organizou um passeio para os estudantes estrangeiros: uma caminhada de três dias pela Galileia. Conhecido como Yam le'yam o trajecto liga o Mediterrânico ao Mar da Galileia (conhecido localmente por Kinneret). São 68 quilómetros de caminhada.


De um mar ao outro, de mochila às costas.

Começámos em Achziv, uma praia rochosa poucos quilómetros a sul da fronteira libanesa. Rumando a oriente, passámos primeiro por extensas plantações de bananeiras e abacateiros. Um detalhe chamou-me à atenção: os sinais informativos escritos em hebraico, árabe e... tailandês! A razão para isso é o facto de muitos dos trabalhadores das plantações serem naturais da Tailândia.

Leitos secos de ribeiros, cheios de grandes calhaus rolados foram alguns dos trilhos mais difíceis de transpor. Mais para o interior, os ribeiros estavam em pleno e com cuidado, aproveitando as pedras alinhadas, havia que atravessá-los, procurando não molhar os pés. Aos poucos, entrámos nos vales cobertos de florestas, até Monfort, um castelo medieval construído por Cruzados franceses. Aí o percurso torna-se acidentado e a trilha passa a ser um estreito carreiro de pedras escorregadias entre uma parede vertical e um precipício. Impróprio para os que sofrem de vertigens.

Por vezes tive de acalmar um companheiro mais nervoso com medo das alturas. A cada passo certificava-se que eu estava bem próximo dele. Ora segurando-o pela mão, ora incentivando-o a continuar.

No final do primeiro dia, acampámos nos arredores da cidade de Maalot, num descampado a mais de dois quilómetros daquele que deveria ter sido o nosso primeiro acampamento nocturno. Durante a noite, a cada meia hora revezavam-se grupos de dois na guarda do acampamento contra eventuais ladrões. Pela primeira vez na vida, empunhei uma arma, apesar de não saber atirar e de a arma em questão ser tão antiquada que creio mesmo que só serviria para matar pardais. De qualquer forma, era só mesmo para intimidar alguém com intenções menos nobres...

O segundo dia começou tarde. Devido à distância em relação ao ponto programado para a partida, a organização resolveu levar-nos de carro até ao local. Grupos de três, a cada 7 minutos. Eu fui dos últimos a ser levado, mais de hora e meia depois dos primeiros terem partido. Um atraso que teria de ser compensado por um passo mais rápido durante a caminhada do dia.

O percurso do segundo dia era o mais agradável. Vales belíssimos com ribeiros tranquilos e algumas cascatas. Por várias ocasiões passámos por vacas pachorrentas, que pastavam indiferentes à nossa invasão do seu território. Quase no final, o trilho incluía a subida à segunda montanha mais alta de Israel, o Monte Meron. E de lá, uma descida - apressada para aproveitar as últimas horas de sol do final da tarde - até ao acampamento, situado a poucos metros do santuário onde está sepultado o Rabbi Shimon Bar Yohai, um famoso rabino que viveu há quase 2000 anos. Consegui chegar e montar a minha tenda ainda nos últimos momentos de luz.

Apesar de todos estarem munidos de mapas, um grupo de quase uma dúzia de caminhantes perdeu-se da trilha e terminou numa aldeia drusa, a 7 quilómetros do local correcto. Druza, por sorte, pois se fosse uma aldeia árabe, algo de trágico poderia ter-lhes acontecido. É que em muitas localidades árabes da Galileia, os judeus não costumam ser bem recebidos.

O último dia, haviam-nos prometido, seria o mais fácil. Apesar de a distância ser de 28 km, enquanto nos dois dias anteriores havia sido de 20 km por dia, o percurso seria «apenas descer uma montanha». Com esta descrição, muitos de nós, apesar de maltratados pelas condições do caminho já percorrido, ficaram convencidos e decidiram não desistir.

No entanto, aquilo que era "apenas" a descida de uma montanha, revelou-se o mais complicado dos trajectos. Carreiros estreitos e escaladas à beira do abismo. Um passo em falso e adeus... Matagais de urtigas e canaviais. Pernas e braços arranhados. Isto tudo debaixo de um sol que, ao contrário dos dias anteriores, se fazia sentir forte. Na pausa a meio do caminho, as reservas de água de boa parte do grupo já se haviam esgotado.

A solução foi ir até à cidade mais próxima comprar garrafas de água para todos. Era impossível caminhar os restantes 11 quilómetros "a seco". No final do dia, apenas alguns chegaram ao destino escolhido. Muitos tiveram de ser recolhidos pelo carro de apoio, espalhados no trajecto. Para todos, numa praia do Mar da Galileia havia um churrasco à espera.

Mais do que um desafio físico extremo - que eu não sei se me atreveria a repetir - o Yam le'yam foi uma experiência humana inexcedível. A camaradagem entre todos foi extraordinária. Actos como esperar pelos companheiros que ficavam para trás, dar uma mão para ajudar a subir um trilho mais difícil, partilhar da comida e da água, palavras de encorajamento, avisar sobre algum perigo do caminho, foram constantes. Cada um teve a perfeita consciência de que não poderia continuar sozinho.

Existe uma distância (a todos os níveis) entre os alunos americanos e ingleses e os do grupo de língua portuguesa da yeshiva. No final, tenho a certeza que ficámos todos mais unidos, independentemente do grupo a que cada um pertence.

publicado por Boaz às 17:17
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Domingo, 10 de Dezembro de 2006

Regresso ao Egipto

Recentemente, um grupo de estudantes americanos da Yeshivat HaKotel foi de viagem à Polónia. No passeio de uma semana visitaram locais que representam alguns dos momentos mais gloriosos da história judaica e também dos mais trágicos.

Das estreitas ruas de Kazimierz, o antigo bairro judeu de Cracóvia, onde viveram durante séculos inúmeros rabinos que escreveram obras fundamentais do saber judaico. E a menos de 50 quilómetros de distância, o arame farpado, os pavilhões de madeira e as ruínas das câmaras de gás de Auschwitz.

Poucas semanas depois da viagem dos americanos, foi a vez de um colega brasileiro fazer a mesma "peregrinação". De volta a Jerusalém, descreveu a experiência como uma viagem a não repetir. «Foi impressionante, mas nunca mais volto àquele país», disse. «Foi como andar num ambiente de filme de terror. Tudo era fantasmagórico.»


Wroclaw, Polónia (antiga Breslau alemã), o velho cemitério judeu, 2004

Experiências como estas fazem parte de um já instituído ritual de passagem para os jovens em Israel: a viagem a um passado algumas vezes brilhante, mas acima de tudo de desgraça. Uma destas iniciativas, destinada também a jovens judeus de todo o mundo é chamada muito adequadamente, "Marcha dos Vivos". Inclui uma viagem de uma semana pela Polónia e depois outra semana em Israel. Na mente dos jovens, invariavelmente fica impressa a mensagem de que o lugar dos judeus é, agora e sempre, em Israel.

Muitos pais israelitas são reticentes em relação a estas iniciativas. Porquê regressar às ruínas e reviver um passado macabro? Mais, porque ainda hoje vivem actualmente em Israel cerca de 200 mil sobreviventes da Shoa. Avós de alguns desses jovens.

Para lá da perspectiva pedagógica, do lado religioso também há objecções. Na Torá, quando o Povo de Israel saiu do exílio do Egipto, Deus ordenou-lhes que nunca mais voltassem àquela terra. Pela escravatura sofrida na terra dos Faraós, nunca mais o Povo de Israel poderia viver naquele país. Ora, pelo mesmo princípio, dada a violência sofrida pelos Judeus na Polónia, alguns rabinos defendem que os Judeus nunca mais deveriam viver aí.

No entanto, parece ser exactamente o contrário que está a passar-se. A comunidade judaica está em expansão na Polónia. Isto depois do Holocausto - em que mais de 3 milhões de Judeus polacos foram chacinados - dos vários massacres ocorridos poucos meses após a guerra, que terão feito 2 mil vítimas mais e dos 50 anos de domínio comunista. No pós-guerra o anti-semitismo não deixou de ser propagado e a negação da colaboração dos polacos com os nazis foi política oficial.

Casos como o de Jedwabne - uma aldeia onde todos os seus habitantes judeus, cerca de 1500, foram assassinados num só dia, a 10 de Julho de 1941, pelos próprios vizinhos polacos em ajuda aos ocupantes nazis - foram abafados. A imagem que foi sendo passada foi a de que os polacos foram apenas vítimas, e não perpetradores ou sequer colaboradores.

Desde a derrocada do regime comunista assiste-se a um revigorar da vida judaica na Polónia. Após décadas de vida em segredo - para evitar reavivar velhos ódios - em que pais esconderam dos próprios filhos a sua identidade judaica, mais e mais judeus (especialmente os jovens) se revelam, enfrentando uma sociedade onde, de tempos a tempos, se repetem casos de anti-semitismo.

Casos como o ocorrido com o rabino-chefe Michael Schudrich, atacado a murro e com spray-pimenta numa rua de Varsóvia, a profanação de antigos cemitérios ou os grafitis que se repetem nas fachadas das sinagogas.

O tal colega brasileiro que fez a viagem revelou que, desde a chegada ao aeroporto de Varsóvia e um pouco por toda a viagem, a reacção das pessoas à presença visível de um grupo de judeus, não se mostrou muito amistosa. Com frequência ouviam comentários pouco simpáticos.

É neste ambiente que se encontra uma pessoa muito especial para mim: o rabino Boaz Pash, actual rabino de Cracóvia e que serviu como rabino em Lisboa durante 2 anos. Interrogado porque aceitou a missão de ser rabino num país com um registo tão trágico e em que o presente tampouco é risonho para os judeus, respondeu à boa maneira judaica, com outra pergunta: «Sabem o que é um met mitzvá

Um met mitzvah é um morto que não tem que se ocupe do seu enterro e que não pode obviamente ser deixado sem ser enterrado. Sejam quais forem as circunstâncias, com todas dificuldades e os perigos, os judeus que continuam a viver na Polónia, não podem ser deixados sem assistência.

publicado por Boaz às 11:58
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Sábado, 12 de Agosto de 2006

Depois da casa roubada

Em Lisboa, assim como em muitos aeroportos um pouco por todo o mundo, implementam-se novas medidas de segurança, após a descoberta e desmantelamento dos planos terroristas com aviões a partir de Londres.

Mesmo estando aparentemente fora das atenções dos terroristas - assim continuam a pensar os portugueses - acrescem-se os incómodos para os passageiros no que toca aos apertos na segurança e na vigilância na bagagem.

Em Maio último, aquando da minha última visita a Portugal, no regresso a Israel a partir de Lisboa, já havia notado um aumento - aparentemente sem explicação - na segurança no aeroporto da Portela. Após o check-in - que em Lisboa é tchik-tchak, sem problema nenhum, mesmo para quem viajava para Israel com uma escala em Madrid - à passagem para a zona das lojas duty-free, reparei que havia um novo controle de bagagem. Surpreendente. Uma barreira de máquinas de raios-x na área em que antes bastava mostrar o cartão de embarque.

Tive a ocasião de experimentar in-loco a competência dos profissionais de segurança - o que me deixou deveras satisfeito, consciente que sou da habitual balda nacional. Ao passar a minha mochila pela máquina de raios-x, o segurança desconfiou de um pequeno objecto metálico no seu interior. Educadamente, pediu-me para abrir a mochila e mostrar-lhe o dito objecto. A minha mezuzá de prata. Com cuidado, abriu a cápsula e retirou do seu interior o pergaminho envolto em película transparente. Perguntou-me o que era, mas logo percebeu tratar-se de um pergaminho escrito. Não o desenrolou. "OK, não há problemas aqui. Boa viagem".

Habituados a poucos controles de segurança onde quer que estejam em território nacional, parece que os portugueses já se começam a queixar do estreitamento das liberdades "a bem da segurança". É esse o preço que temos de pagar pela continuação da nossa vida normal, pelo menos nos seus aspectos mais básicos.

A alternativa seria deixar que os terroristas - como os que executaram os ataques do 11 de Setembro e os que neles se inspiraram para tentar atacar a partir de Londres na semana que passou - levem a cabo os seus intentos. Basta escolher que futuro se pretende.

publicado por Boaz às 23:41
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Quinta-feira, 11 de Maio de 2006

Surpresas na bagagem

Depois das rápidas seis semanas de férias em Portugal - tão pouco tempo para rever tanta gente -, à chegada a Jerusalém, enquanto desfazia a bagagem, deparei-me com algumas surpresas entre os livros e a roupa:

Os passos ainda vacilantes e a curiosidade emergente da minha sobrinha de 15 meses;
O sorriso das gárgulas do Mosteiro da Batalha;
O sabor do fantástico arroz de peixe da minha mãe;
As cambalhotas da persa Lisa e do siamês Bart;
Uma tarde de caminhada sob o sol de Lisboa.

Felizmente, estas coisas não contam na altura de pesar as malas.

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publicado por Boaz às 21:37
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Terça-feira, 24 de Maio de 2005

O estado de graça e o regresso à vidinha

Acabou-se a magnífica viagem até Jerusalém. Nas primeiras conversas com a malta lusitana confirma-se a ideia de que entre nós se olha para aqueles lados como se da Tchetchénia se tratasse. "Então não está tudo destruído?" é uma pergunta frequente. Confirma-se que os nossos media têm um olhar muito míope da região e o povo, coitado, segue a mesma miopia.

Não estive lá como turista, nem como peregrino. Excusei-me ao stress de turista de querer conhecer tudo e tirar fotografias à japonesa. Fui lá para sentir a vida da cidade e do país. Sentir o espírito das pessoas e como lidam com a situação, especialmente agora que as coisas parecem estar a melhorar.

Ainda estou num estado de graça. Foram apenas 11 dias em Jerusalém - para o Pedro Paixão também e ele acabou por escrever um livro... - mas foram mais marcantes do que apenas um punhado de dias numa vida. (Que poético. Não parece nada meu, mas eu também não costumo regressar de Jerusalém todos os dias). Foram apenas 11 dias, mas ainda tenho de me habituar a falar e ouvir, e a ver os sinais das ruas e os nomes das lojas, em português. Em vez de hebraico, árabe e inglês. (re)Entrar na homogeneidade portuguesa, deixando a variedade alucinante que são as gentes de Jerusalém.

Depois do jet-lag - eu sei que são só duas horas a mais, mas experimentem passar quase 7 horas em dois aviões e ter de ir para o aeroporto com 3 horas de antecedência, sem antes terem dormido uma boa noite de sono -, vem o regresso à vidinha. Especialmente, a retoma na procura de emprego.

PS - Demorei 6 anos a voltar a Jerusalém. Não quero demorar o mesmo tempo até à próxima vez.

publicado por Boaz às 17:21
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Sexta-feira, 20 de Maio de 2005

Petra Hostel - a casa dos viajantes

Na Cidade Velha de Jerusalém

A melhor vista da Cidade Velha
Do telhado da Petra Hostel - onde também se pode dormir, tem-se a melhor vista sobre a Cidade Velha. Frente ao Monte do Templo, muito perto da Igreja do Santo Sepulcro.

 

Quando estive em Jerusalém em 1999, fiquei hospedado na Petra Hostel, um dos mais antigos - e, de certeza o mais carismático - hotel da cidade. Desta vez, também escolhi a velha pousada, situada entre a Porta de Jaffa e o mercado árabe, mesmo em frente à Cidadela de David.

É um sítio curioso, abrigo para longo prazo de imigrantes recentes ou visitantes de mochila às costas. As instalações são hoje espartanas, longe do requinte que existia quando aqui passaram Agatha Christie e Mark Twain. O local tem uma certa aura hippie decadente, num ambiente relaxado e familiar.

Na recepção, a presença mais habitual é Gabriel, um afro-americano rastafari de poucas falas, vestido com robes coloridos e lenço a condizer. Há 11 anos que deixou o Connecticut e fez de Petra a sua casa, onde agora vive com Dagmar, uma ex-turista checa da mesma onda que ele.

É fácil meter conversa com os outros hóspedes - são hoje menos que no passado, é certo - com quem se pode partilhar a comida ou o tabaco e se arranjam desculpas para festejar. As festas da Petra Hostel chegaram a ser lendárias. Apesar da minha timidez habitual conheci, nestes 11 dias, um magnífico leque de gente interessante.

A primeira foi Lisa, uma australiana de 21 anos, em Israel de visita à família e que aproveitou para passar uns dias em Jerusalém. Graças a ela descobri a maravilha viciante das sementes de girassol, a versão local da nossa pevide.

Daniel, um americano da Pensilvânia, ex-estudante numa yeshiva (escola rabínica), que passara os últimos cinco meses a pastar cabras em Nablus, no norte da Cisjordânia. A combinação perfeita para fazer dele um místico. No dia seguinte a ter metido conversa com ele, fomos - eu, ele e Lisa - ao mikve (local de banho ritual judaico) mais sagrado que Daniel conhecia. O mikve dos Reis David e Salomão, na antiga Cidade de David, onde a água brota numa gruta da montanha. Na gruta, escura e estreita, só conseguimos mesmo molhar os pés, receosos da chegada iminente de um grupo de turistas que ultrapassámos no caminho entre as escavações arqueológicas.

Ao terceiro dia, assim que cheguei da minha segunda visita ao Yad Vashem (sete horas não chegaram), encontrei-o de malas feitas, à porta da pousada. Tinha conseguido um bilhete de avião para Nova Iorque a um preço especial, e voltava para casa algumas semanas mais cedo. Não estava certo que fosse a decisão correcta. Eu, apesar de me custar ver partir tão cedo aquele novo e especial amigo, ajudei-o a levar as pesadas malas e um shofar para a Estação Central de Autocarros. Nunca conseguiria sozinho, tal era a quantidade de bagagem. Mais o shofar. Num restaurante da Gare, dividimos uma lafa (espécie de pão espalmado) com falafel, acompanhada de histórias de vida.

Ariana, canadiana com ar hippie, a típica andarilha de mochila às costas, há quase um ano que percorria a Europa e o Médio Oriente. Portugal foi mesmo o seu primeiro destino, depois da chegada a Paris. Umas semanas em Malta e na Grécia, um mês no Egipto e passagens pela Roménia, Croácia, Bósnia e Bulgária. De Israel foi para a Turquia e daí planeava apanhar um autocarro para Viena e a um festival de música em Nuremberga. Antes de regressar a Montreal, onde apenas iria para ganhar dinheiro para uma nova viagem.

A mais cómica das pessoas que encontrei foi Sarah, uma jovem podologista (especialista em saúde dos pés) de Melbourne. Animou as conversas com o relato da sua visita a Masada e ao Mar Morto, na companhia de três monges ortodoxos ucranianos, num mini-bus com música hip-hop em altos berros. Imagine-se três austeros monges ao lado de uma loura divertidíssima ao som das batidas libidinosas de Black Eyed Peas em "full blast", a cruzar a Cisjordânia às 3 da manhã.

Da caricata viagem Sarah guardava como mazela um joelho inchado - um mau jeito dado na subida a Masada. Dez dias de descanso, receitaram-lhe numa consulta de hospital que lhe custara 1200 NIS (mais de 200 euros).

Sebastién, o tímido francês, que incrivelmente trabalha como segurança de uma loja em Orléans, que mal fala inglês, presenteou os novos amigos com um pequeno-almoço gaulês: croissants. É difícil imaginar como uma pessoa tão atrapalhada conseguiu chegar sem sobressaltos a Jerusalém - e como o fará no resto da sua passagem por Israel e o Sinai.

De início teve a providencial ajuda de Yuval. Este teria sido, sem dúvida, um génio renascentista, dados os seus múltiplos talentos. Jornalista israelita, casado com uma mórmon do Utah, freelancer para o Haaretz e a edição israelita da National Geographic Travel, para a qual estava a preparar uma reportagem sobre o regresso dos turistas às pousadas de Jerusalém. Amante de música - magnífico cantor e tocador de guitarra, e de poesia - recitava um poema apropriado em qualquer ocasião, fluente em hebreu, inglês, francês, finlandês e espanhol. O melhor guia para o "Death Tour", o "Passeio da Morte", pelos principais túmulos antigos de Jerusalém, por ter nascido na cidade, apesar de ter passado muitos anos em Boston e viver hoje em Tel Aviv.

Custa-me deixar este local, mesmo depois de todos estes companheiros já terem deixado a Petra Hostel. Resta, por mais uns dias, Tatiana, a imigrante de São Petersburgo, há três anos em Israel mas sem congueguir ler ou escrever hebraico. Resta-me a lembrança destas figuras curiosas que, se mais não fosse preciso, fariam esta curta viagem valer bem a pena.

Guardo-os a todos. Lembrei-me de todos quando deixei, esta tarde, um papel com uma prece numa brecha do Muro Ocidental.

publicado por Boaz às 23:14
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Domingo, 15 de Maio de 2005

Pequenos sinais

 

Na Cidade Velha de Jerusalém
 
Em Jerusalém, tal como no resto de Israel ou nos Territórios Palestinianos, a maioria das coisas significa muito mais do que aparenta. Esta cidade está cheia de pequenos sinais que demonstram isso mesmo. Apesar da aparente (aparente até quando?) calmaria, as divisões são imensas e mantém-se vivas, mesmo discretamente.
Os sinais das ruas, em qualquer lado da cidade, estão escritos em hebraico, árabe (línguas oficiais) e inglês (semi-oficial). No Bairro Judeu da Cidade Velha, os nomes em árabe - em todas as ruas, sem excepção - foram cobertos com grafitis ou autocolantes. Como não se pode “apagar” o adversário, apagam-se as suas referências. “No Arabs, No Terror”, ostentam alguns autocolantes.
Nos bairros muçulmanos as tabuletas das ruas estão mais ou menos intactas, mas por vezes encontram-se toscos grafitis de Estrelas de David riscadas. Ali, exemplos daquilo que poderá ser visto como provocação israelita abundam. Há poucos militares nas ruas, mas há três pequenas esquadras da polícia estrategicamente localizadas em “pontos quentes”. A tropa só vigia permanentemente a entrada da Esplanada das Mesquitas/Monte do Templo. Tanto impede o acesso de homens com menos de 45 anos para as orações de sexta-feira, como, em qualquer dia, a de judeus nacionalistas que querem aceder ao local do antigo templo. Receiam-se ataques contra as mesquitas, que alguns extremistas crêem que apressariam a vinda do Messias. Recentemente estabeleceram-se na zona islâmica várias instituições judaicas, patrocinadas muito provavelmente por benfeitores americanos: uma yeshiva (academia rabínica) e uma sinagoga.
Uma das questões que mais tem exaltado os ânimos é recente compra, por parte de uma organização judaica, de dois edifícios pertencentes ao Patriarcado Grego Ortodoxo. Traição, é como os palestinianos descrevem o sucedido.
Na Ben Yehuda, uma animada rua pedonal da Cidade Nova, há cartazes nas lojas a dar as boas vindas e anunciam “descontos para turistas corajosos”. Por todo o lado, nas casas, nos carros, há bandeiras israelitas - o Dia da Independência já passou, mas as bandeiras continuam. Algumas estão acompanhadas de fitas cor-de-laranja, sinal de que ali se é contra o plano de retirada de Gaza, que será implementado dentro de alguns meses. Aqui, as ideias políticas mostram-se às claras.

Na zona sul, a meio caminho entre a Cidade Velha e Belém: a Floresta da Paz. O local é realmente idílico, onde as famílias passeiam nas tardes de Sábado. Judeus de Talpiyyot, Árabes de Jabel Mukhabar. A vista próxima, no entanto, engana. A norte, para lá do vale, a Cúpula do Rochedo, colada ao Muro Ocidental, o maior centro das discórdias. Para leste, serpenteando sobre as colinas poeirentas do Deserto da Judeia, outro muro. Se separação ou de segurança, dependendo da perspectiva. Erguido pela violência, causador de mais violência. Só as gralhas divertidas e barulhentas, à cata de restos de comida nos caixotes, ou os lagartos que correm sobre as pedras, conseguem dar um ar de normalidade ao local. Logo ao lado, uma base da ONU lembra que aquele sítio é vigiado por outros olhos...

Os sinais de que as coisas não vão bem são bastantes, mas também se notam -discretos, é certo - outros que traduzem esperança. Crianças árabes cumprimentam os turistas com um “hello” e um sorriso. Quando não obtêm resposta imediata, presumem que o turista é afinal um israelita e repetem o gesto com um “shalom” e o mesmo sorriso. OK, algumas fazem-no e logo correm a pedir uma moeda. Outras - a maioria, quero acreditar -, fá-lo porque, cansadas da guerra, apenas desejam sentir-se um pouco mais normais.

publicado por Boaz às 07:36
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Quinta-feira, 12 de Maio de 2005

Desconfiança em nome da segurança

Na Cidade Velha de Jerusalém

 
Quase 24 horas depois de ter saído de casa, estou em Jerusalém. Cheguei a pensar que não conseguia. Após uma noite sem dormir, no Aeroporto de Madrid - o voo de Lisboa chegou às 22 horas e o avião para Tel Aviv foi só às 8:35 - em que aproveitei para pôr a escrita e a leitura em dia, e um voo de quatro horas até Israel, fui "apanhado" pela segurança no aeroporto. Logo a saída do avião fui abordado por dois agentes da polícia.
Queriam saber porque estava em Israel. Turismo, não lhes parecia uma boa razão. Não ter uma reserva de hotel parece que ainda piorou mais a pintura. Expliquei-lhes que a oferta de hotéis israelitas nas agências de viagem em Portugal é muito limitada, já que este país não é um destino muito popular para portugueses. Ter vindo sozinho, não conhecer ninguém no país e não ter, no momento, um trabalho fixo, só fez aumentar a desconfiança. Um candidato ideal para shahid?
Fui levado para uma carrinha da polícia, onde me revistaram. "Am I being deported or what?" (ou seja "Estou a ser deportado ou o quê?") - perguntei a um agente. Fez uma cara estranha. Admito que "deportado" seja uma palavra sensível em Israel.
Minutos de espera enquanto conferenciavam em hebraico - que atrasado estou nas minhas aulas: só percebi umas palavrinhas aqui e acolá. Mais uns agentes que se juntam e todos conversam. O chefe de segurança do aeroporto é chamado - até o chefe! - e também faz as suas perguntas, as mesmas que os outros fizeram. Recebe as mesmas respostas. Só tive de ficar tranquilo, afinal as minhas intenções são as melhores e mostrar nervosismo iria comprometer definitivamente a situação.
As coisas melhoram e sou levado ao controlo de passaportes. Se é assim, devo ser admitido no pais, penso, se não, nem saía da zona internacional. Recebo o carimbo, mas a saga ainda não acabara.
Mais uma agente, mais umas perguntas repetidas. Vou recolher a bagagem na esperança que não a tenham confiscado e até feito explodir, por ter andado às voltas no tapete rolante, sem ninguém a reclamar. Lá estava, sossegada, já fora do tapete. Tive de a levar de volta a agente anterior, que ficara com o meu passaporte. Ainda posso ter de ir à revisão de bagagem. Outra agente - nova no serviço, diz-me - leva-me à sala de buscas, onde várias pessoas têm de esvaziar as suas bagagens. Lá, o chefe de segurança reconhece-me e diz-lhe que está tudo bem comigo, não preciso de ter a mala revistada. Estou safo. A agente-nova-ao-serviço acha que tive sorte. Com a minha curiosidade jornalística pergunto-lhe se episódios destes acontecem frequentemente. "A toda a hora", diz-me.
Não foi uma situação agradável, mas entendo-a perfeitamente. As ameaças são demasiado graves para que se deixe passar qualquer situação menos clara.
Dois autocarros depois - sim, andei de autocarro em Israel! - e eis-me em Jerusalém. À saída da Gare Central de Autocarros de Jerusalém, mais uma passagem pelo raio-X. A segurança também aqui é apertada. Há agentes com rádios de polícia em todas as paragens de autocarro. Consegui vaga numa pousada da Cidade Velha, a mesma onde estive há seis anos. A primeira coisa que fiz ao chegar ao quarto foi tomar um banho. Comi qualquer coisa e sentei-me a falar com outros hóspedes. Apesar de desejoso para andar pela cidade, em especial chegar ao Kotel, estava demasiado cansado.

Foram muitas emoções para um único dia. Há anos que não me deitava antes das 10 da noite. Ainda mal me tinha deitado, recebi um telefonema da minha mãe, preocupada em saber se tinha arranjado onde ficar. Pouco depois, o estourar do fogo de artifício. Começou a festa do Dia da Independência.

publicado por Boaz às 08:06
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Terça-feira, 3 de Maio de 2005

Viagem ao centro do Mundo

Jerusalém, no centro do Mundo
Representação medieval do Mundo.
Jerusalém aparece ao centro, na confluência de três continentes.
Mapa de Heinrich Bünting, de Itinerarium Sacrae Scripturae. Magdeburgo, Alemanha, 1581.

De hoje a uma semana (dia 10 de Maio) parto para uma viagem a Israel. Apesar de ir por razões turísticas (e obviamente também sentimentais), confesso ainda que tenho uma grande curiosidade jornalística. Não tenho nada de concreto planeado, a não ser passar a maior parte do tempo em Jerusalém.

Se tiver oportunidade, irei escrever alguns posts para o Clara Mente. Temas não hão de faltar, com certeza, nem net-cafés onde aceder à rede. Logo se vê. Não faço questão de ser um escravo do blog... Se não, "adeus e até ao meu regresso".

Dia 22 ainda chego a horas de almoçar no "Rectângulo".

publicado por Boaz às 23:48
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Galeria de imagens da experiência como voluntário num kibbutz em Israel.


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