Segunda-feira, 25 de Junho de 2012

A onda africana

Durante os dois últimos anos que estudei na yeshivá, um dos empregados da limpeza era um africano, não judeu. Um dia, a caminho de casa ao final da tarde, encontrei-o no autocarro. Sentei-me ao seu lado. Devido ao seu limitado hebraico, tentei comunicar com ele em inglês. Ao saber que era da Eritreia, mencionei o primeiro nome do presidente do seu país: "Isaias" [Afwerki]. Fez uma cara de desaprovação e comentou "Mau, muito mau". Pouco mais falámos, ele desceu pouco depois do autocarro.

Nas últimas semanas, a atualidade israelita foi marcada pela questão dos africanos ilegais no país e o que fazer com eles. Esta semana, o governo decidiu levar a cabo uma acção de prisão de centenas de residentes ilegais e posterior deportação para o Sudão do Sul. Pagando a viagem de regresso ao seu país, que obteve a independência há cerca de um ano, e entregando 1000 euros por adulto e 500 por cada criança, o governo pretende resolver, ou pelo menos minorar, o problema dos residentes ilegais em Israel.


Israelitas manifestam-se contra os imigrantes ilegais africanos num bairro de Tel Aviv. No cartaz:
"E regressarão os sudaneses ao Sudão", um jogo de palavras baseado no versículo "E regressarão os filhos às suas fronteiras".

Infiltrados, refugiados, sudaneses, africanos, são várias as denominações destes imigrantes ilegais. É um fenómeno que começou há alguns anos. Fugindo da guerra, da perseguição étnica e da miséria, dezenas de milhar de africanos têm entrado em Israel pela fronteira egípcia. A maioria provêm da Eritreia, do Sudão e do recém-independente Sudão do Sul. Todos chegaram a Israel depois de uma longa e perigosa saga pelo deserto do Egito. Incontáveis imigrantes são baleados pelo exército egípcio para evitar que cruzem a fronteira com Israel.

Ao atravessarem o Sinai, última etapa antes da chegada à fronteira israelita, muitos são capturados por gangues de Beduínos. Às mãos destes traficantes de gente, e encerrados semanas ou meses em campos de prisioneiros montados a poucos quilómetros da fronteira, são sujeitos a violências de vária ordem, incluindo tortura e violação. Para serem libertados, são obrigados a contactar familiares ou amigos já residentes em Israel, para tentar angariar dinheiro para o seu resgate. Os que falham na colecta do dinheiro, que ascende a vários milhares de dólares, são mortos. Em alguns casos, os seus órgãos são extraídos e vendidos para redes internacionais de tráfico de órgãos. O caos político e social no Egipto; o vazio de poder na península do Sinai, transformada numa “Terra Sem Lei” dominada por traficantes de armas, gente e drogas; o pouco interesse que o assunto merece nas esferas do poder no Cairo e menos ainda entre os diplomatas internacionais, perpetua este negócio de tortura e escravidão de milhares de africanos.

A libertação às mãos dos traficantes Beduínos do Sinai não garante a entrada em Israel. Ainda resta atravessar a fronteira. Até há pouco mais de um ano, a fronteira com o Sinai era pouco mais de uma cerca ferrogenta, coberta pelas dunas em vários pontos. Atravessada livremente por camelos selvagens, traficantes de droga e imigrantes ilegais. Porém, com a crescente atividade terrorista na península do Sinai desde a queda do governo de Mubarak e o imparável fluxo de imigrantes africanos, o governo israelita decidiu reforçar a segurança na extensa fronteira com o Sinai. Uma moderna e bem vigiada cerca está em contrução nos mais de 200 quilómetros entre Eilat e Gaza. Até ao final deste ano estará completa.

Sabendo desta porta que se fecha no acesso a Israel, recentemente alguns migrantes africanos têm atravessado de barco o estreito Golfo de Aqaba, entre o Sinai e a Jordânia, entrando em território israelita pela fronteira oriental. Aí, além da cerca fronteiriça terão de evitar alguns campos minados. O desespero da fuga à miséria e violência diária nos seus países de origem leva os imigrantes a uma empreitada quase suicida.

Na pequena cidade turística de Eilat, no extremo sul de Israel, os africanos são já cerca de 5000, mais de 10% da população da cidade, trabalhando na indústria hoteleira e na construção civil. Porém, a maioria ruma a Tel Aviv, estebelecendo-se no sul da cidade. Há apenas 5 anos, os “sudaneses” em Tel Aviv eram cerca de 1000. Os bairros pobres de Shapira e Hatikva, na zona mais degradada da cidade em redor da Estação Central de Autocarros, têm experimentado uma verdadeira invasão africana. Ao longo dos últimos anos, têm chegado à cidade entre 1000 e 2000 africanos por mês. De acordo com algumas fontes, habitam atualmente estes bairros cerca de 40 mil infiltrados africanos, e 25 mil israelitas.

Até encontrarem um lugar para morar, durante os primeiros meses após a chegada a Tel Aviv, a maioria dos africanos dorme na rua, na entrada dos prédios ou parques da cidade. Outros dormem em casotas miseráveis. Sem casa de banho ou chuveiro, fazem as suas necessidades na rua e tomam banho com as mangueiras anti-incêndio. Ainda que apenas uma minoria esteja envolvida em atos criminosos, o número de queixas contra imigrantes ilegais africanos apresentadas na polícia aumentou mais de 50% no último ano. O clima de insegurança nos bairros do sul de Tel Aviv tem crescido, alimentado pelos casos relatados pelas notícias. Devido à atenção mediática que o tema tem alcançado em Israel, quase diariamente são noticiados casos de violência envolvendo os imigrantes: roubo, vandalismo, violação ou o abandono de dois recém-nascidos no hospital, no próprio dia em que nasceram, na semana passada.

A "invasão" de infiltrados africanos levou a vida dos residentes dos bairros a uma situação insuportável. É impossível sairem sozinhos à noite e a sensação de medo – real ou imaginário – é permanente. Em várias zonas da cidade, o parques infantis, os jardins públicos e até os pátios das escolas foram transformados em lugar de pernoita, ou mesmo residência fixa dos africanos. Todas as noites, grupos de jovens e adultos israelitas jogam nos parques públicos, numa atitude desafiadora – para marcar território – a fim de reconquistarem o espaço onde os seus filhos já não podem brincar em segurança. Os atos de violência contra os imigrantes também têm aumentado. Alguns locais onde se reunem foram incendiados por populares.

Neste triste panorama, o governo israelita decidiu começar a prender os imigrantes ilegais e repatriá-los para os seus países de origem. Esta operação apresenta uma série de problemas. Em primeiro lugar, por agora, apenas os naturais do Sudão do Sul serão repatriados. Depois de proclamar a independência no ano passado, o Sudão do Sul tem estreitado relações diplomáticas com Israel (que foi um dos primeiros países a reconhecer o novo país africano). Tendo terminado a guerra civil vivida na região durante mais de 30 anos, os sudaneses do sul poderão voltar para casa. O país é um dos mais miseráveis do planeta, apesar da enorme riqueza natural, incluindo grandes reservas de petróleo. Várias famílias de imigrantes sul-sudanesas voltaram para casa, com os filhos, alguns já nascidos em Israel e cuja língua materna é o hebraico. Aos jornalistas israelitas que acompanharam o repatriamento, as crianças desabafavam que queriam poder ir à escola, como em Israel.

Porém, os imigrantes naturais do Sudão do Sul, que começaram a ser repatriados a semana passada, são apenas uma pequena parte dos mais de 60 mil africanos ilegais em Israel. Mais de 30 mil provêm da Eritreia, uma das mais brutais ditaduras do Mundo, onde os emigrantes são considerados traidores ao regime e poderão ser perseguidos. Outros 15 mil chegaram do Sudão, incluindo a região de Darfur, onde há anos se desenrola um genocídio que, de acordo com algumas fontes internacionais, já causou a morte a quase meio milhão de pessoas. Nestes dois casos, a difícil situação dos países de origem dos imigrantes ilegais, torna impossível o seu repatriamento. Apesar de Israel ter relações diplomáticas com a Eritreia, o Sudão é considerado um “país inimigo”.

Membros da oposição ao governo e ativistas de direitos-humanos (que por vezes são uma e a mesma coisa) têm-se manifestado contra a decisão do governo de expulsar os ilegais. Ou pelo menos pela forma como está a ser feita. Porém, não parecem manifestar a mesma preocupação pelos residentes israelitas dos bairros onde os africanos ilegais são já a maioria. Alguns protestos de residentes contra os imigrantes tiveram a participação de políticos, em especial de direita. Em discursos inflamados alguns apelidaram os imigrantes como "um cancro na sociedade israelita", "um virus", e outras expressões marcadamente racistas.

A intervenção dos poucos políticos que estiveram nas manifestações não resolveu nenhum problema dos residentes dos bairros, e causou grande prejuízo tanto à defesa dos direitos dos moradores israelitas como dos imigrantes ilegais. As infelizes manifestações racistas deram novo alento aos comentadores de tudo o que se passa em Israel, que como é hábito, se apressaram a gritar slogans como "Estado racista", "Estado apartheid" e outros apodos do género. Incluindo alguns judeus americanos associados à causa palestiniana que não dispensam qualquer oportunidade para caluniar Israel. As expressões clichés de comparação com o Holocausto, a "falta de compaixão dos que foram perseguidos" e outros termos de auto-flagelação da consciência judaica foram abundantemente usadas pelos "ativistas". Dos humanistas estrangeiros ou dos nacionais, não se ouviram manifestações de apoio aos moradores dos bairros.

Para ter êxito nesta missão, a luta terá de ser feita de forma pacífica, sem violência e manifestações racistas. Não se pode legitimar ódio ou quaisquer ações violentas contra os estrangeiros. Esta não é uma campanha contra os africanos, mas contra a falta de acção das autoridades que pela sua inação, deixaram chegar a situação a um nível gravíssimo. A preocupação primordial terá de ser pelos próprios cidadãos israelitas e isso não é racismo. Não há nada de sábio ou razoável em querer ser "humanista" e generoso com os estrangeiros, se dessa forma se causa prejuízo aos cidadãos do próprio país. Afinal, como ensina a sabedoria judaica "os pobres da tua cidade estão primeiro".

Ao mesmo tempo que as autoridades israelitas procedem à repatriação dos ilegais africanos – até agora foram repatriados menos de 300 sudaneses do sul – desde o início do mês entraram em Israel pelo menos 800 imigrantes ilegais, que se encontram atualmente detidos.

publicado por Boaz às 10:15
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Segunda-feira, 5 de Dezembro de 2011

Os moicanos de hoje

23 de Março de 2006, por volta das 11 da manhã. Tinha acabado de passar o Bet Din (tribunal rabínico) que tinha julgado a minha conversão ao Judaísmo. O rabino que me aceitara na Comunidade Judaica de Lisboa e com quem tinha começado a estudar, dois anos antes, tinha-me acompanhado naquele momento crucial no processo de conversão. Foi em sua homenagem que escolhi o meu nome hebraico, Boaz.

À saída do edifício, o rabino disse-me, apontando as minhas têmporas: "Agora vais ter de deixar crescer as payot". "Naaa, acho que não", respondi, desinteressado em aceitar aquele costume. Porém, dois ou três meses depois, quando voltei a cortar o cabelo – a primeira vez que cortei o meu próprio cabelo – deixei sem cortar uma área acima das orelhas.


Enrolar as payot. É quase um vício daqueles que seguem este costume judaico.

A Torá proíbe aos homens judeus cortar completamente os cantos da cara – payot, em hebraico, baseada no versículo: "Não cortarás o cabelo dos cantos da vossa cabeça, e não rasparás [com navalha] a tua barba" (Levitico/Vaikrá 19:27). Umas das explicações para esta lei – se é possível explicar completamente os mandamentos da Torá – é distinguir os Judeus dos Gentios. Os judeus iemenitas tinham (e alguns ainda mantém) o costume de usar payot especialmente longas, às quais chamam "simanim" (sinais), exatamente por servirem de sinal de distinção com os não-judeus. Uma consequência desta proibição foi a difusão do costume de deixar crescer o cabelo nos cantos da cara entre alguns sectores judaicos mais ortodoxos. Ainda que esse não fosse o fundamento desta lei. A proibição é o corte completo do cabelo nos cantos da cabeça, sem haver qualquer obrigação de deixar crescer as payot.

Antes que os meus caracóis crescessem até poder prendê-los atrás das orelhas, habituei-me às piadas dos colegas da yeshivá. Diziam que as minhas pequenas payot pareciam orelhas de urso. Porém, nos meses seguintes, os tufos de cabelo junto às orelhas foram crescendo e foi possível "adestrá-los" atrás das orelhas. Acabaram-se aquelas piadas. Começariam outras.

Em algumas ocasiões, usava os "canudos" bem enroladinhos e presos atrás das orelhas, quase impercetíveis. Assim os usei em 2007, da segunda vez que voltei a Portugal depois da minha mudança para Israel. Por alturas do meu casamento, as minhas payot já quase alcançavam a altura dos ombros. Para as fotos na boda, usei-as enroladas e metidas atrás das orelhas. O balanço das danças depressa as fizeram saltar para fora do esconderijo. Alguns meses depois de casar, passei a usar os caracóis sem estarem colocados atrás das orelhas. Isso, junto com a minha barba ruiva, podia dar-me um ar marcadamente ultra-ortodoxo, ainda que essa não seja a corrente judaica que eu sigo.

No meu quarto regresso a Portugal, em 2009, em nenhum momento escondi as payot atrás das orelhas ou debaixo da kippá. Fosse no encontro com os amigos ou nas idas ao supermercado em Leiria ou na Batalha, a vila onde cresci, ou nos passeios em Lisboa. Se havia olhares de estranheza pelo meu aspecto tão incomum nas ruas portuguesas, nunca os percebi como hostis. Noutras paragens na Europa, por razões de segurança – inclusive por perigo de vida – teria sido recomendável ocultar aquele sinal judaico tão evidente.

Nos princípios de 2011, as minhas payot levaram o primeiro grande corte. Antes de uma entrevista importante sobre uma proposta para trabalhar como líder comunitário e professor de escola judaica numa cidade da Argentina, fui aconselhado a realizar uma séria tosquia. Entendo que o tal aspeto “demasiado ortodoxo” poderia causar uma certa rejeição inicial, em especial numa comunidade pouco religiosa. Por esse valor mais alto, aceitei sacrificar as minhas payot que começara a deixar crescer há quase cinco anos.

Na semana passada, desferi o último golpe no que ainda restava. Fui a uma barbearia de Jerusalém, que frequentara várias vezes, situada no bairro ultra-ortodoxo de Mea Shearim. Mera provocação: ir justamente ali cometer tamanho sacrilégio! No sofá da barbearia estava sentado um judeu ultra-ortodoxo, amigo do barbeiro. Naquela hora da tarde, sem clientes a quem servir, o barbeiro estava a estudar Torá com o amigo até à minha entrada no estabelecimento.

Ao sentar-me na cadeira do barbeiro pedi: "máquina número 3 de lado e tesoura em cima". Assim que pedi ao barbeiro que cortasse o meu cabelo com a máquina, o seu gesto imediato foi segurar uma das payot e passar a máquina à volta dela. Disse-lhe que poderia cortar também as payot. Parou subitamente, espantado com a minha ordem. "O que se passou?", perguntou ele. Respondi, "Nada, apenas desejo cortar as payot. Já as tive durante muito tempo. Chegou a altura de as cortar."

Nesse momento, iniciou-se uma discussão filosófica entre o barbeiro e o amigo. O barbeiro parecia decepcionado pela minha mudança de aspeto. Conversámos um pouco. Ao saber que eu já tinha saído da yeshivá e entrado no mundo do trabalho, o tal amigo sentado no sofá comentou “o trabalho é que guarda o juízo ao homem!”. Algo surpreendente vindo de alguém que pertence a um público onde muitos dos seus membros olham o trabalho como algo quase desprezível, defendendo que um homem deve apenas estudar Torá.

Curiosamente, o homem do sofá tinha umas payot longas, e uma barba a condizer. Numa declaração que parecia falar contra ele próprio, comentou que o aspeto dos ultra-ortodoxos os torna “os moicanos de hoje”. Com as suas longas (e muitas vezes desgrenhadas) barbas e as payot, são tão extravagantes como as coloridas cristas eriçadas que foram moda entre a juventude rebelde há algumas décadas.

Depois de terminado o trabalho do barbeiro, observou "Olha como ficou bonito! Tem barba, tem as payot que a Torá prescreve, que não precisam de ser longas, kipá e tzitzit à mostra. Abençoado sejas". Desejou-me boa sorte para o trabalho. E que sendo um judeu religioso no mundo do trabalho, que santifique o nome de Deus.

Este é um desafio dos judeus religiosos: manterem a prática religiosa no seu contacto com o mundo não-religioso. Muitos aspetos da “vida moderna” são contrários a certas determinações da Lei Judaica. Se do lado secular, existe uma certa aversão às manifestações exteriores de religiosidade, do lado religioso existe também a insistência em afirmar essa identidade religiosa. Ambos os lados se sentem ofendidos pela atitude do lado contrário.

Um judeu religioso, no seu trabalho, tem a dupla responsabilidade de ser um bom profissional e um bom cumpridor da Halachá. O seu aspeto exterior pode criar a aversão dos não-religiosos não só à sua pessoa, mas a todos os judeus religiosos. No caso em que ele seja o único judeu observante entre os colegas, ele será um embaixador de todo o público religioso. Um representante da tradição milenar judaica e um testemunho de que a Torá tem lugar e relevância em todas as eras, sem nunca cair em desuso, e muito menos parecer ultrapassada.

publicado por Boaz às 21:50
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Quinta-feira, 10 de Novembro de 2011

De bolha em bolha (de Copacabana aos Campos Elísios)

Há uns tempos, em conversa com um amigo americano sobre o lugar onde moramos, ele comentou que, por eu residir no colonato religioso de Alon Shevut, vivia numa espécie de "bolha". Em jeito de piada eu comentei-lhe que na verdade eu vivia dentro da "bolha brasileira" dentro da "bolha de Alon Shevut". Ele mora no vizinho colonato de Efrat, o melhor exemplo de uma "bolha americana" em Israel.

Desde que cheguei a Israel, há quase 7 anos, que o meu contacto com a sociedade israelita tem sido quase marginal. Eu explico. Vim para estudar num curso de conversão para sul-americanos, em que as únicas línguas usadas eram o português e o espanhol. Daí passei para uma yeshivá, o Machon Meir, estando integrado no grupo de estudos sul-americano. No meu quarto, falava português com os companheiros brasileiros e, pela falta do hebraico, usava o inglês com os dois companheiros israelitas. Apenas com um deles, de origem russa e com um inglês escasso, tentava falar um pouco em hebraico, à medida que ia aprendendo nas aulas do ulpan ivrit (curso oficial de hebraico).

Ao passar para a Yeshivat Hakotel, de novo para um programa de sul-americanos, o hebraico era apenas a quarta língua usada no meu dia-a-dia. Antes da língua sagrada, estavam o português, o espanhol e o inglês, usado com os muitos colegas americanos da yeshivá. O hebraico limitava-se às orações e os livros de estudo, mas não às discussões talmúdicas com os meus companheiros de estudo, que eram sempre brasileiros.

O mesmo aconteceu depois de entrar no grupo de alunos do kollel, a classe dos alunos casados, que estudam Torá num nível avançado. Na altura, tinha aberto um kollel para sul-americanos na yeshivá e eu integrei o grupo estreante. Apesar de estudarmos as fontes da Halachá (a Lei Judaica) na sua forma original em hebraico e aramaico, as duplas de estudo e discussão e as classes de semanais de revisão e desenvolvimento da matéria eram feitas exclusivamente em português.

Depois de casar, com uma brasileira, fomos viver para Alon Shevut, um pequeno colonato religioso 20 quilómetros a sul de Jerusalém, na região de Gush Etzion. A razão para a escolha da morada foi simples: a referida "bolha brasileira". Estar com pessoas que falam a mesma língua, e as quais já conhecíamos antes de casar, seria uma boa forma de nos integrarmos na vida local.

Conhecemos e somos próximos de quase todas as famílias brasileiras do povoado. É comum partilharmos a mesa de Shabbat, quer recebendo visitas ou sendo visitantes em suas casas. As crianças das famílias brasileiras são também bastantes próximas, se bem que muitas vezes brinquem em hebraico – a língua do infantário e da escola – e não tanto em português.

A língua sagrada, ainda que se fosse desenvolvendo naturalmente, era relegada para as ocasionais conversas de rua, no supermercado e no autocarro ou com os vizinhos israelitas. Mas sempre com a sensação de ser ainda uma língua estrangeira. Consigo pensar em português e mesmo em inglês ou espanhol, mas ainda não em hebraico.

Ao entrar no curso de preparação para shelichut, o meu nível de hebraico foi forçado a aumentar. Todas as classes, e praticamente todas as conversas com os companheiros de curso, eram exclusivamente em hebraico. Ainda que, no início, tenha perdido um pouco do conteúdo das aulas pelas dificuldades do idioma, o meu nível de hebraico melhorou consideravelmente com o tempo.

Há uns meses, chegou a hora de deixar a yeshivá e procurar trabalho "lá fora". Depois de algumas semanas de procura, encontrei um emprego numa empresa de call-center. A empresa é israelita, mas trabalha exclusivamente para o mercado internacional, em especial a França. No meu caso, sou o encarregado do serviço de atendimento aos clientes de uma empresa de material informático francesa que tem negócios em Portugal e Espanha. Mesmo a calhar. Por e-mail ou pelo telefone, trabalho exclusivamente nos idiomas ibéricos. Com os colegas de trabalho, todos franceses, falo em hebraico e começo a recuperar o idioma de Voltaire, abandonado desde que deixei de o estudar, no 9º ano da escola.

Apesar de ter encontrado trabalho, e de não me queixar das condições, continuo à procura de outro lugar. Ainda penso ser possível encontrar algum lugar onde possa por em prática aquilo que aprendi na faculdade. Se não for ao serviço do negócio da comunicação, que fosse ao serviço do Estado de Israel. Possivelmente, ainda demorará algum tempo até conseguir sair da bolha brasileira (e agora francesa) e finalmente integrar plenamente a sociedade israelita. Porém, como alguém me disse uma vez: "apesar de viver há mais de 30 anos em Israel, a dupla identidade – israelita e estrangeira – é algo que nunca nos larga".

publicado por Boaz às 22:03
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Quarta-feira, 27 de Julho de 2011

De olhos na Diáspora

Depois de dois anos, terminámos o curso de preparação para shelichut, para irmos trabalhar em alguma kehilá (comunidade judaica) da Diáspora. No início do curso, as limitações do meu hebraico (que ainda persistem, embora cada vez menos) fizeram-me perder algum do conteúdo de algumas classes.

Nas primeiras semanas, muitas das aulas pretendiam dar-nos uma perspetiva da situação do Povo Judeu no Mundo. Perante a maior experiência e muito maiores conhecimentos de quase todos os meus companheiros de classe, apercebi-me do quanto ainda tinha de desenvolver as minhas aptidões. Porém, também percebi que, apesar das minhas limitações em alguns níveis, a minha capacidade de relacionamento com outras pessoas e diferentes culturas – a tal “cabeça aberta” que falta a muitos judeus religiosos israelitas – ajudavam a ultrapassar alguns desses obstáculos.


Emissário Chabad conversa com um jovem não-religioso.
O movimento Chabad é pioneiro nas iniciativas de aproximação dos 'afastados' às suas raízes judaicas.

Relatos dos diretores do curso, que viajam regularmente para acompanhar o trabalho nas várias congregações, assim como dos próprios emissários de visita a Israel, revelaram uma imagem quase catastrófica do Judaísmo da Diáspora. As altíssimas taxas de casamentos mistos em todos os países (exceto em dois ou três casos muito específicos), níveis de prática religiosa e conhecimentos de Judaísmo muito baixos, crise na identidade judaica entre os jovens e ocorrência de anti-semitismo. A cada semana, a carga de tragédias aumentava e com ela a sensação de total impotência para enfrentar a situação.

Aos poucos, porém, a frustração foi substituída pela consciência de que, apesar das enormes dificuldades no trabalho com as comunidades judaicas, existe muito por onde melhorar e qualquer pequeno progresso faz uma grande diferença. Apesar do desinteresse (ou pura ignorância) pelas tradições dos antepassados, das crescentes taxas de assimilação e abandono da vida judaica, os processos inversos também se verificam.

O renascimento da espiritualidade, o regresso às origens perante a perceção de que o "Mundo Ocidental" não dá todas as respostas nem preenche todos os vazios. Ainda que, por vezes, essa nova espiritualidade não se enquadre propriamente dentro das normas da ortodoxia. Como alguém muito pragmático descreveu o fenómeno: parece não existir nenhuma contradição em “estudar Cabalá numa Sexta à noite, em redor de um prato de camarão”.

Ao longo do curso fomos recebendo algumas propostas de destino de trabalho. Ansiosos por preencher as vagas e enviar o maior número de emissários da própria organização, antes que o lugar seja ocupado “pela concorrência”, recebemos também algumas propostas quase absurdas. A primeira foi para Lisboa, poucos meses após o início do curso. Tendo eu passado por Lisboa na minha caminhada em direção ao Judaísmo, e conhecendo ainda um pouco da kehilá, depressa entendi a proposta como irrealista. Enfrentar uma comunidade pequena mas complicada como Lisboa, com a minha inexperiência, seria um perfeito suicídio. Alguém me avisou: “vão comer-te vivo!”.

O "caso Lisboa" não avançou – na verdade não tinha sequer como avançar logo à partida – e, numa questão de poucos meses, o lugar foi preenchido por alguém muito melhor preparado. Definitivamente, aquela oferta não era para alguém que procura ainda o seu primeiro posto de shelichut.

Alguns meses depois, fomos despertados com a possibilidade de irmos para Madrid. Alguém na comunidade madrilena pretendia abrir um beit midrash – um centro de estudos judaico – e precisavam de um professor. Ao mesmo tempo trabalharia com os jovens no colégio judaico local. Algumas conversas com um intermediário deram-nos detalhes interessantes sobre o trabalho. Porém, algumas semanas depois, de repente, os planos para o beit midrash madrileno esfumaram-se.

Ainda durante o primeiro ano do curso, mais de metade dos colegas de classe encontraram um lugar em comunidades no estrangeiro. A maioria na América do Norte. Outros, por alguma razão, desistiram de sair. Ao longo do segundo ano, o entusiasmo inicial de trabalhar para ajudar o Povo de Israel esmoreceu parcialmente. O panorama de sair de Israel para, daqui a alguns anos, voltar ao país sem ter casa nem trabalho, fizeram-nos distanciar um pouco daquele sonho.

Entretanto recebemos uma proposta para Cancún, no México. O tipo de comunidade pareceu-me bem interessante: pequena mas ativa, sem escoa judaica onde tivesse de ensinar todos os dias “das 9 às 5”. Falei pela Internet com os líderes da comunidade e cheguei mesmo a viajar para o México durante uma semana, a fim de conhecer in loco a comunidade. Apesar da experiência positiva da viagem e do contacto com os judeus de Cancún, acabaram por decidir que eu ainda não tinha a experiência necessária para resolver os graves problemas da comunidade. Não posso dizer que não tenham razão, apesar de lamentar de ter – de certa forma – perdido uma boa oportunidade. Mas, se não é, é porque não tem de ser.

Havíamos decidido, à partida, irmos para algum lugar de língua portuguesa ou espanhola, também por questões de proximidade cultural. Enfrentar a possibilidade de não entendermos as pessoas com quem iríamos trabalhar e ainda forçar as nossas crianças a aprender um idioma adicional, estava fora de questão. Porém, as ofertas para outras latitudes continuaram a chegar. Como o cargo de vice-rabino de Atenas, na Grécia, trabalhando como auxiliar do rabino local e em projetos de educação dos jovens da comunidade. Sem falar grego, a única possibilidade seria comunicar-me em inglês. Contudo, a minha esposa praticamente não fala o idioma de Shakespeare (e menos ainda o de Platão), pelo que isso significaria, nos primeiros meses, até aprender um pouco do idioma local, uma total impossibilidade de comunicação. Por outro lado, as crianças estariam numa escola onde aprenderiam um idioma – neste caso o grego – totalmente desconhecido por nós, e que não seria sequer usado em casa. Proposta idêntica tivemos para Wroclaw, na Polónia. Mas em vez do grego, o polaco. Que se seguirá: coreano?

Poucas semanas antes de terminar o curso soubemos do caso da comunidade de Melilla, um enclave espanhol em Marrocos. A comunidade pretendia um casal de professores para a escola judaica local. O homem ensinaria os rapazes, a esposa daria aulas às meninas. Pelos dados que recolhi sobre a kehilá – quase ultra-ortodoxa – entendi que não seria o lugar adequado para nós.

Mesmo depois de terminado o curso, as possibilidades de saída continuarão a surgir. Porém, quanto mais tempo passa depois da conclusão do curso, é verdade que diminuem as hipóteses de encontrarmos algum lugar. É algo que ainda queremos fazer, mas não podemos sair precipitadamente. A comunidade certa para os emissários certos. Como num casamento. De outra forma, arriscamo-nos ao fracasso.

publicado por Boaz às 20:00
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Quarta-feira, 2 de Março de 2011

Ecos da Diáspora

Numa das minhas últimas jornadas diárias para Jerusalém, apanhei boleia num carro onde viajavam duas mulheres que conheço vagamente, residentes em Alon Shevut, tal como eu. Mãe e filha conversaram num idioma estranho durante toda a viagem. Percebi imediatamente que não era hebraico. Apesar de ainda um pouco ferrugento na minha boca, o hebraico já não é “um idioma estranho” para mim.

“Talvez seja yiddish”, imaginei, lembrando-me da língua falada pelos Judeus oriundos da Europa Oriental, que é uma mistura de dialetos alemães e eslavos. “Não, também não é”, percebendo pela falta do forte sotaque alemão. Curioso, prestei atenção à conversa, sem entender uma única palavra daquele idioma misterioso. Da lista de possibilidades, fui sucessivamente excluindo as línguas germânicas e eslavas. “Húngaro!” concluí, atendendo à abundância do som “ô”. Aqui e acolá, a filha pontilhava o húngaro com expressões em hebraico e até português. *

Jerusalém, nas línguas do Mundo.

Na década de 1880, o escritor e jornalista Eliezer ben-Yehuda iniciou e reabilitação da língua hebraica como um idioma moderno. Consultando as fontes do Tanach (as escrituras judaicas, que incluem a Torá e os livros dos vários profetas), ben-Yehuda criou palavras novas a partir de velhos termos. Muitas das suas palavras novas são hoje parte do léxico hebraico, mas cerca de 2000 nunca foram adotadas.

Comparando com o português ou o espanhol, o idioma hebraico é bem menos rico em raízes de palavras. Porém, de apenas uma raiz, conseguiram criar-se dezenas de termos. Por exemplo, da palavra avir, “ar” em hebraico, surgiu aviron, “avião”. Porém, este é mais conhecido como matós, proveniente da raiz tas, “voar”. E como este, há dezenas de exemplos de vocábulos do hebraico moderno, com versões diferentes para a mesma coisa, dependendo da raiz que foi usada para nomear pela primeira vez uma coisa nova. Em maior ou menor medida, adotaram-se palavras com sonoridade grega, inglesa ou espanhola.

Porém, este renascimento da língua hebraica não apagou o uso das línguas que os Judeus usaram durante as gerações passadas na Diáspora. Os judeus haredim (ultra-ortodoxos), chegados da Europa Oriental, ainda hoje usam o yiddish como idioma do quotidiano, dos jornais da comunidade e dos pashkevilim, os cartazes afixados nas paredes dos bairros ultra-ortodoxos, contando as novidades, escândalos e alertas da comunidade. Inclusive na yeshivá, a academia de estudos religiosos, a Lei é discutida no idioma dos seus antepassados europeus. O hebraico, a língua sagrada, é reservado para os próprios livros da Lei e para as orações. Na opinião de muitos haredim, usar o hebraico nos assuntos do quotidiano seria misturar o sagrado com o profano. Um sacrilégio, portanto.

Os israelitas de origem russa – mais de um milhão, chegados na década de 1990 depois do colapso do Império Soviético – até hoje falam a sua língua materna. Ainda que aprendam hebraico com uma rapidez impressionante, mantém um fortíssimo sotaque eslavo. O mesmo se passa com os judeus franceses, a imigrar em cada vez maior número para Israel.

Os judeus provenientes do mundo islâmico mantêm o sotaque mais próximo da norma hebraica moderna, mas é normal ouvi-los a falar árabe, turco ou persa. Os mais velhos ainda falam os dialetos típicos dos judeus desses países, como o quase desaparecido haketia ou ladino ocidental, proveniente do Norte de Marrocos. Do mesmo modo, os judeus turcos e gregos guardam ainda o ladino oriental. E os bukharianos, o seu dialeto de origem turca.

Também os judeus imigrados do mundo anglo-saxónico continuam a usar o inglês em abundância. Em Jerusalém e nos colonatos e cidades dos arredores, existem numerosas comunidades de falantes de inglês. Daí que muitos, mesmo depois de vários anos a residir em Israel, continuem com um nível de hebraico muito básico. E, mesmo os que atingiram um nível fluente, quase todos continuam com sotaques inconfundíveis que denunciam a sua origem.

Numerosos empregos, em especial nos negócios e na alta-tecnologia, usam o inglês como língua franca, como em qualquer lugar do mundo. Assim, são muitos os imigrantes que não sentem sequer necessidade de falar o hebraico. Uma piada em Efrat, o principal colonato da região de Gush Etzion, habitado principalmente por americanos, diz que “em Efrat, de vez em quando até é possível escutar hebraico”. De facto, desde os negócios nas lojas até numerosas aulas de Torá, praticamente tudo se pode fazer usando apenas o inglês. Em Israel, hebraico e árabe partilham desde a fundação do Estado o estatuto de idiomas oficiais, apesar das discussões recentes de promover o hebraico a único idioma oficial e passar a considerar o árabe como semi-oficial, como são o inglês e o russo.

Casado com uma brasileira, em minha casa fala-se quase exclusivamente português, ainda que pontilhado por numerosas palavras e expressões hebraicas. Para falar com a família em Portugal, vejo-me por vezes a baralhar os idiomas. Há palavras portuguesas que, pura e simplesmente, desapareceram do meu discurso, substituídas pelas correspondentes hebraicas. Na yeshivá, apesar de usar livros em hebraico, estudo diariamente com brasileiros e outros sul-americanos. Muitos colegas da yeshivá são norte-americanos e ingleses. Assim, num dia normal uso o português, o espanhol e o inglês. O hebraico acaba muitas vezes por ser reservado apenas para breves conversas de autocarro ou para ser atendido no supermercado.

A filha mais velha, de 2 anos, frequenta o infantário local e aprende rapidamente a língua nacional, trazendo palavras novas todos os dias. Muitos nomes de objetos, alimentos, e também as cores e os números são aprendidos originalmente em hebraico. Vejo-me cada vez mais a entremear o idioma de Camões com o idioma de Moisés. Portubraico, digamos.

* A senhora octogenária, natural da Hungria, sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, onde trabalhava na clínica do macabro Dr. Mengele. Depois da guerra imigrou para o Brasil, onde nasceram os seus filhos. As suas memórias estão publicadas em hebraico e português.

publicado por Boaz às 20:20
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Quinta-feira, 14 de Outubro de 2010

Espanhóis vs. Alemães

Os Judeus, apesar do seu pequeno número em relação à população mundial – algo como 0,2% da humanidade –, são bastante variados em termos de costumes. Aquilo que em hebraico se chama min’hag. Tradicionalmente dividem-se em sefarditas e askenazitas. Os primeiros são provenientes da Península Ibérica (Sefarad em hebraico, que ainda hoje é também o nome para Espanha) e dos países árabes. Os segundos são descendentes das comunidades do Vale do Reno, na Alemanha (Ashkenaz em hebraico, ainda que hoje se lhe chame Guermânia) e da Europa Oriental. Além destes, ainda há alguns pequenos grupos como os judeus Italianos e os Iemenitas, que têm costumes muito próprios.


Minyan no Kotel. Onde se juntam todos os tipos de judeus.

A história de Sefarad fica marcada pela "Idade de Ouro do Judaísmo Espanhol" a qual produziu génios como Maimónides (o Rambam) e Nachmânides (o Ramban), o Cuzarí e dezenas de autores essenciais da filosofia e da literatura judaicas. Com a expulsão judaica dos reinos ibéricos, os sefarditas espalharam-se por grande parte do Mundo Judaico. Marrocos, Holanda, Itália, Grécia e o Império Otomano foram os principais destinos.

Com a descoberta do Novo Mundo em 1492 – o mesmo ano da Expulsão – e o início da colonização das Américas, judeus e "cristãos-novos" também se estabeleceram no Hemisfério Ocidental. A primeira sinagoga foi estabelecida por descendentes de Judeus portugueses na cidade brasileira de Recife, durante a ocupação holandesa. Após a reconquista da região pelos portugueses, os judeus escaparam para as Caraíbas (Curaçau, Barbados, Jamaica) e a recém-fundada Nova Amesterdão, que seria mais tarde Nova Iorque.

Em Portugal, Espanha e nas colónias – do México ao Brasil –, apesar da oficial Expulsão, nascia o fenómeno dos Marranos (Anussim, em hebraico). Judeus por dentro, cristãos por fora. Receosos da Inquisição sempre vigilante. As gerações passaram, a identidade foi-se perdendo aos poucos, mas mantiveram-se estranhos costumes como acender velas sexta-feira ao anoitecer, jejuar uma vez por ano no começo do Outono, limpar a casa e não comer nenhum alimento fermentado por voltas do início da Primavera. Para muitos, a origem destes costumes era desconhecida. Para outros, a alma e a identidade judaica, ainda que reprimidas, mantinham-se vivas. Em segredo.

Também na Europa Oriental a vida judaica era agitada de tempos a tempos por convulsões. Aí, o pensamento judaico tradicional dividia-se entre as linhas hassídicas com a sua forte componente mística e, em sua oposição, o racionalismo lituano fundador do moderno conceito da yeshivá, a academia rabínica. O liberalismo napoleónico promoveu aos poucos a integração dos Judeus à igualdade de cidadania. Ainda que a fera do anti-semitismo não tenha sido extinta pelo humanismo liberal. Dentro do próprio Judaísmo, a maior abertura social criou uma revolução. A Haskalá ou Iluminismo Judaico abriu caminho a um maior liberalismo na religião e mais tarde à fundação do movimento reformista.

No final do século XIX e no início do século XX, campanhas de massacres da população judaica às mãos de polacos, russos e dos cossacos ucranianos, levaram vários milhões de judeus askenazitas a todo o mundo anglo-saxónico. Hoje, eles são a imensa maioria dos judeus americanos, a maior comunidade da Diáspora Judaica. A liberdade americana fez florescer a comunidade judaica, atingindo um nível de desenvolvimento cultural e social nunca antes alcançado em qualquer outra etapa deste Exílio já bi-milenar.

Nas décadas de 1930-40, o Holocausto destruiu os maiores centros da vida judaica europeia. Por ter atingido em especial a Europa do Leste, a enorme maioria dos seis milhões de mortos judeus durante a Shoá eram askenazitas. Grupos hassídicos inteiros foram exterminados na voragem da ocupação nazi. Na mesma época, também importantes comunidades sefarditas como Salónica (Grécia), Sarajevo (Bósnia) e Amesterdão praticamente desapareceram.

Logo após a independência israelita em 1948, com uma crescente onda de anti-semitismo nos seus países de origem, mais de 800,000 judeus dos países árabes chegaram à Terra Santa. Até aos anos de 1990, antes da grande onda de imigrantes da ex-União Soviética que trouxe mais de um milhão de pessoas, os sefarditas compunham mais de 70% da população judaica do país. Hoje, a proporção entre as duas comunidades é praticamente idêntica, apenas com uma ligeira maioria de sefarditas. Porém, a nível mundial, a população judaica é maioritariamente de origem askenazi, numa proporção de 4 para 5.

Na sua versão moderna, o sionismo teve a origem no Leste Europeu. Os principais impulsionadores da ideia da fundação de um estado judeu na Terra de Israel eram askenazitas. Eles foram os pioneiros das comunidades coletivas locais, os kibbutzim e moshavim; fundadores das primeiras cidades judaicas da embrionária Israel e dos partidos políticos originais no país. Desde o início do Estado de Israel, a política tem sido dominada pelos askenazitas. Em 62 anos, todos os Primeiros-Ministros foram askenazitas. Entre os Presidentes da República, apenas dois eram sefarditas, Moshe Katzav, nascido no Irão, e Yitzhak Navon, descendente de uma família espanhola estabelecida em Jerusalém. Este desequilíbrio na esfera política levou à fundação do Partido Shas, dirigido pelo grande rabino Ovadia Yosef, é hoje o maior partido religioso em Israel e com uma crescente influência política, participando em todas as coligações de governo desde os anos de 1990.

A integração na moderna sociedade israelita de estilo marcadamente europeu, foi particularmente difícil para os judeus recém-chegados dos países árabes, provenientes de sociedades tradicionais. A maioria dos recém-chegados foi alojada em cidades de tendas construídas à pressa (as maabarot) ou insalubres "cidades de desenvolvimento" nas regiões periféricas de Israel. A ruptura com o seu modo de vida tradicional era evidente. Muitos haviam desfrutado de um elevado nível de vida nas suas terras de origem e na fuga à perseguição haviam perdido todos os seus bens. Viver em comunidades agrícolas também não foi bem sucedido, dado que nos países árabes os Judeus haviam sido mercadores e artesãos, e raramente se dedicavam à agricultura. Tal como acontecera com os Judeus na Europa medieval.

No novo país, composto por gente de tão variadas origens, recuperou-se a língua hebraica, a língua nativa dos Judeus. Usada durante os 2000 anos da Diáspora somente no âmbito religioso tornou-se o idioma da vida diária. Os askenazitas, falantes do yiddish, alemão, húngaro ou russo, contribuíram com a forma moderna do alfabeto. Os sefarditas, falantes do ladino, árabe, persa ou bukhari deram a sua pronúncia ao idioma moderno. Numa piada um pouco cínica, alguém definiu esta simbiose com a expressão bíblica "A mão de Esaú e a voz de Jacob".

Ainda hoje existe um certo sentimento de inferioridade dos judeus sefarditas em relação aos askenazitas. Todavia, a tendência parece visionar uma crescente influência dos sefarditas. A demografia joga a seu favor. Afinal, estes compõem a maioria dos judeus religiosos, que têm mais filhos que os seculares. Ainda que a face mais visível do judaísmo ortodoxo em Israel sejam os haredim askenazitas, notados pelas suas capotas negras e os shtreimels (chapéus de pêlo usados no Shabbat e dias festivos), estes são na verdade minoritários no panorama religioso em Israel. Por outro lado, os judeus tradicionalistas ou massoratim (não confundir com os adeptos do Movimento Masorti, uma denominação do Judaísmo Conservador) são parte de um fenómeno característico do público sefardita em Israel. Em geral, os askenazitas ou são ortodoxos ou declaradamente seculares. Esse "meio-termo entre a tradição e a modernidade" é a regra dos sefarditas não ortodoxos. E é raro encontrar um sefardita obstinadamente laico e totalmente ignorante da sua herança religiosa.

Mesmo na Diáspora, em países como o México, o Brasil, a França ou a Venezuela, as comunidades menos "assimiladas" são as sefarditas. Ao contrário, as comunidades askenazitas do mundo anglo-saxónico, com raras excepções, vão sendo dizimadas pelo fenómeno da assimilação e dos casamentos mistos. No moderno Estado de Israel, com a aliá de judeus de todos os cantos do planeta, realiza-se a profetizada kibbutz galuyot, a "reunião dos exilados" na Terra Prometida, o futuro parece antever um gradual atenuar das diferenças entre as diferentes comunidades judaicas.

Afinal, hoje em dia, é comum o casamento entre um homem sefardita e uma mulher askenazi. Ou o inverso. Ou até um homem louro de origem alemã com uma mulher etíope. A divisão askenazi/sefardita é um produto da Diáspora. O "novo judeu" – ideia romântica dos pioneiros sionistas inspirados em ideais socialistas –, é cada vez mais uma simbiose entre os costumes de ambos. Num exemplo caseiro, na mesa israelita é normal encontrar-se hoummous ao lado de gefilte fish. Afinal, pode dizer-se sem cair em sacrilégio que, tirando o toque especial da avozinha, seja ela húngara ou marroquina, cholent e dafina são basicamente a mesma coisa.

publicado por Boaz às 22:00
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Quinta-feira, 12 de Agosto de 2010

Hebron, entre o Céu e a guerra

No último dia das férias do Verão, antes do recomeço dos estudos na yeshivá, decidi visitar – desta vez sozinho – a cidade de Hebron, situada a apenas 20 quilómetros de casa. Há três anos que não visitava a cidade dos Patriarcas. Apesar da importância histórica e espiritual daquela que é a segunda cidade santa do Judaísmo, confesso que não é dos lugares que mais me atraem. Para lá da santidade, é uma cidade conflituosa, além de terrivelmente suja. Da primeira visita, recordo o som de tiros esporádicos e o persistente fedor a esterco de burro.


"Sétimo Degrau" | Túmulo de Sara
Túmulo de Yishai e Rute | Checkpoint "Tarpat"

Apanhei boleia no cruzamento de Gush Etzion. Destino: Kiryat Arba. Assim que se sai do cruzamento do Gush em direção a sul, a estrada torna-se mais estreita. Ao lado do caminho há vinhas e campos de cultivo, alguns abandonados. Atravessamos várias aldeias árabes. A maioria das casas parecem inacabadas. Grafittis em árabe estão em quase todas as paredes. Entre a miséria das aldeias sobressaem as casas dos ricos locais, com um telhado em forma de pagode chinês. Destoam tanto como as casas de imigrantes com inclinados telhados alpinos que pululam nas aldeias de Portugal. Montes de entulho de obras e das pedreiras e sucatas ferrugentas pontilham a paisagem. O lixo despejado na borda do jardim ou junto às paredes das casas fazem jus à proverbial imundície dos povoados árabes. Em frente a cada cruzamento, uma torre de vigia do exército de Israel. Na beira da estrada, placas vermelhas e brancas avisam os cidadãos israelitas da proibição de entrar no território da Autoridade Palestiniana. Ameaçadoramente declaram “Estão por sua conta e risco”.

Chegados a Kiryat Arba, o condutor da boleia deixa-me numa praça do colonato. Pergunto como chegar a Hebron. “Siga esta rua até ao cruzamento e espere uma boleia até à Gruta dos Patriarcas.” Pergunto se é possível chegar a pé. “Sim, tem presença do exército e da polícia. Não tem problema.” Ao chegar ao tal cruzamento, olho para Hebron, do outro lado da cerca que rodeia Kiryat Arba. Tirando o posto de controlo na entrada do colonato, não se vêm soldados na rua. Decidi não arriscar a caminhada e esperei pela boleia, que chegou logo a seguir. Quase não se avistam pessoas na rua. O calor do meio-dia não encoraja a sair de casa.

Na praça em frente à Gruta dos Patriarcas uma multidão de centenas de turistas franceses com bandeiras de Israel chega para visitar o santuário. Num dos cantos do edifício situa-se o lugar conhecido como o Sétimo Degrau. Desde a conquista islâmica no século XIII aquele era o ponto mais próximo onde os peregrinos judeus podiam rezar do túmulo dos Patriarcas. Depois de 1967, quando Israel conquistou a cidade à Jordânia, os Judeus puderam voltar a rezar no interior do santuário. Mesmo com a permissão, ainda hoje, muitos visitantes continuam a rezar no Sétimo Degrau, recordando 800 anos de humilhante proibição. Homens e mulheres, haredim e os tais turistas franceses, rezam juntos no local. Algumas mulheres choram.

À entrada do santuário há dois pontos de controlo dos visitantes. Não se pode entrar com armas. Nem com bandeiras, mesmo as de Israel que os franceses empunham. Grupos de homens estudam. Ao lado, um minyan reza Minchá, a oração da tarde. Uma vedação de madeira separa-os das mulheres que recitam salmos. No pátio interior coberto por um toldo, outro grupo de homens reza. De cada extremo do pátio, dois pequenos santuários entre os túmulos dos casais dos Patriarcas sepultados no local. Jacob e Leah de um lado. Abraão e Sara do outro. A decoração do local é tipicamente muçulmana, denotando o domínio islâmico quase ininterrupto durante 1400 anos. As pinturas nos tectos têm um aspeto renovado. Sob o túmulo de Leah, os pombos – indiferentes à santidade do local –, deixaram os seus despojos.

Decido estudar um pouco enquanto espero por um novo minyan para a oração da tarde. Saio pouco depois de terminada a reza. Ao descer as escadas para a rua pondero se devo ou não visitar outros locais de Hebron onde residem os judeus. Paro a alguns metros de um soldado que vigia um cruzamento da rua principal. Acerco-me e pergunto: “Quero ir até Tel Rumeida, é seguro?”. “Sim, não tem problema”, assegura-me.

A cidade de Hebron é um dos principais pontos de disputa entre Israel e os Palestinianos. Uma parte da Cidade Velha, em redor da Gruta dos Patriarcas e junto a Kiryat Arba, é controlada por Israel. Nessa área, três pequenos núcleos abrigam algumas centenas de habitantes judeus. Os bairros árabes têm um aspeto de cidade fantasma. A violência da Segunda Intifada – que em Hebron teve alguns dos seus piores episódios – levaram a prolongados períodos de recolher obrigatório e encerramento de lojas. Muitos dos habitantes árabes mudaram-se para o outro lado da cidade, controlada pela Autoridade Palestiniana.

À minha frente, na rua principal, caminha um casal de árabes idosos. O homem usa um longo keffiyeh branco e vermelho. Um pouco adiante, um turista asiático. Ao passar por ele cumprimenta-me com um sorriso: “Hello”. Retribuo a saudação e pergunto-lhe de onde vem. É sul-coreano. No caminho tento conversar um pouco com ele, mas o seu inglês é terrivelmente limitado. Decide parar junto a uma paragem de autocarro que me parece abandonada.

Continuo sozinho a minha jornada. Olho as varandas sobre a rua principal, todas protegidas por finas redes de ferro. “Ao menos assim, não tenho de me preocupar que me atirem alguma pedra…”, penso. Todavia, um cano de espingarda passa bem entre os buracos da rede. Confio que o Exército deve ter procedido à limpeza das armas da cidade. No caminho, uma cafetaria self-service para uso dos soldados israelitas que patrulham as ruas. Beit Hadassa, o antigo hospital judaico é hoje uma das residências judaicas em Hebron. O local foi palco de um massacre da comunidade judaica às mãos dos vizinhos árabes, em 1929. Um pequeno museu recorda a tragédia.

Até há alguns anos, em cada porta havia uma loja. Hoje estão todas fechadas e trancadas com uma barra de ferro. A Intifada matou o comércio nesta metade da cidade. Não sei se ainda vivem árabes naquela área. Alguns barulhos de conversas e de televisões informam-me que sim. No fim da rua, um checkpoint serve de passagem de pedestres para a parte palestiniana de Hebron.

Tel Rumeida, o meu destino, situa-se no alto de uma colina. A estrada é íngreme. Ao lado, o muro que separa a cidade. Quase no alto da encosta, uma abertura no muro permite observar a cidade palestiniana do outro lado. Ao contrário da área onde me encontro, daquele lado vejo shoppings e mais shoppings, com cúpulas vistosas. Prédios residenciais modernos. Aqui e além, mais alguns pagodes chineses. E um ininterrupto barulho de buzinas.

No alto da ladeira, dois soldados patrulham um cruzamento muito próximo de Tel Rumeida. Ali situa-se, ao lado de uma pequena base militar israelita, o núcleo judaico mais isolado de Hebron. A maior parte das famílias vivem em caravanas, ao lado das ruínas milenares de Tel Hebron. Entro no recinto da base para visitar o túmulo de Yishai e Rute, pai e bisavó do rei David. É uma ruína poeirenta e deserta. Uma vela memorial colocada sobre a laje escurecida testemunha que alguém passou ali recentemente. Entro na pequena sinagoga ao lado. Está vazia, mas a luz e a ventoinha estão ligadas. Sento-me por alguns minutos para descansar do calor e da caminhada. Recito alguns salmos. As eternas palavras do Rei David entoadas na cidade onde ele reinou por sete anos têm outro significado. Dou uma volta pelas ruínas. Um painel informa a existência de uma antiga sinagoga. Entro, curvando-me, por uma porta baixa. No interior, nada lembra tratar-se de uma sinagoga. Exceto alguns livros sagrados numa estante ou amontoados num canto, cobertos de pó.

São horas de regressar a casa. Desço a encosta em direção ao centro da cidade. Algumas crianças árabes caminham também por ali. Passa por mim um carro israelita, o primeiro que vejo passar desde que saí há mais de uma hora da Gruta dos Patriarcas. Junto a Beit Hadassa várias crianças judias correm pela rua. Para eles aquele é o espaço de brincadeiras, independente da situação que se viva na cidade.

Avisto o autocarro 160 que vai partir para Jerusalém. Cheguei em boa hora. Na segunda paragem, o turista coreano ainda espera o transporte de regresso a Jerusalém. Olho a cidade passar pelo vidro sujo do autocarro. Sujo como as ruas da Cidade Velha com casas esventradas, cicatrizes da Intifada. Hebron é um dos símbolos das intermináveis (e talvez insolúveis) negociações com os Palestinianos. É difícil para Israel manter a situação atual, pelos custos económicos e humanos. O exemplo da entrega de Gaza não perspetiva bons resultados para futuras transferências de território. Até porque Hebron é um dos mais poderosos redutos do Hamas na Cisjordânia.

Santa e conflituosa. Cheia de preces. Cansada de mágoas.

publicado por Boaz às 21:10
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Segunda-feira, 26 de Abril de 2010

Dia santo na Babilónia

Desde que casei, posso contar pelos dedos as vezes que passei o Shabbat fora de casa. E depois do nascimento do bebé, a família apenas se atreveu a sair de casa para passar o Shabbat em duas ocasiões, e ambas em Jerusalém. Porém, há algumas semanas, aventurámo-nos até Tel Aviv. De férias na semana da Pessach, a Páscoa Judaica, tínhamos mais tempo para preparar a viagem de autocarro até à costa. À chegada, Tel Aviv depara-se completamente diferente de Jerusalém. No estilo dos edifícios e, mais ainda, nas pessoas.


Tel Aviv, vista da cidade velha de Jaffa.

Fomos convidados por uma família de amigos, antigos residentes de Alon Shevut – o colonato onde moramos, e que hoje vivem no bairro de Ramat Aviv, um dos mais ricos de Tel Aviv, no limite norte da cidade, com alamedas cheias de árvores e jardins que rodeiam cada prédio. Os nossos amigos que, há pouco mais de um ano trocaram as idílicas montanhas da Judeia pelo bulício da grande cidade, pertencem a um núcleo de famílias religiosas, com vontade de revitalizar a vida religiosa judaica local.

Para uma família religiosa, residir num prédio de vários andares apresenta um desafio adicional no Shabbat: a impossibilidade de usar o elevador. Em Jerusalém e noutras cidades com considerável população judaica ortodoxa, a solução são os “elevadores de Shabbat”, com um mecanismo programado antes da entrada do dia sagrado para que funcionem sem interrupção, parando em cada andar do prédio, sem necessidade de accionar os botões. Em Tel Aviv porém, excluindo os hotéis, não são muitos os prédios onde os seus residentes seculares concordam com esta solução para os seus vizinhos religiosos. Assim, por exemplo, para quem vive num andar alto, subir e descer vários lanços de escadas com um carrinho-de-bebé é uma tarefa árdua. Ficámos alojados em casa de uma outra família do tal núcleo que haviam passado a quadra festiva fora de Tel Aviv.

Uma dos projetos do pai da família que nos convidou é dinamizar o estudo de Torá numa das sinagogas do bairro. Uma das provas da grande secularização da população do bairro é que a sinagoga funciona apenas no Shabbat. Situada numa rua tranquila de casas luxuosas (o canto hollywoodesco de Tel Aviv), é um edifício bonito, rodeado de um belo jardim e com um hall em forma de tenda, usado para as recepções comunitárias nas manhãs de Shabbat. É nessa sinagoga que as famílias do bairro escolhem realizar as cerimónias de bar mitzva dos seus filhos, quando chegam aos 13 anos. Esses acontecimentos festivos são oportunidades preciosas para o rabino estabelecer contacto com as famílias afastadas, convidando-as a participar noutras atividades da sinagoga.

Na manhã de Shabbat, cheguei um pouco atrasado à sinagoga. Com o meu atraso receei que a cerimónia já fosse avançada. Porém, mesmo passando da hora marcada, fui o segundo a chegar. Durante a caminhada de 10 minutos desde a casa onde passámos a noite, quase não encontrei vivalma na rua, ainda que fossem 8 da manhã. Tel Aviv é chamada “a cidade que nunca dorme”, mas na manhã de Shabbat o seu lema não se cumpre, já que a cidade parece parada. Talvez o lema seja na verdade “A cidade que nunca dorme. De noite”. As únicas pessoas que encontro no trajecto são um judeu religioso que se dirige a outra sinagoga e uma mulher que faz a sua sessão de jogging matinal.

A visita à sinagoga fez-me sentir verdadeiramente fora de Israel. Nos cerca de 200 lugares do santuário, não havia mais do que 30 pessoas. Destas, a grande maioria não pareciam habituados a estar numa sinagoga. Algumas, inconscientes da santidade do lugar, falavam praticamente durante toda a cerimónia.

Também exteriormente se notava que não eram pessoas especialmente religiosas. As mulheres não se vestiam de forma discreta. Entre os homens, eram raros os que usavam barba – um dos sinais externos mais comuns do judeu religioso (ainda que não seja obrigatório). Mais raros ainda eram os jovens. Um deles, visivelmente um novato naquelas paragens, parecia desorientado na hora de entoar o kadish, a oração pelos mortos. Imagino que fosse um rapaz “afastado”, quando a morte de um familiar próximo o levou a frequentar a sinagoga, para aí poder dizer kadish pelo seu ente querido desaparecido. Ainda assim, há que reconhecer o mérito de, mesmo parecendo um pouco “deslocadas”, todas aquelas pessoas terem ido à sinagoga.

Antes do início da cerimónia de Shabbat, o rabino costuma fazer uma breve prédica com ensinamentos morais, normalmente baseada na porção semanal da Torá. Em Alon Shevut, onde todas as famílias são religiosas, estou habituado a escutar sermões mais “pesados” e mais longos, por vezes sobre questões complexas da lei judaica. Naquela sinagoga em Tel Aviv, o rabino falou de amor, algo que todos conseguem identificar-se, mesmo os mais afastados da prática religiosa.

Deixar o ambiente religioso da vida em Alon Shevut deixou marcas na família do rabino. As crianças não estudam perto de casa. Nas redondezas, nenhuma escola se enquadra nos padrões de religiosidade da família. Não há vizinhos religiosos no mesmo prédio, nem talvez na mesma rua. Antes, em Alon Shevut, as seis crianças da família brincavam sem problemas em casa dos vizinhos, ou toda a criançada das redondezas se reunia no pequeno jardim no meio do bairro. Em Tel Aviv, os pequenos têm de caminhar algumas centenas de metros até à casa da família religiosa mais próxima. E as ruas de Tel Aviv não são tão seguras como as de Alon Shevut. Assim, fora da escola, praticamente não têm amigos.

A solução é passarem mais tempo em casa. Uma das coisas que acabaram por absorver da vida de Tel Aviv é o gosto (diria quase fanático) pelo futebol. Incluindo as meninas, as pequenas crianças sabem de cor todas as equipas da Liga dos Campeões, da Liga Europa, os principais jogadores e os resultados dos últimos jogos! Ainda que a família tenha algum contacto e tente cativar os vizinhos não-religiosos, tem o cuidado de não deixar que os seus filhos sejam influenciados de alguma forma negativa pelo ambiente pouco ou nada religioso das redondezas.

Entre os judeus religiosos, Tel Aviv é muitas vezes destacada pelas manifestações extremas de não-religiosidade, ou até de ser anti-religiosa. Porém, apesar dessa face visível, em toda a cidade existem mais de 500 sinagogas ativas. A missão da família que visitámos no Shabbat é ajudar os habitantes da cidade a redescobrirem a preciosidade da vida judaica. Que não vejam o ser judeu religioso como alguém ultrapassado e fora da modernidade. Apesar das dificuldades, o rabino confessou-me notar progressos na sua comunidade. Resta saber quais serão as consequências para a própria família, no meio dessa missão de ajudar a “aproximar os afastados”.

publicado por Boaz às 23:30
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Domingo, 4 de Abril de 2010

A caça ao fermento

É uma das tradições mais enraizadas no Judaísmo: não comer comidas fermentadas em Pessach, a Páscoa. Para recordar a pressa da libertação da escravidão do Egito, quando a massa do pão não teve tempo de fermentar, a Torá ordena a proibição de comer e possuir qualquer tipo de chametz, comida fermentada feita a partir de cinco tipos de cereais: trigo, centeio, cevada, aveia e espelta. A comida mais importante da quadra é a matzá, ou pão ázimo, ou seja, não fermentado.


Seder de Pessach, de Arnold Eagle

Para alguns, o esforço de eliminar o chametz começa logo depois da festa de Purim, um mês antes de Pessach. As famílias deixam de comprar vários tipos de alimentos fermentados bastante tempo antes da época em que passam a ser proibidos, gastando o stock existente na dispensa.

Nas duas semanas antes de Pessach, o trabalho da faxina é intenso. É a barrela anual nas casas judaicas. O objetivo da limpeza é que até o mais ínfimo resíduo de chametz desapareça da casa. Todas as migalhas são eliminadas, nos sofás, no carro, nas carpetes, nos bolsos da roupa, nas mochilas das crianças... Os armários da cozinha e o frigorífico são bem limpos. O esforço maior é dedicado ao forno e ao fogão. Os tachos e panelas de metal são fervidos para serem “casherizados”. As louças da cozinha usadas durante o resto do ano são substituídas por outras, exclusivas de Pessach. (É interessante que, em muitas regiões rurais de Portugal, os católicos também têm o costume de fazer uma grande limpeza nesta altura do ano e até mesmo caiar a casa, a fim de receber o senhor prior que visita cada uma das casas da terrinha).

Na última noite antes da grande data procede-se à busca do fermento que eventualmente escapou à destruição. A tradição manda que a busca seja feita à luz de uma vela e com uma pena na mão. Com pouca luz, a atenção da busca concentra-se numa pequena área de cada vez. A pena permite vasculhar até nas fendas da casa. Na manhã seguinte o que foi encontrado na busca noturna é queimado. Acabou-se, não há mais fermento em casa! E assim será durante uma semana.

Com a dispensa desprovida de pão, cerveja, bolachas, bolos, massas, há que encontrar alternativas para a alimentação durante a semana que dura a Páscoa. No caso dos judeus ashkenazitas (originários da Europa do Leste) as coisas são ainda mais complicadas. A sua tradição proíbe-os também de comer kitniot, um termo que designa todo o tipo de grãos e sementes. Por serem parecidos com os cereais proibidos em Pessach, feijão, ervilha, fava, grão-de-bico, milho, soja, lentilhas, arroz e seus derivados, são também excluídos. Existe discussão acerca de grãos e sementes de uso recente, como a quinoa, a canola ou a linhaça. Os judeus sefarditas (de origem ibérica e árabe) não seguem a proibição destes grãos adicionais, ainda que haja algumas comunidades que costumam não consumir arroz nesta época.

Algumas pequenas comunidades têm costumes específicos e outras limitações na alimentação, que remontam há séculos. Umas não bebem leite, outras não comem tomate (porque as sementes parecem grãos), peixe… Para a generalidade dos judeus ashkenazitas avizinha-se uma semana à base de carne, ovos, batatas e mais batatas.

Para compensar a exclusão das farinhas no fabrico de pão e bolos, surgem na semana da Páscoa produtos novos, marcados como Kosher para Pessach. Mesmo estando há poucos anos em Israel e tendo experimentado poucas vezes a festa de Pessach, há que admitir que, de ano para ano, a qualidade aumenta. Há anos, eram tristes as alternativas aos bolos, massas e biscoitos do resto do ano, invariavelmente produzidos com farinha de batata, com um aspeto, sabor e consistência pouco atraentes. Hoje, as empresas esforçam-se para produzir alternativas saborosas. Este ano, a novidade foi a farinha de tapioca, permitida por todos os costumes. Porém, apareceu também a lecitina de colza como alternativa à derivada da soja, o que deixou algumas pessoas baralhadas e a perguntar que raio de coisa é essa…

Tirando o hábito tão enraizado de comer pão, que tem um papel tão importante no Judaísmo, central em qualquer refeição festiva, em especial no Shabat, é bastante tranquilo “sobreviver” à Páscoa. É que, com as alternativas inventadas todos os anos pela tecnologia alimentar, já quase não se sente a diferença entre Pessach e o resto do ano.

publicado por Boaz às 15:30
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Domingo, 31 de Janeiro de 2010

A hora de deixar o ninho

Depois de alguns meses numa yeshivá em Israel, para a maioria dos alunos estrangeiros chega a hora de regressar aos seus países. Os estudantes americanos chegam, geralmente, de um ambiente religioso, com famílias observantes e comunidades bem organizadas. Muitos vêm para a yeshivá como alternativa a um ano de estudos na Yeshiva University, uma conceituada universidade judaica ortodoxa dos EUA, em Nova Iorque. O ano que estudam em Israel dá-lhes créditos para o curso universitário e, a anuidade na yeshivá é muito menor que a da universidade, por isso compensa financeiramente às famílias enviar os filhos para Israel.

Com os brasileiros e outros latinos a situação é bem diferente. A grande maioria dos alunos que chegam do Brasil fez teshuvá (tornaram-se religiosos) por via de algum movimento judaico juvenil – em geral o Bnei Akiva. Em alguns casos, esse desvio em direção à observância religiosa não foi acompanhado pelas respetivas famílias. Assim, a hora de voltar é um passo duplamente difícil.


Beit Midrash, o centro de estudos da yeshivá.
A quantidade e variedade de livros é impressionante.

Muitos chegam com um nível básico de hebraico, obtido durante os estudos nalgum colégio judaico. Em termos de conhecimentos de Torá a situação não é melhor. Alguns começaram há pouco a cumprir as leis do Shabbat e da alimentação casher. Apesar de “verdes” chegam com uma ânsia enorme de aprender.

Praticamente nunca tiveram contato com o Talmude, a base de todo o estudo na yeshivá. O choque inicial é enorme. A dificuldade com a intrincada construção das discussões talmúdicas e o obstáculo da língua aramaica – a língua da Guemará, parte principal do Talmude –, significam um avanço lento nos estudos. O “verdinho”, um popular dicionário aramaico-hebraico-inglês, é consultado a cada duas palavras do texto da Guemará.

Nas primeiras semanas, a frustração é evidente em muitos destes alunos. Em conversas com os alunos mais experientes, alguns confessam pensar em desistir. Raramente o fazem. Na yeshivá o tempo passa rápido e uma clara progressão é visível logo ao fim de um mês. Aos poucos, o “verdinho” é posto cada vez mais de lado. A repetição dos termos talmúdicos e a classe diária sobre o assunto em discussão ajudam a entrar na dinâmica da Guemará.

O Shabbat é um dos tempos mais extraordinários na yeshivá. O ambiente de festa, com canções e até mesmo dança durante as refeições festivas deixam uma marca profunda. Com o tempo, alguns dos que viam a sua estadia na yeshivá como algo temporário decidem não regressar definitivamente a casa. Na verdade, decidiram que a sua casa é em Israel e voltar para um ambiente não religioso torna-se impensável.

Para os que ficam, várias questões se colocam: tratar já do processo de aliyá (a imigração para Israel) ou permanecer por enquanto como residente estrangeiro? Continuar na yeshivá mais um ou vários anos, ou sair e ir para a faculdade? E a entrada no serviço militar – agora, ou adia-se mais um pouco?

Mesmo os que saem da yeshivá e tomam algum outro caminho em Israel – exército, trabalho ou faculdade –, mantêm um contacto com o local e os amigos que lá fizeram. Nas horas vagas dos estudos lá fora ou nos dias de licença militar regressam aos bancos do Beit Midrash, a sala de estudos principal. Com frequência passam o Shabbat na yeshivá ou em casa de um rabino ou de um aluno já casado. Todos se reencontram nos casamentos de amigos. E a yeshivá é uma fábrica de casamentos!

Ainda assim, há os que têm mesmo de voltar para os seus países. Para terminar a faculdade que ficou “trancada”. Para o trabalho deixado em pausa. Para a família que insiste que voltem. As semanas que antecedem a partida são de grande ansiedade. A preocupação maior é manter o nível elevado que foi conseguido na yeshivá. Compram livros indispensáveis para continuar os estudos de Torá, livros impossíveis de encontrar fora de Israel (ou quando se encontram à venda são caríssimos!). Estudam como casherizar a cozinha da família, o que se pode ou não pode comer fora de casa, como respeitar o Shabbat quando a família não é religiosa. Fazem-se contatos com rabinos e famílias religiosas nas suas cidades, para que os possam acolher no Shabbat e nas festas.

De volta a casa, uma decisão unânime é dedicar um tempo para trabalhar com kiruv – a ajuda aos jovens judeus para se aproximarem do Judaísmo. (Kiruv significa aproximação, em hebraico). A partilha dos conhecimentos e experiências da yeshivá são uma excelente forma de atrair os jovens para aderir a uma forma de vida comprometida com os valores judaicos.

Em regra, o regresso é apenas temporário. O tempo suficiente para terminar os estudos e ir convencendo a família a deixá-los fazer aliyá. Aquilo que conquistaram com os meses passados na yeshivá é demasiado precioso para se arriscar a deixar perder num ambiente pouco cooperante com a observância judaica.

É um orgulho ver a incomparável metamorfose por que passam os novos alunos que chegam. Como crescem e se desenvolvem humana e espiritualmente. São muitos os milagres produzidos nos bancos da yeshivá.

publicado por Boaz às 22:39
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Quinta-feira, 10 de Dezembro de 2009

O enviado

Desde princípios de Setembro, eu e a minha esposa estamos a frequentar um curso de preparação para trabalhar com comunidades judaicas fora de Israel – aquilo que se chama, em linguagem judaica: a Diáspora. Ao fim de dois anos – nalguns casos ainda no período de estudos – o casal é enviado para uma comunidade onde desempenhará as funções de rabino (e respectiva esposa) ou de professor da escola judaica.

Durante a sua estadia na Diáspora, os alunos do curso tornam-se shelichim, "enviados" ou "emissários". É um modelo executado com sucesso em especial pela corrente judaica ultra-ortodoxa Chabad, que tem milhares de "emissários" em todos os Continentes. Por exemplo, de todos os países na Europa, Portugal é o único com mais de 500 judeus, sem um emissário Chabad. (Por várias razões que não me compete discutir). Porém, enquanto os "emissários" Chabad são incumbidos de uma missão para durar uma vida inteira, ou pelo menos bastantes anos, os "emissários" da organização onde estudo têm uma missão temporária, normalmente de 2 a 3 anos.


O tradicional Kinus, a cerimónia anual de reunião dos "emissários" Chabad.
Frente ao famoso 770, Crown Heights, Nova Iorque, 2009

A organização que ministra este curso está dentro da linha ortodoxa moderna, sionista, o Instituto Amiel-Strauss. É um curso de dois anos, durante o qual, o casal (com a excepção de um aluno solteiro, todos os outros cerca de 20 elementos da turma são casados) é preparado para cumprir funções de liderança na comunidade judaica. Todas as terças-feiras, das 13:45 às 20:30 frequento as aulas do curso. As esposas têm 4 horas de aulas uma vez a cada 15 dias. Os desafios das comunidades judaicas – com os seus dilemas e casos bicudos – como resolvê-los à luz da necessidade com a moldura da Halachá, a Lei Judaica?

Um dos elementos centrais do curso e uma das partes que me foi mais fortemente recomendada, foi a formação na área da Retórica. Como dar uma palestra, aula na sinagoga de uma forma interessante? Que temas explorar e como? Como passar os temas difíceis de uma forma atrativa?

Frequentemente, recebemos a visita de atuais e ex-emissários nas comunidades do mundo inteiro que nos contam as suas experiências: as dificuldades que encontraram, os desafios que passaram, o que conseguiram fazer, o que desejariam ter feito. Tudo isto nos dá indicações como estarmos preparados para enfrentar o mundo judaico "lá fora", fora de Israel.

São realizados contactos com potenciais comunidades para envio dos alunos. Comunidades que estão interessadas em receber um rabino, um professor para a escola judaica, um animador do grupo de jovens, etc. De qualquer forma, as funções acabam por não ser tão fixas e o emissário que fora designado para ser professor da escola judaica poderá acabar por se tornar o rabino da comunidade. Obviamente, em qualquer caso, um rabino desempenha sempre funções de professor.

Ao longo da nossa trajetória judaica, tanto eu como a minha esposa fomos ajudados por "emissários". Eu, vindo de uma família e de um ambiente não-judaico em Portugal, no processo de conversão; ela, crescida numa família pouco religiosa no Brasil, no seu retorno à religiosidade judaica.

Numa altura em que o Povo Judeu se encontra numa situação delicada, ameaçado por níveis de assimilação e um desinteresse (ou pelo menos grande desconhecimento) das novas gerações pela sua herança espiritual e histórica, é uma enorme responsabilidade dar uma ajuda para travar este processo. É a nossa vez de contribuir para este grande esforço. As potencialidades são gigantescas. O terreno, apesar de difícil, é fértil.

A par do fenómeno gravíssimo da assimilação, existem cada vez mais judeus interessados na religiosidade (o que também acontece noutras religiões). Aquilo que chamamos teshuvá, ou "retorno". Jovens e adultos afastados descobrem uma identificação com as suas raízes judaicas. Em muitos casos, essas raízes foram cortadas por "casamentos mistos" dos seus pais ou avós e o "retorno" significa na verdade uma "conversão".

Hoje, como em muitas outras épocas da História, o Povo Judeu encontra-se numa encruzilhada. De um lado, as forças da assimilação que arrancam membros ao Povo Judeu. Do outro, a redescoberta das origens e da espiritualidade pelos "afastados". São fenómenos que se encontram em todas as comunidades no disperso mundo judaico e em todas as famílias judaicas do planeta. Na mesma família, acontece um dos filhos se casar com um não-judeu e o outro tornar-se religioso.

Ainda é cedo para saber par onde iremos depois de terminado o curso. Pela afinidade linguística, Portugal ou Brasil seriam os destinos mais "naturais". Espanha ou a América Latina são outras possibilidades ou, mais remotamente, até algum país de língua inglesa. Porém, admito que voltar a Lisboa na condição de "emissário" seria, no mínimo, estranhíssimo.

PS – É importante ressalvar que os "emissários" não são missionários, dedicando-se exclusivamente aos assuntos das comunidades judaicas. Não existe prática "missionária" no Judaísmo. Existe assistência aos que, eventualmente se desejem converter, mas não existe qualquer acção de propaganda do Judaísmo fora das esferas da comunidade judaica.

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Segunda-feira, 19 de Outubro de 2009

A geração dos 'Pardais'

Nesta última semana de intervalo nos estudos da yeshiva tive uma pequena mas interessante proposta de trabalho: ser guia de um grupo de jovens sul-americanos em visita a Gush Etzion, o bloco de colonatos a sul de Jerusalém e onde vivo há quase ano e meio. Fui substituir um brasileiro residente – tal como eu – em Alon Shevut e mais acostumado a estas andanças de guia turístico.

Nas vésperas, avisaram-me por e-mail que deveria falar da região de Gush Etzion, a sua situação política e estratégica, o modo de vida dos colonos, as diferenças entre os vários colonatos do "Bloco" e um pouco da história da região. Uma pesquisa noturna à pressa pela Internet, com as páginas da Wikipédia a encabeçarem as opções na busca de informação, deu-me alguns dados para completar aquilo que já sabia de cabeça. O episódio da "caravana dos 35" – que, nem por coincidência deu nome à minha rua, foi um dos pontos que mais destacaram que eu deveria falar.

Encontrei-me com o grupo às 11:45 junto ao alon ha'boded, o carvalho solitário que é o símbolo da zona. Tinham-me avisado que os jovens do grupo não eram religiosos. Bem, "não religiosos" seria uma definição algo branda para aquele bando. Membros da organização judaica de inspiração socialista, HaBonim Dror, os jovens eram na verdade mais do género "anti-religioso". De qualquer forma, sempre se mostraram respeitosos pela minha presença. A kippá grande, as longas peyot e os tzitzit à mostra não os assustaram. Eu também não me senti intimidado pelos grandes decotes e calções de verão das meninas e pelos penteados estranhos e os piercings dos rapazes. (Eu também já fui da "malta moderna". E até já usei um piercing! Vidas passadas.)

Depois da breve visita à histórica árvore, fomos para o kibbutz vizinho de Kfar Etzion, o mais antigo colonato da região, palco de um massacre exatamente no dia anterior à declaração de Independência de Israel. Era já hora de almoço e sentámo-nos à sombra de umas árvores num parque. Aí, tive a oportunidade de conversar com alguns dos outros guias, do Brasil e da Argentina.

Depois, dividimo-nos e metade do grupo foi visitar a yeshivá de Alon Shevut. Uma explicação – talvez demasiado longa – sobre alguns achados arqueológicos no jardim da yeshivá. Subimos até à ala das mulheres, com uma vista soberba do Beit Midrah, o lugar de estudos principal da yeshivá. Imagine-se aquela gente que nunca tinha entrado numa yeshivá – possivelmente muitos nem sequer entraram alguma vez numa sinagoga. Só nessa altura, os outros guias se lembraram que não tinham avisado as meninas para se vestirem de forma "composta", um pouco mais tapadas. Explicámos como é a vida na yeshivá e o modo de vida dos estudantes. Cinco minutos de explicação e voltámos aos autocarros.

Há que voltar daqui a pouco até "à base", onde metade do grupo tem outras atividades e nos espera para também fazerem este giro. Ainda temos alguns minutos para passar por Efrat, o maior colonato de Gush Etzion. Assim que chegámos à primeira rotunda de Efrat, o autocarro deu meia volta e voltou para trás. Não há mais tempo. Este meio-grupo não viu nada do local. Temos de mudar a estratégia para a próxima vez. Troquei de autocarro e tomei o microfone. Há que aproveitar os breves minutos da viagem entre os vários colonatos para ir falando.

Apesar de se identificarem como judeus – ainda que pelo talvez metade não o sejam de acordo com a lei judaica, filhos de pai judeu, mas não de mãe judia ou apenas netos de algum judeu – e imaginando que estão habituados a uma imagem de Israel muito desfocada pelos meios de comunicação social e pela ideologia de extrema-esquerda do Dror – a imagem do colono judeu fanático, sedento de sangue árabe, que come criancinhas palestinianas ao pequeno-almoço – tentei passar-lhes a ideia de que essa é uma ideia errada e que nem sequer todos os colonos são iguais. Que, tal como no resto do povo judeu no mundo inteiro, há judeus de todos os tipos e até seculares que habitam esta região.

Depois de 10 minutos de palestra, apercebi-me que o autocarro ainda não tinha saído do lugar. Ah, eu não tinha dado a ordem de largada! Bem, não me imaginava o líder da comitiva, mas apenas o que provê alguma informação. Fomos para Alon Shevut com quase 15 minutos de atraso. À chegada ao parque de estacionamento da yeshivá, uma vista sobre o enorme colonato de Beitar Illit, uma cidade habitada exclusivamente por judeus ultra-ortodoxos. Ao subirmos as escadas para a yeshiva, avisto o Rabino Aharon Lichstenstein, o director da yeshiva. "Aquele velhinho ali à frente é, apenas, um dos rabinos mais famosos do mundo", informo. Noto olhares impressionados entre os jovens. Não devem ter visto muitas vezes um rabino, ao vivo.

No andar de cima do Beit Midrash deixo-os fazer perguntas. "Porque está um aluno a dormir?" Explico como é cansativo estudar Torá o dia inteiro. "Aqui não estudam mulheres?" Falo da midrashá do kibbutz vizinho de Migdal Oz, com uma versão feminina da yeshivá de Alon Shevut, onde as mulheres estudam a Torá e outras fontes judaicas a fundo, a um nível raro a nível mundial e num ambiente judaico ortodoxo. Aproveito para explicar a evolução da perspetiva judaica em relação às mulheres e os avanços da Halachá (Lei Judaica) com a ajuda da ciência. Aponto o jovem no Beit Midrash que usa um computador e os dois jovens que estudam juntos por um volume da Guemará. As duas faces do estudo da Torá.

Ainda há tempo de ir a Efrat. Ali, temos 10 minutos até ao regresso. Uma visita ao belo miradouro ladeado de buganvílias e pinheiros. Observam o vale onde passa a estrada para Jerusalém e Elazar, o pequeno colonato do outro lado do vale. Mostro-lhes a tranquilidade da vida em Efrat. "E os Territórios Palestinianos, onde são?" Explico que, de acordo com a comunidade internacional, ali já são os "Territórios".

Antes de regressarmos, peço perguntas, mesmo as difíceis. Um rapaz pergunta: "Recebes alguma ajuda do governo para viver aqui?". E uma menina observa: "Isto é tudo muito lindo e tranquilo mas, e do outro lado da cerca, como vivem os Palestinianos?" A guia não me deixa responder ali. Temos de voltar para o autocarro. As respostas têm de ficar para a curta viagem de regresso. Explico que não tenho qualquer ajuda especial para viver ali. É certo que as casas são mais baratas naquela região do que numa qualquer cidade do país, mas apenas por uma questão das leis de mercado. E com a falta de casas os preços têm subido bastante. Ajudas? Eu pago 200 shekels – cerca de 40 euros – por mês, apenas para a empresa de segurança privada do colonato onde vivo.

A cerca... Achei bem explicar a "grande cerca", o Muro. É ruim, é feio, é injusto, mas é necessário. O facto de podermos viajar hoje de autocarro em Israel sem grandes receios, devemo-lo ao malfadado muro. Comparo com outro muro, igualmente caro e feio, mas bem menos polémico, e que ninguém condena: o muro construído com dinheiro da União Europeia em redor de Melilla, um enclave espanhol em Marrocos, para impedir a onda de imigrantes africanos de chegar à Europa. Se as intenções dos Palestinianos em relação a Israel fossem as daqueles imigrantes que apenas querem trabalhar, será que precisávamos do "nosso" muro?

Sei que não vai ser com alguns minutos de conversa que eles serão conquistados para apoiarem Israel. Pelo menos, espero que entendam um pouco melhor a posição das pessoas que vivem aqui. E que os tenha ajudado a destruir alguns estereótipos.

Nota: "Pardal" é a outra tradução possível de Dror, o nome pelo qual é conhecido do movimento a que pertenciam os jovens, HaBonim Dror, os "Construtores da Liberdade".

publicado por Boaz às 23:11
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Domingo, 16 de Agosto de 2009

Chegou a vez do filho do chefe

Há poucas semanas, Yair, de 18 anos, o filho mais velho do Primeiro-ministro israelita Benyamin Netanyahu foi incorporado na Tzavá, o Exercito de Israel. Como todos os israelitas, também o filho do chefe de governo são obrigados a começar o serviço militar aos 18 anos. Os homens servem por três anos; as mulheres – sim, elas também – por dois anos. Tirando o facto do jovem Yair ser o único soldado do exército israelita com um guarda-costas, em tudo o resto ele será igual aos seus colegas de pelotão. No início terá de ultrapassar três semanas de treino militar básico. Como em todos os exércitos, começará de "soldado raso". A partir daí, poderá escolher o ramo das forças armadas que deseja integrar, de acordo com a classificação que adquiriu na altura da inspecção militar.


Soldado no porto de vigia no telhado da yeshiva de Hevron, Outubro de 2006.

A experiência militar é parte fundamental da vida em Israel e fonte de prestígio. As altas patentes militares usam as suas medalhas como credenciais para ascender na carreira política. Muitos políticos adquiriram fama no campo militar: Yitzhak Rabin tomou parte na conquista de Jerusalém na Guerra dos Seis Dias, Ariel Sharon liderou as tropas no Sinai na mesma guerra, Ehud Barak participou na operação antiterrorista de Entebbe, e o próprio Netanyahu foi membro de uma unidade de elite.

Ao contrário de Portugal, onde há já alguns anos a tropa é opcional, em Israel, poucos escapam à incorporação. À partida, todos os israelitas judeus são obrigados a cumprir o serviço militar. Dos não-judeus, apenas os Drusos e os Beduínos têm a mesma obrigação. Os Árabes israelitas – os Drusos e os Beduínos não são árabes – estão isentos de servir no Exército. No entanto alguns alistam-se de forma voluntária.

As mulheres cumprem um serviço militar mais curto que os homens e não integram unidades de combate, mas já podem ser piloto de aviões. A discussão mantém-se sobre o papel das mulheres na hierarquia e na realidade militar em Israel. Há anos uma jovem que tinha ganho o concurso de Miss Europa foi alistada como soldado. Obviamente foi notícia. Como comentou na altura o correspondente da SIC na sua reportagem: "Israel é o país onde a Miss Europa vai à tropa".

Apesar de obrigadas à incorporação, as mulheres podem optar por fazer aquilo a que se chama de "serviço nacional". A maioria das jovens judias religiosas escolhe esta opção, substituindo a tropa regular pela realização de trabalhos voluntários nas mais diversas áreas. Da assistência em hospitais, escolas ou lares de idosos até guias turísticos, trabalhos de arqueologia e proteção ambiental ou mesmo secretária dos serviços secretos, na maioria dos casos as jovens elegem funções relacionadas com a sua futura profissão. O “serviço nacional” é uma oportunidade preciosa de formação profissional e de pesquisa de mercado de trabalho.

Uma realidade recente são os refuseniks. Uns são “objectores de consciência”, os que por razões ideológicas são contra o uso de armas. Outros, mais problemáticos, são soldados que apesar de pertencerem ao exército, se recusam a cumprir ordens específicas como participar na evacuação de colonos (como aconteceu em Gaza), ou no extremo oposto, recusam-se a servir nos chamados Territórios Palestinianos.

Desde a fundação do Estado de Israel, os haredim ou judeus ultra-ortodoxos estão também isentos de ir à tropa, desde que estudem numa yeshiva. Porém, na última década foi fundada uma nova unidade de elite do exército, o Nahal Haredi, composta exclusivamente por soldados religiosos. Tirando a inexistência de mulheres nas suas bases e um maior tempo para rezar e estudar Torá, esta unidade segue as mesmas exigências do exército regular. Por ajudar a integrar os jovens na vida ativa pós-tropa, o Nahal Haredi passou a ser uma opção aceite para jovens de famílias ultra-ortodoxas normalmente hostis à entrada no serviço militar.

Para os judeus religiosos que não são ultra-ortodoxos, é também possível conciliar a experiência militar e os estudos judaicos, através do programa yeshivat hesder. Os jovens que escolhem este modo, estudam dois anos numa yeshiva, fazem pelo menos 18 meses de tropa e voltam mais um ano para a yeshiva. Algumas yeshivot têm já no seu currículo classes de preparação dos seus alunos para o exército, ensinando em especial os desafios de cumprir Shabbat durante a tropa.

Outra das particularidades de ser soldado em Israel é que, após a conclusão do longo serviço militar, todos os homens são considerados na reserva. Em Portugal, nos tempos idos do serviço militar obrigatório, "ficar na reserva" praticamente significava "livrar-se da tropa". Pelo contrário, em Israel a "reserva" obriga à prestação de um período de serviço militar extra, chamado miluim, que pode chegar a um mês por ano. Isto, até aos 40 anos. Num país com uma situação de segurança tão delicada "fazer miluim" é a oportunidade de melhorar o treino e atualizar as capacidades dos soldados após o final da tropa.

Existe o costume que os jovens recém saídos da Tzavá façam uma longa viagem pelo Mundo no ano seguinte ao final da tropa. Os destinos favoritos são o Oriente, com as praias de Goa e as trilhas de montanha do Nepal e de Caxemira, a Tailândia e o Cambodja pejadas de mochileiros israelitas. A América Latina, com o Brasil, a Patagónia, o Peru e a Colômbia são destinos cada vez mais populares.

Imigrado para Israel aos 30 anos, fiquei automaticamente isento de cumprir o serviço militar. Com essa idade, se me alistasse com voluntário, teria de fazer uns 6 meses de tropa. Tenho de confessar que, por um lado, me arrependi de não o ter feito. Além de ser uma experiência importante em termos de integração no país, um reconhecimento da contribuição dos militares para a existência de Israel, ainda me ajudaria imenso a desenvolver o meu hebraico.

Porém, tenho de recordar-me que, em 26 de Junho de 2007, imediatamente antes de tomar o autocarro na Batalha rumo ao aeroporto, para viajar como imigrante para Israel, na hora da despedida prometi à minha mãe que não iria à tropa. Cumpri a minha promessa.

publicado por Boaz às 01:19
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Sexta-feira, 24 de Julho de 2009

Crónicas da crise I: Colonização embargada

Os colonatos judaicos ainda são uma opção mais económica em relação ao crescente preço das casas nas principais cidades de Israel. Na região de Jerusalém, as opções são Gush Etzion, Maale Adumim ou Beitar e outras dezenas de colonatos mais pequenos. Porém, até aí os preços das casas têm aumentado. Por exemplo Beitar Illit, um gigantesco colonato de população ultra-ortodoxa, tradicionalmente bem mais barato que Jerusalém, já começa a ser demasiado caro para as novas famílias. Muitos casais jovens apenas conseguem arrendar uma cave apertada, com a perspetiva de terem de viver aí com as suas famílias que crescem rapidamente.


Nuvens ao pôr-do-sol sobre o colonato de Efrat, 2006.

Numa época de recessão generalizada nos preços imobiliários, o aumento dos valores das casas nos arredores de Jerusalém deve-se em grande parte às crescentes pressões americanas de congelamento da construção nos colonatos. Os colonatos dos arredores, assim como o recente bairro de Har Homa no sudeste de Jerusalém, eram as opções ideais para quem procurava casas espaçosas e baratas.

Todavia, a gravidade da crise nos EUA que fez aumentar em 15% a imigração de judeus americanos para Israel e a chegada em massa de imigrantes franceses – por via da vaga de anti-semitismo que tem assolado a França na última década –, ambos com maior poder de compra que o israelita médio, fizeram agravar os preços. As leis de mercado são claras: com pouca oferta e muita procura, o resultado foi o disparo do preço das casas em toda a região de Jerusalém.

O ritmo da construção nos colonatos abrandou após a eleição de Obama para a presidência americana, o qual não tem parado de pressionar Israel para congelar toda e qualquer colonização dos territórios disputados com os Palestinianos, incluindo o "crescimento natural da população". Ou seja, os filhos de colonos que se casem, não poderão viver junto aos pais, porque qualquer nova construção – na mente de Obama e da nova administração americana – é ilegal. No fundo, o que se pretende é abolir o mandamento "crescei e multiplicai-vos".

Ainda assim, desafiando as pressões, algumas ordens de novas construções foram emitidas pelo governo para os colonatos de Maale Adumim, Adam e Modi'in. A população local exige do governo que se preocupe mais com os seus cidadãos do que com as pressões oportunistas do "amigo americano".

publicado por Boaz às 14:55
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Segunda-feira, 15 de Junho de 2009

Palestra em mímica

Há dias, após o final da viagem à boleia desde Alon Shevut, que me deixou no bairro de Talpiyot – como acontece tantas vezes – continuei de autocarro a jornada até à Cidade Velha. Respeitando o pequeno letreiro numa das janelas do autocarro "Por favor continue para a parte de trás do veículo", sentei-me numa das últimas filas de bancos.

De manhã, a caminho da yeshiva, costumo escutar música no meu pequeno leitor de mp3. "Mais vale ouvir música do que disparates", podia ser uma boa razão para manter o canal auditivo coberto com os auscultadores. Ainda assim, gosto de observar as pessoas à minha volta, na boleia, no autocarro ou nas ruas...

À minha frente no autocarro – sentei-me naquela fileira especial em que as pessoas se sentam de frente para as outras – estava um senhor na casa dos 50 avançados. Vi que falava bastante. Não o ouvia, por manter a música do mp3 ligada. Durante os mais de 10 minutos da viagem até ao centro da cidade, o homem não se calou. Numa expressão de resmungo esbracejava e apontava para um lado e para o outro, reforçando a importância que dava à sua prédica.

Olhava-me e para os outros passageiros na vizinhança e continuava. Parecia tentar convencer a todos da sua razão. "Ainda bem que tenho a música a tocar...", pensei. Atrás dele, outro homem, também de auscultadores nos ouvidos, parecia achar piada ao que o velhote falava. A certa altura tirou um dos auscultadores do ouvido, deixando-o livre para escutar o orador. Este, deve ter percebido o interesse do seu vizinho de trás e repetidamente se virava para ele, a confirmar que o interesse no que ele falava se mantinha. O vizinho, rebolava os olhos de contentamento pela dissertação do velhote, disfarçava o riso e acenava "sim senhor" com a cabeça, dando gás ao falador para continuar.

De que se queixava? Dos Árabes e do Obama, do Beitar ou do Maccabi, da crise e dos preços no shuq, da mulher dele e dos vizinhos, das obras do metro em Jerusalém e dos atrasos nos autocarros. A mim, sem ouvir (e não lamento) o que o homem dizia, dava-me vontade de rir pela teatralidade da cena. Uma peça de mímica, ao vivo.

À chegada ao final da Rua Rei David, deixo o artista a falar sozinho. O bilhete de autocarro não inclui entretenimento a bordo e temo ter de, no final, pagar gorjeta ao artista. Sigo o resto do meu caminho a pé. Nas ruas pedonais do shopping Mamilla, no shuq árabe e na praça da Rova (o Bairro Judeu da Cidade Velha) também há animação.

No autocarro, no shuq ou na praça, sempre se encontra um velho cheio de histórias que insiste em partilhá-las para uma ocasional (real ou imaginária) audiência. Passo, olho, sorrio e continuo.

publicado por Boaz às 00:30
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Segunda-feira, 1 de Junho de 2009

Corrida aos bunkers


Entrada de um abrigo anti-aéreo na rua de uma cidade de Israel.

Esta semana, Israel organiza durante cinco dias um grande exercício de alerta e defesa da população civil. O maior da sua história, serão simulados cenários de ataques com mísseis do Hezbollah a partir do Líbano, rockets do Hamas a partir de Gaza, uma vaga de atentados, e cenários de guerra com a Síria e o Irão. Serão ensaiados procedimentos de segurança em caso de ataques com armas convencionais, mas também químicas e biológicas. Ou seja, o teatro do Apocalipse.

É o terceiro grande exercício do género desde o final da Segunda Guerra do Líbano em 2006, mas não é apenas um treino da população para a catástrofe. É também – talvez mais do que outra coisa – uma forma de mostrar aos inimigos de Israel, com o Irão e a Síria à cabeça, que o país está preparado para qualquer ocorrência. Amanhã, terça-feira, de manhã ocorrerá o ponto principal de toda a ação, quando as sirenes soarem em todo o país, um sinal alertando para a iminência dos ataques. A essa hora, toda a gente deve correr a refugiar-se nos abrigos, num tempo mínimo de três minutos.

Vêm aí os ayatollas!

Todas as casas e edifícios públicos em Israel são dotados de um abrigo de emergência, um verdadeiro bunker. Nos prédios de apartamentos, o piso mais abaixo é normalmente o escolhido. Porém, em Jerusalém, muitos prédios usam a enorme sala do abrigo como arrecadação da tralha de todos os moradores. A pequena probabilidade de um ataque com mísseis em Jerusalém – nenhum exército árabe quer arriscar-se a destruir a mesquita de Al-Aqsa, o terceiro local santo do Islão – deixa despreocupados os habitantes da cidade para este tipo de eventualidade.

No meu apartamento, situado na cave de uma casa maior, o quarto de casal é o bunker. Dotado de uma janela especial, com portas deslizantes de aço e um filtro na parede exterior, paredes maciças de betão armado – tão duras que foi um trabalhão conseguir furá-las para pendurar o espelho do quarto. Só a porta blindada é que não fecha, pelo simples facto de a ranhura da fechadura nunca ter sido aberta no arco da porta. Detalhe.

Este não é apenas o nosso bunker, mas também dos vizinhos de cima, os donos da casa. Amanhã, às 11 horas da manhã, a senhoria, junto com seu bebé de pouco mais de um mês, talvez apareça para "visitar" o abrigo. O marido deve fazer o exercício no trabalho e as filhas, na escola. Digo talvez porque nos últimos dias não recebemos nenhuma informação oficial do que fazer durante o exercício. Não temos televisão, por isso, apenas sabemos da informação que passou boca-em-boca ou escutámos ocasionalmente na rádio.

Apesar das repetitivas situações de emergência em Israel, não acredito que a maioria da população leve muito a sério este tipo de treino. Talvez até achem que tudo não passa de uma grande e cara palhaçada. Para Ahmadinejad ver. Tal como satirizou hoje um apresentador de rádio: "E se eu estiver na praia, como faço? Atiro-me ao mar e digo 'glu glu glu'?"

publicado por Boaz às 22:26
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Domingo, 31 de Maio de 2009

O autocarro para Moscovo

No meu regresso a casa, todas as tardes, apanho o autocarro no centro de Jerusalém. Depois de uns saudáveis 15 minutos de caminhada desde a Cidade Velha, apanho o 31 ou o 32 no chique bairro de Rehavia. As duas linhas levam a Gilo, um bairro recente no sul da capital, de onde eu pego boleia até casa.

A grande parte dos passageiros do 31 ou do 32 são russos. São fáceis de distinguir entre todos os passageiros. As redondas faces eslavas e a predominância do cabelo louro. As mulheres muito mais maquilhadas e de penteados mais elaborados do que a israelita comum. Os homens raramente vestindo o traje dos ortodoxos ou mesmo a kippá dos sionistas religiosos. Residem em Gilo, um dos bairros com maior população russa de Jerusalém.

Com a queda da União Soviética no início da década de 1990, milhares de ex-soviéticos imigraram para Israel. De acordo com a Lei do Retorno, a lei que regula a imigração para Israel, tem direito de ser cidadão de Israel quem seja judeu ou tenha pelo menos um avô judeu. As bases da Lei do Retorno são as Leis de Nuremberga, estabelecidas pelos Nazis, as quais consideravam como Judeu todo o que tivesse pelo menos um avô judeu. A lei que significava a morte no tempo da Alemanha Nazi, assegura um "porto de abrigo" agora em Israel.

Ao abrigo desta lei, mais de um milhão de pessoas chegaram a Israel. Desses, várias centenas de milhar não eram judeus de acordo com a lei judaica. Descobriu-se mais tarde que, na ânsia de deixar a miséria pós-colapso da União Soviética, muitos russos, sem qualquer relação com o Judaísmo, falsificaram documentos e aproveitaram para deixar o país. É a fama que muitos têm em Israel.

De início, o país recebeu os russos com simpatia. Sabendo da opressão que havia sido a vida judaica durante a União Soviética, a chegada dos russos foi bem vista. Porém, os problemas de integração começaram quando se constatou que muitos nem sequer eram verdadeiramente judeus. Além disso, mesmo os que eram realmente judeus tinham um estilo de vida extremamente secular e hábitos pouco comuns em Israel, como falarem russo e não hebreu, e comerem carne de porco. Mantinham em Israel a forma de vida dos seus tempos na URSS.

A outra desconfiança foi ao nível da absorção de tantos milhares de imigrantes num país tão pequeno. Dotados de um nível educacional acima da média israelita da década de 1990, chegaram milhares de médicos, cientistas, engenheiros, atletas e músicos. Uma piada dizia que "todo o russo tem um violino".

Se por um lado, as instituições locais foram fortalecidas pela qualidade da mão-de-obra russa, por outro surgiu a hostilidade dos habitantes locais que foram deixados para trás face à prioridade dada ao "russo". Para absorver a onda russa, surgiram dezenas de novas orquestras em todas as cidades de Israel. Ainda assim, muitos detentores de diplomas e de carreiras técnicas acabaram a trabalhar nas limpezas e na construção civil (o mesmo aconteceu com os russos e ucranianos em Portugal).

Apenas uma minoria dos russos em Israel é religiosa. Num país em crescente secularização, os russos são os cidadãos mais seculares, resultado de sete décadas sem contacto com a prática judaica (a maioria dos homens, mesmo os judeus de verdade, nem sequer era circuncidada quando chegaram a Israel). Ainda assim, a maior parte das pessoas que se convertem ao Judaísmo em Israel são de origem russa. Os que são religiosos, porém são membros bastante activos nas suas comunidades e contribuem para a formação religiosa dos outros russos, integrados em programas de keruv, projectos de aproximação dos jovens às suas raízes judaicas. Várias yeshivot abriram programas em língua russa, a pensar nos jovens filhos dos imigrantes que, chegados à adolescência, descobrem um interesse no Judaísmo.

Os russos são uma peça recente no variado mosaico social de Israel. Apesar dos problemas de integração, aos poucos encontraram o seu lugar. Para lá das suas lojas, canais de televisão e jornais em russo, e dos partidos políticos que defendem os seus direitos, adoptam aos poucos os costumes do país. E, tal como os marroquinos, os polacos ou os iemenitas, deixam também a sua marca na complexa identidade nacional.

publicado por Boaz às 16:00
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Sábado, 24 de Janeiro de 2009

Falafel com chop suey

Em 1977, um cargueiro israelita que navegava no Sudeste Asiático detectou um barco apinhado com 66 homens, mulheres e crianças. Os passageiros encontravam-se num estado miserável. Eram alguns entre as centenas de milhar de "boat people" ou "balseiros", que tentaram fugir do Vietname, nos anos que se seguiram ao final da Guerra do Vietname. Apesar dos repetidos e desesperados apelos de S.O.S., os refugiados, sem água ou comida, foram ignorados por outros barcos da Noruega, Japão, Alemanha Oriental e Panamá.

Os passageiros foram recolhidos pelo cargueiro israelita e levados para Israel. Uma pátria fundada por refugiados chegados da Europa após o Holocausto comoveu-se com a sua sorte, concedendo-lhes asilo político. Trinta anos passados, os descendentes destes e de outros refugiados vietnamitas acolhidos em Israel servem no exército de Israel e estão integrados na sociedade local. Este é apenas um dos episódios da pouco conhecida relação entre Israel e a Ásia.

Actualmente a maioria dos vietnamitas em Israel são imigrantes económicos, à procura de trabalho. E são uma minoria entre os milhares de tailandeses, chineses e indianos. Trabalham nas obras (hoje, muitas empresas preferem os asiáticos aos árabes), nas plantações de bananas e nos campos agrícolas dos kibbutzim. Das Filipinas e do Sri Lanka chegam sobretudo mulheres para trabalhar como enfermeiras e auxiliares de saúde domiciliárias – conhecidas exactamente como filipinit – ou nos turnos da noite dos hospitais.


Bnei Menashe em Israel | Centro Chabad de Phuket, Tailândia.
Família de ex-refugiados vietnamitas na Galileia | Turistas israelitas numa praia de Goa

Do Nordeste da Índia chegaram alguns milhares de membros do grupo Bnei Menashe, que reclamam ser descendentes dos judeus da antiga tribo de Menashe. Durante séculos, apesar de separados do Judaísmo oficial, mantiveram tradições de forte cariz judaico. De aparência totalmente asiática, prepararam-se durante anos para a sua integração oficial no povo judeu. O Rabinato-Chefe de Jerusalém reconheceu as suas reclamações e muitos foram aprovados para a conversão e a imigração para Israel. São famosos pela sua bravura e muitos integraram as unidades de elite do exército de Israel.

Mas não são apenas os asiáticos que buscam Israel. Os israelitas são apaixonados pelo Oriente. Milhares de jovens israelitas, após terminarem os anos de serviço militar, embarcam em viagens de aventura pelo Mundo. Uns buscam a América Latina, da Costa Rica à Patagónia. A maioria porém, busca a Ásia. As praias de Goa e da Tailândia, os trilhos de montanha no Nepal e Caxemira ou as ruínas do Cambodja, são locais de predilecção para os mochileiros israelitas. São tantos e de tal importância turística, que em muitos locais os menus dos restaurantes são escritos também em hebraico.

Para melhorar a imagem persistente do turista israelita como barulhento e pouco educado, alguns mochileiros dedicam-se também a actividades de natureza humanitária. Por exemplo, jovens israelitas dispensam vários meses da sua viagem numa aldeia do Cambodja ensinando inglês às crianças e participando na construção de poços e de um centro médico.

Na afluência israelita à Ásia, muitos não procuram somente a natureza e os prazeres a baixo custo, mas também as experiências espirituais. O Budismo e o exoterismo oriental encontram grande atracção para muitos jovens. Isto desencadeou um novo fenómeno: o florescimento de iniciativas para atrair de volta aqueles milhares de jovens às suas raízes judaicas. Na vanguarda desse fenómeno, o movimento Chabad abriu dezenas de Centros Chabad pela região: Tailândia, Cambodja, Nepal, Laos, Vietname e Índia (o centro Chabad de Bombaim foi um dos alvos da recente vaga de atentados na cidade). Aí os jovens podem encontrar comida casher, aulas de Torá, acolhimento durante o Shabbat e as festas judaicas, hospitalidade judaica tão longe de Israel.

De regresso a Israel, muitos continuam a sua vida normal. Outros, porém, trazem a influência e os costumes asiáticos na mochila, junto com os postais e os souvenirs. Outros ainda, trazem de volta a espiritualidade judaica que encontraram a milhares de quilómetros de distância, e que em muitos casos não haviam recebido nas suas casas e famílias judaicas.

publicado por Boaz às 21:46
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Terça-feira, 16 de Setembro de 2008

Jogo da paciência

Depois de cinco meses a morar em Alon Shevut, estamos a pensar em mudar-nos para Jerusalém. Até há um mês e meio, tinha garantido diariamente, uma boleia directa para a Cidade Velha, através de um rabino brasileiro, meu vizinho, que ensina na Yeshivat Hakotel. Com o começo do novo ano de estudos, ele conseguiu uma vaga no edifício do kollel, mesmo ao lado da yeshiva. E eu perdi a minha óptima boleia.

O facto de não termos carro e, tanto eu como a minha esposa termos as nossas ocupações diárias na capital (eu na yeshiva, ela num centro de crianças deficientes), torna-nos dependentes da incerteza do tremping, a boleia. Isto porque, apesar da curta distância que nos separa da Cidade Santa – cerca de 20 quilómetros – a ligação por transporte público não é nada cómoda. O autocarro entra nos vários colonatos até chegar a Jerusalém. A viagem de 20 quilómetros requer quase uma hora. Assim, os autocarros não são opção para a viagem matinal.


Autocarro na Avenida King George, Jerusalém.

É comum a prática dos moradores dos yishuvim (colonatos) oferecerem boleia, tanto para Jerusalém, como entre os vários povoados da região do Gush Etzion. Porém, Alon Shevut não é particularmente famoso pela disponibilidade dos seus moradores em oferecerem um lugar vago no carro. Assim, todas as manhãs, sujeitamo-nos a esperar bastante tempo por uma oferta.

Na maioria dos casos, os poucos motoristas que param nas duas paragens de autocarro – que servem de ponto de aglomeração dos trampistas (os que esperam a boleia) – não vão para a Cidade Velha, ou as proximidades. Shopping Malcha, os vários hospitais da cidade e a zona industrial de Har Hotzvim são a maioria das ofertas. Com as obras do metro de superfície a esburacarem metade de Jerusalém, na chegada à cidade, ainda é preciso tomar um autocarro para a Cidade Velha. As obras atrasam o, já de si penoso, trânsito da capital.

Na melhor das hipóteses, a zona comercial de Talpiot, no Sul da cidade, à a opção. Apeando-me da boleia algures na Estrada de Hebron, a principal via de ligação entre o sul e o centro da cidade, aí apanho um autocarro até ao centro da cidade (não há nenhum para a Cidade Velha). Daí, ainda me resta uma caminhada de 15 minutos até à yeshivá. Um bom exercício matinal, para ajudar a desanuviar o stress para conseguir – todos os dias – chegar ao meu destino.

publicado por Boaz às 22:10
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Terça-feira, 5 de Agosto de 2008

Flashes da terrinha

O vento do fim da tarde no arvoredo. O nevoeiro matinal e a neve duas vezes por ano. As estradas sem trânsito no Shabbat. Os garotos que correm, sem preocupações, pelas ruas. Os parques infantis em cada quarteirão, para entreter as numerosas crianças. Os jardins fartos do bairro antigo. Os jardins ainda recentes do bairro novo.


O carvalho solitário que dá nome ao colonato. As famosas vinhas da região.
Um dos muitos parques infantis. A yeshivá Har Etzion.
A nova sinagoga askenazi. A única sinagoga sefardita.

A enorme yeshivá Har Etzion com os seus extensos jardins. Os peixes vermelhos nos lagos do jardim da yeshivá. Os edifícios baixos dos alojamentos dos alunos. Os prédios do kollel*, com apartamentos exíguos, rodeados de árvores e de caminhos cimentados. Os carrinhos de bebé, deixados à porta dos prédios, por falta de espaço em casa. Os choros dos bebés vindos dos apartamentos.

A "sinagoga velha" de 30 anos. As rezas da noite, em tom corrido, às 20, 21, 22 e 23 horas. As reuniões de Sábado à tarde dos grupos juvenis, no relvado ao lado da sinagoga. O salão de festas com a sinagoga dos judeus iemenitas nas traseiras. A mikve* antiga, agora só usada pelos homens. Um caminho ladeado de roseiras ameaçadoramente espinhosas. A nova rampa de acesso à sinagoga para cadeiras de rodas e carrinhos de bebé.

O posto dos correios com horários impossíveis. O corredor ao lado dos correios com centenas de caixinhas de correio. As caixas de correio todos os dias cheias de panfletos publicitários. O enorme contentor aberto para a reciclagem de cartão. A agência bancária, com um horário do género "Fechado 24 horas". O minimercado, chamado por alguns boutique. Os preços inflacionados (daí o apelido). A velhinha que vende flores na praça, durante a tarde. As mesas de venda de doces caseiros às sextas-feiras. O instituto que, misturando lei judaica e ciência, cria inventos "amigos do Shabbat".

Os gatos que trepam às árvores. Os gatos que vasculham os contentores do lixo. A matilha dos cães selvagens que uivam à noite. A ameaça da segurança do povoado de dar caça aos cães selvagens. O bicho misterioso – talvez um pássaro – que pipila de forma estranha, algumas noites, perto da minha janela. Cinco coelhos negros à solta pela rua, na noite de Shabbat. Duas meninas aflitas a correr atrás dos seus coelhos. O canto e o saltitar dos melros nos relvados.

Os hipopótamos de plástico no recreio do centro de crianças deficientes. O crepitar constante dos postes de electricidade. As actuações dos jovens nos feriados, no anfiteatro central. A enorme dupla sinagoga nova com os seus curvos telhados azuis. O – aparentemente – recatado acesso das mulheres ao mikve novo, logo ao lado da sinagoga. O enorme salão de festas, por baixo das sinagogas. As pessoas que esperam uma boleia na paragem do autocarro. Os carros que teimam em não parar para oferecer boleia. A espera ao sol, pela boleia que não chega. A senhora de chapéu de abas largas que todas as manhãs, nas suas caminhadas, nos saúda com um forte "Boker tov!" (Bom dia).

As crianças que aparecem na sinagoga, para receber um chupa-chupa, na manhã de Shabbat. A chuva de rebuçados sobre o jovem de 13 anos, no dia do seu bar mitzva*. A pressa das crianças para apanhar o maior número de doces. O sono que ataca metade da assistência da sinagoga antes da reza nocturna de Shabbat. A voz nasalada do leitor da Torá da sinagoga sefardita. As longas e rimadas bênçãos do oficiante da sinagoga para quem sobe à Torá.

As batidas da música quase em estilo rave e os gritos estridentes das raparigas nas agitadas festas de casamento da aldeia árabe vizinha, numa noite de Shabbat. A videira que sobe o estendal da roupa. Os cachos de uvas maduros que sempre me esqueço de colher. As árvores "de todos" neste ano sabático da terra*. Os anúncios de permissão para colher as frutas, nas árvores que, no próximo ano, voltarão a ter dono.

O pedregoso vale até à colónia de Elazar, cultivado de vinhas e oliveiras e com figueiras abandonadas. Os passeios de bicicleta que eu sonho fazer no vale (quando arranjar a dita bicicleta). Os muros de pedra que separam campos abandonados. O jipe da segurança que percorre dia e noite, as ruas do povoado. Os jovens que fazem a vigilância nos portões de acesso ao lugar, olhando de soslaio para os condutores que entram, antes de abrir a cancela.

Os judeus peruanos de origem inca e os judeus indianos Bnei Menashe, residentes no bairro de caravanas. A longa e sinuosa estrada que liga o povoado ao bairro de caravanas. Os planos sempre adiados de transformar a colina das caravanas num bairro a sério.

Kollel – instituição de estudo religioso ligada normalmente a uma yeshiva, onde estudam a tempo integral, homens casados, recebendo um salário e/ou alojamento.
Mikve – tanque para o banho de imersão ritual, usado principalmente pelas mulheres, para a purificação no final do seu período menstrual. É costume de alguns homens banharem-se no mikve antes de Shabbat, ou todos os dias, antes das orações matinais.
Bar mitzva – literalmente "filho do mandamento". Cerimónia de passagem para os rapazes de 13 anos, que marca a sua entrada na idade adulta em termos de cumprimento dos preceitos religiosos. Consiste na leitura pública do rolo da Torá, na sinagoga.
Ano sabático da terra - ou Shemitá, o sétimo ano do ciclo agrícola de sete anos, ordenado pela Torah para ser de descanso das actividades agrícolas na Terra de Israel. Nesse ano é proibido semear, colher, podar ou lavrar. Apenas algumas actividades de manutenção dos campos são permitidas. Qualquer fruto nascido neste ano é considerado "sem dono" e poderá ser colhido por qualquer pessoa.

publicado por Boaz às 22:51
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