Recentemente, e com vista à próxima Cimeira do G8 (o grupo dos oito países mais industrializados do Mundo) que se vai realizar na Escócia, Tony Blair lançou o desafio do perdão da dívida externa de alguns dos países mais pobres. Nas negociações que se seguiram, ainda antes da cimeira, foi alcançado um acordo com vista ao perdão de mais de 40 mil milhões de euros a 18 das nações mais miseráveis do planeta, 15 das quais africanas.
A medida é meritória, ainda mais quando na lista constam somente países que se têm esforçado por seguir um rumo de reformas democráticas e maior respeito pelos direitos humanos, como sejam os casos de Moçambique, Mali ou Burkina Faso. Desta forma se mostra um "cartão vermelho" a outros Estados como Angola, Haiti ou Zimbabué que, apesar de igualmente falidos, continuam a ser bastiões de ditaduras e corrupção em larga escala. E sem vontade de mudança.
Até aqui tudo bem. O problema é que nestas coisas de diplomacia e economia basta levantar uma pedrinha para se descobrir algo sórdido. Poucos dias após o muito celebrado anúncio do perdão da dívida por iniciativa do governo britânico, veio a público a notícia que, exactamente o Reino Unido tinha, no último ano, vendido mais de 1500 milhões de euros em armamento a alguns países do Terceiro Mundo, alguns deles com graves registos de violações dos direitos humanos. Por isto, os caridosos Tony Blair e Gordon Brown não merecem uma coroa de louros.

Guterres pelos refugiados; Diana contra as minas terrestres; Bono pelo perdão da dívida.
Em geral fico desconfiado quando vejo gente famosa em causas de solidariedade ou de boas intenções. Quase sempre há qualquer coisa na pintura que não bate certo. As causas são louváveis, os modos como são apresentadas é que soam a falso. Alguns exemplos.
Bono, na sua cruzada contra a pobreza, tem sido uma das vozes mais persistentes na luta pelo perdão da dívida externa dos países mais pobres, um problema que constitui um importante entrave ao desenvolvimento. Recentemente, o líder dos U2 reuniu-se com Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia para discutir o assunto. Já durante a presente Vertigo Tour, a banda irlandesa tem feito apelos pela luta contra a pobreza. São bonitos os apelos solidários, mas se eu pudesse fazer uma pergunta a Bono neste momento - uma única - seria: quanto é que os U2 vão gastar em quartos de hotel e limusinas durante a digressão?
É este tipo de atitude que de certo modo me repugna. Como me repugnou ver, há anos, a princesa Diana a abraçar crianças angolanas estropiadas pelas minas terrestres, imaginando que o só seu orçamento em vestuário para a viagem a Angola seria superior ao orçamento anual do centro de apoio aos mutilados de guerra que ela visitou com tanta pompa.
E o nosso mui amado António Guterres, recém escolhido Alto-comissário da ONU para os Refugiados, na sua próxima visita ao Uganda, onde se vai inteirar da situação dos refugiados sudaneses, não deixará de passar algumas noites nalgum hotel de luxo em Kampala, nas aprazíveis margens do Lago Vitória, bem longe do fedor e das moscas dos campos de refugiados no norte do país, onde só deverá ir por algumas horas.
Com isto não quero dizer que quem se (compro)mete com causas solidárias, tenha de passar pelos mesmos tormentos que as pessoas a quem pretende ajudar. É óbvio que não desejava que a princesa Diana fosse para Angola andrajosa ou lá pisasse uma mina. Ou que Guterres tivesse de sofrer malária ou ter a sua família chacinada por soldados sudaneses, para saber o que sofreram e sofrem os refugiados no norte do Uganda.
Só que, como se costuma dizer, à mulher de César não basta ser séria, é preciso parecer. É que assim, isto parece tão honesto como as dondocas da Lapa, que juntam 5 mil euros num cházinho de caridade pelos pob'zinhos, para o qual cada uma gastou 10 mil no fato de gala Chanel, nos sapatos Prada e na malinha Louis Vuitton.
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