Recentemente, o PM britânico Tony Blair propôs a adopção de um compromisso sério e empenhado para combater a pobreza em África. O plano não é novo e prevê o cumprimento de compromissos antigos, feitos pela maioria dos países desenvolvidos, que consistem na atribuição de um valor equivalente a menos de 1% do PIB em ajudas ao desenvolvimento em África. Embora o valor de 1% pareça pequeno, são poucos os casos em que a promessa é cumprida: somente alguns países escandinavos. Sabe-se que o valor, já de si pequeno, da ajuda ao desenvolvimento do Terceiro Mundo tem decrescido na maioria dos países.
Não me lembro de ter ouvido Blair falar do fim dos subsídios da UE aos agricultores europeus, incluindo aos britânicos. Não sou daqueles ocidentais, normalmente de esquerda, que, talvez por sentimentos de culpa não resolvidos, acham que TUDO o que acontece de mal em África é causado pelo Ocidente. No entanto, é inegável que a existência de subsídios agrícolas na Europa (e EUA) é um dos principais entraves ao desenvolvimento dos países pobres.
Os tomates do Gana
Este é um exemplo verídico. No Gana existe uma fábrica de transformação de tomate para produção de conservas. A matéria-prima era normalmente adquirida a centenas de produtores locais, que assim tinham um rendimento garantido que lhes permitia manter as suas famílias.
A certa altura, embora existindo matéria-prima local abundante e barata, a fábrica começou a importar tomate. De Itália. A razão é simples. Os produtores de tomate italianos recebiam da UE grandes subsídios à produção, o que lhes permitia venderem o tomate a um preço ainda mais baixo do que o produzido no Gana. Uma evidente distorção das regras da concorrência, com efeitos desastrosos. No Gana, não em Itália, obviamente. Centenas de famílias ganesas perdessem uma importante fonte de sustento.
É bem possível que alguns deles tenham entretanto decidido imigrar para a Europa. Inclusive para Itália.
A Zâmbia e o milho transgénico
Um outro exemplo real do cinismo europeu aconteceu à cerca de dois anos. A Zâmbia atravessava um período de grave seca e escassez alimentar. (Nós temos seca, mas é evidente que não vai faltar comida nos supermercados, nem que ela tenha de vir de Vanuatu.)
O governo zambiano decidiu autorizar a importação de sementes de milho transgénico, de uma variedade mais resistente à seca - que acontece ciclicamente naquela região. Logo da Europa se eriçaram cabelos. Os barrigudos de Bruxelas apontaram as baterias à Zâmbia e, com medo de uma eventual contaminação genética, ameaçaram proibir a importação de todos os seus produtos agrícolas, caso a medida fosse adiante.
Para evitar perder os escassos recursos provenientes das exportações, o governo de Lusaka voltou atrás na decisão. Os zambianos continuaram com fome até o governo ter encontrado outra solução e os intelectuais-de-barriga-cheia de Bruxelas puderam continuar a ir ao supermercado e comprar o que lhes apetecesse, sem receio de estarem a levar para casa um molho de grelos contaminado por transgénicos.
Depois ainda há os defensores do perdão da dívida externa dos países subdesenvolvidos (ou em desenvolvimento como fica bem dizer). Mas isso é outra história...
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