Numa viagem de autocarro em Jerusalém, reparei recentemente num grupo de africanos no bairro de Talpiyot, uma das zonas comerciais e industriais da capital israelita. Pelas feições, a cara redonda e o tom muito escuro da pele, percebi que não eram etíopes, o principal grupo africano na população israelita, bem mais claros e de cara mais alongada. Provavelmente, eram sudaneses do Darfur. Tristes, sentados junto à entrada de um edifício comercial, suportando o frio do Outono de Jerusalém.
Desde o início do ano, Israel viu-se a braços com uma onda de refugiados provenientes de África, mais de 3000, a maioria deles originários de Darfur. Atravessaram o deserto sudanês – sabe-se lá os perigos porque passaram, os horrores que viram na sua terra –, cruzaram todo o Egipto e chegaram a Israel. Destino estranho, o que escolheram, dado que eles são muçulmanos. Com milhões de quilómetros quadrados de terras muçulmanas, escolheram o minúsculo Israel - mais pequeno que o Alentejo - como porto de abrigo.

Caricatura do jornal Ventura County Star
Face a pressões internacionais, em especial de várias organizações de direitos humanos judaicas americanas, que se destacam por serem as mais activas pela causa de Darfur (como o Museu do Holocausto de Washington), o governo israelita autorizou a permanência daqueles que conseguiram entrar no país.
Depois de centenas de boat-people vietnamitas, que em 1977 foram acolhidos em Israel, desta vez foram refugiados de Darfur, que receberam asilo político. É uma situação excepcional. São muito poucos os não-judeus que conseguem receber esse acolhimento em Israel. E, ainda por cima, estes refugiados cidadãos de um país hostil e que não reconhece o Estado Hebraico. A lei israelita nega mesmo o asilo a qualquer cidadão de um “estado inimigo”, como é o caso do Sudão.
O dilema de Israel era entre permitir a sua estadia, criando um precedente que poderia gerar um ainda maior fluxo de refugiados em direcção ao país ou, expulsá-los para o Egipto, o país através do qual haviam chegado a Israel. E sabendo que no Egipto muitos refugiados sudaneses foram maltratados e mortos e outros recambiados para o Sudão, onde o mais provável era serem fuzilados à chegada, como centenas de milhar dos seus conterrâneos de Darfur.
O mundo continua a ignorar o drama de Darfur. As Nações Unidas chamam Israel de sociedade de apartheid, de regime brutal e racista. Libelos repetidos também por deputados do Parlamento Europeu, em especial da extrema-esquerda.
Os darfurianos chegados e acolhidos em Israel, de cujo Estado e de várias ONGs recebem assistência, incluindo escola para as crianças, são uma bofetada na cara dos cínicos que da Europa apontam o dedo a Israel. (Nem falo dos patifes da Liga Árabe que apoiam o governo de Cartum e vêm na questão de Darfur um assunto interno sudanês, ou da apatia criminosa das Nações Unidas).
Quantos sudaneses recebeu – ou se prestou a receber – a União Europeia?
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