Num golpe típico de cowboiadas e lutas de mafiosos, o presidente da Guiné-Bissau foi assassinado. Nada de extraordinário, num país que desde a independência tem vivido no caos e na miséria, na opressão de uma elite de tiranos e de gente despreocupada com a sorte dos seus concidadãos comuns. Sem ordem nem sistema capaz de a aplicar, a lei do mais forte impõe-se sempre que a ocasião o permite. Os militares, descontentes com a decapitação da chefia militar pelo mesmo Nino Vieira, vingaram-se matando-o a tiro.
Nino Vieira não deixará grandes saudades aos guineenses. Manda-chuva absoluto de um país miserável – cronicamente destacado entre os mais pobres do mundo – espremeu os poucos recursos da nação em proveito próprio. Nada de novo na bela colecção de ditadores e assassinos que têm dirigido os destinos da maioria dos estados africanos. Os ventos da mudança, que já sopram noutras latitudes do Continente Negro, ainda não chegaram com força positiva a Bissau.
Depois da independência, em 1974, conseguida depois da Guerra Colonial, a qual atingiu teve alguns dos seus episódios mais violentos exactamente no terreno da Guiné, o país foi controlado por um conselho revolucionário até 1984. As primeiras eleições multi-partidárias foram realizadas em 1994, mas uma sublevação militar em 1998 afastou à força o presidente – então o mesmo Nino Vieira, assassinado esta semana. O episódio desencadeou a Guerra Civil da Guiné-Bissau.
Em 2000, numas eleições cheias de esperanças para o comum guineense, desgraçado e cansado de guerra, foi eleito Kumba Ialá. Famoso pelo seu barrete vermelho (uma espécie de Saci-Pererê com duas pernas, mas nada mais do que isso), o novo presidente foi tão incompetente como os seus antecessores. Também ele foi deposto por um golpe militar.
Nos meus tempos da faculdade, em Lisboa, uma colega guineense descrevia o país onde nascera com a desilusão de quem se recusa a aceitar como certo o desprezo pelo mérito e o imperativo da lei da selva. Contava que, para passar de classe na sua escola de Bissau – ainda que fosse um colégio privado, já que o sistema de educação pública não responde aos critérios mínimos – tinha de "ajudar" os professores. Favores em dinheiro e géneros eram a única garantia de progredir na escada da educação. Depois de terminada licenciatura, preferiu a precariedade da procura de emprego pós-universidade em Portugal do que o regresso às difíceis origens. Mesmo que um canudo de uma universidade europeia lhe poderia ter aberto algumas portas mais promissoras.
Em 1998, durante a Expo’98, em Lisboa, lembro-me de visitar o pavilhão da Guiné-Bissau. Um vídeo mostrava as belezas naturais e as potencialidades turísticas do pequeno país. Aí, tornava-se ainda mais evidente, quanto tudo o que de bom o país tem é desperdiçado pelos erros da elite que o governa.
A Guiné é o típico estado falhado africano. Os guineenses, presos nas malhas do analfabetismo, do autoritarismo tribal e político, de tradições bárbaras como a mutilação genital feminina, têm sido vítimas da sua impossibilidade de sair do ciclo de tragédias que tem sido a sua história pré e pós-colonial.
E como o resto do Mundo não deposita grandes recursos para ajudar um pequeno país de pouco mais de um milhão de habitantes, parece perpetuar-se "o estado das coisas". Uma fatalidade africana no seu melhor.
Piroga na praia de Bubaque, Ilhas Bijagós, Guiné-Bissau.
Quem conhece, diz que poderia ser o paraíso...
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